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terça-feira, janeiro 15, 2008

A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA

A época das matanças anda aí... Cada fim de semana, o número de cerdos que jura bandeira até meados de Fevereiro é incomensurável. Nunca tem paralelo com o ano anterior, como os paradigmas das revoluções científicas de Kuhn.
A perfectibilidade de um sistema não é, hoje por hoje, a caducidade do anterior. É antes o seu melhoramento. Já a política faz o mesmo: nunca um político diz, numa sessão de vários oradores, que o seu antecessor se esqueceu de dizer o que quer que fosse.... Simplesmente diz: "eu quero acrescentar ao que o meu colega disse antes,...." E assim se vai.
Voltando às matanças: Se o homem se preocupa em arranjar os amigos chegados para a festa da matança, a mulher, essa, preocupa-se com o colorau, com o algodão para atar a tripa, com esta mesma tripa, em escaldá-la, deixá-la de molho com muita laranja, em cortá-la a modos de ficar uma forma graciosa dependurada no varal do fumeiro, com os cominhos, e a salsa , e o alho sem grelo, e o sal grosso, e as batatas sem pó nem borboleta e os feijões para a sopa e as couves esfarrapadas para a dita, e os alguidares, e o areamento do vasilhão , mais ainda as enchedeiras e os funis e os chás e a cozedura do pão e o arroz para o osso da sevã, as trempes para o tacho da meloreja, que sei eu.... O porco é que não sabe nada disto... tem tempo amanhã de manhã...
«Ó Chquim, olha que as facas estão motchas... vê se as aguças comedado que amanhã fazem-me falta pra miguer a carne; tu num queres que eu peça a máquina da carne ao Bogalha, portanto trata de teres as facas em condições....» e o Chquim:« tu é que estás motcha; já ontem à noite agucei tudo: facas e tesoiras, ou pensas que num sei o que faz falta...? »atão tamém te digo que podes alimpar o cu ao aguço! esta que eu aqui agora tenho mal corta a manteiga ao lume...» »Ó fardo! onde é que está essa faca?!» Olha aqui.... tanto corta de frente como de costas...» «Catanos m’a chapem se eu não te trago essa bácora a cortar um guardanapo de papel...deixa cá ver...»
Estas erudições linguísticas prendem-se com aforismos populares que não deixam de ser o que sempre foram apesar da pseudo cultura que agora nos querem impingir...: «mata o porco e conhecerás o teu corpo.»
O que mais dá que pensar é que do que se come menos no dia da matança é o próprio porco. Esse dá a meloreja e o fígado com soventre numa fritada conjunta que há quem não dispense. Pelo meu lado deixo de parte tal pitéu que a meloreja e a sopinha da matança bem me sabe!
Em regra há sempre um galo que vai a ver o avô dele, ou um coelho bem anafado engordado que foi com umas quantas passas de figo e umas bolotas "por mor de alimpar das farinhas ca gente num sabe o que agora lá metem".
Duma vez ia eu e mais o Guilherme Chornico e o seu cão sempre com um pau na boca para não morder, velhaco como era - quase igual ao dono - , o meu pai e o velho Comandante , por essas sete da matina , num Dezembro molhado como um corno, tal as chuvadas que tinham caído, a caminho das Taliscas para a matança da minha ti Ana. Por altiras do Chquim Valente, ali ao alto da estrada de quem vai para a vila, tapada que agora é do Chinchas, ia eu e mais aqueles companheiros quando começamos a ouvir bradar: "Ai jasus! Ai Jasus! Rais parta a minha sorte, Ai Jasus!" Digo eu: «é a ti Ana» e meto fogo aos calcanhares a ver o que se passava... E era mesmo. Vinha preada com o lenço na cabeça, aos gritos e eu a querer que ela dissesse o que se passava e ela nada. Só gritava. Lá chegaram os outros e então: " Eh cachopos, já no há matança...desculpar-me mas já no há matança!" Logo o comandante:" rouberam-te o porco?" « Não; foi uma peste que o matou... parece um tição de carvão, mai negro có mal!...» " Mau, diz o Guilherme, uma peste matou-te o porco? atão é trabalho adiantado " Tu num gozes ca desgraça guilherme dum rai que ta parta...uma faísca caíu mesmo na cabeça do porco e deixou-o num carvão."
A verdade é que ninguém voltou para trás e fomos ver... Era mesmo verdade: durante a noite tinha trovejado e um raio deve ter caído na nuca do porco e fulminou-o. Na verdade era mesmo um monte inteiro de carvão. Nunca tal algum dos presentes tinha visto nem tinha notícia que tivesse acontecido em qualquer parte. O remédio foi fazer uma poça e enterrar o animal queimado.
Diz então a ti Ana:" Olher! o que vos posso servir é uma travessa de carne da cabra motcha que o mê Chquim matou ontem". O Ti Chquim ainda não sabia do desastre e chegou entretanto na sua bicicleta e ficou taranta de todo quando lhe dissemos o que se passara. Tinha ido ao povo a buscar o algodão para as ataduras que tinha ficado esquecido na pedra da lareira.
E eu:" O melhor é irmos a ver se damos uma malha na carne da cabra motcha que é para não se estragar e serem dois os prejuízos"...
Meu ti Chquim foi consolando a mulher e prometendo logo ali que ele já ia a ver dum porco e que a matança se havia de fazer na mesma e a salgadeira não havia de ficar sem presunto nem o escoureiro sem chouriços...
Calmo como era:" Vai por uma pichorra que havemos de sangrar a pipa já que não sangramos o porco."
Lá vem a minha tia com a pichorra e uns copos e não tardou uma malga de azeitona retalhada, um queijinho fresco ainda acinchado, e um barranhão de carne da cabra motcha.
As histórias foram-se sucedendo e a carne minguando, o vinho correndo, o dia clareando e a manhã ganhou-se assim.
Não vos deixo ir sem mais uma, tão verdade como a que acima contei: num dos tempos de natal para aí dos anos sessenta a minha mãe dizia para o meu pai:« olha que não tenho lenha para as filhós nem para secar o fumeiro depois da matança. Depois trazes-me lenha verde como um caçulho só faz fumo e chorar os olhos.» Perante tal descrição, num dia cedo depois de uma noite de trovoada parecida com a que antecedeu a não matança da ti Ana, lá vou eu e meu pai, à quinta do ramalhão com ideia de serrarmos um carvalho que estava mesmo chegado a outro que mais pareciam dois irmãos gémeos... Quando entramos na quinta junto à figueira bogalhal começamos a ver cavacos grandes de carvalho molhados mas secos... Então não é que uma peste caíu mesmo num dos carvalhos e o escarchou de alto a baixo espalhando achas por todo lado?!
O trabalho foi só acadajá-los, meter nas angarelas da burra, e ala para casa; enquanto eu vim trazer uma carga, o meu pai foi ajeitando outra carga e mais outra e a minha mãe nem queria acreditar: ficou com lenha seca e com abundância. Já se podiam fritar as filhós e secar o fumeiro sem chorar por causa do fumo.
Um bom ano para todos!
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

sábado, julho 21, 2007

A NOSSA FALA - XCI - (t) CHINCA

Comecemos por uma lenga lenga: à morte ninguém escapa/nem o bispo, nem o Rei nem o Papa.../Mas hei-de escapar eu: compro uma panela/ meto-me dentro dela/ e quando a morte vier/ Digo-lhe assim: aqui não há homem nem mulher/ Aqui não mora ninguém/ Passe Vexa muito bem.
O ser humano é mesmo um artolas. É o ser mais maligno à superfície da Terra.
Na distribuição dos espaços a cada um dos seres vivos ficaram para últimos o peixe, o lobo e o homem. Perguntou o Demiurgo: «Que queres tu, peixe? » "Quero o fundo mar"; « para ti será»... E tu, lobo, de que espaço queres usufruir»? ; "Do alto das montanhas, Senhor!" «Ficam-te desde já concedidos»; e «e tu, macaco pelado, que queres?»; " Eu só quero arte e manha"; «São tuas». E foi assim que a partir daquele momento nem o peixe escapa no fundo mar nem o lobo no alto das montanhas ao detentor da arte e da manha.
Mné Gaguela era cunhado de TonhoZÉi. Rivalizavam entre si a ver qual fazia menos. A velha Menas, mãe de Mné e sogra de Tonho é que se desunhava na acadeja da lenha e, mesmo já velhinha, ainda ia para os quintos para dar de "mamar" a estes dois.
Só queriam era candonga, andar na moinice, viver na gosmia, mas, o que era indubitável, era que lá iam bebendo sempre o seu copinho a ponto de irem borrachinhos de todo, estrada acima, até ao Mnel Ferreiro, altura em que viravam até ao recôndito lar.
Para se ver a sabujice e a lambugueirice destas duas prendas veja-se que Mné, para não ter o trabalho de se casar, pediu a própria mãe em casamento. Nem Freud no se melhor teria imaginado uma destas!
Tonho Zéi, esse, andava sempre "co reumático". De Verão e de Inverno calçava sempre umas alpergatas espanholas, 'que os pés não me cabem nas botas por mor dos ginetes (=joanetes) e de inverno atolo e ando sempre molhado e o reumático no quer húmido, de Verão em qualquer lado espeto um crapeto (carapeto) ou umas unhas de gato (v.g.-abre olhos ou abrolhos), inté mesmo uma palha de restolho me fura a sola da alpargata (alpergata)', e, por via disso, Tonho Zéi, nem ia à azeitona, que, não sendo trabalho pesado, exigia que os pés andassem todo o dia no degrau da escada e a finura da borracha até fazia parecer que andava descalço, e, de Verão, não ia à ceifa porque podia espetar alguma seta nos pés.
Do que ele gostava era da vindima.... aí é que era... Andava sempre a ver de quem o convidasse para esmagar as uvas. As grainhas não o apoquentavam, podia fumar o seu cigarrinho e matava a sede com tinto do outro ano. Mné Gaguela, nem isso.
Tenho pena que as palavras não reproduzam a fala entoada de Mnel. Mas é assim...
Sócrates (o grego, que não este basófias...) nunca esceveu, porque, dizia, as palavras são polissémicas e quem lê pode ir para onde o locutor não queria, ao passo que o diálogo à hora, se bem que efémero, torna a palavra viva e ajustada.
Esclarece e não dá azo a interpretações dúbias ou ambíguas...
Quer um quer outro, eram expertos no costil. A bem dizer, metade das refeições eram chicha de ave agarrada em armadilha. Tinham agúdias todo o ano e conheciam de cor os melhores agachis.
Preguiçosos a levantarem-se, não eram... Manhã cedo lá iam com os costis engudiados na noite anterior à luz da velha candeia e, por volta do meio-dia, aí apareciam com o almoço. Ainda lhes comprei alguns passarinhos. Tempos...
Tonho Zéi era mais velho e sabia mais da folha do que Mné. Os costis que custavam mais a engudiar dava-os sempre ao Mné e o monte que ele fazia era sempre maior do que o do cunhado. Daí a chamar azelha ao Mné ia um passo e, como cada um sabia os costis que punha, o dinheiro de alguma venda era correspondente aos passarinhos agarrados e nestas coisas, quem mais tem, mais agarra. Mné ficava sempre a perder. Não era raro que andasse dever cigarros a Tonho ZÉi:"ó cunhado, eu pago, eu pago, pró Verão eu pago..." Tonho Zéi tinha uma espécie de régua no bolso e com a navalha acentava cada um dos cigarros que o cunhado lhe pedia. «Contas são contas, mainada»; também os costis que eram mais difíceis de armar porque o arame que segurava a tensão da mola estava muito aguçado para ser mais sensível, também esse, tonho Zéi passava ao Gaguela. Ouviam-se cá fora os praguejos de Mné quando se entalava a experimentar o costil, que (t)chincava facilmente.
O. S. Bartolomeu vem aí. Numa noite dessa festa, já lá vão uns anitos, Mné tinha arranjado umas coroas e comprou cigarros com "cu de cortiça" = (cigarros com filtro). Tinha agarrado um alacrário (escorpião) e meteu-o numa caixa de fósforos dos grandes...
Chega-se a mim, lá lhe paguei um copinho servido pelo meu amigo Zé Cadete que até foi a Nova Iorque na SAGRES, no tempo da vida barata, e :« Ó primo, queres ver que eu vou a (t)chapar o meu cunhado Tonho Zéi!?, queres ver, queres?» " Então como? "« espera aqui que já vês..." Chamou o Tonho Zéi, lá tive que pagar mais três copitos, e Gaguela:´«Ó cunhado queres um cu de cortiça, queres?» "ôia! hoje tens cu de cortiça!? dá cá, homem". «Toma, Toma»! Tonho Zéi agarra no maço tira o cigarro CT e Mné Gaguela, solícito, apresenta-lhe a caixa grande dos fósforos...: «Toma tamém lume, toma »; "cum filha da puta até tens palitos dos grandes...festa é festa...; abre a caixa e mete a mão a pensar que ia tirar os fósforos mas saíu-lhe uma ferroada do alacrário... O que a seguir se passou não pode ser transcrito. Imaginai!
Gaguela no entanto sempre ia dizendo: Toma. toma, é por causa de não me dares sempre os costis que se (t)chincam fácil, toma, bem feita; prá outra vez é pior! pensavas que no mas pagavas, pensavas,?; agora toma!
Não há dúvida: a arte a manha não agarram só peixes e lobos... Agarram-nos a todos.
Para a outra vez logo vos dou mais significados de (t)chincar...
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

sexta-feira, março 09, 2007

A NOSSA FALA - LXXIX - CARRICHO OU CARRITCHO

A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?

terça-feira, maio 30, 2006

A NOSSA FALA -LVII -ACADEJA

Já andáveis com saudades! Todos temos na vida momentos em que o lazer e/ou o prazer tem que ficar adiado. Foi o caso.
Em tempos num encontro com Fernando Namora a que tive a oportunidade de assistir, explicou ele que já tinha todo o livro escrito, faltando-lhe apenas a primeira frase e o título. A estória passava-se no Alentejo, mais concretamente em Pavia, e ele resolveu deslocar-se à vila para ver se se inspirava. Contou que não demorou mais de um minuto a arranjar a primeira frase e título: O livro é "O Trigo e o Joio" e a primeira frase:" a vila é uma rua". Nem mais. Podeis confirmar.
De repente, também me transpus para a curva do adro da nossa Igreja (que bem precisa de umas obras e, pelo menos, das paredes limpas e dos vidros substituídos, e....).
Olhei para cima na direcção de Aldeia de João Pires, e que vi eu? A aldeia como era quando eu era garoto.
Não havia café da Rosa, a casa estava a cair e o Zé Augusto é que a reconstruiu, ao lado onde é agora a casa do Chinchas, era a casa da velha Mona, cuja loja estava arrendada ao Fatela e era onde ele tinha o sal para as salgadeiras e outras drogas que não podia ter na tasca. Lá dentro tinha um poço onde eu ainda refresquei muita laranjada Cristalina e alguma cerveja, para além de uns garrafõezitos de vinho bem arrolhados. O largo, em frente, era terra batida com o talho do ti Zé Rolo e a tasca, na perpendicular a casa de alferes Rei, o homem das festas populares, ao lado da casa do Clube Fernão Lopes que tinha no r/c a barbearia, primeiro do sr. Joaquim Vicente e depois do Domingos Patanisca e Zé Maroco e, à ponta, a tasca do Zé Júlio.
Regressando à estrada -afinal a aldeia é uma rua, como dizia o Namora - passei pela casa da Conceição do Trem que vendia desde chita da tabela até bacalhau corrente e do graúdo, a tasca do fatela, o quintal do chquim pardalinho e menina aguércia onde se comia arroz de manjerico, e logo o do Zé Geadas hoje do Antonino. Em frente a tasca do Chico Miguel que tinha, pasme-se, quatro furdas de porcos coladinhas às escadas que dão, ainda hoje, acesso ao primeiro andar da casa e ao pátio, lá por cima. Logo após, o Tó Robalo e o largo do batoco com a paragem das camionetas. A casa do Carradas, hoje café, era da ti Antónia Costa e tinha por baixo o porco e a burra. Assim mesmo. A da esquina, da Pragana, tinha também um burro e na escadaria de acesso havia um buraco onde estavam as galinhas que andavam livremente pela rua. De vez em quando um carro passava e depenava logo metade da pita. Essa casa do Carradas tinha um balcão alto com laje no cima onde se fazia a descamisa do milho até às tantas. À esquerda ia-se para o cavacal e à direita para o outeiro. O largo do Batoco, onde agora está a sede do tribunal da má língua, tinha uma poça de água ao canto, por detrás da casa, onde o povo embacelava vides. A história deste baldio e da sua "requisição popular" ainda um dia aqui há-de ser contada. As galinhas = pitas andavam livremente por ali e nós jogávamos o pião, a bilharda, o pinoco, o malhão = burro, a esconder e a achar, ao fito, à raioula, ao espeta,... Duma vez ao filho do Zé Pantelhão, o Zé Inácio, que está em França, furei eu a bota com o ferro aguçado pelo ti Mné ferreiro, que lhe deixei o pé pregado. Levei uma malha.
À tarde, era ver as Gornhatas, a Espeta Figos, a Surreição, a mulher do Calça Defuntos, a Tonha Costa, a Nicas e as mais que por moravam por perto, vindas da rega da horta, ali chegavam e«gacha, gacha, gacha, gacha, !pnina, pnina, pnina, pipipipipi...Não sei como, mas as galinhas lá acudiam ao chamamento e estendiam uma passadeira da boca do poleiro até ao chão e as galinhas lá seguiam atrás delas, para o descanso nocturno. Era a ACADEJA.
Quando a semente proveniente das eiras era lançada para os arcazes era a Acadeja. Se te pediam para chegares para perto de quem pedia um objecto distante, do tipo: "ACADEJA-ME aí o foição! era ainda a acadeja. Se te pediam para esconderes o sacho no segundo rego da leira do feijão verde era :"Não te esqueças de acadejar o sacho no rego".
Como ficais agora cientes, esta palavra era polissémica. Maináda!
Mas a estrada continuava: o fechamento do largo da paragem das camionetas era feito pela casa dos pais dos que aqui escrevem e, seguindo acima, vinha o João rela e o João robalo com capoeira e coelheira mesmo ao lado, chegadinhos à oliveira grande que já não o é e que tem a ver com o nosso pratitamem. Em frente, quintal e casa de Julho Casqueiro ou Aspirante, Chico Rolo, Maria Esteves, à esquerda, quintal do Ribeiro e casa do sr Brigadeiro, hoje de nosso Fernando, com a horta da madrinha Angelina e casa do velho Argentino, estrada das Águas, quintais do Carradas e do regedor primitivo, palácio do tenente Birra em frente ao Chico Sarapião e chquim Área..Galinhas por todo o lado e à tarde lá vinham as mulheres, Tecla incluída, mulher do ti Mnel Ferreiro, artista maior de relojoaria e ajuste de aros em rodas de carroças e carros de bois, e: "Pnina, pnina, pnina, gachagacha, gachagacha! Todas acadejavam as suas pitinhas, não raro sem lhes meterem o dedo a ver se o ovo do dia seguinte já vinha a caminho...
Chegamos à curva das antigas escolas, um enorme sobreiro, o forno colectivo, o quintal e casa do professor Tanganho e D. Carminda frente ao Ferro Velho ou Forelho, Zé Verniz, e grande Celestino, paredes meias com o ti João Toscano e Penajóia. Era assim a estrada da nossa aldeia.
Havia apenas duas pessoas que faziam desviar a malta da estrada: Padre Zé Pedro, no seu ânglia e Dr. Landeiro no seu Peugeot. Aí o grito não era ACADEJA, mas ARREDA!ARREDA!ARREDA!
Outro dia logo vos digo como era a estrada do adro para a vila!
Hoje ficamos com este jogo, mas não resisto a que, como estamos em tempo de pesca, vos dediqueis a comer, comédado, uns peixinhos de água doce:
primeiro pescá-los, não destripar nem escamar, acender um bom borralho de esteva ou giesta, queimar a grelha, arranjar uma plangana com água da ribeira onde o peixe se pescou, salgar essa água a gosto, depois um pratinho onde está um molho feito de alho esmagado à bruta, azeite e vinagre.
Eis a sucessão:
1 - aventa-se com o peixe para a grelha, se cair para o borralho não faz mal
2 - vira-se para assar dos dois lados
3 - tira-se com uma sovina
4 - atira-se para a água salgada
5 - recolhe-se e passa pelo prato do molho
6 - põe-se em cima da fatia do pão
7 - papa-se.
Se verificardes bem, aí ao quinto peixe, a água fica quente e o sabor do peixe melhorará substancialmente.
Vantagens: a carne do peixe solta-se das espinhas, toma-se convenientemente do sabor, saboreia-se como pertence, não se suja mais louça - a não ser um copo se não quiserdes beber da borracha ou directamente da garrafa - .
Experimentai!
Ensinamentos de velho, que comigo, acadejou muito peixe na barriguinha.
UM XXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

domingo, dezembro 25, 2005

A NOSSA FALA - XL - ABOBRINHO

Dantes havia muitas eiras por essa aldeia e campos fora.
De luxo, era a da ti Natividade, ali mesmo atrás da igreja: toda em lage, com guardas inclinadas, também em cantaria, com uma área para aí de 80 metros quadrados. Mas, havia muitas outras: no ti Mné Guerra, no Césaro, no velho Cavalheiro e uma também bem jeitosa ali para o chão do Robalo onde vivia quase meia aldeia nos tempos idos: zé padre, tonho troncho, ambrósios, feijão, césaros, sabão, potes, menina aguércia, e logo depois, puta maluca, passa culpas, abades, rainhos, ferrenho - já a dar para o bacharel- . Viam-se todos nas matanças e, claro, nas malhas. A semente juntava-se numa eira, onde o acesso da malhadeira, que, ao tempo, tinha rodas de ferro e era traccionada por um tractor, não fosse muito complicado. Isto, quando havia quantidade que justificasse a máquina, como lhe chamavam, porque, muitas vezes, a malha era a mangoal e o mandador era, quase sempre, o padre zé.
Engraçado foi uma vez o professor Leitão que quis pôr uma mota velha a fazer andar a máquina... Faz lembrar a história do S. Luís nos Escalos de Baixo: num ano em que não chovia tiraram o Santo da capela e fizeram-lhe uma procissão a ver se as núvens apareciam. A procissão acabou mas a água não chegou. Vai daí, o papa-arroz sai-se com esta: ' se o santo não nos dá água, damos-lha nós a ele'. e ala! : tiraram o santo do andor e aventaram com ele para dentro do poço, ali pertinho da capela. E não é que depois começou a chover?!!!.
O mesmo com o professor Leitão: a mota não fez andar a malhadeira e, de castigo, levou-a para o poço que tinha no chão colado à ribeira, ali mesmo, pegado ao café do Cavalheiro, mesmo ao lado da ponte, e obrigou a mota a tirar água. Eu vi! E tirou mesmo: Fazia re(de)moinhos na pia de pedra e ainda enregueirei a água para os tomates que o professor tinha por debaixo de uma nogueira enorme que aí havia. Era habilidoso o professor Leitão. Parecia o inventor Pardal! Engenheiro era também o nosso querido Amandinho, filho do dito, que vinha todas as Segundas--Feiras a Castelo Branco, ainda a estrada era em MacAdame, no super famoso Réu-Réu-Tum-Tum, uma preciosidade duma arrastadeira, que pegava a manivela e/ou de empurrão e a canalha, entre a qual eu, subia toda para cima e aquilo não amelancava! Chegávamos a andar vinte em cima do réu réu tum.
A matrícula era AC-00-01. Nós até lhe chamávamos o Antes de Cristo por causa do AC.
Vim nele fazer o exame de admissão à Escola e ao Liceu a Castelo Branco.
Comigo, fazia exame o menino Zequinha, filho único do sr. Barbas, que tinha um armazém de solas e cabedais ali junto à Sé. Quando me viu tão cedo, antes da chegada da camioneta da carreira, perguntou-me como tinha ido: «vim no réu réu tum tum»."Isso o que é"? «É um carro antigo com eixos de pau»."tu és maluco! agora eixos de pau!" «É verdade!». Fizemos o exame escrito e antes de ir para o almoço diz-me o Zequinha: "onde é que está o carro"? Levei-o lá. Deitou-se no chão a apalpar o eixo, chegando mesmo a raspar com uma latinha: "puto de merda! bem me enganaste: os eixos são de ferro!" e eu: « não, não são! parecem! São de pau-ferro que vem do Brasil». O Zequinha foi para casa com esta e foi o fim da tourada.
Bem, mas o que nos trazia aqui é o abobrinho.
Passou-se (ou não, que interessa?) na eira do choupa, para os lados dos pinheiros: Julho no fim, calor de assar tordos ao meio dia.
Puta Maluca, Passa Culpas, Aguércia, velho Comandante (há quanto tempo não aparecia o meu velho avô!), Rainho, Bombo, Ambrósio, Proença, e, claro, o Choupa, tinham todos a semente, dum lado e do outro da eira, para a máquina entrar no meio das duas medas e a malha acontecer nos primeiros dias de Agosto. Era regra que ao S. Bartolomeu já tudo devia estar bem acadajado e era preciso pagar a côngrua ao sr. prior e a poia pelas barbas ao patanisca.
Era para ser!
Então não é que a 28 ( ou seria 29?) desse mês de Julho se alevanta um cabrão dum abobrinho que, com vento com uma força dum filho da puta, rodopiando sobre si mesmo, passa no meio das medas da semente e arranca tudo para o céu! molhos inteirinhos de semente, de grão bem grado, foram cair a mais de cem metros! Aqueles que se desprenderam dos nagalhos espalharam-se pelo astro e foi ver cair palha e mais palha por toda a zona, até mesmo na aldeia! Um prejuízo dum corno!
Tudo olhava para o céu incrédulo, inventavam-se justificações para o fenómeno, a ti Rosa Manata, fez uma reza com esconjura, em pratinho novo de esmalte, com azeite virgem e raminho de oliveira guardado, propositadamente para estas ocasiões, desde o Domingo de Ramos ; a velha Bate-Orelhas faz quatro figas atrás do cu, e o Zé Borges (figura incontornável, que um dia há-de ser visita aqui no nosso blogue) não foi de modas: «Isto foi obra dos cabrões dos espanhóis que se puseram todos ali na fronteira a assoprar para não deixarem para cá passar as núvens com água.»
Deve ser por causa disto que: "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento".