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sexta-feira, dezembro 05, 2008

BANDA DE ALDEIA DE JOÃO PIRES




Naquele ano de 1908, a capital da Nação vivia dias agitados. A pontos de se ter morto um Rei, Carlos, Dom, o Primeiro. Em Aldeia de João Pires viviam-se igualmente dias agitados, mas por motivos bem mais prosaicos, mas não menos consequentes: fazia-se nascer uma Banda Filarmónica.

Há dias, festejou-se com pompa e circunstância, o centenário da sua fundação e o Baságueda aqui presta a sua homenagem a tão insigne Instituição: A União de Aldeia de João Pires, Sociedade Recreativa e Musical, de seu nome completo e oficial. A pompa e a circunstância incluíu a publicação do Livro “Banda Filarmónica de Aldeia de João Pires – Centenário”, da autoria de Lopes Marcelo, que reúne muitas das muitas histórias que cabem num século de história.


Contam-se duas, a primeira, protagonizada pelo primitivo impulsionador da Banda, o Pe José Maria, e recordada no dito Livro, remete para o episódio da efémera restauração da Monarquia em Aldeia de João Pires, em 1912; a segunda, referencia um outro grande homem da Banda: o Sargento “Jaimeca”.


1. Com a devida vénia, transcreve-se um pequeno extracto do texto de Lopes Marcelo:

“Na sequência da implantação da República em 1910, seguiu-se um período de agitação em que a perseguição às Ordens Religiosas e à Igreja Católica foi muito forte, com a alteração das funções dos Párocos resultante da Lei do Registo de Afonso Costa em 1911. Acresce que o Padre José Maria era um fervoroso adepto da monarquia e, em 1912, perante a notícia de que o movimento chefiado por Paiva Couceiro tinha restaurado a Monarquia no Norte, não se conteve e proclamou restaurada a Monarquia em Aldeia de João Pires em clima de festa e com foguetes. Quando a notícia chegou à guarnição militar aquartelada em Penamacor, logo a tropa saiu para repôr a ordem republicana…”

A história continua com a fuga do Pe José Maria, primeiro para Monsanto, com contornos rocambulescos, depois para a Espanha e daí para o Brasil. Anos mais tarde, em 1926, haveria de retomar as suas funções de Pároco de Aldeia de João Pires (e Aldeia do Bispo).


Fugas à parte, realça-se o episódio interessante da restauração da Monarquia pelo Pe José Maria, donde, comparativamente à grande maioria do resto do vastíssimo território português - nesta época incluíam-se as províncias ultramarinas -, Aldeia de João Pires tem mais tempo de Monarquia, ou, se se preferir, tem menos tempo de República.

2. Jaime Antunes Rei, mundialmente conhecido por Jaimeca, atingiu o posto de 1º Sargento do Exército Português, tendo dedicado parte da sua vida à Banda de Aldeia de João Pires, sobretudo a partir da aposentação em 1963, quando se fixou na sua aldeia natal. Localmente, também se referiam a ele como "sargento porqueiro" por via da criação de suínos que mantinha ali nas imediações da aldeia. O Changoto já nos fez antever, no post anterior, quão especialista ele era na arte de criar recos, a pontos de até ter pretendido registar a patente de uma nova raça: a ALJARPI. Os animais andavam soltos na sua propriedade, alimentando-se de tudo o que podiam encontrar, fossem bolotas ou criadilhas, preocupando-se Jaimeca, todavia, em lhes fornecer o complemento nas medidas que só ele sabia determinar, com as farinhas que ia comprar a Aldeia do Bispo, ao estabelecimento comercial dos progenitores destes dois que vos entretêm no Baságueda. Igualmente não prescindia da clássica vianda, composta de restos de comida e legumes vários, muita botelha, batata miúda, couves, tomate, enfim, todo o excedente da horta.


Antes de ter investido numa mobilette, seguramente por influência de algum emigrante em França, daquelas que possuíam pedais só para a pôr a trabalhar e depois andava sem mudanças, o seu meio de transporte por excelência era a bicicleta, quer para se deslocar a Aldeia do Bispo à farinha, quer para abastecer a pia dos seus tós. Cena característica era a do Jaimeca a transportar vários caldeiros de vianda enfiados pela asa numa vara assente no guiador da bicicleta, mais uma saca de ração no suporte traseiro. Um equilibrista, o Jaimeca. E sempre, mas sempre, com uma mola de roupa a apertar a parte exterior das calças, junto ao tornozelo, por via de não as sujar com a massa da corrente da bicicleta.


Numa das centenas de vezes que lhe vendi uma saca de 50 Kg de ração para porcos em crescimento, que ele acondicionou cuidadosamente no suporte traseiro, já ele tinha percorrido 100 metros estrada acima a caminho da sua Aldeia de João Pires, quando, ali junto à casa do Ti Julho Aspirante, lhe aconteceu um raro percalço que até o fez tombar. A cena resume-se em dois parágrafos:


Vinha a descer o T'Zé Branco, de aguilhão empinado assente no ombro, à frente da sua Junta mista composta pela vaca andorinha e da burranca freira maria, assim chamada por causa da lista branca na testa a contrastar com o escuro do resto do pêlo. A sair do quintal, vinha o jerico pardal do Aspirante que de imediato cheirou o cio da freira maria. O instinto animal do pardal não quis saber dos berros do Aspirante nem do aguilhão do Branco e vai de atirar as patas dianteiras para cima da asinina fêmea, firmemente determinado a doar-lhe a sua contribuição para a reprodução da espécie.


O rebuliço apanhou o nosso Jaimeca em cima da bicicleta, em equilibrio periclitante, não tendo conseguido evitar o estatelanço no alcatrão. Não ficou muito magoado o maestro músico, mas a saca da ração rachou ao meio espalhando a farinha para porcos em crescimento a toda a largura da via, mesmo à frente da vaca andorinha. Esta não se fez rogada a aproveitar a oferta, manjar raro para as sua beiças. Foram precisos algumas aguilhadas no costolado dos quadrúpedes, evidentemente acompanhados por vocabulário impróprio, mesmo para eles, por parte do T'Zé Branco, para repôr a ordem e a lei. Ajudei o Jaimeca a apanhar a farinha para uma nova saca e ele lá seguiu em direcção à aldeia dos cucos.



Aqui ficam expressos e registados os votos de longa vida à Banda Filarmónica de Aldeia de João Pires.







sábado, novembro 29, 2008

A NOSSA FALA - CXVIII - (T)CHASCAR

Em tudo o que move, algo há em repouso e, em tudo o que está quieto, algo se altera. Assim somos nós: sempre os mesmos e sempre diferentes. Por isso a vida aumenta e encolhe ao mesmo tempo. Cada dia temos mais um e cada dia nos falta um. Do nascimento à morte é este o nosso sortilégio.
Além disso a nossa cara muda em função da situação, do local, do tempo, da idade, da emoção, do conhecimento ou desconhecimento, da cultura em que nascemos, do género sexual, do interesse, da necessidade, que sei eu... Sendo sempre nós estamos sempre a ser outro de nós. Nem nos esgotamos quando somos nós, nem há qualquer outro de nós que nos substitua cabalmente.Não sendo profissionais, somos actores. Na verdade, o actor é aquele tipo de pessoa de quem nunca sabemos se é ele ou alguma personagem que esteja a representar. A identidade entre o ser e o parecer consumam-se e confundem-se na arte de representar. Vede bem! o que está presente não é o presente, ele mesmo, mas um presente repetido, reforçado, outro presente: RE-PRESENTE(AR). Confuso, não é? Se calhar não vos soube apresentar o que queria que agora fosse a vossa re-presentação de mim. É ou não verdade que, quando me ledes, me imaginais? Construís uma imagem de mim, isto é, uma re-presentação de mim. Com a incerteza de que nunca sabeis se corresponde à verdade. É isto a Hermenêutica: a personificação de Hermes, o deus dos ladrões. Quando interpretamos roubamos, porque tornamos nosso, sem autorização do autor, o que ele nos apresentou. Nunca sabemos se o que pensamos que é, é o mesmo que o autor queria que tivesse sido. Foi por isso que Sócrates (o grego) nunca escreveu. Defendia que o texto morria na palavra. Eternizava-se. Já a palavra falada discute, vive, contrapõe, adapta-se, está presente ali, sempre à hora.
Vamos às xendrices:
Nunca foram muitos, na nossa aldeia, os criadores de porcos - aqueles que tinham porcas PARDEIRAS (por parideiras), mas sempre acontecia que, voluntariamente ou não, por vezes, aparecesse alguém a anunciar que a porca se tinha coberto e estava cheia: "nem dei conta. O sacana do bácoro tão pequeno saltou à porca da matança. Agora só a posso matar lá mais prá frente, tenho que a deixar crier os recos."
Calhou-me a mim que, lá em casa, ali para os lados dos cabeços havia três porcas pardeiras e, mais grave ainda, todas três pariram com pouco intervalo. Uma vinha cheia quando foi comprada e não se sabia, a outra tinha sido chegada ao barraco (varrasco) do Jaimecas à Aldeia de João Pires e a terceira tinha sido vítima do já atrás referido: um irmão, que estava na mesma furda, encheu-a.
Jaimecas, esse sim, fazia criação com alguma intensidade, extensão e continuidade. Mestre da Banda da Aldeia, para quem envio os parabéns pelo centenário, músico emérito, apesar dos dedos sarotos na mão esquerda, tanto tocava sopros como cordas. Um campeão.
Gabava-se de ter ele próprio criado uma espécie exclusiva da raça suína: a espécie ALJARPI.
A denominação advinha de ALdeia de João PIres e do nome dele ao centro - Jaime Antunes Rei - Estais já ver: AL JAR PI.
Voltemos então à minha desgraça: as porcas pariram mesmo no calor- na segunda semana de Agosto. Calor que bastasse, condições pouco menos que reles e muito, muito figo para colher. Dizia o meu pai que a farinha custava dinheiro e que as figueiras precisavam de ser colhidas e era muito mais barato. Assim, por essas cinco e meia da manhã, lá ia o desgraçado e mais o famoso carrinho quadrado, a colher os figos que, se fossem colhidos com o sol alto, as figueirs secavam e os figos emoucavam. Colhia para o chão e depois apanhava para dois cestos que tinham que vir bem cheios para as benditas porcas. Para agravar, meu pai comprou figueiras carregadas, em pé, e mais tive que colher. Cheguei a gretar os dedos do leite do figo. Por fim - o homem é inventor - roubava uma empa de um feijoal que houvesse por perto, varejava a figueira e tombava maduros e verdes. Apanhava os maduros e enterrava verdes e folhas. Vai lá vai!
Uma das porcas estava parida , paredes meias com um varrasco e a divisória era larga o bastante para que os leitões pudessem passar. Ora, o porco apanhou um e mordeu-o por cima das mãos na cerviz. O bácoro conseguiu fugir para junto da mãe, mas trazia uma enorme ferida.
Resultado: sobrou para mim: tive que ir dentro da furda para agarrar o leitão, mas deparei-me com dois obstáculos de monta. O primeiro é que os recos fugiam à deriva e o segundo era que a porca CHASCAVA (Batia os dentes, assim à maneira das cegonhas quando vêem o parceiro a chegar com alimento para todo o ninho). Consegui que o porquito entrasse para uma cesta que aventei para fora e meu pai agarrou. A ferida estava cheia de larvas de vareja. Limpámos bem, untamos com azeite e colorau, como se faz aos presuntos e tornamos a meter o tó na furda. A mãe, quando lhe cheirou ao azeite, vai de lamber. Moral: toca a ir outra vez apanhar o porco. Fui, agarrei, trouxe, mas agora em vez de pormos azeite barrámos com creolina pura. A porca bem cheirou e o porco bem ganiu, mas lá se safou. A ferida cicatrizou e veio a ser o porco da matança. Coisas da vida.
E eu já não vos maço mais hoje. Logo volto com mais xendrices.