sexta-feira, junho 30, 2017

A NOSSA FALADURA - CCLI - DESAJUDA/DESAJUDAR



Como já por várias vezes aqui foi referido, o meu amigo Lameiras, de vez em quando saía-se sempre com a sua proverbial sentença:"tem lá porras". Pois é: a língua portuguesa tem lá porras. O prefixo (eu acho que ainda é assim que se chama) DES, em regra, significa disseminação, distribuição, intensificação  como em des vario, e também a negação /oposição da palavra primitiva, como em des vio, des tacar, des aparecer,... Ora, a nossa faladura de hoje não verifica nem uma nem outra das possibilidades, a não ser que, com muito boa vontade aceitemos que ajudar significa auxílio para cima e desajudar quer dizer auxílio para baixo.
Expliquemo-nos: com toda a certeza, alguns dos que têm a coragem de me ler vivenciaram a árdua tarefa cometida às mulheres de ir buscar água à fonte/chafariz/poço. Não raro, traziam um cântaro assente numa molídia (rodilha, sogra) à cabeça, um caldeiro numa das mãos e um flho/a puxado pela outra mão. Uma verdadeira proeza de equilíbrio, Nas terras xêndricas, que eu conhecesse, só um homem ia ao chafariz e transportava o cântaro à cabeça, e, mesmo assim, amparava-o sempre com uma das mãos: era o Tonho Félix, filho de velha Lorpa, uma das patas galhanas não há muito referenciadas aqui no basa. Nanja as mulheres que não precisavam de qualquer amparo para transportarem o cântaro.
Era costume que nessas fontes colectivas existisse um baturel onde as mulheres pousavam o cântaro já cheio e, depois de ajustarem a molídia baixavam-se ligeiramente e, com um impulso elevavam-no para cima da cabeça e toca a andar. Mas se por ali houvesse outras mulheres, elas ajudavam-se umas às outras e era mais fácil a colocação do cântaro à cabeça.
Ora aqui está: para elevar o cântaro até à cabeça era uma ajuda, a questão põe-se agora quando, chegada a casa, era preciso tirar o cântaro para a cantareira ou outro pedestal que ficasse à mão de todos e relativamente baixo para que até as crianças lhe chegassem para se dessedentarem. Aí, a mulher carregada pedia a quem estivesse por perto; "desajuda-me aqui, se fazes favor". Não penseis, todavia, que é esta a única palavra que verifica esta "anomalia". Sirva de exemplo DESINFELIZ.
Vem este fraseado para poder questionar-(me/vos) sobre se a religião ajuda ou desajuda seja qual for o sentido que queirais dar a estes termos.
Do que não restam dúvidas é que a religião (seja ela qual for) é senhora de um poder cujos limites ninguém consegue descortinar. Enquanto mitómano e mitófilo o ser humano faz do melhor e do pior em nome da mesma divindade. Para mim tenho também que as práticas religiosas, sejam os ritos convencionais, sejam as crenças instantâneas e esporádicas, são uma espécie de negócio de troca: promete-se qualquer coisa à divindade ou a um dos seus mais próximos: a Virgem, anjos, santos,...) mas com o intuito de receber uma benesse qualquer, que, para os que crêem não está ao alcance de outros seres humanos. E tanto se pede para o bem como para o mal. Neste caso leva muitas vezes o nome de bruxaria. Mas lá vêm os quebra quebrantos e as ladainhas e jaculatórias, sempre com intervenção divinizada, para desfazer os enguiços. O mesmo para os chamados possessos...Por isso é que :"Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga."
A questão complexifica-se se formos avaliar a «cultura» religiosa de grande parte dos crentes. O próprio Kant acaba por secundar a razão à Fé: " é preciso substituir a razão pela crença"! Valha-nos, ao menos, Fernando Pessoa: «crer é morrer; pensar é duvidar».
Se perguntardes, atrevo-me a dizer, à maioria dos que se dizem cristãos, ou mesmo católicos se leram a Bíblia, ou parte significativa dela, a resposta irá ser um rotundo NÃO.
Se os confrontardes com os paradoxos da Fé, ou com o absurdo da Fé, como lhe chamou Kierkegaard, a resposta, invariavelmente será que foi assim que aprenderam e que sempre foi assim e eles acreditam que assim seja. Mainada.
Para não pensardes que falo por falar ficai-vos estes dados:
Uma sondagem feita em Gallup, E.U.A., por Robert Hinde e depois referida no livro dele mesmo sob o título Why Gods Persist, a ignorância revelada em matéria bíblica por gente educada em décadas recentes era tal que espanta qualquer um:75% dos católicos e protestantes não sabiam o nome de um único profeta do Antigo Testamento; mais de dois terços não sabiam quem tinha proferido o sermão da montanha; a grande maioria julgava que Moisés fora um dos doze apóstolos... e por aí fora.
A Bíblia não é, com toda a certeza um livro que se aconselhe a uma criança no intuito de uma boa formação moral. Repare-se que no Levítico 20 são merecedoras de pena de morte as seguintes ofensas: amaldiçoar os pais, cometer adultério, ter relações com a madrasta ou com a nora, a homossexualidade, desposar a mulher mais a filha, a bestialidade (aqui com o pormenor de matar também o pobre do bicho).
No Livro dos Números,15, os filhos de Israel encontram um homem no deserto a apanhar lenha no dia proibído. Levam-no e perguntam a Deus o que fazer com ele ...«Então o Senhor disse a Moisés: esse homem será morto. Toda a assembleia o apedrejará fora do acampamento. Assim se fez.
Afinal Deus ajuda ou desajuda? ambos ou nenhuma?
Deixai-me terminar com Blaise Pascal:"Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa".
Já me alonguei bastante. Logo cá voltaremos.

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Desenho: Carlos Matos

domingo, maio 14, 2017

A NOSSA FALADURA - CCLI - PINCHAVELHO

A necessidade de actualmente fecharmos todas as portas a quantas chaves for possível é hábito relativamente recente. Na verdade muitas das portas nos tempos idos, ou estavam apenas encostadas, ou fechadas ao trinco, facilmente acessíveis a quem quisesse entrar. Outras, sobretudo no campo, ou se fechavam com um baraço enrolado num prego espetado no batente e ligeiramente encurvado ou, às vezes era um arame em forma de argola fixo na porta e que depois se ajustava a uma presilha qualquer existente também no batente ou mesmo numa fresta lateral à ombreira da porta. Decididamente o importante era que algum animal que estivesse dentro não conseguisse sair... Nalgumas utilizava-se outro artefacto: o pinchavelho. Em regra era um pequeno pau, aguçado dum lado e que entrava justo numa argola onde metia um arame que assim não desandava do sítio mesmo que o vento abanasse a porta. A alternativa era um pequeno ferrolho em cuja extremidade estava um penduricalho que entrava na dita argola e lá ficava.
Não existia então o medo do roubo e nunca acontecia ter que voltar a casa buscar a chave que se esquecera. Ainda algumas vezes me abriguei em casebres destes quando alguma trovoada me apanhava desprevenido.
Mesmo nas povoações era raro que se esbarrasse numa porta fechada à chave. Premia-se o trinco ou puxava-se um baraço que arrastava a língua da fechadura, abria-se a porta e só depois é que se perguntava: Oh Rosa estás cá?
Mas o mais interessante era que as pessoas quando estavam em casa conversavam umas com as outras, sobre tudo e sobre nada. Simplesmente conversavam. Os novos iam aprendendo as histórias que os mais velhos vezes sem conta contavam, como por exemplo a do peidinho da senhora, que quando o avô dizia que desde o peidinho à peidorra que venho atrás do cu da senhora, provocava sempre cristalinas gargalhadas, ou aquela outra do conto das calcinhas vermelhas, ou a da morte da burranca,... O decisivo era que conversavam. Ide lá ver hoje! já não basta a porta da rua trancada, como ainda cada um com o seu telemóvel ou computador, entretém-se a jogar ou  a partilhar nas diferentes plataformas sociais, mas ninguém conversa com quem está com eles na sala. Mesmo quando riem, cada um ri de coisa diferente e em momento diferente à medida que encontra algo engraçado no desenrolar da sua busca.
E se queremos entrar no mundo deles, não penseis que basta desenculatrar o pinchavelho que aliás não existe.  É preciso que ele se disponha a rodar a chave com que se fechou no seu mundo.
Se se pretende, então, fazer algum debate sobre um tema que esteja na berra e que de algum modo podia animar uma boa conversação, ou desandam para o quarto, colocam auscultadores nas orelhas (agora chamam-se fones) e isolam-se de novo no seu mundo privado.
Por exemplo, algum dia vos perguntastes se em vez de termos os mandamentos em forma de imperativo negativo (não matar, não mentir, não levantar falso testemunho, não invejar...), os tivéssemos de forma afirmativa e, se em vez de serem aqueles que todos conhecemos fossem outros como (sirvo-me de Richard Dawkins em A Desilusão de Deus, casa das letras, pag 316): esforça-te por não fazeres o mal; vive a vida com alegria e admiração; procura sempre aprender algo novo; trata os teus semelhantes, os seres vivos e o mundo em geral com amor, lealdade, honestidade e respeito; interroga-te sobre tudo; forma opiniões independentes com base na tua própria razão e experiência.
A ideia dogmática da inalterabilidade é a morte da criatividade, da inovação. É preciso, se não ser subversivo, ser pelo menos ousado e provocador (aquele que PROVOCA DOR) ou seja, é proibido estagnar e ousar...
Seja-me ainda permitido trazer à baila um assunto candente: o dos direitos dos animais. De facto este assunto deixou de estar trancado e passou a estar acessível por um pinchavelho acerca do qual qualquer um opina. Deixando de lado esta questão sublime que é a de todos e cada um se julgar autoridade em assuntos acerca dos quais nada sabe e mandar para o ar uns bitaites de forma aberradamente aleatória. Já uma vez aqui tratei da famosa doença contemporânea:  a opinionite…Diferentemente do que se julga, a opinião não pode ser  emitida a eito. A opinião deve ser apenas dada por quem saiba de um assunto e não por um basbaque qualquer que se arvora em especialista fazendo "figura de crocodilo na classe dos mamíferos" na sublime leitura de Joaquim de Carvalho.
Volvamos, pois, ao assunto que aqui nos conduziu: o dos direitos dos animais. Talvez ninguém melhor que Peter Singer – este sim, pode falar do que sabe ...- E que defende o nosso especialista? Olhai só: «devemos avançar para uma condição 'pós especialista' em que o tratamento humano é alargado a todas as espécies que disponham de um cérebro suficientemente poderoso para dele desfrutar. Talvez  isto aponte já na direcção que o ZEITGEIST  moral deverá tomar nos próximos tempos. Tal não seria mais do que o prolongamento natural de reformas anteriores, como a abolição da escravatura e a emancipação das mulheres.. (esta problemática do Zeitgeist vai ter tratamento especial num dos próximos basas.).
Mas, já agora deixo-vos uma questão linear que não vamos, por agora, desenvolver: será que quem não tem deveres tem direito a ter direitos...?

O problema  é agora o de saber: quem dialectiza estes problemas comigo? Não tenho parceiro e por isso penso sozinho e, olha!, partilho convosco. Pode ser que algum de vós me desafie! O meu pinchavelho não tem segredo: é abrir e entrar.
XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAANNDDDDDDEEEEEEE.


quarta-feira, março 22, 2017

A NOSSA FALADURA - CCL - ESPARNICAR / ESPERNICAR


Até parece que foi há muito tempo... Mas não foi há tanto assim. A não ser que eu também já tenha muito tempo e isso eu não quero crer. Afinal ainda não entrei na chamada terceira idade, ainda pago bilhete inteiro em transportes públicos e não tenho qualquer documento vitalício e renovo a carta só daqui a seis anos...
A velocidade a que hoje as novidades acontecem é tal que o que agora é moda, amanhã é já pré-história. Alguns chamar-lhe-ão sociedade da informação, mas eu acho que mais importante será uma sociedade bem IN(Formada).
A prova de que tudo é efémero, ou descartável, se quiserdes, está aqui mesmo no basa. Quantos do que nos lêem seriam conhecedores deste vernaculismo que deixamos aqui registado? Só que eu usei todos estes termos e muitos mais que, aos poucos hão-de aflorar à memória e, claro, aqui projectados.
Para quem conhece a terra xêndrica será difícil corroborar que contíguas à taberna do ti Chico Miguel, havia duas furdas onde ele criava os porcos de matança? Que as galinhas depenicavam na rua e espernicavam restos de algum tanoco de pão que lhes surgisse ao bico? Que uma vez por outra, um carro batia numa delas e era um consolo ver todas aquelas penas a esvoaçar pelo ar? Até recos de médio tamanho patrulhavam as ruas à procura de  restos de comida! Olhai que não foi há tanto assim!
Sou ainda do tempo em que os lagares eram de varas e se usavam ceiras em vez de capachos. Não havia água canalizada e muitas vezes me levantei às cinco para ir dar água ao lagar...
Lembro-me bem de não haver electricidade e de haver uns poucos de candeeiros de bronze, poucas vezes acesos para dar luz à estrada... Um deles estava mesmo no ângulo esquinado da casa onde morei grande parte da minha vida. Vi-o cortar com uma serra  de metal,
O sal, o açúcar, o arroz, a massa, tudo era vendido a retalho e ao peso dentro de uns cartuchos de um papel pardo... os pacotes de manteiga guardavam-se em sal para não se derreterem no verão, o petróleo, o azeite , tudo era vendido à medida e de forma avulsa... 
Sou do tempo do centil, do salamim, da quarta, do quartilho, da panela, da deca, do alqueire, da fanega, do moio, do quartão, do almude, do côvado...
Sou do tempo da infusa, do arrátel, do pucheiro, da cântara, da braçada, da arroba, da grosa, do milheiro...
Sou ainda do tempo do pé, do passo, da passada, da chanca...
Vendia-se a chita da tabela e roupa de marca na ourela, camisas de terylene que era só lavar e secar e ficava pronta para voltar a usar; vestia-se surrobeco, pana=bombazina, popelina, do cotim, tudo enrolado em peças e cortado com arte pelo merceeiro.
Quem se lembra da brocha espanhola e  da carda, para além dos protectores para proteger a sola dos botins vergados à mão, batida em pedra seixo redonda chamada a rebola, depois de bem demolhada em celhas que mais pareciam dornas pequenas ?
Quem conheceu a sola verde, a sola maranhão, a barriga de sola, o corpon, o calfe, a capicua, a borracha de ceilão, a sintelite? Quem se lembra da anilina para fazer graxa para os sapatos?
Quem sabe o que era a semilha, o prego de pregar à forma? quem distingue o prego de ripa, de  fasquia,de meio solho, de solho, de caibro? Quem, ainda, pregou uma cavilha?
Quanta gente há por aí que já nem sabe o que sejam umas ceroulas ou uma simples fita de nastro, sequer uma naveta de tear ou a canela de uma máquina de costura tocada a pedal?
Tanta coisa, tudo há tão pouco tempo e a parecer tanto...
Pois é, meus caros: assim se passa com os valores.
Se hoje perguntarmos a um dos nossos jovens o que mais gostava de ter na vida lá vem um carro potente, uma vivenda luxuosa, o desejo de conhecer meio mundo e o resto da outra metade em viagem, e serão poucos os que falam de saúde, paz, amizade, família, trabalho,...Vai lá vai...
Até parece que vos estou a dar um bailinho... Nunca foi minha intenção e confesso que quando comecei a escrever esta crónica não tinha minimamente na cabeça derivar para estes campos.
Mas lá está: a nossa mente não é linear e, porque é contínua e não contígua, nunca se sabe para onde o pensamento nos pode conduzir e damos por nós em imprevisíveis situações. Dito assim de repente: a nossa mente também espernica, isto é, nunca se sabe onde vai parar a ideia inicial...Tal como não sabemos para onde vai parar a migalha de pão que a galinha da ti Surreição, que teimava em continuar a usar pedras como  pesos, iria parar quando ela abanava o pescoço. 
Poi é! Também não sabeis quem é a ti Surreição (Maria da Ressurreição). Mas eu digo-vos: morava na primeira casa da rua do Outeiro, mesmo antes da barreira e confrontava atrás com o quintal dos Póvoa, à esquerda com o largo do batoco e á direita com O Chquim Calça-Defuntos, à frente, está claro, com a via pública. A casa tinha uma loja onde ela guardava o que colhia da horta e outros produtos para consumo ao longo do ano: cebolas, alhos,piri-piri, batatas, azeite, azeitonas, a salgadeira, feijão, grão, queijo, sei lá ...e as pedras. Era mais surda que um calhau  e desconfiada até mais não...
Muitas vezes a atendi na pequena loja de meus pais e quando queria qualquer coisa a peso teimava que o que valia era a sua pedra e não o peso aferido pelo aferidor camarário. Além disso levava sempre uns cambos para servirem de balança pois não confiava nas balanças do comerciante. O problema não era quando comprava pois as pedras iam sempre perdendo um bocado, mas quando queria vender. Aí, tinha que por sempre mais peso do que o real. Era precisa muita arte e paciência para a convencer da sua ilusão.
Só para imaginardes quão desconfiada era só vos digo que contava sempre os fósforos de cada caixa quando tinha que comprar alguma. Tinha mesmo que ter quarenta...
O acesso à casa propriamente dita fazia-se através de uma escadaria exterior que dava para um pequeno patamar sem qualquer guarda. No vão das escadas estava um buraco que servia de capoeira às três galinhas que criva com esmero. De manhã colocava uma escada feita ad hoc em que umas velhas ripas eram pregadas em dois pequenos varais mais parecidos com empas de feijoeiro. As galinhas andavam todo o dia na rua, esparnicavam o que encontravam e à tardinha Ti Surreição chamava-as, tomava-lhes o ovo, subiam as escadinhas, entravam para o buraco até ao outro dia. Ficavam baratas estas galinhas que em dia de festa lá provavam uns farelos mexidos com couve galega !
E por hoje chega.
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Desenho de Carlos Matos

terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

XXXXXXXXXXXIIIIIIGGGGGRRRRAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEE

sexta-feira, dezembro 30, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLVIII - GALISTO

Se estamos em tempo de festejo pelo Natal e, consequentemente, pelo nascimento do menino, e depois o ano novo, também não é menos verdade que esta é, por excelência, a época das matanças. E não se pense que é só a do porco. Morrem galos, capões, coelhos, cabritos e cabras, cordeiros e borregos, leitões, vitelos e por aí fora. O macaco pelado ou nu como lhe chamou Desmond Morris é mesmo um predador desnaturado.
Embora cada vez mais haja menos daquelas matanças tradicionais, ainda tenho oportunidade de cumprir o velho cerimonial em matanças de porcos de bons amigos que, além disso, ainda fazem os tradicionais enchidos e curam o belo presunto para ser depois enxertado em maio depois de bem barrado com colorau por via da mosca e pendurado na trave mestra dentro de um saco de linho bem lavadinho até secar o bastante para se lhe poder enterrar a faca e dar fatia...Ainda se vai provando material de primeira, mas pouca vez.
Vítimas garantidas desta chachina epocal são as reses galistas. Expliquemo-nos; dá-se o nome de galisto a um animal de qualquer espécie que nasce com uma anomalia congénita, impossível de corrigir. Como se sabe, um erro inicial no desdobramento das células germinais é sempre irreversível. A genética segue sempre o seu caminho até ao nascimento e mantém essas características por bastante tempo, às vezes, como se pode ver na trissomia do cromossoma 21, ou apenas durante um curto período que desemboca fatalmente numa morte prematura, sempre precedida de algum sofrimento por parte do animal que dela sofra. É o que se passa com o gado galisto: o animal nasce sem uma das vias de excreção e faz todas as necessidades por uma única via, normalmente o ânus e, às vezes o umbigo. Quando tal acontece, o criador já sabe que o animal vai morrer e, então, o melhor que pode fazer é aliviar o animal do sofrimento e conseguir algum rendimento, abatendo-o para consumo próprio, ou vendendo-o bastante mais barato. Cheguei várias vezes a comprar dois leitões pelo preço de um. Não advém qualquer perigo para o consumidor e um leitãozito assado no forno a lenha, nesta altura do campeonato, até que embarca na ponta da unha.
Não eram muitos os criadores de porcas parideiras nas terras xêndricas e, não raro, apareciam por lá vendedores que forneciam o bacorinho para a furda e posterior matança um ano depois, mais coisa, menos coisa. Claro que estamos a falar de épocas que já lá vão em que não se falava de língua azul ou peste suína e não eram necessárias guias especiais para transporte, venda e abate de gado das mais diversas espécies. O maior criador era o Dr Leitão, ilustríssimo filho da aldeia xêndrica, oftalmologista de renome. Bem... não era o dr. Amândio Leitão que tratava da criação mas o seu feitor, Domingos Menas, primeiro, e depois o ti Augusto que veio de Unhais para dirigir a casa. Já na vizinha aldeia dos cucos o sargento Jaimeca, primeiro, e depois uma exploração de dimensão razoável garantiam bacoragem que chegasse para a área de circunscrição. Eram muitos mais os criadores de gado caprino e ovino. Lembro-me bem da musicalidade do som emitido pelas cabradas que se distinguiam pelo diferente som que picadeiros, reboleiros, chocalhos e campainhas produziam. Sabia-se a quem pertencia o rebanho que se ouvia por causa dessa tonalidade sonora.
Se se quisesse um galisto não era preciso dar muita volta e de um dia para o outro havia bicho para se meter na panela de ferro e proporcionar uma rambóia das valentes, já com vinho novo a escorrer das pichorras e acompanhado por alguma morcela ou chouriça, surripiada à sucapa do varal do fumeiro que abanava ao calor de lume controlado para não ficar a saber a fumo, mas também não proporcionasse secura bastante que não evitasse o abolorecimento das diferentes peças. Bons tempos esses em que havia rapaziada com fartura e não era difícil arranjar comparsas para uma petiscada daquelas assim comédado. 
O madeiro ardente foi muitas vezes o local seleccionado para uns convívios que ficaram registados. Ao fim havia sempre o grito de guerra: porrada no madeiro que inda está inteiro e Natal ,Natal, filhós com vinho não fazem mal, filhós no caldeirão e vinho no garrafão.
Assim seja.
Aproveito para vos desejar umas boas festas e se for a apreciar um galisto, melhor.
XIIIGGRRRRRASNNNNNNNNNNDDDDDDDDDEEEEEEE.