A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?
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sexta-feira, março 09, 2007
sexta-feira, agosto 26, 2005
A NOSSA FALA - XXII - GOZMIA
Bardina por excelência, Varinha de Arado chegava mesmo a alugar a bicicleta com um furo, à canalha. Aos domingos, depois de missa - ele era sacristão - aí aparecia ele, montado na sua vermelha marca BEATLES, apoiava o pedal sem apoio, suspenso do crenco e com a roda pedaleira sem dois dentes que fazia com que , sobretudo a subir, se tivesse que apanhar o jeito para que a força dispendida não fosse por água abaixo. Marrafinha sempre composta, com BRYLCREAM, à moda do Elvis, sapatinho de verniz, em bico, tipo mata barata ao canto da sala, como aqueles que agora se usam, Varinha, calça sempre bem vincada - era ele mesmo que as passava com o ferro largo, preto com um galo encarnado na ponta e que servia de abertura onde o carvão de azinho cuspia espanhóis e respectivas fonas enquanto esbrazeava o ferro fundido, dando-lhe uma têmpera dum filho da puta - Varinha naquela postura de tiralinhas, mandava hóstias. Botava-se para o polido do ferro um salpico de água e não evaporava, vaporizava-se, mais ainda, sublimava. Era sempre preciso pôr uma entretela das grossas entre o ferro e a peça a passar senão deixava em fanicos ou com um lustro que mais parecia o cabelo de lagareiro por alturas do natal: até alumiava!. Quando não havia água à mão uma cuspidela indicava o quentor do ferro. Chegámos, eu e ele, às escondidas, a fazer uma espécie de tostas mistas com pão ázimo, queijo de cabra e fiambre que o chquim bota-abaixo nos trazia da tasca do ti manel seguro, aquela mesma onde o Cunhal comeu e bebeu uns copos: aquilo bastava pôr uma lata IC limpinha que eu tinha cravado ao velho aranhiço por cima do resto das hóstias com o queijo e o fiambre alternados e em quantidade bastante para justificar o copázio de branco que íamos aproveitando das sobras da missa - aquilo é que era um branquinho !-, bastava, dizia, pôr a latinha por baixo do ferro quando ele estava no ponto, pressionávamos um bocadinho dum lado e depois do outro e, com filha da puta - não havia e acho que nunca mais haverá, tostas mistas daquela qualidade. Sobretudo na altura da desobriga, por voltas de Páscoa, velhos e velhas tudo se ia a confessar, os padres eram mais que muitos, tocava-se o sino, a igreja enchia e era um fartote de fazer hóstias naquela máquina antiga manual que parecia em coffret. Tirávamos aí obra de dez hóstias de cada pão, doze se aproveitássemos bem as curvas... mas quando queríamos fazer as tostas, aí, tirávamos só oito. Éramos artistas...
Um dia contei a história ao Verniz ferro velho e o gázio queria mama. « Tu queres é gozmia», disse eu e fui dizer ao Varinha. "Se o Verniz palmar cinco litros e uma galinha deixamos-lhe provar as nossas tostas» disse o Varinha. E eu fui direito ao Verniz: ' Ó ferro velho, se queres provar o branquinho de missa e mais as tostas de queijo e fiambre, palmas cinco litros de tinto ao velho e uma galinha pedrês à velha' . E o Verniz:« Vós quereis é gozmia!» Vou-vos mas é acusar ao padre e vandens a ver o que é o bom e o bonito»! O Varinha estava a chegar e ouviu: «Ó meu cabrão, se contas alguma coisa a alguém vou já eu a dizer ao teu pai onde é que tu escondeste as alpergatas e as meias mais os rebuçados de leite que lhe sacaste do carrêgo». Aí o Verniz ficou branco! «Pronto, está bem»; «lá os cinco litros eu arranjo mas a galinha pedrês não pode ser». E o Varinha: "trazes dez litros da pipa grande - eu arranjo-te os garrafões - e papas duas tostas das de oito hóstias" . O Verniz, perante tal troco, estende a mão ao Varinha e: "Combinado" É já amanhã! " . E foi. Espetamos uma bezana ao Verniz que tive que lhe meter azeite pela boca e vomitou as escadas todas ao Césaro. Mal saboreou as tostas, coitado!.
Varinha, entretanto, tinha outras habilidades: como já vos disse, encostava o pedal sem apoio suspenso do crenco da vermelha marca BEATLES ali ao pé do café da Rosa a dar vistas para o adro e a canalha que, aos Domingos depois de missa, ia a pedir a benção ao padrinho, à madrinha ou ao avô ou avó,..., os velhos punham a mão sobre a cabeça dos garotos:"Nosso senhor tabendçue (= te abençoe), meu filho! " e , invariavelmente , abriam o porta moedas e lá saíam dois tostões, raramente uma coroa, e a canalha já estava a lamber-se com os bolsos cheios de amendoins da tasca do chico ou com o cartucho de tremoços da rancheira embrulhados em papel de lista telefónica de Lisboa! Só que... Depois de almoço o adro enchia aos Domingos! Qual costil armado a taralhão esfomeado com agúdia cavalal a reluzir aos primeiros raios de sol nos finais de Agosto, Varinha ali estava com a vermelhinha encostada ao passeio do café da Rosa a dar vistas para o adro: os garotos arranhavam-se: ou uma volta na BEATLES ou um cartucho de tremoço da rancheira. O trato era sempre o mesmo: ir ao alto da estrada e voltar por uma coroa. Aquele que ao fim demorasse menos tempo tinha direito à coroa devolvida. Todos os Domingos havia espapada: os que perdiam asseveravam a pés juntos que o ganhador não tinha chegado ao cimo do alto da estrada. Varinha não perdia a calma: «Pronto! vamos todos até ao alto. Eu fico lá e aqui o lobo cerval - Era EU - fica aqui a ver quem dá a volta ao adro e regressa ao alto da estrada.» E lá iam, Varinha, de bicicleta, pois claro, acusadores e acusado, todos, até ao alto. Eu ficava ali. Não tardava aí vinha o ganhador sempre a tocar a campainha e a berrar que os velhos estavam sempre no meio da estrada, dava a volta ao adro e aí ia ele outra vez até ao alto. Varinha tinha um cronómetro: com uma cunca de telha escrevia-se o tempo e o nome no alcatrão. Decidia-se o vencedor mas a coroa nunca regressava:« Então, e quem é que emprestou a bicicleta para o tira teimas?», perguntava o Varinha, e continuava: « se queres a coroa de volta pede-a ao trafulha» Mais espapada. Eram giras as tardes de Domingo!
Duma vez Varinha caçou-me uma fotografia da gaja que eu mais admirava:"se a queres de volta dás-me cinco coroas". E eu: « Não querias mais nada: tu queres è gozmia». "É contigo, quando a quiseres sabes onde está. Trazes as cinco coroas e levas a foto e dás duas voltas na bicicleta". O preço não baixou mas a contrapartida era atractiva. Lá consegui bifar as cinco coroas, passei-as para a mão do rói vides, Varinha passa a fotogafia para a outra mão do rói vides e pronto: foto para mim, cinco coroas para o Varinha e a bicicleta ao dispor. Dei a volta grande: aldeia de joão pires , aranhas, cruzamento das taliscas e aldeia. Varinha estava danado. "Já cá não tornas a pôr o cu". E eu: «Querias gozmia, não?»
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