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terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

XXXXXXXXXXXIIIIIIGGGGGRRRRAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEE

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS

Naquela noite, tinha caído um códão daqueles comédado. Albertino Chinchas levantou-se cedo para cumprir o compromisso firmado com o seu compadre Mnel Alma de Sino de lhe matar o marrano, como era hábito. De Verão ou de Inverno, Albertino gostava de vir lavar a cara na água do tanque que mantinha quase sempre cheio com água do poço. Bastas vezes, no Inverno, tinha de partir o caramelo com um martelo para chegar à água, mas ele sentia um prazer masoquista quando sentia os tomates a encolherem-se dentro das calças quando mergulhava a cara na água gelada. Acreditava que o acto de coragem era significado de virilidade e que a reacção dos testículos era sintoma disso mesmo.

Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.

O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.

O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.

O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.

Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.

sexta-feira, outubro 20, 2006

A NOSSA FALA - LXVIII - CUNCA

Já era adulto quando ouvi pela primeira vez a palavra sanefa.
Parece até mal dizê-lo, mas fica bem esta confissão. Estranheza tive também quando oiço na televisão chamarem MACACA a um jogo que na aldeia sempre se chamou
descanso. Jogava-se com uma CUNCA: um bocado de telha galega ou de um tijolo com o tamanho de meia palma de mão e sem configuração definida. Convinha que tivesse uma parte com ligeiro rebordo ou saliência já que facilitava o impulso que lhe era dado pelo pé coxinho quando passávamos de casa em casa. Este jogo do descanso era misto, tanto era jogado por rapazes como por raparigas. Não eram muitos os que gozavam deste privilégio. Por via de regra os jogos eram diferenciados por géneros sexuais. Um dia pode ser que tratemos deste tema das brincadeiras da canalha em tempo de escola.(...)
No tempo da colheita da azeitona, às vezes Dezembro já avançado, dias curtos e frio que bastasse, Mnel Mantarrota, da esquina do café da Rosa, por essas seis -que o trabalho espera-se no sítio e não em casa - fazia soar o búzio chamando o rancho para a abalada. Na Aldeia vislumbrava-se aquela fumaça por sobre os telhados, efeito da miguinha da batata em panelinha de ferro ou do aquecimento da VIENDA para o porquinho, que o regresso era só já de noite.
Lá vinham eles e elas aos pares ou isolados e confluíam para o adro.Os diferentes grupos formavam-se e do barulho passava-se a um silêncio que só algum cão cortava no aferrenho a alguém que passasse na sua área de circunscrição e ele não conhecesse ou dele tivesse má memória, por via de alguma pedrada ou ameaça com paulada.
O almoço era invariavelmente ao meio dia. O lume era aceso logo de manhã e mantido aceso todo o dia, que, naqueles tempos, o códão só abalava lá para as onze e mãos e pés arreganhavam com facilidade. De vez em quando era imperioso descer da escada e reactivar a circulação, ou, então deixar de apanhar para que os dedos não ficassem hirtos.À hora de almoço lá saíam das bandoleiras o corno com as azeitonas, o tanoco de pão centeio ou de mistura, uma tora de toucinho e uma cunca de queijo. Alguns, sobretudo quando o casal pertencia ao mesmo rancho, levavam comida de tacho embrulhado em rodilhas por mor de não perder de todo o quentinho do lume. O toucinho ou a morcela, o naco de entremeada (luxo maior) ou até mesmo o pão, eram aquecidos na ponta de uma sovina e pingavam sobre o pão. Velha era a história do toucinho assado e do pão pingado. Quem não se lembra desta maravilha, sempre recontada quando as couves coziam ao lume, com a panela pendurada nas cadeias, que, por baixo, às vezes, era preciso pôr o pucheirinho para fazer o café de borra com que se mataria a bicheza na manhã do dia seguinte. (...)
Se há coisa de que eu quase nunca prescindo quando ando nas lides campestres é duma valente posta de bacalhau, bem regada no azeite da bela oliveira e com dentes de alho que dá para uma família de cidade para uma semana. Se acompanhada por umas batatinhas assadas na cinza, então, aí o sete-estrelo do prazer gastronómico fica mesmo ao lado. Se o vinho for a condizer claro está que ultrapassa a raia do extraordinário. Minha mãe sabia disso. Mãe é sempre mãe e eu tinha algumas vezes na minha buchinha um postinha do fiel e um garrafinho de azeite já com o alho escarchado . Lambia-me.
Muitos de vós talvez já não vos lembreis daqueles queijos cabreiros, muito negros, baixinhos, com gordura envolvente, os quais eram tratados em tábua de solho revestida de palha centeia e todos os dias voltados e passados por água tépida com muito jeitinho. Aquilo era - às vezes(cada vez menos) ainda consigo arranjar um ou outro- aquilo era, e é, um prazer inefável. Só com uma cunquinha quase se comia um pão inteiro tal a intensidade do sabor.(...)
Para que a cunca não fique sem todos valores da sua polissemia aqui vai o derradeiro: quem ia a monte, aviar a vida, arrear a calça, telefonar ao Salazar, aliviar a tripa, fazer um alívio, estrumar a couve, dar comida à mosca, que sei eu?... quem ia, por norma, levava uma cunca, ou mais, para limpar o traseiro. Quando se esquecia da cunca servia uma pedra meia lasca, ou mesmo umas folhas de carvalho. Aos garotos, por vezes, aconselhava-se a folha de figueira! Era assim que se aprendia.
Na vida há sempre que aprender! E que recordar. Recordei hoje aqui coisas que o tempo ainda não apagou mas que já estavam meio tapadas. Destapei-as para vós. Podeis consumi-las que elas não trazem as desgraças de Pandora.
Acabemos com um dito espirituoso: disse o Tonho para a Elvira que tinha as mamas pequeninas:" eh! cachopa, hás-de esfregar as mamas com papel higiénico! E ela atarantada: tu és parvo ou quê? E ele: Se o teu cu cresceu pode ser que as mamas também aumentem de volume! e ela: Ranhoso! que és um ranhoso!
Imaginai que era com uma cunca!!!!
XIIII GGGRRRRANDDDDEEEEE!

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A NOSSA FALA XLVII - CÓDÃO

- Tá cá um CÓDÃO, oh!

No Inverno, as noites estreladas anunciam manhãs geadas. Os campos apresentam-se cobertos com aquela camada esbranquiçada, entre o gelo e a neve. É a geada, a russa, a barbeira, o CÓDÃO.

- Tá cá um códão, oh! – é uma bonita expressão que soi ouvir-se nestas manhãs de Inverno que se seguem a noites estreladas.

Numa destas noites, aparelhei-me com casaco felpudo, cachecol, gorro e botas da tropa e aproximei-me do céu o mais que pude. Também me muni de uma pequena lanterna, binóculos, e do mapa do céu de Fevereiro do Máximo Ferreira – a minha fonte habitual em matéria de astronomia. Desta vez, ia em busca da cabeleira de Berenice. Conta o Máximo que a detentora de tal tufo de invejável beleza no efeito e na cor, era rainha no Egipto lá atrás no século menos 3, e que os deuses, eles próprios extasiados, deliberaram (por unanimidade?) colocá-la no céu para contemplação geral. Seguindo as instruções, procurei a constelação do Leão e, à esquerda da cauda, lá estava ela.

Berenice. Imaginei-a a passear na longa varanda do seu sumptuoso palácio de Tebas, contemplando a água prateada do Nilo, em noite de Lua Cheia. Estou a ver o seu perfil ondulado, como o cabelo, em contraluz, vestida apenas com uma túnica de linho quase transparente. A cabeleira cai até ao fundo das costas. Que linda cabeleira tem Berenice. Chamei-a baixinho. Ela virou-se, sorriu para mim e apontou para o céu, para a constelação de Leão.

Observei atentamente aquele ténue aglomerado de estrelas, não muito nítido, mas belo, para quem aprecia o cosmos, mesmo os mais pequenos pormenores, porque sabe que os pequenos pormenores, são na verdade gigantescos. Aproveitei para apreciar o esplendor daquele céu estrelado de Fevereiro. Aquele infinito esmagava-me, induzia-me uma forte sensação de nulidade cósmica. Para norte, lá estavam as Ursas, a Cassiopeia, Pégaso. A sul, o espaço sideral era claramente dominado pela imponência de Orion, o guerreiro de cinturão de estrelas, seguido do Cão Maior onde se destaca a nossa mais brilhante estrela nocturna: Sírio. Os cornos do Touro ameaçavam o guerreiro e, por cima, as Plêiades, um aglomerado de estrelas muito interessante, as sete filhas de Atlas e da ninfa Plêione, que Zeus transformou em estrelas. O povo chama-lhe sete-estrelo ou sete irmãs, e eu concentrei-me a contá-las. São mais, muitas mais. Estava na disposição de fazer a contabilidade mas lembrei-me do dito do povo que quem conta as estrelas lhe nascem "berrumas" nas mãos. Ora, "berrumas" nas mãos, não!

7 da manhã. Estremunhado, a bocejar como se fosse abocanhar uma abóbora menina, cheguei-me à janela que dava para a estrada. Céu limpinho, o dia começava já a azular, ainda a desfazer-se das últimas estrelas. Contemplo demoradamente a mancha esbranquiçada que cobre o campo. Ouvi-me o inevitável “tá cá um CÓDÃO!”

Sem me dar conta, deixo-me ficar a contemplar aquele momento de Inverno.

Começo a ouvir o trabalhar mortiço do motor de uma mota em 4ª velocidade que devia vir em 3ª e imediatamente identifico: “olha! lá vem o Mnel Azenagre”. Fiquei atento, muito atento, porque sabia que, a meio da pequena subida mesmo em frente à minha janela, ele havia de meter a 3ª. Fixei-me na sua boca, no momento da mudança da mudança (não, não é redundância nem pleonasmo, é mesmo assim). Em 4ª, ele trazia a boca meia aberta (ou meio fechada, como quiserem, não é o momento, nem o local para dissertar sobre tal problemática), no momento em que apertava a embraiagem com a mão esquerda e, com o pé, esquerdo, pisava para entrar a 3ª, nesse pequeno lapso de tempo, o Azenagre fechava completamente a boca. Depois, enquanto largava lentamente a embraiagem, ele voltava a abri-la ligeiramente, quase timidamente, aumentando gradualmente a abertura (da boca) na mesma medida em que acelerava a 3ª mudança. Faria o mesmo um pouco mais à frente, já em estrada plana, boca fechada na passagem para 4ª e boca a abrir acompanhando o barulho do desenvolvimento da 4ª. Desconheço, e tenho quase a certeza que nunca saberei porque nunca lhe perguntarei, e ainda que o fizesse ele não me responderia, ou melhor seria bem capaz de me responder algo sem qualquer relação com a pergunta e que era: “o senhor, quando abre a boca à medida que acelera, fá-lo mudo, ou imita com a voz o som do desenvolvimento da mudança?” Ou seja, a mímica era muda ou sonora? Ficarei na ignorância no que toca a tal matéria.

A propósito de motas, lembrei-me da história do Mário Ái que toda a sua vida andou em máquinas de 2 rodas, primeiro uma pasteleira marca Súria e depois uma Zundapp X3. Há pouco tempo, comprou uma daquela carripanas de reformado, aquelas que não precisam de carta de condução para serem conduzidas. Na primeira viagem que fez à vila espetou-se logo ali na curva antes da ponte das taliscas porque, tão habituado que estava à mota que, distraído, inclinou-se para a esquerda para fazer a curva, em vez de rodar o volante.

Lá em baixo, na estrada, surge a Alice Gonita que ganha balanço para ir ao povo e, quando passa deixa escapar:

- Bom dia, está cá um CÒDÃO, ó Nazaréi!