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terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

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quinta-feira, janeiro 03, 2013

A NOSSA FALADURA - CXC - TRAMPASSO

Chorelas andava sempre de gravata. Vinha-lhe o nome do facto de andar sempre com os olhos vermelhos e remelados, permanentemente a lacrimejar, a ponto de quase ter um rêgo debaixo de cada pálpebra, consequência da erosão provocada pelo contínuo escorrer das lágrimas. Para agravar, o nariz era também uma fonte de muco viscoso que Chorelas limpava continuamente à manga do casaco, à cota da mão, quando, tapando uma venta, fazia pressão e o expulsava em direcção ao chão. Usava uns sapatos de atacador, quase sempre desapertados e à vontade aí três números a mais que o tamanho do pé. Podia dizer-se que se quisesse dormia em pé que os balanços da sonolência eram compensados pela biqueira dos sapatos. A camisa branca só o foi no momento da compra, já que agora parecia roupa de viúva em luto profundo. Não deixava a sua burra Mimosa em parte nenhuma e chegava a ir atado a ela andando a dormir. A burra sabia o caminho e deixava-o sempre à porta do palheiro. Chorelas acordava, punha-a à manjedoira e acendia o lume no andar de cima para cozinhar o que a terra dava em cada época do ano. Pouco mais.
Morreu já bem entrado na idade e ficaram famosos os seus trampassos, resultantes, na maioria dos casos de tropeções com aqueles sapatos avantajados que lhe serviam de abrigo aos pés. Não consta que alguma vez tivesse apanhado qualquer trampasso quando montado na Mimosa, até porque, quem sabe previdentemente, Chorelas aparelhava sempre a burra com as angarelas e metia as pernas à laia de estribo o de apoio, para "não ficar com os pés dormentes. Era esperto o Chorelas.
Além de se esmerar no trato da Mimosa, criava também umas poucas de galinhas, entre as quais estava uma cocó que chocava três vezes por ano, facto que Chorelas aproveitava para renovar a criação, matando uma de vez em quando. O galo não era grande, mas era vistoso e tinha crista romana. Cantava como um lírio e tinha um esporão já do tamanho de um dedo. Chorelas já o tinha tentado trocar " por mor de andar a galar as próprias filhas", mas como era mais pequeno do que os outros e idoso quanto bastasse ninguém aceitava a troca. De ano para ano Chorelas ia adiando a compra de outro e o abate do crista romana. 
Num caixote ao lado da manjedoura tinha também um caixote de madeira grossa, tapado por uma rede onde criava uma coelha que chegava ao macho cada dois meses. Era aqui que Chorelas apanhava grandes trampassos devido à sola escorregadia dos sapatos. Lá praguejava um barafusto, mas nada de monta.
Assim é o povo português: sempre a chorar lamúrias, sempre a gastar mais do que o que pode, dando a passada maior que a perna, sempre a ser explorado e a não atirar com os aparelhos ao ar. O tal povo dos brandos costumes, como Chorelas que tudo aguentava, até mesmo alguns atrevimentos mais descabidos de canalha miúda que se pelava por o ver arreliado. Chorelas fazia que não os ouvia e lá seguia o seu caminho atrás ou montado na Mimosa.
Tinha as sua piadas o Chorelas. Duma vez saíu-se-me com esta: "Sabes o que estou a pensar fazer?... Tenho lá em casa dentro duma caixa de palitos umas cinco centopeias. Ando a ver se descubro qual é a fêmea e depois faço uma operação ao meu porco a ver se ele também fica a andar com cem pernas. Assim ia tendo sempre presunto fresco sem ter que matar o porco".
Fiquei a olhar para ele e só soube responder: « Não está mal visto, não senhor!».
Ano Novo do melhor que puderdes ter são os votos do Basa. Sem trampassos.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAADDDDDDEEEEE.

terça-feira, setembro 11, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXIV - ÀS E(I)ND(I)RE(I)TURAS

Não raro confundimos convicção com certeza, teimosia com persistência, causa com opinião e por aí fora.
A natural tendência para aparecermos como vedetas maiores nas estórias que contamos levam-nos a uma pseudo auto estima a partir de uma imagem defeituosa do nosso próprio auto conceito.
Educados como fomos numa lógica bivalente, numa divisão dicotómica, num maniqueísmo atávico, tendemos sempre a pensar que quem não é por nós é contra nós e que quem discorda de nós é tendencialmente anormal ou um cegueta que não quer ver a verdade (que evidentemente é a nossa). A questão agrava-se se falamos de religião ou nos metemos em questões de fé.
A nossa matriz mais profunda é, sem dúvida, a matriz judaico-cristã. Mas não só: temos raízes celtas, fenícias, helenas, romanas, árabes e depois africanas, brasileiras, francesas e anglicanas e o que mais se queira, como indianas e asiáticas no seu todo. Os portugueses foram os primeiros aldeões globais. Por isso é que " se Deus criou o homem, o português criou o mulato".
A religião enquanto fenómeno individual e social é, a bem dizer, um fenómeno universal e intemporal. Só que as religiões são todas sectárias, desde os cristãos (católicos, anabaptistas, adventistas, anglicanos, luteranos, calvinistas, cárpatos, coptas, ortodoxos, iurd, piniel, maná, e um rol mais que inumerável) judeus com as testemunhas de jeová, rabinos e outros que tais, muçulmanos com as teocracias mais que muitas com as diferenças interpretativas que levam, em todas elas - estou apenas a falar das três monoteístas - a fundamentalismos sem nexo, cada uma convencida que o seu deus é o único deus, quando é apenas um a das divindades aceites por correligionários crentes.
Permita-se-me citar Michel Onfray - Tratado de Ateologia,- pg. 69:... «os homens , quando se decidem a dar à luz um deus único, fazem-no à sua imagem: violento, ciumento, vingativo, misógino, agressivo, tirânico, intolerante....»
Não há dúvidas que em nome de deus tudo é possível, desde uma fervorosa Teresa de Calcutá a um Torquemada, de mártires pela liberdade a vingadores de 11 de Setembro, de união em torno de um ideal a invasões de toda a ordem com morticínios a eito. Se deus soubesse o que fazem em seu nome, envergonhar-se-ia.
Alma de Sino tinha uma burranca valente. Quase parecia uma mula. Quando bem arreatada como na altura das festas, era um animal garboso, bem posto, crina brilhante e rabo enorme, dorso largo. Alma de sino primava pelo trato da sua besta e tinha razões para isso. O seu modo de vida consistia em ir ao Sabugal a vender as primícias: o primeiro feijão verde, a batatinha nova, figos, abóbora, nabiços, que sei eu... Aparelhava a burranca, punha-lhe as angarelas e carregava-as com dois cestos laterais e dois ao centro de sobrecarga. O animal arrancava com a carga sem aparente esforço e Alma de Sino lá ia, quantas vezes também ele atado à burra, caminhando, qual sonâmbulo, puxado por corda presa à rabicha da albarda.
"Ó Ti Mnel, atão qual é o caminho que vomecê toma para encurtar viagem até ao Sabugal? perguntei-lhe um dia. E ele: « olha cachopo, meto aqui direito à quelha funda, vou às endireituras da fonte de Carvalho, subo até ao talefe do salgueirnho, passo ao lado da capela do Meimão às endireituras do castanheiro das merendas e depois é só descer até ao Sabugal.»
"Atão e se fosse ali pelo carregal, a passar à sra do incenso contornasse a mata às endireturas da ponte do zé mendes e à queijeira do elias até ao carvalhal da meimoa, passasse pela sra da póvoa, subisse a serra de opa e depois fosse na mesma a dar ao castanheiro das merendas?.»" »Tu és tonto, era muito mai longe! e além disso tinha que ensinar o caminho à minha burra e ela, como é velha, já não aprende vereda...»
Discutimos os trajectos mas ao fim cada um ficou com a sua. A burra olhava para nós a dizer que éramos os dois uns tarantas.Se calhar era ela que tinha razão.
Passados dois anos a burra acabou por morrer e Alma de Sino começou a ter que ir na camioneta da carreira.
Assim somos nós: só mesmo perante uma evidência insofismável alteramos as nossas convicções, mas a tendência é a de continuarmos a bater na mesma tecla, mesmo que esteja desafinada. Habituamo-nos àquele som e passa a ser melódico ouvi-lo, contra tudo e contra todos.
Somos mesmo muito lindos, não somos?
As coisas só estão bem quando ficam nas nossas endireituras!
XXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDE

quinta-feira, abril 22, 2010

A NOSSA FALADURA - CLII - CRUITO

Donde a origem deste termo, não sei. Admito, no entanto que tenha a ver com cocuruto, significante por demais complicado para ser adoptado pela lei do menor esforço, tipicamente popular. Assim, deve ter ficado coruto, evitando a haplologia e, logo depois porque o o é abafado por ser ante- tónico, sofre a natural elisão, ficando cruto e daí à simples ditongação é um passo e cá temos o nosso CRUITO. O cruito é a parte mais elevada de qualquer objecto: o cruito do monte, do eucalipto, da cabeça,etc..
A propósito do famoso vulcão da Islândia, cujo nome ninguém se atreve a pronunciar, a não ser é claro, os islandeses, dei comigo a pensar na desmesurada ganância humana e nessa agressividade que tão característica nos é, a ponto de, se necessário, passarmos por cima de toda a folha, só para sermos os primeiros a chegar ao cruito.
Leia-se aqui cruito como o alvo dos nossos desejos ou projectos, aquilo que mais queremos num momento e que, portanto, fica mesmo por cima de tudo o mais, logo, no cruito das nossas preocupações.
Ao longo dos tempos, sempre o homem foi melhorando o seu nível de vida, preocupando-se sempre em criar objectos que lhe permitissem maior independência. O paradoxo, ao fim, é que esses mesmos objectos que o homem cria para ter mais tempo para si, acabam por o dominar e sujeitar.
Expliquemo-nos: a locomoção humana estava a cargo dos pés e pernas, é claro, mas aos poucos , com a domesticação dos animais e a invenção da roda, aliadas à técnica da tracção, o macaco pelado começou, ou a montar ou a servir-se de veículos para se deslocar a si e às bagagens.
Permita-se-me alguma erudição: os romanos chamavam à bagagem IMPEDIMENTA, ou seja aquilo que impedia o pé de andar mais depressa. As bagagens são sempre um empecilho porque impedem ou dificultam o andamento. Naquele tempo, era atraso, principalmente para o exército e era complicado quando não conseguia passar a vau e tinham mesmo de construir pontes, essas grandiosas obras de engenharia romana, ainda hoje visíveis por toda a Europa.
Progressivamente se foi evoluindo até ao automóvel, ao combóio... Isto em terra, porque o homem, desde muito cedo aproveitou o elemento líquido e os grandes rios tornaram-se grandes auto estradas comunicacionais, e o mar, logo depois, em vez de separar, a breve trecho ,começou a unir sem ser necessário construir pontes. Não contente ainda, virou-se para o Ar e, construiu desde a passarola do Padre Gusmão, tão excelentemente evocada por Saramago em O Memorial do Convento, até aos foguetões que já foram à lua e esquadrinham as longínquas parcelas do universo conhecido. Nem mesmo o fundo do mar escapa a este sagaz predador. Tudo perscruta a ver se encontra algo ainda maior para saciar a sua por demais insaciável avidez.
O curioso e paradoxal é que, com tanto domínio e com cada vez mais conhecimentos, basta que a Geia decida mostrar um pouco da sua vitalidade interior para ficar tudo e todos condicionados à mãe Natura.
Todos com tanta pressa e tiveram que arranjar tempo para esperar. Mainada.
O mesmo se passa com qualquer outro instrumento - que mais não é que um prolongamento de nós - decida avariar ou não obedecer de imediato aos nossos comandos: se a máquina de lavar avaria, como havemos de lavar a roupa?, se o frigorífico não cumpre a função, como conservamos em boas condições, os alimentos?
Reparemos que, há um sec. ou pouco mais, nada disto existia e as pessoas viviam. Andavam devagar e tinham tempo para tudo. Agora andamos depressa e não temos tempo para nada.
Mari Varónica conheceu mais homens que a Rosa Maria da cantiga da srª da Saúde e mudava de parceiro, mais que de combinação. Não era preciso ser cão para a farejar.
Aquele que com ela mais tempo coabitou foi o Mnel Césaro, coveiro, grande sofredor de asma e que por estas alturas se via aflito com os olhos sempre vermelhos por causa dos pólens.
Tinham casa na aldeia, ali para os lados da rua das Aranhas, próximo do velho Flor e com eles vivia tmbém o burro, não sendo raro vê-la a carregar as angarelas com o esterco do dito e mais o dela e dele: um primor de asseio e uma convivência que desafiava qualquer biodiversidade. Nenhum morreu por mor disso e consta que a ASAE nunca lá foi a conferir do cumprimento das normas de higiene. Outros tempos.
Tinham também um casebre, lá para os lados dos Pinheiros e quando lhe dava para bradar - o que não era raro - ouvia-se às oliveiras de Melão.
Perto do casebre cresceu um carvalhoto. Diz Varónica para o Césaro: " Oh mnel, sobe ali ao cruito do carvalhoto e ata lá este baraço bem atado". O Mnel era de poucas falas e obedece: ata uma ponta do baraço a uma bota e foi trepando até onde pôde. Atou o baraço e desceu. Varónica: "ata agora a outra ponta ali à parnada grossa daquela oliveira". Lá foi Mnel... «Estica, estica!» bradava Varónica. De tanto puxar o baraço que tinha atado no cruito do carvalhoto desprendeu-se, Mnel, cai num bate-cu doloroso e Varónica:« Num vales um corno e tens dois».
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quinta-feira, outubro 01, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLI - BO(U)RNAL

A sinonímia sempre acarretou problemas à comunicação. Na verdade, as palavras são como as pessoas: todas têm uma história. Não é por acaso que cada uma delas existe. Mesmo entre os grandes teóricos da linguagem e da comunicação não há unanimidade interpretativa. Desde logo porque a disciplina que faz a crítica da linguagem, podemos dizer que uma espécie de epistemologia da linguagem, tal como há uma epsitemologia científica, refiro-me, está bem de ver, à HERMENÊUTICA, traz consigo o deus dos ladrões e dos comerciantes. Hermes, esse veloz deus helénico, de asas nos pés, mensageiro dos mais hierárquicos, e que os romanos traduziram por Mercúrio, acumulava esta dupla protecção: ladrões e comerciantes... Sem nos determos muito neste acopulamento (comerciantes e ladrões), que, seja como seja, não deixa de ser interessante, avancemos para outro pormenor da linguagem/fala/comunicação.
É claro que não se pode meter tudo no mesmo saco e não é aqui que isso vai acontecer. O Baságueda pode brincar mas não ofende: tem humor mas não ironiza, brinca mas não faz mangação, ousa mas não violenta, serve mas não se escraviza, MAINADA!
Interseccionemos esta cangalhada toda a ver se chegamos ao bornal:
Sirva de exemplo o histórico facto de a língua latina ser o meio de difusão privilegiado inter centífico no mundo ocidental. Foi já tardio o aparecimento das primeiras universidades laicas, que a maioria dos locais de ensinança eram os mosteiros e as suas escolas monacais. Os burgueses aos poucos foram-se intrometendo entre os nobres e o clero, que o povo, esse, limitava-se a ser servo de gleba e, vá lá, às vezes, vilão franco, o povo, quanto menos soubesse, melhor - assim não recalcitrava... -. Dizia eu que os burgueses lá se foram, aos poucos, libertando das peias eclesiais e, ao mesmo tempo que fundavam cidades nas encruzilhadas das grandes vias, também construiram escolas para os seus filhos. Com a colaboração dos goliardos, cárpatos e outros proscritos pela santa madre igreja católica apostólica romana, conseguiram escolas de tão grande renome quanto as herméticas oficinas do saber bibliotecárias, manuscritas e dogmáticas escolas monacais. A abertura a novas formas de pensar incipientes e a natural rebeldia de quem, com o sangue na guelra, eivado da novidade e garantido e avalizado por um novo riquismo que competia com o clero e os nobres suseranos latifundiários, ousava PROVOCAR o stablishment, aos poucos, foi conseguindo romper com a afogo e o sufoco que o severo dogmatismo impunha. O latim deixou de ser a exclusiva língua e algum do saber já se difundia na língua original, tanto mais que, após Guttenberg, nada ficou como era: a bíblia, claro, sempre como ex libris, mas também romances e novelas de cavalaria que deram azo a demandas do graal e a códigos da vinci e por aí fora. O latim, inacessível como era e ainda é, agora mais ainda que já há muito pouca gente que o domine, o latim era um obstáculo comunicacional... Não admira que os detentores do saber, conhecedores como eram desse fenómeno, comunicassem com a populaça, através de símbolos: lá vem a cruz, a bandeira, a sigla, a marca, o distintivo, a patente, tudo o que servisse para indicar ao maior universo possível, a mensagem que se pretendia transmitir, o jargão, a oração comunitária, as rezas,... Ainda havia aquilo a que nós chamamos slogan e o famoso AMÈN que indicava um ASSIM SEJA subserviente.
O bornal do povo era repleto com dogmas, mandamentos, imperativos negativos, virtudes, obras de misericórdia, normas de conduta, que sei eu,...
As festas populares tinham os seus tempos: o povo não podia fazer festas a seu bel-prazer: tinha que festejar quando as autoridades eclesiásticas o autorizassem - nem sequer era senhor de gerir a sua, já de si, parca ementa: os ricos que tinham dinheiro para bulas papais enchiam o fato a bel-prazer, o galego, sem dinheiro sequer para uns tamancos, esse, tinha que roer botelha a ver se se sustentava: isto sim foi o que o Cristo pregou... Adiante...
O bornal propriamente dito não era aquele alforge de Júpiter que nos pôs às costas uma bolsinha com os nossos defeitos e à frente uma enorme com os defeitos dos outros... O próprio Cristo se fez eco desta fábula de Esopo, depois transcrita por Fedro e mais tarde actualizada por La Fontaine: vês o algueiro no olho do outro e não tropeças na tranca que tens nos teus olhos.
Antes, era uma espécie de saca , regra geral em pele macia, tipo odre, mas com boca de ajuste com ataca do mesmo material e uma tomba para fecho definitivo e servia para levar merenda para festa, ou para monda, vindima, sacha de milho, quintos na ceifa, enfim, alturas em que se juntava a família e era preciso muito entulho ou se ficavam dias sem reabastecimento. Não raro ia nas angarelas, bem acomodado, que as iguarias não se podiam estragar nem sequer amelancar: bacalhau de horta e pataniscas do mesmo, algum coelho macho já substituído, um galo assim comédado, ovos verdes, chouriço de azeite, orelha de porco e tromba do mesmo animal de salgadeira, algum naco de de presunto, tora de toucinho, cunca de queijo, corno de azeitonas, casqueiro roda de moinho, grande quanto bastasse, e o mais que houvesse e desse jeito para botar na manta estendida:o bornal levava todo o farnel.
Bornal era ainda aquela pessoa que tudo atamancava e misturava os pés pelas mão: "és mesmo um bornal" ou aquele outro que arcava com tudo e de tanta serventia aos outros era chamado de bornal.
As casas meãs não tinham terrenos nem gado para feitor ou maioral, mas, em regra, sustentavam uma espécie de criado que tirava esterco a porco, guardava e ordenhava cabras e/ou ovelhas, fazia a horta, recolhia o feno, tomava conta da alguitarra no tempo da aguardente, ia à agua para as necessidade domésticas, apanhava vides, queimava lenha de limpeza de árvores, e o mais que aparecesse. Era um bornal: no outro cabia tudo a este cabia-lhe tudo. Dois Bo(u)rnais.
Era assim a vida...
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGRRRRAAANNNNNDDDDDEEEEEE!

sábado, outubro 25, 2008

A NOSSA FALA - CXV - TENTEAR

Vale Quem Tem, latoeiro de profissão, afastado por iniciativa própria para terras da Benquerença, onde ainda exerce a arte, tinha um borrego merino que mais parecia um lama da sul américa.
Era um regalo de ver : burra com angarelas carregadas de esterco, borrego merino sempre ao lado de Prazeres de balde à cabeça, assente em molídia feita por mão própria, a caminho da Quelha Funda. O borrego cresceu e cresceu. Era manso como a terra e mesmo quando se desafiava com um ZUPA! ele vinha à mão e o que queria era festas.
Prazeres e Vale Quem Tem ganharam amor ao borrego, mas já estava tão grande que era imperioso despachá-lo...
Eram dois os talhos de aldeia, onde se fazia directamente o abate. Não havia ASAE, a higiene era um facto e não há memória de qualquer doença provocada por esses abates e vendas directas. Passava o veterinário duas vezes por semana, analisava a qualidade da carne, carimbava e, não raro, confiscava as miudezas. Nunca soube se era por não estarem em condições, se era por ele gostar de fígado de ruminante. Facto é que a fressura poucas vezes ficava no talho...
Um era do ti Chico Miguel e outro do ti Zé Rolo. Objecto de discussão era muitas vezes o tempo que cada um demorava a matar uma rês e a esfolá-la.
Sempre vos digo, a talho de foice, que o nosso governo demora muito menos tempo a esfolar-nos... Mas adiante.
Foram várias as vezes em que um ia ver o Zé Rolo a matar e outro ia ver o Chico : marcavam o tempo. Passatempos um tanto brejeiros, mas na aldeia o que saísse da rotina era novidade. Nunca houve um vencedor definitivo.
Quem comprou o merino ao Vale Quem Tem foi Zé Rolo.
É Prazeres quem o vai levar à casa da Lameira e o prende à ferradura. A mulher arrancou ligeira e não era difícil ver que ia a chorar. O borrego chamava-a nuns més contínuos.
Zé Rolo era valente: basta que foi ele que, sozinho, debaixo do braço, levou o sino até lá acima à torre, porque a escada era e é muito estreita e só cabia um. Ficou nos anais aquela proeza. Costumava entalar os borregos e os cabritos entre as pernas, dar-lhes uma facada na nuca e depois sangrar. Nada disso podia ser com o merino. A força do animal, mais a mais sem Prazeres ao lado, para o acalmar, inviava tal desempenho.
O remédio foi atá-lo bem e TENTEAR bem a facada para que logo à primeira caísse redondo e se pudesse fazer dele o que se quisesse. De faca na mão, Zé Rolo espetou a faca na cerviz do merino . Este, ao sentir a picada, aventou tal escrito, que rebentou a corda, abala a correr e só pára na casa de Vale Quem Tem com a faca espetada.
Prazeres, ao ver o animal sangrado, com a faca espetada, começou aos gritos.
Ia eu a passar na ponte, com o já mais que famoso carrinho quadrado do gás, com uma bilha e uma saca de farinha 815 para o Chicharro atrás do cemitério, quando Zé Rolo vem esbaforido e: "apoisa aí a saca e a bilha e traz cá o carroço. Vem comigo." Eu não entendia a história.... " "Vá lá catano, preciso do teu carrinho e de ti." Pelo caminho lá se ia justificando: " Rais todos trinta ma partam... errei a puta da faca no borrego do Vale quem Tem e o cabrão abalou-me com ela espetado no cachaço".
Chegámos atrás da igreja e lá estava o merino a sangrar, ainda de pé, com espuma na boca.
Vem a Prazeres: "Já num levas o borrego Zéi", e Zé Rolo «Tens que me dar o dobro do dinheiro se te negas ao negócio» Aí, Prazeres refreou a zanga:"Desaparece-me daqui com o animal que não o posso ver assim, coitadinho. E era. O animal olhava para Prazeres: Traíste-me, vendeste-me,...
Zé Rolo arranca a faca do pescoço do animal, já um tanto enfraquecido pelo sangue perdido, e desta vez tenteou melhor e o animal caíu ali. "Pega aí desse lado. Agarra-lhe com ganas que ele é maciço. Tenteia bem a ver se o encaixamos no carroço logo à primeira". E assim foi. Tenteamos assim mesmo comédado e o animal ficou todo no carrinho. Lá o trago para o talho e apresso-me a levar a farinha e a bilha ao Chicharro. Sempre queria ver quanto pesava o bicho.
Tinha tal prática com o carrinho, que tenteava o peso e ele vinha na minha frente equilibrado nas duas rodas uns bons 20 a 30 metros, sempre na gáspia, que não queria perder o peso e o meu tio Zé Rolo precisava de ajuda para o pendurar. Cheguei à hora. Papei uma jeropiguinha da verdadeira e lá penduramos o merino na romana. Corre o pilão pelo varal e marca: 75kg. "Belo animal e tem aqui carne como seda. Mal empregado!»
Se não houvesse contrabando não eram precisas brigadas fiscais e se todos fôssemos cidadãos comédado nem polícia era precisa. Cada um de nós sabia o seu dever, cumpria-o e tudo havia de chegar para todos. Mas não. O nosso cérebro reptiliano e a natural agressividade que nos torna lobo do outro está sempre presente e a arte de fintar o outro dá-nos gozo e apuramos esta capacidade até aos limites da imaginação criadora. "O que esquece ao diabo alembra aos homens" já me dizia o velho Comandante.
Vem isto a propósito de que aquele borrego não era para ser visto pelo veterinário, era para ser vendido à sucapa, na candonga e já tinha pretendentes. Zé Rolo, no entanto, dadas as circunstâncias de meio povo saber do acontecido, receava que alguém pudesse bater com a língua para o veterinário... Ainda assim arriscou: meteu a pele num saco aparelhou a mula e foi pô-la na quinta do caminho das Águas, lavou tudo bem lavadinho esquartejou logo o borrego e não tardou já o tinha despachado.
Como não havia vistoria, sobrava a fressura. O lume estava aceso :« puxa aí o borralho para a ponta do lar e queima aí a grelha» Percebi logo a jogada. Foi limpinho: umas areias de sal para cima do fígado, uns alhos descascados, um cheiro de vinagre e um salpico de malagueta e oíoai, foi mesmo um ai. Mamamos os dois o fígado do merino, arreamos-lhe uns copos e uns nacos de pão e o pequeno almoço já cá morava. E bom.
Não restam dúvidas de somos os predadores dos predadores. Umas bestas. Com as devidas desculpas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII. Logo volto com mais xendrices.

segunda-feira, setembro 29, 2008

A NOSSA FALA - CXIV - PAVIOLA

Não são raros os casos em que a permuta, elisão, ou mesmo acrescento de letras ou sílabas, ocorram na linguagem do nosso povo. O exemplo que ora vos aporto é disso demonstrativo: em vez de padiola aparece a paviola. Em desuso, como as angarelas, por ex. , era de utilidade suprema em terrenos de socalco, mais a mais super povoados, com vinha por baixo, oliveiras por cima e, sazonalmente, batatas de sequeiro, e até alfobres ou erva para o gado. Servia para transportar muitas coisas, desde pedras para muros e paredes, lenha para o lume, até esterco para sítios onde nada mais tinha acesso.
Os seus dois braços dianteiros e traseiros com aquele patamar no meio possibilitavam uma distribuição equilibrada da carga e arrumação fácil.
Outros exemplos podem ser vistos em PEDIVES por pevides, CARAPINTEIRO por carpinteiro, CRAVÃO e CRAVOEIRO por carvão e carvoeiro, pomates por tomates,... . Ao fim e ao cabo as alterações fonéticas de pouco interessavam ao povo que por não saber francês não deixou de emigrar.
Não vai asssim tão longe o tempo em que galinhas, burros e porcos conviviam com pessoas, senão dentro de casa, logo ao lado, em furdas ou furdões, currais, apriscos, redis, pocilgas ou palheiros ou pardieiros. O Chico Miguel, a Tonha Costa, o velho Valente, o Rela, o Júlio Casqueiro, O Pirolas do Zé Nicas, o Fatela, a Manta Rota, e tantos outros, todos tinham os porcos, paredes meias com a casa e as galinhas tinham o poleiro por baixo das escadas que davam acesso pelo exterior ao primeiro andar das casas. Alguns desses poleiros serviam para outras funções quando a porta e o escadéu que lhes dava acesso o permitiam. Há quem diga que a Rancheira se serviu de muitos. Outros tempos, outras modas, outras vidas e outras histórias.
Tal como a PAVIOLA, foram desaparecendo. Agora só há andores, mas esses são para santos e santas.
Os irmãos Manetas eram três - Chquim, Manel e Zéi -, tão depressa andavam bem, como, num Domingo qualquer, se zangavam e, por isso, ficaram conhecidos como os Guerrilhas. Eram todos sapateiros. Faziam mangação, cada um do trabalho dos outros e sapato, bota ou sandália feita por Zéi e que passasse pelas mãos de Chquim: "mal empregado material nas mãos deste cerdo" e o mesmo se passava com os outros.
Chquim tinha a oficina por detrás da fábrica dos Leitões, quase em frente do cruzeiro do Cavacal e a pipa do vinho estava ali mesmo à mão, que, na casa onde morava, não havia espaço e Fatinha não queria lá ver pipos nem borracheiras sem vergonha a toda a hora, para além da burrinha que comia refastelada na manjedoura e, de Inverno, servia de ar condicionado, que o estrume que ia fazendo sempre libertava algum calor.
A mulher ficava por cima e lá ia ocupando o tempo com tarefas mais domésticas.
Um dia vinha eu a passar com o inefável carrinho quadrado das bilhas do gás quando :" Ó catano, eras mesmo tu que me fazias falta! Ajuda-me ali a levar esta paviola até ao chão do Branco por mor de à tarde lá semear o alfobre da couve que já é tempo". Arrumei o carrinho e lá vou com Chquim e a paviola do esterco por uma vereda mesmo à tangente. "Bem hajas tu, cachopo... A minha já num podia com este peso e eu ao caldeiro nunca mais fazia o serviço, bem hajas! Mas agora vamos ali a boer um copinho do meu." Fomos. Ajoelhou-se em frente da pipa rodou a torneira, aparou o tinto, deu-me o copo e continuou de joelhos com o dedo a tapar o orifício da torneira. «Alevante-se...Para que está aí de joelhos» - "Cala-te, dianho, tu num vês que a bicharada rala?" Fiquei meio taranta, bebi o copo, ele o dele, depois outro, Queres Mai? que não, disse eu, rodou a torneira sempre para a frente por mor do calo e lá se levantou. Ia eu a perguntar e a resposta já saía:" tu num vês que a torneira chia e aquele fardo - era a ti Celeste - dá conta; quando vou pró caldo ao meio dia logo me assobia à orelhas que já lá fui tantas vezes... Assim só ouve uma e o bicho já num rala»
Mais uma, digo eu. Há que aproveitar e meter na paviola ou padiola. Ficai-vos com a que quiserdes, na certeza que qualquer delas já pouco funciona...
Eu servi-me dela, a maior parte das vezes para transportar calhau ou estrume. Não me importava de a voltar a usar para arredar para bem longe muito do que por aí anda- e alguns a comandar-nos. Havia de ser bonito se os agarrasse na minha PAVIOLA ...
XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Logo volto.

sexta-feira, março 09, 2007

A NOSSA FALA - LXXIX - CARRICHO OU CARRITCHO

A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?