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quarta-feira, junho 15, 2005

A NOSSA FALA IX - MOLÍDIA

Tonho Félix e sua mãe Velha Lorpa moravam ali para o caminho das aranhas na rua que ia dar à fontinha. Quantas vezes lá parei: tapava a água com o dedo, assobiava, não houvesse alguma cobra no cano, e, assim acudia ao silvo, e, enquanto a água enchia o tubo, porque de cócoras é que se tinha que beber e coucho não havia, não raro um sonoro resultado de uma flatulência feijoal ecoava até ao milharal do domingos catrino onde uma vez confundi (era eu garoto) a mordedura de uma formiga cavalal com a ferroada de um alacrário e pus toda a gente à minha procura entre o verde das canas. Ali fiquei eu encaralhado com as minha partes fracas, ou pudibundas, como agora Se diz, face aos olhos inspectrizes (ou inspectores?) da minha mãe e outras que foram chegando e me deitaram ali mesmo no chão à procura do sítio da picadela. Quem ganhou foi o milho que mamou mais água do que o normal porque entretanto o pateado fez um lapacheiro e a rapaziada tirou a limpo que o grito lancinante que eu dera fora consequência de uma tenazadela de uma formiga das grandes e nunca de um lacrau.
Voltemos à fontinha, ao tonho Félix e velha lorpa, mais ainda à molídia. Para onde um homem vai quando recua à infância! Será isto freudiano? Não é altura para estas indagações.
Duma vez me lembro eu que o menino Fernando me deu um bolso cheio de bocadinhos de bolacha Maria daquela que vinha nas latas e que se vendia a peso num cartucho dos finos, contrariamente aos pregos e até mesmo ao açúcar que se vendiam em cartuchos de papel cinzento colado no fundo com farinha em massa igual à que vedava as alguitarras quando vinte e quatro sobre vinte e quatro a aguardente se destilava naqueles recantos mais abrigados e debaixo de telha para o lume não se apagar. Consegui ir de aldeia até à sorte da ribeira a chupar bolacha com intervalo na fontinha para desempapar…
Bem! os pés da mãe do filho eram, quer dum quer doutro um joanete perfeito. Se pateassem um alfobre não havia semente que nascesse que a área pisada em redondo extravazava do aproveitamento solarengo e bem estrumado com os cagalhões de burro apanhados à mão na estrada de alcatrão para caldeirinho de lata .
A água para consumo doméstico ia-se buscar ao chafariz da lameira, ao poço do ribeiro cimeiro, à fonte perto lagar ou trazia-se em angarelas em cântaros de lata, tapados com tampa justa com borla soldada no cimo como as boinas dos emigrantes de verdade.
As ruas tinham espaços empedrados mas a maior parte era terra batida mantida no sítio pelo acalcamento das bestas e, claro, suas respectivas bostas.
Encarregado do abastecimento caseiro em matéria de líquidos era o tonho Félix. Nunca se tinha visto na aldeia homem como aquele: pata larga, (nenhum sapateiro ousaria orçamentar umas sandálias que fosse para aquela patorra, nem lucho, nem vinagre, nem guerrilhas, nem maneta, nem camião nem calça defuntos, nenhum!), calça a meia canela presa por atilho de baraço em laçada corredia e camisa sem colarinho, de três botões a apertar assim como as sobrepelizes dos padres quando vão da igreja para o espírito santo a buscar o S. Bartolomeu que fica lá uns tempos depois do ramo dos pitos e das travessas dos bolos de leite com garrafa de vinho empinada ao meio enquadrada por chouriça em azeite e, pasme-se! conseguia levar um cântaro de lata à cabeça assente numa molídia mais encardida que o desperdício de um mecânico por conta própria.
Quando a água chegou, proveniente do campo frio, alguns puseram torneira dentro de casa mas muitos, e velha lorpa e Félix estavam nestes, iam abastecer-se ao chafariz. Agora mais perto. Félix vinha do caminho das aranhas ao batoco, àquele chafariz de duas pias e torneira de pressão, ali junto ao tribunal dos três pernas (pedros, estanqueiros, freitas, baratas, chicórrelas,…) enchia a cântara e ajudava-se a ele mesmo e ligeirinho arrancava ,rua das aranhas acima e não tardava aí estava ele a buscar outra.

quarta-feira, maio 18, 2005

A NOSSA FALA IV - Q'ASSNÃO

Q’ASSNÃO pressupõe sempre uma proposta ou resposta afirmativa.
Q’ASSNÃO não admite alternativa.
Q’ASSNÃO pede o SIM, senão…

Isabel Maria, 6 anos, é filha de Belmiro e de Maria Isabel. O progenitor é muito amigo do banco do adro mas pouco amigo do banco da igreja. A progenitora decidira, há 2 anos atrás, ir à Matriz apenas em ocasiões especiais, vingando-se assim do povo que fez circular a falsidade de que ela, de longe a melhor fadista do povoado, entrava sempre fora de tempo nas cantigas eucarísticas.
De maneiras que a pequena Isabel Maria estava condenada a morrer à fome na fé da Igreja Católica Apostólica Romana. Salvava-a a tia paterna Maria Anunciação. Seca no trato e de carnes, Maria Anunciação ainda não tinha conhecido varão em nenhum dos seus 43 anos. Fervorosa devota de Nossa Senhora da Póvoa, da velha e da nova, ela insistia em fazer-se acompanhar da pequena Isabel Maria, na Eucaristia dominical, apesar das vergonhas por que já tivera de passar.
Isabel Maria achava divertido esconder-se na cabine confessional e cuspir através dos buraquinhos da lata por onde os pecadores relatavam as maldades que tinham feito. Também não desdenhava ir molhar as mãos na água benta e sacudi-las de seguida para cima das vizinhas de banco. Houve até uma vez que, tendo insistido por 3 vezes e por 3 vezes lhe ter sido negada autorização para verter aguinhas, ali mesmo baixou a cuequinha rosa com motivos Pokemon e fez um pequeno lapatchêro no mosaico bordeaux.
- Está quedinha Q’ASSNÃO apanhas – ameaçava-a a tia, com uma certa regularidade.
Naquele domingo, chamou a atenção de Isabel Maria a fila de gente a quem o celebrante entregava, na mão ou na boca, uma espécie de moeda alva. Aproximou-se curiosa, ficou atentamente a observar a cena até que decidiu puxar vigorosamente o paramento rendilhado do celebrante e exigiu:
- Eu também quero. Dá-me uma.
A tia Anunciação petrificou, a Ti Lurdes, que já tinha a boca aberta e a língua esticada para nela ser depositado o pão ázimo, esqueceu-se de a recolher, o povo católico presente ficou suspenso. O Senhor Prior, virou-se para a pequena e falou-lhe, bonacheirão:
- Não te posso dar minha filha. Tu ainda és muito pequenina para receberes o Senhor.
- No sei cá delas, eu também quero. Dá-me uma.
- Já disse que não posso dar-te a hóstia sagrada minha filhinha. Olha, depois de fazeres a escola de Jesus, e se te portares bem, já te posso dar…
- Dá-me uma Q’ASSNÃO nunca mai cá venho.

domingo, maio 01, 2005

A NOSSA FALA II - LAPATCHÊRO

KARRAIO foi “A Nossa Fala I”
LAPATCHÊRO leva o nº II. A prosseguir.

Nome dado a um pequeno charco de água que se encontra no caminho, deixado pela chuva recente.

Lapatchêro distingue-se de lapaxeiro ou de lapacheiro, desde logo porque o termo original é utilizado pelos verdadeiros baságuedos. Os outros, são (mal) usados pelos outros (baságuedos falsos ou não baságuedos).

Para além disso, lapaxeiro e lapacheiro têm um som amaricado. Lapatchêro, ao invés, soa bem, viril, autêntico.

Não consta no dicionário, em nenhum dos grafismos. Trata-se de uma falha gravíssima, a reportar urgentemente à Faculdade de Letras. É que estamos a falar do termo mais adequado para a designação do tal pequeno charco de água. Podemos chamar-lhe charco, poça ou outra coisa mas, não conheço nenhuma palavra tão potente como esta.

Vai o Ti Xico Malhado pelo caminho fora, a pensar na vida:
"raisparta que não há maneira de chover comédado, as pinguitas que caíram ontem deram um jeitito mas não basta, os borregos levam tudo rapadinho. Hum! O raio do rouxinol não se cala ali no freixo da ribeira, que bem que canta o cabrão do rouxinol, como o rouxinol ninguém canta, não senhor. E de noite? Toda a santa noite a cantar, o filha da puta do rouxinol, olha! anda ali um espadatchinho, passarinho pequeno mas rabina, ai o filha da puta do espadatchinho não pára quieto. Ah! Olha o cuco, dá cá o cu, dá cá o cu, queres cu cabrão? Filha da puta do cuco, nem artes tem para fazer o ninho, tem que pôr os ovos nos ninhos dos outros, o cabrão, e ainda por cima quer cu. Vai lá meter-te com o picanço que ele logo te canta o fado, levas umas bicadas que te tchapas. Eh lá! 3 aviões ali no céu, que fumeirada que eles deitam…porra! Já caguei as botas todas no cabrão do lapatchêro. Filha da puta do lapatchêro, uma pessoa não pode distrair-se a ver os aviões, agora vou ouvir a patroa…olha para esta merda…

Não consigo imaginar o Ti Xico a pensar “filha da puta do lapaxeiro”… Não soa bem, não lhe ficava bem, ao Ti Xico Malhado.

Nem em Lisboa soaria bem:
O Tó e a Ana são estudantes, ele de direito ela de geografia, ele natural do Alentejo, ela baságueda da Bemposta. Caminham, com fome de almoço, em direcção à cantina nova porque ela deu em macrobiótica. O atalho, em terra batida, é mais rápido e sempre se vêem umas flores primaveris. Ele, apaixonado e ternurento, insiste na brincadeira de fazer cócegas com beijos no pescoço da Ana. De repente, ela grita: “cuidado! Olha o lapaxeiro!”
Que mau aspecto! Ó Ana, és da Bemposta, não és de Lisboa, catano!
Não tenhas medo de dizer LAPATCHÊRO, é isso que te distingue.