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terça-feira, março 10, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIII - BAZAROCO

Nosso Fernando era, e ainda é, o mais velho dos Pombos. É daqueles que, com uma simples navalha, mata um porco de oito arrobas ou mais com uma única espetadela. Enterra a navalha uma vez, tira-a, limpa-a e poisa-a. Enquanto os outros seguram o porco e um mexe o sangue no alguidar com uma mão cheia de sal grosso, Fernando vai-se à mesa, corta um naco de queijo fresco, arrefinfa-lhe um branquinho e apenas limpa o focinho na chamusca, faz o cu e o pindrico se for macho, abre os nervos para o chambaril e torna a esperar que pendurem o porco para se dedicar a abri-lo. Rasga dois sulcos ao lado das tetas do animal, separa o soventre de baixo para cima num jeito certeiro, aventa a tira para trás e começa a abrir as laterais com uma eficácia que é de admirar em quem nunca foi cortador diplomado. Tão habilidoso é à direita como à esquerda. Aprecia a carne do animal decretando se tem boa febra ou se é só gordura, pede o tabuleiro para apararem as tripas, detém-se no osso da suã, abre-o nos dois sentidos puxa as tripas, tira o fel do fígado, vem até à língua, fazendo a gola de caminho e separa a fressura que pendura num prego da trave mestra da loja. Enquanto alguns vão a separar as tripas, nosso Fernando, pede uma malga e começa a cortar nas melorejas que eu logo me apresso a migar porque a bucha não pode tardar. Nosso Fernando vai-se até ao lume e aguarda que a fritada da meloreja vá para a mesa, roendo umas azeitonas retalhadas e mandando uma bocas aos das tripas: « sandens mesmo uns bazarocos, já arrebentásteis a tripa em cinco lados. Eu tinha vergonha...E tu oh nalga roxa, num vês que isso que estás a separar é a madre?! Isso num presta para levar enchido! És mesmo um bazaroco! já tiveste tempo de aprender. num sei pra que raio andandens a estudar se num distinguis a madre, da tripa dum animal. O que tu merecias era que ela estivesse saída e logo vias aí o sangue da lua...Palavra de honra!» Dou-lhe a meloreja a provar e salta logo: sal, precisa de sal. De pouca adiantava que eu lhe explicasse que o sal só fazia mal à saúde e que ele não gostava de meloreja mas de salgadeira. Lá o consolava com mais um branquinho e logo mandava a sentença: olha que a meloreja num quer branco. Casca-lhe mas é com uns tintos valentes na caçola».
Na minha casa paterna, matança não metia saia. As mulheres só apareciam mais tarde e competia-lhes fazer a viragem das tripas que os homens já tinham limpo e a respectiva adoba em laranja, alho, loureiro, sal e mais o que entendessem necessário para depois encherem o belo chouriço, bexiga, palaio...
Naquela matança, os homens estavam entretidos com as tripas e eu fiquei sozinho com ele e provoquei-o. Diga-se, antes de mais que nosso Fernando gabava-se de saber de tudo. Na verdade, ele era tosquiador, pedreiro, pintor, barbeiro, hortelão, meio sapateiro, limpador, podador e qualquer outra tarefa que lhe fosse cometida, era certo e sabido que nosso Fernando nunca se negava e desafiava quem fizesse melhor que ele
Começo eu: «Oh ti Fernando, já reparou que as mulheres não nascem mulheres?» E ele:" Então nascem homens, é?" « Não, elas nascem é com potencialidades para se tornarem mulheres; quando nascem ainda não são mulheres,» " lá isso pode ser verdade que eu à minha filha sempre lhe chamei de garota. Até agora, que já me deu dois netos quando falo para a minha, pergunto sempre pela nossa garota" Ora vê! Mulheres só são as do seu tempo que já se casaram, e, se bem calha, ainda lhes chama de cachopas quando passa por elas" Eu ia controlando a meloreja na caçola e ele apreciando e metendo veneno nos separadores de tripa, mas nunca esquecendo a conversa. Vem-se a mim e remata: « mas, porra, um garoto num é igual a uma garota! ele nasce com uma pindrica e ela com uma greta!» "Ora aí tem: não nascem mulheres, hão-de tornar-se mulheres"» Até aí tens tu razão, só chegam a mulheres quando se casam!» "não é bem assim" e começo a fazer uma oração de sapiência sobre a diferença entre natureza e cultura, a consideração que as mulheres têm nas diferentes culturas, religiões, povos... no seu papel social, na importância que sempre desempenharam na civilização... " «Vê lá num deixes esturrar a meloreja!
Percebi que a conversa estava desajustada e arranco-lhe com uma história sobre o significado do peido. Aí ele presta logo atenção. "Uma vez no combóio, no tempo em que ainda era tocado a vapor e o fogareiro ia alimentando a caldeira com hulha, na mesma carruagem e, num banco de frente uns para os outros, iam , um advogado, um médico e um agricultor. Não havia motivo de conversa e o lavrador, de repente, solta um sonoro. Diz o advogado: o peido é uma justa reivindicação do cu relativamente à boca; e o médico: o peido é uma consequência natural dos gases libertados por alguns alimentos que o organismo se vê na necessidade de expulsar. Digamos que é um arroto nos antípodas. O agricultor que encolhia mais uns quantos que lhe apetecia soltar, ia calado, até que lhe pergunta o médico: então e para si o que é o peido?

Nosso Fernando solta uma gargalhada e e depois de se ter certificado de que a meloreja estava no ponto: Oh corja de bazarocos, intão isso inda num está aviado?! Inté cagava um pé todo! se eu metesse as mãos a isso, já faz tempo que lhe estávamos a arrefinfar ! Nosso Zéi, irmão de Fernando, que também sabia da folha ainda lhe respondeu: O que tu sabes já a mim me esqueceu. Vai masé enchendo os copos que nós já aí vamos. Abriste pouco a cabeça do porco e se eu lá não tivesse ido a cortar mais meloreja ficavas só a molhar pão no molho. Fernando sentiu o toque :«quando tu nasceste já eu comia pão com côdea, meu bazaroco!
Tudo se compôs e a  plangana da meloreja depressa ficou aviada porque não adiantava guardar para as mulheres, que, se a comessem podiam quebrar a madre e nunca mais poderiam ser mães... Crenças que justificavam que os homens comessem o que era bom e as mulheres apenas assistissem, salvo as avós já em idade de não poderem voltar a ser mães, porque a essas já não fazia falta a tripa madre. Outros tempos!
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAANNNNDEEE

quinta-feira, março 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIV - CAMBALHÃO


O domingo imediatamente seguinte à lua cheia imediatamente seguinte ao equinócio da primavera - o de Páscoa - estava já próximo. Naquele ano dos finais de 60 os dias andavam primaveris e era tempo de caiar a casa. Ti Arminda Malagota desceu ao palheiro onde dormia a burra andorinha, e depois de atirar com um braçado de feno para a manjedoura, para acalmar a burranca que resfolgava excitada, desviou cuidadosamente uma pedra da parede, deixando ver um buraquinho com a abertura suficiente para ela lá introduzir a sua mão. De lá retirou uma bolsinha da qual escolheu 3 moedas de 5 escudos que enrolou no lenço das mãos e voltou a colocar a pedra no sítio que se encaixou na perfeição. Nunca ninguém iria conseguir perceber que ela escondia ali uma bolsinha de linho com notas e moedas que somavam mais de 50 contos de réis. E foi-se a caminho do povo, à loja da Ti Rosa do Cunha a comprar 2 quilos de cal branca que havia de desfazer em água num velho caldeiro de lata mexendo cuidadosamente com um changoto limpo, numa proporção de 1 de cal para 3 de água como a sua mãe lhe tinha ensinado, até obter uma solução cor de leite que deixaria em repouso até ao dia seguinte.

Logo à entrada, do lado esquerdo, a sua casa tinha uma pedra rectangular –a pedra dos cântaros - com 1 metro por 40 de fundo, encrustrada na parede à altura da boca do corpo, sobre a qual estavam sempre dois cântaros de barro – os asados  -  que no Verão forneciam uma água mai fresquinha que eu sei lá! e nos espaços à volta deles, ela ajeitava a sua colecção de antiguidades: um candeeiro de lata que lhe deu o primo Pantelhão, um lampião antigo que herdara do pai que tinha herdado do pai, três molídias, quatro cabaças envernizadas e uma colecção de outras peças em madeira que o seu homem, Manel Malagoto, se entretinha a fazer nas noites chuvosas de Inverno: cangas, chambaris, arados, tropessos, carros de bois. Juntou tudo no batorel do lado de fora e meteu-se a esfregar vigorosamente as paredes com escova de arame e lixívia.

Havia de fazer o mesmo na lareira. Esfregou a panela de ferro, as trempes, o pucheiro e o caldeiro da vianda com palha de aço, varreu cuidadosamente a cinza da pieira, aquela para onde as filhas, quando eram garotitas, deitavam os dentes que lhes caíam e recitavam “pilhêrinha, pilhêrão, toma lá este dente podre e dá cá um são”,  sempre a cantarolar uma cantiga que tinha ouvido, em garota, ao Ti Mné Ceguinho, e que falava de um tuberculoso que queria bem a uma rapariga fina, filha do regedor, um amor não correspondido que acabava em tragédia com o rapaz a suicidar-se depois de matar a autoridade local e a filha fina. A cinza, guardou-a num caldeiro de lata farrusco, com ideia de a botar na leira dos alhos.

Já o astro caía atrás da Gardunha quando lhe aparece João Tramoço que vinha pelo pagamento da cava da vinha. Nesta altura do ano, o Tramoço ganhava uns tostões cavando vinhas ao cambalhão, técnica antiga adequada nos vinhedos em que as videiras estavam dispostas de forma irregular. Algumas semanas mais tarde, seria preciso arrasar os cambalhões por forma a que o terreno ficasse novamente direito. Desta forma, a terra arejava e eliminavam-se as ervas.

O Tramoço ajustava o preço consoante a área e o tipo de terra e, entre duas borracheiras, aos poucos ia deixando as vinhas pejadas de pequenos montes de terra. Depois de ter suado durante a manhã daquele sábado a cavar a vinha do Mnel Malagoto apresentava-se para receber o combinado, que havia de ser trocado por vinho nas tabernas do Cavalheiro, do Zé Rolo, do Fatela e do Xico Miguel, durante o domingo.
O Malagoto que se dedicava a mudar a cama da andorinha assoma à porta do palheiro: 
- Eu pago-te mas só quando fores a desfazer os queijos que lá deixaste. Atão aquilo é trabalho que se faça?
Durante a tarde ele tinha passado na vinha e não aprovara o trabalho do Tramoço que, para despachar a empreitada e receber a paga, saltara os espaços onde não havia erva.
- Mintira!, defendeu-se o Tramoço.
A discussão foi azedando até que o Tramoço decretou:
- Ai no me quer pagar? Atão vai a ver, vou lá e desfaço os cambalhões todos.

sexta-feira, novembro 18, 2005

A NOSSA COMEDURA -I - A MELOREJA

Iniciamos aqui um entremeado na nossa faladura. O homem nem vive só de pão nem só de palavras. Se o pão for bem acompanhado sabe melhor. Embora o povo na sua filosofia bruta diga quando algo lhe ocorre contra os seus desejos que "mais vale pão seco do que tal conduto", bom, bom,é que o pão e o conduto sejam aprazíveis ao paladar e que a sua degustação não sofra quaisquer contratempos. «Que vos faça bom proveito à barriga e ao peito são as contas que eu lhe deito.»
Nesta altura do ano começam as matanças e nada melhor para ensaiar a nossa comedura do que uma boa meloreja. Assim comédado!
A matança tem regras:
1- Determina-se o dia da matança
2- Convidam-se os amigos/familiares e verifica-se se não há empanques por parte de ninguém.
3-Na noite do dia anterior a vítima fica sem comer, por mor de não ter a tripa cheia ao outro dia.
4-Trata-se de preparar todo o apoio logístico: tripa, laranja, algodão, cominhos, tesouras e facas, loiça adequada, lenha com fartura, alho sal, pimentão do bom, azeite do melhor, tábuas de migar a carne, tabuleiro para as tripas ou até alguma carne, aventais...
5- Cedinho, por essas sete ou antes chegam-se os homens junto ao local da matança
6-O lume já está aceso e um pucheiro com aguardente desmanchada com água e açúcar amarelo já começa a circular para matar o bicho, metem-se as botas na ala, esfregam-se as mãos e
7- Prepara-se uma corda para atar o animal por uma pata
8 - O dono salta para a furda e "nalguda! oh nalguda!!" coça-lhe o samarro e tenta por bons modos enfiar a laçada da corda numa das patas traseiras do bicho
9 - A bem ou a mal o porco/a lá deixa os aposentos e é conduzido até junto da banca
10- Tomba-se o animal, o matador aperta-lhe o focinho com um baraço, sobe-se para banca,lava-se a barbela com água quente, limpa- se com um pano, ata- -se bem à banca quando não até a uma árvore que esteja perto,os homens põem-se a postos um agarrados aos presuntos outro às mãos, o matador faz o sinal da cruz, abre a matadeira e pica o desgraçado, aparece o alguidar com sal e uma mão sempre a mexer o sangue que cai, vão tirando algumas farropas de coalho de sangue,o porco grunhe até dar as últimas.
11- Desapertam-se cordas e baraços, vai mais uma rodada de aguardente desmanchada e doce e
12 - antigamente com colomo de palha, agora com maçarico ,chamusca-se a preceito evitando queimar as mãos de quem raspa. São vários os utensílios usados, desde facas velhas até chapas de lata,ou mesmo as unhas das mãos.Tiram-se as unhas ao quadrúpede e inicia-se a lavagem com água quente.
13 - Quando já branquinho de todo faz-se o cu, e o picho se for macho, ata-se com um baraço,abrem-se os nervos, mete-se o chambaril e ala
14-Pendura-se o animal,limpa-se bem limpinho
15 - Embrulha-se rapidamente uma talhada de queijo fresco e quatro azeitonas retalhadas, uma dentada de pão e limpa-se o esófago com um tinto do novo apanhado do espicho de esteva e
16 - Inicia-se a abertura do ventre, aparam-se as tripas para o tabuleiro e enquanto o matador vai separando as peças e um vai à procura de duas sovinas pra deixar as banhas suspensas, dois ou três homens deitam-se à separação das tripas, ajuizando da sua qualidade.Há sempre algodões prontos para alguma fatalidade
17 - Sobe-se o caldeiro suspenso das cadeias, põem-se as trempes do lume, a meloreja é rapidamente migada e começa a cozer dentro da caçola ou de uma sertã de duas asas; batatas com casca são postas a cozer em panela de ferro.

18 - Aí vai a receita:

deita-se para a sertã aí obra de 2dl de azeite e logo a carne, esmagam-se alhos,tiram-se-lhes os grelos e atiram-se para a sertã, vai- se mexendo com colher de pau até a carne ficar meia frita, duas folhas de loureiro bem lavadinhas,picante a gosto,pimentada caseira se houver, rega-se com água, sempre a pouco e pouco,já que carne deve ficar entre o frito e o cozido, prova-se, rectificam-se temperos, e quando estiver quase pronta, um bom meio litro de vinho tinto para a confecção mexendo sempre, tiram-se as batatas do lume, descascam-se ou pelam-se, chama-se o povo para a mesa, despeja-se a sertã para um barranhão, parte-se pão com fartura põem-se as batatas em travessa e, cada um com seu garfo,pica na carne e molha a batata no molho e toca a comer. Não raro aparece um esparregado de nabo para dar o verde ao prato.O vinho é sempre a encher até o barranhão ficar limpo.
A seguir pode-se alindar esta classe de cozinhado com um prato de sopa de couve traçada e massa da grossa em puré de feijão encarnado, um arrozinho de osso da suã, fígado e soventre, sempre com azeitona retalhada e culmina com um galo ou um coelho bem guizado. Para sobremesa um arroz doce, pudim de ovos, tigeladas, e no fim um café e um bagaço do rijo para arrebater.
Às 11 os homens estão despachados e bem comidos e "ala para o sol".