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sexta-feira, setembro 11, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXVIII - CÓFIA

De algum modo, quando olhamos para as mitologias e divindades dos antigos, mormente as greco-romanas, que nos estão mais na matriz, rimo-nos daquelas fabulosas histórias e acontecimentos que justificam os mais diversos comportamentos dessas entidades sobrenaturais...
Consideramos ridículas muitas acções e situações que as diferentes divindades nos proporcionam. Nós, que somos educados e formatados para uma mitologia de deus único, entendemos que aqueles nossos antanhos eram uns mentecaptos que tinham um deus para tudo...
Com o advento do cristianismo e, mormente, depois do édito de Milão, promulgado por Constantino em 313 que a tornava como religião oficial do império romano, essas divindades desapareceram e o deus uno e trino ocupou o lugar cimeiro em matéria de religiosidade. Foi sol de pouca dura já que logo após a morte de Constantino ocorre a tetrarquia imperial e o cristianismo começa a sofrer as primeiras cisões com a ortodoxia oriental e com os coptas no Egipto. Muitas outras cisões ocorreram ao longo dos tempos: basta lembrar os cárpatos, os albigenses e mais tarde a Reforma com Lutero, Calvino, Huss, Henrique VIII,... e mais na actualidade a igreja dos santos dos últimos dias, a iurd, a piniel, a maná e toda uma plêiade de derivados do cristianismo que seria fastidioso enumerar, para além de nunca ficar completa. Fiquemos, pois, por aqui...
Deixando de fora o judaísmo, a mas antiga religião monoteísta, mas que sempre ficou muito circunscrita e confinada, a outra grande religião monoteísta é o islamismo. A sua expansão é hoje incrível  e são também conhecidas algumas diferenças de interpretação do livro fundamental que é o Corão.
No que aqui nos diz respeito é de assinalar que o islão nasce também ele, a partir da Bíblia ou, se preferirmos, da Torah.
Javé prometeu um filho a Abraão donde derivaria toda a descendência de Israel. Ora, a esposa de Abraão, Sara, era estéril e ela, querendo que Abraão deixasse descendência ofereceu-lhe a escrava Agar para que ele tivesse com ela um filho. Assim foi: nasceu Ismael. Só que os judeus e depois os cristãos entenderam que o bastardismo de Ismael não correspondia à promessa de Javé. Tanto assim que Sara acaba por conceber, já idosa, um filho de Abraão,que chamou de Isaac que será depois o pai de Jacob, o tal que desposou Raquel, serrana bela, filha de Labão, que daria origem às doze tribos de Israel. Para o Judaísmo e para o cristianismo é Isaac o filho legítimo de Abraão, sendo que os cristãos acreditam que o Messias, Cristo, descende  da linhagem de Isaac, enquanto os judeus ainda esperam a vinda do Messias. Maomé e os seus seguidores entendem que o filho de Abraão que cumpre a promessa de Javé é Ismael e portanto derivaram a descendência até Maomé que é avisado da sua missão pelo arcanjo Gabriel, exactamente o mesmo que anunciara a Maria a sua gravidez sem intervenção humana....
Assim sendo o grande patriarca das três religiões monoteístas que mais influência exercem e exerceram no Ocidente é Abraão.
Já para aqui vai muita história...
Vai já longe o tempo em que eu, puto reguila, passava as tardes soalheiras de Verão com a minha bisavó paterna, Isabel, vizinha da velha Menas e da velha Manata , enquanto os meus pais faziam os quintos lá para a serra da raposa e da marvana.. Eu corria lagariça acima, lagariça abaixo, empurrando o arco e elas, sentadas em tropessos de cortiça, à sombra e junto à ombreira da porta de uma delas, dedicavam-se à cófia, fiando o linho de roca e fuso na mão. Na altura o empedrado que actualmente percorre toda a Lagariça não existia, salvo em poucos espaços. Cansado do arco, de vez em quando lá me sentava junto delas e tornava-me o alvo das atenções. Foi com elas que aprendi muitas lenga-lengas que, com mágoa, já não sou capaz de reproduzir. Ainda assim deixo-vos estas: "Pipa velha, pipa nova, foi ao mar arrebentou, aqui está meus senhores quem se cagou"; sarra madeira no cu do zé peneira, lá vem o leão com a tranca na mão, feijões pra mim, cagalhões pra ti; pico pico sarapico, meu compadre zé penico, foi ao mar buscar sardinha para o filho do luís que está preso pela ponta do nariz, três cavalos a correr, três meninas a aprender, qual será a mais bonita que se irá esconder...
Pois é, o tempo tudo leva e tudo traz...
Por isso tal como a cófia já desapareceu da prática diária das mulheres à ombreira da porta e estas lenga-lengas já ninguém as diz, quem nos garante que daqui a dois mil anos ainda se pratiquem quer o cristianismo quer o islamismo ou o judaísmo. Pode ser que outras religiões e outros deuses ocupem o espaço sagrado da humanidade
E que bom seria que não se cometessem tantos crimes hediondos como aqueles a que hoje assistimos, tudo em nome de deus!
O mal já não é só de agora: Gregório IX institucionalizou a inquisição em 1231 e já antes as cruzadas combatiam os hereges desde 1095 até 1272. Em Espanha a Inquisição atingiu foros inimagináveis com Tomás Torquemada e chegou até ao sec XIX. O Islão iniciou-se mais tarde: em Meca no ano de 610 e confirmar-se-ia com a Hegira (fuga de Maomé de Meca para Media) em 622.
Será por isso que na actualidade as chachinas, ainda em nome de deus, sobretudo perpetradas por seguidores de Alá,contra todos os infiéis, estão cada vez mais acesas.
Só vos lembro que hoje é dia 11 se Setembro!
XXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDDEEEEE

quarta-feira, dezembro 31, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXX - (ES)CARAMOUÇO

Os Menas eram mais que muitos. A mãe de todos eles - e eram oito vivos quando eu comecei a ser gente- era vizinha de minha bisavó paterna, Isabel de seu nome, a quem eu ainda fiz a vida negra. Nunca lhe vi uns sapatos. Os pés, se caminhassem na areia, não precisariam de plataforma larga, pois, a bem dizer, tinham tanto de comprido como de largo. Vi-a várias vezes calcar lacraus e pisar silvas e outras plantas com carapetos. Por vezes levava-me com ela à lenha para o lume e já garotelho trazia quase tanta lenha como ela. Insisti com meu pai para lhe oferecermos um fogão a gás que substituísse a velhinha panela de ferro que lhe servia para tudo confeccionar. Invariavelmente tinha miga de batata que nunca mais comi igual. Fedelho como era, lembro-me de me sentar num tropesso de cortiça, perto do lume, junto a uma mesa esconça, coberta por uma toalha de estopa, bordada à mão, e mais encardida que tapete de seira à entrada de lagar de varas. É aqui que volvemos aos Menas. A mãe, Maria - pois que outro nome poderia ter? - morava contígua  à minha bisavó, cofiava o linho sentada num banco de pedra, ali na curva da lagariça, com tal arte e rapidez que me deixava encandeado a olhar para a sua destreza, na sábia habilidade da articulação da roca e do fuso. Era a companheira predilecta de minha bisavó. O pai, Mnel, junto com Chico e João eram os lagareiros do lagar da lameira. Que saudades tenho desse lagar!Diga-se, de passagem, que já aqui no basa fizemos força para que este espaço, que ainda se mantém de pé e em estado razoável de conservação, fosse adquirido pela autarquia e sobrevivesse como escola viva da arte de bem laborar a azeitona . É, de facto, uma lástima que uma relíquia destas se deteriore sem recuperação condigna.
O lagar é fácil de descrever: duas salas. Numa estava o pio onde se moía a azeitona (600kg de cada vez - uma moedura -) a poder de tracção de uma junta de vacas do Alberto Vaz, que, jungidas, puxavam três enormes pedras de granito excêntricas entre si para  apanhar todo o lastro do pio. Em média cada moagem durava duas horas ininterruptas até a massa estar em condições de ir para as seiras. Eram estas em número de quatro o que, como facilmente se entende, implicava que cada uma levasse 150kg de massa. Para tal, tinham que ficar todas de alto (es)caramouço. Muitas vezes, quando a massa era mais esbarroteirada  era necessário um prodígio de equilíbrio, conseguido através de quatro estacas que se interpunham entre as seiras de forma a que o prumo não sofresse alteração significativa, já que, quando do aperto pelo peso das varas, podia esbarrondar para um dos lados e lá se ia tudo perdido. É que além das varas - enormes troncos de sobreiro - a prensa era acrescida pelo peso de pedras monumentais que se suspendiam da ponta dessas varas através de um fuso com uma chave - tudo em madeira - que era uma verdadeira obra de arte.O levantamento dessas pedras era feito pela força de dois homens que, simetricamente tocavam um barrote que, encastrado no eixo do fuso, o içava ou descia, conforme se quisesse maior ou menos pressão. Toquei-o muita vez. A massa era transportada do pio para as seiras mediante o uso de grandes gamelas que muitas vezes ajudei a transportar e que iam sempre de caramouço.
A outra sala era propriamente o sacrário do lagar: um espaço térreo que comunicava à direita com a sala do pio e à esquerda tinha a meio a caldeira, permanentemente quente por uma fogueira sempre acesa. Ligeiramente desnivelado, estava o patamar das seiras donde o oiro de oliva escorria para a tarefa  - talha de barro embutida na rocha - com torneira  de escape para aliviar o azinagre que ia directamente para o inferno - poço onde era retida a água ruça -   antes de ser descarregado para a ribeira que corria contígua. O azeite corria para outra tarefa paralela já decantado, donde depois seria medido para o respectivo dono. As seiras eram sempre espremidas duas vezes: após uma primeira espremedela, a massa era depois toda desfeita, tal como se faz com os queijos à ovelheira, e de novo enseirada, depois de escaldada pela água fervente, tirada da caldeira com uma gamela de cabo comprido. O bagaço resultante era depois amontoado num canto, donde finalmente seria posteriormente carregado para fábricas mais refinadas.
Os Menas dormiam pouco, tal como Alberto, já que, para conseguirem fazer três moeduras por dia, tinham que começar por volta das 5 da manhã e esgalhar até às 23. Ainda os acordei algumas vezes já que meu pai era um dos três a quem incumbia a tarefa de encher a caldeira. Nas férias de Natal, invariavelmente calhava-me a mim esse trabalho. Havia um pocinho à entrada do lagar, do lado esquerdo, donde eu tirava a água com um caldeiro preso a uma corda . Estava completamente às escuras pelo que tinha primeiro que tentear a altura da água para depois atirar o caldeiro de borco e encher outro maior que era transportado pela ti Rosa Mota ou pela ti Maria Augusta, que entre si se revezavam, ora na acarreja ora no despejo para a caldeira. Eu ficava sempre no pocinho. Apesar do frio das cinco da manhã num instante ficava a suar. O enchimento da caldeira demorava cerca de três quartos de hora, pelo que, como era noite de todo eu ficava ao lume da caldeira, sentado num banquinho de três patas e, não raro, dormia um sono assado para completar o sono interrompido àquela hora da manhã.
Assisti também a muitas medições do azeite pelo ti Mnel Menas, o mestre: a primeira deca (medida de dois litros) ia para a casa, a segunda de um litro ia para a lenha e outra ia para a água. Era desta que eu partilhava num terço. Significava isto que, por dia, ganhava um litro de azeite resultante do terço de cada uma das três moeduras. Nada mau. Depois o ti Mnel media dez decas para o dono.A décima primeira voltava a ser para a casa, a que se seguiam mais dez para o dono e assim sucessivamente. Não raro, comia o pequeno almoço com os Menas : uma plangana de couve cozida, ora com bacalhau, ora toucinho assado, atum, alguma febra ou chouriça, morcela ou o que os donos iam ofertando ou eu mesmo levava, sempre bem temperada com azeite do novo. Bebíamos um tinto do novo por um copo de lata que mais parecia um caldeiro e voltava a dormir até ser dia. Outros tempos!
Vem aí 2015: que aquilo que desejardes vos seja servido de escaramouço.
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDDEEEEE!

quinta-feira, março 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIV - CAMBALHÃO


O domingo imediatamente seguinte à lua cheia imediatamente seguinte ao equinócio da primavera - o de Páscoa - estava já próximo. Naquele ano dos finais de 60 os dias andavam primaveris e era tempo de caiar a casa. Ti Arminda Malagota desceu ao palheiro onde dormia a burra andorinha, e depois de atirar com um braçado de feno para a manjedoura, para acalmar a burranca que resfolgava excitada, desviou cuidadosamente uma pedra da parede, deixando ver um buraquinho com a abertura suficiente para ela lá introduzir a sua mão. De lá retirou uma bolsinha da qual escolheu 3 moedas de 5 escudos que enrolou no lenço das mãos e voltou a colocar a pedra no sítio que se encaixou na perfeição. Nunca ninguém iria conseguir perceber que ela escondia ali uma bolsinha de linho com notas e moedas que somavam mais de 50 contos de réis. E foi-se a caminho do povo, à loja da Ti Rosa do Cunha a comprar 2 quilos de cal branca que havia de desfazer em água num velho caldeiro de lata mexendo cuidadosamente com um changoto limpo, numa proporção de 1 de cal para 3 de água como a sua mãe lhe tinha ensinado, até obter uma solução cor de leite que deixaria em repouso até ao dia seguinte.

Logo à entrada, do lado esquerdo, a sua casa tinha uma pedra rectangular –a pedra dos cântaros - com 1 metro por 40 de fundo, encrustrada na parede à altura da boca do corpo, sobre a qual estavam sempre dois cântaros de barro – os asados  -  que no Verão forneciam uma água mai fresquinha que eu sei lá! e nos espaços à volta deles, ela ajeitava a sua colecção de antiguidades: um candeeiro de lata que lhe deu o primo Pantelhão, um lampião antigo que herdara do pai que tinha herdado do pai, três molídias, quatro cabaças envernizadas e uma colecção de outras peças em madeira que o seu homem, Manel Malagoto, se entretinha a fazer nas noites chuvosas de Inverno: cangas, chambaris, arados, tropessos, carros de bois. Juntou tudo no batorel do lado de fora e meteu-se a esfregar vigorosamente as paredes com escova de arame e lixívia.

Havia de fazer o mesmo na lareira. Esfregou a panela de ferro, as trempes, o pucheiro e o caldeiro da vianda com palha de aço, varreu cuidadosamente a cinza da pieira, aquela para onde as filhas, quando eram garotitas, deitavam os dentes que lhes caíam e recitavam “pilhêrinha, pilhêrão, toma lá este dente podre e dá cá um são”,  sempre a cantarolar uma cantiga que tinha ouvido, em garota, ao Ti Mné Ceguinho, e que falava de um tuberculoso que queria bem a uma rapariga fina, filha do regedor, um amor não correspondido que acabava em tragédia com o rapaz a suicidar-se depois de matar a autoridade local e a filha fina. A cinza, guardou-a num caldeiro de lata farrusco, com ideia de a botar na leira dos alhos.

Já o astro caía atrás da Gardunha quando lhe aparece João Tramoço que vinha pelo pagamento da cava da vinha. Nesta altura do ano, o Tramoço ganhava uns tostões cavando vinhas ao cambalhão, técnica antiga adequada nos vinhedos em que as videiras estavam dispostas de forma irregular. Algumas semanas mais tarde, seria preciso arrasar os cambalhões por forma a que o terreno ficasse novamente direito. Desta forma, a terra arejava e eliminavam-se as ervas.

O Tramoço ajustava o preço consoante a área e o tipo de terra e, entre duas borracheiras, aos poucos ia deixando as vinhas pejadas de pequenos montes de terra. Depois de ter suado durante a manhã daquele sábado a cavar a vinha do Mnel Malagoto apresentava-se para receber o combinado, que havia de ser trocado por vinho nas tabernas do Cavalheiro, do Zé Rolo, do Fatela e do Xico Miguel, durante o domingo.
O Malagoto que se dedicava a mudar a cama da andorinha assoma à porta do palheiro: 
- Eu pago-te mas só quando fores a desfazer os queijos que lá deixaste. Atão aquilo é trabalho que se faça?
Durante a tarde ele tinha passado na vinha e não aprovara o trabalho do Tramoço que, para despachar a empreitada e receber a paga, saltara os espaços onde não havia erva.
- Mintira!, defendeu-se o Tramoço.
A discussão foi azedando até que o Tramoço decretou:
- Ai no me quer pagar? Atão vai a ver, vou lá e desfaço os cambalhões todos.

domingo, dezembro 09, 2007

A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA

A mobília das tradicionais casas de aldeia resumia-se a pouco: três ou quatro tropessos de cortiça, umas trempes, umas cadeias suspensas do tecto, na qual se pendurava, tanto o caldeiro para a vianda do porco, como a indispensável panela de ferro, quando o lume com ala a fazia ferver mais depressa, já que lhe apanhava o fundo do bojo na totalidade e que ,depois de estar a ferver, era posta dum dos lados do lume na pedra do lar para manter a fervura; do outro lado, estava sempre outra panela- esta podia já não ser de ferro - onde havia sempre água quente que tanto dava para botar no caldo se estivesse basto, como no caldeiro da vianda, como no alguidar para lavar o barranhão e o talher usado ; ainda uma mesinha baixa, com uma gavetinha, onde se guardava o conduto para o pão, geralmente pendurado numa bolsa de pano cru dum prego da tabique (taipas) de ripa, forrado a papel de jornal, colado com massa de farinha ou farelo e, claro, o cântaro de barro - o asado - com a sua tampinha e o copo de alumínio, de borco na pia da tampa; algumas casas tinham um fogão a petróleo e muito poucas apresentavam um fogão eléctrico ou a gás de dois bicos sem forno. Raríssimas as que tinham fogão a lenha, em ferro fundido, e ainda menos as que dispunham de fogão alto de quatro bocas e forno. Na parede lateral à pedra do lar, num suporte de madeira com uma "étagère", uma candeia a petróleo- poucas vi já a azeite - com um registo que deixava sempre a torcida rente ao bocal e, claro, o canto da lenha -a PIORNEIRA - e a pieira para deitar a cinza e os dentes de leite dos garotos quando caíam, que, para além de manter ambiente quente, depois do lume apagado, era fertilizante indispensável nas leiras dos alhos e das favas. Era também da cozinha que, não raro, começavam as escadas que davam acesso ao forro onde se conservavam as batatas, as restes das cebolas, os cabos dos alhos, alguma bolsa com feijão grande e pequeno e mais uns alguidares de barro ou esmalte só usados em dia de matança e pouco mais. Era por baixo destas escadas que estava a cantareira com os pratos de alumínio ou esmalte e alguns tachos e panelas, pouco usados, uns e outras, já que o prato era colectivo - o barranhão.
O quarto tinha uma camita, quase sempre estreita para dois, com uma enxerga de palha de colmo ou milho. Lençóis eram pouco usados: antes se usavam uns cobertores finos que, depois eram completados por cobertores de papa e encimados por manta de ourelos ou de trapos ou de fita como também eram chamadas. No inverno, cama que se prezasse, havia de ter para aí uns cinco Kilos de roupa nas frias invernadas em que o vento perpassava a telha vã e encarquilhava as orelhas a descoberto fora das mantas.
A sala, quando existia, limitava-se a uma mesa e seis cadeiras a condizer, um aparador com cristaleira, onde estava a loiça dos dias de festa, chegando-se a passar anos sem ser usada. Nas paredes, uns quadros do Sagrado Coração de Jesus e/ou de Maria, a última ceia e o orago ou outro santo ou santa, trazido de alguma excursão. E assim se vivia. Lá se nascia e morria.
No pós guerra civil de Espanha -1936/39- o contrabando teve um incremento incrível e havia quem vivesse dessa economia paralela. Não era raro que os contrabandistas de aldeia fossem convidados a ir a Espanha à festa do S. Brás, padroeiro de Valverde del Fresno, e que os compradores e vendedores espanhóis, de alpergatas, meias grossas, gorras, pana, isqueiros, colchas e camillas,..., viessem também à aldeia quer pelas matanças, nesta altura do ano, quer no sr. S. Bartlameu , a 24 de Agosto...
Ora aconteceu que um espanhol veio para uma matança no Zé Aranhiço, ali ao cimo da lagariça e chegou no dia anterior, que a matança é cedo e a meloreja é coisa que não se pode perder. Dormiria na loja numa tarimba arranjada ad hoc mas já jantou com a família à roda da lareira a comer do barranhão como se impunha. Calhou a ficar do lado da lenha que era também o lado do cântaro da água - o asado -. Na casa do Aranhiço já havia petromax - luxo raro - mas a noite estava fria e o lume precisava de lenha para atear o toco que estava de cabeceira e servia de encosto aos paus mais pequenos que aqueciam o ambiente com a labareda: "mete lenha, espanhol dum corno", dizia o Aranhiço, "mete lenha, corno negro, tu num vês o lume a apagar-se"?... o espanhol tardou a entender que era a ele, que estava mais perto da lenha, que competia manter o ambiente quente e, as vezes que lhe chamaram de CORNO, passaram sem conto. Para cúmulo, a ti Alice tinha cozido feijão grande para a ceia, por mor de fazer o caldo da matança no outro dia de manhã com umas folhas de couve esfarrapadas, uns bagotes de massa manga de capote da grossa, onde, para adubo, se cozeriam também, a bexiga do porco do ano anterior e mais uns nacos de toucinho do alto. Os feijões estavam a saber a sal e a carne que os acompanhava tinha o mesmo forro de sal, pelo que o espanhol teve sede.
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
Levantou-se então o espanhol para beber e:"oh, filho dum corno, dá-me água tamém a mim", "eu tamém quero" «e eu»... entretanto, os feijões iam descendo no barranhão enquanto o espanhol enchia o copo e servia a família de água... Quando se sentou, apanhou já o fundo alguidar e contentou-se com a cebola picada.
Quando regressou a Espanha, depois, aí sim, de ter comido à tromba estendida na matança, dizia para os de Valverde e de Eljas:« Mira! se fores a Portugal, nunca te pongas del lado del agua ni del piorno, sino te llamaran hijo dum corno».
Nunca o espanhol também tinha comido broa e dessa gostou: «pero se te deren broa, prueva-la que es boa.»
Outro tipo de contrabando este, da comezaina e da cultura típicas portuguesas.
Ficai-vos com um XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII
P.S. - Se por aí houver alguma matança, deixai recado.