quarta-feira, novembro 23, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVII - (T)CHASQUEIRO

Vão já longe os tempos em que este vosso amigo, pelas seis da manhã, em pleno inverno, ia das terras xêndricas até às portelas com uma escada de pinho aos ombros, pesada quanto bastasse, com 18 degraus, feita por Tonho Sarrabeco, para se chegar ao cimo das oliveiras mais altas. Era o tempo da azeitona... O caminho nada tinha de fácil e, como era completamente de noite, não raro, o que parecia caminho direito, era um charco em caramelo que afundava ao peso ou proporcionava escorregadelas para as quais era preciso equilíbrio mais que de patinador emérito...Não penseis que "era logo ali"...não; era bem longe: para lá das minas do pinheiro. Acontecia muitas vezes enterrar as botas de borracha  num (t)chasqueiro e ter que aguentar todo o dia com os pés molhados, ou quando muito, pôr as meias espanholas de uma lã grossa e rudimentar a secar, na ponta de um pequeno varal, no lume, que logo cedo se acendia, antes que os trabalhadores chegassem ao olival. Era ver a evaporação a processar-se e meu pai a gritar que era preciso estender o fato (panais ou toldos) debaixo das oliveiras e encostar as escadas  prontas para as mudas quando os homens chegassem. Era preciso saber encostar a escada, sempre a tombar para dentro e ao sol, pela manhã, que luvas não havia e as mãos facilmente arreganhavam, o que obrigava a ir aquecê-las ao lume. Para o patrão, isso era tempo perdido ...Viam-se os restos das minas cujos detritos ainda hoje por lá estão... Extraía-se para além do volfrâmio - o mais valioso - ou não estivesse o mundo em guerra  e as armas exigissem esse mineral na sua composição, a galena, para os rádios, várias pirites, hematite, magnetite e limonite, entre outros minerais. 
Era o chamado "tempo do minério" (vg. volframite). Muitos eram os que, malucos com meia dúzia de tostões, chegavam a fazer cigarros enrolados em mortalhas com notas de vinte escudos. Cheguei a vê-los a comer rapé, tal a força do vício. Se o não comiam, pelo menos mascavam-no. Muitos tinham as ventas (narinas) tão largas que os polegares eram mindinhos...
Estamos a falar do final dos anos 50, princípios de 60 do século passado em que um homem, a trabalhar de sol a sol, ganhava à volta de dez escudos . Quem não conhece o valor do dinheiro estranhará estes 'jornais' ou jornas, mas até eu, mais novo que essa gente, em rapazote, comprava um par de sapatos de sola e calfe, por quinze escudos. Aos tempos que correm seriam sete cêntimos e meio. Impensável para os tempos de hoje... Comprava-se um andar na cidade por setenta contos e um carro por quarenta... Pronto, vamos lá traduzir: um andar custava 350 euros e um carro duzentos. Pois... Conheci mineiros que vinham de táxi a Castelo Branco, todos inchados, só para cortar o cabelo.
Era a loucura absurda dos tempos do minério, como já acima vos referi.
Foram muitos os xendros que trabalharam nessas minas, não só, nas referidas minas do pinheiro como nas chamadas minas do Palão, geograficamente identificadas como minas da ribeira da ceife, cuja produção principal era a galena.  Outros tempos... mas não menos (t)chasqueiros.
Histórias muitas ouvi, passadas nessas minas, que dado o seu conteúdo tristonho e horrendo, me dispenso de aqui vos trazer. ..
Há uma, porém que, tendo sido vivida por um mineiro, melhor dito, por um filho, que entendo deixar-vos aqui. 
João Espeta-Figos chegava a passar um mês sem vir a casa, sempre a trabalhar nos túneis das minas do palão em condições mais que desumanas mas, como muitos dos xendros, queria que o seu filho de sete anos, fosse à escola e à doutrina (catequese). A Menina Irene, a Tonha Freira, a Clara Violas  e até eu, um pouco mais tarde, eram as catequistas de serviço e foi de menina Irene que a ouvi um dia que lhe fui levar uma bilha de gás, naquele mais que famoso carrinho quadrado de duas rodas que eu conduzia como ninguém por aqueles empedrados do outeiro, cavacal ou lagariça.
Contou, então, menina Irene, que o filho do Espeta-Figos, creio que ainda hoje anda pela França a fazer pela vida, chegou um dia a casa depois de um dia de catecismo, em que se ensinaram algumas das orações mais comuns do catolicismo - sirva de exemplo o Pai-Nosso - aflito a dizer à mãe que era preciso ter muito cuidado com o bicho malamén... (É preciso lembrar que, em muitos casos, só os homens emigravam, enquanto as mulheres ficavam por cá. Algumas foram depois ter com os respectivos maridos mas muitas esperaram por cá até que eles "viessem de todo").
A mãe não entendeu o que era o bicho malamén...
O cachopo, então, explicou que tinha estado sempre a rezar o pai-nosso que acabava, tal como sempre acabou e acaba," e livrai-nos do mal. Amén" Tantas vezes ele foi obrigado a dizer a oração que lhe ficou a recência do final.. Como não entendia o que era o Amén, juntou o MALÀMEN, julgando tratar-se de algum bicho perigoso...
Por isso dizia para a mãe: " Deus nos livre do malamén, que deve ser um bicho mau como o diabo.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIGGGGGGGGGRRRRRRRAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDEEEE

domingo, outubro 30, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVI - (T)CHAVASCAL


Desde sempre que os assuntos atinentes à actividade sexual foram objecto de algum mistério ou ocultismo e não é menos verdade que, pelo menos até agora, a desbragada linguagem masculina se atenua e adoça quando elementos femininos fazem parte do adjunto. História, a um tempo engraçada e proibitiva, contou-ma um dia o velho Pote, pescador emérito. Gabava-se de ter um fémur de platina, só que ficava, a bem dizer, impedido de andar muito tempo na água a orientar a posição das redes porque o frio da água afectava o metal e Pote ficava tolhido de movimento rápido que muitas vezes era exigido nas lides piscatórias. Via-se na contingência de levar sempre gente nova que não temesse o frio da água, mesmo no defeso dos arreganhos, quando nalgum meandro da baságueda se juntavam os barbiscos e era preciso entrar para os forçar a ir para a bolsa da rede. Aí entrava eu. O peixe, de inverno, desde que a corrente não seja muito forte e o sol bata num baixio de águas mais calmas, junta-se em cardume. É muito mais limpo e rijo que nas calinas de verão em que procura o fundo e se alimenta de mais lodo. Nanja disso no inverno em que nadava à tona para sentir algum calor e as águas estão limpas por mor de alguma enxurrada que levava toda a porcaria na frente e deixava, passados dias, um água límpida e reluzente.
As redes usadas tinham o mesmo tipo de alguitanas mas tinham rofo mais fundo e chumbo mais pesado. Era preciso ter ombros para depois carregar com rede molhada, chumbo, algum lodo e o arreganho dos peixes. 
Nesse dia não foi nada mal ao velho Pote que trouxe uns bons 30 kgs para vender porta a porta. Chico Grande, como de costume foi o cozinheiro e fosse pela garra da juventude, fosse pelo frio que passei nas águas da Baságueda, facto é que já depois de eles e eu termos comido assim comédado me fui à caçola e limpei o barro. Se calhar a confecção de Chico Grande também ajudou... Pouca gente fazia uma miga de batata e peixe como velho cabo da guarda -fiscal.
Fomos nós, então, para as revoltas do Vale Feitoso e é aí que o velho Pote se sai com esta:
" A tia Adelaide sentia apetites por umas esfregadelas mas o velho Arménio até parecia que se tinha esquecido dela e já não a procurava como antigamente quando até no chão da casa davam umas valentes arreboladelas. Um dia, Adelaide tirou-se de cuidados linguístico e recomenda a Arménio que vá ao médico a ver o que se passava com a marreta. Arménio enche-lhe o corpo de tonta e malcriada, e não quer mais conversa. Só que Adelaide não se fica e um dia que vem ao povo é ela mesma que vai ao médico e fala da impotência de Arménio. O médico, vendo a relativa juventude de Adelaide e, naturalmente a sua fidelidade de sempre a Arménio, receitou uns comprimidos que, disse, deviam dar resultado e espevitar Arménio para procurar Adelaide. Ela, no entanto, receosa do efeito do comprimido pelo caminho de regresso, depois de sair do médico pensou em dar um comprimido ao Farrusco, cão de guarda e, a bem dizer, elemento da família. Passou pela Conceição do Trem, comprou umas gramas de fiambre e quando chegou a casa embrulhou o comprimido que entretanto comprara na farmácia do dr Ildefonso num bom bocado de fiambre e dá-o a Farrusco. Nesta altura Pote começa a rir-se porque já sabia o fim da história... Eu é que não e só queria que ele se despachasse. Aos soluços lá vai contando e fiquei então a saber que o efeito do comprimido no cão foi de tal monta que à falta de cadela por perto Farrusco se atira a Adelaide, esfarrapou-a toda e atacou-a de tal forma que quando Arménio chegou ainda ela estava toda cambalida. Teve que contar a Arménio a causa de tanta arranhadela ,,, E Ele «vai-te já a lavar em condicões e não digas a ninguém que isto se passou,,,», e ela: «não pode ser...o Farrusco deu o nó e arrastou comigo rua fora pegado a mim». O povo fez um (t)chavascal que nem queiras saber. Pote ria a bandeira despregada e eu mantive um sorriso de incredulidade.
Não sei mesmo como raio esta história do velho Pote me veio hoje à memória.
Aproveito para vos deixar um outro texto que em tempos escrevi para uma circunstância também ela muito diferente daquilo que nos trouxe até aqui. O que vos posso afiançar é que não houve nenhum (t)chavascal quando o apresentei ao meu público alvo num entretém que me deu algum gozo fazer. Já lá vão uns anotes, mas deixo-o tal como o produzi na altura.



ACHEGAS PARA O ESTUDO DA APRENDIZAGEM, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

DISSE SARTRE: « NÓS APRENDEMOS QUANDO TORNAMOS NOSSO AQUILO QUE É DOS OUTROS»

APRENDER IMPLICA ALTERAR UM COMPORTAMENTO

A QUESTÃO, AGORA PRENDE-SE COM A IMPORTÂNCIA DE RETER ESSA APRENDIZAGEM E EVOCÁ-LA SEMPRE QUE FOR PRECISA PARA RESOLVER UMA SITUAÇÃO IDÊNTICA

QUANDO UMA SITUAÇÃO É NOVA, EVOCAMOS TODAS AS NOSSAS CAPACIDADES EXPERIENCIAIS E INTELECTUAIS PROCURANDO SAIR DE FORMA AIROSA.

QUANDO NÃO SABEMOS, FAZEMOS COMO OS OUTROS (IMITAÇÃO) QUANDO A SOLUÇÃO É ABSOLUTAMENTE NOVA E ESTAMOS SÓS TEMOS QUE INVENTAR.

SÃO A IMAGINAÇÃO CRIADORA E O PENSAMENTO DIVERGENTE QUE NOS ACODEM.

VEM ISTO A PROPÓSITO  DE QUE O NOSSO RELACIONAMENTO COM A REALIDADE ENVOLVENTE NÃO DEVE SER LIDA EXCLUSIVAMENTE À LUZ DOS EMPIRISTAS INGLESES QUE PRETENDIAM QUE «O NOSSO MUNDO PERCEPTIVO SERIA UM MOSAICO CONFUSO DE FRAGMENTOS SENSORIAIS ISOLADOS MAS, ANTES, É UM TODO COERENTE E ORGANIZADO EM QUE TODOS OS INTERVENIENTES SE INTERSECCIONAM E INTER RELACIONAM».

TANTO ASSIM QUE A NOSSA MEMÓRIA NÃO É APENAS A EVOCAÇÃO DO PASSADO MAS ELA AFECTA  (E DE QUE MANEIRA) O NOSSO PRESENTE : HÁ UM CONTINUUM OU COMO QUERIA W. JAMES: OS NOSSOS ESTADOS DE CONSCIÊNCIA NÃO SÃO CONTÍGUOS – ENTRE ELES NÃO HÁ PAREDES DIVISÓRIAS E SEPARADORAS – E SE NÃO É POSSÍVEL REVIVER O PASSADO É POSSÍVEL RE-PRESENTÁ-LO (TORNÁ-LO OUTRA VEZ PRESENTE NA NOSSA MEMÓRIA).

SERIA POSSÍVEL VIVER APENAS E SÓ NUM AGORA PERMANENTE?- ISSO SERIA A CONDENAÇÃO A VIVERMOS NUM ETERNO PRESENTE

QUEM NOS GARANTE QUE AO ACORDARMOS NOS RECONHECERÍAMOS COMO SENDO NÓS SE NÃO FOSSE A NOSSA MEMÓRIA?

SÓ A MEMÓRIA GARANTE SENTIDO AO «EU». É ELA QUE PERMITE A LIGAÇÃO DO PASSADO AO PRESENTE.

 
Podemos assim dizer que são três os estádios implicados em todo o acto de memória :

(sirvamo-nos de um exemplo citado por  Gleitmann : qual é o animal africano cujo nome tem dez letras e se alimenta de formigas?*)
É óbvio que se soubermos a resposta então podemos facilmente entender os três estádios processuais da memória:

1 – AQUISIÇÃO – PARA RECORDAR É PRECISO PRIMEIRO TER APRENDIDO (quem quer que seja que saiba a resposta deste exótico comportamento animal aprendeu-o em tempos e esta raridade alimentar deixou uma marca forte na mnese (sistema nervoso) desse indivíduo – é o que se chama traço mnésico;

2 – ARMAZENAMENTO – o que significa que o dado recolhido se mantém na nossa memória disponível para ser usado sempre que necessário;

3 – RECUPERAÇÃO – momento em que um indivíduo tenta lembrar-se, isolando de entre o conjunto de traços mnésicos que lhe ocorrem aquele ou aqueles que servem ao pretendido. (Convém deixar claro que muitas das nossas falhas de memória são mais culpa da recuperação do que do armazenamento).

*aí vai a solução: oricterope!


Há ainda a  CODIFICAÇÃO, a RECORDAÇÃO e o RECONHECIMENTO:


CODIFICAÇÃO – Forma como a informação foi armazenada. São variadas essas formas: pelo impacto ou impressão forte, por exemplo, o nome Axdamanatatulha ficou-me pelo facto de ser tão esquisito que o efeito de estranheza registou em mim este ícone; também o significado, o interesse, a necessidade, o género sexual, e até mnemónicas: estratégias facilitadoras de memória actualizada; a forma organizada – ordem alfabética,...


RECORDAÇÃO E RECONHECIMENTO – Quem ainda se não perguntou a si mesmo: onde raio deixei o carro?
São muitas as experiências feitas por psicólogos e é sempre preciso ter cuidado com as explicações, porque às vezes não se trata de falta de reconhecimento mas de incompetência natural para o desempenho da tarefa que é requerida a uma pessoa – reprodução de um desenho visto.
A situação mais comum é a de escolha múltipla ou a de identificação de um determinado nome no meio de uma série deles....
Reparemos que basta muitas vezes que oiçamos os primeiros acordes de uma música para a reconhecermos e recordarmos no seu todo.

Alguma história

a)     em 1930 Wilder Penfield, neurocirurgião, operou um paciente com uma epilepsia sem controlo.
b)    Durante a operação, Penfield estimula o paciente no córtex cervical; para seu espanto, o paciente, que estava consciente, acaba por revelar que se via a correr para casa depois da escola.
c)     Foi rápida a conclusão de Penfield: determinadas situações ficam gravadas no nosso cérebro da mesma forma que as imagens ficam gravadas numa película de um filme ou num rolo de fotografia.
Chamou-se a isto a teoria do Flash-back.
d) Como não podemos passar sem o passado  somos tentados a dizer que 
     cada um de nós  é o seu passado.
d,1- O facto é que, demo-nos nós conta ou não, a nossa resposta a uma qualquer situação “utiliza” a aprendizagem armazenada. O nosso comportamento é condicionado pelo nosso passado.
d)    a partir de 1970 constatou-se que a teoria de Penfield carecia de fundamento.
e)      As novas tecnologias demonstraram  que só e apenas quando as estimulações atingem a fonte das emoções é que o paciente tem algumas fases de lembranças de situações passadas.
f)      Pensou-se que o cérebro era compartimentado segundo classificações à moda de uma biblioteca ou de uma arquivo de uma qualquer repartição.
g)     Se por acaso o cérebro sofresse alguma lesão causada por um qualquer acidente e ficasse danificado, alguns dos ficheiros arquivados e classificados desapareceriam.
h)    Assim, pensou-se (Broca) que a recordação ou não de determinadas situações e competências se devia a lesões cerebrais.
i)       Ora esta ideia das localizações cerebrais é contraposta por Lashley que defende que o cérebro é um todo e pode acontecer que a lesão de determinada parte impeça a recordação mas não impede a sua recuperação.
Por exemplo: será que uma pessoa que num momento da sua vida deixou de identificar as cores, tem uma leitura da realidade diferente da nossa e que ele antes também tinha?

sábado, setembro 24, 2016

VINDIMA MMXVI


SE HÁ COISAS QUE NÃO SE PODEM PERDER
A VINDIMA DA QUINTA DO LÍRIO NÃO TEM NADA A TEMER
JUNTA-SE LOGO PELA MANHÃ A MELHOR RAPAZIADA
PORQUE JÁ SABE QUE ALI NÃO VAI FALTAR NADA…
O QUE MENOS HÁVERÁ ALI SERÁ TRABALHO
QUE AS UVAS ESTE ANO FORAM PARA O BALHO…
MAS…INDIFERENTE A TUDO ISSO
NÃO VAI FALTAR O BOM CHOURIÇO
QUE COMO É POR DEMAIS EVIDENTE
VAI TER ÓPTIMOS ACÓLITOS PARA DAR AO DENTE
E NÃO ESTOU SÓ A FALAR DE PÃO E VINHO
MAS POR EXEMPLO DE UMA EXCELSA SARAPILHEIRA
ALBARDADA EM OVO CASEIRO ASSIM À MANEIRA
COM BELO NACO DE LOMO DE CERDO  BEM ASSADO
COMO SE HABLA NA ESPANHA VIZINHA, AQUI AO LADO
AO QUE NINGUÉM PODE ESCAPAR, AI ISSO NÃO
É A UM BELO PRATO DE CALDO, MACIÇO, DE GRÃO
ONDE FLUTUAM FOLHAS DO VERNÁCULO AGRIÃO
NAS ÁGUAS LÍMPIDAS APANHADO E BEM LAVADO
NÃO FOSSE ALGUMA SANGUESSUGA A ELE AGARRADA…
PIMPÃO RECHONCHUDO HABILMENTE PESCADO
POR MAIM, AMIGO FIXE E MUITO ENGRAÇADO,
BEM FRITO E EM SOFÁ DE PIMENTO ACAMADO…
LOGO APARECERÁ  BEM POEJADO E ALHADO…
SEMPRE DISPONÍVEIS LÁ ESTARÃO OS ACHINCHADOS
PICANTES, CURTIDOS, JOVENS, VELHOS MACIOS OU DUROS
E, CLARO, NÃO PODIA ESCAPAR O REDONDO DE NALGUDO
PRONTO A SER CORTADO COM FACA MOCHA
QUE ALI NÃO SE QUER GENTE CHOCHA.
O CASQUEIRO SERÁ QUASE DE CERTEZA DE TERRA RAIANA
FATIADO POIS ENTÃO E DE ESPESSURA MEDIANA
PORQUE ALGUNS SÓ QUEREM CÔDEA, GULOSOS
E DEIXAM O MIOLO, CORTANDO DE RODA, OS MAFIOSOS…
SURPREENDENTE SERÁ A SALADA DO TOMATE VERDADEIRO
COLHIDO À HORA, DESCASCADO SEM PEVIDE POR INTEIRO
E LOGO MIGADO E COM INGREDIENTES DE PRIMEIRA
LOGO ALI SERÁ TEMPERADO PARA SER DEGUSTADO
UMA VERDE SALSA, COENTRO, ALHO E CEBOLA NOVA
EM DOSE MISTURADOS SERÃO CONVITE À PROVA
DE TAPA OLHOS BACOREIRO, GROSSEIRAMENTE CORTADO
E EM TRAVESSAS DE RARA BELEZA APRESENTADO
FALTA, CLARO ESTÁ , O QUE SERÁ O PRATO PRINCIPAL
EM TACHO FUMEGANTE, QUE SE DEVE COMER A FERVER
SAIRÁ DOS BICOS  QUE SE MANTIVERAM A ARDER
UNS SENSACIONAIS SUPORTES DE BESTA UNGULADA
QUE NOUTROS TEMPOS DE CANELO ERA CALÇADA
POR FERREIRO HABILIDOSO QUE LHE RASPAVA O CASCO
E LOGO, COM CRAVOS, AJUSTAVA O ARTEFACTO AO RASTO
OS ACOMPANHANTES SERÃO DO MELHOR QUE SE PRODUZ
NADA DE ENLATADOS, QUE ISSO EM NADA ME SEDUZ
GRAVANÇO RATINHO, DEMOLHADO E BEM COZIDO
EM CEBOLA FARTA, CHOURIÇA  E AZEITE BEM FERVIDO
MAIS TIRAS DE ENTREMADA BEM PUXADA PARA DAR SABOR
QUE ISTO É TUDO FEITO COM MUITO AMOR.
E AINDA O TUBÉRCULO BIOLÓGICO ALARANJADO
BEM RECHEADO DE NACOS DE TOUCINHO FEBRUDO FATIADO
LEVEMENTE PICANTE COMO MANDA A BOA COZINHA
PELO QUE NÃO HAVERÁ GRAVANZADA COMO ESTA MINHA
FALTA PARA COMPLETAR TODO ESTE ARSENAL
AQUELE TÃO VARIADO E SABOREADO CEREAL
ENVOLVIDO EM ROXA VERDURA FINAMENTE MIGADA
COLHIDA ALI MESMO EM HORTA RAZOAVELMENTE TRATADA.
QUEM QUISER MAIS QUE APAREÇA PARA O ANO

QUE NÃO PODEIS VIVER SEMPRE À CUSTA DO TOSCANO


Quinta do Lírio, 24 de Setembro de 2016



É sempre interessante revisitar:
2015
      2014
               2013
                     2012
                           2011
                                 2010
                                       2009
                                             2008
                                                   2007

domingo, agosto 28, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLV - CARDOMO

Não há nada como realmente, antes assim do que infelizmente. Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara. Quando assim não seja quatro na mesa e uma cerveja e se assim não for quatro ginjas e um licor....
As ondas do mar trazem peixe, as primeiras principalmente e assim sucessivamente...
Hoje deu-me para aqui... e ainda vai haver mais .
Este verão tem escaldado bem o povo e o campo. É sabido que a fruta de caroço se foi, e a de grainha também está pelas ruas da amargura, não falando da de pevide, que para além de ser pouca está toda "desmazelada", picada ou enodoada... Os bissextos têm lá porras, como dizia o meu amigo
Lameiras...
Já agora, lembro-me de uma história que esse bom amigo várias vezes me narrou. Não sei se serei, em absoluto, fiel ao contado, mas, com toda a certeza fica aproximado.
Contava o Lameiras que uma cachopa xêndrica, meia taralhoca, que trocava os R pelos L quando falava se queixou um dia para a ti Ana Arplano da desventura de um dia, no rebusco da espiga e recolha de lenticão se encontrou, sem fazer por isso, com  um tal de Passaloulas... ( O texto que se se segue é transcrição minimamente fidedigna da narrativa mas, não vos esqueçais que a cachopa trocava os R e pronunciava L.
Contava o Lameiras : "Eh tiAna, atão vomecêi já viu que aquele ladlão (ladrão) do Passaloulas (Passaroulas), um dia que eu andava ao lebusco da espiga e ele andava a lavlal (lavrar)com uns bulitos (burritos) me apalece de lepente com um olho de esteva pla eu cheilel (cheirar) e diz-me  assim: cheila aqui, anda cheila aqui. como se já algum dia se viu um home del (dar) a cheilel (cheirar) um olho de esteva  a uma mulhel... E mal me plecatei, aventou comigo pra os lêgos (rego) dos bulitos e apresenta-me assim a modos que um pé de cabla,(cabra) meio esfoledo (esfolado), meio por esfolel (esfolar) e enfia-mo mesmo no meio do buleco (buraco) das olinas (urinas) Eu inda lhe disse:"deixa-me tilel (tirar) os golões (torrões) das costas... mas ele dixe-me que estava bem assim e começa a dal ao cu pla baixo e pla cima, assim com quem amassa o taleigo do centeio e eu comecei  a sentil uns aldoles (ardores) pla espinha abaixo quinté palecia o fim do mundo... e ele começa a pulguel, a pulguel, a pulguel (purgar) quaté parecia que havia mai dum ano que num era esplemido ..." «Rais ta palissem cachopa. Tu num contes a mai ninguém, disse a ti Ana do Arplano. 
Era com estas  e muitas como esta estórias  que o povo se entretinha nos poucos e raros momentos   de lazer. Anda que não havia stresse não... Vai lá vai... é assim como a modos que os garotos hoje são hiperactivos e têm que ir ao psicólogo e às consultas de desenvolvimento... No meu tempo de garoto esses hiperactivos eram malcriados e o problema resolvia-se com duas chapadas na cara ou umas cinturadas pelo lado da fivela nas bochechudas nalgas e a coisa ia logo ao carril. Ai não que não ia. Vai lá vai!
Volvamos ao princípio: Não há nada como realmente...
E agora para vos desafiar a mona, deixo-vos mais um texto sobre stresse que produzi faz já uns anos. Sempre vos entretenho e escusais de fazer asneiras armados em hiperactivos, digo, malcriados. Então aí vai. Dai notícias, se vos aprouver...


STRESSE



De notar:
          Emoções, ansiedade, tristeza.... Têm também efeitos tóxicos sobre o indivíduo.
     O indivíduo, hoje, tem que se preparar para as novas vicissitudes dos tempos que correm: instabilidade/mobilidade de trabalho, novos relacionamentos sociais e profissionais.

Stresse significa:
          Tensão
          Pressão
          Coacção

Selye definiu-o como sendo: uma resposta do organismo frente a qualquer exigência que lhe é feita.
    A O.M.S., por sua vez: “é o conjunto de reacções fisiológicas que prepara o organismo para a acção”.

Assim stresse é:

1 – É a força ou o estímulo que actua sobre o indivíduo e que dá lugar a uma resposta de tensão.

2 – É a resposta fisiológica ou psicológica que o indivíduo manifesta perante um agente stressante ambiental.

3 – Stresse é uma consequência da interacção entre os estímulos ambientais e a resposta idiossincrática do indivíduo.

Significa isto que o indivíduo tende naturalmente a responder da mesma maneira a situações idênticas desde que delas tire resultados positivos. O homem retém das suas experiências o que lhe é vantajoso e despreza o que não o favorece. Em regra, este tipo de reacção é passageiro, mas a sua continuidade e/ou prolongamento pode acarretar uma grande variedade

De sintomas e até mesmo toxinas, agressões físicas, fadiga e outras situações emocionais.
No limite advém o Síndroma geral de adaptação que não raro leva ao esgotamento.


Vejamos como Selye lê este síndroma:

1 – Reacção de alarme – o indivíduo ameaçado pelas circunstâncias altera-se fisiologicamente pela activação de uma série de hormonas, que obrigam o cérebro a intervir fazendo agir o centro regulador do hipotálamo produzindo factores libertadores, como por exemplo a adrenalina das supra-renais.

2 – Estado de resistência – Uma submissão contínua a factores agressivos de agentes físicos, químicos, biológicos ou sociais, apesar do organismo procurar a adaptação progressiva conduz a um cansaço das glândulas hormonais libertadoras. E ou o indivíduo consegue resistir ou entramos na fase seguinte.

3 – Fase do esgotamento – diminuição progressiva da resistência do organismo face a uma situação de stresse prolongada levando a uma incapacidade de adaptação e interrelação com o meio.

Há dois tipos de stresse


O Eustresse é agradável e construtivo levando a emoções positivas devido a bons feitos.

O distresse acontece quando nos referimos a consequências prejudiciais de uma excessiva activação psicofisiológica e é portanto, desagradável, prejudicial e causador de doenças relacionadas com stresse.
Preocupações com:
  • o horário de trabalho
  • a saúde dos filhos
  • ataraxia
  • competências profissionais
  • metodologia de gestão de tempo
  • ….
O mau stresse pode originar erupções cutâneas, hipertensão, doenças cardiovasculares, úlceras gastroduodenais, distúrbios vários do aparelho digestivo e disfunções de ordem sexual. As pessoas dominadas pelo mau stresse são mais débeis nas suas resistências e nas reacções imunológicas.
- A surpresa de um acontecimento não abate um indivíduo saudável fisio-psico-socialmente
O STRESSE AGUDO PODE ORIGINAR ÚLCERA, ESTADOS DE CHOQUE, NEUROSES... mas o crónico pode mesmo levar à redução de glóbulos brancos vitais
. São estas as patologias mais comuns: gastrite, ansiedade, frustração, depressão, agressividade, disfunção familiar, enfarte, trombose, psicose...

Genericamente podemos dizer que podemos encarar o stresse de três pontos de vista diferentes:

1 – O Clássico ou de Selye que consiste numa leitura simples do fenómeno, a saber: agente stressor – stresse – stresse psicológico ou stresse fisiológico.

2 – Outra leitura preocupa-se com o que o homem faz reagindo a um estímulo stressante, logo preocupa-se com o que acontece ao homem e não com o que acontece no homem. O homem tem aqui um papel activo na dialéctica com o meio ambiente em que se insere.

3 – Finalmente uma leitura mais exigente em que se dá simultaneamente atenção ao que é pedido ao homem e a sua capacidade de resposta.

Foi feita uma escala de 1 a 100 em que se fez o levantamento das causas de stresse mais significantes. Concluiu-se ainda, durante esse estudo em que um indivíduo pode viver mais do que uma situação stressante ao mesmo tempo.
      Alguns exemplos e por ordem decrescente: Holmes and Era

              Morte do cônjuge (100)
              Divórcio (73)
              Separação matrimonial (65)
              Prisão (63)
              Casamento (50)
              Despedimento do emprego (47)
              Reforma (45)
              Férias (13)

Outros factores de stresse são ainda pressões no local de trabalho e até a nossa auto exigência, para além de situações que derivam de uma comunicação mal entendida, situações de doença e relações interpessoais: sensações de ameaça, isolamento, repressão, pressão de um grupo, falta de controlo sobre os acontecimentos, frustrações nas expectativas pessoais e/ou profissionais...
Podemos ainda ter outros agentes stressantes na psicossociologia quando interpretamos mal uma situação atribuindo-lhe significado errado e gravoso, mudanças de estado ou emprego, insegurança....

Resumindo, stressam-nos:

1 – Acontecimentos vitais intensos e extraordinários (mudanças decisivas no decurso da nossa vida).

2 – Acontecimentos stressores do dia a dia: um engarrafamento ou uma discussão.

3 – Situações de tensão crónica prolongada: doença prolongada, desemprego tardio e duradouro...


Factores outros ainda podemos invocar como os resultantes de cataclismos (terramotos/maremotos, tornados, desastres...) os quais deixam de ser pessoais para serem colectivos quando não nacionais e até mundiais.
É aqui que surge por vezes o stresse pós-traumático em que os acontecimentos são revividos em sonho ou mneses recordantes, que levam a uma apatia, incompatibilidade relacional com os outros, abuso de fármacos...
Os agentes stressores pessoais (morte de familiar chegado, p. ex.) são intensos mas vão-se esbatendo com o tempo, salvo situações decisivamente marcantes como a violação, por exemplo.
Num outro grupo incluímos os aborrecimentos do dia a dia e que podemos denominar de ambientais: pneu em baixo, avaria de electrodoméstico, filas em instituições públicas ou não,...
Aqui se podem ainda incluir as dores de cabeça ou de costas, garganta... Bem como a insatisfação com e no trabalho, falta de privacidade, etc.
Notemos todavia que no nosso dia a dia também podem ocorrer situações de eustresse sejam com o aplauso ao nosso trabalho, sejam a conclusão de um empreendimento, uma boa classificação, etc...

Como moderamos o stresse?

          Desde logo através da nossa relação com os outros: o apoio social e emocional que umas pessoas dão às outras alivia a situação stressante. Até mesmo animais de estimação possibilitam o efeito de relaxo, ah! Pois...o dinheiro...

      Sem dúvida que uma boa leitura por parte de um indivíduo de uma situação potencialmente geradora de stresse é meia vitória sobre essa mesma situação.

          Auxílios externos (médicos,familiares, medicamentos...)

Padrões de conduta:

     Ritmo de vida apressado, achando que os outros trabalham sempre devagar, vivendo num constante aperto o que pode conduzir a problemas de ordem coronário-cardíacos. As pessoas com este tipo e comportamento são geralmente muito impulsivas e impacientes.


       Ao contrário, pessoas mais calmas com leitura razoável das situações são mais inibidas e acomodam-se com mais facilidade e acabam por resolver as situações de forma positiva sem se deixarem abater.

É este posicionamento positivo que não é de modo algum impossível para os mais coléricos e emotivos que fortalece psicologicamente o indivíduo e o torna equilibrado e descontraído, com interesses variados, fomentando amizades, integrado no grupo de que faz parte.
O cérebro humano e isto porque o homem pensa com o corpo todo e põe quanto é no mínimo que faz acaba por com maior ou menor incidência tentar
resolver as situações stressantes e restabelecer um qualquer equilíbrio perdido, nu, desejo intenso de homeostasia e/ou ataraxia.
      Assim é legítimo que falemos de MECANISMOS DE DEFESA que são estratégias inconscientes que um indivíduo utiliza para reduzir a ansiedade. A arma mais comum é a ocultação da causa.
Outra forma é a apatia emocional mantendo-se um indivíduo indiferente e insensível face a uma situação negativa, (e se um médico desmaiasse ao ver um acidentado?).
Forma salutar de resolver a situação stressante é olhar para o lado positivo das questões, educando-se assim as emoções em vez de se descontrolar.

Outra forma salutar é a chamada robustez nas três componentes:

          Compromisso – dedicarmo-nos intensamente ao que estamos a fazer.
          Desafio – entendendo que a mudança é mais natural que a estagnação e que se agora está em baixo, logo estará em cima.
          Controlo – a convicção de somos capazes de dominar as situações.
Um indivíduo ROBUSTO encara o stresse com optimismo e é capaz de procurar as suas causas dando a volta por cima.

Uma coisa é certa: «apenas a morte nos separa do stresse.»

          Outras alternativas:
          Transformar uma ameaça num desafio.
          Alterar os próprios objectivos.
          Fazer exercício físico.
          Alterar alguns hábitos alimentares.
          Preparação prévia para a situação stressante.

Lembro-me bem de uma grande mão cheia de palavras, perfeitamente vulgares, mas que para mim eram tão estranhas como a estória da Judite: Não contvava com elas nem lhe conhecia o significado... É o caso desta : Cardomo...
Mas nunca entrei em stresse.... Com a minha proverbial calma esperei até descobrir o que eram.

Com a brasa que tem estado em termos de temperatura até apetece ter saudades dum inverno, daqueles bem rigorosos em que se ouviam estas e outras estórias ao serão junto do borralho depois de comidas as belas couves cozidas na panela de ferro com algum naco de toucinho e algum tanoco de pão, bem longe do cardomo que se apresentava na rua em cada poça ou lapacheiro com a água bem caramelizada, vidrada, cardomada, como depois aprendi.
É a vida... 


XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAANNNDDDDEEEEEEEE