quarta-feira, março 22, 2017

A NOSSA FALADURA - CCL - ESPARNICAR / ESPERNICAR


Até parece que foi há muito tempo... Mas não foi há tanto assim. A não ser que eu também já tenha muito tempo e isso eu não quero crer. Afinal ainda não entrei na chamada terceira idade, ainda pago bilhete inteiro em transportes públicos e não tenho qualquer documento vitalício e renovo a carta só daqui a seis anos...
A velocidade a que hoje as novidades acontecem é tal que o que agora é moda, amanhã é já pré-história. Alguns chamar-lhe-ão sociedade da informação, mas eu acho que mais importante será uma sociedade bem IN(Formada).
A prova de que tudo é efémero, ou descartável, se quiserdes, está aqui mesmo no basa. Quantos do que nos lêem seriam conhecedores deste vernaculismo que deixamos aqui registado? Só que eu usei todos estes termos e muitos mais que, aos poucos hão-de aflorar à memória e, claro, aqui projectados.
Para quem conhece a terra xêndrica será difícil corroborar que contíguas à taberna do ti Chico Miguel, havia duas furdas onde ele criava os porcos de matança? Que as galinhas depenicavam na rua e espernicavam restos de algum tanoco de pão que lhes surgisse ao bico? Que uma vez por outra, um carro batia numa delas e era um consolo ver todas aquelas penas a esvoaçar pelo ar? Até recos de médio tamanho patrulhavam as ruas à procura de  restos de comida! Olhai que não foi há tanto assim!
Sou ainda do tempo em que os lagares eram de varas e se usavam ceiras em vez de capachos. Não havia água canalizada e muitas vezes me levantei às cinco para ir dar água ao lagar...
Lembro-me bem de não haver electricidade e de haver uns poucos de candeeiros de bronze, poucas vezes acesos para dar luz à estrada... Um deles estava mesmo no ângulo esquinado da casa onde morei grande parte da minha vida. Vi-o cortar com uma serra  de metal,
O sal, o açúcar, o arroz, a massa, tudo era vendido a retalho e ao peso dentro de uns cartuchos de um papel pardo... os pacotes de manteiga guardavam-se em sal para não se derreterem no verão, o petróleo, o azeite , tudo era vendido à medida e de forma avulsa... 
Sou do tempo do centil, do salamim, da quarta, do quartilho, da panela, da deca, do alqueire, da fanega, do moio, do quartão, do almude, do côvado...
Sou do tempo da infusa, do arrátel, do pucheiro, da cântara, da braçada, da arroba, da grosa, do milheiro...
Sou ainda do tempo do pé, do passo, da passada, da chanca...
Vendia-se a chita da tabela e roupa de marca na ourela, camisas de terylene que era só lavar e secar e ficava pronta para voltar a usar; vestia-se surrobeco, pana=bombazina, popelina, do cotim, tudo enrolado em peças e cortado com arte pelo merceeiro.
Quem se lembra da brocha espanhola e  da carda, para além dos protectores para proteger a sola dos botins vergados à mão, batida em pedra seixo redonda chamada a rebola, depois de bem demolhada em celhas que mais pareciam dornas pequenas ?
Quem conheceu a sola verde, a sola maranhão, a barriga de sola, o corpon, o calfe, a capicua, a borracha de ceilão, a sintelite? Quem se lembra da anilina para fazer graxa para os sapatos?
Quem sabe o que era a semilha, o prego de pregar à forma? quem distingue o prego de ripa, de  fasquia,de meio solho, de solho, de caibro? Quem, ainda, pregou uma cavilha?
Quanta gente há por aí que já nem sabe o que sejam umas ceroulas ou uma simples fita de nastro, sequer uma naveta de tear ou a canela de uma máquina de costura tocada a pedal?
Tanta coisa, tudo há tão pouco tempo e a parecer tanto...
Pois é, meus caros: assim se passa com os valores.
Se hoje perguntarmos a um dos nossos jovens o que mais gostava de ter na vida lá vem um carro potente, uma vivenda luxuosa, o desejo de conhecer meio mundo e o resto da outra metade em viagem, e serão poucos os que falam de saúde, paz, amizade, família, trabalho,...Vai lá vai...
Até parece que vos estou a dar um bailinho... Nunca foi minha intenção e confesso que quando comecei a escrever esta crónica não tinha minimamente na cabeça derivar para estes campos.
Mas lá está: a nossa mente não é linear e, porque é contínua e não contígua, nunca se sabe para onde o pensamento nos pode conduzir e damos por nós em imprevisíveis situações. Dito assim de repente: a nossa mente também espernica, isto é, nunca se sabe onde vai parar a ideia inicial...Tal como não sabemos para onde vai parar a migalha de pão que a galinha da ti Surreição, que teimava em continuar a usar pedras como  pesos, iria parar quando ela abanava o pescoço. 
Poi é! Também não sabeis quem é a ti Surreição (Maria da Ressurreição). Mas eu digo-vos: morava na primeira casa da rua do Outeiro, mesmo antes da barreira e confrontava atrás com o quintal dos Póvoa, à esquerda com o largo do batoco e á direita com O Chquim Calça-Defuntos, à frente, está claro, com a via pública. A casa tinha uma loja onde ela guardava o que colhia da horta e outros produtos para consumo ao longo do ano: cebolas, alhos,piri-piri, batatas, azeite, azeitonas, a salgadeira, feijão, grão, queijo, sei lá ...e as pedras. Era mais surda que um calhau  e desconfiada até mais não...
Muitas vezes a atendi na pequena loja de meus pais e quando queria qualquer coisa a peso teimava que o que valia era a sua pedra e não o peso aferido pelo aferidor camarário. Além disso levava sempre uns cambos para servirem de balança pois não confiava nas balanças do comerciante. O problema não era quando comprava pois as pedras iam sempre perdendo um bocado, mas quando queria vender. Aí, tinha que por sempre mais peso do que o real. Era precisa muita arte e paciência para a convencer da sua ilusão.
Só para imaginardes quão desconfiada era só vos digo que contava sempre os fósforos de cada caixa quando tinha que comprar alguma. Tinha mesmo que ter quarenta...
O acesso à casa propriamente dita fazia-se através de uma escadaria exterior que dava para um pequeno patamar sem qualquer guarda. No vão das escadas estava um buraco que servia de capoeira às três galinhas que criva com esmero. De manhã colocava uma escada feita ad hoc em que umas velhas ripas eram pregadas em dois pequenos varais mais parecidos com empas de feijoeiro. As galinhas andavam todo o dia na rua, esparnicavam o que encontravam e à tardinha Ti Surreição chamava-as, tomava-lhes o ovo, subiam as escadinhas, entravam para o buraco até ao outro dia. Ficavam baratas estas galinhas que em dia de festa lá provavam uns farelos mexidos com couve galega !
E por hoje chega.
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Desenho de Carlos Matos

terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

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sexta-feira, dezembro 30, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVIII - GALISTO

Se estamos em tempo de festejo pelo Natal e, consequentemente, pelo nascimento do menino, e depois o ano novo, também não é menos verdade que esta é, por excelência, a época das matanças. E não se pense que é só a do porco. Morrem galos, capões, coelhos, cabritos e cabras, cordeiros e borregos, leitões, vitelos e por aí fora. O macaco pelado ou nu como lhe chamou Desmond Morris é mesmo um predador desnaturado.
Embora cada vez mais haja menos daquelas matanças tradicionais, ainda tenho oportunidade de cumprir o velho cerimonial em matanças de porcos de bons amigos que, além disso, ainda fazem os tradicionais enchidos e curam o belo presunto para ser depois enxertado em maio depois de bem barrado com colorau por via da mosca e pendurado na trave mestra dentro de um saco de linho bem lavadinho até secar o bastante para se lhe poder enterrar a faca e dar fatia...Ainda se vai provando material de primeira, mas pouca vez.
Vítimas garantidas desta chachina epocal são as reses galistas. Expliquemo-nos; dá-se o nome de galisto a um animal de qualquer espécie que nasce com uma anomalia congénita, impossível de corrigir. Como se sabe, um erro inicial no desdobramento das células germinais é sempre irreversível. A genética segue sempre o seu caminho até ao nascimento e mantém essas características por bastante tempo, às vezes, como se pode ver na trissomia do cromossoma 21, ou apenas durante um curto período que desemboca fatalmente numa morte prematura, sempre precedida de algum sofrimento por parte do animal que dela sofra. É o que se passa com o gado galisto: o animal nasce sem uma das vias de excreção e faz todas as necessidades por uma única via, normalmente o ânus e, às vezes o umbigo. Quando tal acontece, o criador já sabe que o animal vai morrer e, então, o melhor que pode fazer é aliviar o animal do sofrimento e conseguir algum rendimento, abatendo-o para consumo próprio, ou vendendo-o bastante mais barato. Cheguei várias vezes a comprar dois leitões pelo preço de um. Não advém qualquer perigo para o consumidor e um leitãozito assado no forno a lenha, nesta altura do campeonato, até que embarca na ponta da unha.
Não eram muitos os criadores de porcas parideiras nas terras xêndricas e, não raro, apareciam por lá vendedores que forneciam o bacorinho para a furda e posterior matança um ano depois, mais coisa, menos coisa. Claro que estamos a falar de épocas que já lá vão em que não se falava de língua azul ou peste suína e não eram necessárias guias especiais para transporte, venda e abate de gado das mais diversas espécies. O maior criador era o Dr Leitão, ilustríssimo filho da aldeia xêndrica, oftalmologista de renome. Bem... não era o dr. Amândio Leitão que tratava da criação mas o seu feitor, Domingos Menas, primeiro, e depois o ti Augusto que veio de Unhais para dirigir a casa. Já na vizinha aldeia dos cucos o sargento Jaimeca, primeiro, e depois uma exploração de dimensão razoável garantiam bacoragem que chegasse para a área de circunscrição. Eram muitos mais os criadores de gado caprino e ovino. Lembro-me bem da musicalidade do som emitido pelas cabradas que se distinguiam pelo diferente som que picadeiros, reboleiros, chocalhos e campainhas produziam. Sabia-se a quem pertencia o rebanho que se ouvia por causa dessa tonalidade sonora.
Se se quisesse um galisto não era preciso dar muita volta e de um dia para o outro havia bicho para se meter na panela de ferro e proporcionar uma rambóia das valentes, já com vinho novo a escorrer das pichorras e acompanhado por alguma morcela ou chouriça, surripiada à sucapa do varal do fumeiro que abanava ao calor de lume controlado para não ficar a saber a fumo, mas também não proporcionasse secura bastante que não evitasse o abolorecimento das diferentes peças. Bons tempos esses em que havia rapaziada com fartura e não era difícil arranjar comparsas para uma petiscada daquelas assim comédado. 
O madeiro ardente foi muitas vezes o local seleccionado para uns convívios que ficaram registados. Ao fim havia sempre o grito de guerra: porrada no madeiro que inda está inteiro e Natal ,Natal, filhós com vinho não fazem mal, filhós no caldeirão e vinho no garrafão.
Assim seja.
Aproveito para vos desejar umas boas festas e se for a apreciar um galisto, melhor.
XIIIGGRRRRRASNNNNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEE.

quarta-feira, novembro 23, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVII - (T)CHASQUEIRO

Vão já longe os tempos em que este vosso amigo, pelas seis da manhã, em pleno inverno, ia das terras xêndricas até às portelas com uma escada de pinho aos ombros, pesada quanto bastasse, com 18 degraus, feita por Tonho Sarrabeco, para se chegar ao cimo das oliveiras mais altas. Era o tempo da azeitona... O caminho nada tinha de fácil e, como era completamente de noite, não raro, o que parecia caminho direito, era um charco em caramelo que afundava ao peso ou proporcionava escorregadelas para as quais era preciso equilíbrio mais que de patinador emérito...Não penseis que "era logo ali"...não; era bem longe: para lá das minas do pinheiro. Acontecia muitas vezes enterrar as botas de borracha  num (t)chasqueiro e ter que aguentar todo o dia com os pés molhados, ou quando muito, pôr as meias espanholas de uma lã grossa e rudimentar a secar, na ponta de um pequeno varal, no lume, que logo cedo se acendia, antes que os trabalhadores chegassem ao olival. Era ver a evaporação a processar-se e meu pai a gritar que era preciso estender o fato (panais ou toldos) debaixo das oliveiras e encostar as escadas  prontas para as mudas quando os homens chegassem. Era preciso saber encostar a escada, sempre a tombar para dentro e ao sol, pela manhã, que luvas não havia e as mãos facilmente arreganhavam, o que obrigava a ir aquecê-las ao lume. Para o patrão, isso era tempo perdido ...Viam-se os restos das minas cujos detritos ainda hoje por lá estão... Extraía-se para além do volfrâmio - o mais valioso - ou não estivesse o mundo em guerra  e as armas exigissem esse mineral na sua composição, a galena, para os rádios, várias pirites, hematite, magnetite e limonite, entre outros minerais. 
Era o chamado "tempo do minério" (vg. volframite). Muitos eram os que, malucos com meia dúzia de tostões, chegavam a fazer cigarros enrolados em mortalhas com notas de vinte escudos. Cheguei a vê-los a comer rapé, tal a força do vício. Se o não comiam, pelo menos mascavam-no. Muitos tinham as ventas (narinas) tão largas que os polegares eram mindinhos...
Estamos a falar do final dos anos 50, princípios de 60 do século passado em que um homem, a trabalhar de sol a sol, ganhava à volta de dez escudos . Quem não conhece o valor do dinheiro estranhará estes 'jornais' ou jornas, mas até eu, mais novo que essa gente, em rapazote, comprava um par de sapatos de sola e calfe, por quinze escudos. Aos tempos que correm seriam sete cêntimos e meio. Impensável para os tempos de hoje... Comprava-se um andar na cidade por setenta contos e um carro por quarenta... Pronto, vamos lá traduzir: um andar custava 350 euros e um carro duzentos. Pois... Conheci mineiros que vinham de táxi a Castelo Branco, todos inchados, só para cortar o cabelo.
Era a loucura absurda dos tempos do minério, como já acima vos referi.
Foram muitos os xendros que trabalharam nessas minas, não só, nas referidas minas do pinheiro como nas chamadas minas do Palão, geograficamente identificadas como minas da ribeira da ceife, cuja produção principal era a galena.  Outros tempos... mas não menos (t)chasqueiros.
Histórias muitas ouvi, passadas nessas minas, que dado o seu conteúdo tristonho e horrendo, me dispenso de aqui vos trazer. ..
Há uma, porém que, tendo sido vivida por um mineiro, melhor dito, por um filho, que entendo deixar-vos aqui. 
João Espeta-Figos chegava a passar um mês sem vir a casa, sempre a trabalhar nos túneis das minas do palão em condições mais que desumanas mas, como muitos dos xendros, queria que o seu filho de sete anos, fosse à escola e à doutrina (catequese). A Menina Irene, a Tonha Freira, a Clara Violas  e até eu, um pouco mais tarde, eram as catequistas de serviço e foi de menina Irene que a ouvi um dia que lhe fui levar uma bilha de gás, naquele mais que famoso carrinho quadrado de duas rodas que eu conduzia como ninguém por aqueles empedrados do outeiro, cavacal ou lagariça.
Contou, então, menina Irene, que o filho do Espeta-Figos, creio que ainda hoje anda pela França a fazer pela vida, chegou um dia a casa depois de um dia de catecismo, em que se ensinaram algumas das orações mais comuns do catolicismo - sirva de exemplo o Pai-Nosso - aflito a dizer à mãe que era preciso ter muito cuidado com o bicho malamén... (É preciso lembrar que, em muitos casos, só os homens emigravam, enquanto as mulheres ficavam por cá. Algumas foram depois ter com os respectivos maridos mas muitas esperaram por cá até que eles "viessem de todo").
A mãe não entendeu o que era o bicho malamén...
O cachopo, então, explicou que tinha estado sempre a rezar o pai-nosso que acabava, tal como sempre acabou e acaba," e livrai-nos do mal. Amén" Tantas vezes ele foi obrigado a dizer a oração que lhe ficou a recência do final.. Como não entendia o que era o Amén, juntou o MALÀMEN, julgando tratar-se de algum bicho perigoso...
Por isso dizia para a mãe: " Deus nos livre do malamén, que deve ser um bicho mau como o diabo.
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domingo, outubro 30, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVI - (T)CHAVASCAL


Desde sempre que os assuntos atinentes à actividade sexual foram objecto de algum mistério ou ocultismo e não é menos verdade que, pelo menos até agora, a desbragada linguagem masculina se atenua e adoça quando elementos femininos fazem parte do adjunto. História, a um tempo engraçada e proibitiva, contou-ma um dia o velho Pote, pescador emérito. Gabava-se de ter um fémur de platina, só que ficava, a bem dizer, impedido de andar muito tempo na água a orientar a posição das redes porque o frio da água afectava o metal e Pote ficava tolhido de movimento rápido que muitas vezes era exigido nas lides piscatórias. Via-se na contingência de levar sempre gente nova que não temesse o frio da água, mesmo no defeso dos arreganhos, quando nalgum meandro da baságueda se juntavam os barbiscos e era preciso entrar para os forçar a ir para a bolsa da rede. Aí entrava eu. O peixe, de inverno, desde que a corrente não seja muito forte e o sol bata num baixio de águas mais calmas, junta-se em cardume. É muito mais limpo e rijo que nas calinas de verão em que procura o fundo e se alimenta de mais lodo. Nanja disso no inverno em que nadava à tona para sentir algum calor e as águas estão limpas por mor de alguma enxurrada que levava toda a porcaria na frente e deixava, passados dias, um água límpida e reluzente.
As redes usadas tinham o mesmo tipo de alguitanas mas tinham rofo mais fundo e chumbo mais pesado. Era preciso ter ombros para depois carregar com rede molhada, chumbo, algum lodo e o arreganho dos peixes. 
Nesse dia não foi nada mal ao velho Pote que trouxe uns bons 30 kgs para vender porta a porta. Chico Grande, como de costume foi o cozinheiro e fosse pela garra da juventude, fosse pelo frio que passei nas águas da Baságueda, facto é que já depois de eles e eu termos comido assim comédado me fui à caçola e limpei o barro. Se calhar a confecção de Chico Grande também ajudou... Pouca gente fazia uma miga de batata e peixe como velho cabo da guarda -fiscal.
Fomos nós, então, para as revoltas do Vale Feitoso e é aí que o velho Pote se sai com esta:
" A tia Adelaide sentia apetites por umas esfregadelas mas o velho Arménio até parecia que se tinha esquecido dela e já não a procurava como antigamente quando até no chão da casa davam umas valentes arreboladelas. Um dia, Adelaide tirou-se de cuidados linguístico e recomenda a Arménio que vá ao médico a ver o que se passava com a marreta. Arménio enche-lhe o corpo de tonta e malcriada, e não quer mais conversa. Só que Adelaide não se fica e um dia que vem ao povo é ela mesma que vai ao médico e fala da impotência de Arménio. O médico, vendo a relativa juventude de Adelaide e, naturalmente a sua fidelidade de sempre a Arménio, receitou uns comprimidos que, disse, deviam dar resultado e espevitar Arménio para procurar Adelaide. Ela, no entanto, receosa do efeito do comprimido pelo caminho de regresso, depois de sair do médico pensou em dar um comprimido ao Farrusco, cão de guarda e, a bem dizer, elemento da família. Passou pela Conceição do Trem, comprou umas gramas de fiambre e quando chegou a casa embrulhou o comprimido que entretanto comprara na farmácia do dr Ildefonso num bom bocado de fiambre e dá-o a Farrusco. Nesta altura Pote começa a rir-se porque já sabia o fim da história... Eu é que não e só queria que ele se despachasse. Aos soluços lá vai contando e fiquei então a saber que o efeito do comprimido no cão foi de tal monta que à falta de cadela por perto Farrusco se atira a Adelaide, esfarrapou-a toda e atacou-a de tal forma que quando Arménio chegou ainda ela estava toda cambalida. Teve que contar a Arménio a causa de tanta arranhadela ,,, E Ele «vai-te já a lavar em condicões e não digas a ninguém que isto se passou,,,», e ela: «não pode ser...o Farrusco deu o nó e arrastou comigo rua fora pegado a mim». O povo fez um (t)chavascal que nem queiras saber. Pote ria a bandeira despregada e eu mantive um sorriso de incredulidade.
Não sei mesmo como raio esta história do velho Pote me veio hoje à memória.
Aproveito para vos deixar um outro texto que em tempos escrevi para uma circunstância também ela muito diferente daquilo que nos trouxe até aqui. O que vos posso afiançar é que não houve nenhum (t)chavascal quando o apresentei ao meu público alvo num entretém que me deu algum gozo fazer. Já lá vão uns anotes, mas deixo-o tal como o produzi na altura.



ACHEGAS PARA O ESTUDO DA APRENDIZAGEM, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

DISSE SARTRE: « NÓS APRENDEMOS QUANDO TORNAMOS NOSSO AQUILO QUE É DOS OUTROS»

APRENDER IMPLICA ALTERAR UM COMPORTAMENTO

A QUESTÃO, AGORA PRENDE-SE COM A IMPORTÂNCIA DE RETER ESSA APRENDIZAGEM E EVOCÁ-LA SEMPRE QUE FOR PRECISA PARA RESOLVER UMA SITUAÇÃO IDÊNTICA

QUANDO UMA SITUAÇÃO É NOVA, EVOCAMOS TODAS AS NOSSAS CAPACIDADES EXPERIENCIAIS E INTELECTUAIS PROCURANDO SAIR DE FORMA AIROSA.

QUANDO NÃO SABEMOS, FAZEMOS COMO OS OUTROS (IMITAÇÃO) QUANDO A SOLUÇÃO É ABSOLUTAMENTE NOVA E ESTAMOS SÓS TEMOS QUE INVENTAR.

SÃO A IMAGINAÇÃO CRIADORA E O PENSAMENTO DIVERGENTE QUE NOS ACODEM.

VEM ISTO A PROPÓSITO  DE QUE O NOSSO RELACIONAMENTO COM A REALIDADE ENVOLVENTE NÃO DEVE SER LIDA EXCLUSIVAMENTE À LUZ DOS EMPIRISTAS INGLESES QUE PRETENDIAM QUE «O NOSSO MUNDO PERCEPTIVO SERIA UM MOSAICO CONFUSO DE FRAGMENTOS SENSORIAIS ISOLADOS MAS, ANTES, É UM TODO COERENTE E ORGANIZADO EM QUE TODOS OS INTERVENIENTES SE INTERSECCIONAM E INTER RELACIONAM».

TANTO ASSIM QUE A NOSSA MEMÓRIA NÃO É APENAS A EVOCAÇÃO DO PASSADO MAS ELA AFECTA  (E DE QUE MANEIRA) O NOSSO PRESENTE : HÁ UM CONTINUUM OU COMO QUERIA W. JAMES: OS NOSSOS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA NÃO SÃO CONTÍGUOS – ENTRE ELES NÃO HÁ PAREDES DIVISÓRIAS E SEPARADORAS – E SE NÃO É POSSÍVEL REVIVER O PASSADO É POSSÍVEL RE-PRESENTÁ-LO (TORNÁ-LO OUTRA VEZ PRESENTE NA NOSSA MEMÓRIA).

SERIA POSSÍVEL VIVER APENAS E SÓ NUM AGORA PERMANENTE?- ISSO SERIA A CONDENAÇÃO A VIVERMOS NUM ETERNO PRESENTE

QUEM NOS GARANTE QUE AO ACORDARMOS NOS RECONHECERÍAMOS COMO SENDO NÓS SE NÃO FOSSE A NOSSA MEMÓRIA?

SÓ A MEMÓRIA GARANTE SENTIDO AO «EU». É ELA QUE PERMITE A LIGAÇÃO DO PASSADO AO PRESENTE.

 
Podemos assim dizer que são três os estádios implicados em todo o acto de memória :

(sirvamo-nos de um exemplo citado por  Gleitmann : qual é o animal africano cujo nome tem dez letras e se alimenta de formigas?*)
É óbvio que se soubermos a resposta então podemos facilmente entender os três estádios processuais da memória:

1 – AQUISIÇÃO – PARA RECORDAR É PRECISO PRIMEIRO TER APRENDIDO (quem quer que seja que saiba a resposta deste exótico comportamento animal aprendeu-o em tempos e esta raridade alimentar deixou uma marca forte na mnese (sistema nervoso) desse indivíduo – é o que se chama traço mnésico;

2 – ARMAZENAMENTO – o que significa que o dado recolhido se mantém na nossa memória disponível para ser usado sempre que necessário;

3 – RECUPERAÇÃO – momento em que um indivíduo tenta lembrar-se, isolando de entre o conjunto de traços mnésicos que lhe ocorrem aquele ou aqueles que servem ao pretendido. (Convém deixar claro que muitas das nossas falhas de memória são mais culpa da recuperação do que do armazenamento).

*aí vai a solução: oricterope!


Há ainda a  CODIFICAÇÃO, a RECORDAÇÃO e o RECONHECIMENTO:


CODIFICAÇÃO – Forma como a informação foi armazenada. São variadas essas formas: pelo impacto ou impressão forte, por exemplo, o nome Axdamanatatulha ficou-me pelo facto de ser tão esquisito que o efeito de estranheza registou em mim este ícone; também o significado, o interesse, a necessidade, o género sexual, e até mnemónicas: estratégias facilitadoras de memória actualizada; a forma organizada – ordem alfabética,...


RECORDAÇÃO E RECONHECIMENTO – Quem ainda se não perguntou a si mesmo: onde raio deixei o carro?
São muitas as experiências feitas por psicólogos e é sempre preciso ter cuidado com as explicações, porque às vezes não se trata de falta de reconhecimento mas de incompetência natural para o desempenho da tarefa que é requerida a uma pessoa – reprodução de um desenho visto.
A situação mais comum é a de escolha múltipla ou a de identificação de um determinado nome no meio de uma série deles....
Reparemos que basta muitas vezes que oiçamos os primeiros acordes de uma música para a reconhecermos e recordarmos no seu todo.

Alguma história

a)     em 1930 Wilder Penfield, neurocirurgião, operou um paciente com uma epilepsia sem controlo.
b)    Durante a operação, Penfield estimula o paciente no córtex cervical; para seu espanto, o paciente, que estava consciente, acaba por revelar que se via a correr para casa depois da escola.
c)     Foi rápida a conclusão de Penfield: determinadas situações ficam gravadas no nosso cérebro da mesma forma que as imagens ficam gravadas numa película de um filme ou num rolo de fotografia.
Chamou-se a isto a teoria do Flash-back.
d) Como não podemos passar sem o passado  somos tentados a dizer que 
     cada um de nós  é o seu passado.
d,1- O facto é que, demo-nos nós conta ou não, a nossa resposta a uma qualquer situação “utiliza” a aprendizagem armazenada. O nosso comportamento é condicionado pelo nosso passado.
d)    a partir de 1970 constatou-se que a teoria de Penfield carecia de fundamento.
e)      As novas tecnologias demonstraram  que só e apenas quando as estimulações atingem a fonte das emoções é que o paciente tem algumas fases de lembranças de situações passadas.
f)      Pensou-se que o cérebro era compartimentado segundo classificações à moda de uma biblioteca ou de uma arquivo de uma qualquer repartição.
g)     Se por acaso o cérebro sofresse alguma lesão causada por um qualquer acidente e ficasse danificado, alguns dos ficheiros arquivados e classificados desapareceriam.
h)    Assim, pensou-se (Broca) que a recordação ou não de determinadas situações e competências se devia a lesões cerebrais.
i)       Ora esta ideia das localizações cerebrais é contraposta por Lashley que defende que o cérebro é um todo e pode acontecer que a lesão de determinada parte impeça a recordação mas não impede a sua recuperação.
Por exemplo: será que uma pessoa que num momento da sua vida deixou de identificar as cores, tem uma leitura da realidade diferente da nossa e que ele antes também tinha?