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terça-feira, agosto 19, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXVII - ESPAPADA

Já muita vez aqui no basa fizemos referência à chamada "lei do menor esforço" no que concerne à linguagem popular e à sua, em tempos!, decisiva contribuição para o aumento do vocabulário português. A palavra que hoje vos trago beneficia exactamente dessa lei: espapada é uma deturpação fonética de sopapada. Experimentai vós mesmos a dizer cada uma das palavras e depressa notareis que espapada é muito mais fácil e até bonito de dizer do que sopapada.
Joaquim Rebelo era mecânico na firma Petronilho. Era homem para perto de 2 metros de altura, espadaúdo quanto baste, pachorrento, calmo, muito ponderado. Era senhor de uma força hercúlea: chegou a levantar uma carrinha de caixa aberta enquanto Zé Jaque lhe montava o pneu de trás que tinha tido um furo. Creio que foram poucos os que o viram irritado. Apanhava todos os dias a carreira das 9 para a vila. Eu era miúdo e como morava mesmo em frente da paragem da camioneta, muitas vezes, nos tempos de férias, andava por ali a jogar ao pião. Joaquim Rebelo pedia-me o pião e do alto da sua estatura atirava com ele com tal força que marcava o alcatrão e zunia de forma que mais ninguém conseguia fazer. Muitas vezes o pião não resistia ao impacto no alcatrão e o ferrão entrava por ele dentro, escaqueirando-o. Acto contínuo , metia a mão ao bolso e do porta moedas saíam cinco mil réis que vinham parar à minha mão. Lá ia eu, todo contente, ao Ti Chico Miguel a comprar outro novinho em folha. Era preciso tentear bem o pião para que estivesse sempre bem equilibrado, sem defeitos de torno, cossenão ficava esgravuna e ao deitá-lo na roda , tanto podia vir para fora como ficar lá dentro e depois ficava na poça sujeito às nicas até que amigo o tirasse do sal. Muito piãozinho novo estreei eu às abas do senhor Joaquim Rebelo. Morreu novo ao cair de uma escada cujo degrau não aguentou os seus 130Kg.
Num Domingo à tarde, depois de missa, no adro, o Melro pegou-se com Cagarela. Os copos ajudavam à luta e ora caía um ora o outro, não se definindo o vencedor da contenda. Melro, porém, acabou por dar uma espapada em Cagarela que o ardulhou no pó do terreiro. Começou ao pontapé e o caso estava a ficar feio porque Melro já não se continha e Cagarela estava desmaiado, sem reacção. Joaquim Rebelo apressou-se agarrou Melro pelo bibe, levantou no ar e disse-lhe que já chegava. Melro quando se sentiu no chão ia voltar à carga com ideia de continuar a malhar no Cagarela. Rebelo aí não foi de modas: assentou-lhe uma espapada que o pobre do Melro ficou a ver estrelas por uns minutos. Acabaram por acordar os dois a poder de uns caldeiros de água pela cabeça abaixo e a ouvir as ordens de Joaquim Rebelo: "Cuca daqui para fora. Não vos quero voltar a ver aqui hoje. Rodo!". Cagarela meteu caminho das Águas abaixo direito à casa queimada e à quinta do ramalhão e Melro abre caminho às endireituras do Cavacal até à cruz e espojou-se o resto do dia a apalpar a cara onde lhe tinha assente a espapada de Rebelo.
Também eu às vezes levo com cada espapada que até fico atordoado. Mas não são espapadas físicas, são outras.
Dei por mim a confirmar o que já por mais de uma vez tinha constatado, mas que agora com a guerra no Iraque volta a actualizar-se. Até mais, porque se desconfia que o responsável por um ataque suicida à bomba teria sido perpetrado por um português, entretanto convertido ao Islão mais radical.
Foi mesmo como se tivesse levado uma espapada.
Lembrei-me de um debate entre quatro representantes das três religiões monoteístas mais tradicionais: Judaísmo, cristianismo, (catolicismo e protestantismo) e islamismo.
O que agora vos vou apresentar é a transcrição "ipsis verbis"  de um artigo publicado por um famoso advogado francês de nome Gilbert Collard. O conhecimento do artigo em português deve-se a Fernando Tavares e data de 30/3/2014.
«O que é um "infiel" para um muçulmano.
Como demonstram as linhas que se seguem, fui obrigado a tomar consciência da extrema dificuldade em escolher entre Alah ou o Cristo, até porque o islamismo é a religião que mais progride no nosso país (França).
O mês passado participava num estágio necessário  para a actualização da minha habilitação de segurança nas prisões. Havia nesse curso uma apresentação por quatro intervenientes, representando respectivamente as religiões católica, judaica, protestante e muçulmana explicando os fundamentos das suas doutrinas. Foi com grande interesse que esperei a intervenção do Imam.
Terminadas as intervenções chegou-e ao tempo de perguntas e respostas e, quando chegou a minha vez, perguntei: «Agradeço que me corrija se estou enganado, mas creio ter compreendido que a maioria dos Imams e autoridades religiosas, decretaram a Jihad (guerra santa), contra os infiéis do mundo inteiro, e que matando um infiel (o que é uma obrigação feita a todos os muçulmanos) estes teriam assegurado o seu lugar no Paraíso. Neste caso poderá dar-me uma definição do que é um' infiel'.? Sem nada objectar à minha interpretação e sem a menor hesitação, o Imam respondeu : um não muçulmano. Eu retorqui: permita de me assegurar que compreendi bem: o conjunto dos adoradores de Alah devem obedecer à ordem de matar qualquer pessoa, não pertencente à vossa religião, a fim de ganhar o paraíso, não é verdade?
A sua cara, que até aqui tinha revelado uma coerência cheia de segurança e autoridade transformou-se de repente na de um puto apanhado em flagrante com a mão dentro do açucareiro. É exacto, respondeu ele num murmúrio. Eu retorqui: Então eu tenho bastante dificuldade em entender que o Papa diga a todos os católicos para massacrarem todos os vossos correligionários, ou o pastor Stanley dizer o mesmo para assim garantirem um lugar no Paraíso. O Imam ficou sem voz. Continuei: Tenho ainda sérias dificuldades em ser seu amigo pois que o senhor e seus confrades incitam os vossos correligioários para me cortarem a garganta. Permaneceu silencioso. Só mais uma questão: o senhor escolheria Alah que vos ordena matar-me para alcançarem o Paraíso, ou o Cristo que me incita a amar-vos para obter o mesmo paraíso? Podia ouvir-se uma mosca na sala. O Imam permanecia silencioso»..
Para a semana trago-vos outras curiosidades, mas agora do cristianismo. 
Já agora e para despedida : qual é a palavra no plural , com 7 letras e que tanto se lê de diante para trás. como para a frente (capicua)? Ela já consta do texto acima só que está no singular .
XXIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGRAAAAAAANNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDEEEEEEEE

sexta-feira, março 09, 2007

A NOSSA FALA - LXXIX - CARRICHO OU CARRITCHO

A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A NOSSA FALA - LXXII - MANCAR

O Homem é, por natureza, agressivo. O seu cérebro reptiliano sobrepõe-se a qualquer adorno civilizacional. Kant bem bradava que era o MAL RADICAL que caracterizava a natureza humana; Nietzsche, curiosamente anti kantiano na sua essência, acabava por concordar com o chinês de Konigsberg (o mesmo Kant), quando acarretou para o mundo da filosofia os conceitos de VONTADE DE PODER e de INSTINTO VITAL. O que nos caracteriza de modo a não deixar qualque dúvida é que nenhum de nós gosta de ficar por baixo. Se nos pisam, logo clamamos:"o de baixo é meu, o de cima é de um judeu". Foi assim que, um dia, Montes Hermínios e Zé S. Marcos (curiosamente fazia anos a 25 de Abril, dia do santo e da revolução das forças armadas) se pegaram: S. Marcos tinha descido a barreira do Oiteiro ainda meio atarantado dos vapores da bebedeira da noite anterior, embolsa umas quantas escarretas, ardulha-as e atira-as para a terra pisando-as com a bota cardada, usual em dias de domingo invernal. Estava" frio como um corno", e, naturalmente, encostou-se ao muro do Geadas, velho resmungão que, quando bradava da curva do aidro, se ouvia em clarinho ao cimo da barreira da escola, paredes meias com a Tonha freira, vendedora de queijos nos intervalos de missas, lausperenes, terços e outras ocupações em prol da eclésia. Uma verdadeira beata. Tonho Lindo, vizinho aposentado da G.N.R. dizia mesmo:"isto, mulher que ande debaixo de saia de padre e sempre a bater com a mão no peito, é valhaca como as cobras".
Estava então o S. Marcos encostado à parede do chão do geadas, apanhando os raios de sol daquela manhã, aí por obra dessas dez horas, batendo ora uma bota ora outra e esfregando as palmas das mão e sempre resmungando: está um frio dum corno. Montes Hermínios vinha ainda com os olhos remelados - aquela cara já não via água havia para aí uns dez dias e o corpo, esse, pelo menos havia um ano. A cinquenta metros já se sabia que ele estava a chegar: quando ia ordenhar as ovelhas aquelas que podiam afastavam-se tal o perfume que Montes exalava!- S. Marcos dá-se conta e "ó cerdo, nem ao domingo mudas de ceroulas?!" Ainda por cima especou-se na frente de S. Marcos, que estava a MANCAR a filha mais velha do Mné maneta que vinha encher o cântaro ao chafariz do batoco. «Cachorrinho de al de ol, tira-te da frente do meu sol». E Montes" O sol é de quem o apanha não é de quem se encosta...«Ó mê cabrão de merda, se querias este lugar tiveras vindo mai cedo, ora o filho da puta». Montes chega-se ao Zé pisa-lhe as botas cardadas, borra-lhas todas e acalca: «vê lá se queres que te faça já aqui a cama!» S. Marcos:" o de baixo é meu e o de cima é dum judeu" e cospe mais uma escarradela bem enrolada. Aí Montes espeta uma estampilha ao S. Marcos... pegaram-se assim comédado e a filha do Mné Maneta que se tinha ajudado sozinha ao cântaro para a molídia, especou-se a MANCAR a espapada. De soslaio S. Marcos, que já havia muito andava de olho na Celestre, bota as unhas ao gasganete do Montes Hermínios, aperta-lhe o papo com toda a alma e espeta-lhe uma cabeçada no nariz que lho deixou a sangrar ..." Logo mas pagas mê cabrão" gritou o Hermínios, que, contra vontade, teve que mexer na água.
S.Marcos afoitou-se:"olha lá, Celestre, tu queres que eu vá a casa a buscar o carroço de ir à fonte e levo-te o cântaro ao cavacal?". Ela mancou-o de alto a baixo:"toma tino!" voltou-lhe as costas e desandou...
Vamos lá analisar esta situação: S. Marcos tinha chegado ao ponto mais alto do seu auto conceito quando partiu as ventas ao Montes e agora é afundado literalmente por aquela por quem, à noite, na enxerga de palha, tantos caibros já tinha contado... Achais vós que vos ficáveis assim? Nem S. Marcos! O seu instinto vital vestiu as garras, deixou-a dar a curva do Nicas, correu estrada acima, salta o portão do Brigadeiro, sobe a uma parnada da figueira curiga junto à parede, busca uma pedra redondinha, saca da funga (=funda=fisga), aquece os elásticos distendendo-os, mira pela forcalha a ver se apanhava bem o caminho por onde a Celestre havia de passar, espera o melhor momento, estica o elástico, solta a sola da mão e o projéctil acerta em cheio no cântaro de barro da Celestre que se escaqueirou, proporcionando-lhe um banho integral. A velha Bate-orelhas, que estava escanchada na porta da furda do porco do Coelhinho a dar uma mijadela antes de missa, "isso foi o câncaro do barro, a mim outro dia, ia pra beber uma pinguinha de água, mal rocei com o copo de resmalde na barriga do cântaro e ele escavacou-se. É o câncaro do barro, dixe-mo o home de Alcafozes que aí vem a vender talhas e escoureiros, e malgas e tudo. Até lhe comprei lá um pucheirinho pra fazer o café de borra. Tive que lho encher de feijão grande duas vezes! Maldito negro!"
Celeste nem ouviu nada....botou-se a correr a ver se S.Marcos ainda estava a apanhar o Sol encostado ao muro do Geadas. O S. Marcos, mancou-a logo e"ala que se faz tarde", arranca estrada abaixo e quando a Celeste lá chega, estava ele a fingir que apertava as botas, mas sempre mancando o que ela faria...."Depressa chegaste a casa com o cântaro... parece que vens toda sueda!"
«O que gostava de saber é quem foi o urso que me partiu o cântaro! » "Eu inda daqui no saí!"no penses!"
Como se vê, só nos sentimos realizados quando ficamos por cima e podemos cantar vitória mesmo que isso seja à custa dos outros. Melhor: sempre à custa dos outros.
A humanidade é mesmo velhaca; nunca resolveu o problema mais simples: viver em paz. Todos sabemos que é mais barato um século de paz do que meia hora de guerra. O que se verifica é que nunca conhecemos meia hora de paz!
Culpamos o S. Marcos pela atitude que cometeu: somos inquisidores. Todos nós somos fiscais do outro e se o pudermos calcar para que nós fiquemos mais altos aí nem há dúvida.
Andamos sempre a mancar-nos uns aos outros e aparecer oportunidade de o achincalharmos, sentimos um prazer maquiavélico.
Ainda assim não desisto de procurar e mesmo manquinho ainda vou mancando alguns patifes, mas também - haja esperança!- MANCO gente com quem vale a pena conviver. São esses que figuram nos meus amigos... Quereis pertencer a esse grupo? Procurai viver em PAZ!
XXXXXIIIIIIII GGGRRRAAAAANNNNDDDDDEEE!

terça-feira, setembro 12, 2006

A NOSSA FALA - LXVI - ARDULHAR / ARDULHO

Palavra de honra que, às vezes, tenho uma certa nostalgia das velhas lojas = mercearias, drogarias, tecidos, conservas, e o mais...- e na Aldeia havia umas quantas.
Quantos sabem que a farmácia começou na cave da casa do Sr. domingos campos, presidente da junta, ao tempo, e que depois passou para a loja do professor Marcelo, a dar vistas para a Igreja, até que se aposentou na velha casa do tecelão, à Lameira, mesmo ao lado do chafariz que, ainda não há tanto tempo assim abastecia a Aldeia de água juntamente com a fonte do Ribeiro Cimeiro? Só agora ela está no cruzamento da estrada nova a dar para as Águas. Quem se lembrava das andanças deste benefício público que o velho Padre Zé Pedro trouxe com a anuência do dr Ildefonso que tinha como ajudante o enorme Zé Barrigana, emigrante que é na Alemanha, e depois o Cândido Pantelhão e a Fatinha Portas que um combóio trucidou. Tudo há tão pouco tempo e parece que todos esquecemos! O tempo é uma porra: se somos nós a contá-lo tudo bem, mas se já são os outros a contá-lo por nós, é uma porra das grandes. Mudemos de conversa!
Lojas, mesmo lojas, na Aldeia havia várias. Enumeremo-las:
nenhuma no caminho da Vila, nenhuma no Beco da Ribeira, nenhuma na Lagariça, nenhuma no Cavacal, nenhuma no Oiteiro, nenhuma no Caminho da Serra, nenhuma no Caminho das Aranhas, nenhuma no ribeiro cimeiro, nenhuma na Eira cimeira... ora, como se vê há já um total de- NENHUMA - o que é uma enormidade .
Comecemos então a contar de cima para baixo: a loja do Sr. João Robalo Elvas (Sobrinho), com entrada pela estrada e por detrás pelo beco do Fatela, uma casa de intervalo e tínhamos a casa dos pais destes que aqui vos dão notícia desta topografia aldeã, em frente, em tempos esteve a tasca do ti Agostinho Ratado mais o seu batorel, depois, a fechar o largo da paragem das camionetas estava a loja do Sr. António Robalo Elvas, irmão do sr. João que para além da chita da tabela, do bacalhau e do sal, vendia também o petróleo de iluminação e dos motores de rega; era, ainda, correspondente de todos os jornais regionais: Beira-Baixa, Reconquista, Jornal do Fundão, Notícias da Covilhã, e dos nacionais: Diário de Notícias, O Século e Diário Popular: colada estava a casa do ti Chico Miguel com a respectiva tasca e, à ponta, talho, em frente do qual se situava a tasca do arqui- rival Tonho Fatela, o qual colava com a Conceição do Trem, casada em segundas núpcias com o Chquim Argentino e que rivalizava com os manos Robalo atrás citados. Por detrás, na rua que dava para o barbeiro Zé Malagueta e casa da velha Manta-Rota estava a casa da farinha do Trem (também assim conhecido) e a casa do sal e rações do velho Fatela que era da Mona e agora é do Chinchas, já foi café e mini Mercado, mesmo ao lado do mais que tudo - o CAFÉ DA ROSA , o ex libris; em frente a tasca e talho do ti Zé Rolo e na esquina do Desembargador a taberna do Zé Júlio onde muitos trocavam as fanegas. No enfiamento do adro, mesmo ao lado da Igreja, do outro lado onde antigamente fora a Farmácia o ti Joaquim Faustino, que vendia tudo o que dissesse respeito a drogaria e ferragens, cimentos, caibros, ripas e o mais que respeitasse a obras, não fosse, ele mesmo, artista dessa arte. Passada a ponte sobrava a tasca do Cavalheiro com a respectiva garagem para os bailaricos de Domingo ao som do acordeão do Zé Manel, e, nos dias de mercado, a adega do ti Zé Rolo, coladinha mesmo ao Domingos Portas por onde, de fugida também passou a Farmácia. Efémera foi a loja do Cartola no mesmo largo já a dar entrada para a lagariça, onde havia umas mesas de matraquilhos.
A primeira conta fi-la eu, agora, somai vós esta!
E agora perguntais vós: onde é que está aqui a palavra ARDULHA/ARDULHAR?
RESPOSTA: em todas estas casas se ARDULHAVA.
Esta malta de agora que desenvolveu e deu, de novo, valor ao polegar com a destreza que mais escondem que mostram, tal a velocidade a que movem o tal dedo que mais parece uma mosca em voo não geométrico em torno de uma lâmpada acesa, esta malta, dizia eu, pensa que sempre houve televisão e rádio e até telemóveis. Tudo isto não chega a ter - a começar pelos mais antigos (talvez a telefonia ) mais de 70 anos. Uma ninharia na história do tempo.
Às vezes, qual velho ratinho, migrante em tempo de ceifa ou vindima, dou por mim a dizer: " a esta malta, que mais não fosse, fazia-lhes falta um dia de monda, um dia de ceifa, um dia de malha, um dia de arrebanho, um dia de sementeira, uma noite de descamisa ,...bom, nada, vá!" Efectivamente os tempos são outros. Por muitos lados, ainda bem!
Facto é, todavia que, não há mesmo muito tempo - novo sou eu ainda - o sal, o acúcar, o arroz, o milho, o grão, o feijão e muito mais não vinham embaladinhos em pacotes como agora, não. O merceeiro ou outro qualquer comerciante, tinha que estar bem munido de umas quantas espécies e uns quantos tamanhos de cartuchos, onde, por meio de um corrimão, normalmente de lata zincada, introduzia o peso ou medida, requeridos pelos fregueses. Ainda escolhi muito baguinho de arroz. O acúcar era do amarelo, o branco, tal como o pão trigo à cabeceira, só em alturas de nascimento de cria ou morte de velhote.
Todas as lojas de comércio tinham uma daquela balanças de dois pratos, mais ou menos rudimentares, que eram aferidas todos os anos pelo aferidor camarário que, nela e nos pesos, apunha uma punção que garantia a fidedignidade do aparelho. Quando o material requerido não justificava cartucho então utilizavam-se diferentes papéis, consoante o artigo a ardulhar: assim, por exemplo, para o bacalhau, que não cabia em cartucho havia o papel pardo ou, até mesmo um castanho ensebado que restasse das entregas do toucinho amarelo salgado - um petisco -; para a anilina qualquer resto de jornal fazia as vezes; já na farmácia, cem gramas de bicarbonato (que sempe se chamou bicabornato ou memo, mais simples ainda, BIQUEBORNATO) o papel utilizado era sempre de categoria superior e os empregados, já acima supraditos, eram exímios na feitura do ardulhanço; para pregos, chumbo de flóber, pimentão para enchido, pregos de cravar, semilha, brocha espanhola, e outras variedades, qualquer notícia de jornal servia; um saco de plástico era religiosamente guardado, reciclado, reutilizado até às últimas ...
Eu era um artista a fazer ardulhos de anilina e todos os tamanhos de prego desde o 20/5 de cravar à forma até ao 16/7, passando pelo 18/6 de palmilhar e 15/7 de pregar tacões. Ah! tempo! como dizia o comandante! Eram ardulhos geométricos, simétricos, perfeitos e quase invioláveis. Às vezes, ainda me entretenho a fazer ardulhos desses!
O velho comandante também ardulhava, mas assim comédado!
Duma vez - fazia ele contrabando de Aldeia para Espanha com três vacas e foi descoberto pela Guarda Fiscal. Na fuga, caíu-lhe o chapéu da cabeça. Os guardas encontraram o chapéu e, sabendo o costume de as pessoas do campo só virem ao povo nos dias de Domingo, lá apareceu uma patrulha da Guarda Fiscal a dizer-lhe: " Ò ti João, quando quiser pode ir a buscar o seu chapéu ao posto" E o velho: "O meu chapéu está aqui na cabeça!" e depois para mim: " Os gazios queriam que eu lá fosse e assim ficavam cientes de que tinha sido eu que levava as vacas. Não queriam eles mainada!" O velho ardulhou-os. Outra forma de ardulho foi aquela em que Domingos Moiral, ou Domingos Molhano, ou Domingos Patanisca acompanhava, na caça, Manquinho, Mné Faustino, Mné Vinagre, Coiote Pete, Chquim Pardalim e Tero Caturra. Fala Patanisca:
-" O mnél faustino, pá,! viu a lebre ardulhada ao toro da videira de uva formosa do Pirolas ali à Lameira da pinta, pá ! ; em vez de lhe espetar um foguete na mona, enxota-a com a coronha da espingarda e berra Hei!Hei! que era para a lebre endireitar e atira-lhe dois fogachos mas errou, vai o Manquinho e pimba, pimba, errou, o mnel Vinagre PUM!PUM" errou tamém, e passa pelas endireituras do Tero, pá! e foi logo à primeira: Pum! ardulhou-a logo. O Tero pá! tem uma apontaria à lebre dum filha da puta, homem! Essa lebre papamosa (papámo-la) naquilo da Rosa."
Também eu vos ardulho num XIIIIIII GRANDE!

sábado, fevereiro 25, 2006

A NOSSA FALA - XLVIII - AMAGAR

Diz o povo, quem sabe se com ou sem razão, que a verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima. Virá(?)
Se a verdade fosse só uma ainda se aceitaria, mas o que nós constatamos cada dia é que os mesmos assuntos são lidos diferentemente por diferentes intérpretes. Para uns o Orçamento de Estado é um freio às despesas públicas, para outros o mesmo orçamento é um desperdício de dinheiro em obras que em nada contribuem para a melhoria do país, isto só para servir de exemplo.
Se a minha verdade é verdade e a de outro, podendo mesmo ser a oposta da minha, também é verdade, então a verdade e a falsidade são irmãs gémeas e indistintas. Se tudo é verdadeiro, então, tudo é falso. A verdade acaba sempre por ser discutível. Se se discute é porque tem ponta por onde se lhe pegue e portanto à partida já não é verdade porque senão era tempo perdido andar à procura de outra diferente daquela que é o nosso ponto de partida. Quando eu discuto o que alguém afirma como verdade é porque já implícita e explícitamente estou a partir do princípio que a afirmação do outro é falsa. Ou não será assim? A própria Terra só começou a andar à volta do Sol quando a ciência começou a defender esta tese. Até aí estava parada e houve até quem tivesse sido assassinado por defender tal heresia. Será preciso morrer para defender a verdade? Vivamos então na mentira. Galileu estaria de acordo: mais vale um cobarde vivo do que um herói morto.
Já vos estou a ouvir: «Afinal o que este gajo quer? Para que são estas milongas todas?». Olhai para o povo: "saber esperar é uma virtude" e "quem espera sempre alcança," mas logo a seguir: «quem espera desespera».
Continuamos sem saber onde está aquilo que procuramos, mas o facto paradoxal é que continuamos permanentemente em busca dela. Parece uma insensatez. Será este um dos sortilégios do homem? Neste vórtice de correrias para toda a parte sem se saber ao certo para onde se vai, o homem sai de si e vai apresentando resultados das suas viagens deixando-nos pasmados com as suas progressivas descobertas, pelo que o progresso é desde logo a inequívoca demonstração que a verdade se nos escapa quanto mais a tentamos agarrar. Se calhar a verdade é o que está oculto como já queria Freud e o que é preciso entender não é o que se diz mas o que não se diz. Que grande barafunda!
Vamos lá a ver se me faço entender e se esta minha deambulação tem ou não razão de ser e pode ser justificado que a verdade em vez se ser arquitectónica é, ao contrário, polémica.
Quem de vós já se encontrou num rancho de caçadores, à noite , ao fim do primeiro dia de caça?
Será que o que ouvis é o retrato fiel do que se passou? Ou antes, é a "conveniente" leitura do relator do evento?
Vede só quem estava no grupo: chquim pardalim, coiote pete, toco jabão, riconho, ronquinha, jbão pitincouro, bertcho albardinhas, nosso cabo, para além dos inefáveis batedores,Domingos Molhano, o patanisca, e eu, pois claro.
A caçada até que não fora famosa mas o tacho estava cheinho do que é bom. Cozinheiros não faltavam, vinho ainda menos e, claro, com dois padeiros, o pão sobejava.
Enquanto o lume se avivava e as trempes se aconchegavam por forma a que a ala fosse mais ou menos homogénea a incidir no fundo da sertã, reviviam-se momentos inolvidáveis desse dia de caça. (Deve dizer-se que chamar àquele recipiente uma sertã é o mesmo que chamar cagalhão a um marmelo, com licença da mesa e passe a expressão...). Aquilo era, para todos os efeitos um caldeiro de vianda do porco do Tonho Nunes, que o foi sacar da trave escura onde a mãe cozia as batatas para o bácoro. Bem areado - chovia naquela noite - esfregado comédado, eu e coiote pete, pusemos o caldeiro a reluzir ...
Quando as primeiras gotas de azeite para o esturgido cairam no fundo do caldeirão e o braseiro aqueceu a gordura, confirmou-se que podia nele ser confeccionada a tachada. E foi.
Uma caldeirada de carne brava: duas lebres, três coelhos, um pirolis, duas perdizes e um naco de teixugo porco, para dar unto. Na panela de ferro coziam-se batatas com casca que seriam descascadas na hora do manjar para o qual tinham sido convidados mais uns quantos que depois poderão aparecer...
Arranca o nosso cabo:« ó Domingos com aquela é tu me chapaste- punhas-te a gritar : aí vai, aí vai, aí vai - eu fitava o espaço com a arma pronta e nada... Uma vez e mais outra e outra ainda e... porra! isto não pode ser, vou-me a ver o que se passava e o Domingos sentado ao toro dum sobreiro a mamar na borracha espanhola e a mastigar um naco de pão com chouriço... Atalhou o patanisca: cui..da..do, comcom o queque dididizes, quando eu grigritavavva que ia, ia mesmo. não ia era para ti... Pitincouro, logo: "ele já fez isso mais vezes..." Domingos levanta-se e agarra pitincoiro pelo bibe: "ó meu sasaccana,vê lá se se te esfofolo o coicoirate!pá!
Grande Celestino, ourives, que chegava naquele momento, abre os braços como Cristo na cruz e lá acalmou aquele início de convívio com uma rodada de tinto. Nosso cabo e riconho altercavam por causa de um coelho que saía dum roto sacado pela Loc, cadelinha mais que adorada por toco jabão e que riconho deixou fugir e nosso cabo ardulhara logo ao primeiro tiro: Você, baforava riconho, você num viu que a cachorra ia a queimar o cu ao coelho e que se eu disparasse podia virar a cadela!,que se chape o coelho, agora aquela cachorra se eu a atingisse o toco mandava-me um foguete nas nalgas que nunca mais me podia sentar...você apanhou o coelho em terreno limpo... Ronquinha atesta:« era perigoso era...mas pior foi ali o pardalim que viu aquela lebre, que agora ali está no caldeiro, a dormir na cama e armado em otário a enxota com o cano da espingarda, grita:oi! oi! e erra os dois tiros. Se eu lá no estivesse agora não a mamáveis...Pardalim logo: «e tu,minha merda, a perdiz passou a cagar-te na cabeça, avias-lhe dois tiros e nada. Quem foi que a pôs à cinta? vá, diz lá quem foi... Mania pá!
As coisas iam neste enredo qual" encanto de alma ledo e cego" quando entro eu depois de uma prova ao molho: «Tiro assim mesmo com se impunha foi aqui o do toco jabão. Disse-lhe eu depois de o encontrar ao fim da batida: chega cá.Toco veio a correr... O que que está ali amagado? Toco afina o olho...É uma puta duma raposa! Só ouvi:Pum! virou-a logo...estava longe como um corno.Aquilo é que foi um tiro...o barulho alevantou uma lebre que também estava amagada e Pum, valente toco ! virou-a de pantanas. Assim está bem: um tiro,uma peça. Coiote Pete, que tinha morto o pirolis, troféu raro de carne branquinha e paladar esquisito, quase tão bom como a galinhola que também se amaga junto aos choupos das ribeiras e nem os cães dão com elas, via que estava a ficar para trás e avança: «Vós é que não vistens a distância a que eu virei o pirolis..., Aqui a minha boneca afitou-o, dá-me sinal e mal pergunto: o que é boneca? o cabrão, sai do amago e começa a querer levantar, nem a meio metro do chão chegou. Já há muito que não mandava um foguete assim...
Entretanto o caldeiro da vianda, a poder de mais uns bons tocos e mais molho de vinho lá cumpriu a missão e, sem nada ter ficado esturrado, lá se verte para uns quatro barranhões de barro espaçados pela mesa da padaria do albardinhas onde se punham os tabuleiros do pão antes de enfornar, cada um pega na sua arma e, depois de toda a gente já ter um copo dos grandes bem servido, quem tinha posto os moços (um bocado de pão espetado num garfo, que proibia que alguém começasse a comer, sob pena de pagar a despesa) retirou-os e foi um ataque que só visto!
As travessas das batatas com casca assistiam e questionavam-se então e a nós, ninguém nos quer, para que nos cozeram se não nos pelam e papam...?
À medida que a carne foi desaparecendo e o molho crescendo, entram então as batatas. E se elas eram boas naquele molho bem avinhado,! Não se amagavam à carne...
Foi mesmo um regalo ao fim ver como coiote pete, sozinho, devorou uma travessa inteirinha de batatas com o molho de dois barranhões.Toco jabão: «Vá a comer batatas para a raíz da grande pata que o pôs!»
Risada geral e mais uma rodada que paguei eu, pois então!
Se tiverdes razão não vos amagueis, mas se virdes que a verdade está do outro lado agachai- -vos e pagai uma rodada. Mainada!
Se encontrardes por aí alguma verdade que valha a pena, deixai-a registada. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

quinta-feira, novembro 24, 2005

A NOSSA FALA XXXVII - GIRALDINHA ou GERALDINHA

Riconho era maluco pelos Rolling Stones. Mas não só: adorava uma cantora francesa de nome Sheila.Uma senhora febra! Riconho não se cansava de olhar para a capa do disco onde ela aparecia em todo o esplendor dos seus cabelos negros compridos e uma pele morena de revirar os olhos. Riconho tentava cantar ao desafio com Sheila: Écoute ce disque /et il te dira/que l'amour existe/et je pense à toi./Écoute ce disque/et tu comprendras/que l'amour existe/car je pense à toi. De polaina na mão, enquanto afagava os aros de uma porta - Riconho é carpinteiro - o gira discos passava a Sheila e Riconho arramalhava no seu francês de orelha: Écoute ce disque...
Paralelo no apreço por Mick Jagger e Keith Richard, só mesmo o camarada Licas e Chibeto. Licas acima de todos com o indispensável: «I can get(no) satisfaction.»Impagável o prazer de ouvir Licas a cantar e a dançar este monumento musical. Havia outros artistas na aldeia que um dia poderão vir à liça...
Riconho tinha uma bicicleta que partilhava com 'o nosso Mário'. Aos Domingos um e outro rivalizavam no cabelo com Brylcream e cabelo à Elvis. Apareciam no adro por essas 11 horas. Aí começavam as histórias e a disputa pela liderança da conversa. Engraçado é que nessa altura se tratavam por VOCÊ:
«Cale-se, você é um abre-nó! Errar uma perdiz daquelas que quase lhe cagava na cabeça!!» dizia Riconho;' Nosso Mário não se ficava atrás:"Atão e você?! sentado no barroquinho do Rela, a lebre a dormir-lhe aos pés, armado em otário, vai lá com um gravato a enxotá-la, grita Hei!, manda-lhe dois foguetes e nada! se eu lá não estivesse para a ardulhar, você via-a mas é ir embora! você é um azelha!" Era um prazer apichá-los e nisso tanto eu como Coiote Pete éramos exímios. Era mesmo um gozo!
A malta juntava-se e era risada de arrebentar até ao santo sacrifício da saída da missa. Nessa altura miravam-se as 'chicas' e toca para o almoço.
Invariavelmente Riconho alugava o táxi do Fatela e ia para a giraldinha! (ou geraldinha)
Duma vez foi com toco jabão à Covilhã ver um filme com música dos Rolling Stones, feito num espectáculo ao vivo em Los Angeles e onde ocorreram alguns assassinatos. Tinham sido os Black Angels da segurança privada dos Stones... Riconho que teve que pagar o bilhete ao Tonho Fatela, Tôco, fora o táxi vem pior que estragado:" ganda porcaria de filme! nem uma puta de uma cena erótica, nem uma boa tranca de mulher".
Quase ia perdendo o gosto pelos Ralingstanes, como ele dizia. Pela Sheila é que ele nunca perdeu o gosto: Écoute ce disque....
Outra amiga da giraldinha era Maria Bila. Ia a tudo quanto era excursão: Sra do Incenso, Sra do Bom Sucesso, Santa Luzia, Senhora de Fátima, Santa Maria Adelaide, e o que mais houvesse, Nazaré, Óbidos ou Peniche, Viana do Castelo, Serra da Estrela, tudo. Queria ir sempre nos lugares da frente, e era engraçada quando se apresentava, toda equipada, para mais uma corrida uma viagem: saia comprida reluzente de nódoas, ensebada a ponto de ser impermeável e blusa de chita de manga comprida com três botões no punho, bem vincada, aí com umas quatro linhas de ferro de engomar, boné a preto e branco na pála, escurecido como fora de tanto o pôr e tirar, alpergatas espanholas, que permitiam vislumbrar uns tornozelos encardidos com samarras de negridão, impenetráveis a qualquer doença que pretendesse invadi-la de fora, bolsa de merenda que mais parecia alforge de besta e, claro, uma cabaça de vinho a tiracolo cruzada no ombro por um baraço cuja cor não aparece em nenhum catálogo cromático. Um verdadeiro asseio, esta ti Maribila.
À hora de comer lá puxava ela da sua bolsa e depois de abrir o nagalho que a fechava, metia a mão e sacava-a com um bolo de leite, um pastel de bacalhau, três ou quatro azeitonas, uma talhadita de queijo, punha tudo no colo da saia e: "Eh! cachopos e cachopas, querendens provar da mnha merenda?" Logo uma a repreendia:«rais ta parta Maria. Atão tu misturas tudo dentro da bolsa? olha pra isso,tudo misturado umas coisas com as outras! Aí é que está um preparo! rais ta partissem.» e ela: «Atão?! Cá dentro não há prateleiras, cá fora escusa de as haver» e Eu: "MAINADA"!
Era trabalhada para voltinha esta ti Maribila. Pouco faltava para quase andar tanto na giraldinha como o nosso Riconho.
O pai, o ti Domingos, já desdentado com o queixal de baixo quase a comer o nariz, tanoeiro, punha aduela em pipo, martelava aro, compunha tampo, estancava fenda, bem lhe dizia: «eu no sei que vida há-de ser a tua ...sempre na giraldinha...