quarta-feira, setembro 27, 2017

VINDIMA MMXVII

AO CHEGAR
PARA COMEÇAR
HÁ QUE CUMPRIMENTAR
QUEM JÁ POR LÁ ANDAR.
POR MAIORIA DE RAZÃO
FAZER VÉNIA AO PATRÃO
QUE TE GARANTE O PÃO
NESTE DIA DE CONVÍVIO SÃO.
SÓ, DEPOIS, ENTÃO
VAI EM BOA DIRECÇÃO
E DIRIGE-TE À MESA
PODE HAVER ALGUMA SURPRESA…
SERVE-TE DO QUE MAIS TE APETECER
MAS NÃO TE PODES ESQUECER
DO QUE TENS QUE IR A COLHER
MUNE-TE DO NECESSÁRIO
E METE-TE AO CARREIRO
SELECCIONA BEM O CACHO
E DEIXA DE PENSAR SÓ NO TACHO.
REJEITA O BAGO AZEDO
E TAMBÉM O QUE SECOU CEDO
NÃO ESTRAGUES COM QUANTIDADE
O QUE SE QUER DE QUALIDADE,
ACAUTELA SEMPRE O DEDO
QUE NÃO VALE TER PRESSA
PARA TUDO ACABAR CEDO
ATÉ PORQUE SE TE APRESSAS
NÃO DÁS TEMPO AO GRANDE CHEFE
DE TE PREPARAR O BUFETE.
PARA ENTRADA TERÁS CERDO EMBUTIDO
TRASEIRO DE SUÍNO CURTIDO
ACHINCHADO DE OVINO E CAPRINO
MAS NÃO SEJAS LAMBINO
QUE AINDA TENS SARAPILHEIRA
EM POLMO MAIS QUE DIVINO
FRITADA OVEIRA DE RARA MESTRIA
BIFE DE CAROÇO ASSIM À MANEIRA
TEMPERADO COMO DANTES SE FAZIA.
E VAIS TER CALDO, POIS ENTÃO,
APROVEITA-SE A ÁGUA DO FEIJÃO
E JUNTAM-SE-LHE INGREDIENTES TAIS
QUE ATÉ DESCONFIO QUE VAIS
REPETIR SE NÃO TRISAR ESSA BELA SOPA
QUE TÃO DEPRESSA NÃO SE TE VAI DA BOCA!
SE QUERES ÁGUA, VAI À TORNEIRA
NÃO É IGUAL À DA CIDADE
VEM AO TRATAMENTO E VOLTA PARA TRÁS
METADE PISCO METADE ÁGUEDA
SE PROVARES LOGO CONFIRMARÁS.
BRANCO E TINTO DE UVA TAMBÉM TERÁS
PARA ALÉM DE FRISANTE E SUMO COM GÁS
PARA TE MATAR ESSA MALVADA
AINDA PARA TE CONSOLAR TERÁS
O AMIGO CAROLINO DO MONDEGO
BEM RECHEADO DE AVE PALMÍPEDE
QUE COMO TU TAMBÉM É BÍPEDE
CRIADO ASSIM MESMO COMÉDADO
EM MOLHO DE BULBOSA CONFECCIONADO
MAIS CAPSICUM ANNUUM E FRUTO DE REFÊGO
PARA ALÉM DE SABOROSAS AROMÁTICAS
ALI MESMO COLHIDAS E BEM LAVADAS
DESDE O LOURO AO SERPÃO E MANJERONA
QUE GUERREOU COM O VELHO ALECRIM
COMO BEM CONTA EM OBRA DRAMÁTICA
“O JUDEU”, OU ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA
QUE A INQUISIÇÃO LEVOU EM MORTE TRÁGICA.
AINDA SABOREARÁS O CHEIROSO TOMILHO
E MAIS A INDISPENSÁVEL SALSA -PETROSELINUM
SEM ESQUECER TRÊS FOLHAS DE MANJERICÃO
QUE JUNTO COM ESTIMULANTE CAPSICUM
TE FARÃO LAMBER E COM TODA A RAZÃO
POIS MELHOR NÃO HÁ EM LUGAR ALGUM.
QUEM TO GARANTE SOU EU, VESTIDO A PRECEITO
COM GORRO E AVENTAL DE BELO EFEITO.
PENSAVAS QUE JÁ ESTAVA TUDO DITO
MAS VARRE DA IDEIA TAL CONCEITO
PORQUE PAR CULMINAR ESTE BELO REPASTO
TE FALTA O BELO FEIJÃO COM REPOLHO
QUE ACOLITADO POR APÊNDICES PORCINAS
DAS QUE ENCHEM A BOCA E O OLHO
TE PORÃO FINALMENTE DE RASTO
SEM QUASE TE PODERES LEVANTAR
POR QUE TANTO ENCHESTE O PARRANÇO
COM BOM PRODUTO TÃO VASTO
QUE DE NOVO VOU VERIFICAR
QUE A LOIÇA E O ESFREGANÇO
PARA MIM DE CERTEZA VÃO SOBRAR.
TENS AINDA PARA MATARES ALGUMA SEDE
A CEVADA COM MALTE E LÚPULO FERMENTADA
FRESQUINHA COMO REZA A LEI ESTIPULADA.
NÃO SEM ANTES, BEM FILTRADO PELA REDE
TE PODERES REFASTELAR COM NABEIRO SABOR
QUE TERÁ COMPANHIA MAIS QUE VARIADA
E TUDO OFERECIDO COM TODO O AMOR.
SE QUERES MAIS E MELHOR,VOLTA PARA O ANO

À VINDIMA DO VELHO AMIGO TOSCANO.

QUINTA DO LÍRIO, 16 DE SETEMBRO DE 2017
Desenhos de Carlos Matos

Histórico:

 2016  2015  2014    2013   2012   2011  2010   2009  2008   2007

segunda-feira, setembro 04, 2017

A NOSSA FALADURA - CCLIII - REFÊGO



Num ano seco como este não é difícil encontrar muitos produtos hortícolas cheios de refêgos. Mais visíveis são, sem dúvida nos tomates que, apesar de diariamente regados, para além de apresentarem manchas esbranquiçadas do calor do sol, ainda ficam mais estragados com uns sulcos, que mais parecem rugas, junto ao pedúnculo. Aí estão os refegos. Metade do tomate vai-se embora. Vá lá que têm tamanho bastante para se aproveitar ainda parte razoável da polpa. O paladar, esse, não fica minimamente afectado. Valha-nos isso. São imensas as variedades de tomate, desde o chucha, ao cacho, ao tipo Ladoeiro, grande e pequeno, ao cereja, ao negro, ao ananás, ao bicudo, que sei eu..., mas, de longe, os melhores são os cor de rosa: grandes, sumarentos, nada acidulados, quase sem pevide - uma maravilha. Pois, mas haviam logo de ser estes os mais atreitos aos refegos. Para minha pena também, são os que têm menos tempo de conserva, depois de colhidos. Ao fim de dois dias já estão todos desmazelados. 
Os maiores que vi foi na horta da ti Maria Rainha, lá para as portelas, mesmo em frente da já quase desaparecida fonte de melão, onde uma burra, que mais parecia uma mula, tirava água à nora. O poço devia ter bem aí uns quinze metros de fundo por cinco a seis de diâmetro. Belos tempos esses em que aquela baixa era toda explorada com tudo o que havia de melhor. De vez em quando a ti Maria, essa inolvidável cozinheira de bodas e baptizados trazia-me uns quantos. O primeiro era logo papado retalhado com umas areias de sal. Uma delícia. Pesei um com seiscentos e cinquenta gramas. Essa famosa cozinheira não precisava de livro de receitas... Tinha tudo de cabeça. Se tinha uma barruma na testa não tinha refêgos na arte de culinária. Aquela memória não tinha sulcos nem rugas, tudo saía na perfeição e era tudo a olho. Não usava colher de pau a bater a massa dos ovos e farinha e açúcar e... para os bolos. Batia tudo à mão. Dizia que "assim nunca ficam garanhotos na massa: esborraço-os todos ." Mainada!
Eu ainda hoje mantenho essa semente, mas nunca consegui cultivar tomates daquela grandeza. O maior teve duzentos e quarenta gramas. Nada mal.
O que a mim me faz refêgo é ver grande parte da nossa malta a deliciar-se com pizzas, hamburgers e outras purgas que tais, a encherem-se de gorduras insalubres quando, mormente neste tempo, podiam e deviam preferir umas boas saladas e umas frutas que é do melhor que esse país produz. Mas não...vão para a Itália e para a América. Mas não é só na alimentação: na música passa-se o mesmo. Há estações de rádio que mal ou nada cheiram de música portuguesa... É só anglo saxões e americanos.
Refêgo me faz ainda esta corrida de algumas vedetas às autarquias, que se arvoram nos melhores dos melhores, voltando a reavivar aquilo que afinal nunca desapareceu deste rectângulo: o sebastianismo.
Tenho para mim que pode haver inesquecíveis, mas não há insubstituíveis.
Por aqui me fico, hoje. Prometo não demorar tanto tempo a voltar ao vosso contacto, senão ainda vos crio algum refêgo na testa com a preocupação de que algo me tenha acontecido...
XXXXXXXXXXXXXIIIIGRRAAAAAAAAAAAAAAANNNDDDDDDDEEEEEEEEE!

sexta-feira, junho 30, 2017

A NOSSA FALADURA - CCLII - DESAJUDA/DESAJUDAR



Como já por várias vezes aqui foi referido, o meu amigo Lameiras, de vez em quando saía-se sempre com a sua proverbial sentença:"tem lá porras". Pois é: a língua portuguesa tem lá porras. O prefixo (eu acho que ainda é assim que se chama) DES, em regra, significa disseminação, distribuição, intensificação  como em des vario, e também a negação /oposição da palavra primitiva, como em des vio, des tacar, des aparecer,... Ora, a nossa faladura de hoje não verifica nem uma nem outra das possibilidades, a não ser que, com muito boa vontade aceitemos que ajudar significa auxílio para cima e desajudar quer dizer auxílio para baixo.
Expliquemo-nos: com toda a certeza, alguns dos que têm a coragem de me ler vivenciaram a árdua tarefa cometida às mulheres de ir buscar água à fonte/chafariz/poço. Não raro, traziam um cântaro assente numa molídia (rodilha, sogra) à cabeça, um caldeiro numa das mãos e um flho/a puxado pela outra mão. Uma verdadeira proeza de equilíbrio, Nas terras xêndricas, que eu conhecesse, só um homem ia ao chafariz e transportava o cântaro à cabeça, e, mesmo assim, amparava-o sempre com uma das mãos: era o Tonho Félix, filho de velha Lorpa, uma das patas galhanas não há muito referenciadas aqui no basa. Nanja as mulheres que não precisavam de qualquer amparo para transportarem o cântaro.
Era costume que nessas fontes colectivas existisse um baturel onde as mulheres pousavam o cântaro já cheio e, depois de ajustarem a molídia baixavam-se ligeiramente e, com um impulso elevavam-no para cima da cabeça e toca a andar. Mas se por ali houvesse outras mulheres, elas ajudavam-se umas às outras e era mais fácil a colocação do cântaro à cabeça.
Ora aqui está: para elevar o cântaro até à cabeça era uma ajuda, a questão põe-se agora quando, chegada a casa, era preciso tirar o cântaro para a cantareira ou outro pedestal que ficasse à mão de todos e relativamente baixo para que até as crianças lhe chegassem para se dessedentarem. Aí, a mulher carregada pedia a quem estivesse por perto; "desajuda-me aqui, se fazes favor". Não penseis, todavia, que é esta a única palavra que verifica esta "anomalia". Sirva de exemplo DESINFELIZ.
Vem este fraseado para poder questionar-(me/vos) sobre se a religião ajuda ou desajuda seja qual for o sentido que queirais dar a estes termos.
Do que não restam dúvidas é que a religião (seja ela qual for) é senhora de um poder cujos limites ninguém consegue descortinar. Enquanto mitómano e mitófilo o ser humano faz do melhor e do pior em nome da mesma divindade. Para mim tenho também que as práticas religiosas, sejam os ritos convencionais, sejam as crenças instantâneas e esporádicas, são uma espécie de negócio de troca: promete-se qualquer coisa à divindade ou a um dos seus mais próximos: a Virgem, anjos, santos,...) mas com o intuito de receber uma benesse qualquer, que, para os que crêem não está ao alcance de outros seres humanos. E tanto se pede para o bem como para o mal. Neste caso leva muitas vezes o nome de bruxaria. Mas lá vêm os quebra quebrantos e as ladainhas e jaculatórias, sempre com intervenção divinizada, para desfazer os enguiços. O mesmo para os chamados possessos...Por isso é que :"Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga."
A questão complexifica-se se formos avaliar a «cultura» religiosa de grande parte dos crentes. O próprio Kant acaba por secundar a razão à Fé: " é preciso substituir a razão pela crença"! Valha-nos, ao menos, Fernando Pessoa: «crer é morrer; pensar é duvidar».
Se perguntardes, atrevo-me a dizer, à maioria dos que se dizem cristãos, ou mesmo católicos se leram a Bíblia, ou parte significativa dela, a resposta irá ser um rotundo NÃO.
Se os confrontardes com os paradoxos da Fé, ou com o absurdo da Fé, como lhe chamou Kierkegaard, a resposta, invariavelmente será que foi assim que aprenderam e que sempre foi assim e eles acreditam que assim seja. Mainada.
Para não pensardes que falo por falar ficai-vos estes dados:
Uma sondagem feita em Gallup, E.U.A., por Robert Hinde e depois referida no livro dele mesmo sob o título Why Gods Persist, a ignorância revelada em matéria bíblica por gente educada em décadas recentes era tal que espanta qualquer um:75% dos católicos e protestantes não sabiam o nome de um único profeta do Antigo Testamento; mais de dois terços não sabiam quem tinha proferido o sermão da montanha; a grande maioria julgava que Moisés fora um dos doze apóstolos... e por aí fora.
A Bíblia não é, com toda a certeza um livro que se aconselhe a uma criança no intuito de uma boa formação moral. Repare-se que no Levítico 20 são merecedoras de pena de morte as seguintes ofensas: amaldiçoar os pais, cometer adultério, ter relações com a madrasta ou com a nora, a homossexualidade, desposar a mulher mais a filha, a bestialidade (aqui com o pormenor de matar também o pobre do bicho).
No Livro dos Números,15, os filhos de Israel encontram um homem no deserto a apanhar lenha no dia proibído. Levam-no e perguntam a Deus o que fazer com ele ...«Então o Senhor disse a Moisés: esse homem será morto. Toda a assembleia o apedrejará fora do acampamento. Assim se fez.
Afinal Deus ajuda ou desajuda? ambos ou nenhuma?
Deixai-me terminar com Blaise Pascal:"Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa".
Já me alonguei bastante. Logo cá voltaremos.

XXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE

Desenho: Carlos Matos

domingo, maio 14, 2017

A NOSSA FALADURA - CCLI - PINCHAVELHO

A necessidade de actualmente fecharmos todas as portas a quantas chaves for possível é hábito relativamente recente. Na verdade muitas das portas nos tempos idos, ou estavam apenas encostadas, ou fechadas ao trinco, facilmente acessíveis a quem quisesse entrar. Outras, sobretudo no campo, ou se fechavam com um baraço enrolado num prego espetado no batente e ligeiramente encurvado ou, às vezes era um arame em forma de argola fixo na porta e que depois se ajustava a uma presilha qualquer existente também no batente ou mesmo numa fresta lateral à ombreira da porta. Decididamente o importante era que algum animal que estivesse dentro não conseguisse sair... Nalgumas utilizava-se outro artefacto: o pinchavelho. Em regra era um pequeno pau, aguçado dum lado e que entrava justo numa argola onde metia um arame que assim não desandava do sítio mesmo que o vento abanasse a porta. A alternativa era um pequeno ferrolho em cuja extremidade estava um penduricalho que entrava na dita argola e lá ficava.
Não existia então o medo do roubo e nunca acontecia ter que voltar a casa buscar a chave que se esquecera. Ainda algumas vezes me abriguei em casebres destes quando alguma trovoada me apanhava desprevenido.
Mesmo nas povoações era raro que se esbarrasse numa porta fechada à chave. Premia-se o trinco ou puxava-se um baraço que arrastava a língua da fechadura, abria-se a porta e só depois é que se perguntava: Oh Rosa estás cá?
Mas o mais interessante era que as pessoas quando estavam em casa conversavam umas com as outras, sobre tudo e sobre nada. Simplesmente conversavam. Os novos iam aprendendo as histórias que os mais velhos vezes sem conta contavam, como por exemplo a do peidinho da senhora, que quando o avô dizia que desde o peidinho à peidorra que venho atrás do cu da senhora, provocava sempre cristalinas gargalhadas, ou aquela outra do conto das calcinhas vermelhas, ou a da morte da burranca,... O decisivo era que conversavam. Ide lá ver hoje! já não basta a porta da rua trancada, como ainda cada um com o seu telemóvel ou computador, entretém-se a jogar ou  a partilhar nas diferentes plataformas sociais, mas ninguém conversa com quem está com eles na sala. Mesmo quando riem, cada um ri de coisa diferente e em momento diferente à medida que encontra algo engraçado no desenrolar da sua busca.
E se queremos entrar no mundo deles, não penseis que basta desenculatrar o pinchavelho que aliás não existe.  É preciso que ele se disponha a rodar a chave com que se fechou no seu mundo.
Se se pretende, então, fazer algum debate sobre um tema que esteja na berra e que de algum modo podia animar uma boa conversação, ou desandam para o quarto, colocam auscultadores nas orelhas (agora chamam-se fones) e isolam-se de novo no seu mundo privado.
Por exemplo, algum dia vos perguntastes se em vez de termos os mandamentos em forma de imperativo negativo (não matar, não mentir, não levantar falso testemunho, não invejar...), os tivéssemos de forma afirmativa e, se em vez de serem aqueles que todos conhecemos fossem outros como (sirvo-me de Richard Dawkins em A Desilusão de Deus, casa das letras, pag 316): esforça-te por não fazeres o mal; vive a vida com alegria e admiração; procura sempre aprender algo novo; trata os teus semelhantes, os seres vivos e o mundo em geral com amor, lealdade, honestidade e respeito; interroga-te sobre tudo; forma opiniões independentes com base na tua própria razão e experiência.
A ideia dogmática da inalterabilidade é a morte da criatividade, da inovação. É preciso, se não ser subversivo, ser pelo menos ousado e provocador (aquele que PROVOCA DOR) ou seja, é proibido estagnar e ousar...
Seja-me ainda permitido trazer à baila um assunto candente: o dos direitos dos animais. De facto este assunto deixou de estar trancado e passou a estar acessível por um pinchavelho acerca do qual qualquer um opina. Deixando de lado esta questão sublime que é a de todos e cada um se julgar autoridade em assuntos acerca dos quais nada sabe e mandar para o ar uns bitaites de forma aberradamente aleatória. Já uma vez aqui tratei da famosa doença contemporânea:  a opinionite…Diferentemente do que se julga, a opinião não pode ser  emitida a eito. A opinião deve ser apenas dada por quem saiba de um assunto e não por um basbaque qualquer que se arvora em especialista fazendo "figura de crocodilo na classe dos mamíferos" na sublime leitura de Joaquim de Carvalho.
Volvamos, pois, ao assunto que aqui nos conduziu: o dos direitos dos animais. Talvez ninguém melhor que Peter Singer – este sim, pode falar do que sabe ...- E que defende o nosso especialista? Olhai só: «devemos avançar para uma condição 'pós especialista' em que o tratamento humano é alargado a todas as espécies que disponham de um cérebro suficientemente poderoso para dele desfrutar. Talvez  isto aponte já na direcção que o ZEITGEIST  moral deverá tomar nos próximos tempos. Tal não seria mais do que o prolongamento natural de reformas anteriores, como a abolição da escravatura e a emancipação das mulheres.. (esta problemática do Zeitgeist vai ter tratamento especial num dos próximos basas.).
Mas, já agora deixo-vos uma questão linear que não vamos, por agora, desenvolver: será que quem não tem deveres tem direito a ter direitos...?

O problema  é agora o de saber: quem dialectiza estes problemas comigo? Não tenho parceiro e por isso penso sozinho e, olha!, partilho convosco. Pode ser que algum de vós me desafie! O meu pinchavelho não tem segredo: é abrir e entrar.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAANNDDDDDDEEEEEEE.


quarta-feira, março 22, 2017

A NOSSA FALADURA - CCL - ESPARNICAR / ESPERNICAR


Até parece que foi há muito tempo... Mas não foi há tanto assim. A não ser que eu também já tenha muito tempo e isso eu não quero crer. Afinal ainda não entrei na chamada terceira idade, ainda pago bilhete inteiro em transportes públicos e não tenho qualquer documento vitalício e renovo a carta só daqui a seis anos...
A velocidade a que hoje as novidades acontecem é tal que o que agora é moda, amanhã é já pré-história. Alguns chamar-lhe-ão sociedade da informação, mas eu acho que mais importante será uma sociedade bem IN(Formada).
A prova de que tudo é efémero, ou descartável, se quiserdes, está aqui mesmo no basa. Quantos do que nos lêem seriam conhecedores deste vernaculismo que deixamos aqui registado? Só que eu usei todos estes termos e muitos mais que, aos poucos hão-de aflorar à memória e, claro, aqui projectados.
Para quem conhece a terra xêndrica será difícil corroborar que contíguas à taberna do ti Chico Miguel, havia duas furdas onde ele criava os porcos de matança? Que as galinhas depenicavam na rua e espernicavam restos de algum tanoco de pão que lhes surgisse ao bico? Que uma vez por outra, um carro batia numa delas e era um consolo ver todas aquelas penas a esvoaçar pelo ar? Até recos de médio tamanho patrulhavam as ruas à procura de  restos de comida! Olhai que não foi há tanto assim!
Sou ainda do tempo em que os lagares eram de varas e se usavam ceiras em vez de capachos. Não havia água canalizada e muitas vezes me levantei às cinco para ir dar água ao lagar...
Lembro-me bem de não haver electricidade e de haver uns poucos de candeeiros de bronze, poucas vezes acesos para dar luz à estrada... Um deles estava mesmo no ângulo esquinado da casa onde morei grande parte da minha vida. Vi-o cortar com uma serra  de metal,
O sal, o açúcar, o arroz, a massa, tudo era vendido a retalho e ao peso dentro de uns cartuchos de um papel pardo... os pacotes de manteiga guardavam-se em sal para não se derreterem no verão, o petróleo, o azeite , tudo era vendido à medida e de forma avulsa... 
Sou do tempo do centil, do salamim, da quarta, do quartilho, da panela, da deca, do alqueire, da fanega, do moio, do quartão, do almude, do côvado...
Sou do tempo da infusa, do arrátel, do pucheiro, da cântara, da braçada, da arroba, da grosa, do milheiro...
Sou ainda do tempo do pé, do passo, da passada, da chanca...
Vendia-se a chita da tabela e roupa de marca na ourela, camisas de terylene que era só lavar e secar e ficava pronta para voltar a usar; vestia-se surrobeco, pana=bombazina, popelina, do cotim, tudo enrolado em peças e cortado com arte pelo merceeiro.
Quem se lembra da brocha espanhola e  da carda, para além dos protectores para proteger a sola dos botins vergados à mão, batida em pedra seixo redonda chamada a rebola, depois de bem demolhada em celhas que mais pareciam dornas pequenas ?
Quem conheceu a sola verde, a sola maranhão, a barriga de sola, o corpon, o calfe, a capicua, a borracha de ceilão, a sintelite? Quem se lembra da anilina para fazer graxa para os sapatos?
Quem sabe o que era a semilha, o prego de pregar à forma? quem distingue o prego de ripa, de  fasquia,de meio solho, de solho, de caibro? Quem, ainda, pregou uma cavilha?
Quanta gente há por aí que já nem sabe o que sejam umas ceroulas ou uma simples fita de nastro, sequer uma naveta de tear ou a canela de uma máquina de costura tocada a pedal?
Tanta coisa, tudo há tão pouco tempo e a parecer tanto...
Pois é, meus caros: assim se passa com os valores.
Se hoje perguntarmos a um dos nossos jovens o que mais gostava de ter na vida lá vem um carro potente, uma vivenda luxuosa, o desejo de conhecer meio mundo e o resto da outra metade em viagem, e serão poucos os que falam de saúde, paz, amizade, família, trabalho,...Vai lá vai...
Até parece que vos estou a dar um bailinho... Nunca foi minha intenção e confesso que quando comecei a escrever esta crónica não tinha minimamente na cabeça derivar para estes campos.
Mas lá está: a nossa mente não é linear e, porque é contínua e não contígua, nunca se sabe para onde o pensamento nos pode conduzir e damos por nós em imprevisíveis situações. Dito assim de repente: a nossa mente também espernica, isto é, nunca se sabe onde vai parar a ideia inicial...Tal como não sabemos para onde vai parar a migalha de pão que a galinha da ti Surreição, que teimava em continuar a usar pedras como  pesos, iria parar quando ela abanava o pescoço. 
Poi é! Também não sabeis quem é a ti Surreição (Maria da Ressurreição). Mas eu digo-vos: morava na primeira casa da rua do Outeiro, mesmo antes da barreira e confrontava atrás com o quintal dos Póvoa, à esquerda com o largo do batoco e á direita com O Chquim Calça-Defuntos, à frente, está claro, com a via pública. A casa tinha uma loja onde ela guardava o que colhia da horta e outros produtos para consumo ao longo do ano: cebolas, alhos,piri-piri, batatas, azeite, azeitonas, a salgadeira, feijão, grão, queijo, sei lá ...e as pedras. Era mais surda que um calhau  e desconfiada até mais não...
Muitas vezes a atendi na pequena loja de meus pais e quando queria qualquer coisa a peso teimava que o que valia era a sua pedra e não o peso aferido pelo aferidor camarário. Além disso levava sempre uns cambos para servirem de balança pois não confiava nas balanças do comerciante. O problema não era quando comprava pois as pedras iam sempre perdendo um bocado, mas quando queria vender. Aí, tinha que por sempre mais peso do que o real. Era precisa muita arte e paciência para a convencer da sua ilusão.
Só para imaginardes quão desconfiada era só vos digo que contava sempre os fósforos de cada caixa quando tinha que comprar alguma. Tinha mesmo que ter quarenta...
O acesso à casa propriamente dita fazia-se através de uma escadaria exterior que dava para um pequeno patamar sem qualquer guarda. No vão das escadas estava um buraco que servia de capoeira às três galinhas que criva com esmero. De manhã colocava uma escada feita ad hoc em que umas velhas ripas eram pregadas em dois pequenos varais mais parecidos com empas de feijoeiro. As galinhas andavam todo o dia na rua, esparnicavam o que encontravam e à tardinha Ti Surreição chamava-as, tomava-lhes o ovo, subiam as escadinhas, entravam para o buraco até ao outro dia. Ficavam baratas estas galinhas que em dia de festa lá provavam uns farelos mexidos com couve galega !
E por hoje chega.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNNDDDDEEE

Desenho de Carlos Matos