Mostrar mensagens com a etiqueta intrudo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta intrudo. Mostrar todas as mensagens

sábado, fevereiro 14, 2015

A NOSSA FALADURA -CCXXXII - CACHARRO

Mnel Belorico era conhecido por engenheiro. Mestre pedreiro por profissão era mais amigo de uns cacharros bem bebidos do que de aparelhar pedra. Dizia alto e bom som para quem o queria ouvir que ninguém sabia pronunciar o seu nome assim comédado: o apelido não era Belorico, mas Belo Rico. É assim a modos que uma mulher se chame Mariana em vez de ser como pertencia ser Maria Ana. Mainada. O povo dizia que era vaidoso e o que melhor fazia era despejar uns bons cacharros no Fatela ou no Zé Rolo. Belorico danava-se. Miguelito, numa festa de entrudo imitou-o: Belorico tinha ajustado uma parede ao Zé Geadas ali para os lados da Saramaga, que tinha caído para a ribeira. Era perto da aldeia e Belorico, perdido e achado estava na tasca do Fatela ou na adega do Zé Rolo. Geadas não era de modas. Tinha uma voz de trovão e morava mesmo a meio, entre as duas tascas na curva do adro a dar vistas para a ponte e se o cocava quer num quer noutra, injuriava-o até à quinta geração, ficando toda a aldeia a saber que Belorico, em vez de trabalhar, passava o tempo na borracheira. Belorico fazia-se surdo e só dizia: «Já lá vou!Daqui até que a ribeira volte a correr inda tens muito que aldeagar». Com o tempo, lá acabou a parede e foi-se ao Geadas para receber o ajuste. "Agora esperas tanto tempo pelo dinheiro como o tempo que demoraste a fazer o muro, engenheiro Belorico". Belorico afinou: «à uma num sou Belorico, mas Belo Rico, e odepoi num sou engenheiro mas artista da pedra, ouviu ou quer que repita?» Foi para as tascas e todos ficaram a saber que o Geadas faltava à palavra e que os que mais têm são os que pior pagam. Tanto pregou que o Geadas, bravo como era, num Domingo à saída de missa o chamou e na frente de quem estava: «Toma lá oh Belo Rico, artista do calhau, conta e vê se tens o que acertámos» Belorico conferiu e "num faz mai que a sua obrigação! Quem deve, paga, mainada"! O povo acabou por ficar indefinido sobre quem tinha razão. Miguelito, no entrudo, acabou por inventar uma rábula em que fez uma choradela aos dois. As paredes de Belorico só ficam direitas se fossem vistas de esguelha e Geadas era um caga de alto. O povo ria, está claro. Belorico encolhia os ombros, Geadas atordoava as pedras aos berros a vociferar que metia Miguelito em tribunal. 
A época do entrudo sempre me fez espécie. Não entendo por que razão uma pessoa deixa de ser o que é e se disfarça noutra, sempre mais horrorosa e feia. Parece que há gozo em se tornarem muito piores do que são. 
Depois, não faz sentido chamarem carnaval a este período introdutório da Quaresma. O termo é italiano CARNE VALE, ou seja, é permitido comer carne e por isso se chama ao Domingo que antecede esta época, Domingo Gordo. Era a altura em que se tirava da salgadeira 'antes que rançasse' a faceira com orelha, o chispe e a última buchanha, se coziam uns valente feijões encarnados e se provava comédado o azeite da última colheita, a ver se provava bem. Eu gostava daquilo. Até Quarta feira de cinzas era um fartar vilanagem, porque depois vinha o jejum e a abstinência, mais para os pobres dos pobres que não podiam comprar a bula que os desvincularia da obrigação de não consumir carne, sobretudo às sextas feiras até Domingo de Páscoa. Já se está a ver que quem as pagava era o bacalhau. A mim, pouca diferença me fazia, que se há peixe de que gosto, o fiel amigo está na linha da frente. Já ENTRUDO é português de lei e por isso às rábulas como as que Miguelito fazia nunca se chamou choradela de carnaval, mas sim choradela de entrudo.
Belorico era amigo do palavreado e se tivesse quem lhe desse troco e lhe pagasse uns cacharros tinha histórias para entreter tempo mais que muito. Morava num recanto da lagariça, numa casota de pedra -também era melhor que não fosse!- mas parava lá pouco. A casota ficava mesmo por detrás da do meu avô, o velho Comandante do inferno que de vez em quando o chamava a atenção, mas Belorico fazia ouvidos de mercador e ala que se faz tarde.
Duma vez meti conversa com ele, num Domingo em que tinha ido buscar um garrafão de tinto ao Comandante: Então, ti Mnel, o que faz agora?, «olha cachopo, agora num faço nada, e inda num acabei" «Mas não acabou o quê se não faz nada?» «é por isso que amanhã volto a fazer o mesmo que faço agora a ver se acabo». Fiquei a olhar para ele e a dizer-me "toma que já almoçaste"!
Quando nos despedimos no largo da lameira ao pé da adega do ti Zé Rolo ainda se saíu com mais esta: « já arreparaste que andamos sempre a comer e nunca matamos a fome?»
E de mim para mim comentei: " afinal Belorico não é engenheiro, é filósofo"
Apressai-vos a comprar a bula senão tendes que jejuar. Se puderdes arreai-lhe com uns cacharros bem acompanhados.
XIIIIIIIIIIII GRRRRRRRRAAAAAAAANDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

domingo, fevereiro 10, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCI - (E)INTRUDO


Declaração de interesses: não aprecio, nunca apreciei o Entrudo, ou como agora é mais conhecido, o Carnaval; discordo em absoluto com a decisão de não se conceder feriado neste dia. E expando: deveriam ser concedidas pontes sempre que o calendário metesse um dia entre feriado e fim de semana. Permito-me um vanguardismo: sempre que um feriado calhasse num fim de semana deveria ser atrasado ou adiantado dois dias e conceder a respectiva ponte (uma ideia tão vanguardista, afinal, como a de passar a celebração de um feriado para o fim de semana.

A supressão do feriado do intrudo (que não era, mas era sempre por ser autorizado), e de mais 4 (que o eram sem precisarem de autorização), enquadra-se, disse um tal Álvaro, “nos esforços de Portugal e dos portugueses para superar a crise económica e financeira que o país atravessa” e que “a ideia é trabalharmos mais e melhor para termos um país cada vez mais a produzir riqueza, um país cada vez mais a criar emprego e certamente um país mais competitivo”. Pareceu-me ver um leve sorriso na cara do Álvaro quando ele lançou estas atoardas a gritar sem falar: é a economia, estúpido!

Agora a sério: sou homem para pagar uma rodada se pudéssemos saltar, num passe de mágica, para daqui a 5 anos e conferir se, ceteris paribus, a supressão dos feriados resolveu a crise, produziu mais riqueza, criou mais emprego e transformou Portugal num país mais competitivo. Perante a infirmação, teríamos, estou certo, ao menos a oportunidade de ouvir as explicações do Álvaro, fazendo jus à definição caricatural do economista: é aquele indivíduo que melhor sabe explicar hoje porque é que se enganou ontem. Como não é possível, nem o salto no tempo, nem o ceteris paribus, desconfio que aquilo que é afirmado como uma verdade científica não passa de charlatanice: não é possível estabelecer uma correlação positiva tão linear entre aquela decisão e o resultado esperado. Ou, se se aceitar como plausível tal hipótese, então esta não o é menos: a concessão de pontes sistematicamente em todos os feriados contribui para a superação da crise, por via dos benefícios económicos, sociais e culturais daí resultantes. Creio que posso até olhar de frente o Álvaro e gritar-lhe sem falar: é a socioculturaeconomia, estúpido!

Como habitualmente, naquele ano, a aldeia animou-se com a visita de dezenas de patrícios migrados que aproveitaram a ponte do entrudo para darem um salto à terrinha. E trouxeram a prole. Alguns, até convidaram amigos que haviam de partir satisfeitos e mais ricos à conta da história apreendida nas pedras de Penamacor, Monsanto, Penha Garcia e Egitânia a Velha. Vieram, como alguns gostam de dizer, recarregar as baterias, saborear a pacatez da vida numa pequena comunidade rural, reviver o acto de dar a salvação a todas as pessoas, relembrar o espírito familiar à volta da lareira, redescobrir o sabor de uns grelos de nabo acabadinhos de apanhar e cozidos em panela de ferro com um naco de presunto, lavar os olhos pelos campos verdejantes na caminhada matinal pelos arredores da aldeia, sentir de novo a curiosidade de saber quem morreu porque o sino tocou a dobrar, não resistir a saltar a parede para roubar meia dúzia de tangerinas daquelas pequeninas e com a casca muito fina mas doces como o mel, rever amigos de infância…

Por estes dias, os mini-mercados registaram movimento inusitado, os cafés ficaram mais barulhentos, os tractoristas aceitaram pagamento adiantado para lavrarem olivais e prados, os empreiteiros da construção civil comprometerem-se a pequenas obras até ao verão, os especialistas da poda adjudicaram vinhas e olivais, até o senhor prior foi chamado a anotar maior número de missas na sua agenda.

Na tarde do dia de entrudo houve oportunidade para assistir no adro, à choradela de entrudo teatralizada por João Cara Velha,  Xico Feijão, Zé Tramoço e Manel Salazar. A situação gozada reconstituía a sua versão da trapalhada que tinha sido o casamento do Xquim Perna Arcada e da Isabelinha Remelica. Parece que o Xquim tinha apanhado uma tal carraspana na noite anterior que por várias vezes foi apanhado a ressonar durante a missa e há quem tenha assegurado que ele terá mesmo soltado algumas flatulências ruidosas. Consta ainda que, dizem os que se deram ao trabalho de se postarem junto à janela do quarto onde, por assim dizer, o matrimónio seria consumado, a noite foi muito animada, mas porque a esposa, despeitada pelas cenas durante a eucaristia, terá resistido a corresponder às expectativas do Perna Arcada, tendo cedido apenas por volta das cinco da manhã.

A história era contada em verso, e os quatro artistas assumiam o papel de padre, sacristão, e, claro, dos noivos. Alguns dos adereços utilizados ultrapassavam a linha do humor dos mais conservadores: o padre apresentava-se com paramentos em sarapilheira em muito mau estado, o sacristão transportava a água benta numa lata ferrugenta com um piaçaba de giesta. Teatro de rua por autênticos amadores.

O Álvaro não estava lá, não se pôde aperceber da importância destas épocas nesta pequena comunidade rural, para o reforço dos laços identitários, na afirmação e redescoberta da cultura e história locais. E na economia local, claro que sim. O coitado, cuida que o problema se resolve com uma injecção de vários milhões para “valorizar” o interior. Claro que ajuda, mas não consegue comprar a identidade que se perde com a redução das visitas dos migrados aos seus espaços sociais de origem, provocada pela supressão dos feriados e pontes.

Votos de feliz intrudo.