São muitas as teses acerca da linguagem e da linguística, bem como das funções da linguagem e mais ainda da sua utilização e finalidade. Não cabe, obviamente, no contexto deste encantador passatempo, o exercício de deambulações retóricas comparando, ou mesmo contrapondo teses a propósito desta variedade de leituras das funções da linguagem.
A verdade é que nem sempre aquilo que dizemos é entendido como gostaríamos que tivesse sido e não podemos levar a mal que o OUTRO, sempre O GRANDE OUTRO, não nos entenda com a clareza que nós pensamos ter-nos expresso. Esta presunção da clareza quase cartesiana de que partimos ao dizer que "É EVIDENTE" é, de si, uma petição de princípio, já que jamais posso pressupor que algo que eu diga seja, prima facie, evidente. A evidência é algo que o outro decide e não o que eu pressuponho. Defender que há indubitabilidades iniciais é querermos reduzir os outros a nós e impedi-los de pensar. Ora isso é o que aqui não vai acontecer. O que mais se aprecia é quem nos lê, pense por si e , se entender, disso nos dê eco, mesmo que, e ainda bem, não concorde connosco.
Sirva de exemplo a palavra que hoje aqui trazemos. O normal - o evidente - parece ser que tem a ver com fogo e até mais rigorosamente tem a ver com uma profissão - a daquele homem que alimentava a caldeira do comboio a vapor como se vê ainda nalguns filmes ou nos que ainda hoje, já não a carvão, mas, na maioria dos casos a nafta, ou outro combustível mantêm altos fornos sempre na temperatura ideal.
Nada de mais distante: no vocabulário xêndrico o fogueiro é o FUEIRO. Isso mesmo: aquele varapau, em regra de eucalipto, mimosa ou carvalho que ladeava, encalhado em buracos quadrados nas laterais dos carros de bois e que tanto serviam para amparar molho de erva ou palha, como até os taipais provisórios a fim de a mercadoria não ser apanhada pelas rodas e mesmo cair (estrume, por ex.). Quando se tratava de grandes transportes, como com os moios do cereal, aí ,os fogueiros mudavam de nome e chamavam-se estadulhos.
Montar sessenta molhos de semente em cima do estrado dum carro de vacas, era tarefa que nem todos eram capazes de levar a cabo. Se a carga caísse naqueles córregos dos caminhos velhos era certo e sabido que dava direito a choradela de entrudo e a vergonhas contínuas nas tardes maledicentes dos domingos, depois de missa enquanto se jogava o fito. Isso era limpinho.
Os Tiagos moravam num arrendamento ali para os lados do Frade a dar cômoro com as taliscas. Trabalhavam como moiros e as terras andavam sempre rodadas, semeando e alternando as colheitas para a terra não se cansar. A fona era de sol a sol e desde cedo, como aliás era costume,os garotos começavam a aprender, a bem ou a mal, o que custava a vida... O mais velho dos Tiagos estava a dar os molhos do pão ao pai com uma forca, quando, de repente, sente umas dores agudas, começa a vomitar e aos berros: " Ca raio tens, que bicho te mordeu, rais ta parta, olha agora". O velho Tiago desce do cimo do carro ainda a praguejar, mas quando viu o filho naquele estertor viu que o caso não era mangação e arrancou à pressa na burrica para a vila a ver do dr. Landeiro. O cachopo berrava que nem um capado mas lá chegou, o dr. landeiro viu logo o que passava e ala : internado imediatamente para ser operado à apêndice... Bons tempos aqueles em que se operava em Penamacor no velho hospital de st António...
Já se sabe que o asseio do homem campesino não era famoso e o tarro de suor e até de fezes agarrava-se tanto ao corpo como às ceroulas... Como a operação era mesmo premente lá foi o Tiago para a barrela. Vestem-lhe uma espécie de bata e vai para a sala a arrastar-se. Está bem de ver que a operação é inimiga de pêlos púbicos e que a enfermeira de serviço tinha que proceder à raspagem dos ditos. Ora para evitar cortes desnecessários e escusados era preciso arredar o pistolo como lhe chamava o Tiago. Diligente, a enfermeira agarrou no falo do tiago para o manter em posição que permitisse o barbeamento. Só que o tiago nunca tinha tido uma mulher que lhe tivesse mexido no ponteiro e sai-se como esta:" Já o pode deixar que ele não cai". A enfermeira riu-se e o Tiago gabava-se do tamanho que o fogueiro tinha atingido.
Xi Grande
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sexta-feira, outubro 09, 2009
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
A NOSSA FALA CIV - CHORADELA DE ENTRUDO
Não sendo versado em Latim (para isso está aí o changoto), quer-me parecer que Entrudo há-de derivar de alguma palavra dessa antiga língua e que haveria de ter um significado próximo de “entrada”. Estaremos então num tempo que marca o início de algo. A curta pesquisa que fiz bastou-me para chegar a 2 “entradas”.
Uma, remete para a era AC, durante a qual, fosse entre os Celtas, os Celtiberos, os Gregos ou os Romanos, as festividades representariam a celebração do (re)início da vida, o fim do Inverno e a “ressureição” da Mãe Natureza. Em termos simples, o anúncio de que a Primavera estaria próxima. Uma antecipação às andorinhas e ao “dácáocú” do cuco, pois.
A outra “entrada” foi aberta pelos sábios teólogos apostólicos romanos – na era DC, evidentemente - na sequência dos ditos e feitos do Cristo, os quais determinaram que o Entrudo passasse a marcar o início (a entrada) de outra coisa. Chamaram-lhe os sábios teólogos, Quaresma, um período abstinencial que culminaria não já na “ressureição” da Mãe Natureza mas do próprio JC.
Em qualquer dos casos, aceitava-se que a “entrada” devia estar associada a liberdade e ser comemorada em festa, e que a festa devia ser de arromba, sendo socialmente tolerado o abuso. O povo aproveitava a trégua para satirizar o clero e a nobreza, para troçar dos costumes e da moral vigente, para dar largas a pulsões primárias. À cautela, fazia tudo isso sem mostrar a cara, escondida por uma máscara, não fossem os poderosos ficar melindrados com a mordacidade da crítica e mostrarem ao povo que continuavam poderosos no dia seguinte. A ideia evoluiu para variados formatos e alvos: os poderosos foram substituídos pelos pares da comunidade, o que, convenhamos, era muito menos perigoso e reconhecidamente mais cómico. Também era mais purificador por via da purga que conseguia operar através da denúncia e exposição pública de certas situações que ocorreram ao longo do ano e respectivos protagonistas.
Um desses formatos, antigamente utilizado na terra dos Xendros adoptou a designação de Choradela de Entrudo, e funcionava como catarse da própria comunidade. Por estes dias, João Frêtas, Miguelito e companhia, percorriam as ruas da Aldeia a exibir ostensivamente exemplares da revista Gina e acabavam no Adro ou na Lameira a dramatizar as situações caricatas e a satirizar os protagonistas, para gáudio dos conterrâneos, excepto, claro, dos visados.
Muitas das histórias contadas aqui no Baságueda são dignas de choradelas de Entrudo, como as que se relataram aqui e aqui . Acrescentam-se mais duas ao rol, para eventual encenação:
1. O ano era de seca e Ti Fcisco Cocharra viu esgotar-se a água do poço, ainda os tomates e os pimentos estavam verdes. Ele bem procurou gerir o precioso líquido, regando quase de noite, e adoptando a técnica localizada com o regador em vez do encaminhamento nos regos. Determinado a fazer horta farta como nos demais anos, decidiu-se por recorrer à água da rede, mesmo que tivesse de a transportar desde a sua casa no povo. Davam as 4 no relógio da torre da Igreja, ajeitou o cabresto e a rédea no burro, assentou-lhe o bornil e a canga e colocou-o entre os varais da carroça. Atou bem os dois bidões de latão aos fogueiros, encheu-os com água a partir da torneira, e iniciou a primeira de muitas viagens entre a aldeia e a sua horta. Pouco se importou que os vizinhos, estremunhados, tivessem vindo à janela a recriminá-lo por causa do barulho que as rodas de ferro faziam a rolar na calçada.
Ao fim do dia, já ele tinha meio metro de água no poço.
2. O jeito para o negócio estava no sangue ao Ti Zé Labouxa. Negociava em tudo, desde porcos a batatas, de ferro-velho a cortiça. Sempre atento às oportunidades, fazia questão de não perder uma. Estava ele a beber o alboroque da venda de uma mula quando se sentiu atraído pela conversa que, ao lado, mantinham Zé Luís Barata e Mnel Frêtas, dois exímios da aldrabice, uma arte que haviam de apurar com o tempo. Confidenciava o primeiro ao segundo que um espanhol lhe tinha oferecido 5 contos por cada quilo de cascas de alho que lhe arranjasse. Parece que o espanhol as queria para remédios, mas tinha de ser depressa e ele, rais parta a sorte, não podia alinhar no negócio porque tinha de ir a Lisboa a casar um sobrinho. 5 contos era dinheiro, naqueles anos 60, e o Labouxa não hesitou em ficar com o negócio do outro. Consta que andou dias a arrebanhar forros onde havia alhos armazenados, chegou até a comprá-los só para lhes tirar a casca.
Bons entrudos.
Uma, remete para a era AC, durante a qual, fosse entre os Celtas, os Celtiberos, os Gregos ou os Romanos, as festividades representariam a celebração do (re)início da vida, o fim do Inverno e a “ressureição” da Mãe Natureza. Em termos simples, o anúncio de que a Primavera estaria próxima. Uma antecipação às andorinhas e ao “dácáocú” do cuco, pois.
A outra “entrada” foi aberta pelos sábios teólogos apostólicos romanos – na era DC, evidentemente - na sequência dos ditos e feitos do Cristo, os quais determinaram que o Entrudo passasse a marcar o início (a entrada) de outra coisa. Chamaram-lhe os sábios teólogos, Quaresma, um período abstinencial que culminaria não já na “ressureição” da Mãe Natureza mas do próprio JC.
Em qualquer dos casos, aceitava-se que a “entrada” devia estar associada a liberdade e ser comemorada em festa, e que a festa devia ser de arromba, sendo socialmente tolerado o abuso. O povo aproveitava a trégua para satirizar o clero e a nobreza, para troçar dos costumes e da moral vigente, para dar largas a pulsões primárias. À cautela, fazia tudo isso sem mostrar a cara, escondida por uma máscara, não fossem os poderosos ficar melindrados com a mordacidade da crítica e mostrarem ao povo que continuavam poderosos no dia seguinte. A ideia evoluiu para variados formatos e alvos: os poderosos foram substituídos pelos pares da comunidade, o que, convenhamos, era muito menos perigoso e reconhecidamente mais cómico. Também era mais purificador por via da purga que conseguia operar através da denúncia e exposição pública de certas situações que ocorreram ao longo do ano e respectivos protagonistas.
Um desses formatos, antigamente utilizado na terra dos Xendros adoptou a designação de Choradela de Entrudo, e funcionava como catarse da própria comunidade. Por estes dias, João Frêtas, Miguelito e companhia, percorriam as ruas da Aldeia a exibir ostensivamente exemplares da revista Gina e acabavam no Adro ou na Lameira a dramatizar as situações caricatas e a satirizar os protagonistas, para gáudio dos conterrâneos, excepto, claro, dos visados.
Muitas das histórias contadas aqui no Baságueda são dignas de choradelas de Entrudo, como as que se relataram aqui e aqui . Acrescentam-se mais duas ao rol, para eventual encenação:
1. O ano era de seca e Ti Fcisco Cocharra viu esgotar-se a água do poço, ainda os tomates e os pimentos estavam verdes. Ele bem procurou gerir o precioso líquido, regando quase de noite, e adoptando a técnica localizada com o regador em vez do encaminhamento nos regos. Determinado a fazer horta farta como nos demais anos, decidiu-se por recorrer à água da rede, mesmo que tivesse de a transportar desde a sua casa no povo. Davam as 4 no relógio da torre da Igreja, ajeitou o cabresto e a rédea no burro, assentou-lhe o bornil e a canga e colocou-o entre os varais da carroça. Atou bem os dois bidões de latão aos fogueiros, encheu-os com água a partir da torneira, e iniciou a primeira de muitas viagens entre a aldeia e a sua horta. Pouco se importou que os vizinhos, estremunhados, tivessem vindo à janela a recriminá-lo por causa do barulho que as rodas de ferro faziam a rolar na calçada.
Ao fim do dia, já ele tinha meio metro de água no poço.
2. O jeito para o negócio estava no sangue ao Ti Zé Labouxa. Negociava em tudo, desde porcos a batatas, de ferro-velho a cortiça. Sempre atento às oportunidades, fazia questão de não perder uma. Estava ele a beber o alboroque da venda de uma mula quando se sentiu atraído pela conversa que, ao lado, mantinham Zé Luís Barata e Mnel Frêtas, dois exímios da aldrabice, uma arte que haviam de apurar com o tempo. Confidenciava o primeiro ao segundo que um espanhol lhe tinha oferecido 5 contos por cada quilo de cascas de alho que lhe arranjasse. Parece que o espanhol as queria para remédios, mas tinha de ser depressa e ele, rais parta a sorte, não podia alinhar no negócio porque tinha de ir a Lisboa a casar um sobrinho. 5 contos era dinheiro, naqueles anos 60, e o Labouxa não hesitou em ficar com o negócio do outro. Consta que andou dias a arrebanhar forros onde havia alhos armazenados, chegou até a comprá-los só para lhes tirar a casca.
Bons entrudos.
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