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sábado, abril 09, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLII - LIN(T)CHEIRA

O saber popular expressa-se de múltiplos modos: aforismos, lenga-lengas, ditados, costumes, tradições, festividades, crendices, bruxarias,.., que sei eu?! Creio, todavia, que é nos provérbios que ele melhor se exprime e condensa. Sabendo nós que a sua cientificidade é reduzidíssima, dadas as suas constantes incoerências, nem por isso perdem validade  e regulam muitas das actividades quotidianas, desde o casamento à educação dos filhos, ao respeito pelos mais velhos às sementeiras e colheitas e por aí fora... Deixo-vos uma amostra, perfeitamente ao acaso e pode acontecer que nunca tenhais contactado com alguns deles: "se queres comprar, nunca compres a quem comprou, mas a quem herdou"; “quem muito dorme, pouco aprende”; “é como a lenha verde que mal se acende”; “o trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”; “quem com menino se deitou, sempre borrado se achou”; “cerração baixa, sol que racha”,... O enraizamento destes saberes é tão profundo que mais parece um lin(t)cheira, que até mesmo uma retro escavadora demora a arrancar, e muitas vezes nem consegue, obrigando ao uso de pólvora barroqueira.
Não vale a pena armarmo-nos de argumentação bem fundamentada porque nada demoverá este saber sedimentado e transmitido de geração em geração. Aos poucos,  ele vai desaparecendo e uma das razões para tal será, sem sombra de dúvidas o facto de já não haver serões. A panelinha de ferro ao lume cozendo as espigas de couve ou de nabo, adubados com uma farinheira ou uma buchanha que logo se partilham num barranhão, davam oportunidade para se ir falando de tudo e, mesmo assim, não era muito, que as preocupações eram as caseiras e pouco mais. Era nestes momentos, sobretudo nas noites de invernia, todos juntos ao lume, olhando o crepitar da chama, sempre regrada que a lenha não caía do céu como a chuva, e acompanhando os espanhóis (faúlhas)  na sua agonia até se transformarem em fonas... Foi aí que eu contactei com muito do que sei em matéria do saber fazer. Só que, como já não há serões, olha!, deixo amostras aqui no basa...
Saramago dizia que o homem que conhecera e mais sabia, não sabia ler nem escrever e se eu não posso dizer isso, porque tive um Padre Manuel Antunes que me deixava de boca aberta o tempo todo, não me custa já defender que entre os que conheci e mais me ensinaram, no que toca à prática de vida e valores , ocupa lugar  de destaque o velho Comandante do Inferno, meu avô paterno. Também o professor Zé Paula, o Tanganho, que em matéria de astros e  muito mais era um entretainer incomparável; o Zé Borges, aldrabão por excelência, que sabia contar histórias como ninguém, enfim... tantos outros xendros que deixaram em mim marcas indeléveis, tal qual lintcheiras tão enterradas que o tempo não é capaz de as arredar.
Ao longo dos tempos, sem dúvida, o homem foi sempre evoluindo mas o presente só é o que é, porque atrás está um passado que o suporta.
Deixo-vos hoje um outro texto que escrevi há já uns anos e que nas lintcheiras do sótão fui encontrar. Resolvi ressuscitá-lo. Chama-se “O Homem Revisitado”:
Se é verdade, como diz James: - que a nossa mente é contínua - , então, estamos sempre activos em pensamento. Só que de alguns nos damos conta e de outros nem tanto… Mesmo assim continuamos sempre a pensar.
        A nossa atenção ao meio próximo circundante, mesmo se a tarefa que desempenhamos é do nosso inteiro agrado e a motivação é forte, mesmo aí, dificilmente estamos mais de oito segundos concentrados. Esta é a saúde do nosso espírito: uma dispersão selectiva ou orientada. Nem obsessão concentracional ou monoideísmo obsessivo nem poliideísmo difuso.
Fazeis então bem quando saís e vos perguntais pela saúde do vosso filho ou sobre o que irá ser o vosso almoço, hoje. A nossa mente é uma vadia, até porque, como diz o poeta, “não há machado que corte a raíz ao pensamento”. Vadiemos, pois. Mas, …, de vez em quando passemos por nós e por aqueles que nos enviam a sua mensagem. Foi assim que num daqueles  momentos de hipnogagia, já quase a descambar para Morfeu me pus a pensar de mim para mim e relembrei que eu, afinal, era um sujeito objectado. Eu era o outro de mim mesmo. Uma espécie de não-eu como queria Fichte. A minha consciência de mim implica que sejamos dois num: um eu e um não-eu. A identidade funde-se com a alteridade, mas não em tempos diferentes como o filósofo do absoluto defendia. E a questão emergiu: então o sujeito é um objecto. Vai daí, propus-me um projecto que não me fosse, nem, muito menos para vós, abjecto… Decidi: tens um problema injecto…. Agora procura o melhor trajecto para que ele tenha algum afecto e não o considerem um dejecto. E foi assim que o feto começou a crescer no mais íntimo do meu imo.
Foi esta lucubração que me trouxe à ideia deter-me um pouco e pensar. Nesta época de velocidade onde tudo e todos voam à velocidade de um simples click, esta atitude até parece ter o seu quê de bizarro! Pensar! que desperdício....
        Ainda assim, sempre fui contra o que sói dizer-se FAST: contra a fast food, e mais ainda contra o FAST THINKING. Pensar depressa para quê. Já o velho Cartesius aconselhava que nos precatássemos contra a precipitação... nanja que eu seja muito seguidista deste racionalista metodista, mas, se se souber olhar, sempre se descortina algo de positivo onde se pensa que tudo é déjà vu!
        Assim decidi divagar, mas devagar, m u i t o    d    e   v   a   g   a   r  i-  n  h  o.!
        As ideias, ao princípio, atafulhavam-se, e como gladiadores em arena de Coliseu, umas com retis e outras com Gladium, à porfia lutavam para ver qual veria o polegar de César apontando para cima.... Olha, agora veio-me uma que calcou as outras todas! Já reparastes vós que os nossos jovens, nos dias de hoje estão a dar uma ocupação nova ao nosso velhinho polegar?! De facto, este velho oponente aos outros prolongamentos da mão, é agora senhor de uma destreza excepcional... olhai para eles, quando mexem nos telemóveis, vede a que velocidade emitem mensagens ou digitam um número de telefone. Se quereis saber o número digitado só se tiverdes à mão uma câmara lenta…
        Já aferistes que voltamos a dar razão àquilo que sempre foi defendido? A verdade é que é a mão que desenvolve o cérebro e não este aquela. A necessidade de segurar liberta mais uma vez o polegar, e, ainda mais, se reforça a sua importância decisiva. Se a oponência do polegar permitiu a preensão, agora a sua libertação das funções de contra força, deixam lugar para a destreza, a habilidade. Finalmente, já não é o gordo que vai para a baliza.... Ele agora corre como os outros e mais: corre com os outros! É lindo!
        Esta marca humana decisiva para a sua evolução fez-me lembrar o título dos nossos encontros: o homem revisitado... e se voltássemos a olhar o homem tal como me revi e me revisito todos os dias? Sempre igual e sempre diferente.
        Nunca sou ou somos completamente velhos conhecidos, mas também não somos clones de nós mesmos. Como é agradável cada manhã vermos a nossa narcisidade e saudarmo-nos logo com um humor cáustico: bom dia, carga de ossos com carne! Tens à frente mais um dia, encarrega-te dele senão ele encarrega-se de ti...
        Vamos então revisitar o homem.
        A perspectiva que vos quero apresentar não pretende ser exaustiva, - haverá alguma coisa que o seja? - mas visa ser uma visão diferente , pessoal e com toda a certeza  é original.
        Enquanto sujeito do mundo ele mais não é que um objecto desse mesmo mundo. É um entre os demais. Ao princípio viveu numa fusão perfeita enquadrando-se no seu habitat jogando o seu papel, lutando pela sobrevivência. É um sujeito idiossincrético e como tal mesmo sem a racionalidade que depois lhe vai dar a marca distintiva durante séculos ainda hoje perdurável, - o homem como animal racional -  idiossincrásico, numa harmonia que de selvagem tem o título infeliz que muitos lhe deram e que Lévy Stauss em boa hora corrigiu. Tinha uma lógica vivencial, pré-científica, é verdade, mas nem por isso menos lógica. O tempo era o tempo presente. O seu tempo, aquele mesmo que o obrigava a buscar sustentação, gregação e reprodução nos termos do chinês de Konigsberg. Este sujeito indistinto, imiscuído na perfeição do universo fazia parte da vida no mesmo patamar que muitos outros. Este sujeito deixava-se ficar sujeito à roda do devir e, aos poucos, começando a ler o que o rodeia, inicia uma nova narrativa que lhe possibilita uma nova gramática relacional na geometria espacial que o envolvia. É simultaneamente hiperactivado pela necessidade natural de se manter vivo e passivo, no sentido de sofredor, como tudo o que traz à mistura paixão. Este sujeito físico a breve trecho se torna metafísico, quer ordenar o que em si mesmo é caos. Como Ovídio in principio moles imensa indigestaque erat. O desejo de ordem afasta-o de si. Pendura-se num ordenador. Como não se fizera a si mesmo, a sua lógica levava-o a que alguém o tivesse feito. Os outros como ele, também não teriam tido essa capacidade, pelo que ele derivaria de um estranho a si mesmo. Não só ele, também o que o rodeava e lhe oferecia tanta diferenciação. Se ele não fazia o que o rodeava nem a si mesmo, mistério era e a exigência de um ser metahumano se tornasse emergente. A divindade, quando não as múltiplas divindades, respondiam às questões que o apoquentavam. E ele sossegou.
        Mas... oh sortilégio, a idade de ouro, não podia durar por muito tempo e o abandono do paraíso não tarda... Ainda se volta para si a ver se encontrava respostas, mas aqueles que a procuram são iníquos e morrem às mãos dos seus iguais. Aí temos o sujeito social e enquanto social o sujeito político, o que ao não saber governar-se apoia que outros o governem... O político enquanto sujeito aliena a sua vontade, anonimiza-se, confunde-se no seio dos seus iguais e a sua virgindade inicial é conspurcada pelo ódio, inveja, escravização... A racionalidade afinal deixa-se vencer pelo sensorialismo. É bem verdade que o político é muitas vezes bem pouco polido…
        O desmoronamento dos valores essenciais humanos inevitavelmente conduz a uma época do salve-se quem puder em que o sujeito é personificado, teocrático…. Impunha-se um novo sujeito que na convergência da valoração apresentasse pontos de vista divergentes. O sujeito do rompimento, da ruptura com os status quo, um sujeito dividido, um sujeito cristão, que, aos poucos se apossa de meio mundo e tentacularmente também ele aniquila quem é contra ele. Sujeito que realça a futilidade dos bens materiais e promete para além túmulo um mundo de bem aventuranças. O mundo deixou de ser humano, passou a ser ecuménico. É o sujeito catecúmeno possuído por uma catequese escatológica em que a razão cede lugar à crença, em que o dogma se confunde com a verdade, e a dúvida despertadora é esmagada ao peso da imposição inquisitorial. Só que este sujeito, de si, é insatisfeito, avesso a continuuns estagnantes que favorecem a putrefacção, e quer novas fontes, novos rios de verdade e, embora a custo e após penumbra quase eclíptica, reassume o seu lugar górdio, renasce e das cinzas de Fénix as sementes, tanto tempo hermeticamente enclausuradas num vórtice de mistérios, abrem-se agora para um novo dia e um nova postura. O homem humaniza-se. É o sujeito humanista, centro dos centros. Abre-se ao mundo e abre os mundos. Rompe com o establishment e com a nomenklatur. Conhece e conhece-se, a doutrina cede o passo à prática e o saber deixa o trono para o conhecer. A investigação arreda o magister dixit, e os adivinhos, videntes e bruxos caducam ante a universalização das leis entretanto conquistadas à força de verificações experimentais. As sacralizações profanizam-se, a razão vai aos píncaros da sua capacidade e, tribunalícia, estabelece limites à sua própria extensão e compreensão.
     Vem já aí a caminho o sujeito individual, o que rejeita a lógica dos sistema e rebelde entende que a sua liberdade se exerce no seio dos outros. Alguns velhos do Restelo bem vociferam a força da ordem, da constância do método, do rigor da mathesis universalis. Mas o sujeito tinha aprendido a andar e quer agora caminhar e devolver de novo à natura aquilo que nunca dela deveria ter sido desapossado. Aí está o sujeito experimentalista, laboratorial, positivo. Fundamentalista na sua convicção que nada podia escapar à verificação factual, ufano nos poderes da previsibilidade e do controle, veste fato de gala e pretende de novo sujeitar-se a si mesmo a uns contornos de predefinição. Nem já a imaginação tinha lugar neste sujeito tirano que, à margem do que as circunstâncias aconselhavam, recusava a revisibilidade dos conceitos e queria o emparedamento das convenções. A poesia não cabia, tinha que tudo ficar ao nível de uma prosa fria, carrilada, dedutiva, sempre de navegação à vista…
        Sempre a presunção umbilical, libidinosa do mandarinato científico!
        Mas se há sujeitos que tudo querem sujeitar outros há que rejeitam o metodismo, a repetição o “amén…“ Afinal a teoria que nunca tinha sido e ainda continua por ser provada, a teoria da evolução, segue sendo isso mesmo: uma teoria. Como tal hipotética, provável, polémica, descarrilada…Mais uma vez o sacralizado, o intocável, rui e até mesmo o átomo se desintegra, o que era elemento ínfimo, é agora múltiplo composto, o que estava em repouso agita-se, e com que força! O sujeito atómico ‘ cria um poder sobre o qual deixa de ter poder ‘ como nos ajuda Morin, e, o que era visto como isolado, é entendido como inserido num campo, como muitos nos ensinaram desde Maxwell, a Lewin e Bourdieu. E para mais o sujeito guerreiro revive nos movimentos independentistas e as fronteiras deixam de ser espaciais para passarem apenas a ser temporais, como futuramente nos vai avisar Toffler. Com a guerra somos obrigados a recordar Vieira: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.»
        Como eu gostava de escrever como este sujeito escritor. Antes como agora o sujeito belicoso acarreta para a humanidade sempre este rol de desgraças. E nesta nossa revisita ao homem pergunta que se impõe será a saber quantos dias de paz conheceu a humanidade….
        Mas… é forçoso que continuemos a nossa viagem por algumas das facetas que o homem enquanto sujeito nos foi deixando no tempo.
        Já não bastava a destruição de alguns dos paradigmas, quando o mundo é acordado pelo escândalo menos esperado: chegou o sujeito sexual. O último tabu, aquele que se velava, fosse de tanga ou com as mais sofisticadas roupas, é agora deixado às claras e considerado como o responsável mor pelo comportamento humano. Vasculha-se até ao mais fundo do segredo pessoal, descodificam-se os sonhos, põe-se ao léu o que fortalezas consideradas inexpugnáveis pelo sujeito ciosamente guardavam. O importante não é o que se vê ou o que se diz, mas antes o que se oculta.
Afinal a verdade está escondida e o que é preciso é encontrar as armas adequadas para a desvendar.
Parecia adivinhar-se o sujeito fiscal… Era preciso guardar as verdades; afinal já nada está seguro? Os guardiões dos templos, qual horda organizada, poderosa no seu STATUS a breve trecho cria o sujeito epistemológico, hidra de sete cabeças e boca voraz, ressurreição inquisitorial, microscópinvestiga e acerrimamente critica quem extravasa das margens. Mais uma vez este sujeito inquisitorial se esquece que o rio é livre e que a culpa nunca é dele, mas exactamente das margens que o apertam na soberba imagem de Brecht.
O novo sujeito agora possesso pela energia liberta e, simultaneamente, controlada, a breve trecho, vai espezinhar este sujeito epistemológico, indivíduo de escola, servil e obediente, que apenas arriscava pôr os pés nas poldras que sobressaíssem seguras da torrente das águas. De pouco lhe valeu. O sujeito epistemológico esqueceu-se do sujeito epistémico, inovador, investigador, curioso, indomável, agressivo, rebelde, cada dia novo. Como bola de neve rolando o volume do seu tamanho aumenta e arrasa o que se opõe. Liberta-se de peias e assume uma nova postura, ávido de saber, não pára na sua indagação e olhando para trás aproveita o que de bom pelo tempo fora conseguindo e melhora significativamente as suas potencialidades.
É assim que chegamos ao sujeito cibernético, à era da tecla à fusão entre virtual e real. O tempo e o espaço deixam de pertencer à esfera do sujeito, que, estulto na sua comodidade, abre as portas aos invasores que, especialistas na arte do engodo lhe impingem de novo verdades que se convence serem insofismáveis. O sujeito cibernético, traz o sujeito marketing, o sujeito publicidade, o sujeito global…, fica tudo sujeito ao simples gesto de premir um botão.
Que homem é este que agora nos acompanha? Fecha as portas aos seus vizinhos próximos e escancara a sua sala, a privacidade do seu quarto, vilipendia a sua mesa, renega o diálogo familiar, abocanha a velocidade, corre mais depressa para a sua própria destruição…
Será este o homem apocalíptico?
Será desta que os tentáculos da mais ganância, a valoração da materialidade, do egoísmo e da competitividade dizimarão o nosso homem?
Não deixaremos nós também uma marca que permita aos vindouros revisitarem-nos?
Quero terminar com o sujeito esperançoso. O mundo e o homem não são feitos à imagem de George W. Bush.
Há outras leituras, outras narrativas e, como em todas as mitologias, o Bem sempre venceu o Mal.
Disse ou tenho dito que é o que se diz quando se disse o que se queria dizer. Disse!

Pronto ! Aqui tendes. Nunca sois obrigados a chegar ao fim do que não gostais.
Mas se aqui chegastes, espero que não vos sintais frustrados e, menos ainda que penseis que vos quis deixar uma  lintcheira.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAANNNDDDEEE


sábado, fevereiro 14, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXII - CACHARRO

Mnel Belorico era conhecido por engenheiro. Mestre pedreiro por profissão era mais amigo de uns cacharros bem bebidos do que de aparelhar pedra. Dizia alto e bom som para quem o queria ouvir que ninguém sabia pronunciar o seu nome assim comédado: o apelido não era Belorico, mas Belo Rico. É assim a modos que uma mulher se chame Mariana em vez de ser como pertencia ser Maria Ana. Mainada. O povo dizia que era vaidoso e o que melhor fazia era despejar uns bons cacharros no Fatela ou no Zé Rolo. Belorico danava-se. Miguelito, numa festa de entrudo imitou-o: Belorico tinha ajustado uma parede ao Zé Geadas ali para os lados da Saramaga, que tinha caído para a ribeira. Era perto da aldeia e Belorico, perdido e achado estava na tasca do Fatela ou na adega do Zé Rolo. Geadas não era de modas. Tinha uma voz de trovão e morava mesmo a meio, entre as duas tascas na curva do adro a dar vistas para a ponte e se o cocava quer num quer noutra, injuriava-o até à quinta geração, ficando toda a aldeia a saber que Belorico, em vez de trabalhar, passava o tempo na borracheira. Belorico fazia-se surdo e só dizia: «Já lá vou!Daqui até que a ribeira volte a correr inda tens muito que aldeagar». Com o tempo, lá acabou a parede e foi-se ao Geadas para receber o ajuste. "Agora esperas tanto tempo pelo dinheiro como o tempo que demoraste a fazer o muro, engenheiro Belorico". Belorico afinou: «à uma num sou Belorico, mas Belo Rico, e odepoi num sou engenheiro mas artista da pedra, ouviu ou quer que repita?» Foi para as tascas e todos ficaram a saber que o Geadas faltava à palavra e que os que mais têm são os que pior pagam. Tanto pregou que o Geadas, bravo como era, num Domingo à saída de missa o chamou e na frente de quem estava: «Toma lá oh Belo Rico, artista do calhau, conta e vê se tens o que acertámos» Belorico conferiu e "num faz mai que a sua obrigação! Quem deve, paga, mainada"! O povo acabou por ficar indefinido sobre quem tinha razão. Miguelito, no entrudo, acabou por inventar uma rábula em que fez uma choradela aos dois. As paredes de Belorico só ficam direitas se fossem vistas de esguelha e Geadas era um caga de alto. O povo ria, está claro. Belorico encolhia os ombros, Geadas atordoava as pedras aos berros a vociferar que metia Miguelito em tribunal. 
A época do entrudo sempre me fez espécie. Não entendo por que razão uma pessoa deixa de ser o que é e se disfarça noutra, sempre mais horrorosa e feia. Parece que há gozo em se tornarem muito piores do que são. 
Depois, não faz sentido chamarem carnaval a este período introdutório da Quaresma. O termo é italiano CARNE VALE, ou seja, é permitido comer carne e por isso se chama ao Domingo que antecede esta época, Domingo Gordo. Era a altura em que se tirava da salgadeira 'antes que rançasse' a faceira com orelha, o chispe e a última buchanha, se coziam uns valente feijões encarnados e se provava comédado o azeite da última colheita, a ver se provava bem. Eu gostava daquilo. Até Quarta feira de cinzas era um fartar vilanagem, porque depois vinha o jejum e a abstinência, mais para os pobres dos pobres que não podiam comprar a bula que os desvincularia da obrigação de não consumir carne, sobretudo às sextas feiras até Domingo de Páscoa. Já se está a ver que quem as pagava era o bacalhau. A mim, pouca diferença me fazia, que se há peixe de que gosto, o fiel amigo está na linha da frente. Já ENTRUDO é português de lei e por isso às rábulas como as que Miguelito fazia nunca se chamou choradela de carnaval, mas sim choradela de entrudo.
Belorico era amigo do palavreado e se tivesse quem lhe desse troco e lhe pagasse uns cacharros tinha histórias para entreter tempo mais que muito. Morava num recanto da lagariça, numa casota de pedra -também era melhor que não fosse!- mas parava lá pouco. A casota ficava mesmo por detrás da do meu avô, o velho Comandante do inferno que de vez em quando o chamava a atenção, mas Belorico fazia ouvidos de mercador e ala que se faz tarde.
Duma vez meti conversa com ele, num Domingo em que tinha ido buscar um garrafão de tinto ao Comandante: Então, ti Mnel, o que faz agora?, «olha cachopo, agora num faço nada, e inda num acabei" «Mas não acabou o quê se não faz nada?» «é por isso que amanhã volto a fazer o mesmo que faço agora a ver se acabo». Fiquei a olhar para ele e a dizer-me "toma que já almoçaste"!
Quando nos despedimos no largo da lameira ao pé da adega do ti Zé Rolo ainda se saíu com mais esta: « já arreparaste que andamos sempre a comer e nunca matamos a fome?»
E de mim para mim comentei: " afinal Belorico não é engenheiro, é filósofo"
Apressai-vos a comprar a bula senão tendes que jejuar. Se puderdes arreai-lhe com uns cacharros bem acompanhados.
XIIIIIIIIIIII GRRRRRRRRAAAAAAAANDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

domingo, maio 13, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIV - ESCOUREIRO ou scorêro

Andei muito tempo para perceber donde raio vinha esta palavra... Isto porque o tal SCOREIRO tanto servia e serve para guardar as azeitonas de conserva, desde que não sejam muitas, pois aí usa-se a talha, como, e principalmente, para conservar o enchido (chouriços/as, morcelas, buchanhas - que saudades de uma boa buchanha! chamada pelos mais afoitos de ptchanha- (palavra esta que até custa a pronunciar mas que era mesmo assim!-) ) no azeite.
Acabei por concluir que esta pronúncia meio esquisita era uma adaptação sonora do significante AÇUCAREIRO, isto porque antigamente, nalgumas casas,- ainda vi- , o açúcar que era utilizado era a água da cozedura dos figos secos num caldeiro de lata e que depois serviam para aviandar o porco, de mistura com umas beldroegas, ou coisa assim, por môr de não lhes provocar alguma borreira, em tempo quente, e já meio cevado para a matança.
Coisa admirável sempre foram as técnicas de conservação: o sal, desde logo o mais barato, portanto o mais utilizado, - lá estava o belo presunto que se tirava agora em Maio, se punha de molho, se untava (barrava) de azeite com um molho de colorau, por mor da mosca, se encafuava numa saca branca de linho - não raro, aquelas mesmas onde vinha antigamente o enxofre em flor, a qual era lavada vezes sem conta, se virava do avesso, se colocava na boca uma fita de nastro e depois se pendurava, com o presunto, no forro da casa para secar) . Quando descia fazia-se a prova: um bom naco era cortado da peça, que voltava para a salgadeira - espécie de arcaz cheio de sal grosso onde o presunto coabitava com aquele excelente toucinho rosado, que até mesmo pessoas com fastio roíam, e também umas tiras de entremeada que eram o consolo do azeitoneiro em tempo da colheita da dita (azeitona)-. Ainda hoje me lembro desses raros paladares. E o mais é que a rapaziada não era gorda por aí além. ...Isto porque suavam assim comédado!. Reparemos que nos desertos o essencial continua a ser o sal. O sal é o oiro do deserto. A questão é que nós hoje queremos só ar condicionado. Não suamos. Bem me lembro eu de à noite tirar a camisa e se passado algum tempo a quisesse vestir outra vez tinha que partir o tecido, porque o salitre era tanto que ficava tesa. Assim mesmo: tesa: sustentava-se de pé sem qualquer apoio tal a quantidade de suor nela impregnado. Não é, portanto, por acaso, que os nossos mais idosos tenham o gosto salgado e que o grande defeito dos nossos enchidos seja o de ficarem salgados. Eles precisavam de sal. O seu equilíbrio homeostático requeria iodo e por isso salgavam a comida. Como não se poluíam com as bebidas que hoje nos invadem... ou bebiam água, ou vinho, ou aguardente, e trabalhavam de sol a sol, o sal era queimado pelo organismo. Hoje temos ar condicionado em todo o lado e vamos de carro para toda a parte, - não suamos e, portanto, não perdemos sal - em consequência, temos tensões elevadas, obesidade e outras coisas que tais. Remédio portanto é:SUAR! Só que para suar é preciso esforço...
Bom... mas o assunto era o SCORÊRO:
Dia de Sexta -Feira Santa à tardinha... Vinha eu todo suado, vou-me ao cântaro da água e emborco três copázios de esmalte do precioso líquido! Vou ao chafariz do batoco, trago dois caldeiros valentes de água, desço o balde adaptado a chuveiro feito pelo ti Zé Latas, encho-o, subo-o, abro a torneira e um banho/duche é, sem dúvida, um prazer inenarrável, mais a mais numa altura destas, em que eu vinha de tirar esterco dos currais a quarenta e três porcos- uma enormidade!
Quando desci, minha mãe:
«não tenho nada feito... não sabia a que horas vinhas!
" Não se rale! eu já me trato!
« olha que hoje é Sexta-Feira Santa... Não se pode comer carne... Abre ali uma lata de atum e coze uns ovos!»
" Isso tem muita mão de obra, eu estou com a galguéria e não me apetece atum nem esperar que os ovos cozam"!
« Vai ver ali à Rosa se lá há alguma coisa...»
"Vou mas é ao ESCOUREIRO e pesco um chouriço"..
« Olha, calha bem, boa ideia!»
Estava eu já refastelado a comer prazeiteiramente o meu chouriço, quando ela, assarapantada, entra por ali dentro:
«atão tu no vês que o chouriço é carne?»
" Este não, mãe! não vê que o PESQUEI com o anzol do garfo ali no escoureiro!"
«Rais ta partissem, damonho! Já está, já está!»
Lá me lambi com o chouricinho macio e se tinha sal não dei conta.Eram chouriços divinais aqueles: o unto escorria por entre os dedos e a gente lambia-se tal qual os gatos na sua higiene POST PRANDIUM! Já são raros chouriços com estes paladares. Ainda se encontram e se provam, mas só nas aldeias. VIVAM AS ALDEIAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabava eu de sair de casa, consoladinho, vinha o Tonho Arplano, já um pouco corcunda - os anos não perdoam - a resmungar. Não percebi o que dizia e meto-me:
- Ó ti Tonho, Karraio vai práí a ruminar?
- Então num queres lá saber que fui onte ao doutormédico e que ele me disse que eu tinha uma nascido aqui à entrada do meu cu?!
Eu sei do que foi... eu senti a picada...Fui a aviar a vida ali ao restolho do Cavalheiro, por baixo da figueira maranhoa e espetou-se-me aqui uma palha... Num liguei...Fiz uma torcida com a palha, alimpei as nalgas e ala! Passados uns tempos isto começou-me a doer e a minha lá me aqueceu um caldeirinho de água, lavei-me com sabão da borra do azeite, e fui-me a ver o que se passava porque eu bem apalpei alguma coisa que dantes lá num estava! Nem disse nada à minha... Quando cheguei à vila já ia desacorçoadinho de todo.
-E foi aí que ele lhe disse que tinha uma fístula à entrada do ânus!?
-Foi isso mesmo que ele me disse, mas eu num te vi lá! Como é que sabes?
-Olhe ! Eu cá se fosse a si tinha-lhe dito:" Vossa mercê, senhor doutor, há-de desculpar! Esse nascido num está à entrada do mê cu! está mas é à saída! Aqui num entra nada! só sai!
Rais ta partissem, garoto do diabo! Lá abalei, todo contente e o velho Arplano ficou-se a praguejar e a amaldiçoar a sua má sina!