O Senhor Professor seguia a pedagogia recomendada para aquele tempo, rudimentar mas, parece, eficaz, basicamente assente num instrumento absolutamente essencial na arte de bem ensinar a ler, escrever e contar: uma vara de marmeleiro de metro e meio que tanto servia para apontar no quadro de ardósia o divisor, como para descer velozmente sobre a orelha do garoto que lhe chamava quociente. A aplicação do método pedagógico esgotava-se quando o Senhor Professor acrescentasse, bem alto:
- Cavalgadura! Que és uma cavalgadura…
Acontecia muitas vezes ao Zé Tronchudo.
Conformado que não havia nada a fazer pela instrução do garoto, o Senhor Professor tinha-o posto na carteira do Amândio Caga e Tosse, com autorização para dele copiar os ditados. Houve um dia em que o Zé, a copiar pelo Amândio, conseguiu apresentar um ditado limpinho de erros, e este tinha um traço vermelho debaixo de uma palavra. A partir desse dia, sempre que podia, o Tronchudo fazia questão de alardear que tinha sido mais esperto que o esperto do Caga e Tosse.
30 anos mais tarde, ainda lho havia de lembrar numa patuscada de achigãs fritos que fizeram no palheiro do Chico Picha d’Aço.
O Senhor Professor fumava muito, perto de 50 cigarros diários, marca Sagres. Os alunos já estavam habituados à sua tosse cavernosa e àquele som característico que ele fazia a puxar o catarro que se acumulava na garganta. Depois de bem puxadinho, o Senhor Professor apontava ao canto da sala mesmo por baixo do quadro ardósico e, da sua boca saía disparada uma gelatinosa massa esverdeada. O tiro certeiro alojava o dejecto numa mancha cor de breu já velha no velho soalho, tendo sempre o Senhor Professor o cuidado de a esfregar com a sola da sua sempre impecavelmente engraxada e de lustro bem puxado bota preta.
Os meninos não estranhavam. Afinal, era o Senhor Professor, cujo estatuto ombreava com o Senhor Regedor e com o Senhor Prior e com o Senhor Presidente da Junta, autoridades máximas da freguesia.
Assim não pensava a Ti Encarnação, solteirona, beata de profissão, que não tinha qualquer pejo em classificar o Senhor Professor de javardo. Isto porque ele, e a canalha, tinham a maldita balda de, nos intervalos, irem mijar à parede da sua casa.
- Não se pode lá estar com o cheiro, havia de lh’apodrecer a gaita, Nosso Senhor me perdoe.
A garotada alheava-se do debate matinal sobre o cheiro do mijo, preferindo dedicar-se aos joguinhos e às brincadeiras habituais.
O Albano Caipila e o João Mamanaburra jogavam ao espeta, com uma lima de afiar os serrotes.
Uns quantos jogavam ao burro - os que amochavam perdiam se alancavam e tinham de voltar a amochar.
Outros tantos jogavam ao eixo – a habilidade estava em dar toque no cu do saltado e em cantar a ladainha:
eixo rebaldeixo, escaramela o pau do eixo, um por um, dois bois, três inglês, quatro arroz no prato, cinco no cú to finto, seis maria do reis, sete dá cá o canivete, oito biscoito, nove vai dar a esmola ao pobre, dez burro és, onze os sinos de Mafora são de bronze.
O Zé Estroncabrochas, o Tó Espanta Mulas, o Quim Batemuma e o Manel Espantado competiam ao quem mija mai longe. Com a mão a apertar a gaita – cada um a sua – tomavam uma espécie de balanço com um movimento do cu de trás para a frente, aliviando os dedos na posição mais dianteira, por forma a conseguirem esguichar a água uretral o mais longe possível. A cada esguichadela iam todos conferir, mas sem nunca largarem o pirilau, para não se desperdiçarem munições.
O Chico Esfolagaitas, garoto franzino e rodas baixas como o pai, tentava safar-se do garrote que o matulão birepetente Zé Maria Traitouras lhe estava a fazer, a cobrar uma dívida antiga de 2 tostões:
- Ou me pagas o que deves cabrão ou arrebento-te a alma.
- A minha mãe deu-me quatro tostões para comprar açúcar, se tos dou, ela dá-me uma malha.
- NO SEI CÁ DELAS. Ensinei-te o ninho da cotovia, agora pagas.
- Dou-tos para a semana, eu seja ceguinho.
O Senhor Professor assoma à porta da escola e fez soar a sua autoritária voz grossa:
- Ó Esfolagaitas, toma lá um cruzado e vai lá abaixo ao povo a comprar-me um maço de cigarros Sagres. Vá! Vais num pé e vens no outro.