Era engraçado o raio do garoto...Nunca tirava as mãos dos bolsos. Contava histórias e mais histórias, ria-se antes do fim e, em vez de ajudar, empatava.No tempo da azeitona, punha-se junto das mulheres, em cima do fato, pisava a azeitona a passear dum lado para o outro ,tingia os toldes e, ainda a manhã ia a meio: "Tenho fome! " Estava tudo trabalhado! Quando este grito soava, pronto! havia um que tinha que largar tudo para alimentar sua excelência.
Sabia tudo de cor: equipas de futebol, programas de televisão, nomes de telenovelas, marcas de sabonete, cores das bandeiras, tipos de queijo francês, marcas de vinho portugueses, as províncias de espanha e até as quatro dinastias com os reis todos seguidos, embora às vezes na dos Filipes se enganasse, porque o nosso primeiro era o segundo deles, afluentes dos rios principais da margem esquerda e direita, sistema das serras, identificação e altitude, e, pasme-se, linhas e horários de combóios, para além, é claro, da estação de comboio mais perto de qualquer rua de Lisboa. As velhas pasmavam! Se começavam uma cantiga, ele arrematava logo que a Gina Maria a tinha gravado, que o Pissarra é que a cantava bem, ... - que sei eu? - e se o assunto virava para problemas sociais, tipo fome no mundo e miséria à porta de casa, aventava com estatísticas tais, que todo mundo se deslumbrava. A do Vigura até dizia: "sabe tralha, o garoto, é mesmo um torgalho, tem graça! " Quem não achava piada à história era o velho comandante:« pouca conversa com o garoto, FAAAAAAAATTTTTTTTOOOOOOO! Muda-te! Ó mulheres! rais partam tanto palavrear! a minha mãe é que tinha razão: " às mulheres, ainda que lhes cortem metade da língua ainda falam o dobro do que deviam". E virava-se para o cachopo: «vai-me além a buscar uns nagalhos que preciso deles», isto a ver se o despegava das mulheres e de cima dos toldes onde esborrachava a azeitona toda: «raios o afundem, pensa que o lagar já é aqui! Ah! tempo. ! » O lã branca desce-se da escada, faz a muda e ala, vai-se afastando para a moita. O Comandante viu-o: « oh! lã branca, onde pensas que vais?- "Ò ti joão, vou só aqui a aviar a vida! " E o velho: « Caga já aí e limpa o cu a um torrão! assim nem daqui a dez dias colhemos a azeitona! CHOVA! CHOVA!»
Pior, pior, foi ao almoço! Ao meio dia comandante dá a ordem: «Vamos à bucha! »
Zé Luís, Chibarreiro, Mija a Parede, Pirolito, Cão Reles , Roupinha Afineda, nosso Fernando foram ao regato passante lavar as mãos, as mulheres foram pelas bolsas da merenda e todos se foram chegando ao lume.
E vou eu:« Não é preciso abrirem as bolsas. Há aqui almoço para todos.» O comandante: «é a despachar, que o patrão é pobre!» e eu: «calma: a hora de comer também é paga!» e o comandante: « o comer azeda, o trabalho não, há que comer depressa para não azedar e irmos ao trabalho! »
O garoto, entretanto, tinha estado na carrinha a ouvir o rádio e quando viu o maralhal junto, logo se chegou!
«Quantos metros cúbicos de água debita a barragem de Idanha no ponsul?» perguntou
e o comandante: « olha lá: com quantos dentes nasce um cabrito?» a malta riu... o garoto encavacou! Diz a do Alguitarra:" o garoto é torgalho mas o comandante chegou para ele!" ; A do Lavra Miúdo pisca o olho ao garoto e diz-lhe, sem o comandante dar conta: «vai além ao Furdas que ele diz-te. » O garoto foi e diz ao velho: «nasce com oito.» E o velho:« de cima ou de baixo?» e a do Lavra Miúdo: «trabalhou-o!» O lume crepitava, o entrecosto desaparecia, a farinheira era um regalo e a morcela foi um ar que lhe deu. Ia eu a botar a segunda roda de copos quando o comandante: «imbora que a cegonha já fez o ninho na escada! »
Aí, a Café triste, neta do comandante:" rais ma partam: atão estive onte à noite a friter umas petingas que estava cos desejos e agora não as provo?"Vai-se à cesta e lá vem a malguinha com as sardinhas: eram 14. E vou eu: «Ó filha do diabo, tu eras capaz de comer estas catorze sardinhas, fora o feijão ciclista?» "Cala-te, o´rapa o tacho, que eu trouxe a contar contigo!" O garoto aproximou-se e deita as unhas a uma mão cheia de sardinhas e devora-as num ai!
Diz a Maregas: «Eu comia durante uma semana com essas sardinhas»! e a do Lavra Miúdo: « para mim e para o meu dava para um dia». A Café Triste não gosta nada da conversa e desafia o garoto:´«ó torgalho, bota aí mais uma das tuas a ver se endrominas ali o velho comandante» .
O garoto sentiu-se animado e aventa com esta:
« A ver se percebeis :Vou-vos contar a história do CÚMULO dos cúmulos: no tempo em que os animais falavam e os mulos e as mulas também botavam"gente" para o mundo, o mulo com a venta arregaçada e os dentes luzidios àparte uma fiada de erva que teimosamente persistia encravada entre os prémolares, excitado pela urina da mula morde-a no pescoço, relincha e dá quatro pinotes e meia dúzia de escritos para o ar, deixando tudo aparvalhado.»
Vai a do Lavra Miúdo: "eu é que estou aparvalhada com este palavreado"! logo a Café Triste:« ó fardo, tu não ouves o comandante?! despacha lá a história cassenão ele ao fim não nos paga a jorna». "Pronto", diz o Torgalho. E continua:« o mulo pôs-se na mula assim comédado mas não acertava com o barómetro no mijateiro da mula... E vai esta: tu não vês que isso é o CÚ, MULO»?!
" Já acabou?" pergunta a do Alguitarra, e a do Lavra Miúdo igual: pasmada e pasmona! A Café Triste, que tocava a ciranda como nunca vi a ninguém, enquanto cantava :
Ai o Sol quando nasce inquilina/ Ai às pedras do meu balcão/ também eu in(qu)ilinei /aos teus olhos, ó João... Ai o Sol quando nasce inq(ui)lina/ ài às pedras do meu anel(i)/ também eu inq(ui)linei /aos teu olhos, ó Manél(i) ,de repente, põe-se a rir e vai de explicar às outras a história do torgalho. Elas, incrédulas, a pouco e pouco, lá foram entendendo, mas rir riram pouco: isto do pudor ...até mesmo com os cães que fazem à vista de toda a gente é preciso revirar os olhos que é pecado!
Nisto, o comandante: FFFAAAAAAAATTTTTTTTTOO! MMMMMUUUUUUUUDDDDDDAAAAA-TTTTTTTEEEEEEEEEEEEEE! Mulheres! ó mulheres ! rais parta tanto paleio!E a Café Triste: «Ponha-se manso que inda nunca lhe faltou fato. só sabe é espantar os pardais.» e brada também: "CHHHOVA!! CHOOVVVVVA!" Nosso Fernando:" é chapada esta, faz mangação do velho e ele cala-se" Se fosse noutro tempo, encorria-a à pedrada!"
O garoto, sempre de mãos nos bolsos vem ouvir a conversa dos homens e fica-se por ali... O velho chama-o: " ouive lá! tu és novo, tens muito que aprender! se quijeres!: a gente quando tem um rancho a trabalhar para nós é sempre o primeiro a fechar a navalha.Viste!? eu colhi uma muda antes de elas cá chegarem... E depois não sejas como as mulheres: ainda que lhe cortassem metade da língua que têm, ainda falavam o dobro do que deviam; olha que nosso senhor te deu duas orelhas e só uma língua e isso quer dizer que deves ouvir o dobro e falar metade! O importante não é dizer o que sabes, mas saber o que dizes. A vida é filha da puta e ou abres a pestana ou te passam a perna». Eu estava por ali e pensei: é filósofo, o raio do velho.! tem tarimba! e viro-me para o garoto: "Não sejas torgalho"!