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terça-feira, maio 24, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLIII - TRAMPASSO


Começa a ficar cada vez mais raro que a profissão escolhida e exercida por quem quer que seja, se mantenha a mesma por toda a vida. Antigamente era-se alfaiate toda a vida, ou pedreiro, ou albardeiro, ou talhante, ou professor,...Hoje por hoje, esse tipo de estratificação profissional social vai ficando cada vez mais esbatido. Não é por acaso que cada vez mais ouvimos um já quase aforismo:"já nada é como dantes". Na verdade, tenho mais que saudades daqueles serões em que a família se reunia à espera que o jantar (ceia, muitas vezes) fosse despejado da panela de ferro, pela mãe, e para um barranhão de onde todos partilhavam, ora com colher ora com garfo a ementa que era muitas vezes a mesma do dia ou dias anteriores. Comia-se o que a terra dava na altura em que dava. Por exemplo, nesta altura do ano, havia muito pouco que meter na panela: já se acabaram os grelos de couve e nabo, sobram algumas acelgas para o caldo e o resto torna-se complicado conseguir variar. Sobram ainda algumas batatas encarquilhadas, já destaladas no mínimo duas, senão três, vezes, umas cebolinhas já com grelo crescido, um dentinho de alho, uma pinga de azeite e uns feijões ou grãos, alguma carne da salgadeira e viva o velho! Aos domingos ou dia de festa, de vez em quando, lá jurava bandeira um coelho, uma galinha da capoeira, um bocado de carne de quadrúpede ruminante. Mantinha-se o naco do queijo, a tora do toucinho, pão que bastasse, a malga de azeitonas e havia que aguardar pelas novidades que agora ainda germinavam na terra e hão-de redundar numa abundância, sempre contida, lá para o fim do mês, princípios de junho: alface com fartura, algum repolho, cebola nova, batata temporã, ervilha, fava, cereja nalgumas zonas, morangos (poucos) e os viajantes já iam aparecendo com tomate, melão de sequeiro,...  O certo  é que ninguém falava de glufosato e afins: caldeava-se com bordalesa, mondava-se à mão, picava-se e sachava-se, escavachava-se, esborralhava-se, desmamava-se ou desladroava-se... Vai lá vai...Isto sim que era agricultura biológica. Nada do que passa hoje em dia, em que há de tudo o ano inteiro e passamos a vida a consumir produtos cheios de infestantes e muito mais. É caso de dizer como o velho Comandante: "ah! tempo... .
Nem sei mesmo quantos trampassos me aconteceram quando por caminhos velhos, veredas e córregos, às vezes meio ensonado, lá ia eu de sachola ou enxada ao ombro, a caminho do chão e começava logo a sério a esgalhar... Não era preciso aquecimento. Depressa se ficava a suar...
Muita outras tradições, costumes, festas e até hábitos e práticas ainda me deixam marcas e, embora siga Sofia Andresen: "tenho é saudades do futuro"...de vez em quando olho para trás e ainda recupero algumas das vivências daqueles tempos de antanho. Outros trarei noutras alturas se se proporcionar, aqui no basa... Quem sabe lá um dia vos conte o maior trampasso da minha vida quando, montado numa bicicleta empanquei numa corda esticada na estrada porque um cabrito preso a um borrego se lembrou de atravessar para o outro lado da valeta e eu fiquei estatelado na estrada com os dentes partidos a verem-se-me... Quem sabe.
Foi a lembrar-me  de que tudo vai mudando e da "inexorável sucessão do tempo" que fui rebuscar  um outro texto que um dia escrevi a propósito de um dos mais candentes temas da actualidade. Trata-se dos novos deuses. Se é verdade que as velhas religiões se mantêm e algumas até estão em expansão, não é menos verdade que surgem, a cada hora, novas formas de religiosidade que assentando, na sua maioria, nos princípios e mitos das religiões tradicionais, propõem novas formas de relacionamento com as divindades e não há dúvida que elas vão atraindo fiéis.
Deixo-vos o texto que vale pelo que vale... Se me quiserdes deixar eco, sabeis como fazê-lo.


O SER, O TER E OS NOVOS DEUSES


SE EU PUDESSE NÃO TER O SER QUE TENHO
SERIA FELIZ AQUI…
QUE GRANDE SONHO
SER QUEM NÃO SABE QUEM É E SORRI!

MAS EU ME ESTRANHO
SE EM SONHO ME VI…
TAL QUAL NO TAMANHO
O QUE NUNCA VI…

Fernando Pessoa  18/6/1930


SER
TER
1- ESSÊNCIA – (AQUILO QUE O HOMEM É  INDEPENDENTEMENTE DAQUILO A QUE POSSA  ADERIR)
1 - EXISTÊNCIA  ( A REALIDADE É ONDE O HOMEM ORGANIZA A SUA VIDA)

2 – INTERESSA-SE PELA VIDA ÍNTIMA DO HOMEM (AQUILO QUE LHE É SUBSTANTIVO)
2 – INTERESSA-SE PELO HOMEM ACTIVO /PROFISSIONAL E SOCIALMENTE (VAI DO PAPEL AO ESTATUTO)

3- PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL O MEU MODO DE VIDA?
3 – PERGUNTA FUNDAMENTAL: QUAL DEVE SER O MEU MODO DE VIDA?

4 – O IMPORTANTE É FORMAR PERSONALIDADES
4 – O IMPORTANTE É FORMAR O HOMEM PARA A VIDA

5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS:
5 – ALGUNS EXEMPLOS HISTÓRICOS :

A – SÓCRATES
A – PLATÃO
   LIBERDADE
TAREFAS OBJECTIVAS DO HOMEM
   INDEPENDÊNCIA
BUSCA DO MUNDO PERFEITO
   COERÊNCIA


B - CRISTO
B - RENASCIMETO
 DAR A VIDA PELO OUTRO
ÊXITOS PESSOAIS / MATERIAIS / SOCIAIS

C – COMENIUS
C – POSITIVISMO
 FORMAÇÃO DO HOMEM TOTAL
O QUE NÃO FOR DEMONSTRÁVEL NÃO TEM VALOR CIENTÍFICO.

D – ROUSSEAU
D – BEHAVIORISMO
A CRIANÇA É DE SUA ESSÊNCIA BOA, A SOCIEDADE É QUE A PERVERTE
O SUCESSO DO INDIVÍDUO ACARRETA O SUCESSO DA SOCIEDADE

E – PSICANÁLISE
E – MAQUIAVEL
EQUILÍBRIO INTERIOR
 VISA A RENTABILIDADE/SUCESSO MESMO QUE A CUSTO
MATURIDADE SENTIMENTAL

QUALIDADE DE EXISTÊNCIA INDIVIDUAL


F- O DECISIVO É QUE O HOMEM SEJA ALGUÉM.
F – O DECISIVO É O QUE O HOMEM FAZ.

G - O HOMEM É UM SER VIVO PARA SER FORMADO HARMONIOSAMENTE
G – O ALUNO /HOMEM É UM SER MOLDÁVEL

H – SATISFAZ AS APETÊNCIAS INDIVIDUAIS
H – O QUE DEVE SATISFAZER SÃO AS NECESSIDADES UTILITÁRIAS DA SOCIEDADE

I – PROCURA A REALIZAÇÃO PLENA  DO INDIVÍDUO QUE SENTIRÁ PRAZER NO FAZER BEM E COM AMOR.
I – VISA DOTAR A SOCIEDADE DE INDIVÍ  -DUOS COMPETENTES E ALTAMENTE QUALI -FICADOS

J – ENSINA A VIVER BEM CONNOSCO PRÓPRIOS MAS NEM SEMPRE FORNECE OS EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS
J - FORNECE CONHECIMENTOS MAS NÃO OS BONS MODOS DE UMA SÃ CONVIVÊNCIA SOCIAL.

L – O HOMEM VALE PELO QUE É E NÃO PELO QUE TEM.
L – O HOMEM VALE POR AQUILO QUE POSSUI.

M – O RESULTADO SERÁ UM HOMEM DESINTERESSADO E COMUNITÁRIO
M – O RESULTADO É UM HOMEM UNIDIMENSIONAL QUE SE FICA PELO LUCRO E PELO PODER.


"Ser" é humanidade, consciência social, livre arbítrio, liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, cultura, preocupação ambiental, ecumenismo, tolerância, aceitação e preocupação com o outro...


 "Ter" é ilusão, é pura aparência, é efemeridade, é indiferença, é intolerância, é enfermidade, é solidão. O "ter" não tem esperança porque se esgota nele próprio, alimenta-se dele próprio exigindo sempre mais "ter"!

Que saída para essa quadratura do círculo, para esse não senso que alguns tentam erguer em novo paradigma, querendo fazer-nos crer que é a única via para a resolução dos problemas da humanidade?

Com Erich Fromm, vemo-nos na contingência de chegar à dolorosa conclusão de que na sociedade contemporânea prevalecem valores (cada vez mais associados ao ´ter´) como o crescente desejo de posse de bens materiais, o consumismo e a sede de poder, o que coloca a humanidade no abissal caminho da destruição social, psicológica e ambiental o que mais agravará, inevitavelmente as desigualdades sociais.

Só o desvio dessa rota mortal, poderá posicionar o indivíduo no sentido construtivo do amor, da partilha e da actividade produtiva (valores associados ao ´ser´). Não é fácil, espera-nos muita frustração (tanto maior quanto menos "ser" houver...) e alguma satisfação, sobretudo aquela de sabermos que, no mais íntimo do nosso ser, estamos no caminho certo, na única via para a criação da Paz e da Harmonia entre os seres humanos.

A grande diferença  entre o “Ser” e “Ter”  é  que se estabelece uma sociedade centrada sobre as pessoas e não uma sociedade centrada sobre as coisas


OS NOVOS DEUSES

. Em termos de valoração a cultura ocidental é matriciada (entre outras influências) pelas culturas helena – judaica – romana – cristã - islamita. Vive-se um novo paganismo que mais não é que o renascer transfigurado de uma deificação de personalidades transcendentes clássicas (vg. Deuses).

. O próprio cristianismo é, no seu todo, a convergência resultante das influências gregas e judaicas, para além de outras anteriores, menos conhecidas, como sejam a mitologia egípcia e os apotegmas dos sábios da antiguidade e mesmo do Pitagorismo de Samos.

. Se até ao Sec. XVIII/XIX não se conhecem grandes obstáculos ao cristianismo e à tese do CRIACIONISMO, a partir de DARWIN, LAMARCK,… essa tese começa a ser contestada e, com o apoio das novidades científicas assentes, por vezes também, num POSITIVISMO DESENFREADO, emerge a nova coqueluche do mundo do saber – O EVOLUCIONISMO.

. Esta nova leitura do aparecimento do homem, que claramente desmonta a defesa de que Deus teria criado o homem à sua imagem e semelhança, arrasta a humanidade para uma nova perspectiva valorativa da existência.

. Abandona-se ou, pelo menos resfria-se o dogmatismo cego que, sem discutir, aceitava o que lhe era imposto pelos líderes religiosos e aventa-se uma nova hipótese que os tempos vieram demonstrar como credível.

. Em consequência, novos valores surgem e aos poucos vão ganhando terreno substituindo a religiosidade do senso comum pela crença bem justificada de valores materiais que desmontam do pedestal a mitofilia tradicional.

. Não mais a preocupação com a divindade, o pecado, a culpa, a ameaça do Além, o espírito de sacrifício, a subalternização à hierarquia, ao sofre e abstém-te; e em vez disso o consumismo desenfreado, apego ao bem estar terreno, ao prazer sensorial, ao gozo pleno.

. Se nos cingirmos apenas ao mundo europeu – o nosso – o que se passa é que dos anos sessenta para cá e, em definitivo, a partir da queda do mundo de Berlim, a Europa se alarga e se estende até à proibida Rússia e desconhecida Ucrânia.

. Com o advento e aperfeiçoamento diário das novas tecnologias deixa de haver fronteiras espaciais e passa a haver tão só fronteiras temporais, já nada é privado e tudo é publicitado. É a uniformização do vestuário, da música e de tudo o mais, superam e aniquilam, esvaziando-os, os ancestrais valores cristãos: é o nihilismo emergente.

. Os novos valores que deixam vazio o espaço ocupado pelos valores tradicionais, a começar por deus e por aí fora, conduzem a uma nova forma de paganismo e à INVENÇÃO DE NOVOS DEUSES.

. Estes novos deuses têm nova valoração, e proporcionam uma nova visão da realidade que se resolve em novas mentalidades. Há novos deuses com novos nomes, mas a fuga ao sagrado imposto conduz inexoravelmente a nova forma de paganismo.

. Assim, o primeiro deus do novo paganismo é o PODER, ressurreição do mais que antigo deus BAAL, materializado na posse do dinheiro. É a superioridade do TER e a descida de pedestal do SER.

. Os seus templos são as instituições financeiras e os sacerdotes são os corretores, os gestores financeiros, os economistas, os executivos.

. Em paralelo surge o deus SEXO e tudo o que à sua volta gira. É a ISHTAR da antiguidade. Já não se trata da fertilidade e da sua protecção, mas de toda a envolvência que entorna o poderoso negócio do sexo. Os templos estão por todo o lado - revistas, media, cinema, publicidade,… e os seus fiéis seguidores superabundam a cada esquina.

. Outro deus contemporâneo é a transfiguração de Calíope. A deusa da fama e da glória, dos feitos heroicos e grandiosos, A celebridade, e toda a iconografia do efémero transformado em produto de consumo avassalador.

Na maioria dos casos as pessoas conhecem estas celebridades, mas não sabem quem são e menos ainda o que fizeram para ser célebres. O grande templo, o Vaticano ou a Meca desta deusa é a TELEVISÃO. Todos para lá se viram e regem a sua vida em função da sua programação.

E o telemóvel? Gravitamos continuamente em torno dele …Podemos esquecer-nos das chaves de casa, dos óculos e até da carteira…mas do telemóvel? Desse nunca. A memória perdeu valor. Guardamos tudo no artefacto e é ele que nos desperta, nos lembra da agenda, nos põe em comunicação, nos ajuda a passar o tempo, nos informa acerca do tempo. Estamos, sem dúvida, na sua dependência e evidencia-se a sua cada vez maior importância…

Há mais novos deuses, mas para amostra ficam estes.

Deixo-vos a questão: será este paganismo melhor do que o anterior à missionação heleno/romana/judaica/cristã/islamita?
A resposta cabe-vos a vós.

Nota: não é preciso ficardes de cara à banda ou de queixo caído como se vos tivesse acontecido um trampasso como o meu da bicicleta abaixo.


XXXXXXXXXXIIIGGRANDDDDEE!


sábado, abril 09, 2016

A NOSSA FALADURA - CCXLII - LIN(T)CHEIRA

O saber popular expressa-se de múltiplos modos: aforismos, lenga-lengas, ditados, costumes, tradições, festividades, crendices, bruxarias,.., que sei eu?! Creio, todavia, que é nos provérbios que ele melhor se exprime e condensa. Sabendo nós que a sua cientificidade é reduzidíssima, dadas as suas constantes incoerências, nem por isso perdem validade  e regulam muitas das actividades quotidianas, desde o casamento à educação dos filhos, ao respeito pelos mais velhos às sementeiras e colheitas e por aí fora... Deixo-vos uma amostra, perfeitamente ao acaso e pode acontecer que nunca tenhais contactado com alguns deles: "se queres comprar, nunca compres a quem comprou, mas a quem herdou"; “quem muito dorme, pouco aprende”; “é como a lenha verde que mal se acende”; “o trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”; “quem com menino se deitou, sempre borrado se achou”; “cerração baixa, sol que racha”,... O enraizamento destes saberes é tão profundo que mais parece um lin(t)cheira, que até mesmo uma retro escavadora demora a arrancar, e muitas vezes nem consegue, obrigando ao uso de pólvora barroqueira.
Não vale a pena armarmo-nos de argumentação bem fundamentada porque nada demoverá este saber sedimentado e transmitido de geração em geração. Aos poucos,  ele vai desaparecendo e uma das razões para tal será, sem sombra de dúvidas o facto de já não haver serões. A panelinha de ferro ao lume cozendo as espigas de couve ou de nabo, adubados com uma farinheira ou uma buchanha que logo se partilham num barranhão, davam oportunidade para se ir falando de tudo e, mesmo assim, não era muito, que as preocupações eram as caseiras e pouco mais. Era nestes momentos, sobretudo nas noites de invernia, todos juntos ao lume, olhando o crepitar da chama, sempre regrada que a lenha não caía do céu como a chuva, e acompanhando os espanhóis (faúlhas)  na sua agonia até se transformarem em fonas... Foi aí que eu contactei com muito do que sei em matéria do saber fazer. Só que, como já não há serões, olha!, deixo amostras aqui no basa...
Saramago dizia que o homem que conhecera e mais sabia, não sabia ler nem escrever e se eu não posso dizer isso, porque tive um Padre Manuel Antunes que me deixava de boca aberta o tempo todo, não me custa já defender que entre os que conheci e mais me ensinaram, no que toca à prática de vida e valores , ocupa lugar  de destaque o velho Comandante do Inferno, meu avô paterno. Também o professor Zé Paula, o Tanganho, que em matéria de astros e  muito mais era um entretainer incomparável; o Zé Borges, aldrabão por excelência, que sabia contar histórias como ninguém, enfim... tantos outros xendros que deixaram em mim marcas indeléveis, tal qual lintcheiras tão enterradas que o tempo não é capaz de as arredar.
Ao longo dos tempos, sem dúvida, o homem foi sempre evoluindo mas o presente só é o que é, porque atrás está um passado que o suporta.
Deixo-vos hoje um outro texto que escrevi há já uns anos e que nas lintcheiras do sótão fui encontrar. Resolvi ressuscitá-lo. Chama-se “O Homem Revisitado”:
Se é verdade, como diz James: - que a nossa mente é contínua - , então, estamos sempre activos em pensamento. Só que de alguns nos damos conta e de outros nem tanto… Mesmo assim continuamos sempre a pensar.
        A nossa atenção ao meio próximo circundante, mesmo se a tarefa que desempenhamos é do nosso inteiro agrado e a motivação é forte, mesmo aí, dificilmente estamos mais de oito segundos concentrados. Esta é a saúde do nosso espírito: uma dispersão selectiva ou orientada. Nem obsessão concentracional ou monoideísmo obsessivo nem poliideísmo difuso.
Fazeis então bem quando saís e vos perguntais pela saúde do vosso filho ou sobre o que irá ser o vosso almoço, hoje. A nossa mente é uma vadia, até porque, como diz o poeta, “não há machado que corte a raíz ao pensamento”. Vadiemos, pois. Mas, …, de vez em quando passemos por nós e por aqueles que nos enviam a sua mensagem. Foi assim que num daqueles  momentos de hipnogagia, já quase a descambar para Morfeu me pus a pensar de mim para mim e relembrei que eu, afinal, era um sujeito objectado. Eu era o outro de mim mesmo. Uma espécie de não-eu como queria Fichte. A minha consciência de mim implica que sejamos dois num: um eu e um não-eu. A identidade funde-se com a alteridade, mas não em tempos diferentes como o filósofo do absoluto defendia. E a questão emergiu: então o sujeito é um objecto. Vai daí, propus-me um projecto que não me fosse, nem, muito menos para vós, abjecto… Decidi: tens um problema injecto…. Agora procura o melhor trajecto para que ele tenha algum afecto e não o considerem um dejecto. E foi assim que o feto começou a crescer no mais íntimo do meu imo.
Foi esta lucubração que me trouxe à ideia deter-me um pouco e pensar. Nesta época de velocidade onde tudo e todos voam à velocidade de um simples click, esta atitude até parece ter o seu quê de bizarro! Pensar! que desperdício....
        Ainda assim, sempre fui contra o que sói dizer-se FAST: contra a fast food, e mais ainda contra o FAST THINKING. Pensar depressa para quê. Já o velho Cartesius aconselhava que nos precatássemos contra a precipitação... nanja que eu seja muito seguidista deste racionalista metodista, mas, se se souber olhar, sempre se descortina algo de positivo onde se pensa que tudo é déjà vu!
        Assim decidi divagar, mas devagar, m u i t o    d    e   v   a   g   a   r  i-  n  h  o.!
        As ideias, ao princípio, atafulhavam-se, e como gladiadores em arena de Coliseu, umas com retis e outras com Gladium, à porfia lutavam para ver qual veria o polegar de César apontando para cima.... Olha, agora veio-me uma que calcou as outras todas! Já reparastes vós que os nossos jovens, nos dias de hoje estão a dar uma ocupação nova ao nosso velhinho polegar?! De facto, este velho oponente aos outros prolongamentos da mão, é agora senhor de uma destreza excepcional... olhai para eles, quando mexem nos telemóveis, vede a que velocidade emitem mensagens ou digitam um número de telefone. Se quereis saber o número digitado só se tiverdes à mão uma câmara lenta…
        Já aferistes que voltamos a dar razão àquilo que sempre foi defendido? A verdade é que é a mão que desenvolve o cérebro e não este aquela. A necessidade de segurar liberta mais uma vez o polegar, e, ainda mais, se reforça a sua importância decisiva. Se a oponência do polegar permitiu a preensão, agora a sua libertação das funções de contra força, deixam lugar para a destreza, a habilidade. Finalmente, já não é o gordo que vai para a baliza.... Ele agora corre como os outros e mais: corre com os outros! É lindo!
        Esta marca humana decisiva para a sua evolução fez-me lembrar o título dos nossos encontros: o homem revisitado... e se voltássemos a olhar o homem tal como me revi e me revisito todos os dias? Sempre igual e sempre diferente.
        Nunca sou ou somos completamente velhos conhecidos, mas também não somos clones de nós mesmos. Como é agradável cada manhã vermos a nossa narcisidade e saudarmo-nos logo com um humor cáustico: bom dia, carga de ossos com carne! Tens à frente mais um dia, encarrega-te dele senão ele encarrega-se de ti...
        Vamos então revisitar o homem.
        A perspectiva que vos quero apresentar não pretende ser exaustiva, - haverá alguma coisa que o seja? - mas visa ser uma visão diferente , pessoal e com toda a certeza  é original.
        Enquanto sujeito do mundo ele mais não é que um objecto desse mesmo mundo. É um entre os demais. Ao princípio viveu numa fusão perfeita enquadrando-se no seu habitat jogando o seu papel, lutando pela sobrevivência. É um sujeito idiossincrético e como tal mesmo sem a racionalidade que depois lhe vai dar a marca distintiva durante séculos ainda hoje perdurável, - o homem como animal racional -  idiossincrásico, numa harmonia que de selvagem tem o título infeliz que muitos lhe deram e que Lévy Stauss em boa hora corrigiu. Tinha uma lógica vivencial, pré-científica, é verdade, mas nem por isso menos lógica. O tempo era o tempo presente. O seu tempo, aquele mesmo que o obrigava a buscar sustentação, gregação e reprodução nos termos do chinês de Konigsberg. Este sujeito indistinto, imiscuído na perfeição do universo fazia parte da vida no mesmo patamar que muitos outros. Este sujeito deixava-se ficar sujeito à roda do devir e, aos poucos, começando a ler o que o rodeia, inicia uma nova narrativa que lhe possibilita uma nova gramática relacional na geometria espacial que o envolvia. É simultaneamente hiperactivado pela necessidade natural de se manter vivo e passivo, no sentido de sofredor, como tudo o que traz à mistura paixão. Este sujeito físico a breve trecho se torna metafísico, quer ordenar o que em si mesmo é caos. Como Ovídio in principio moles imensa indigestaque erat. O desejo de ordem afasta-o de si. Pendura-se num ordenador. Como não se fizera a si mesmo, a sua lógica levava-o a que alguém o tivesse feito. Os outros como ele, também não teriam tido essa capacidade, pelo que ele derivaria de um estranho a si mesmo. Não só ele, também o que o rodeava e lhe oferecia tanta diferenciação. Se ele não fazia o que o rodeava nem a si mesmo, mistério era e a exigência de um ser metahumano se tornasse emergente. A divindade, quando não as múltiplas divindades, respondiam às questões que o apoquentavam. E ele sossegou.
        Mas... oh sortilégio, a idade de ouro, não podia durar por muito tempo e o abandono do paraíso não tarda... Ainda se volta para si a ver se encontrava respostas, mas aqueles que a procuram são iníquos e morrem às mãos dos seus iguais. Aí temos o sujeito social e enquanto social o sujeito político, o que ao não saber governar-se apoia que outros o governem... O político enquanto sujeito aliena a sua vontade, anonimiza-se, confunde-se no seio dos seus iguais e a sua virgindade inicial é conspurcada pelo ódio, inveja, escravização... A racionalidade afinal deixa-se vencer pelo sensorialismo. É bem verdade que o político é muitas vezes bem pouco polido…
        O desmoronamento dos valores essenciais humanos inevitavelmente conduz a uma época do salve-se quem puder em que o sujeito é personificado, teocrático…. Impunha-se um novo sujeito que na convergência da valoração apresentasse pontos de vista divergentes. O sujeito do rompimento, da ruptura com os status quo, um sujeito dividido, um sujeito cristão, que, aos poucos se apossa de meio mundo e tentacularmente também ele aniquila quem é contra ele. Sujeito que realça a futilidade dos bens materiais e promete para além túmulo um mundo de bem aventuranças. O mundo deixou de ser humano, passou a ser ecuménico. É o sujeito catecúmeno possuído por uma catequese escatológica em que a razão cede lugar à crença, em que o dogma se confunde com a verdade, e a dúvida despertadora é esmagada ao peso da imposição inquisitorial. Só que este sujeito, de si, é insatisfeito, avesso a continuuns estagnantes que favorecem a putrefacção, e quer novas fontes, novos rios de verdade e, embora a custo e após penumbra quase eclíptica, reassume o seu lugar górdio, renasce e das cinzas de Fénix as sementes, tanto tempo hermeticamente enclausuradas num vórtice de mistérios, abrem-se agora para um novo dia e um nova postura. O homem humaniza-se. É o sujeito humanista, centro dos centros. Abre-se ao mundo e abre os mundos. Rompe com o establishment e com a nomenklatur. Conhece e conhece-se, a doutrina cede o passo à prática e o saber deixa o trono para o conhecer. A investigação arreda o magister dixit, e os adivinhos, videntes e bruxos caducam ante a universalização das leis entretanto conquistadas à força de verificações experimentais. As sacralizações profanizam-se, a razão vai aos píncaros da sua capacidade e, tribunalícia, estabelece limites à sua própria extensão e compreensão.
     Vem já aí a caminho o sujeito individual, o que rejeita a lógica dos sistema e rebelde entende que a sua liberdade se exerce no seio dos outros. Alguns velhos do Restelo bem vociferam a força da ordem, da constância do método, do rigor da mathesis universalis. Mas o sujeito tinha aprendido a andar e quer agora caminhar e devolver de novo à natura aquilo que nunca dela deveria ter sido desapossado. Aí está o sujeito experimentalista, laboratorial, positivo. Fundamentalista na sua convicção que nada podia escapar à verificação factual, ufano nos poderes da previsibilidade e do controle, veste fato de gala e pretende de novo sujeitar-se a si mesmo a uns contornos de predefinição. Nem já a imaginação tinha lugar neste sujeito tirano que, à margem do que as circunstâncias aconselhavam, recusava a revisibilidade dos conceitos e queria o emparedamento das convenções. A poesia não cabia, tinha que tudo ficar ao nível de uma prosa fria, carrilada, dedutiva, sempre de navegação à vista…
        Sempre a presunção umbilical, libidinosa do mandarinato científico!
        Mas se há sujeitos que tudo querem sujeitar outros há que rejeitam o metodismo, a repetição o “amén…“ Afinal a teoria que nunca tinha sido e ainda continua por ser provada, a teoria da evolução, segue sendo isso mesmo: uma teoria. Como tal hipotética, provável, polémica, descarrilada…Mais uma vez o sacralizado, o intocável, rui e até mesmo o átomo se desintegra, o que era elemento ínfimo, é agora múltiplo composto, o que estava em repouso agita-se, e com que força! O sujeito atómico ‘ cria um poder sobre o qual deixa de ter poder ‘ como nos ajuda Morin, e, o que era visto como isolado, é entendido como inserido num campo, como muitos nos ensinaram desde Maxwell, a Lewin e Bourdieu. E para mais o sujeito guerreiro revive nos movimentos independentistas e as fronteiras deixam de ser espaciais para passarem apenas a ser temporais, como futuramente nos vai avisar Toffler. Com a guerra somos obrigados a recordar Vieira: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela, e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.»
        Como eu gostava de escrever como este sujeito escritor. Antes como agora o sujeito belicoso acarreta para a humanidade sempre este rol de desgraças. E nesta nossa revisita ao homem pergunta que se impõe será a saber quantos dias de paz conheceu a humanidade….
        Mas… é forçoso que continuemos a nossa viagem por algumas das facetas que o homem enquanto sujeito nos foi deixando no tempo.
        Já não bastava a destruição de alguns dos paradigmas, quando o mundo é acordado pelo escândalo menos esperado: chegou o sujeito sexual. O último tabu, aquele que se velava, fosse de tanga ou com as mais sofisticadas roupas, é agora deixado às claras e considerado como o responsável mor pelo comportamento humano. Vasculha-se até ao mais fundo do segredo pessoal, descodificam-se os sonhos, põe-se ao léu o que fortalezas consideradas inexpugnáveis pelo sujeito ciosamente guardavam. O importante não é o que se vê ou o que se diz, mas antes o que se oculta.
Afinal a verdade está escondida e o que é preciso é encontrar as armas adequadas para a desvendar.
Parecia adivinhar-se o sujeito fiscal… Era preciso guardar as verdades; afinal já nada está seguro? Os guardiões dos templos, qual horda organizada, poderosa no seu STATUS a breve trecho cria o sujeito epistemológico, hidra de sete cabeças e boca voraz, ressurreição inquisitorial, microscópinvestiga e acerrimamente critica quem extravasa das margens. Mais uma vez este sujeito inquisitorial se esquece que o rio é livre e que a culpa nunca é dele, mas exactamente das margens que o apertam na soberba imagem de Brecht.
O novo sujeito agora possesso pela energia liberta e, simultaneamente, controlada, a breve trecho, vai espezinhar este sujeito epistemológico, indivíduo de escola, servil e obediente, que apenas arriscava pôr os pés nas poldras que sobressaíssem seguras da torrente das águas. De pouco lhe valeu. O sujeito epistemológico esqueceu-se do sujeito epistémico, inovador, investigador, curioso, indomável, agressivo, rebelde, cada dia novo. Como bola de neve rolando o volume do seu tamanho aumenta e arrasa o que se opõe. Liberta-se de peias e assume uma nova postura, ávido de saber, não pára na sua indagação e olhando para trás aproveita o que de bom pelo tempo fora conseguindo e melhora significativamente as suas potencialidades.
É assim que chegamos ao sujeito cibernético, à era da tecla à fusão entre virtual e real. O tempo e o espaço deixam de pertencer à esfera do sujeito, que, estulto na sua comodidade, abre as portas aos invasores que, especialistas na arte do engodo lhe impingem de novo verdades que se convence serem insofismáveis. O sujeito cibernético, traz o sujeito marketing, o sujeito publicidade, o sujeito global…, fica tudo sujeito ao simples gesto de premir um botão.
Que homem é este que agora nos acompanha? Fecha as portas aos seus vizinhos próximos e escancara a sua sala, a privacidade do seu quarto, vilipendia a sua mesa, renega o diálogo familiar, abocanha a velocidade, corre mais depressa para a sua própria destruição…
Será este o homem apocalíptico?
Será desta que os tentáculos da mais ganância, a valoração da materialidade, do egoísmo e da competitividade dizimarão o nosso homem?
Não deixaremos nós também uma marca que permita aos vindouros revisitarem-nos?
Quero terminar com o sujeito esperançoso. O mundo e o homem não são feitos à imagem de George W. Bush.
Há outras leituras, outras narrativas e, como em todas as mitologias, o Bem sempre venceu o Mal.
Disse ou tenho dito que é o que se diz quando se disse o que se queria dizer. Disse!

Pronto ! Aqui tendes. Nunca sois obrigados a chegar ao fim do que não gostais.
Mas se aqui chegastes, espero que não vos sintais frustrados e, menos ainda que penseis que vos quis deixar uma  lintcheira.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAANNNDDDEEE


sábado, abril 18, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXXII - LAMBARÃO

A língua comprida não é a das girafas que, com arte conseguem evitar os aguçados picos das acácias nem a dos répteis, tipo varano que cheiram o habitat em busca de presa,... Não. A língua comprida é nossa. Não é por acaso o ditado popular: "temos dois ouvidos e uma língua: é para ouvirmos o dobro e falar metade" ou estoutro:" o calado diz tudo"; ou este " quem diz o que não deve ouve o que não quer" ou mais prosaicamente: "mete a língua na caixa".
Não é raro que nos refiramos a uma pessoa e que a caracterizemos como um tagarela e consideramos isso a sua imagem de marca: "tem a língua comprida", asseveramos.
Razão têm os chineses quando sentenciam: «como te atreves a pedir a uma pessoa que guarde um segredo se tu próprio não foste capaz de o guardar?».
Na Aldeia havia muito quem "esticasse o farrapo", e passasse horas a "dar ao lambarão."
Exemplo acabado do que vos digo, era, por exemplo a ti Tecla.
Cultivava um chão por detrás da igreja e morava a meio da barreira a caminho dos cucos quase em frente das escolas velhas. Eram quinhentos metros bem medidos. Demorava bem duas a três horas para chegar a casa. Então, se encontrava a Irene Paca no adro ou a Relochica no Batoco, carregadinha com o cesto de cogulo, especava-se a dar e receber coscuvilhice e até parecia que o cesto levava algodão em rama. Boato que lhe caísse na orelha era mais rápido a espalhar-se que fogo em pinhal no pino do Verão.
Marido de Tecla era o ti Mné Ferreiro, artista ímpar, multifacetado, relojoeiro, mecânico, ferrador, insuperável a meter aros em rodas de carroça ou carro de bois. Aquecia o aro em lume vivo de esteva e torga com hulha à mistura, deixava-o ao rubro e com tenazes que ele próprio concebera e fabricara, num ai ajustava o aro à estrutura da madeira, cravava-o com rebites que ele também fazia, arreganhava-o com água, pintava-o com breu, untava o eixo com breia e massa consistente e pronto aí estava o carro do Vigura ou do Geba pronto para mais uma safra, ou a carroça do Sarrabeco para transportar pinhos para fazer escadas desviados do pinhal do Chico Sarapião.
Dele eram a maioria dos relógios que davam as horas nas torres das igrejas.... Quantas vezes eu dei corda ao relógio, quantas vezes...? Contou-me que o trabalho maior não era calcular a proporção do número de dentes das rodas mas sim calcular o equilíbrio dos pesos das pedras das horas e dos minutos por forma a que marcassem certos os segundos. Construía relógios de bolso aproveitando peças de outros avariados. Um tive eu marca Combóio e outro da famosíssima Roskof.
Calmo, misantropo, não perdoava, fizesse chuva, vento, frio ou calor, quase ao fim da tarde, um passeio até aos bebedouros. Sempre sozinho, ia e vinha. Era capaz de estar uma semana calado e, se ninguém lhe falasse, ele nada dizia. Era até ele que os velhotes mandavam os garotos com a pedra de afiar as agulhas e ele, na sua calma e poucas palavras:" agora levas esta até que eu apronte a que trouxeste". Lá vinha o garoto outra vez carregado com um calhau embrulhado num jornal.
Era assim que se aprendia, com estes entreténs de aldeia.
Como se vê era um casal perfeito: ele era capaz de estar uma semana calado e ela era capaz de estar um dia inteiro a falar.
Bom, mas o nosso tema era o lambarão...
Campeões nesta arte são os caçadores. Quando a caçada corria bem ou, sempre, no início da época, havia rês para o tacho que a Rosa cozinhava e para o qual eu, inevitavelmente, era sempre convidado.
Era lebre naquele dia. Melhor: duas lebres. Tinto do Reis Alguitarra e do Modas surripiado à socapa quase um alqueire de batatas e picante quanto baste, ambiente aconchegado todos empinados à volta do barranhão. As histórias iam surgindo e lá vinha aquela do coelho que saíu do roto e levou cinco foguetes e ninguém lhe acertou ou a lebre que já se ia a passar o cômaro da reserva e foi ardulhada por um tiro certeiro ou a perdiz que quase cagou na cabeça do Mnel Faustino e a errou,... todos tinham que contar...
Agora o lambarão era bem esticado quando se tratava de gabar os cães!
Naquela noite havia um convidado especial, alentejano, homem de pouca fala, cordato, e com um estilo inconfundível, metia farpas com propriedade e deixava todos a pensar. Um artista, o Alfredo Papa Arroz.
Chquim Pardalim e Coiote Pete começaram a altear a voz e já se sentia algum azedume na ralhação:
"Num querias tu mainada do que o teu Ruço fosse melhor có meu Cara Linda. Só te digo meu babanca, qués um babanca, que uma vez fui caçar pró Alentejo, ali pra perto do Paparroz e o sacana do cão não apareceu. Mas cá chegou passados dois dias só plo cheiro do gasóleo da carrinha. Isto é qué ter faro, meu babanca"
Digo pró Paparroz: " porra, ó Papa esta é valente"e comecei «Arregaça, arregaça a calça» e pus-me a puxar as calças pra cima quando Pardalim levanta a voz:
«Cale-se, seu bebágua, seu borra botas, tu já num talembras do que se passou quando o ano passado fomos além prá raia ao pé do ribeiro Torto e salevanta uma perdiz longe como um corno e lhe despacho um foguete e ela vai cair dasa já em Espanha, já num talembras, mas eu lembro-me bem : O Ruço foi por ela e apareceu ao outro dia de manhã com ela na boca e tu bem viste que não lhe tocou e estava cheiinho de fome. Isto é que é um animal.»
Já se ia comendo na lebre e cinco litros já tinham voado quando o Paparroz, despeja dum gole o copo do vinho, espeta um moço no garfo, poisa-o no barranhão ( o moço obrigava a que ninguém pudesse tocar na comida até que quem o lá pusera o tirasse, sob pena de pagar a despesa da noite) e se sai com esta:
- "Cão, cão, era o meu Patolas: um dia cheguei-lhe ao nariz umas cuecas da minha mulher e cinco minutos depois aparece-me com a tarecada do vizinho na boca"!
Eu respinguei tudo à volta, todos começaram a estalar os dedos e Coiote e Pardalim: "tira mas é o moço do barranhão cóssenão a comida arrefece."
Nunca estiqueis demais o lambarão que pode haver quem vos espete uma farpa bem metida.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIII GRANDDDDDDDDDDDDDEE

terça-feira, janeiro 15, 2008

A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA

A época das matanças anda aí... Cada fim de semana, o número de cerdos que jura bandeira até meados de Fevereiro é incomensurável. Nunca tem paralelo com o ano anterior, como os paradigmas das revoluções científicas de Kuhn.
A perfectibilidade de um sistema não é, hoje por hoje, a caducidade do anterior. É antes o seu melhoramento. Já a política faz o mesmo: nunca um político diz, numa sessão de vários oradores, que o seu antecessor se esqueceu de dizer o que quer que fosse.... Simplesmente diz: "eu quero acrescentar ao que o meu colega disse antes,...." E assim se vai.
Voltando às matanças: Se o homem se preocupa em arranjar os amigos chegados para a festa da matança, a mulher, essa, preocupa-se com o colorau, com o algodão para atar a tripa, com esta mesma tripa, em escaldá-la, deixá-la de molho com muita laranja, em cortá-la a modos de ficar uma forma graciosa dependurada no varal do fumeiro, com os cominhos, e a salsa , e o alho sem grelo, e o sal grosso, e as batatas sem pó nem borboleta e os feijões para a sopa e as couves esfarrapadas para a dita, e os alguidares, e o areamento do vasilhão , mais ainda as enchedeiras e os funis e os chás e a cozedura do pão e o arroz para o osso da sevã, as trempes para o tacho da meloreja, que sei eu.... O porco é que não sabe nada disto... tem tempo amanhã de manhã...
«Ó Chquim, olha que as facas estão motchas... vê se as aguças comedado que amanhã fazem-me falta pra miguer a carne; tu num queres que eu peça a máquina da carne ao Bogalha, portanto trata de teres as facas em condições....» e o Chquim:« tu é que estás motcha; já ontem à noite agucei tudo: facas e tesoiras, ou pensas que num sei o que faz falta...? »atão tamém te digo que podes alimpar o cu ao aguço! esta que eu aqui agora tenho mal corta a manteiga ao lume...» »Ó fardo! onde é que está essa faca?!» Olha aqui.... tanto corta de frente como de costas...» «Catanos m’a chapem se eu não te trago essa bácora a cortar um guardanapo de papel...deixa cá ver...»
Estas erudições linguísticas prendem-se com aforismos populares que não deixam de ser o que sempre foram apesar da pseudo cultura que agora nos querem impingir...: «mata o porco e conhecerás o teu corpo.»
O que mais dá que pensar é que do que se come menos no dia da matança é o próprio porco. Esse dá a meloreja e o fígado com soventre numa fritada conjunta que há quem não dispense. Pelo meu lado deixo de parte tal pitéu que a meloreja e a sopinha da matança bem me sabe!
Em regra há sempre um galo que vai a ver o avô dele, ou um coelho bem anafado engordado que foi com umas quantas passas de figo e umas bolotas "por mor de alimpar das farinhas ca gente num sabe o que agora lá metem".
Duma vez ia eu e mais o Guilherme Chornico e o seu cão sempre com um pau na boca para não morder, velhaco como era - quase igual ao dono - , o meu pai e o velho Comandante , por essas sete da matina , num Dezembro molhado como um corno, tal as chuvadas que tinham caído, a caminho das Taliscas para a matança da minha ti Ana. Por altiras do Chquim Valente, ali ao alto da estrada de quem vai para a vila, tapada que agora é do Chinchas, ia eu e mais aqueles companheiros quando começamos a ouvir bradar: "Ai jasus! Ai Jasus! Rais parta a minha sorte, Ai Jasus!" Digo eu: «é a ti Ana» e meto fogo aos calcanhares a ver o que se passava... E era mesmo. Vinha preada com o lenço na cabeça, aos gritos e eu a querer que ela dissesse o que se passava e ela nada. Só gritava. Lá chegaram os outros e então: " Eh cachopos, já no há matança...desculpar-me mas já no há matança!" Logo o comandante:" rouberam-te o porco?" « Não; foi uma peste que o matou... parece um tição de carvão, mai negro có mal!...» " Mau, diz o Guilherme, uma peste matou-te o porco? atão é trabalho adiantado " Tu num gozes ca desgraça guilherme dum rai que ta parta...uma faísca caíu mesmo na cabeça do porco e deixou-o num carvão."
A verdade é que ninguém voltou para trás e fomos ver... Era mesmo verdade: durante a noite tinha trovejado e um raio deve ter caído na nuca do porco e fulminou-o. Na verdade era mesmo um monte inteiro de carvão. Nunca tal algum dos presentes tinha visto nem tinha notícia que tivesse acontecido em qualquer parte. O remédio foi fazer uma poça e enterrar o animal queimado.
Diz então a ti Ana:" Olher! o que vos posso servir é uma travessa de carne da cabra motcha que o mê Chquim matou ontem". O Ti Chquim ainda não sabia do desastre e chegou entretanto na sua bicicleta e ficou taranta de todo quando lhe dissemos o que se passara. Tinha ido ao povo a buscar o algodão para as ataduras que tinha ficado esquecido na pedra da lareira.
E eu:" O melhor é irmos a ver se damos uma malha na carne da cabra motcha que é para não se estragar e serem dois os prejuízos"...
Meu ti Chquim foi consolando a mulher e prometendo logo ali que ele já ia a ver dum porco e que a matança se havia de fazer na mesma e a salgadeira não havia de ficar sem presunto nem o escoureiro sem chouriços...
Calmo como era:" Vai por uma pichorra que havemos de sangrar a pipa já que não sangramos o porco."
Lá vem a minha tia com a pichorra e uns copos e não tardou uma malga de azeitona retalhada, um queijinho fresco ainda acinchado, e um barranhão de carne da cabra motcha.
As histórias foram-se sucedendo e a carne minguando, o vinho correndo, o dia clareando e a manhã ganhou-se assim.
Não vos deixo ir sem mais uma, tão verdade como a que acima contei: num dos tempos de natal para aí dos anos sessenta a minha mãe dizia para o meu pai:« olha que não tenho lenha para as filhós nem para secar o fumeiro depois da matança. Depois trazes-me lenha verde como um caçulho só faz fumo e chorar os olhos.» Perante tal descrição, num dia cedo depois de uma noite de trovoada parecida com a que antecedeu a não matança da ti Ana, lá vou eu e meu pai, à quinta do ramalhão com ideia de serrarmos um carvalho que estava mesmo chegado a outro que mais pareciam dois irmãos gémeos... Quando entramos na quinta junto à figueira bogalhal começamos a ver cavacos grandes de carvalho molhados mas secos... Então não é que uma peste caíu mesmo num dos carvalhos e o escarchou de alto a baixo espalhando achas por todo lado?!
O trabalho foi só acadajá-los, meter nas angarelas da burra, e ala para casa; enquanto eu vim trazer uma carga, o meu pai foi ajeitando outra carga e mais outra e a minha mãe nem queria acreditar: ficou com lenha seca e com abundância. Já se podiam fritar as filhós e secar o fumeiro sem chorar por causa do fumo.
Um bom ano para todos!
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domingo, dezembro 09, 2007

A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA

A mobília das tradicionais casas de aldeia resumia-se a pouco: três ou quatro tropessos de cortiça, umas trempes, umas cadeias suspensas do tecto, na qual se pendurava, tanto o caldeiro para a vianda do porco, como a indispensável panela de ferro, quando o lume com ala a fazia ferver mais depressa, já que lhe apanhava o fundo do bojo na totalidade e que ,depois de estar a ferver, era posta dum dos lados do lume na pedra do lar para manter a fervura; do outro lado, estava sempre outra panela- esta podia já não ser de ferro - onde havia sempre água quente que tanto dava para botar no caldo se estivesse basto, como no caldeiro da vianda, como no alguidar para lavar o barranhão e o talher usado ; ainda uma mesinha baixa, com uma gavetinha, onde se guardava o conduto para o pão, geralmente pendurado numa bolsa de pano cru dum prego da tabique (taipas) de ripa, forrado a papel de jornal, colado com massa de farinha ou farelo e, claro, o cântaro de barro - o asado - com a sua tampinha e o copo de alumínio, de borco na pia da tampa; algumas casas tinham um fogão a petróleo e muito poucas apresentavam um fogão eléctrico ou a gás de dois bicos sem forno. Raríssimas as que tinham fogão a lenha, em ferro fundido, e ainda menos as que dispunham de fogão alto de quatro bocas e forno. Na parede lateral à pedra do lar, num suporte de madeira com uma "étagère", uma candeia a petróleo- poucas vi já a azeite - com um registo que deixava sempre a torcida rente ao bocal e, claro, o canto da lenha -a PIORNEIRA - e a pieira para deitar a cinza e os dentes de leite dos garotos quando caíam, que, para além de manter ambiente quente, depois do lume apagado, era fertilizante indispensável nas leiras dos alhos e das favas. Era também da cozinha que, não raro, começavam as escadas que davam acesso ao forro onde se conservavam as batatas, as restes das cebolas, os cabos dos alhos, alguma bolsa com feijão grande e pequeno e mais uns alguidares de barro ou esmalte só usados em dia de matança e pouco mais. Era por baixo destas escadas que estava a cantareira com os pratos de alumínio ou esmalte e alguns tachos e panelas, pouco usados, uns e outras, já que o prato era colectivo - o barranhão.
O quarto tinha uma camita, quase sempre estreita para dois, com uma enxerga de palha de colmo ou milho. Lençóis eram pouco usados: antes se usavam uns cobertores finos que, depois eram completados por cobertores de papa e encimados por manta de ourelos ou de trapos ou de fita como também eram chamadas. No inverno, cama que se prezasse, havia de ter para aí uns cinco Kilos de roupa nas frias invernadas em que o vento perpassava a telha vã e encarquilhava as orelhas a descoberto fora das mantas.
A sala, quando existia, limitava-se a uma mesa e seis cadeiras a condizer, um aparador com cristaleira, onde estava a loiça dos dias de festa, chegando-se a passar anos sem ser usada. Nas paredes, uns quadros do Sagrado Coração de Jesus e/ou de Maria, a última ceia e o orago ou outro santo ou santa, trazido de alguma excursão. E assim se vivia. Lá se nascia e morria.
No pós guerra civil de Espanha -1936/39- o contrabando teve um incremento incrível e havia quem vivesse dessa economia paralela. Não era raro que os contrabandistas de aldeia fossem convidados a ir a Espanha à festa do S. Brás, padroeiro de Valverde del Fresno, e que os compradores e vendedores espanhóis, de alpergatas, meias grossas, gorras, pana, isqueiros, colchas e camillas,..., viessem também à aldeia quer pelas matanças, nesta altura do ano, quer no sr. S. Bartlameu , a 24 de Agosto...
Ora aconteceu que um espanhol veio para uma matança no Zé Aranhiço, ali ao cimo da lagariça e chegou no dia anterior, que a matança é cedo e a meloreja é coisa que não se pode perder. Dormiria na loja numa tarimba arranjada ad hoc mas já jantou com a família à roda da lareira a comer do barranhão como se impunha. Calhou a ficar do lado da lenha que era também o lado do cântaro da água - o asado -. Na casa do Aranhiço já havia petromax - luxo raro - mas a noite estava fria e o lume precisava de lenha para atear o toco que estava de cabeceira e servia de encosto aos paus mais pequenos que aqueciam o ambiente com a labareda: "mete lenha, espanhol dum corno", dizia o Aranhiço, "mete lenha, corno negro, tu num vês o lume a apagar-se"?... o espanhol tardou a entender que era a ele, que estava mais perto da lenha, que competia manter o ambiente quente e, as vezes que lhe chamaram de CORNO, passaram sem conto. Para cúmulo, a ti Alice tinha cozido feijão grande para a ceia, por mor de fazer o caldo da matança no outro dia de manhã com umas folhas de couve esfarrapadas, uns bagotes de massa manga de capote da grossa, onde, para adubo, se cozeriam também, a bexiga do porco do ano anterior e mais uns nacos de toucinho do alto. Os feijões estavam a saber a sal e a carne que os acompanhava tinha o mesmo forro de sal, pelo que o espanhol teve sede.
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
Levantou-se então o espanhol para beber e:"oh, filho dum corno, dá-me água tamém a mim", "eu tamém quero" «e eu»... entretanto, os feijões iam descendo no barranhão enquanto o espanhol enchia o copo e servia a família de água... Quando se sentou, apanhou já o fundo alguidar e contentou-se com a cebola picada.
Quando regressou a Espanha, depois, aí sim, de ter comido à tromba estendida na matança, dizia para os de Valverde e de Eljas:« Mira! se fores a Portugal, nunca te pongas del lado del agua ni del piorno, sino te llamaran hijo dum corno».
Nunca o espanhol também tinha comido broa e dessa gostou: «pero se te deren broa, prueva-la que es boa.»
Outro tipo de contrabando este, da comezaina e da cultura típicas portuguesas.
Ficai-vos com um XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII
P.S. - Se por aí houver alguma matança, deixai recado.