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quarta-feira, dezembro 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLXI - ALAGOSTO OU ALAGOADO

O tempo é inexorável. Não se pode chamar o detrás. O que passou é irrepetível. É por isso que o tempo, sendo, nunca é. A mobilidade é a sua característica maior. Mas, hélas! em tudo o que se move, algo permanece estático e em tudo o que repousa algo se altera. Na verdade, o passado já não é, e o futuro ainda não está, logo, um já não existe, e o outro ainda não faz parte. A efemeridade do presente conduz inevitavelmente ao ponto - aquela dimensão que não tem extensão mas sem o qual não seria possível a recta, depois a superfície e a seguir o volume. A tridimensionalidade, afinal, aparece da inextensibilidade.
A polémica entre a realidade experiencial, material, empírica, mensurável, configurada, representável em figuras num plano, embatia numa outra: a realidade ideal. Esta era perfeita, modelar, única, sem dimensionalidade, conceptual, eidética, original e sem defeito já que imperfectível, eterna, paradigmática, enfim, hiperurânia.
A dicotomia e, depois, a harmonia dos contrários perpassaram a história do pensamento humano: bem/mal, direito/esquerdo, vida/morte, sono/vigília, .../..., céu/inferno, deus/diabo, dia/noite/,... e ainda hoje permanece.
Se hoje fossem vivos, esses grandes vultos do pensamento humano, cujas referências ainda hoje se invocam, se hoje fossem vivos, dizia, ficariam pasmados: afinal a realidade nem é real nem ideal, é virtual. O que é e o que parece, finalmente, fundiram-se: a nova metafísica reduz-se ao electrão. O tempo e o espaço quase se colam: acontece no Japão, eu vejo em casa, tenho falta de dinheiro? em dois minutos sou milionário,...
Em tempos que já lá vão, ouvi explicar que tinha havido um milagre grego, no sentido em que a qualidade e quantidade da obra produzida na Atenas de então eram de tal monta, que não tinham explicação possível.... Deu-se-lhe o nome de milagre grego (a eles que o que mais que queriam era acabar com os milagres na criação!) ! A incongruência reside no facto de que o que os gregos pretendiam era exactamente varrer as entidades divinas da criação do mundo e por isso elencaram uma série de causas a que chamaram ARCHÊ(s), princípios primeiros, causas encausadas, origem de tudo quanto existe e por isso há pinhos e eucaliptos, macieiras e sobreiros, corvinas e chernes,... É a unidade no seio da multiplicidade, ou se preferirmos, a multiplicidade derivada de uma origem comum: fosse a água de Tales, o indeterminado de Anaximandro, o ar de Anaximenes, o fogo de Heraclito, o Amor e o Ódio de Anaxágoras, o número de Pitágoras, os quatro elementos de Empédocles, (...) a verdade é que o elemento criador era um dos elementos da natureza. O natural originava o natural e o sobrenatural era de outra dimensão, portanto, não metia no mundo e suas variações, nem prego nem estopa.
Perguntareis vós a que raio de propósito vem esta lenga-lenga, mas as ideias, como as cerejas e as palavras num discurso colam-se umas às outras. Às vezes saem em catadupa, amontoam-se à saída e é difícil contê-las originando profusão de informação, o que conduz à perda de nexo e, logo, à liquidação do objectivo. Há, pois que conter a verborreia!
Para esse efeito temos por aí quanto baste, desde Sócrates, Socretinos e afins, até outra mão cheia de pregadores sem púlpito, mas que nos entram em casa se lhes franquearmos a porta. Basta um click!.
É princípio de decência em todos os domínios da acção humana que não se pode ser mais papista que o papa. Não se pode ser alagoado, lampeiro. O velho Comandante - há quanto tempo não trazia aqui o meu velho avô, mestre inexcedível em matéria de saber empírico - tinha uma expressão impagável: "quem não sabe tocar corneta que não se meta."
Olhando em redor o que vemos é uma plêiade de incompetentes a mexer onde não sabem e, claro, a ditarem ordens quando o que deviam fazer era "estar quêdos!".
Constatamos que aquilo que mexe connosco está nas horas da amargura e os tais iluminados que nada têm a ver com os gregos de que acima vos trouxe memória, insistem que é a única alternativa. Porquê? porque são alagostos. Não sabem tocar corneta e arranham em tudo: ele já foi ministro da cultura, da educação, dos assuntos parlamentares, ajunto do primeiro ministro, porta voz do governo, ministro da defesa, bolas! que mais?. Isto não é um homem, é uma invenção! Como dizia um velho amigo transmontano ::SACODE!
Nada de estranhar neste rectângulo, porque quem nos representa raramente tem dúvidas e nunca se engana. Assim vamos indo, cantando e rindo, levados, levados sim,...
Ninguém entre os xendros de então se comparava a Velho Jonja, cachopo canho, ligeirinho no andar campeão na fisga, imbatível no jogo do pinoco, defesa esquerdo na bola, artista maior na arte de engudiar e armar costil, poço sem fundo em matéria de conhecimento da valdevinagem de então. Lia a Flama, o Zíngaro, a Crónica Feminina, Caprichos, Zaida, Século Ilustrado (...)e era impenitente devorador de tudo quanto fosse programa de futilidade. Sabia tudo de todos com uma profusão de pormenores que, quem quisesse saber personagem de novela, artista de nomeada, filiação ou paternidade de vedeta televisiva, horas e locais de espectáculos, honorários e prémios, concursos , filmes de cowboys, que sei eu, todos os intérpretes da música francesa de então com os títulos das canções e até algum traiteio, quando o título não fosse bastante, ... Sempre bem penteadinho, aprumado no porte, sapato de atacador sempre bem apertado, casaquinho ou colete justos, e o seu constante: « Tão!, tão!, viste ontem o filme do flecha quebrada?, tão!,tão! viste o Laredo!, tão!tão, viste o bonanza,...tão!, tão!.?
Até parece que ainda agora o oiço a imitar a música do Bonanza! era ele e o Chquim Jolim da pata branca. .. Outros tempos!
Quando eu estava para elas, aos Domingos à tarde, no adro, a assistir a três dôques e chquim cachiço a jogar à cavaca, metia-lhe veneno:" Oh Jonja, um dos cinco violinos era o Matateu, não era?" « Você é uma besta! Matateu era do Belenenses e os cinco violinos eram do Sporting!» Vasques, Travassos, Peyroteo,...» "Pronto,! " Mas o Joe Pequeno era dos Robin dos Bosques! « Não no era, era o irmão mai novo dos Bonanza com o Adam e o Hoss!" Era uma tarde de cultura era o que era!
Duma vez decidi-me mesmo a provocá-lo a sério:" Olha lá, ó Jonja; Quando é que uma rolha de cortiça flutua no vinho?" O Jonja ficou apanhado porque isso não vinha na crónica nem na flama, nem... E o Jonja:« e que me importa a mim isso? Sabes quantas cantigas vão ao festival, sabes? Calma, aprende lá esta : a rolha de cortiça flutua no vinho quando lá a pões!" Isto é para não seres tão alagosto!"
Abalou com umas trombas que nem um barraco!
XI GGGRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

quarta-feira, dezembro 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLVI - ABOQUILHA ou Abequilha

O velho Talha Burricos era fino como um alho... Eu que o diga. Nunca queria o gás depois das seis. Ia sempre pelo lado de trás a bater à porta, deixava a bilha e depois ia à frente e bradava: "Eh! cachopo, fica-te ali a garrafa do gás, amanhein de manhein leva-me uma." Já sabíamos o que era de manhein. E o pior era que me calhava sempre a mim.... Era a vida.
Quem fornecia quer o vinho para a missa quer o pão ázimo para a hóstia consagrada era a Casa Campos. que, não sendo por aí além, nenhum potentado, tinha a vantagem da ser governada por três irmãs, qual delas a mais religiosa e a mais poupada. Assim se manteve até que a velha da gadanha as foi ceifando e pronto: acabou-se o vinho branco arinto exclusivo para o sr prior e o pão lascado para o corpo de deus. Posso dizer-vos que quer um quer outro eram deliciosos. .. Por altura da desobriga, até porque na aldeia, naquele tempo, ainda havia xendro com fartura, era necessário fazer muita hóstia... Por ali vinham o padre Lobo das Águas, o padre Robalo das Aranhas, o padre Tarcísio do Pedrógão, o padre Manel de Penamacor, o padre Fatela da Meimoa, o padre Baptista da Benquerença, o padre Agostinho, já sem paróquia, o padre Carreto, também já jubilado,..., era mesmo uma confraria, e todos confessavam a rapaziada de aldeia que se perfilava a cada um dos confessionários. De vez em quando os padres faziam intervalo, por via das regras e da bucha que nisso, primeiro o padre Zé Pedro e depois o padre Pinto não se poupavam: era à tripa forra.
Sempre vos digo que os petiscos eram de lamber ou não fosse eu quem compartilhava essas aras de bem comer e até, às vezes, a confecção com a ti Mari Rainha. Outros tempos. Mais ainda: nenhum de vós alguma vez comeu pão ázimo com fiambre e vinho branco de missa... é o cúmulo. Se um dia vos calhar essa oportunidade, provai e depois contai-me. A pena é que já não há fiambre como antigamente e menos ainda vinho branco arinto. Vai lá vai...
Bom, a Casa Campos não faliu, mas os tempos mudaram e o padre Pinto - de boa memória - encomendou o vinho ao Talha Burricos, esse mesmo que queria o gás logo às seis da matina.
A casa dela não era longe e nem precisava de levar o mais que famoso carro quadrado. Ajudava-me à bilha do gás, punha-a ao ombro e ALA!, batia ao portão, Talha Burricos aparecia prestes, entrava pelo quintalinho, sempre pejado de mato por mor dos agueiros não atolarem, subia quatro degraus e entrava na cozinha. Já a panelinha de ferro cozia o feijão pequeno das Taliscas e o ambiente estava amornado pela lenha de carvalho arrecadada em tempo e agora a dar um jeitão. Lá ajustava eu a bilha ao redutor, experimentava a ver se tudo estava nos conformes e: "pronto, já está, bom dia e até logo". Logo O Talha burricos atalhava: «onde vais com tanta pressa...? espera aí um pouco» e para a ti Strudes (Gertrudes): « Eh mocita, arranja aí um aboquilho e leva-nos à loja.» Não tardava lá vinha o belo casqueiro embrulhado em bragal de primeira em cesto de vime e uma bandeja com uma tora de presunto, uma malga de azeitona retalhada, um queijo cabreiro num prato de esmalte e, uma vez até me calhou que havia castanhas assadas, já descascadas.
Sai-se o Talha:« Toma tento no que digo! se o queres tornar a provar tens que manter o bico fechado...» eu fiquei a olhar e ele: « vamos a provar o vinho de missa , mas no te esqueças, bico calado». O pipo não tinha torneira, deitou aguardente para desinfectar a borracha, como lhe chamava, sorveu para um pucheiro e vasou para uns copos de alumínio que até reluziam de tão areados. « Vá, bebe!» meti uma azeitona, tirei o caroço e vou-me ao néctar. Aquilo ainda não estava consagrado mas já era sacro. Que pinga de estalo! «Anda lá corta aí uma fatia de pão e um naco de abequilho que hás-de beber um copo assim comédado!» A hora era boa, a fome melhor, o branco convidava e o aboquilho era de ginjas: ataquei... Mais um alumínio e um estalo: " oh ti Tonho, este inda é melhor do que o da Casa Campos! " « É pra que vejas que eu num faço batota... isto é o sumo da uva puro, nem uma gota de água. É assim que querem é assim que têm.» Lá lhe expliquei a razão de ser daquela exigência e bebemos ainda mais uma cartolinha.
Passado não muito tempo voltei à loja e já o pipo tinha torneira. Havia mais gente que sabia que o vinho de missa lhe tinha sido encomendado e desafiaram o Talha Burricos: 'Ó ti Tonho. dê-nos lá a provar o vinho do padre!' «Eh cachopos, eu até vos dava um provo, mas o vinho é tão bom qinté coalhou com'ó azeite: experimenta a ver se já corre alguma coisa...» Lá ia um mais lampeiro a ver se tinha sorte, mas nada. « Vês!? coalhou!» Eu caladinho como um rato, saí com eles mas depressa voltei: "como é essa do vinho coalhar"? « Aprende que eu não duro sempre: o vinho já está ali em barricas, tirei-o todo por cima e meti a torneira a fazer ver. Se não fosse assim, só com os provos já se me tinha ido. » Vai lá vai! porque é que o diabo sabe muito? porque é velho, respondem os entendidos.
XXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAANNNNDDEE