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quarta-feira, dezembro 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVI - PAFONSO /PALONSO

Joãozinho Palufo era assim uma espécie de unto sem sal: não empurrava nem fazia força, não estava nem fazia míngua, não pinava nem saía de cima. Para os que não saibam o unto sem sal resumia-se a enxúdia de galinha velha, liberta de película, batida em tábua com martelo também ele de madeira, até fazer uma papa, que depois se embrulhava num papel de cartucho, daqueles onde antigamente se pesava o açúcar, o arroz, a massa e demais mercearia a retalho, e tinha utilidades várias. A mim, duma vez que espetei um carapeto de silva no calcanhar do pé esquerdo, que infectou, a minha avó aplicou-me o unto sem sal, fez um atilho com um trapo velho, mas limpo em volta do tornozelo e calcanhar e o facto é que o unto "puxou" o carapeto, sugou o pus da inflamação e deixou-me o pé com pele de bebé. Mainada!  Sem dor e absolutamente inócuo.
Palufo era um palonso: andar ligeirinho, passinho curto, meneava o corpo esguio, mãos sempre entrelaçadas, salvo se transportasse alguma coisa. Era o moço de recados da casa Bargão. Aviava tudo e dava bem conta do recado: mercearia, bacalhau, chita, carros de linha, media vinho e azeite a quem queria comprar na casa da Lameira, ia aos correios, registava cartas, escrevia cartas a muita gente que não sabia escrever e cantava como muito tenor com disco gravado nunca seria capaz. A sua voz era límpida e sonora, suave e bem timbrada, sempre afinado e obedecendo com rigor ao ritmo e aos momentos de entrada. Era mesmo um regalo ouvi-lo e agora que o Natal se aproxima, era por ele que a maioria seguia, já que Rosa Rei ia sempre adiantada e Albertina Molhana ia sempre atrasada. Não só cantava limpidamente, como falava de forma irrepreensível. 
As más línguas difamavam Palufo, mas nunca se vislumbrou a mínima situação  que pudesse dar azo a que pudessem ser confirmados comportamentos de que era suspeito...
Nada pior que cair na bocas do mundo.O povo tem sempre gente que espalha qualquer evento de uma forma mais rápida do que labareda em pasto de panojo no fim do Verão. Palufo sabia tudo o que se passava  na aldeia. Era sempre dos primeiros a noticiar qualquer acontecimento e quer Tecla quer Irene Paca ou Chicorrela, quais arautos régios, perdiam quase sempre para ele.
Ainda assim Palufo não difamava. Contava o que ouvia, mas não emitia opinião. Não era o que se poderia chamar de malino, como as linguareiras referenciadas.
Não sei se uma vez vos falei já do chamado mal radical. A doutrina é do "chinês de Konisgberg", como Nietzsche lhe chamou, o eminente Kant, e resume-se à tese de que, de sua natureza, o homem é velhaco. Por isso se impõe uma lei moral que o trave na sua natural tendência para o mal. Como se vê é doutrina no antípoda do velho Sócrates, que pregava que só ignorante do Bem fazia o Mal. Aqueles que soubessem o que era o Bem, nunca praticariam o mal. O problema do Mal é assunto mais que polémico e não é nestas pobres crónicas do Basa que ele pode ser escalpelado. Adianta-se ainda uma outra perspectiva. Foi uma querela dos Universais, bizantinices com que os medievais se entretinham  e também os modernos posteriormente, até que chegou à actualidade e foi reavivado, e de que maneira, por essa grande pensadora que foi Hannah Arendt, a aluna dilecta do filósofo da Floresta Negra, Martin Heidegger. Na verdade era um problema sério porque chocava com a crença dogmática de que Deus tudo tinha criado. Mas só por absurdo é que se poderia admitir que Deus tivesse criado o Mal. Seria absolutamente contra natura que tal possibilidade fosse admissível. Como apareceu então o Mal e se impôs que fossem necessários os Mandamentos e as leis morais? Só podia existir uma causa: o homem , ele mesmo. Defendia-se que Deus só podia criar a Perfeição, de acordo aliás, com a sua própria essência: de uma causa perfeita não podia sair o que quer que fosse imperfeito. Mas não se podia negar a existência do Mal e isto chocava com a defesa de que Deus tudo tinha criado. Argumentou-se então que Deus agiu na Perfeição: criou o homem livre, o que muito mais perfeito do que se o tivesse criado condicionado como aos outros seres da natureza que não têm possibilidade de optar por decidir responsavelmente entre várias opções. Estão condicionados ao que a natureza lhes confere e ponto final. O homem, esse, é incondicionadamente livre e absolutamente responsável pelas suas acções. Ele pode decidir  praticar o Mal em detrimento do Bem, apesar de o conhecer. Foi infinitamente mais perfeito que Deus tivesse criado o homem livre do que condicionado, possibilitando-lhe mesmo que o pudesse ofender, que pudesse defender apostasias e cometer sacrilégios. Assim, Deus deixava de ser o criador do mal e a responsabilidade da sua prática recaía totalmente sobre o homem. Só existe o Mal porque existe o homem.
Palufo nunca emitiu parecer sobre esta temática.
Bom Natal.!
XXXXXXXXXIIIIIIGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDDEEEEEEEEEEE
                                                                                                                            

domingo, novembro 27, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXXII - ESCANCHADO, ESCARRAPACHADO, ESCARRANCHADO

Artista a cavalgar uma burra era Teixeirinha: malino como era, metia por debaixo da albarda da alimária uma silva seca, cheia de carapetos e o pobre do animal, picado e ferido de dor com os picos da silva troteava a passo veloz, enquanto Teixeirinha, à laia de cowboy da Flecha Quebrada, guinchava gritos de prazer... Era de facto um artista escarrapachado na albarda da burra do seu avô, velho Freitas, que em matéria de aldras, só teve comparsa no seu próprio filho Manel, acolitado, e bem, por Zé Luís Barata.
Figura não menos famosa era Zé Labouxa, o homem que descobriu o ninho à moucha, como ele próprio se definia, e que negociava em tudo, "mediante uma pequena comissãozinha", desde burros, mulas, vacas, milho, alhos e até, gabava-se, mulheres.
Numa tarde de Domingo, Labouxa jogava ao fito na rua do Desembargador, precisamente com Freitas e Barata. Conversa puxa conversa e Barata assevera a Labouxa que o melhor negócio que havia na Terra Fria, era a venda de cascas de alho. Era corrente que as almofadas cheias com as cascas do alho evitavam o reumatismo, enxaquecas e demais maleitas, próprias de quem  ia entrando na velhice. Freitas corrobora  o reclame de Barata e Labouxa, depois de beber o copo da rodada do fito, esgueirou-se a casa e, munido de sacas de sarapilheira, agarra na sua burranca, vai direitinho à aldeia dos cucos e percorre as ruas escarranchado na burranca, apregoando a compra de casca de alho. Como não havia referência de preço para o artigo, Labouxa tabelou cinco escudos o quilo. As velhotas espantam-se com a novidade do negócio e nem inquerem para que serve tal produto, antes vão aos forros ver se arranjavam cascas bastantes para fazerem cinco mil réis que bom jeito dariam para compra de avental novo na loja do Mnel Lúcio.
Não tardou, Labouxa tinha as sacas cheias, teve que desmontar e encher as angarelas com o material, esperou pela noite e regressa a casa todo contente. Surripia umas almofadas à ti Lucinda enche-as com as cascas e mal esperou pelo caldo de couves põe-se a caminho do Sabugal com ideia de vender as almofadas a pelo menos cem mil réis, cada. Claro está que ninguém lhe comprou a mezinha e teve direito a choradela de entrudo levada a efeito pelo Teixeirinha montado na burra a quem só faltava saber ler, só que a culpa não era dela mas do facto de ser proibido que os burros entrassem na escola, porque senão passaria a perna  a muita gente. Labouxa queria matá-lo...
O quadro não ficou gravado senão na memória daqueles que a ele assistiram, mas o trejeito de Teixeirinha escanchado na burrica do avô, com um cabo de alhos a servir de gravata e duas sacas de cascas, fazendo-se arauto das benesses de tal produto para as mais diferentes maleitas. Barata e Freitas pareciam dois pavões de leque alçado.
São muitas as patranhas destes dois amigos, que entretanto já partiram, e não resisto a contar-vos uma outra em que Barata convenceu a velha Nacha de que o António Sala a queria a cantar e a tocar adufe no programa da manhã da Rádio Renascença. Ainda ouvi a Nacha a ensaiar e arranca para Lisboa e se não fosse o seu filho João, o Salazar, a avisar o  irmão Chico que era bombeiro, Nacha haveria de ter ficado perto de desmaiar no número 7 da Rua Ivens.
Extrapolando, verdade sem sofisma é que o povo também embarca facilmente em patacoadas de uns quantos malinos que com arte e manha convencem os incautos de que ainda há milagres. Quando depois acorda o povo lamenta-se, mas a breve trecho esquece e volta a cair na mesma esparrela.
Einstein, na simplicidade que o caracterizava disse: "é mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um boato". Os preconceitos e estereótipos enraízam com tal força na mente da populaça, que ninguém, mesmo com a força da evidência das experiências passadas e até vivenciadas, ninguém é capaz de os persuadir a alterar a sua forma de pensar. Na verdade persuadir não é convencer. O convencimento reforça a crença, a persuasão altera, mediante argumentação consistente, a forma de pensar, levando o outro a concordar com o orador.
Barata e Freitas eram destes. Persuadiam: um reforçava o outro e nem era necessário ensaiarem.
Vede o que se passa à vossa volta e reparai se não vos põem a comprar almofadas com cascas de alho para cura das vossa maleitas. Depois não vos queixeis.
XXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAANDE

terça-feira, julho 21, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXVII - PI(E)RRÓNI(E)CO

Ora digam lá que o povo não é erudito! Quando ouvi pela vez primeira a velha Libra a chamar isto ao seu neto Farnando, ali mesmo em frente da casa do Pirolas , fiquei assim como os tarantas que ouvem mas não entendem.
Só muito mais tarde, já com algumas letras aprendidas é que vim a saber quem fora Pirro de Élis, fundador da escola céptica, defensor acérrimo da tese que propugnava que a verdade nunca seria atingível e que o homem nunca dela teria consciência. A razão para a assumpção de tal posição radicava na constatação de que não havia um critério único de verdade e que só um relativismo seria aconselhável. Ora, tal posição inviabiliza uma verdade universal e assim nunca se podem formular leis. Era aquilo que os gregos chamavam a acatalepsia (impossibilidade de se conhecer a natureza própria das coisas) pelo que o melhor era um certo desprendimento da própria realidade e não nos preocuparmos muito (ataraxia).
Contemporaneamente podemos sentir influências desta forma de pensar em Karl Popper, o homem do falsificacionismo que propõe o inverso do normalmente crido: as teorias científicas só o são se puderem ser empiricamente falsificadas. O que há, são doutrinas aceites como verdadeiras, mas que o não são. Basta que ver que caminhamos sempre para novas formas de abordagem da realidade e que aquilo que hoje é a verdade é amanhã duvidoso e para a semana já é historicamente falso. É isto que justifica o progresso e que, consequentemente nos contentemos com probabilidades que se aproximam da verdade mas que a não têm, sob pena de liquidarmos a evolução do conhecimento humano.
É por causa disto que nunca se conclui grande coisa de um debate sobre um qualquer assunto: cada um dos participantes agarra-se com unhas e dentes aos seus pontos de vista, que considera os melhores, e fecha a porta a qualquer outro ponto de vista diferente porque será sempre inferior ao seu e assim não vale a pena ligar-lhe. É o que se chama o mito do contexto, que se pode expressar na afirmação popular de que " nunca há só um teimoso". Podeis chamar-lhe o que quiserdes: arrogância, pedantismo, mania, surdez, casmurrice, autoritarismo, sobranceria, narcisismo, umbilicalismo, ensimesmamento, misantropia, Socretinismo, ... o que quiserdes, mas vai sempre dar ao mesmo: eu é que sei e o outro é uma besta. Mainada.
O Farnando da Libra também assim era: teimosinho que nem galinha a tentar bicar o grão de milho pelo buraco da rede, quando lhe bastavam quatro passadas para o engolir se passasse pela porta ali ao lado. Pior ainda se o pombo por ali passasse e o engolisse...
Vamos lá então à estória: A velha Libra tinha um chão para o caminho das águas. Semeava milho para a burra e fazia uma horta pequena onde colhia no cedo alguns tomatitos e pepinos juntos com uns gatchos de Santa Maria numas videiras que tinha junto à parede do caminho e que « eram mai doces có mel». Tinha era um problema grave: o poço, a meio do Verão secava e podiam assar-se sardinhas lá no fundo. O remédio era acartar água em bidons que o Farnando tinha que encher no poço novo e levar na carroça para o chão. O Farnando era Perrónico mas não era parvo de todo: andava sempre à coca a ver quando é que alguém com motor ia ao poço a fazer o mesmo e pedia que lhe enchessem os bidons, que encher aquilo ao caldeirinho matava o corpo.
Além disso, o Farnando, se visse uma bola, esquecia-se do mais e era sempre o último a abandonar o jogo. A velha Libra rançava-o mas ele não ligava.
Quando apanhava os bidons cheios tocava a burra e lá ia direitinho ao chão e para não perder tempo despejava os bidons para o poço para poder vir jogar a bola outra vez. Quando a velha Libra ia para regar a hortinha, a água tinha-se sumido. O Zé Chornico que pegava com ela no chão:" diz ao teu cachopo que continue a acartar água que o meu poço agradece..." A Libra ficava preada e vinha sempre com alma para arrear nas fúcias ao Farnando: rais todos ta partam, garoto dum raio. Tou farta de te dizer que num botes a água dos bidons para o poço do chão. Vale mai lá deixares a carroça e trazeres a burranca, mê teimoso!
Farnando praguejava de igual modo - a falta que um pai faz na primeira infância!- ( os pais eram emigrantes em França e a Libra estava viúva)" velha dum corno não me desampara a braguilha...» Perdoe-se-me esta descida de nível mas o vernáculo assim o exige...
A questão era grave: Farnando dava-se mal com a besta e só a controlava entre os varais da carroça. Se a soltasse e a montasse para chegar à aldeia era certo e sabido que malharia com os costelados no chão que a burra não esquecia quem lhe punha carapetos de silva por debaixo da albarda... Cá se fazem cá se pagam... Depois chamem-lhe burra!... Antes JUSTICEIRA!
Aí está a razão por que Farnado despejava a água por gravidade e vinha com burra e carroça até à Lameira e ao poço novo... «Vai lá vai» dizia, «a puta da burra malhava comigo no chão e assim vem mansa que as patas batem-lhe nas guardas da carroça e só consegue trote, nunca galope.»
A pobre da Libra bem tentava domesticar aquele potro mas ele chegou a entrar pelo telhado às tantas da noite e a pobre desistiu de lhe trancar a porta.
Foi para a Alemanha como padeiro, tornou-se pasteleiro, comprou um ford capri, andei nele, uma bomba.
Também era perrónico: de vez em quando não obedecia ao dono e dava de rabo. Ainda lá apanhei uns cagaços...
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII GGGRRRRRRRRRAAAAANNDDDDEE

sábado, novembro 08, 2008

A NOSSA FALA - CXVI - GADAPUNHO/a

Leroi-Gourhan em Le Geste et la Parole, com mestria, defende que o trajecto da evolução humana se inicia no pé, passa à mão e termina no cérebro: é a famosa dialéctica do pé - mão - cérebro. O bipedismo humano encarregando os pés do suporte do corpo e deixando as mãos livres para as outras funções mecânicas, desde coçar-se, fabricar instrumentos (do erectus chegou ao faber e ao habilis), até abraçar, fazer gestos para intercomunicar - sim que a um caçador não convinha meter barulho que assustasse a presa - por isso, inventou a sinalética, o gesto, o mimo, sinalizando o que pretendia ao outro seu igual e companheiro na angariação de alimento, até, por fim, chegar ao sapiens e ao sapiens sapiens com as consequências advenientes: oponência do polegar, redução do prognatismo, aumento do perímetro cefálico (...)
Não resisto a adulterar a tese de Gourhan: hoje temos ainda o demens...
Vem tudo isto a propósito de que na sociedade nética em que convivemos e competimos, a ordem natural destes factores se inverteu ou pelo menos se subverteu, profanou, sei lá!
Aqueles que, como eu, ainda jogaram descalços à bola, para todos estarem em igualdade de circunstâncias e que corriam a ribeira e os campos em busca de aventura, tinham que tirar da cabeça muitos engenhos que construíam e que depois lhes serviam para uma finalidade, mesmo que essa fosse o jogo (afinal também há o homo ludicus).
Lembro-me bem de irmos, eu e muitos, para a Eira Cimeira onde abundavam mimosas e construir arcos e flechas com que jogávamos aos índios e cow-boys, outros faziam pistolas de cana rasgando orifícios com navalhas afiadas e construindo uma mola que faria disparar o projéctil, ainda relas e caravelas (agora chamam-lhes vira vento) de embude seco, colando as paletas de papel com carapetos de silva (e se aquilo girava!), bilhardas, pinocos, carrinhos de empurrar, trotinetes de esfera, fisgas ( fungas, como lhe chamávamos) , piões, que sei eu, tudo era por nós construído, as mãos tinham importância e "dialogavam" com o cérebro proporcionando um benefício mútuo.
Quando algum aparecia com algum brinquedo, ou mais perfeito ou inédito : «mostra lá!» e o autor: "olhó aqui! tu vês com os olhos; sapa daqui as gadapunhas ou tens a vista na ponta dos dedos? O diálogo continuava e a arte de falar, com alguma oratória e bajulice a acompanhar, mais cedo ou mais tarde, lá permitia que a novidade fosse mirada e remirada e, às vezes, imitada.
Já não é assim agora: a rapaziada já não joga a bola na estrada, já quase não vai a pé para a escola, mexer numa faca nem pensar, fazer um brinquedo não é preciso porque os poluímos com tantos que lhes damos e dão, a ponto de nem lhes ligar nem os respeitar e cuidar.
As mãos já não fabricam. Estão condicionadas a um conjunto de tarefas pré- determinadas e fiscalizadas por guardiões do templo que apoiam, estimulam, convencem. Fazem todos o mesmo, não há originalidade nem criatividade. Só mecanicismo. Começam à hora, acabam à hora. Já não têm o "nosso" tempo, mas apenas o tempo que lhes concedem.
Sendo assim, o pé corre pouco porque fica quieto na sala, a mão tem pouca maleabilidade e elasticidade porque condicionada apenas aos exercícios pro(im)postos, e, em consequência, o cérebro prepara-se para funções repetitivas sem desafios que o obriguem a sinapses mais complexas e a respostas, que, certas ou erradas, não interessa, eram resultado de um exercício individual e solitário do pensamento individual e não uma resposta condicionada a ordens e a horas que os outros estabelecem.
O largo do Batoco, hoje baldio, em tempos foi alvo de disputas pela posse e há ainda quem, velada ou confessadamente, afirme que lho roubaram e que, se quisesse, ainda podia fazer valer o direito de propriedade sobre o espaço.
Aí, ao canto esquerdo, havia uma poça (espécie de charco), onde muito gado bebia e, espalhado pelo largo, havia tufos de bravos e até mesmo, junto à parede que o limitava e que tapava o ribeiro do Batoco, hoje coberto, paralelo ao quintal dos Póvoas, havia mesmo embacelamento das vides. O resto do espaço era absolutamente desorganizado e a malta jogava ali à bilharda, ao ferro, ao pinoco, a esconder e a achar, ao burro,... e, às vezes, traçava-se um itinerário para uma gincana com cronometrista e tudo, que o Velho Jonja já tinha um relógio de pulso marca Cauny e emprestava quando era ele a dar a volta.
A gincana tinha várias fases, desde o pé cochinho, à corrida livre, a saltar aos pés juntos e, claro, a dar a volta inteira com o mais que famoso carro quadrado das bilhas do gás, onde ninguém, mas mesmo ninguém , algum dia meteu os gadapunhos com a habilidade e mestria deste que isto tudo vos conta. Dava-lhes um bailinho que eles : "Filho dum raio que o parta, num há ninguém que lhe consiga ganhar com o cabrão do carroço! É chapado para manobrar aquilo".
Perdoe-se-me a vanglória, mas quem não tem um Ego de estimação, também nunca viveu uma aventura assim mesmo daquelas comédado.
Confesso que isto hoje foi um bocadinho para o pesado, mas o cérebro é agora quem comanda e a mão (não já o gadapunho) limita-se a obedecer e a carregar na tecla que permite construir a palavra que dá sentido a isto tudo.
Descansai o vosso cérebro: para a semana já volto, com ou sem carrinho do gás.
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.