Era dia de matança e eu assumira o controlo do palhinhas com a missão de manter o vasilhame individual com uma pinguinha no cimo. Ti Julho Sardones acabara de emborcar o 2º, apenas à conta de uma azeitona carrasquenha retalhada e ficara a mirar, compenetrado, para o copo vazio que continuava a segurar à altura dos olhos.
- Vai mai um Ti Julho?
Ele deu um estalido de língua e com ar muito sério informou:
- Ó Inserme, olha qu’ê gosto do filha da puta do vinho. Tem bom BUÊR. Bota lá outro.
Veio-me este episódio à lembrança há dias num corredor de uma grande superfície onde jaziam expostas uma catrefada de garrafas de vinho de múltiplas proveniências, qualidades e preços. E eu precisava apenas de um tintinho para acompanhar um besugo grelhado ao almoço. Hesitante, perante tanta oferta, fui criteriando entre o preço médio e a região vitivinícola. Num Alentejano descubro:
“Vinho tinto macio, de cor vermelha intensa, com reflexos violáceos. Levemente abaunilhados, os aromas e o sabor são bem marcados a fruta, lembrando compotas de frutos vermelhos. Apresenta um final de prova prolongado e muito suave.”
Fiquei tentado. Continuei para um Bairrada, cuja literatura proclamava:
“Vinho de cor granada profunda, de aroma rico e complexo dominado por notas de frutos vermelhos, frutos secos e caruma, envolvidos por muito ténues notas de madeira. O sabor é agradável, encorpado, com taninos redondos e excelente persistência gustativa.”
Tudo à minha volta emudeceu para me facilitar a viagem pelos aromas a caruma e abaunilhados, pelos sabores encorpados e a frutos vermelhos, pelos taninos suaves e redondos…A viagem prosseguiu inadvertidamente para uma reflexão sobre o código linguístico em que assenta esta deliciosa literatura. Socorro-me de Basil Bernstein e da sua teoria sócio-linguística concebida no âmbito da problemática do processo educativo. Esta teoria inscreve-se no que se poderá chamar “paradigma determinista” que pretende explicar o (in)sucesso escolar. Muito telegraficamente, a teoria postula a existência de 2 códigos que no processo educativo reflectem uma correspondência entre modos de expressão cognitiva e estrutura de classes, fazendo sentir os seus efeitos ao nível do (in)sucesso escolar (e também nos comportamentos sociais). Chama-lhes o autor código restrito e código elaborado. O primeiro caracteriza-se por uma estrutura semântica particularista, fraca complexidade léxica e gramatical, construção sintáctica pobre, tudo traduzido numa linguagem concreta e descritiva, muitas metáforas, recurso a uma gama limitada de adjectivos e advérbios. O código elaborado, para abreviar, caracteriza-se pelo oposto. Salto já para o corolário: o código elaborado é mais frequente à medida que se sobe na estrutura de classes sociais, o código restrito é partilhado nas classes mais baixas. A escola privilegia o código elaborado, logo, à partida, as probabilidades de sucesso escolar tenderão a ser mais elevadas nos alunos mais familiarizados com ele, ou seja, os alunos das classes mais altas, fenómeno que, denunciaram Bourdieu e outros, contribui para a reprodução das desigualdades sociais. Mas isso não é conversa para aqui.
Forçando uma importação (bem martelada, diga-se), da teoria dos códigos para a descrição dos vinhos, considerando-me eu um indivíduo da classe alta (em termos de provo, entenda-se), compreender-se-á que não tenha resistido ao Douro de 2003 que exibia esta pérola:
“Os aromas emergem extravagantes, misteriosos e quase exóticos, juntando-se a um estilo perfumado que acompanha notas de café e frutos negros. Um toque de carvalho veio acrescentar uma deliciosa fragrância fumada que intensifica a já existente e suave nota de cereja. Este vinho apresenta-se encorpado, com alguma estrutura firme e um final de prova invulgarmente longo.”
Eu seja ceguinho se não me esforcei por detectar a extravagância do aroma e a fragrância fumada do carvalho. Admito que não fui capaz. O que posso dizer é que gostei do filha da puta do vinho. Tinha bom BUÊR.
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sexta-feira, agosto 17, 2007
sexta-feira, janeiro 13, 2006
A NOSSA FALA - XLII - CATREFA E/OU CATREFADA
Isto hoje vai ser mais variado: começamos por uma lição de fonética e acabamos com uma receita de coelho doméstico com couve de repolho.
Então é assim: Catrefa deriva do latim CATERVA. Significa GRANDE QUANTIDADE. Vergílio, na Eneida, e cito de cor que agora não tenho aqui a obra à mão, escreve assim: Et regina, magna cum stipante CATERVA virginum, dum maximus pontifex ad aram ascendebat... Aí vai a tradução: e a rainha, acompanhada por uma grande quantidade de donzelas, ao mesmo tempo que o sumo sacerdote se dirigia para o altar, lá no alto ...
Como é por demais sabido, o povo faz a língua e segue frequentemente a lei do menor esforço. Isto é mais visível quando algumas consoantes são muito próximas em termos de som e pronunciação ou quando a articulação da palavra oferece alguma dificuldade. Nesse caso, dá-se a volta por cima. Foi o que aconteceu com a passagem de caterva a CATREFA: Dá-se uma metátese (reparai que se passa de CATER a CATRE e depois verifica-se um abrandamento do V ao F. Reparai que estas duas consoantes se pronunciam quase da mesma maneira: são labiais, só que o V é sonoro e o F é surdo. Vai daí, o povo não está com meias medidas: fica CATREFA, e não se fala mais nisso. E ficou. Voltaremos a esta temática um dia que calhe!
Era Sexta-Feira à noite.Verão assim quente comédado! Junto ao muro do Marcelo estava eu com Coiote Pete, Jorge Alguitarra, J.J. Cabeças, Barbaças e Abraço de Basuca. A conversa entre cachopada vai sempre a dar ao mesmo: gajas.
Avaliavam-se várias figuras, quando nisto, passa o mardlhequinho (chamavam-no assim porque não era capaz de pronunciar bem os dois RR e como tinha marrecos e estes iam até à ribeira em fila indiana, ele quando os queria de volta à capoeira ia à ponte e punha-se: "mardlheco mardlheco, mardlheco, mardlequinho!...."O facto é que os marrecos acudiam à voz e aí iam perfilados atrás dele como os gansos iam atrás de Konrad Lorenz.
Diz Coiote Pete:« OH! se o mardlheco vem a esta hora, dorme cá. O velho tem uma coelheira dum corno. Fui lá outro dia com o Tero e vi. A porta está fechada com um baraço num prego e o cão é manso como a terra.» E vai o Cabeças:« porra, mas o carregal é longe!» Logo atalha Alguitarra:« vamos de tchasso.»« Só há uma», diz o Barbaças...E eu: «Vou buscar a do meu velho e empresto-a. Eu a roubar os coelhos não vou, mas posso-os cozinhar e emprestar a bicicleta.» Nisto o irmão do Basuca passa na bicicleta e é logo interpelado: «Ó puto, vai a pé para casa e deixa ver a chincha.» O cachopo protestou mas a ameaça do Basuca resolveu tudo num instante. Aí vão eles: Coiote Pete, Cabeças e Basuca. Eu fui pelos garfos, colher de pau, louro e a bifar uma bilha de gás , um redutor com tubo e um fogão Presmalt de dois bicos que a minha mãe levava para as excursões, alguitarra arranca a buscar o vinho e o pão e o barbaças foi-se por um tacho dos grandes, cebolas, azeite e alho. Agarramos no carrinho do gás e ala: toca a andar para a mina de Toco Jabão. Havia lua... E que não houvesse! todos conhecíamos o caminho.
A páginas tantas diz o Barbaças: «Atão e comemos os coelhos com quê?» « Com couves é que era bom,» digo eu. E eles: "Com couves? A Ti purificação tem-nas lá boas debaixo da laranjeira, daquelas do repolho." «Vai lá e traz aí umas quatro ou cinco, enquanto eu e aqui o Alguitarra montamos a bancada». Assim foi.
Pelos atalhos das Taliscas, entretanto, os outros três lá iam em busca dos coelhos do mardlheco. Foram e vieram.Trouxeram só um. Um, pensávamos nós: era uma e prenha!
Coiote Pete, viemos depois a saber, apalpava o lombo (nenhum se lembrou duma pilha nem dum fósforo) e agarrou aquele(a) que lhe pareceu maior, meteu-a para dentro do saco, pôs no suporte da bicicleta e: ala milhano!
Depois de uns quantos praguejos e alguns a dizer que já não comiam e de alguma narrativa lá nos decidimos a esfolar a coelha. Dizia Coiote: «fugiam como os ratos e era uma catrefada deles, no se via nada o que quereis? fosseis lá vós»! Entretanto quando a barriga da coelha é posta à luz da lua vimos que tinha dez caçapos.«Mal empregada.Trazia uma caterva de coelhinhos. Meu amigo, vai mesmo assim»! E foi.
Como só havia um tacho e para adiantarmos tempo eu já tinha as couves cozidas e vá lá que o ti joão caçador tinha um balde perto do poço ali ao lado, senão, não tinhamos onde as deitar.
A coelha era rija, demorava a cozer e para variar a conversa ia a bater sempre ao mesmo: gajas.
Vou eu:«porra! não se fala mais em gajas hoje. Contamos uma história engraçada cada um e pronto, até que a coelha se coza maneirinhas.» e foi assim que o Cabeças arranca com esta: «Atão não querendens lá ver que o padre zé pedro, outro dia, vira-se para o tzé sardones e atira-lhe:-"ó Sardones, olhe que você ainda não pagou a côngrua nem deu a esmola para o santo!" E o Sardones: «Oh senhor prior: eu tenho uma catrefada de filhos, farto-me de trabalhar para ver se não passam fome... Bem, a congra é lá com a minha mulher, mas a esmola ao santo, pago-lha já: o senhor prior empresta-me o santo durante um mês e eu sustento-o junto com os meus filhos. »O pessoal que ouviu pôs-se a rir e o padre desandou.
E nós também rimos e quase em uníssono: bem feita!
Ao fim de um boa hora lá se roeu a coelha!
1 -Alagar bem o tacho; não poupar o azeite : à vontade aí meio quartilho ou mais.
2 - Deitar cebolas migadas, alho e louro e o coelho migado grosso. Abaixar o lume e deixar cozer no azeite na cebola e no alho.
3 - Testar se o garfo já espeta na carne e juntar as couves (não esquecer que as nossas já estavam cozidas para ganharmos tempo). Tapar o tacho deixar cozer, lentamente.
4 - Quem gostar de umas batatas pode acrescentar depois de as couves já terem suado.Temperar de sal a gosto e picante se gostarem.
5- Sempre em lume brando
6- Juntar vinho tinto ou branco, avivar o lume, deixar apurar e servir.
NB: reparastes que não leva água. A água é apenas a resultante do próprio coelho e das couves. A importância de cozer sempre em lume brando e com o tacho sempre bem tapado, está aqui. Doutra forma tende a esturrar e lá se vai o petisco.
Muita atenção: não vale roubar o coelho!
Então é assim: Catrefa deriva do latim CATERVA. Significa GRANDE QUANTIDADE. Vergílio, na Eneida, e cito de cor que agora não tenho aqui a obra à mão, escreve assim: Et regina, magna cum stipante CATERVA virginum, dum maximus pontifex ad aram ascendebat... Aí vai a tradução: e a rainha, acompanhada por uma grande quantidade de donzelas, ao mesmo tempo que o sumo sacerdote se dirigia para o altar, lá no alto ...
Como é por demais sabido, o povo faz a língua e segue frequentemente a lei do menor esforço. Isto é mais visível quando algumas consoantes são muito próximas em termos de som e pronunciação ou quando a articulação da palavra oferece alguma dificuldade. Nesse caso, dá-se a volta por cima. Foi o que aconteceu com a passagem de caterva a CATREFA: Dá-se uma metátese (reparai que se passa de CATER a CATRE e depois verifica-se um abrandamento do V ao F. Reparai que estas duas consoantes se pronunciam quase da mesma maneira: são labiais, só que o V é sonoro e o F é surdo. Vai daí, o povo não está com meias medidas: fica CATREFA, e não se fala mais nisso. E ficou. Voltaremos a esta temática um dia que calhe!
Era Sexta-Feira à noite.Verão assim quente comédado! Junto ao muro do Marcelo estava eu com Coiote Pete, Jorge Alguitarra, J.J. Cabeças, Barbaças e Abraço de Basuca. A conversa entre cachopada vai sempre a dar ao mesmo: gajas.
Avaliavam-se várias figuras, quando nisto, passa o mardlhequinho (chamavam-no assim porque não era capaz de pronunciar bem os dois RR e como tinha marrecos e estes iam até à ribeira em fila indiana, ele quando os queria de volta à capoeira ia à ponte e punha-se: "mardlheco mardlheco, mardlheco, mardlequinho!...."O facto é que os marrecos acudiam à voz e aí iam perfilados atrás dele como os gansos iam atrás de Konrad Lorenz.
Diz Coiote Pete:« OH! se o mardlheco vem a esta hora, dorme cá. O velho tem uma coelheira dum corno. Fui lá outro dia com o Tero e vi. A porta está fechada com um baraço num prego e o cão é manso como a terra.» E vai o Cabeças:« porra, mas o carregal é longe!» Logo atalha Alguitarra:« vamos de tchasso.»« Só há uma», diz o Barbaças...E eu: «Vou buscar a do meu velho e empresto-a. Eu a roubar os coelhos não vou, mas posso-os cozinhar e emprestar a bicicleta.» Nisto o irmão do Basuca passa na bicicleta e é logo interpelado: «Ó puto, vai a pé para casa e deixa ver a chincha.» O cachopo protestou mas a ameaça do Basuca resolveu tudo num instante. Aí vão eles: Coiote Pete, Cabeças e Basuca. Eu fui pelos garfos, colher de pau, louro e a bifar uma bilha de gás , um redutor com tubo e um fogão Presmalt de dois bicos que a minha mãe levava para as excursões, alguitarra arranca a buscar o vinho e o pão e o barbaças foi-se por um tacho dos grandes, cebolas, azeite e alho. Agarramos no carrinho do gás e ala: toca a andar para a mina de Toco Jabão. Havia lua... E que não houvesse! todos conhecíamos o caminho.
A páginas tantas diz o Barbaças: «Atão e comemos os coelhos com quê?» « Com couves é que era bom,» digo eu. E eles: "Com couves? A Ti purificação tem-nas lá boas debaixo da laranjeira, daquelas do repolho." «Vai lá e traz aí umas quatro ou cinco, enquanto eu e aqui o Alguitarra montamos a bancada». Assim foi.
Pelos atalhos das Taliscas, entretanto, os outros três lá iam em busca dos coelhos do mardlheco. Foram e vieram.Trouxeram só um. Um, pensávamos nós: era uma e prenha!
Coiote Pete, viemos depois a saber, apalpava o lombo (nenhum se lembrou duma pilha nem dum fósforo) e agarrou aquele(a) que lhe pareceu maior, meteu-a para dentro do saco, pôs no suporte da bicicleta e: ala milhano!
Depois de uns quantos praguejos e alguns a dizer que já não comiam e de alguma narrativa lá nos decidimos a esfolar a coelha. Dizia Coiote: «fugiam como os ratos e era uma catrefada deles, no se via nada o que quereis? fosseis lá vós»! Entretanto quando a barriga da coelha é posta à luz da lua vimos que tinha dez caçapos.«Mal empregada.Trazia uma caterva de coelhinhos. Meu amigo, vai mesmo assim»! E foi.
Como só havia um tacho e para adiantarmos tempo eu já tinha as couves cozidas e vá lá que o ti joão caçador tinha um balde perto do poço ali ao lado, senão, não tinhamos onde as deitar.
A coelha era rija, demorava a cozer e para variar a conversa ia a bater sempre ao mesmo: gajas.
Vou eu:«porra! não se fala mais em gajas hoje. Contamos uma história engraçada cada um e pronto, até que a coelha se coza maneirinhas.» e foi assim que o Cabeças arranca com esta: «Atão não querendens lá ver que o padre zé pedro, outro dia, vira-se para o tzé sardones e atira-lhe:-"ó Sardones, olhe que você ainda não pagou a côngrua nem deu a esmola para o santo!" E o Sardones: «Oh senhor prior: eu tenho uma catrefada de filhos, farto-me de trabalhar para ver se não passam fome... Bem, a congra é lá com a minha mulher, mas a esmola ao santo, pago-lha já: o senhor prior empresta-me o santo durante um mês e eu sustento-o junto com os meus filhos. »O pessoal que ouviu pôs-se a rir e o padre desandou.
E nós também rimos e quase em uníssono: bem feita!
Ao fim de um boa hora lá se roeu a coelha!
1 -Alagar bem o tacho; não poupar o azeite : à vontade aí meio quartilho ou mais.
2 - Deitar cebolas migadas, alho e louro e o coelho migado grosso. Abaixar o lume e deixar cozer no azeite na cebola e no alho.
3 - Testar se o garfo já espeta na carne e juntar as couves (não esquecer que as nossas já estavam cozidas para ganharmos tempo). Tapar o tacho deixar cozer, lentamente.
4 - Quem gostar de umas batatas pode acrescentar depois de as couves já terem suado.Temperar de sal a gosto e picante se gostarem.
5- Sempre em lume brando
6- Juntar vinho tinto ou branco, avivar o lume, deixar apurar e servir.
NB: reparastes que não leva água. A água é apenas a resultante do próprio coelho e das couves. A importância de cozer sempre em lume brando e com o tacho sempre bem tapado, está aqui. Doutra forma tende a esturrar e lá se vai o petisco.
Muita atenção: não vale roubar o coelho!
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