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quinta-feira, junho 08, 2006

A NOSSA FALA - LVIII - OH! DIANHO

Quase sem darmos por isso chegámos a dez mil visitas. OH! dianho!
Mais este ano que tem o dia da besta: 06/06/06, o famoso 666, número maldito já que duplica o três, número sagrado por excelência, tal como o sete, resultado da soma do primeiro número perfeito - o três - porque para além de ser o número de pessoas da SS. Trindade, é o primeiro que tem princípio, meio e fim com o primeiro quadrado perfeito, (o quadrado de 2 que, como se sabe, é 4) uma vez que o quadrado de 1, é ele mesmo.
Comecei a escrever esta peça no dia 4, mas depois vi que todo o borra botas falava do que sabia e não sabia a propósito deste tema disse cá para mim: oh! dianho, tens que deixar os números e alinhar por outra vereda. Maináda!
Veio-me à mente um poema do poeta latino Horácio: «Oh! fonte de Bandúsia, mais brilhante que o vidro cintilante,/mais famosa que as Pirâmides do Egipto e mais constante que os números babilónicos!/ Em vão o sangue de um jovem cabrito/com a fronte ainda mal inchada/com os cornos nascentes/que o preparam para as lutas amorosas/em vão, tinge de rubro as tuas águas cristalinas/É a ti que se vem dessedentar o rebanho errante/e o boi cansado de puxar ao arado/.As tuas águas cristalinas correm entre os seixos onde a azinheira /que me dá sombra, entrelaça as suas raízes. "
É ou não é lindo?! (a tradução respeita escrupulosamente a mensagem do poema)
Vamos então por aqui, dianho!
O povo tem também as suas poesias e, sem dúvida, a marca maior desta característica assenta nos provérbios e ditos populares para além das mais que famosas lengas-lengas.
Sirvam de pequeno exemplo: "quem muito dorme! pouco aprende/é como a lenha verde/que mal se acende;» ou estoutro: "Não há pau como o de carvalho/nem lenha como a de azinho/nem filhos como os dos padres/que chamam ao pai, padrinho."
Quando era miúdo, foram bastas as vezes que acordei com o som roufenho do búzio, que soprado com mestria pelo Zé Planeta ou pelo Manta-Rota, homem sempre com a malandrice na ponta da língua, não tivera ele sido aluno de nosso Fernando, Zé Luís, Mnel freitas e outros que tais, que quando uma mulher apanhava azeitona no panal por baixo da sua escada se saía:" anda deixa-te aí ficar, que debaixo de mim é que tu estás bem".
Ouvia-se em quase toda a aldeia aquele som, aí por essas seis e meia da manhã, os ranchos juntavam-se e lá se ia para os olivais e «Vamos ,vamos, que o patrão é pobre e quer ver a azeitona colhida»
Já rapazote, fui também nessa leva a colher azeitona para os lados do forninho. Comigo ia Júlio Casqueiro, Guilherme Chornico, Chquim Camião,Olho de lata, e mais uns quantos que a memória agora não aclara. às tantas, estava eu na muda, do meu lado esquerdo ficou o Guilherme e, à direita, o Casqueiro. Arranca o Guilherme: "Fui à serra à lenha/escorreguei num rosmaninho/Vê se ouves,o Julho/que tens um arame no focinho! » O casqueiro: "Vá la a ver a confiança!" Eu calado, continha o riso! Volta o Guilherme : " Fui à serra à lenha/ escorreguei num sargaço/Ouve-me bem, ó Julho/que só comes bolota e bagaço.» E o Júlio:" OH! DIANHO, vê se tens tento na língua, cassenão inda te cai uma arrochada num corno"... e o Guilherme: "quem é que aqui tem cornos?" Descemos todos à pressa a evitar uma encarniçada luta de galos. A coisa esteve feia mas lá se compôs.
O meio-dia é a hora sagrada de almoço. O ambiente estava tenso e saio-me eu com esta:
Ó ti Guilherme, atão e quando o seu Fernando vai ao quadro e o professor lhe diz:» multiplica aí 4 por 11. » O Fernando vira-se para o professor e solta: "Calha bem! Não há tabuada do Onze"!
Até o Casqueiro se riu e as conversas aos poucos retomaram o curso normal da colheita da azeitona: Mulheres, ó mulheres, olha o fato.- colho pró chão" O rai do home, tanta pressa tem, levanta lá a escada para esticar bem o panal, vá! o dianho do home!» ...
Dei por mim a cantarolar (de Sophia) : olhei o que se faz debaixo do Sol/Tudo é vaidade e tempo perdido/O que falta cantar não se pode/e tu só queres agarrar o vento!(...) A música é do Chico Fanhais. Vale a pena ouvir.