«Onde raio tenho a gaita que a não acho?» Perguntava o Mné Grande. E eu: " Ó Mnel isso já não é uma gaita ; é uma p(e)lharanca! deve ser parecida com a tripa duma farinheira cozida acabada de comer"!»Quando chegares à minha idade logo vês se não vais precisar dum peniscópio!»
Era um gosto vê-lo comer, a este pesado amigo.Tinha por hábito dizer que nunca na vida tinha almoçado:«só enganei o estômago!»
Sempre disponível: bastava que se lhe arranjasse um assento mais ou menos ajustado àquela massa informe e se lhe pusesse à mão o que fosse preciso ele fazer: descascar batatas, raspar cenouras, migar carne, e o resto - um pão dos grandes, um garrafão de cinco, uns nacos de presunto, queijo, malgas de azeitona retalhada e, por copo, uma garrafa - . Era assim: ia trabalhando, comendo e bebendo. Aí por essas onze já se ouvia o pigarro da sua garganta. Poucas falas, que quanto mais falasse mais ar entrava e mais se lhe irritava a garganta.Portanto: há que tapar a entrada do ar com mais pão e presunto e queijo e molhar bem a garganta para tudo escorregar comédado.Era só uma garrafinha de cada vez. Assim mesmo: uma garrafinha !
Ao almoço comia pouco- pouco é como quem diz: dois discos de sopa de feijão com couve e massa manga de capote, basta quanto pudesse ser, cinco batatas das grandes, uma massinha de borrego e uma travessa de esparregado de nabo por via dos alhos que catava a cada instante. Duma vez lhe vi comer três cabeças. Era aproveitado: sobrava pouco e, delicadamente perguntava: « as pelharancas, deito-as aos gatos?» às três mais ou menos começava a sesta. Até às cinco. Acomodava-se no assento e pronto, já só se ouvia ronco!
Quando era mais novo o nosso Mnel era trabalhado: arranjava sempre desafios no Domingo à tarde onde ele pudesse ser o vencedor e assim encher o fatinho sempre à mama.
Alguns dos que me lêem hão-de ainda lembrar-se das amoreiras no largo baldio da lameira - resquícios de uma pequena indústria artesanal- . A mais alta estava pegada à tasca do Cavalheiro. Não era raro que a rapaziada se queixasse e, mais ainda, as mulheres que tinham lavar as nódoas provocadas pela tintura da amora.(Se por acaso ficardes com as mãos sujas de comer amoras, o antídoto é lavar as mãos com amoras verdes. A roupa é que não se pode lavar assim) .
A pernada mais alta dessa amoreira tinha inclinação para o lado da estrada e o que se meteu na cabeça do Mné Grande?:«Pago cinco litros a quem me desafiar e chegar mais alto a subir a esta amoreira.» Depois de esperar que alguém aceitasse o desafio,acrescenta: «Cagões, sois todos uns cagões! Pronto: podeis juntar-vos cinco contra mim!» Aí, João 27, chico traitoiras, arrebenta canelas, zé encrencas e macuácua, aceitam a aposta. Impõem como condições que só poderia subir uma vez cada um, nunca voltar atrás à procura de melhor caminho e que o Mné Grande era o primeiro a subir.
Era um gosto vê-lo comer, a este pesado amigo.Tinha por hábito dizer que nunca na vida tinha almoçado:«só enganei o estômago!»
Sempre disponível: bastava que se lhe arranjasse um assento mais ou menos ajustado àquela massa informe e se lhe pusesse à mão o que fosse preciso ele fazer: descascar batatas, raspar cenouras, migar carne, e o resto - um pão dos grandes, um garrafão de cinco, uns nacos de presunto, queijo, malgas de azeitona retalhada e, por copo, uma garrafa - . Era assim: ia trabalhando, comendo e bebendo. Aí por essas onze já se ouvia o pigarro da sua garganta. Poucas falas, que quanto mais falasse mais ar entrava e mais se lhe irritava a garganta.Portanto: há que tapar a entrada do ar com mais pão e presunto e queijo e molhar bem a garganta para tudo escorregar comédado.Era só uma garrafinha de cada vez. Assim mesmo: uma garrafinha !
Ao almoço comia pouco- pouco é como quem diz: dois discos de sopa de feijão com couve e massa manga de capote, basta quanto pudesse ser, cinco batatas das grandes, uma massinha de borrego e uma travessa de esparregado de nabo por via dos alhos que catava a cada instante. Duma vez lhe vi comer três cabeças. Era aproveitado: sobrava pouco e, delicadamente perguntava: « as pelharancas, deito-as aos gatos?» às três mais ou menos começava a sesta. Até às cinco. Acomodava-se no assento e pronto, já só se ouvia ronco!
Quando era mais novo o nosso Mnel era trabalhado: arranjava sempre desafios no Domingo à tarde onde ele pudesse ser o vencedor e assim encher o fatinho sempre à mama.
Alguns dos que me lêem hão-de ainda lembrar-se das amoreiras no largo baldio da lameira - resquícios de uma pequena indústria artesanal- . A mais alta estava pegada à tasca do Cavalheiro. Não era raro que a rapaziada se queixasse e, mais ainda, as mulheres que tinham lavar as nódoas provocadas pela tintura da amora.(Se por acaso ficardes com as mãos sujas de comer amoras, o antídoto é lavar as mãos com amoras verdes. A roupa é que não se pode lavar assim) .
A pernada mais alta dessa amoreira tinha inclinação para o lado da estrada e o que se meteu na cabeça do Mné Grande?:«Pago cinco litros a quem me desafiar e chegar mais alto a subir a esta amoreira.» Depois de esperar que alguém aceitasse o desafio,acrescenta: «Cagões, sois todos uns cagões! Pronto: podeis juntar-vos cinco contra mim!» Aí, João 27, chico traitoiras, arrebenta canelas, zé encrencas e macuácua, aceitam a aposta. Impõem como condições que só poderia subir uma vez cada um, nunca voltar atrás à procura de melhor caminho e que o Mné Grande era o primeiro a subir.
A malta começou a juntar-se. Mné Grande ainda protestou, mas logo se ouviram vozes: "agora o cagão és tu"! .
Decidiu-se: embarra pela amoreira acima, galho após galho e com a envergadura dos seus quase dois metros, estica a mão direita, arranca um raminho e precura lá de cima: «Vistens todos donde cortei o ramo?» Confiante na vitória ele aí vem, sorriso franco, a encostar-se à parede. Arranca Encrencas, mas a falta da altura impediu-o de bater Mné Grande. Vai Traitoiras , mas um galho que se escavacou, obrigou-o a voltar atrás e pronto. Mnel não foi de modas: ´"ò Cavalheiro traz aqui 5 litros que alguém os há-de pagar!"Foram ainda tentar bater a altura do Mnel, o arrebenta canelas e macuácua, sem resultado.
Sobrava 27: perninha fina, sempre a piscar os olhos, gracioso no andar - a mulher até dizia que ele dava para modelo! -, tira o casaco de lã, arremanga as calças até um pouco acima dos tornozelos, cospe nas mãos e aí vai. A malta animava-o. 27, calmo, acenava com a palma da mão sinalizando que era precisa muita calma. Segue cauteloso amoreira acima...e o povo: ' o gajo cai, ai cai,cai.....! ' o melhor é agente afastar-se cassenão inda nos cai em cima.'
A pernada estreitava, 27 abanava mesmo no limite e eis que...para espanto de todos, Mnel Grande incluído, faz o pino na pernada e bate com os pés onde Mnel Grande tinha cortado o raminho. Com calma, endireitou-se , desceu até ponto mais seguro e: "Atão e agora, quem é que ganhou?hein?" E todos: ' Anda Mnel, paga e não bufas. Se quiseres um copinho tens que lho pedir por favor! ' e riam-se a bom rir.
Chegou 27 ao chão e são indizíveis os comentários.
Mné Grande praguejava, mas não teve remédio senão arrotar com os cinco litrinhos.
Diz o Traitoiras:" eu cuido que a minha guardou na gaveta umas plharancas de corates que sobraram do jantar de ontem. Vou por elas e de caminho a ver se arrebanho umas cõdeas de pão por mor de termos mataborrão pra tanto vinho." Encrencas empurrou-o logo: «despacha-te!»
27 nem parava dum lado pro outro.Todos lhe davam palmadas e ele:« porra! já chega! vandens mas é a malhar no cu da burra!
Chegou Traitoiras com os restos do jantar e dois couchos e foi um ar que deu aos cinco litros.
Aqui está o poder de uma mão cheia de pelharancas!