Mostrar mensagens com a etiqueta comédado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta comédado. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, abril 30, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXV - SAROTO

Se há tema de difícil tratamento, sem dúvida, o tempo ocupará lugar cimeiro. Agostinho de Hipona em resposta à pergunta: o que é o tempo, sai-se assim (Vide Confissões, XI, 14-17): «Se ninguém me perguntar, eu sei, se quiser explicar a quem me pergunta, já não sei.».
Podemos falar de tantos tempos, que difícil é em pouco tempo conseguir enumerar tantos tempos: tempo físico, tempo psicológico, tempo atmosférico, tempo atómico, tempo social, tempo real, tempo virtual ... e até algumas partes do tempo são tão diversos que até parece que não nos referimos ao mesmo espaço de tempo: ano civil, ano fiscal, ano lectivo, ano religioso, ano agrícola..., tantos tempos e passamos a vida a dizer que não temos tempo.
Mais complicado ainda é se repararmos que ao mesmo tempo vivemos em tempos diferentes, seja no mesmo espaço, seja em espaços muito diferentes. Imaginai apenas uma festa de anos de um vosso filho e reparai quantos tempos diferentes aparecem na festa: O tempo do vosso filho, o vosso tempo, o tempo dos avós, dos tios ,... vivem todos no mesmo tempo e simultaneamente em tempos diferentes: brincadeiras diferentes, roupa diferente, preferências alimentares diferentes, linguagens diferentes, cada uma destas facetas reflectindo um tempo que já ocorreu noutro tempo. É mesmo complicado entender o tempo.
Se nos transpusermos para outros continentes, então até parece que o tempo parou: um bosquímane, por exemplo, até parece que vive nos tempos pré históricos e, no entanto, também coabita connosco a mesma Terra. E mais: nós que temos tanta civilização, tanta tecnologia, tanta facilidade, acabamos por não saber como sobreviver nos desertos africanos...Mas o bosquímane sabe. Essa é que é essa! Precisaríamos de muito tempo para aprendermos rudimentos do que ele sabe. A realidade é que ele sobrevive naquele ambiente inóspito com instrumentos rudimentares e nós morreríamos em pouco tempo, apesar de tanto aparelho sofisticado.
Às tantas vivemos num tempo sem tempo tantos são os tempos e nós nunca temos tempo. Falta-nos tempo para tudo. Antigamente não havia telemóveis e os meios de comunicação eram tão lentos que até afligia, só que havia tempo para tudo: os terrenos andavam todos lavrados, limpos e cultivados, as propriedades eram divididas por muros feitos com pedras pequenas, aparelhadas sem argamassa e ainda hoje resistem, se alguém nascia ou morria a presença dos familiares e amigos acontecia como que por magia, enquanto hoje, com tanta inovação, em que instantaneamente por correio electrónico, por sms, via skipe, a bem dizer, fazemos coincidir o real com o virtual, e ninguém, ou poucos, aparecem. Outros tempos! Sendo objectivamente o tempo o mesmo para todos, até parece que é diferente para cada um..
Volvamos ao tempo em que o tempo de criação de um porco doméstico era, em média, uma no. Criado sem aditivos farináceos de engorda, era mimado com viandas  resultantes do aproveitamento de todos os restos, a que se juntava, à laia de tempero, um pratinho de esmalte de farelo. Claro que o tempo de crescimento era muito mais lento. Só que isso fazia com que a carne fosse muito mais saborosa e os enchidos unissem melhor, deixando-nos os dedos untados por uma gordura temperada que lambíamos com sofreguidão. Já pouco se vê disso, nos tempos que correm.
Quem desta vez matava o porquinho era o ti Chico Rolo. O matador era o irmão Zé e entre os convidados estava também eu. O filho, também ele Chico, mais familiarizado com o animal entrou na furda com uma corda já pronta com nó corredio, para pear o animal. Com maior ou menos dificuldade, Chico lá atou a pata traseira do bicho, o mano Zé abriu a porta da furda, enquanto Mné Chquim com um caldeirinho com milho, ia chamando o desgraçado:«fecá, fecá, fecá, toma, toma, toma...».Chegado perto da banca era preciso tombá-lo, meter-lhe um cordel na boca e apertar-lhe bem o focinho, segurá-lo firmemente, deitá-lo na banca, amarrá-lo comédado e deixá-lo em posição adequada para Zé Rolo lhe espetar a faca. Não foi nada fácil: o porco era valente, o terreno estava escorregadio da chuva, tudo escorregava, inclusive o próprio porco devido à morrinha que caía e, para cúmulo, o rabo do porco era saroto, pelo que ninguém lhe podia pegar por trás para o conseguir ajudar a imobilizar. A custo lá se levou a tarefa a cabo e na conversa enquanto se saboreava a meloreja, lá se volta à narrativa e se realça de novo a complicação que é ardulhar um porco no chão quando tem o rabo saroto." Quando é comprido, afiançava Zé Labouxa, vizinho, um homem, bota-lhe os gadapunhos e o animal é como que fica sem metade da força, quando se lhe pega com alma ao rabo". Todos concordaram e a conversa depressa passou para o tempo que «num dava pra fazer nada, estava tudo encharcado, e nem o gado podia sair, era só a poder de comida à manjedoura», e mais isto e mais aquilo até que se passou o tempo e era tempo de cada um ir à sua vida mesmo que o tempo atmosférico não ajudasse.
E eu também tenho que me ir, cassenão não vou a tempo de chegar a tempo do tempo acordado para uma conversa entre amigos numa tertúlia gastronómica em que o tema é exactamente o tempo.
A ver se não demoro tanto tempo a contar-vos mais histórias das terras xêndricas.
XXXXXXXXXIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGRAAAAAAANDDDDEEEEEEEEEEEEE



segunda-feira, julho 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVII - (E)INCOURO

No final dos anos 60 os "campos de férias" de Verão em espaço rural permitiam a aprendizagem e desenvolvimento de um conjunto de competências de indiscutível utilidade para o futuro de crianças e adolescentes. Sobretudo porque não existia didáctica imposta pela figura do tutor / orientador / animador.

Uma das mais perseguidas era a arte de manter todo o corpo a boiar. Já não me lembro muito bem mas acho que aprendi a nadar numa charca da ribeira das Taliscas que naquele tempo se aguentava com água quase até ao S. Bartlameu, em harmoniosa partilha com umas cobritas d’água, rãs e até um casal de cágados. Ou terá sido no enorme tanque do Dr Amândio, alimentado por uma mina de água fria mas limpinha, ladeado por um freixo e uma figueira cujas pernadas se utilizavam cuidadosamente como prancha de saltos? Se calhar foi no poço do bezerrinho, 5 metros de fundo, poucos eram capazes de lá ir buscar uma mão cheia de lodo para exibir triunfalmente aos outros! Ou então terá sido na “barragem” da brigadeira? ou na de medelim? Que importa? A esta distância, só consigo concluir que eram locais perigosos, absolutamente desaconselhados.

O método de aprendizagem era cientificamente básico, resumido à repetição exaustiva, por tentativa e erro, por imitação, raramente por orientação, a verdade é que lá conquistei o truque de contrariar a gravidade dentro de água.

Mas estes "campos de férias" numa aldeia do rural profundo eram igualmente importantes para a aquisição de muitas outras competências, utilíssimas para o quotidiano de uma época em que a informação tinha de ser buscada na realidade e não no google. Vejamos por exemplo algumas das que podiam ser apreendidas por mor da irrestível atracção que os garotos tinham pela água.

- Competências para lidar com a autoridade materna: nenhuma mãe sabia por onde andavam aqueles garotos durante toda a tarde, se calhar por isso é que quase todos eram recebidos com uma pequena sova de chinelo (correctivo que se revelava manifestamente insuficiente para impedir a repetição do ritual vezes sem conta ao longo do Verão);
- Competências para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos: nas viagens eram utilizadas pasteleiras que chegavam a aguentar 4 garotos, sentados no volante, no quadro, no assento e no suporte atrás;
- Competências para a inovação: em corajosa antecipação às praias de nudistas, a moda ditava nadar incouro (era raro o que usava calções de banho,logo estigmatizado como betinho, banidas as toalhas, chinelos, protector solar, barrinhas de cereais para o lanche, pacotinhos de sumo);
- Competências para a improvisação na adversidade - havia sempre a marouva da época numa figueira, pereira ou “maçãzeira” para assaltar na viagem de regresso a casa;
- Competências para a criatividade e adaptabilidade: a sede podia facilmente ser saciada em qualquer poço que apresentasse água clara (não confundir com transparente) a atirar para o esbranquiçado, água de sabão mesmo, e que passasse no teste do cuspo: bebível se a saliva se dispersava, não potável em caso contrário.

À excepção da charca das Taliscas pode ainda listar-se uma outra competência absolutamente decisiva neste contexto:
- Competência para responder com rapidez e eficiência a situações inesperadas: era preciso botar a fugir quando o dono aparecia a vociferar imprecações e impropérios contra a canalha, invasora da sua propriedade privada. Vista de cima, a debandada aparentemente caótica de meia dúzia de garotos a correr encouros no meio do restolho, era cena para marcar o filme tuga que se fizesse sobre o “Verão de 69”. É que às vezes não havia tempo de agarrar todas as peças…

Foi o que aconteceu ao ZéChquim espanta mulas. No caminho para o Ferrador, foi assaltado por uma repentina cólica que não lhe deu o tempo necessário para se baixar e aviar a vida comédado junto do eucalipto jovem que escolhera para dele usar as cheirosas folhas. Chegado ao poço, apressou-se a fazer chegar o balde de esmalte na ponta da picota / burra / cegonha e a passar por água as suas cuecas novas que a mãe tinha comprado no último mercado como prenda por ter passado para a 4ª classe, estendendo-as de seguida cuidadosamente ao sol numa das bordas da pia de pedra. Quando o ti Bezerrinho se aproximou sorrateiro e brandiu o seu cajado, furioso, o espanta mulas apenas conseguiu agarrar os ténis rotos e a camisa.

Já à sombra da grande figueira pchichota na horta do Ti Guilherme chornico, o espanta mulas reparou que as cuecas do João parretcho eram iguais às que ele tinha deixado na pia a secar: branquinhas e com abertura à frente. Com a autoridade que lhe inspirava o dobro do tamanho, decretou:
- Ó parretcho, dá cá as tuas cuecas.
- Isso é qu’era doce! – atreveu-se o outro.
- Se não m’as dás levas já aqui uma malha.
Apercebendo-se da determinação do espanta mulas, o pequeno João tentou escapar mas rapidamente foi agarrado, e a sua resistência foi inútil perante a força bruta do matulão que o desnudou por completo para lhe arrancar as cobiçadas cuecas. Cego de raiva pela humilhação, o parretcho agarrava em tudo a que deitava mão para atirar ao espanta mulas que se pôs a cabanir e nem pensou no que estava a fazer quando, à falta de mais pedras e torrões, arrancou 2 figos de palma da figueira do inferno que havia junto ao barroco do chornico e os lançou na direcção do gatuno. Os outros garotos assistiam divertidos na plateia da sombra pchichota. Foram eles que valeram aos protagonistas principais, ajudando-os pacientemente a arrancar os dolorosos carapetos, da palma da mão do parretcho, da nalga esquerda do espanta mulas.


Seria interessante reunir Watson e Skinner com Vigotsky, Piaget e Bandura e ouvir as suas palestras neste campo de observação, relativamente aos processos de aprendizagem daquelas variadíssimas competências técnicas e emocionais.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A NOSSA FALA - CXIII - PUCHEIRO

As voltas que o povo dá às palavras para, depois, as fixar num fonema com um som - o significante de Saussurre - são imprevisíveis. Assim é com esta forma. Repare-se: o espicho é o jacto de vinho que jorra de uma pipa onde não se quer meter a provadeira - cana com uma racha ou abertura que possibilitava a certificação se o vinho já estava claro e que, no orifício natural da cana até ao nó fundeiro, permitia transportar vinho bastante para um copo - . O espicho era feito quase ao cimo da vasilha onde o orifício respirador era tapado com uma rolha estreita de cortiça e vedado com cebo. Uma sovela, normalmente feita de vareta de guarda chuva, penetrava cebo e cortiça e o néctar saía com a pressão, aí para quase um metro afastado e era um regalo aparar o tinto no copo: fazia espuma e exalava um cheirinho que só quem teve a oportunidade de provar pode agora recordar. O orifício era fácil de tapar e até de selar: bastava pôr o dedo e /ou mais um pouco de cebo que estava sempre à mão e ele lá continuava a sua fermentação.
Havia também o vinho da balsa que resultava da inclinação da dorna e cuja claridade era aferida através de um rasto ou um bico velho de charrua, que se atirava para o líquido, às vezes ainda fervente: se o rasto fosse ao fundo, já estava claro, e não criava engulhos na garganta pelo que já se podia beber. O sabor a mosto era dominante mas, como não havia melhor, aquele era excelente. Fiz o meu tirocínio com o velho Comandante que, aí ao quinto dia já lhe arreava assim comédado.
Vem isto tudo a propósito das vindimas que agora estão no apogeu.
De caminho queria aproveitar para vos apresentar uma figura de xendro inigualável: de tudo sabia, de tudo dava conta e novidade que lhe caísse na orelha, passado pouco tempo estava mais torcida que uma cepa: a Chicorrela. Sempre ali pelo chafariz do batoco, tudo mirava, com todos se metia e até ia ao tribunal - banco só de homens onde a maledicência imperava e a linguagem era do mais verrinoso e viperino que imaginar se possa -. Chicorrela ou Relochica como eu lhe chamava, nada temia e desafiava qualquer um para dizer mal de quem quer que fosse. Seguia aquele velho aforisma: temos que dizer mal dos outros porque eles também dizem mal de nós .
A casa de Relochica ficava pertinho da velha casa do Barata, velho tugúrio onde se criaram nove filhos e cujo espaço seria aí duns 18 metros quadrados: subia a cama descia a mesa, subia esta
descia a primeira, a canalha dormia a monte, raparigas dum lado e garotos do outro.
Apesar do curto espaço ainda cabia, logo à entrada, um tonel de 400 l ,onde Barata guardava o vinho. Por cima estava, sempre de borco, um pucheirinho, copo único, de asa partida, que tinha que ser bebido de uma só vez, sob pena de não mais o provar.
Na perpendicular entre a casa do Barata e a de Relochica, em frente da velha Libra, morou a mãe de uma das ilustres personagens, José Antunes Ribeiro, de alcunha o Pucheiro, nunca soube porquê, e que foi alto magistrado. Chicorrela não tinha pucheiros. Ao lume estava a panelinha de ferro e havia umas gafeteiras, sempre de luto, por dentro e por fora, onde, de quando em vez, se fazia uma chicória, de borra assente com tição ardente, que servia de café. O açúcar era água de figos secos, guardada religiosamente em escoureiro bem tapado e vidrado.Nunca ninguém soube bem o que Relochica comia porque passava o dia no trequelareque do batoco a dar troco ao Chico Pedro, Manel Freitas, Augusto Estanqueiro, Zé Luís, e companhia...
Notícia que lhe caísse na língua, depressa fermentava e o que seria uma inocente lagartixa logo se tornava tiranossauro rex. Se os ilustres lorpas que gerem os nossos bancos e as empresas do PSI fossem comparados a esta nossa Relochica, pouco passariam de pigmeus face a Gulliver. E a preços muito mais módicos.
Vamos lá ver agora como derivou a palavra PUCHEIRO, nesta forma de entrada na língua que leva o nome de LEI DO MENOR ESFORÇO. Diga-se a talho de foice que, ao menos as palavras entravam e eram assimiladas; agora é uma algaraviada de siglas e de palavras emprestadas que arrepia: já ningúem diz AMA, mas baby-siter, ninguém merenda, todos lancham, ele é teen-ager, o open, o coffee break,... que sei eu!? quando se devia dizer tão só adolescente/jovem, abertura ou intervalo para café... Olhai os espanhóis: não basket, mas baloncesto, nem andebol, mas balonmano, não corner, mas saque de esquina, ...
Agora é que é: a palavra deriva do ESPICHO, já acima explicado; ora esta mesma palavra já é derivada por sufixação de PICHO (o ES vem do latim EX que significa movimento de dentro para fora, como em Ex-pulsar, por exemplo); como sabemos uma das funções do picho é essa mesmo de expulsar por jacto o líquido que está no ventre; daí a PICHORRO/A é um passo como vaso para aparar o líquido do espicho; a linguagem que diga respeito aos genitais é sempre castrada e isso parece pertencer a um inconsciente colectivo, que, um dia destes, logo vos trarei aqui, pelo que não admira que se alivie a conotação da forma mais simples - lei do menor esforço - de Pichorro derivou foneticamente por ditongação o nosso PUCHEIRO. Simples não é? Como o povo, e todos os que são competentes.
Como estamos também no início do ano lectivo, aqui vos deixo a questão: já vistes algum BOM PROFESSOR complicar o simples? Aposto que não, mas aqueles tarefeiros do ensino, que não preparam aulas nem se esforçam pelo seu brio e dos seus alunos, esses complicam... E então já nada é simples.
Para concluir e verdes que não há só cultura popular aqui vos deixo registadas as medidas internacionais e respectivos nomes para garrafas de vinho em vidro:

Nabucodonosor - 15 litros
Baltasar - 12 litros
Salmanazar - 9 litros
Galão - 7,5 litros
Matusalém - 6 litros
Garrafão - 5 litros
Jeroboão - 3 litros
Magnum- 1,5 litros
Garrafa - 0,75 litro
Púcaro - 0,5 litro
Meia garrafa -0,375 litro
Quarto de garrafa - 0,180 litro

Deste lado, vos deixo algumas medidas antigas:
Almude- 28 litros
Cântaro - 20 litros
Deca - 10 litros
Quartão- 7 litros
Cântara - 5 litros
Canada - 2 litros
Gafeteira - 1 litro
Quartilho - 0,50 litro
Meio Quartilho - 0,125 litro
Copo de três - 0,020 litro

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

sexta-feira, novembro 16, 2007

A NOSSA FALA - C - AVESSEIRO

Ou eu leio mal a realidade ou isto anda mesmo às avessas.

Todos os dias ouvimos que fábricas faliram, mais uns quantos desempregados e os comandantes a dizer que criaram 60.000 postos de trabalho! organizações internacionais deixam claro que é em Portugal que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e os chefes dizem conceder um subsídio de fralda aos casais com mais de três filhos mediante o preenchimento de um sem número de papéis ... representa um grande esforço económico mas é assim que se reduz o fosso! dizem que querem fixar as pessoas no interior, cada vez mais desertificado, quer em gente, quer em florestas e cultivos e que vemos? fecham escolas, centros de saúde, reduzem-se os meios de comunicação...; os bancos apresentam lucros chorudos e os juros nunca descem nem tão pouco se mantêm; as petrolíferas mal se fala no aumento do crude já estão a aumentar o preço do combustível e as mais valias são as sabidas; as empresas de Telecomunicações comem-se umas às outras em publicidade caríssima mas não reduzem o preço das nossas chamadinhas; as finanças autorizam a justiça a adquirir nem sei quantas viaturas topo de gama; as Estradas de Portugal em rota de falência são premiadas com um contrato de 75 anos para composturas de vias.... Fazem-me lembrar um texto de Guerra Junqueiro a propósito do Marquês de Pombal que aqui vou citar de cor, admitindo alguma impropriedade que o Guerra me desculpará: «O próprio Pombal é o desejado? Não. Dum deserto quis fazer um jardim... Como? Plantando traves: regou-as com sangue e adubou-as com mortos»;
Num país em que quase só vemos agricultores de alcatrão em grandes jeeps pagos com a subsídiocultura que é uma vergonha descarada: compensa-se a extensão que é dos que já têm muito e despreza-se a produção e bom tratamento dos terrenos para além de dificultarem o acesso deslocando os serviços para locais distantes dos centros urbanos...; vemos os técnicos nos gabinetes e o mais a esmorecer... enfim...isto anda às avessas ou sou eu que vejo mal a realidade.
Quando era pequeno fui mandado a guardar um único borrego:"vais para o chão do caminho das águas e guardas o borrego no avesseiro a ver se ainda rapa algum verde". E pronto, lá fui e deixei corda larga ao animal na baixa contra o sol (portanto avesseiro), à sombra, onde algumas poucas ervas ainda tentavam a viçosidade, resistindo aos calores que começavam a apertar. O borrego era um merino, cabelo (lã) encaracolado, manso como a terra, e ainda algumas vezes me montei nele e ia às corrichas; ia comigo para onde eu fosse e quando o deixava na casa da Leitoa os MÉS ouviam-se longe protestando contra a falta de companhia.
Foi às avessas também que levei uma solha, estampilha, espapada, lamparina ou bolachada, porque logo à primeira vez quando o borrego se deitou a acarrar, ao pé do barroco onde eu estava sentado à sombra da velha azinheira, eu, lembrando-me que coiote pete, varinha de arado, filho do chico mainovo, jolim da pata branca, contramestre, moisés pitincouro, velho jonja, nosso cabo, tonho cagarela e outros se divertiam na Lameira ao pontapé NA MINHA BOLA, eu, disse cá para mim, mas alto para o borrego ouvir:" oh! mê cabrão, atão já no queres comer mais? Já rapaste o avesseiro todo? Eu bem que achei que o animal tinha comido depressa demais mas sempre o puxei outra vez para a baixa e ele nada! E pensei: "se não queres comer vais para o palheiro e é já"!
Agarrei em mim e no borrego pela corda e numa corrida cheguei ao povo, ia a meter o borrego quando o meu pai me brada: "olha a pressa que tens! atão o borrego nem teve tempo de comer comédado e tu já vens de volta?" E eu: «ele deitou-se à sombra...» A lamparina caiu-me nas bitráculas:" atão tu no sabes que estes animais acarram?" Fiquei a olhar como um basbaque... "Poi, estes animais comem e remoem e depois tornam a comer... Toca pró avesseiro outra vez!" Lá se me foi a bola. Às avessas também eu fiquei a saber que o borrego era um pequeno ruminante. Era assim muita da aprendizagem antigamente. Aquilo a que muitos chamam o curso de pontapé no cu. Às avessas também vos digo que este curso se sobrepõe a muitos formais... em muitas circunstâncias.
Ao ritmo a que isto anda estou em crer que qualquer dia estamos como aquela mãe vaidosa que num dia de Juramento de bandeira só tinha olhos para o seu Mnel, ali aprumado no centro da parada... Quando é dada a ordem para marchar: "olher além, mulheres, o mê Mnel, no meio destes todos é o único que leva o passo certo." Mainada.

ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais.
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

sábado, setembro 01, 2007

A NOSSA FALA - XCV- CO(U)RRI(t)CHAS/CARRICHAS

Contra a corrente empirista que se limita a asseverar que o hábito mais não é do que a repetição continuada de uma mesma experiência, já o velho(!) Georges Washington, rebatia ao afirmar que "o hábito não é uma segunda natureza, ... ,ele vale mais que dez vezes a natureza! "
Vem isto a propósito de que, muitas vezes,nos ”avezamos” a pronunciar, não importa o quê, de determinada maneira e, se ouvimos esse termo de modo diferente, depressa acusamos o emissor, dizendo que não se deixe embarcar nas formas de dizer comuns e diga as coisas comédado. Por exemplo: na nossa aldeia todos chamam ao Domingos, filho do Lavra Miúdo, fai nica, mas a verdade é, que, quando ele andava com os Tiagos, ali para as portelas, já a dar vistas para as minas do Pinheiro, nas traseiras do João Rela e do Tonho Sarrabeco, o cachopo, irmão do actual coveiro - O Tonho Zéi - quando, miúdo ainda, vizinho que era dos Tiagos, malinos dum corno, estes lhe atiravam lascas a zunir às orelhas para o atentarem de grande. O fai nica não sabia de onde vinha o zaranzum, e, acagaçado com o medo - afinal era um petiz - começava a gritar :«PAI A MICA,PAI A MICA..., o que, pura e simplesmente, apenas queria dizer «ó pai vem aqui ao pé de mim!».
Joaquim, lavra miúdo,com quem reparti muitas manhãs de dar água ao lagar, ouvia o bramir do MINGA e lá ia a ver o que se passava...: FAINICA, OU, PAI A MICA, pedia então corrichas, currichas ou carrichas ao LAVRA MIÚDO e ele lá acedia ao pedido, montando o filho às costas (às cavalitas) até sítio onde as pedradas dos filhos dos Tiagos ou do Sarrabeco já não alcançassem...
Outros tempos... em que as crenças no diabo e seus apaniguados era outra...
A mãe logo dizia que "aquilo era a diabólica" e acendia o toco de uma vela à imagem da SS. Sagrada Família, que recebia cada três semanas e à qual, obrigatoriamente, mantinha aceso um pavio feito de encastramento de ervas que se colocava num triângulo de lata, cujos bicos, espetados em nacos de cortiça, permitiam a flutuação em azeite virgem, que servia de combustível.
É meu crer que muitos dos que me lêem tenham tido em casa o pequeno tabernáculo da Sagrada Família, que, como é sabido, transitava de casa em casa, sabendo nós de quem o recebíamos e a quem o passaríamos... Muitas vezes fiz essa transição ...
A vez em que na aldeia, que eu me lembre, vi mais garotos às currichas dos pais foi nas festas da Desfolhada (por questões com o prior já aqui narradas) por alturas do ”Sr S. Bartolomeu” - faz agora anos - quando o velho professor Leitão, em combinação com o saudoso Tarzan Taborda, traz à terra dos Xendros, Francisco Xavier (mister músculo do ano - já não sei qual) para fazerem uma demonstração de CATCH AS CATH CAN, em tradução livre: AGARRA COMO PUDERES, E O QUE PUDERES, não importa como, ou numa tradução mais inteligível: LUTA LIVRE, especialidade onde o nosso Albano Taborda Curto, ou Albano Taborda Curtis, ou simplesmente TARZAN, era especialista, tendo sido por mais que uma vez Campeão mundial.
Famosas ficaram as lutas com o algarvio Zé Luís de quem se dizia que tinha uma marrada, digo, uma cabeçada, mais forte que um carneiro. Conta- se até que de tanto marrar, digo, cabecear, contra um sobreiro este, dorido com tanta marrada, deixou de se vestir de cortiça e secou.
Bem..., naquele ano então houve espectáculo de luta livre: Tarzan contra Xico Xavier!
Talvez a maioria dos que me lêem, Xendros que sejam, não saiba o porquê daquele quadrado de cimento existente a meio da lameira... Ora, aqui fica a explicação: aquele "ringue" foi propositadamente feito para a luta entre Tarzan e Xavier...
Depois foi aproveitado para pista de dança, nas festas.
Foi então dessa vez que a canalha exigiu corrichas aos pais para conseguir ver o famoso golpe de tesoura que Tarzan aplicava, fazendo uma espécie de mortal à rectaguarga, apoiando as mãos no chão e engarranchando os pés cruzados (daí o nome de tesoura) no pescoço do adversário.
Lembro-me do Domingos Patanisca que estava comigo na linha da frente:"o filho da puta, mal lhe botou as patas ao cachaço, ardulhou-o logo". E foi mesmo assim: Xico Xavier caíu redondo chão, entalado entre as pernas de Albano Curtis. Foi o delírio na aldeia. Toda a canalha às corrichas batia palmas freneticamente, os PsYcadelic Set, com Tó Nô, Pedro Veiga, Xico Milheiro e o velho Cisne arrancam com Rolling Stones e camarada Licas, sozinho, entoava no seu inconfundível estilo aicanaguetanou. Inesquecível! Só mesmo quem viveu...
Agora nem que vos ponha às corritchas... Tarzan já partiu e do Xico Xavier nada sei. Do Licas todos sabemos e dos Psycadelic Set sei de alguns.
Se há coisa onde a nossa aldeia não tem grande nomeada é em matéria de artistas musicais... Aldeia de João Pires tem banda, Aranhas tem Rancho, Penamacor tem o Telmo e Rancho, Pedrógão tem banda, ... a aldeia não tem coisa de jeito a não ser agora o coro da igreja, mas só para esse efeito.
Àparte o Chquim Ventaneira e o seu pífaro, o Domingos Poças com a sua concertina, o Tonho Bondito com o seu Armonho, que o Tonho Fatela também arranhava numa desgarrada, não há memória de grandes executantes do que quer que fosse.
Foi numa destas desgarradas em que Manel Manata, o bisga, também apareceu com o seu acordeão, que apareceu um visitante do Meimão que desafiou o Manata:" Cala-te aí, ó boca aberta,/Meu goelas de peru/Os teus dentes são navalhas/Faz-me aqui a barba ao cu... O Manata afinou logo: "Tu num estás a ver bem/ o barbeiro com quem te metes/tenho cinquenta navalhas/ e duzentos canivetes/.... A coisa foi crescendo, mas, ao fim, tudo acabava em bem. Pergunta o bisga do velho Manata ao cantador do Meimão:«Como é a sua graça?» -" Porfírio Branco... e o Manata: pois eu profírio tinto.
Ah tempo! como diria o velho Comandante às corrichas de quem me passeei muitas vezes....
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS

Naquela noite, tinha caído um códão daqueles comédado. Albertino Chinchas levantou-se cedo para cumprir o compromisso firmado com o seu compadre Mnel Alma de Sino de lhe matar o marrano, como era hábito. De Verão ou de Inverno, Albertino gostava de vir lavar a cara na água do tanque que mantinha quase sempre cheio com água do poço. Bastas vezes, no Inverno, tinha de partir o caramelo com um martelo para chegar à água, mas ele sentia um prazer masoquista quando sentia os tomates a encolherem-se dentro das calças quando mergulhava a cara na água gelada. Acreditava que o acto de coragem era significado de virilidade e que a reacção dos testículos era sintoma disso mesmo.

Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.

O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.

O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.

O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.

Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.

sexta-feira, julho 08, 2005

A NOSSA FALA XIV - COMÉDADO

O mundo dá as voltas do catano que nós sabemos. Tudo porque o mundo é redondo, não é um paralelepípedo. Antigamente, o mundo aparecia-nos a preto e branco, agora, chega-nos a cores. E, também o sabemos, o dia a dia, a noite a noite, a preto e branco, era substancialmente diferente do dia a dia, da noite a noite, a cores. Sobretudo à noite, era preciso dar a volta às cores da lua. Roubar galinhas, coelhos ou marouva - sempre para comer nunca para estragar - era uma boa opção para alguns contemporâneos dos Beatles que esperavam na aldeia, o tempo de ir para a tropa.
No solstício do Verão daquele ano, logo a seguir às bonecas de S. João que se queimaram na Lagariça, no Outeiro e no Cavacal, apresentava-se ela, a Lua, prenha da luz que o sol lhe emprestava desde o outro lado do mundo. Pitincouro, Lambranca, Fainica, Montanhaque e Pantelhão tinham construído um mapa das capoeiras e coelheiras existentes na aldeia, marcadas a caneta azul as que ofereciam boas condições de recolha de mantimento para a rambóia dos sábados que armavam no palheiro do Fainica, a caneta vermelha os alvos inexpugnáveis ou perigosos. Naquela data, já tinham visitado a maior parte dos azuis. Havia-os que era como limpar o cu a meninos, outros não. Havia vezes que a missão corria bem, outras nem por isso.
Numa das capoeiras de limpar o dito aos ditos, a coisa ia-se complicando por via da cóia que o Lambranca já levava e que, na verdade, já vinha das bonecas do dia anterior, porque ele correra-as a todas três. Tinha passado o fim da estival tarde no fito, intervalando para branquinho fresco em cada uma das 10 vezes que se tinha feito 31. Para não ter de ouvir a velhota, deixara-se ficar no povo, embandulhando mais meia dúzia de branquinhos frescos até que o sino da torre bateu as 10, hora aprazada com os comparsas comensais para demandar em busca de galinácio animal. Como era o mais delgado, cabia-lhe quase sempre aproveitar o buraco e agarrar a pita, sem incomodar muito o galo, enquanto os outros, estrategicamente colocados, montavam guarda no exterior. O sinal de perigo combinado era o pio do mocho que eles foram apurando ao longo do tempo.
- Putas das pitas, cheiram mal como um corno – sussurrou ele ao Pantelhão que estava mais próximo.
- Anda cala-te e avia-te. O esterco dos coelhos é bem pior.
Agachado, o Lambranca ia avançando aos encontrões aos fundos dos baldes de lata velhos onde elas depenicavam o milho e as couves migadas miudinho e misturadas com farelo, resmungando cada vez que sentia a bota deslizar na caca espalhada pelo chão de terra, mas o que o irritou mesmo foi ter posto a mão mesmo em cima de uma viscosidade mal-cheirosa quando, vacilante, mandou as duas mãos ajudar os pés, para se não estatelar.
- Foda-se! Já caguei a mão nesta merda da merda de pita.
Nessa altura, dando-se conta do intruso, a comunidade galinácea começou a manifestar-se algo agitada, a começar pelo galo de crista de açafate. Ao erguer-se com ideia de limpar a mão a alguma coisa bateu com a nuca num prego espetado na trave. O Pantelhão ouviu-lhe alguns impropérios e insistiu, baixinho:
- Faz pouco barulho, caralho! E avia-te, porra!
A coisa descambou mesmo foi quando o Lambranca, na ânsia de limpar a mão suja, a raspou com força na trave de pinho e espetou, fundo, uma escádia no dedo mindinho. Instintivamente, levou o mindinho à boca para aliviar a dor. O sabor amargo da caca de galinha fê-lo cuspir vigorosamente para cima dos bichos.
- Puta que pariu esta merda, eu vou é partir esta merda toda ó caralho!, berrou ele, descontrolado.
A capoeira reagiu, obviamente, com múltiplos cacarejares, cabeças já levantadas. Quase às cegas, o Lambranca alçou a mão ao calhas para agarrar uma das cabeças afuniladas na ideia de a calar de imediato com uma torcedela de pescoço. Estranhamente, quanto mais torcia, mais o animal cacarejava. Instalou-se o alvoroço no galinheiro. O Pantelhão desesperava do lado de fora do buraco:
- Ó Lambranca dum cabrão, qu’arraio de bulha andas tu aí a fazer c'as galinhas?
Já os outros se tinham juntado quando o Lambranca aparece com uma pita a estrebuchar desalmadamente, agarrada por uma asa. O Fainica foi o primeiro a perceber e a dar-lhe a volta fatal ao pescoço:
- Mata a puta da pita COMÉDADO, caralho!
A fuga foi mesmo à justa porque já se percebia o balancear de um candeeiro a petróleo que vinha dos lados da casa do Ti Ambrósio Fanhoso.
Noutro sábado, tinham marcado o palheiro do Ti Zé Manel Caturrão. Lá chegados, deram com fechadura e reboco novinhos, não havia hipótese de buraco para o Lambranca. Vira-se o Pitincouro: destelhamos o telhado. É muito alto, porra, lembrou o Fainica, só se a agarrarmos com uma corda. E onde é que está a dúvida? Vós, esperar ali no barroco que eu já venho.
Só foi preciso desviar 4 telhas. O Montanhaque alumiava com uma lanterna de pilha quadrada e dava as coordenadas ao Pitincouro que segurava a corda de nylon enquanto o Pantelhão ia atirando pedrinhas para fazer as galinhas levantar a cabeça.
- Alumia COMÉDADO, porra!
À enésima tentativa, a pita pedrês lá enfiou a cabeça no nó corredio.
30 anos mais tarde, no solstício do Verão, o filho do Lambranca havia de passar boa parte da estival noite a trocar SMS com a filha do Fainica. Não havia bonecas de S. João.