domingo, agosto 07, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIX - AGA(T)CHAR

Vai longe o tempo em que a ironia fina - não fora o lápis azul uma realidade! - se expressava nos jornais, revistas, rádio e televisão, quando não mesmo em obras de alto coturno, como o teatro dramático ou de revista... Lembro-me por exemplo de "Os Ridículos" cujo director era o José Viana. O Editorial era assinado por um tal C`HPYÃO. Este nome metia-me espécie e andei anos para desvendar o segredo. Vem aqui a confirmação do mito do famoso aforismo: «quem encontra sem procurar é porque já muito procurou sem encontrar». Foi mesmo assim: num dia em que viajava catapum, catapum, rio abaixo como dizia o velho Olho de Lata, esse mesmo que quando foi ao IPO encheu "três garrafos", de repente sai-me desvendado o mistério: afinal o C`HPYÃO mais não queria dizer do que caga pião : a letra H (agá) com o acento grave atrás (`H) alterava a tónica e em vez de se ler AGÀ, devia ler-se ÀGA. Dei um murro na parede do combóio que o meu comparsa da frente, que ia a rosnar, ficou a pensar que teria sido para o acordar do remanso!
Foi aí que li uma das mais inteligentes ironias (transcrevo de memóra) :" Diz um surdo-mudo para outro surdo-mudo : - 'oh pá! desculpa lá estar a gaguejar, mas tenho reumatismo no braço direito'.
Não queria ser repetitivo, mas não sei se já disse aqui no basa que nos tempos de há 40 anos atrás, segundo o velho Arnaldo das Finanças, tinha mais licenciados a aldeia dos xendros do que todo o concelho de Penamacor!

Vem isto a propósito da figura que hoje vos quero aqui trazer e que nunca se aga(t)chou, ou , como escreveria o editorialista de «Os Ridículos»: nunca se Hchou! : o senhor Professor Marcelo. Esta vedeta, casado com D. Alice, morava mesmo ao lado da Igreja. Mas nunca lá pôs os pés. Nem mesmo morto.
Anticlerical convicto rebatia quem invocasse o nome de Deus à sua frente. Comunista militante, com residência fixa, zurzia com toda a gana em ideias e práticas capitalistas, mais comedidamente no nosso meio, em tudo o que de algum modo pudesse conduzir ao endeusamento de Salazar, seu inimigo ideológico predilecto. Não eram muitos os que acompanhavam o seu raciocínio, nem eram muitos aqueles a quem ele dava alguns minutos de conversa. Isolado, mesmo quando passeava a estrada, ou vinha com D. Alice e todos sabiam da conversa, porque ela era surda quem nem uma bota da tropa, ou percorria sozinho, às vezes com Mné Chquim Carreiras, já aqui referenciado, ou o velho professor Landeiro, cuja próstata o traía e deixava visível o descontrole do esfincter.

Muitas peripécias do professor Marcelo podia aqui trazer-vos, que eu era uma das poucas pessoas com quem ele dizia que se podia "entabelar uma conversa de jeito". Trago-vos apenas uma:
No seu deambular do magistério, antes de ser dado como comunista confesso e de lhe ter sido aplicada a pena de residência fixa com apresentação semanal à G.N.R. de Penamacor, trabalhou um ano em Braga.
Não sendo, como já atrás se esclareceu, crente, isso não o impedia de visitar, por motivos puramente estéticos, os monumentos, museus e demais pontos de interesse das localidades e regiões por onde passava. Devo mesmo dizer que a sua cultura geral era, para a época, elevadíssima!
Bem, estando em Braga, não podia deixar de subir e visitar o BOM JESUS. E visitou. Ora aconteceu que no dia em que se decidiu, mais a sua Alice, a visitar o templo ex libris da Braccara Augusta, uma freira, vá-se lá saber porquê..., descia as escadas aos rebolões, devido a uma escorregadela, poucas escadas acima daquela onde Marcelo e esposa subiam. Tudo aos gritos, AGARRA; AGARRA...mas a freira passa por eles que nem se mexeram. Todos se viraram para ele com olhar acusador e inquisidor!
Sai-se então o professor Marcelo: " Eu pensava que era promessa que tivesse feito"!
Ficaram todos desarmados.
"Um homem nunca se agatcha, dizia, senão mostra os entrefolhos!"

XXXXXXIIIIIIIIIIIII GGGRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEEEEEE


(texto do changoto, publicado pelo karraio por razões de ordem técnica)

segunda-feira, agosto 01, 2011

É bem capaz

Férias 2011: à vista da baía de Sines, vira-se a Madi:
- olha pai! foi aqui em Sines que o pai do Nemo encontrou o Nemo, não foi?
Não tive coragem para desfazer a ilusão emprestada pela paronomia entre Sines e Sidney:
- é bem capaz...

sexta-feira, julho 22, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVIII - LAVARINTO

A vida, às vezes, é mesmo um lavarinto. Chegamos a um ponto que nem sabemos para onde nos virar. É mesmo um lavarinto.O velho Cartesius dizia que se nos perdêssemos numa floresta e não soubéssemos para onde nos dirigir para chegarmos a um local habitado, o melhor era decidirmo-nos por um rumo e, sem vacilar, seguir sempre em frente. Partia do princípio, paradigmático à época, de que o caminho mais curto entre dois pontos era a recta. De facto a geometria em vigor era a euclidiana e portanto tudo se passava no plano. E como tudo ocupa um lugar no espaço então para ir de um lugar a outro o melhor era sempre em frente e em linha recta. Se nos puséssemos às voltas mais ainda aumentávamos o lavarinto e não saíamos da floresta. Nem sempre assim é e, às vezes, melhor é contornarmos, darmos uma volta e, parecendo que é mais longe, ganhamos tempo e o longe torna-se perto...
Deixemos então o lavarinto das coordenadas cartesianas e os eixos da ordenadas e das abcissas e detenhamo-nos, sentadinhos num batorel, à sombra da nogueira do Chquim Pardalim, ali mesmo onde o velho Prim e o Marrafa engenheiravam forma de fanar uns tomatitos, à pála, ao velho Fatela, que, embora sempre de olho neles, acabava sempre por ver parte do lucro da venda da caixa ir-se embora nos bolsos do Marrafa e do Prim. Eram uns artistas. O Marrafa ainda ia, às temporadas, até à Panasqueira, às minas, mas quando o tempo cá fora já era melhor, desandava e juntava-se ao velho Prim em tudo quanto fosse de malandrice e pilhagem. O Prim, esse, dizia que não precisava de trabalhar para se governar...às vezes andava num lavarinto porque a Guarda ia a casa dele frequentemente e dava com vestígios... Lá ia para a prisão e de alto e bom som lá bradava:"agora até me servem o prato e põem roupa lavada na cama!" E assim vivia.
Voltemos então ao batorel do Fatela à sombra da nogueira dos Landeiros, paredes meias com o chão do Geadas.
Convido-vos a outro lavarinto mental. Hoje deu-me para aqui...
Já reparastes que o homem não pode viver sem símbolos? Mesmo os sons que profere, acaba por os desenhar sob forma gráfica - as letras - que depois associa e constrói palavras e logo frase e depois texto e discurso e obra literária. E quando fala quer simbolizar qualquer coisa no sentido em que se refere sempre a outra coisa que é diferente do que diz. É aquilo que a palavra simboliza que faz com que a realidade se torne clara à nossa consciência. Dito de chofre: é no símbolo que o real nos aparece. Sendo assim, o símbolo não é a realidade, mas a sua revelação, a sua manifestação. Estais-me a acompanhar neste lavarinto? Continuemos então.
Se as palavras disserem apenas aquilo que cada um de nós quer dizer e não deixarem espaço para o que outro que nos ouve ou nos lê quer também dizer, a partir do momento em que deixam de ser símbolos e passam a ser simplesmente signos, então degeneram como palavras. São meros veículos de transmissão: uns MEDIUM que se esvaem na efemeridade do momento. Sejamos objectivos e directos: quando uma frase designa apenas aquilo que uma pessoa quer dizer e exclui a participação de outra na construção do significado, nessa altura, torna-se estéril. Fecha-se sobre quem a profere e exclui quem a escuta ou lê, em vez de permitir um fluxo - dis-curso - de comunicação entre ambas as partes. Ora a palavra é ou deve ser o antípoda desta tese, ela é, por natureza, diálogo, logo movimento, nunca estagnação. Clarifiquemos o lavarinto em que vos estou a meter: Se as palavras não tiverem vida, se não mexerem, se não agitarem, se não provocarem, estão mortas. Endoutrinam, dogmatizam, cegam em vez de desafiarem e educarem. Disse ! Aqui é que vai um lavarinto!
O Marrafa nos túneis da Panasqueira orientava-se melhor, até mesmo sem o gasómetro na testa...
Ah!, mas não penseis que já vos larguei. Vós é que podeis largar-me. Mas aposto que quereis saber o fim deste lavarinto! ou engano-me?
Cada um de nós é uma pessoa... Para as finanças e para o Estado somos, cada um, um indivíduo com um número. Nunca uma pessoa com um nome. Critérios...
De si, o termo PESSOA é um nó numa rede de relações (com outros nós) .
Verdade insofismável é que todos podemos usar o pronome Eu, mas ninguém o pode usar por cada um de nós quando nos referimos à nossa própria pessoa. Eu só sou eu para mim. Para vós sou um tu e vós para mim sois também um tu. Assim todo o Eu implica um tu e todo o tu é proferido por um eu. E esta relação implica ainda um ELE/A e mais ainda uma relação mais complexa como é a da dimensão Nós/Tu, que inclui o ELES, de modo que o ELE/ELA se inclui no EU/TU. E pior é que cada pessoa não admite nenhum plural. Cada um de nós é só ele e mais ninguém. Que Grande lavarinto!
Acomodemo-nos no batorel para encontrarmos a saída do lavarinto. Afinal cinco pessoas não são cinco pessoas, mas dez. São cinco tu e cinco eu. Se um sair e for observador então ele é um ele/a e continuam a ser na mesma dez porque ele continua a ser um eu e um tu e cada um dos outros são também eles/as e eus e tus...

Já estava com saudades de vós. Podeis crer. Nada melhor que um exerciciozinho para aquecer.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAA
AAAAAAADDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

(publicado por karraio, texto do changoto)

segunda-feira, julho 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVII - (E)INCOURO

No final dos anos 60 os "campos de férias" de Verão em espaço rural permitiam a aprendizagem e desenvolvimento de um conjunto de competências de indiscutível utilidade para o futuro de crianças e adolescentes. Sobretudo porque não existia didáctica imposta pela figura do tutor / orientador / animador.

Uma das mais perseguidas era a arte de manter todo o corpo a boiar. Já não me lembro muito bem mas acho que aprendi a nadar numa charca da ribeira das Taliscas que naquele tempo se aguentava com água quase até ao S. Bartlameu, em harmoniosa partilha com umas cobritas d’água, rãs e até um casal de cágados. Ou terá sido no enorme tanque do Dr Amândio, alimentado por uma mina de água fria mas limpinha, ladeado por um freixo e uma figueira cujas pernadas se utilizavam cuidadosamente como prancha de saltos? Se calhar foi no poço do bezerrinho, 5 metros de fundo, poucos eram capazes de lá ir buscar uma mão cheia de lodo para exibir triunfalmente aos outros! Ou então terá sido na “barragem” da brigadeira? ou na de medelim? Que importa? A esta distância, só consigo concluir que eram locais perigosos, absolutamente desaconselhados.

O método de aprendizagem era cientificamente básico, resumido à repetição exaustiva, por tentativa e erro, por imitação, raramente por orientação, a verdade é que lá conquistei o truque de contrariar a gravidade dentro de água.

Mas estes "campos de férias" numa aldeia do rural profundo eram igualmente importantes para a aquisição de muitas outras competências, utilíssimas para o quotidiano de uma época em que a informação tinha de ser buscada na realidade e não no google. Vejamos por exemplo algumas das que podiam ser apreendidas por mor da irrestível atracção que os garotos tinham pela água.

- Competências para lidar com a autoridade materna: nenhuma mãe sabia por onde andavam aqueles garotos durante toda a tarde, se calhar por isso é que quase todos eram recebidos com uma pequena sova de chinelo (correctivo que se revelava manifestamente insuficiente para impedir a repetição do ritual vezes sem conta ao longo do Verão);
- Competências para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos: nas viagens eram utilizadas pasteleiras que chegavam a aguentar 4 garotos, sentados no volante, no quadro, no assento e no suporte atrás;
- Competências para a inovação: em corajosa antecipação às praias de nudistas, a moda ditava nadar incouro (era raro o que usava calções de banho,logo estigmatizado como betinho, banidas as toalhas, chinelos, protector solar, barrinhas de cereais para o lanche, pacotinhos de sumo);
- Competências para a improvisação na adversidade - havia sempre a marouva da época numa figueira, pereira ou “maçãzeira” para assaltar na viagem de regresso a casa;
- Competências para a criatividade e adaptabilidade: a sede podia facilmente ser saciada em qualquer poço que apresentasse água clara (não confundir com transparente) a atirar para o esbranquiçado, água de sabão mesmo, e que passasse no teste do cuspo: bebível se a saliva se dispersava, não potável em caso contrário.

À excepção da charca das Taliscas pode ainda listar-se uma outra competência absolutamente decisiva neste contexto:
- Competência para responder com rapidez e eficiência a situações inesperadas: era preciso botar a fugir quando o dono aparecia a vociferar imprecações e impropérios contra a canalha, invasora da sua propriedade privada. Vista de cima, a debandada aparentemente caótica de meia dúzia de garotos a correr encouros no meio do restolho, era cena para marcar o filme tuga que se fizesse sobre o “Verão de 69”. É que às vezes não havia tempo de agarrar todas as peças…

Foi o que aconteceu ao ZéChquim espanta mulas. No caminho para o Ferrador, foi assaltado por uma repentina cólica que não lhe deu o tempo necessário para se baixar e aviar a vida comédado junto do eucalipto jovem que escolhera para dele usar as cheirosas folhas. Chegado ao poço, apressou-se a fazer chegar o balde de esmalte na ponta da picota / burra / cegonha e a passar por água as suas cuecas novas que a mãe tinha comprado no último mercado como prenda por ter passado para a 4ª classe, estendendo-as de seguida cuidadosamente ao sol numa das bordas da pia de pedra. Quando o ti Bezerrinho se aproximou sorrateiro e brandiu o seu cajado, furioso, o espanta mulas apenas conseguiu agarrar os ténis rotos e a camisa.

Já à sombra da grande figueira pchichota na horta do Ti Guilherme chornico, o espanta mulas reparou que as cuecas do João parretcho eram iguais às que ele tinha deixado na pia a secar: branquinhas e com abertura à frente. Com a autoridade que lhe inspirava o dobro do tamanho, decretou:
- Ó parretcho, dá cá as tuas cuecas.
- Isso é qu’era doce! – atreveu-se o outro.
- Se não m’as dás levas já aqui uma malha.
Apercebendo-se da determinação do espanta mulas, o pequeno João tentou escapar mas rapidamente foi agarrado, e a sua resistência foi inútil perante a força bruta do matulão que o desnudou por completo para lhe arrancar as cobiçadas cuecas. Cego de raiva pela humilhação, o parretcho agarrava em tudo a que deitava mão para atirar ao espanta mulas que se pôs a cabanir e nem pensou no que estava a fazer quando, à falta de mais pedras e torrões, arrancou 2 figos de palma da figueira do inferno que havia junto ao barroco do chornico e os lançou na direcção do gatuno. Os outros garotos assistiam divertidos na plateia da sombra pchichota. Foram eles que valeram aos protagonistas principais, ajudando-os pacientemente a arrancar os dolorosos carapetos, da palma da mão do parretcho, da nalga esquerda do espanta mulas.


Seria interessante reunir Watson e Skinner com Vigotsky, Piaget e Bandura e ouvir as suas palestras neste campo de observação, relativamente aos processos de aprendizagem daquelas variadíssimas competências técnicas e emocionais.

quinta-feira, maio 26, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVI - TOUCEIRA

Que a raça humana no seu todo, com honrosas excepções, se tornou na mais velhaquinha espécie viva à superfície terrestre, não é difícil de provar. Basta ver que, sendo a paz muito mais barata do que a guerra, este descendente do pitecantropo prefere esta àquela.
Não deixa de ser curioso, e dispenso-me de ir buscar estatísticas, constatar que cada vez há mais divórcios. O caso é tão mais grave, quanto também é facto indesmentível que se casa cada vez mais tarde, o que, só por si, devia justificar exactamente o contrário, já que casando mais maduros, tiveram tempo de pensar bem antes de decidir. Mas: nunca há só um teimoso, tem sempre que haver dois. E como nenhum deles cede ao outro, engalfinham-se a tal ponto que cada um vai para seu lado.
A agravar isto tudo, o mais natural é que a disputa final resulte de uma ninharia insignificante, quando não ridícula. O mal está em que vem sempre a touceira cheia de raízes e inventariam-se casos já mortos e enterrados, ressuscitando-os com uma força tal, que até parece que se estão a reviver naquele instante.
Permiti que vos traga à boca de cena um caso famoso, que, ao que consta aconteceu com um xendro lá para os lados do Norte.
Estava o xendro cheio de fome e chega a uma pensão (as antigas casas de Pasto) e pergunta o que há para comer. Neste momento só ovos cozidos - diz o patrão. Venha de lá o prato dos ovos e vá abrindo cervejas. Comeu duas dúzias de ovos cozidos e emborcou uma grade de cervejas. Aliviado da fome ainda questiona: E fruta, que tem por aí? Só bananas! é a resposta. Venha uma, pede. Pouco tardou, corre para a casa de banho e vomita cerveja, ovos e banana. Sai-se com esta: para que raio comi eu a banana?!
Assim somos nós: por coisa pouca deitamos uma vida a perder. Agarrado à pequenez vem um corgo de raízes, como nas touceiras, às quais estão coladas, como argamassa, recordações de situações antigas que agora, regadas pelo ódio e descontroladas pela ira, rejuvenescem e arrasam toda uma relação.
Somos mesmo muito bonitos!
Partimos do princípio crónico de que, quando os outros não estão, podemos dizer mal deles, porque eles, quando nós não estamos, também dizem mal de nós e evangelicamente vemos algueiros nos olhos deles esquecendo as trancas que nos tapam a visão e que trazemos nos nossos olhos. O prazer, mais que mórbido, que sentimos quando temos a oportunidade de arranjar um defeitosinho no outro, empolando-o, aumentando-o e até espalhando-o aos sete ventos! Não vemos, porque não queremos ver, os Hitleres, os Átilas, que há dentro de nós e nos fazem ver tudo pelo lado mau...
Não somos parcos em críticas e apresentamos logo uma touceira de argumentos a favor da nossa tese.
XXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNDE

sábado, março 26, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXV - CODECIDO

Todos conhecemos a irrequietude das crianças. Com razão dizemos que, quando não as sentimos buliçosas, ou estão doentes ou a dormir, ou, então, estão a fazer asneiras.

Todos sabemos também que entre os dois anos, mais ou menos, e os cinco, elas vivem a chamada idade da graça, como superlativamente lhe chamou Hamilton. Metem "bojardas" descabidas, mas como nos rimos face ao absurdo, elas pensam que estiveram muito bem e, claro, sentem-se contentes, porque no seu egocentrismo, este vedetismo encaixa de forma perfeita.

Todos reparamos que mal começam a construir frases a pergunta fundamental é "Porquê"?, a propósito seja do que for.

Em regra dizemos que são curiosas, mas não é essa a motivação que as impele continuamente a querer conhecer e saber de tudo o que as envolve. A questão é muito mais complexa e, sem sombra de dúvidas, é a necessidade de segurança que as força a querer saber. É também por isso que elas exigem colo quando, por exemplo, estamos com elas num local onde o horizonte delas é muito limitado. Quase trepam por nós acima porque querem estar à nossa altura e ter horizonte de visibilidade idêntico e, se puderem deitar a mão, é certo que não desperdiçam o ensejo.

A personalidade é dinâmica e vai-se construindo aos poucos e, se de algum modo, como queria Freud, o aforismo "os adultos que somos depende da criança que fomos", não se verifica em todas as circunstâncias. Se tal fosse verdade, então a dinâmica do homem seria um condicionamento retaliado e a astrologia poderia merecer algum crédito. Ora nem o homem pode ser sujeito a padrões estilizados e padronizados nem a astrologia é merecedora de qualquer ponta de crédito tantas as enormidades das candongas em que faz incorrer os incautos.

Por isso é que, se a mania de fazer perguntas é comum a todas as crianças, depois, já jovens e adultos, nem todos mantêm esse espírito indagador e investigador, limitando-se a fazer parte do anonimato, no "Maria vai com as outras", sem qualquer laivo de espírito aventureiro e criativo.

Convém, ainda, tal como as crianças, ir arriscando, ousar fazer coisas novas, sem sermos estouvados a ponto de querermos dar o passo mais do que permite a perna. É que 'podemos ir por lã e voltar tosquiados.'

Vem tudo isto- pasme-se - a propósito da primeira vez que espetei uma faca num porco para o matar. Saí-me bem na picadela, mas já não tanto na abertura do animal, parte em que tive que puxar por alguma inventividade, para não ficar a ser alvo de alguma choradela de entrudo. Remediei tudo na confecção da meloreja que saíu na perfeição e, antes ainda, na separação das tripas, arte em que imparo com as mulheres. O espanto foi tal que a ti Gulhermina se sai com esta: «o rai do cachopo é mesmo codecido».

Fiquei assim para o aparvalhado já que nunca tal significante ouvira e portanto também não lhe conhecia o significado. Não fora o contexto e ficava, como tinha acontecido quando abri o porco. Tinha que me desenrascar. Se me meti nelas é para ir até ao limite do razoável.

Passado tanto tempo - já lá irão alguns 20 anos ou mais - lembrei-me hoje do codecido. Não consta nos dicionários e portanto - lá está a veia da descoberta a espicaçar o engenho - pus-me a tentar descortinar qual o conceito erudito, parelho deste popular...

Alguns dos que me lêem ainda se lembram dum famoso comentador de futebol que dava pelo nome de Alves dos Santos. Quando um avançado sabia estar no lugar certo à espera do endosso da bola e aproveitava a oportunidade para rematar à baliza e, quiçá, marcar golo, invariavelmente Alves dos Santos enobrecia a codícia desse jogador. Tanto quanto me é dado saber o mais usado nem é o substantivo - CODÍCIA - mas o adjectivo -CODICIOSO - e, mais grave ainda, este adjectivo aplica-se na linguagem tauromáquica e refere-se ao touro que busca tenazmente atingir o cavaleiro ou o matador durante a lide.

A semântica deve ter feito o resto e o significado foi-se adulterando a ponto de chegar a este de fura pastos curioso e atrevido que não vira a cara a nada nem desiste, tal como o touro - que por acaso também é o meu signo - para brincarmos à astrologia.

Se algum de vós fizer melhor leitura do termo, deixe notícia.

As matanças constituem, também elas, um ritual de convivência, com características muito sui generis a ponto de haver a parte que compete aos homens e a que compete às mulheres. Um dia contaremos estas secções.

No tempo morto que medeia entre a parte final da abertura do porco e a confecção da indispensável meloreja há sempre histórias que se contam: umas conhecidas, outras nem tanto. Nem tudo é igual para todos.

Foi assim que na matança do Tonho Labouxa o Guilherme Chornico se sai com esta, para alguns mais que batida:

Dois amigos comprometeram-se a beber sempre dois copos, sendo um sempre à saúde do outro e o taberneiros já sabiam que serviam sempre dois copos. Mas um dia um deles diz ao taberneiro:"bota só um" e o taberneiro: os meus sentimentos! e ele: de quê? Então seu amigo não morreu? - Não! Eu é que já não bebo.

Também é uma resposta codecida. Saíu-se bem.

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domingo, março 06, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIV - ESPERNICA OU ESPARNICA

A rivalidade entre pessoas, grupos, países, marcas, que sei eu, pode ser saudável e até contribuir para o desenvolvimento mais acelerado de muitos dos bens que diariamente usamos. Nós, os chamados consumidores finais, até podemos beneficiar com a rivalidade, ou, se preferirmos, com a competitividade. Muitas vezes, a questão resume-se à simples terminologia: é diferente se consideramos o outro como adversário, concorrente, inimigo... O nível a que colocarmos o outro, só por si, predispõe-nos para um tipo de relacionamento que vai do confronto, à discussão, quando não ao ralho e até ao corte de relações e a um incontido desejo de vingança. Não esqueçamos que a nossa matriz genética é reptiliana e, mesmo quando desculpamos ou perdoamos e compreendemos, facto indubitável é que não esquecemos...e na primeira oportunidade que tivermos de ser bons a esse rival, lá emerge o cérebro primitivo a ditar a sua lei.
Apesar da matriz judaico-cristã que nos determina modos de comportamento e de valoração, apesar de uma moral da compreensão, do perdão setenta vezes sete, do ama o outro como a ti próprio, nada nos detém e o nosso auto conceito sentir-se-ia ferido se pudéssemos ficar por cima e perdêssemos essa oportunidade. É compulsivo.
O sagrado e o profano coexistem. Mais ainda, agora, no Entrudo, conjunto de dias de folia e desregramento em que, claramente, o sagrado perde. O espaço do profano é sempre maior que o do sagrado. De facto o sagrado , por assim dizer, estabelece barreiras de acesso, impõe obstáculos e, se aos poucos vai tirando alguns, indesmentível é que o sacro dos sacros só será acessível aos ungidos. O profano teme o sagrado, tanto mais que este é misterioso, ameaçador, e até absurdo, tantas são as incoerências lógicas em que cai e a que se arreiga, estabelecendo como dogma de fé, essa convicção de que tudo é possível por parte da divindade. A fé não pensa. Pessoa, superlativamente, resume: «crer é morrer, pensar é duvidar».
Outro ponto, que não deixará de ser interessante para uma tese de formando em Sociologia, será, sem dúvida, um estudo sistemático e relativamente abrangente sobre as causas, motivos, razões, explicações, justificações por que cada um de nós, mais ou menos fanaticamente, nos apegamos a um clube desportivo em detrimento de outro. Lembro-me bem que, na altura da minha vivência no espaço xêndrico os sportinguistas serem em muito maior número que os benfiquistas. Incomensuravelmente mais. São ainda frescas as lenga lengas lagárticas que me vêm à memória: " A bandeira do sporting é de oiro e de prata e a do benfica é de casca de batata" ou " o benfica come merda que até espernica". Que não me levem a mal os meus caros benfiquistas por este relato ... Não agucem já as garras de águia e venham a roer o fígado deste pobre Prometeu...
Que será então espernicar, perguntais já desacorçoados. Se reapararmos, a distância entre espernear e espernicar não é assim tanta: num agitam-se as pernas, noutro abana-se o bico!
Havemos de convir que transformar a águia imperial do benfica em galinha de capoeira a espernicar bosta de vaca é uma violência exagerada. Consequências da maioria... Se calhar como agora na política...
Volvamos então à xendrice e aos seus costumes sacro-profanos:
A garagem do Cavalheiro era o local por excelência dos bailes públicos, sim, porque também os havia particulares, mas isso é para outra história.
Muitos dos namoros e consequentes casamentos foi ali que se iniciaram. As mães das meninas, com o xaile e lenço, sentadinhas à volta e as filhas a rodopiar no cimento, sempre com o aconselhamento materno de não se afastarem para sítio onde elas naõ enxergassem, não fosse o diabo tecê-las e depois andassem nas bocas do povo...
Ea frequente aparecerem uns forasteiros que, a troco de pagarem umas cervejolas, lá se socializavam com os xendros e arriscavam ir tirar uma donzela.Foi assim que o cuco Penca, irmão de chquim mouraria, casado com filha de padre zé, se dirigiu, galante, a solicitar uma dança com a café triste: «Dá-me a honra desta dança?» perguntou penca,sempre galante e bem educado, não fosse filho de ti Eduardo que sabia mais de bíblia que qualquer padre em toda a redondeza, e a café triste:« só danço com os da terra!» e Penca:« E eu sou da Lua, é»? Ouviu-se um estalo e se eu não tenho acudido o Penca levava uma malha das valentes.
Ficai-vos com esta neste Entrudo! Cuidado com os bailes do bote-me cá licença e afins que vos acontecer ficardes mascarados sem ser preciso comprar o enfeite. Para a próxima continuamos.
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sexta-feira, fevereiro 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXIII - POSTELA

Definitivamente a verdade é algo que sempre se almeja mas nunca se possui. Não fora assim e não haveria progresso. É por se constatar que a verdade que temos é insuficiente, que continuamos em busca dela. Quer isto dizer que vamos sempre eliminando erros e que dessa eliminação resulta uma aproximação maior à verdade, mas nunca nos possibilita a sua posse. Podemos então cair em contrasenso: a verdade é que a verdade é um desejo e não a sua posse. Significa então que afinal há algo de verdade: que a verdade não é uma aquisição mas uma procura. Quase parece que imitamos o galo Cartesius que estrategicamente se supunha ignorante para depois emergir cantante com a pujança do PENSO!
Olhemos em volta e confiramos: aquela que podia e devia ser uma actividade nobre, interessante e participada por todos - a Política - vive de camuflagens, de sucessivas (in)correcções, de promessas mais que muitas, que ficam na sacola do esquecimento, de mandingas, trapaças, compadrios e o mais que todos sabemos, cada um pregando a sua verdade, que, afinal, é a sua mentira. Saem sempre incólumes e nem uma postela fica para recordar a cicatriz da aldrabice que ontem espetaram ao povo, que, néscio, continua a crer que desta é que é e este é que vai ser.
Dispenso-me de enumerar exemplos, tantos são eles. Até acho piada quando em vez de chamarem aldrabice ou mentira a uma afirmação, dizem que é uma inverdade, neologismo sem sentido e perfeitamente inútil, subterfúgio airoso para tapar o sol com a peneira.
Se nos virarmos para o mundo da ciência e da tecnologia, a evidência de que a verdade não é uma posse, transparece: aquilo que hoje é topo de gama, perfeição máxima conseguida, maravilha insuperável, amanhã, é pré-histórico, obsoleto, ultrapassado, ridículo. Olhai só para vertigem que todos os dias nos apresentam as empresas de telemóveis. Lembro-me de ser um luxo, uma raridade, alguém trazer um telemóvel no carro! Era um mastodonte, era preciso ir para o cimo de um monte, orientar a viatura, eu sei lá!...Hoje sabemos da comodidade! E podíamos citar muitos outros exemplos.
Não posso, todavia, deixar de evocar aqui o crime que estão a cometer contra a língua portuguesa. Não que eu seja avesso às novidades e que não alinhe, em muitos casos pela doutrina do útil e simplificado: afinal os portugueses primeiro começam a ligar os aparelhos e depois, se não funciona, vão ler o livro de instruções.
Se tivéssemos que nos levantar do sofá para mudar os canais de televisão, deixávamo-la ficar onde estava. Assim, com o comando na mão, farejamos tudo quanto há... bem, mas adiante que a história espera e não era isto que vos tinha anunciado.
Vamos lá ao crime: como estamos num tempo em que já nem há tempo para ter tempo, tal a efemeridade de tudo: situações,objectos, vivências, e, mais que tudo, pessoas - tudo é descartável. Atentemos só no que acontece aos nossos velhinhos: o que se espera é que não dêem chatices e que morram antes de se acabar o dinheiro que têm, a ver se sobra alguma coisa para nós. Afinal, eles são uma postela que, mal se possa tirar , lançamos ao vento... Foi o mesmo que fizeram com a nossa língua: agora deixa de ser uma língua novilatina e passa a ser uma novimultiforme. Sangraram de tal forma o seu mais típico , a sua vernaculidade e a matriz que, daqui a poucos anos, ninguém vai perceber que a sua mãe foi o latim.
Perdoe-se-me a delação mas eu tenho para mim que os intelectuais que elaboraram este acordo ortográfico, também são adeptos do rápido e pronto: tiraram letras às palavras para não terem que as escrever completamente e assim ganharem tempo. O tal tempo para o qual já não temos tempo!
Consideraram a língua como uma postela. Não a respeitaram. O Baságueda continuará a respeitá-la. Mainada!
Faz-me lembrar a história que o Tonho Labouxa - acho que anda por terras da Suiça - protagonizou:
Dizia o professor Tanganho que às vezes os examinadores, no antigo exame da quarta classe, não perguntavam só o que vinha nos livros. Perguntavam também coisas que desafiavam a criatividade e imaginação criadora dos alunos e que, por isso, era preciso saber pensar e não nos deixarmos encavacar por perguntas que não fossem as habituais. Por exemplo, dizia o Tanganho: Qual é a coisa mais velha do mundo? E nós ficamos todos calados. E o Tanganho: a coisa mais velha do mundo é o tempo! É por isso que Deus não tem tempo. O tempo só começou a contar depois do primeiro dia da criação. Até aí não havia tempo. Deus precisou de sete dias para criar o mundo e foi aí que começou o antes e o depois. Antes não havia tempo. É por isso que Deus é eterno, porque não nasceu com o tempo. Já existia antes do tempo. O Labouxa que não era muito virado para lucubrações filosóficas arranca: OH! Senhor professor, isso num há-de ser bem assim, cossenão eu também sou parecido com Deus, porque a mnha mãe diz a toda a gente que eu nasci antes do tempo e num me lembro de ter criado nada. Uma tanganhada zuniu os ares e raspou a orelha do Labouxa: " oh! minha besta quadrada ponha-se já de joelhos! És como o teu pai que só sabe dizer: aqui está o Zé Labouxa que descobriu o ninho à moucha. Eu não estou a falar desse tempo. É dum tempo muito antes do teu teu tempo e do tempo do teu pai e do teu avô. Ouviste?" O Labouxa disse que sim com a mão nas orelhas, mas continuou a não perceber. Nós também não, mas como ficamos calados não nos caíu a tanganhada nas orelhas. Felizes , foi o que nós fomos. Como Santo Agostinho: Se ninguém me perguntar o que é o tempo, eu sei o que o tempo é, mas se alguém me pergunta o que é, já não sei o que o tempo é.
Bem, é tempo de ficar por aqui, senão também me considerais uma postela e, mal possais deitais-me ao vento e desapareço no tempo.
XXIIIGGGGRAAAAAAAAAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEE!

sábado, janeiro 01, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXII - ESGRAVUNA

Uma das características daquele que por muitos é considerado o pai do existencialismo, um filósofo dinamarquês, cujo nome é difícil de escrever e de dizer, contrapondo-se assim a um irracionalismo, que desembocou no niilismo, no sentido em que era necessário uma metamorfose do homem, alijando para longe todos os valores de um ser espezinhado por uma cultura judaico cristã escravizante e falsa, promissora de benesses sem fim no mundo do além é, o individualismo.
A vida de cada um é única. Não pode ser enclausurada em nenhum sistema, pela simples razão de que, a cada passo, cada um de nós está sujeito às maiores imprevisibilidades e a submissão ou obediência a esquemas pré-escritos ou determinados, imitando as moiras dos clássicos gregos, é descabida, desajustada e ineficaz. Os nossos problenas são os nossos problemas e temos que ser nós a resolvê-los. Não se invalida a cooperação, mas se não for eu a jogar nunca me sai o prémio. Basta ler o Desespero Humano para aí se ver a razão do que se disse.
Não há linha contínua para o ser humano. Ele é bicho enguia, deslizador, polvo hábil que passa por onde se pensa que é impossível, sagaz leopardo, sempre novo na emboscada que trama.
Alguns, mormente os americanos, esses bebés ainda de leite em termos de nação, quiseram levar ao extremo o aforismo de que de pequenino é que se torce o pepino. Vai daí, criaram a doutrina que pegou fogo no Ocidente e, tal como a matriz judaico cristã e os fundamentalismos islamitas apenas têm uma leitura do que nos envolve, pondo talas limitadoras de horizontes nos olhos dos seus seguidores. Partiram do pressuposto que o homem reagiria sempre da mesma maneira face à mesma circunstância. Se é verdade que isso pode ser admissível, por exemplo, no comportamento de soldados obedecendo, todos da mesma maneira e ao mesmo tempo às ordens dos comandantes, já não é verificável em todas as situações privadas, em que cada um usa da sua autonomia para agir como bem entende, sem regra fixa e muito menos universal.
Em suma o ser humano é como um pião esgravuna. Nunca se sabe para que lado vai na roda, depois de ser lançado da baraça.
Muitos dos que me lêem ainda jogaram ao pião. O mais vulgar dos jogos de pião consistia numa roda de maior ou menor diâmetro, mas no mínimo teria 3 metros, quase a largura do centro da estrada, tendo concêntrico outro círculo, ao centro, onde se punham os piões que morressem, isto é, aqueles que, uma vez lançados à roda, não saíssem do perímetro da circunferência representada no chão do alcatrão e desenhada por uma cunca de telha.
O jogo sendo colectivo, porque tinham acesso à roda 6 ou 7 jogadores, quando não mais, tinha, mista, a característica de ser individual: cada um tinha o seu pião e era com ele que jogava e por ele se sujeitava a todas as ocorrências que fossem acontecendo. Não havia tempo limite e podiam entrar uns e sair outros. Um pião atirado para a roda tinha que sair dela pelos seus próprios meios. Podia ser ajudado por outro jogador enquanto dançasse. Depois de cair, se ficasse dentro do círculo, ia para a poça (o tal círculo ao meio) e esperava que os outros o salvassem através de pontaria afinada, atirando o pião para próximo dele até sair da roda. Às vezes, a ajuda dava em castigo, porque o colaborador sujeitava-se a ficar também ele no interior do círculo. Faziam-se acordos, quando não negócios e até apostas sem grande mal para o mundo. Afinal o pião era um jogo tal como a vida também é um jogo e se estão sempre a fazer acordos.
Alguns de nós faziam os próprios piões e até as baraças eram tecidas em carros de linhas, na coroa dos quais se espetavam quatro pregos e se entrelaçavam, à laia de uma trança, os diferentes fios de algodão, roubados do açafate de costura da mãe.
A maioria, porém, apesar de ninguém ser rico, sempre arranjava as cinco coroas para um pião de pinho, ou os cinco mil réis para um de azinho, o Ferrari dos piões. A compra obedecia a exame prévio e conselho de amigos e companheiros, avaliando o equilíbrio, a robustez, a longitudinalidade, a latitude, a lisura da coroa, o aguço do ferrão, a lisura do corpo, o peso do todo, em comparação com outros, enfim, um exame cirúrgico, de minúcia, mais que microscópica. A questão mor era se seria esgravuna ou dormente. O ideal era um pião que nem dormisse na posição onde caísse porque podia , apesar de "agarrar" bem quando se deitava nas últimas voltas, nem tão esgravuna que fosse impossível prever para onde se dirigiria uma vez atirado para a roda. Havia sempre o perigo de esgravunar para dentro e, pronto, lá ficava sujeito às nicas dos outros.
Assim somos nós... São poucas as vezes em que somos previsíveis. O pior é que, muitas vezes devíamos mesmo desobedecer às sondagens que andam sempre a querer determinar o nosso comportamento e fintá-las para ver se não domesticam tanto o pião.
Vêm aí eleições: a ver se somos esgravunas e saímos da roda.
Boas festas e porrada no madeiro que ainda está inteiro.
XXXXIIIIIII GRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEE

quarta-feira, dezembro 29, 2010

REQUIEM 2010

O Changoto já elaborou a partitura para a última noite de 2010.
Sois todos convidados.
Ei-la:

ADÁGIO
Enfornatus toscanini
Mirus viniculatus
Presunto oliveiresco retalhado e adoçado com água pluvial
Pendurados fumadeiros braseados

ALLEGRO
Canja de Boda

ALLEGRO MA NON TROPO
Carteiro voador arrozado
Canalhada de chibeto

LARGO
Corredora lepurina em leguminosa acouvada

PRESTO
Fermentada de leite coalhado
Trix manteigada

VIVACE
Negro da Guiné
Trifermentado celta
Alquitarrada xendra



Se não puderdes vir cantar connosco, ficai descansados que brindaremos na mesma e gritaremos bem alto votos de bom 2011 para todos

quarta-feira, dezembro 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLXI - ALAGOSTO OU ALAGOADO

O tempo é inexorável. Não se pode chamar o detrás. O que passou é irrepetível. É por isso que o tempo, sendo, nunca é. A mobilidade é a sua característica maior. Mas, hélas! em tudo o que se move, algo permanece estático e em tudo o que repousa algo se altera. Na verdade, o passado já não é, e o futuro ainda não está, logo, um já não existe, e o outro ainda não faz parte. A efemeridade do presente conduz inevitavelmente ao ponto - aquela dimensão que não tem extensão mas sem o qual não seria possível a recta, depois a superfície e a seguir o volume. A tridimensionalidade, afinal, aparece da inextensibilidade.
A polémica entre a realidade experiencial, material, empírica, mensurável, configurada, representável em figuras num plano, embatia numa outra: a realidade ideal. Esta era perfeita, modelar, única, sem dimensionalidade, conceptual, eidética, original e sem defeito já que imperfectível, eterna, paradigmática, enfim, hiperurânia.
A dicotomia e, depois, a harmonia dos contrários perpassaram a história do pensamento humano: bem/mal, direito/esquerdo, vida/morte, sono/vigília, .../..., céu/inferno, deus/diabo, dia/noite/,... e ainda hoje permanece.
Se hoje fossem vivos, esses grandes vultos do pensamento humano, cujas referências ainda hoje se invocam, se hoje fossem vivos, dizia, ficariam pasmados: afinal a realidade nem é real nem ideal, é virtual. O que é e o que parece, finalmente, fundiram-se: a nova metafísica reduz-se ao electrão. O tempo e o espaço quase se colam: acontece no Japão, eu vejo em casa, tenho falta de dinheiro? em dois minutos sou milionário,...
Em tempos que já lá vão, ouvi explicar que tinha havido um milagre grego, no sentido em que a qualidade e quantidade da obra produzida na Atenas de então eram de tal monta, que não tinham explicação possível.... Deu-se-lhe o nome de milagre grego (a eles que o que mais que queriam era acabar com os milagres na criação!) ! A incongruência reside no facto de que o que os gregos pretendiam era exactamente varrer as entidades divinas da criação do mundo e por isso elencaram uma série de causas a que chamaram ARCHÊ(s), princípios primeiros, causas encausadas, origem de tudo quanto existe e por isso há pinhos e eucaliptos, macieiras e sobreiros, corvinas e chernes,... É a unidade no seio da multiplicidade, ou se preferirmos, a multiplicidade derivada de uma origem comum: fosse a água de Tales, o indeterminado de Anaximandro, o ar de Anaximenes, o fogo de Heraclito, o Amor e o Ódio de Anaxágoras, o número de Pitágoras, os quatro elementos de Empédocles, (...) a verdade é que o elemento criador era um dos elementos da natureza. O natural originava o natural e o sobrenatural era de outra dimensão, portanto, não metia no mundo e suas variações, nem prego nem estopa.
Perguntareis vós a que raio de propósito vem esta lenga-lenga, mas as ideias, como as cerejas e as palavras num discurso colam-se umas às outras. Às vezes saem em catadupa, amontoam-se à saída e é difícil contê-las originando profusão de informação, o que conduz à perda de nexo e, logo, à liquidação do objectivo. Há, pois que conter a verborreia!
Para esse efeito temos por aí quanto baste, desde Sócrates, Socretinos e afins, até outra mão cheia de pregadores sem púlpito, mas que nos entram em casa se lhes franquearmos a porta. Basta um click!.
É princípio de decência em todos os domínios da acção humana que não se pode ser mais papista que o papa. Não se pode ser alagoado, lampeiro. O velho Comandante - há quanto tempo não trazia aqui o meu velho avô, mestre inexcedível em matéria de saber empírico - tinha uma expressão impagável: "quem não sabe tocar corneta que não se meta."
Olhando em redor o que vemos é uma plêiade de incompetentes a mexer onde não sabem e, claro, a ditarem ordens quando o que deviam fazer era "estar quêdos!".
Constatamos que aquilo que mexe connosco está nas horas da amargura e os tais iluminados que nada têm a ver com os gregos de que acima vos trouxe memória, insistem que é a única alternativa. Porquê? porque são alagostos. Não sabem tocar corneta e arranham em tudo: ele já foi ministro da cultura, da educação, dos assuntos parlamentares, ajunto do primeiro ministro, porta voz do governo, ministro da defesa, bolas! que mais?. Isto não é um homem, é uma invenção! Como dizia um velho amigo transmontano ::SACODE!
Nada de estranhar neste rectângulo, porque quem nos representa raramente tem dúvidas e nunca se engana. Assim vamos indo, cantando e rindo, levados, levados sim,...
Ninguém entre os xendros de então se comparava a Velho Jonja, cachopo canho, ligeirinho no andar campeão na fisga, imbatível no jogo do pinoco, defesa esquerdo na bola, artista maior na arte de engudiar e armar costil, poço sem fundo em matéria de conhecimento da valdevinagem de então. Lia a Flama, o Zíngaro, a Crónica Feminina, Caprichos, Zaida, Século Ilustrado (...)e era impenitente devorador de tudo quanto fosse programa de futilidade. Sabia tudo de todos com uma profusão de pormenores que, quem quisesse saber personagem de novela, artista de nomeada, filiação ou paternidade de vedeta televisiva, horas e locais de espectáculos, honorários e prémios, concursos , filmes de cowboys, que sei eu, todos os intérpretes da música francesa de então com os títulos das canções e até algum traiteio, quando o título não fosse bastante, ... Sempre bem penteadinho, aprumado no porte, sapato de atacador sempre bem apertado, casaquinho ou colete justos, e o seu constante: « Tão!, tão!, viste ontem o filme do flecha quebrada?, tão!,tão! viste o Laredo!, tão!tão, viste o bonanza,...tão!, tão!.?
Até parece que ainda agora o oiço a imitar a música do Bonanza! era ele e o Chquim Jolim da pata branca. .. Outros tempos!
Quando eu estava para elas, aos Domingos à tarde, no adro, a assistir a três dôques e chquim cachiço a jogar à cavaca, metia-lhe veneno:" Oh Jonja, um dos cinco violinos era o Matateu, não era?" « Você é uma besta! Matateu era do Belenenses e os cinco violinos eram do Sporting!» Vasques, Travassos, Peyroteo,...» "Pronto,! " Mas o Joe Pequeno era dos Robin dos Bosques! « Não no era, era o irmão mai novo dos Bonanza com o Adam e o Hoss!" Era uma tarde de cultura era o que era!
Duma vez decidi-me mesmo a provocá-lo a sério:" Olha lá, ó Jonja; Quando é que uma rolha de cortiça flutua no vinho?" O Jonja ficou apanhado porque isso não vinha na crónica nem na flama, nem... E o Jonja:« e que me importa a mim isso? Sabes quantas cantigas vão ao festival, sabes? Calma, aprende lá esta : a rolha de cortiça flutua no vinho quando lá a pões!" Isto é para não seres tão alagosto!"
Abalou com umas trombas que nem um barraco!
XI GGGRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

domingo, outubro 24, 2010

A NOSSA FALADURA - CLX - BOIEIRA

Não sendo muitos, sempre foram alguns de que me lembre, os chamados "negociantes", por terras xêndricas. Nenhum se sobressaía aos outros e, muitas vezes, até faziam sociedade. Lembremos uns quantos: Zé Labouxa (o tal que descobriu o ninho à mouxa =mocha - fêmea do mocho), ti Chquim Vaz, pai de Alberto, autêntica esponja vinícola, que todos os anos moía com a sua mansa junta a azeitona no lagar da Lameira.
Que pena ter-se ido esse lagar!
Tenho visto muito lagar de varas mas nenhum como esse: nem em localização, nem em espaço, nem em lagareiros, nem em qualidade do azeite espremido, nem em convívio, nem em robustez e perfeição de construção. Uma beleza na arte e técnica de fazer azeite.
Já por mais de uma vez me fiz aqui eco dessa riqueza de aldeia que vai desaparecendo aos pouco por debaixo de bosta de galinha, peru e afins... assim se estraga o nosso passado histórico.
Mas voltemos ao tema da BOIEIRA e dos "negociantes": Ainda havia o Ti joão Valente, pai do amigo Zé Cadete que visitou Nova Iorque a bordo da Sagres, o Tonho Augusto, pai de Zé Augusto, marido da Rosa do Café, o Zé Branco e mais uns quantos que esporadicamente também se dedicavam a esta vida, mas não com a frequência dos que citei: Manel Guerra, o Geba e seu irmão Domingos, o Vigura, às vezes Miguelito e, mais tarde a dupla de sucesso nestas andanças, meu tio Tonho Cunha e Zé Cigano.
Corriam os mercados e feiras da raia e viviam dos negócios que iam fazendo. Era vê-los de jaqueta ao ombro e a indispensável boieira, bem presa com alfinete de dama, no bolso interior.
Burros, machos, vacas e vitelos, rebanhos inteiros, tudo negociavam e pagavam a pronto: sacavam da boieira e de lá retiravam as "notas". Um burro valente, manso de dente são, alto de joelhos, crina reluzente, bem arreado era animal para umas quinze notas, o equivalente nos tempos de hoje a sete euros e meio. Exacto: um conto e quinhentos ou quinze notas que era a unidade de negócio e valia cem escudos cada uma. Tinham a efígie de D. Afonso de Albuquerque e pareciam um lençol.
A contagem das notas e a consequente passagem de uma mão para a outra tinha um ritual: Sacada a boieira, essa enorme carteira em cabedal, bordada e com dois rasgos protegidos por duas películas de casquinha onde estavam a mulher e os filhos em fotografia, as notas começavam a ser puxadas uma a uma, esfregadas entre o indicador e o polegar, confirmando se não iam duas de uma vez a troco de uma cuspidela nos ditos dedos e: "Promeira","Sgunda", três, quatro, cinco... "Conte lá a ver se lá tem cinco que ele fez-se para se contar". Conferida a mais que revista enumeração, voltava-se ao ritual: Promeira, Sgunda,... até terem passado as quinze notas de uma boieira a outra.
Ao fim, é claro, havia sempre o alboroque. Todos os negócios eram feitos com alboroque, ao fim. Era o fechamento do contrato.
Duma vez Chquim Vaz viu-se negro com um cigano: vendeu-lhe uma burra já quase cega, bem tratada sem dúvida, mas de aparência desleixada. Passados quinze dias, na feira da Zebreira volta a encontrar o cigano e negoceia com ele uma burra. O cigano bem dizia: "é um belo animal embora num tenha vista, mansinha como a terra, sabe lavrar, andar para trás com a carroça e chega-se ao batorel para as mulheres se poderem montar...mas num tem vista" Chegam a acordo por oito notas, Vaz traz a burra na camioneta do Balhau e mal a descarrega na Lameira a burra mete-se a caminho direitinha ao palheiro. A ti Ana mal a viu: "Olha a Boneca". Chquim Vaz nem estava nele, praguejou, amaldiçoou o cigano e volta à Zebreira, mas cigano viste-o! Lá tirou inculcas e consegue saber que vivia em Segura... Lá vem com Balhau e Boneca, acaba por encontrar o cigano e ia-se a ele... O cigano:"calma... Eu num o enganei... Sempre lhe disse que era um belo animal mas que num tinha vista. " Chama-se a guarda, confirma-se a versão do cigano e o veredicto foi que não foi o cigano que o enganou, mas ele que se deixou enganar pela beleza do animal. Vaz roía uma travisca de giesta e diz para o cigano:"Torno-te a burra por cinco notas" O cigano agarrou nas cinco notas e tornou a ficar com a burra. Vaz andou uma semana sem dormir: a pensar que tinha ganho na venda da burrica acabou por perder três notas na torna e mais duas e meia que teve que dar ao Balhau pelo frete, fora os copos que bebeu para abafar a mágoa.... Vidas!
Tardou a ter outra vez a boieira cheia.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAANNNNNNDDEE

sexta-feira, outubro 08, 2010

A NOSSA FALADURA - CLIX - CHÓ OU CHOCHE

Que me lembre foram dois os burros mais famosos da Aldeia dos XENDROS: por encima de todos a burra do vellho Freitas, a quem só faltava escever e falar, o resto sabia tudo, dizia ele, que tinha o palheiro para a besta , ali na rua do Outeiro a dar para os Cabeços, quase pegado com o Chquim Gonito. Segundo o velho Freitas, a quem já conheci de bengala, mais para lá do que para cá, era a burra que o despertava, manhã cedo, para acender o lume para a ti Emília pôr os feijões a cozer, para a bucha da manhã.
O outro burro, este, mesmo burro, inteiro, ruço, orelha afitada, alto, macho assim mesmo comédado, possante, emparelhava com novilha no carro de Zé Luís Barata.
Foram muitas as vezes que lidei com ele, mormente quando ia apanhar caruma para os lados da serra, a dar vistas para a Bemposta, nos pinhais do professor Tanganho e do Silva da Santa Marta, ou, se preferirmos, Cum filhode puta, senhor que era do mais que famoso tractor fiat azul de motor à vista. ... Grande máquina... Este animal de nome 'Estudante', tirando o mês de Março em que a reprodução burreira impedia função que não fosse a do acasalamento, era duma mansidão e trato incríveis. Em Março, todavia, Zé Luís via-se aflito para o conseguir suster no palheiro. Foram muias as vezes que rebentou com a corda que o prendia à manjedoura e que com as patas escavacou a porta de entrada . Mesmo Zé Luís, nessas alturas, só conseguia pegar-lhe à noite, até que decidiu prendê-lo com corrente de ferro e freio justo no dente, cossenão o bicho deixava de conhecer o dono e tornava-se bravo que só visto.
O sexo e a reprodução , como dizia o meu querido amigo Lameiras, "tinha lá porras".
Ainda hoje habitam a aldeia netos do Estudante.
Havia outros asinos de qualidade, alguns de nomeada, fosse na jeira da lavra, no acomodar ao batorel para as donas se montarem de cernelha na albarda, na habilidade a andar para trás com a carroça, no ritmo cadenciado de tornar e tornar em volta da nora de olhos vendados, na força com que ferravam os cascos a puxar os carros com os moios da semente por alturas da acarreja,... Havia até alguns que serviam de guias a um par de cabras e umas quantas ovelhas conduzindo-as, sem o dono a acompanhar, até à Quelha Funda, ao Carregal, ao Ribeiro Cimeiro, à Lameira da Pinta, às Portelas, ao Batcharel e a mais sítios que não vem aqui ao caso. Podemos citar o burro do Rogante, imponente, que mais parecia um mulo, a junta do Júlio Aspirante, e , claro, a não menos famosa burra do Zé Borges, fidalga, que até tinha um papel de celofane verde a tapar a testeira durante o Verão, "por mor do Sol" , que nunca comia palha e chegou a trazer fraldas quando Borges queria os cagalhões para semear os alfobres. Era lavada e escovada por D. Isabel de 15 em 15 dias. Ficava a alumiar.
Estudante nunca se serviu desta donzela, que Borges guardava-a em bom recato por alturas do cio e se tinha que sair com ela, informava-se antes por onde Estudante vagueava...
Duma vez me lembro eu que o burrico do João Rela, por metade do Estudante, mas inteiro como ele, apesar de preso à ferradura do Ti Zé Júlio, enquanto a ti Isabel fazia a troca da semente pela farinha, mandou dois escritos, atirou com as angarelas ao ar, arreganhou os lábios, aferranhou os dentes e atacou a impecável burra de Borges, mostrando toda a sua membral pujança e espetando com Borges no chão no intuito de satisfazer apetências que não obedeciam a qualquer moral.
Fotografia não tenho mas imaginai o que foi um burrico de metro e dez a querer possuir uma burranca de metro e setenta.
Um fado foi o que foi e o povo a rir e a gozar à farta, Borges a praguejar e Isabel quando vem à porta e vê o estrago, deita as mãos à cabeça e « rais palira o burro e a mais o zé borges que tinha tanto caminho para passar e logo veio por aqui para me desaustinar o Mimoso. Pouca sorte a minha»
Bem que gritavam um e outro, "CHÓ BURRO, COCHE BURRA, CHÓ BURRO, CHOCHE BURRA. Nada.
Borges, que até tinha estribo na albarda, apreciava os estragos, sacudia o casaco que usava mesmo no pino do Estio, praguejava por ter sujos os sapatos reluzentes, apreciava as palhas no impecável chapéu verde garrafa, que tirava com esmero, mas não se metia no engate de Mimoso com a sua Felosa.
Lá fui eu, mais coiote pete e três dôques a ver se resolvíamos a contenda. Valeu que as rédeas eram compridas e, armados de cacetes jeitosos, lá puxamos o Mimoso que espumava e afastámos a Felosa que se tinha posto a jeito mas nunca se amagou a pontos de a cópula poder ter acontecido. Ficaram os dois mal e o mais satisfeito era Zé Borges que assim mantinha intacta a sua Felosa, lavadinha e perfumada por D. Isabel e com estribos na albarda.
Agoras sempre vos digo que burra sofrida era a de Teixeirinha que lhe metia silvas debaixo da albarda para andar sempre a galope e burra mansa como a terra e que fazia tudo o que eu lhe ordenasse era a da minha avó. Nunca lhe bati, bastava que lhe falasse e ela cumpria. Ia com ela para todo o lado, mas sempre a desaguava com umas águas ludras de vianda com farelo e , pronto, tinha o que queria dela. Se dissesse "CHÓ" estacava, Se dissesse "esquerda," parecia um soldado fiel.. Foram muitos os sonos que dormi a cavalo nela porque tinha absoluta certeza que, a partir do momento em que a virasse para o caminho para onde queria ir, ela lá me levava e parava só debaixo da figeira curiga que por lá estivesse...
Grandes animais...Estes sim, mereciam confiança...
Para bom entendedor...

XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAAAAADDDDDEEEEE

sexta-feira, outubro 01, 2010

COLHEITA DOS GATCHOS 2010

Confira-se aqui como foi em 2008

Confira-se aqui como foi em 2009


Agora, deguste-se 2010:


CARDÁPIO


TRASEIRO DE CERDO BEM CURTIDO EM SALGADEIRA À MANEIRA
E APRESENTADO EM ALTAR MADEIREIRO, JUNTO COM AÇO CORTICEIRO

LASCAS REDONDAS DE ENCHIDO MAGRO CORTADAS A TODO O LARGO
BICAIS OLIVAS, A MERECER "VIVA"

ARREDONDADA ESTRELADELA DE PEIDOS ENCASCADOS BATIDOS
COM ACOMPANHAMENTO DE VÁRIOS TIPOS DE ENCHIDOS
PIMENTOS DE VÁRIAS CORES
E ERVAS DE TODOS OS SABORES

OUVIDOS DE TÓ COZIDOS, MIGADOS E TEMPERADOS A PRECEITO
COM COENTRADA, BOLBO CHOROSO E O MAIS QUE VIER A JEITO

CALDO BASTO LEGUMINOSO DE FEIJÃO ENCARNADO
COM MASSA MANGA DE CAPOTE E DE COUVE ENFEITADO

JAVARDA PEQUENA EM CAÇOLA ARGILOSA
DEIXADA DE MOLHO PARA SER MAIS GOSTOSA

CABRINHA FORRA DE MEIA IDADE, POR TAL SINAL,
QUE NEM A QUEM SOFRA DO ÚRICO FAZ MAL

CICLISTAS, LENTILHAS, GRAVANÇOS, FEIJÕES
E TUBÉRCULOS ASSADOS E ESMAGADOS AOS MURRÕES

CASQUEIRO FORNEIRO, LEITE ESPREMIDO E FERMENTADO,
TINTO, BRANCO E DEMAIS LÍQUIDOS, TUDO DO VERDADEIRO

QUEM QUISER FRUTA ENCHA A BLUSA AO COLHER
OU TREPE À FIGUEIRA E COMA OS FIGOS QUE QUISER
DIXIT ET SCRIPSIT

NIHIL OBSTAT

IMPRIMATUR



mainada!






domingo, setembro 26, 2010

HABEMUS PATREM

XENDROS, CUCOS, ARANHIÇOS E BARRENTOS (principalmente) têm à sua disposição um novo Pároco, a partir de hoje, baptizado como Joaquim António.

O Baságueda deixa aqui os mesmos votos de há cinco anos atrás :
que apascente o seu rebanho comédado.

segunda-feira, setembro 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CLVIII - GALFARRO

É típico das diferentes gerações, cada uma de per se, considerar que a que vem atrás de si " nunca sabe o que custa a vida".


Ouvimos a geração derradeira clamar que a malta nova precisava de fazer uma dia de ceifa, um dia de malha ou de acarreja, ou mesmo de plantio de batatas, quando não, preparar em condições, uma terra de horta. « Aí é que eles aprendiam..!»

E continuam: vale mais uma quarta classe antiga do que o "quíntimo " ano agora. Esta canalha é só galfarrada, não sabem nada, brincam com aparelhagens, sabem de cor ir para aqui e para ali a viajar mas se lhe perguntamos a diferença entre o sobreiro e a azinheira, especam-se: " isso interessa a alguém?" e insistem: nem sabem as linhas de combóio, nem os sistemas das serras, nem as províncias de Portugal, nem os rios e seus afluentes de cada uma das margens, não sabem nada... Quando indagados acerca da utilidade desses conhecimentos.... , alguns nunca tinham visto o combóio, outros, de água corrente só tinham visto a ribeira xêndrica e suas enxurradas e de serras sabiam qual a Estrela por mor da neve, que é bem visível das terras xendras e é a culpada de um sem número de geadas e de alguns invernos prolongados.

Duma vez me lembro eu de uma batalha entre os galfarros da estrada, entre os quais estava eu, filho do chico mainovo, tonho cavalheiro, celestino grande, mnechquim rela, zé verniz, chquim pitincouro e os galfarrões do cavacal: zé solipa, filho da maripcanina, carpinteiro exímio que é hoje, a ombrear com riconho, zé espantado, tonho peidorreiro, tonho raposo, tonho bate sacas, tonho macho, domingos faquinha,... foi uma luta sem tréguas, cada grupo de cada lado da ribeira a aventar água misturada com gelo e a regarmo-nos uns aos outros, isto, deve dizer-se, em pleno entrudo, Março findo, Abril a assomar...

Razão têm os menos novos de hoje quando dizem que já nada é como era. Nem a ciclicidade do tempo... Se hoje fosse vivo, nunca Homero teria descrito o mito do eterno retorno, esculpido no escudo de Aquiles com a regularidade que se verificava naquele tempo. Se há cantos que valha a pena reler é este do canto XI da Ilíada do excelso vate grego, cego. Também já não se escreve assim... Outros tempos...

Galfarros sem escrúpulos foram todos os cachiços: zé, tonho, chquim, lurdes, todos adeptos da velha prática ,descrita por Camilo em A Brasileira de Prazins: "aquilo era olho que vê e mão que pilha"...

O mais vergonhoso e desumano que acontecia a esta rapaziada - galfarros- era que tinham que correr as ruas de aldeia, algemados, com o 'senhor' regedor à frente e o 'senhor' presidente da junta, á altura, Domingos Sarapião e Domigos de Campos, respectivamente, que assim queriam chamar a atenção que "os gatunos caem sempre nas malhas da justiça". Galfarro do mesmo jaez dos cachiços era o Salazar, nome que assentava na perfeição ao João, mas caía mal ao Chico, bombeiro honesto, ambos filhos de velha Natcha, cunhada de velha Lorpa, vedeta da crónica passada com seu filho Tonho Félix, que um dia, ludibriada pelos grandes estrategas da aldrabice, e que deram curso a muitos galfarros - Mné Freitas e Zé Luís Barata -se aperaltou para ir à Rádio Renascença a falar com o Sr António Sala e a mais com o seu inseparável adufe, arma musical em que rivalizava com Marijulha do Toco, insuperável, com Amália do Alfácea. Outras músicas, outros tempos, outros valores...

Os grandes educadores destes tempos, que ora vos trago, eram os pais... Bastava um olhar esguiado do paterfamilias para tudo andar alinhado,... a escola completava, muitas vezes à base de bordoada de deixar mazelas, como aconteceu ao Zé Pedro, filho do alfaiate, que ficou com uma 'bola de cotchu' nas nalgas do assentamento frequente e forte de que foi vítima porque não sabia a tabuada do quatro. Tinha lá porras, a escola para a galfarrada daqueles tempos... e tinha que decorar as linhas do combóio!....!!!!! mesmo sem nunca o ter visto, quanto mais experimentado.!..

Se calhar foi por isso que eu, galfarro fino, pedi ao meu pai que me trouxesse a Castelo Branco a ver o combóio... Queria que eu o visse das grades! .. que não, disse eu, quero lá ir dentro... obriguei-o a comprar bilhete de gare - quem ainda se lembra deste conceito ?- e lá percorri uma carruagem inteirinha. Valeu ainda que apareceu o Luís Batatas, Aranhiço, e sub chefe da estação, que ao saber da exigência como prémio da quarta classe, me levou até junto do maquinista e pude ver tudo. Pediam pouco os galfarros daquele tempo...

Vai lá vai... nos tempos que correm.... Outros galfarros!

Xi GGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDEEEEEEEE

terça-feira, agosto 17, 2010

CLVII - A NOSSA FALADURA - TORA

Não se pense que falamos da Bíblia judaica...A TORAH, livro sagrado por excelência para o judaísmo e, sobretudo, os famosos livros do Pentateuco (Penta=cinco e Teka -armazém,arquivo), a saber: Génesis,Êxodo,Levítico, Números e Deuteronómio, os únicos cinco directamente revelados por Deus a Moisés.
Não é dessa Torah que hoje tratamos...
Nesta altura do ano já se descamisava muito milho ratinho nos lastros dos balcões graníticos.A vizinhança , depois da janta, juntava-se e, todos juntos tiravam o folhedo ao milho e punham a nu a maçaroca que depois acabava de secar num panal que era recolhido todas as noites por mor da orvalhada, que na aldeia dos xendros era sempre farta, dada a sua cota baixa.
Não era só o milho que era descamisado. Também as primeiras vagens secas do feijão que havia de durar para todo o anosofria do mesmo afã.
Júlio Dinis descreve exemplarmene esta faina agrícola na Morgadinha dos Canaviais e, se na xendrice não se davam beijos quando surgia uma maçaroca de milho-rei, pelo menos, o bafejado disso fazia alarde.
Local por excelência era o balcão da Tonha Costa, ali mesmo no largo da paragem das camionetas, pois ficava mesmo por debaixo de uma lâmpada de iluminação pública e era largo quanto baste para dez pessoas ali compartilharem trabalho antes da deita. Muitas noites ali estive eu também com um pau aguçado para furar alguma camisa mais húmida e fosse resistente ao desfolhar de cada uma das folhas até chegar à maçaroca.
Falava-s de muita coisa mas não de bola, nem de"gajas" nem doutras futilidades que tais. Assuntos sérios a maior parte das vezes, sem que, de vez em quando não surgisse por ali alguma historieta brejeira, não raro com alguma malandrice inocente pelo meio...
Às vezes aparecia por ali o Tonho Félix, filho de velha Lorpa e que era o único varão xêndrico que acartava a água no cântaro de barro à cabeça, sem o auxílio das mãos e sem molídia. O barro assentava directamente no cocuruto da cabeça de Félix. Quer ele, quer a mãe andavam sempre descalços e lembro-me dos pés da velha Lorpa que eram quase tão largos como compridos,devido ao tamanho descomunal dos joanetes. Pisavam silvas e os carapetos não entravam naqueles cascos (perdoe-se a força da expressão).
Na escala de inteligência de Binet, muito provavelmente Tonho estaria com 55 a 60 pontos de Q.I., o que o situaria no degrau do parvo e é consabido que quando se socializava, de imediato era o alvo das atenções e servia de bobo. O ser humano é mesmo assim: o que importa não é a pessoa,mas o defeito da pessoa e sente um prazer inefável a gozar com a inferioridade do outro: se um indivíduo tem a triste sorte de ser marreca, o mais não interessa, mas é o marreca para todos.
Tonho não era senhor de uma chiba muito acentuada, mas dava para perceber que tinha uma pequena concertina às costas.
Eu não era melhor que os outros e uma noite meteu-se-me na cabeça atentar Tonho Félix:
-O Tonho, de dia está calor como um corno e tu podias ganhar uns trocos se à noite fosses cortar as maçarocas das canas. O milho já está todo desbandeirado e as canas deixava-las lá que depois o Vigura logo as ata e as traz. Nós aqui só precisamos das maçarocas.
- Tu num vês que de noite stá escuro como o alcatrão?
- Eu empresto-te o meu cágado... e arranjo-te uma bucha num bandoleira como tu nunca viste: um pão de quilo, uma cabaça de vinho, uma tora de toucinho februdo, e outra tora de chouriço paio do ano passado e um grande naco de queijo.
- Tu és parvo,pra que queria eu o cágado? (Os outros também parvos a olhar para mim sem verem onde é que isto ia dar).
- Levas um coto duma vela e uma caixa de palitos. Quando já não vires riscas um palito na lixa da caixa apichas a vela, botas uns pingos de cera na casca do cágado, pões o cágado no chão e, como ele anda devagar, tu tinhas tempo de ver a maçaroca na cana, de a esnocar e meter para a saca.
Tonho não ouviu mais nada, sai disparado a rosnar e os outros , vá lá, só depois dele desaparecer, é que comentaram e se desmancharam a rir
- Um raio ta palira, garoto do diabo, és tchapado... Onde é que foste a buscar essa do cágado... um raios ta palira!
O Sr. S. Bartlameu vem aí... A descamisa já não se faz e a festa rija em honra do orago também já foi coisa doutros tempos. Já não há maçarocas e os frangos para o leilão e as belas fogaças já estão em extinção.Nem já para as merendas se levam toras de toucinho februdo ou de morcela ou chouriça,.
Vale o baságueda para rememorar...
Ainda no tempo do Padre Pinto - Que repouse onde merece estar...- fui eu o leiloeiro. Aquilo esteve valente e os mordomos nunca tinham visto tanto dinheiro e disseram ao Padre Pinto
-O Rapa a unha, vai ali para a adega e come e bebe o que quiseres com quem quiseres
Eu fui e agarrei uns poucos. A loja tinha por lá umas abóboras meninas e como os vi meios tocados, enxertei um garrafão do Chquim Bargão e parti uma botelha, pus numa travessa
: Vá lá... comei aqui um melãozito... Dois ainda roeram e apenas disseram que tinha falta de doce...
Outros tempos, outros passatempos.
Se estais de férias que sejam mais doces que as botelhas.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNDDE

quarta-feira, agosto 04, 2010

A NOSSA FALADURA - CLVI - ARTESA

Serão muitos poucos os xendros que se lembram deste termo. Os tempos passam e com eles a memória se esvai. Vão longe os tempos em que os animais conviviam paredes meias com os seus donos. A chamada loja servia de casa de banho para todos, principalmente para as mulheres que se viam e desejavam para ir aviar a vida. Deve dizer-se que o mais mal cheirososo de todos é aquele que traz consigo o nome, mas, em contrapartida é o mais saboroso e aquele que é aproveitado do rabo até à ponta do focinho, ou tromba, se preferirdes - o porco.
Era para ele que se guardavam todas as águas sujas e se formava a vianda... Os vizinhos que não tinham como criar tal bicheza, esses, guardavam também as sobras e despejavam no caldeiro dos que tinham, contando que, na altura da matança, lhes coubesse um naco de febra que aumentaria o paladar da couve tronchuda.

Conhecida é a história de o porco chamar burro ao burro, pois então:"és mesmo burro... o nome assenta-te na perfeição... Passas a vida a acarrejar comida para mim, que só como e durmo..." Pois é, espera pelos Santos ou pelo Natal e depois logo te conto... Contigo já são catorze os que aqui conheci e eu ainda cá ando. Enche bem o fato que quanto mais pesares mais te louvam, com a faca espetada na barbela... vai grunhindo, vai...". Anda sorve a artesa (=pia) bem sorvida.»

Como o porco também nós vivemos de ilusões. Iludimo-nos com a efemeridade de algo que nos correu bem e somos sempre heróis por culpa própria em todas as histórias em que somos intervenientes. Os outros são sempre mais burros que nós. Ou julgamos que são. Puro engano...

Passamos a vida a considerar qe as ilusões que nos impingem são as maiores verdades e nunca, ou raramente, pomos em questão a seriedade dessas verdades: só assim, à laia de amostra, já algum dia vos questionastes acerca de a alma existir ou não? Por que carga de água havemos de ser duais: corpo e alma? por que raio há-de esta ser imortal e aquele mortal? Não será mais razoável entender a imortalidade como a lembrança dos antepassados na memória dos vivos? Quero dizer, por exemplo, que os meus pais são para mim imortais porque enquanto eu viver os recordo e à vida que me proporcinaram, mais aos tempos que com eles convivi. Aqui é que está a imortalidade e não numa crença sem sentido racional, mas que se enraizou numa tradição cultural com tal força que se tornou lugar comum e portanto padrão cultural indiscutivel. Ilusão? Temos legitimidade para assim pensar.

Recordo aqui uma cena: foi apresentado um elefante a três cegos... A um deram-lhe para apalpar o rabo e ele disse,: o elefante é como uma corda... A outro possibilitaram-lhe que percorresse o dorso e: "o elefante é como uma parede..., ao terceiro colocaram-lhe as mãos numa pata do paquiderme e ele: "o elefante é como uma coluna,...

São assim as nossas convicções quando não as fazemos sofrer o efeito do crivo criterioso: julgamos que a nossa verdade é a única verdade...

Perdoe-se-me a ousadia da alegoria: sorvemos tudo o que nos vão pondo na artesa e como não saímos da pocilga da loja, até julgamos que não há outra comida diferente da que nos dão. Sorte a do burro que sempre arrisca uma vergastada, mas rói a folha viçosa da parreira, quando não mesmo se refastela com uva madura ou maçaroca de milho grada, iguarias que nunca passarão pela artesa do tó. É caso para parafrasear Luísa de Gusmão: "antes burro toda a vida do que porco por um ano".

Que conte dos anais da inteligência bacoreira resta aquela questão do porco à galinha:« sabes tu, animal de plumas, a diferença entre empenhado e imiscuído?» O bico respondeu: "Não". «Pois olha, retorquiu o quadrúpede roncador : "Para a semana casa-se a filha do nosso patrão... tu vais estar empenhada na boda com os teus ovos, mas continuas aqui... Pior estou eu que estou lá imiscuído ..."

Este queria não comer do que lhe punham na artesa... de pouco lhe adiantou... Assim nós, salvo seja...

XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNDDDDDEEEEE!

quinta-feira, julho 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLV - FERRÉM

Há alturas da nossa vida em que o que esperávamos que acontecesse, por variáveis, as mais parasitas possível, é profundamente alterado. Temos qua aprender a lidar com o imprevisto.
Não que concorde muito com o pensador de largos ombros (Platão, de nome próprio) mas admirei o seu pensamento em O FÉDON : A vida é um treino para a morte.
Vem isto a propósito de que já há bastante tempo que vos queria agitar a cabeça outra vez.
Calhou hoje.
Aquilo que nós não somos é muito mais do que aquilo que somos: na verdade , eu sou apena um indivíduo e em termos absolutos fico diluído no seio da sociedade que é, ela própria, composta por indivíduos.
Fazendo parte da sociedade, tenho mais um número do que um nome, porque onde quer que eu vá só me perguntam números ( B.I. N.I.F., N.I. B., ...) e nunca o nome. Não deixa de ser interessante este país, onde os cavalos têm nome e as pessoas apenas têm números.!
A verdade é que sendo todos imperfeitos, todos somos importantes e , mais ainda, a sociedade é o que é porque são os indivíduos - entidades únicas, uma a uma- que a constituem. Logo, o importante sou eu enquanto indivíduo e não a sociedade enquanto massa anónima de indivíduos.
Aqui está o nó górdio da questão: a minha individualidade não se pode confundir na massa caótica da sociedade. Afinal a vedeta sou eu e não o todos que é igual a nenhum , porque estão todos no mesmo pedestal... Não! eu quero um degrau só para mim e subo ou desço viro para um lado ou para outro , não porque me mandam, mas porque eu decido. Nunca alieno a minha Personna e os outros só me afectam se eu quiser ser afectado por eles. E ,por muitos, quero mesmo ser afectado que eu não sou um antissocial; por outros, nem tanto...
Bom... mas voltando ao cerne , não há dúvida de que aquilo que eu sou é muito maior do que aquilo que eu não sou.
Breve: o NÃO-SER é maior do que o SER. O que eu sou é ridículo face o que eu não sou.
Mas se lermos isto do outro lado da barricada então aquilo que eu sou é muito mais importante do que aquilo que eu não sou, porque os outros também não são aquilo que eu sou e assim o cam- po do SER é muito maior do que o do Não -Ser, porque os outros, tal como eu, são enquanto são eles próprios e assim o que todos somos é maior do que aquilo que não somos. Logo O SER É MAIOR DO QUE O NÃO-SER.
Pronto, ficamos aqui... e vamos à xendrice.
O que devia acontecer na aldeia xendra não era e o que não devia ser abundava.
Vejamos:
Zé Cavaleiro só tinha uma videira de casta CALÚ mas dava vinho para todo o ano! Não devia poder acontecer mas era facto.
Zé Rolo não devia ter jeropiga que não fosse resultado do 3 por 1 de mosto para aguardente, mas laranjada Prazeres, canela e um pouco de agurdente fraca adoçada com açúcar amarelo, matava a bicheza a muita gente.
Troa, Tó e João Robalo, deviam ter sempre chita da tabela, mas estava sempre esgotada: o que devia ser não era.
As ruas deviam ser calcetadas, mas não eram... Duma vez, eu, coiote pete,o grande, nosso sargento, abraço de bassoka, toco jabão, jorge alguitarra, zé verniz, e não sei se mais algum, plantámos uma leira de couves em frente da casa do então Presidente da Junta, o sr. Domingos Campos... Não devia ter sido , mas foi.
Os xendros tinham lá porras: primavam pelo que não devia ser e cuspiam no que devia ser... Ou seria o contrário?
Costume em desuso em o pagamento da "PATENTA": Cachopo de fora de aldeia que "alevantasse" dali garina, tinha que a "comprar".
Manel, moço escorreito, bem posto, fugido à tropa, arrastou a asa a Alzira e ela disse que sim.
Oficializado o namoro na casa do velho Chaves, fui logo encarregado do pagamento da patenta.
Chamei os dois à pedra e ele não se encolheu: tudo o que quiséssemos desde que ele também fosse. E foi.
Falei com "nosso cabo", tinha 5 coelhos bravos congelados,Manquinho e Alguitarra punham o vinho e Zé Figueira roubou o pão à ti Conceição Pires (sogra) e o resto foi disponibilizado por "Tu no me ouves" e seu irmão Farnando, que eram ali vizinhos e tinham uma horta assim comédado...
Mas faltava a ferrém... Diz Estoira Vergas: Nosso Farnando, ali à frente da casa do brigadeiro tem lá ferrém de categoria e o Guilherme Chornico ali na raivosa tem lá alface de meter cobiça!
Manquinho disponibilizou bicicleta e Tu No me Ouves também e lá foram Estoira Vergas e Alguitarra ao Guilherme e, eu e coiote pete ,a nosso farnando a pilhar a necessária ferrém. Era ainda pequena mas deu para o que se pretendia: fazer salada para os coelhinhos... Ainda se roeu um pouco de corriol e língua de passarinho, mas tudo entrou como ferrém e ninguém morreu. Mainada.
Lá se paparam os coelhinhos e depois viemos para a inefável Rosa e aí , quem estava mamou o que quis à conta do Manel que, já borrachinho, tanto lhe dava 2 como 3: acabou pagando três contos e meio.
A minha ( sempre vos digo a título de curiosidade) ficou-me em 868$50 ( era um mês de ordenado) e não meteu ferrém que eu não conhecia as hortas da vila.
Agora é tudo nético e já não há bairrismo. Já é tudo virtual e ferrém é coisa que não consta do vocabulário up date, download, upload, refresh, search, facebook, twitter, e mais que vós sabeis.
Mas nada que chegue a uma boa patenta acompanhada por excelente ferrém, tinto de uva, pão caseiro, batata de tempo e companhia de eleição
Ainda haveis de pagar a patenta. Mesmo que sem ferrém...
Xi GRAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!