Vamos lá então: coza-se na mesma panela uma metade de galinha campestre, uma chouriça das verdadeiras, daquelas em que o unto escorre pelos dedos, uma faceira de cerdo, bem limpa de pêlos e com a orelha sem cera, mais um naco de osso da sevã. Saquem-se as carnes, reservem-se, deixe-se arrefecer maneirinhas a água, coe-se. Entrementes, faça-se uma cebolada farta, com tomate já sem pevide e pele, umas tiras de pimento, um ramo jeitoso de salsa. Quando já tudo estiver bem suado, junte-se um pouco da água coada deixe-se levantar fervura, triture -se tudo com a varinha e faça-se um caldo semi líquido, aí para o gelatinoso, vá-se deitando carolo de milho, sempre mexendo, em lume brando para não ganhar garanhotos e tenha se cuidado para não haver bispo.
Enquanto isso coza-se em água abundante com sal (pouco) uns grelinhos de nabo, daqueles mesmo que amarujam. Em estando satisfatórios escorra-se, esprema-se levemente, frija-se uns dentes de alho, sem grelo, numa sertã larga, deixe-se amolecer, deite-se os grelos espremidos, envolva-se e una-se com ovo batido. O milho deve ser tapado para não formar coroa. Corte-se a orellha, parte da faceira, metade da chouriça e desfie-se meia galinha. Num tacho, ou melhor, na panelinha de ferro, estale-se uns alhos espalmados, a cutelo, com casca, em azeite, uma folha de louro, despeje-se a carne, envolva-se bem, arreganhe-se com um salpico de vinho branco, deixe-se evaporar, regue-se com um pouco de vinagre aromatizado, cubra-se com coentros viçosos e sirva-se de imediato com os milhos de carolo e o esparregado ligeiramente amargo - por isso amaruja. Ao fim, coma um Kiwi. Se gostar, acompanhe com vinho já ambientado, tinto, de uva, ou ,então, chá morno de salva brava, sem açúcar.
Lamba-se e limpe-se.
Vá passear com o/a seu/sua companheiro/a, de mão dada, que o amor não tem que ser escondido, regresse a casa, vá para a sua varanda, se a tiver e se tal for tempo, ofereça um simples copo de água, traga outro para si e falem de coisa nenhuma ao sabor do que vier. Mainada.
Lembro-me de três excelentes cozinheiras de boda, afora eu, que não tinha tempo para tão demoradas contendas: ti Maria Rainha, Celeste do Espeto e Maria, olho de lata.
Por razões que não adianta a ti Maria Rainha, levava a palma. Foi confeccionados por ela, que papei os melhores coelhos no forno e as melhores chanfanas.
Eu, curioso como era, quase sempre convidado para todos os casamentos, tinha a vantagem de entrar na cozinha porque ia com o mais que famoso carrinho quadrado a levar a bilha do gás. Metia o bedelho e Ti Maria dava-me a provar. Eu servia de aferidor. Sabia sempre o que havia e reservava-me sempre para o melhor, porque sabia a ementa completa com antecedência.
Aprendi muito com ela e por isso vos ofereci a receita acima. Experimentai e logo me direis.
Padre Pinto rivalizava comigo em quantidade de bodas. A vantagem pendia para o meu lado, mas foram imensos - ainda havia povo naquela altura - aqueles em que fomos comensais.
O interessante, e nós já nos ríamos, é que havia um copinho famoso que percorria todas as bodas e que ficava sempre para o Sr. Prior.
Num casamento que teve lugar na loja do Balecas - aquele que numa boda comeu sozinho um galo assado no forno com uma travessa de esparregado e um alqueire de batata frita, três
litros de vinho e dois pratos de arroz doce com muita canela - ali à barreira do Oiteiro, frente à casa da Espeta Figos, nesse casamento, lá estava o famoso copinho à frente do Sr. Padre Pinto. Olhámo-nos, rimo-nos, sentámo-nos, iniciámos o repasto com uma sopinha de grão com massa e hortelã, arrancámos para um arroz de cabidela de coelho, continuámos com fígado com esparregado de nabo amarujante e o vinho sempre a escorrer. Eu ficava sempre com um garrafão aos pés e servia as pichorras ali por perto. Só que o copo de Padre Pinto - lindo era mas pequeno - exigia enchimento continuado.
Foi nesse casamento/boda que fiz a quadra que durou anos: Ao Padre Pinto dava jeito/ Não um copo tão perfeito / É de tal modo pequenote/Que o faz andar a trote. A malta riu-se e o que é facto é que nunca mais o abençoado do copo ajudou a engolir esparregado de nabo a amarujar nem chanfana de cabra ou badana com puré.
Hoje não há lição teórica. É dia de prática. Mãos à obra.
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