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sexta-feira, dezembro 01, 2006

A NOSSA FALA - LXXII - MANCAR

O Homem é, por natureza, agressivo. O seu cérebro reptiliano sobrepõe-se a qualquer adorno civilizacional. Kant bem bradava que era o MAL RADICAL que caracterizava a natureza humana; Nietzsche, curiosamente anti kantiano na sua essência, acabava por concordar com o chinês de Konigsberg (o mesmo Kant), quando acarretou para o mundo da filosofia os conceitos de VONTADE DE PODER e de INSTINTO VITAL. O que nos caracteriza de modo a não deixar qualque dúvida é que nenhum de nós gosta de ficar por baixo. Se nos pisam, logo clamamos:"o de baixo é meu, o de cima é de um judeu". Foi assim que, um dia, Montes Hermínios e Zé S. Marcos (curiosamente fazia anos a 25 de Abril, dia do santo e da revolução das forças armadas) se pegaram: S. Marcos tinha descido a barreira do Oiteiro ainda meio atarantado dos vapores da bebedeira da noite anterior, embolsa umas quantas escarretas, ardulha-as e atira-as para a terra pisando-as com a bota cardada, usual em dias de domingo invernal. Estava" frio como um corno", e, naturalmente, encostou-se ao muro do Geadas, velho resmungão que, quando bradava da curva do aidro, se ouvia em clarinho ao cimo da barreira da escola, paredes meias com a Tonha freira, vendedora de queijos nos intervalos de missas, lausperenes, terços e outras ocupações em prol da eclésia. Uma verdadeira beata. Tonho Lindo, vizinho aposentado da G.N.R. dizia mesmo:"isto, mulher que ande debaixo de saia de padre e sempre a bater com a mão no peito, é valhaca como as cobras".
Estava então o S. Marcos encostado à parede do chão do geadas, apanhando os raios de sol daquela manhã, aí por obra dessas dez horas, batendo ora uma bota ora outra e esfregando as palmas das mão e sempre resmungando: está um frio dum corno. Montes Hermínios vinha ainda com os olhos remelados - aquela cara já não via água havia para aí uns dez dias e o corpo, esse, pelo menos havia um ano. A cinquenta metros já se sabia que ele estava a chegar: quando ia ordenhar as ovelhas aquelas que podiam afastavam-se tal o perfume que Montes exalava!- S. Marcos dá-se conta e "ó cerdo, nem ao domingo mudas de ceroulas?!" Ainda por cima especou-se na frente de S. Marcos, que estava a MANCAR a filha mais velha do Mné maneta que vinha encher o cântaro ao chafariz do batoco. «Cachorrinho de al de ol, tira-te da frente do meu sol». E Montes" O sol é de quem o apanha não é de quem se encosta...«Ó mê cabrão de merda, se querias este lugar tiveras vindo mai cedo, ora o filho da puta». Montes chega-se ao Zé pisa-lhe as botas cardadas, borra-lhas todas e acalca: «vê lá se queres que te faça já aqui a cama!» S. Marcos:" o de baixo é meu e o de cima é dum judeu" e cospe mais uma escarradela bem enrolada. Aí Montes espeta uma estampilha ao S. Marcos... pegaram-se assim comédado e a filha do Mné Maneta que se tinha ajudado sozinha ao cântaro para a molídia, especou-se a MANCAR a espapada. De soslaio S. Marcos, que já havia muito andava de olho na Celestre, bota as unhas ao gasganete do Montes Hermínios, aperta-lhe o papo com toda a alma e espeta-lhe uma cabeçada no nariz que lho deixou a sangrar ..." Logo mas pagas mê cabrão" gritou o Hermínios, que, contra vontade, teve que mexer na água.
S.Marcos afoitou-se:"olha lá, Celestre, tu queres que eu vá a casa a buscar o carroço de ir à fonte e levo-te o cântaro ao cavacal?". Ela mancou-o de alto a baixo:"toma tino!" voltou-lhe as costas e desandou...
Vamos lá analisar esta situação: S. Marcos tinha chegado ao ponto mais alto do seu auto conceito quando partiu as ventas ao Montes e agora é afundado literalmente por aquela por quem, à noite, na enxerga de palha, tantos caibros já tinha contado... Achais vós que vos ficáveis assim? Nem S. Marcos! O seu instinto vital vestiu as garras, deixou-a dar a curva do Nicas, correu estrada acima, salta o portão do Brigadeiro, sobe a uma parnada da figueira curiga junto à parede, busca uma pedra redondinha, saca da funga (=funda=fisga), aquece os elásticos distendendo-os, mira pela forcalha a ver se apanhava bem o caminho por onde a Celestre havia de passar, espera o melhor momento, estica o elástico, solta a sola da mão e o projéctil acerta em cheio no cântaro de barro da Celestre que se escaqueirou, proporcionando-lhe um banho integral. A velha Bate-orelhas, que estava escanchada na porta da furda do porco do Coelhinho a dar uma mijadela antes de missa, "isso foi o câncaro do barro, a mim outro dia, ia pra beber uma pinguinha de água, mal rocei com o copo de resmalde na barriga do cântaro e ele escavacou-se. É o câncaro do barro, dixe-mo o home de Alcafozes que aí vem a vender talhas e escoureiros, e malgas e tudo. Até lhe comprei lá um pucheirinho pra fazer o café de borra. Tive que lho encher de feijão grande duas vezes! Maldito negro!"
Celeste nem ouviu nada....botou-se a correr a ver se S.Marcos ainda estava a apanhar o Sol encostado ao muro do Geadas. O S. Marcos, mancou-a logo e"ala que se faz tarde", arranca estrada abaixo e quando a Celeste lá chega, estava ele a fingir que apertava as botas, mas sempre mancando o que ela faria...."Depressa chegaste a casa com o cântaro... parece que vens toda sueda!"
«O que gostava de saber é quem foi o urso que me partiu o cântaro! » "Eu inda daqui no saí!"no penses!"
Como se vê, só nos sentimos realizados quando ficamos por cima e podemos cantar vitória mesmo que isso seja à custa dos outros. Melhor: sempre à custa dos outros.
A humanidade é mesmo velhaca; nunca resolveu o problema mais simples: viver em paz. Todos sabemos que é mais barato um século de paz do que meia hora de guerra. O que se verifica é que nunca conhecemos meia hora de paz!
Culpamos o S. Marcos pela atitude que cometeu: somos inquisidores. Todos nós somos fiscais do outro e se o pudermos calcar para que nós fiquemos mais altos aí nem há dúvida.
Andamos sempre a mancar-nos uns aos outros e aparecer oportunidade de o achincalharmos, sentimos um prazer maquiavélico.
Ainda assim não desisto de procurar e mesmo manquinho ainda vou mancando alguns patifes, mas também - haja esperança!- MANCO gente com quem vale a pena conviver. São esses que figuram nos meus amigos... Quereis pertencer a esse grupo? Procurai viver em PAZ!
XXXXXIIIIIIII GGGRRRAAAAANNNNDDDDDEEE!

sábado, julho 15, 2006

A NOSSA FALA - LXII - TRAMBELHO /TRAMBELO

Tempos inefáveis eram aqueles em que, apanhado o comboio em Castelo Branco, a malta da região que, na altura, estudava em Lisboa e não era assim tanta que não se conhecesse, ocupava toda uma carruagem - às vezes até já estava parada na estação e depois era só atrelá-la à máquina - .
Embora a viagem demorasse umas boas cinco horas, o tempo não custava a passar. Não raro, e porque a carruagem era sempre a última e o comboio parava em tudo quanto fosse estação ou apeadeiro, lá apareciam uns fregueses das Benquerenças, do Retaxo, dos Amarelos, das Sarnadas e por aí abaixo. Aquilo era fatal: mal se acomodavam, o cesto da merenda era logo aberto e "são servidos"? Ai não que não éramos!
Quantas foram as vezes que o meu pai me dava cinco litros para oferecer à Senhora da casa onde eu me hospedava. Nunca o vinho chegou sequer ao Entroncamento. Depois comprava outro vinho e era esse que oferecia. Era a vida.
"Olha, filho, não botes a cabeça fora da janela do camboio que ele passa numa ponte tão rente, tão rente que já se contam por nove os que lá ficaram." Invariavelmente era assim. E continuava: "Vê se te portas com trambelhos de gente...Já és um homenzinho!"
Voltas dei eu para descobrir donde raio vinha este termo TRAMBELHO. Lá descobri: o trambelho era uma espécie de registo que regulava a entrada da semente na mó - se se queria a farinha fina apertava-se o registo, se mais grossa alargava-se o trambelho.
Assim também aquele que se porta comédado e tem os cinco alqueires bem medidos tem trambelos de gente o que não tem regra e ora aperta ora alarga sem rei nem roque, não tem tino, é um taranta. Ah! o registo aqui não é o assento no livro do registo civil. Não. É uma roda dentada na ponta de um eixo, rachado ao meio, que atravessava os candeeiros a petróleo na parte metálica onde assenta a chaminé e servia para regular a chama desse candeeiro. Havia-os também nos fogões a petróleo e com a mesma finalidade: regular a potência da chama.
Figura inolvidável da xendrada era o Zé Bondito. A paciência que a ti Maria teve em aturá-lo só a divindade a saberá. Só apanhava uma bededeira por ano: de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro. mesmo nos bissextos. Duma vez o encontrei eu deitado na valeta ali ao fundo da curva do muro do Marcelo, em frente da casa do Geadas... Chovia sem trambelhos nenhuns. Água com fartura!
Vinha eu de levar uma bilha de gás ao Rancheiro, lá por detrás do cemitério, com o incansável carrinho quadrado, boina na cabeça e bota cardada, quando, depois de passar a ponte, começo a ouvir um rosno compassado. Apuro a orelha: era o Bondito!
"Ó tzéi?Tzéi! "clamei.... "rais o afundem... "Voltei atrás àquilo do Cavalheiro e lá engatei o Fainica, que era vizinho do Bondito, e o João Feijão, que só veio a troco dum copo. Os três lá arrastamos Bondito para debaixo do alprendre do Geadas, onde é agora a loja do Licas, mesmo na curva do aidro. Fui pôr o carrinho na garagem estrela, ao canto do Fatela por debaixo do baturel da velha Batista e vou-me à casa da ti Maria, quase ao cimo da Lagariça, paredes meias com o velho Comandante e bem perto da velha Passarinha, vedeta outra que um dia trataremos aqui comédado: - era Passarinha, porque era a parteira de serviço na Aldeia e, claro, tinha que ver muita passarinha - !
Bato à porta e lá oiço passos do lado de dentro, apercebo-me do aumento da luz no registo do candeeiro a petróleo : "quem está aí?" Lá me identifiquei, já a velha Pássara estava no cimo do balcão, a Maria Chan Chan já vinha com uma pinha acesa a ver o que se passava, o velho Sarrabeco com a voz catarral "que é lá isso,home? e até a mari troncha, que antes queria ter um filho,(e teve oito antes de o seu Jabão se enforcar) aparece à esquina tentar ver à luz dum fósforo que acabara de riscar na lixa da caixa, brada: «O que queres à mulher a esta hora, ó fedelho" tu num sabes as horas? já num há trambelhos nenhuns!-
A ti Maria, é preciso dizê-lo, era uma das forneiras da comunidade, já dormia - que o dia começava às quatro da manhã para ela quando deitava lume ao forno da D. Carminda, do outro lado das escolas velhas, um pouco acima do Tonho pitincoiro e em frente do velho Forelho. (Isto é que são dados geo- estratégicos! qualquer rasca, curioso em G.P.S.. daria no forno com estas indicações).
Voltemos à narrativa...
Lá venho com a Ti Maria - esta malta, a bem dizer, dormia vestida - direitinhos ao alpendre do geadas, mas ... Bondito, viste-o!
Ao fim de algum tempo lá o achamos na rua de trás, portinhola desapertada e a cantarolar: "Ela já anda na rua!ela já anda na rua! côtche!côtche! côtche!"
«Vergonha da família, vocêi num sinvergonha deste porte, seu porco sujo?!» e ele: « ela já anda na rua! ela já anda na rua!... Caminhe à minha frente para casa, seu badalhoco!"
O Bondito, aquecido como estava, nem arrastava o pé! A água continuava a cair!
"Estou chapado!" digo para mim. De repente penso:" vou a buscar o carrinho , sento lá o velho e...ala!."Foi um instante.
Empurrei o velho lagariça acima, levei-o em braços até à soleira e deixo-o para a ti Maria: "bem hajas tu! meu home! bem hajas tu! é a minha cruz.... O Comandante ouviu e conheceu a minha voz:"és tu ,Changoto?! "Sou, meu avô!" Não tardou já estava a descer as escadas com a candeia baixa, a abrir a porta da adega, ali mesmo em cima do barroco que tanto servia de eira como de passadeira de figos:" ó porra! estás molhadinho que nem um pito! anda lá pra cima pró pé do lume!" A custo lá lhe disse que não, que bebia um copito e me ia à cama!
Aos poucos lá se foi convencendo: "vês o que dá a falta de trambelos do Bondito! Ê tamém gosto dele mas vêi lá se algum dia me viste borracho. Um homem tem que honrar o tchapéu que traz na cabeça. A canalha é que pode perder o tino! um homem tem que andar com trambelos de gente. "
«Já me vou avô! Fique descansado que eu tenho trambelhos, assim comédado! Dê-me a sua bênção» "Deus tabindçôe, mê filho! e te faça um home de bo sorte!Amén"
Desci a Lagariça sem trambelos nenhuns com o carrinho a saltar na carecada das pedras de quase meia calçada e só parei ao lume, já o meu pai dormia e a minha mãe estava em cuidados. Quis saber a história. Contei-lha, deu-me um beijo, e deitei-me.
Quereis mais trambelhos que estes?
UM XXXXXIIIIGRRRRRRRAAANNDDDDEE!