A religiosidade é a essência do Homem, dizia Émile, um intelectual francês do século XIX. A religiosidade institucionalizada transforma-se em Igreja e adquire o direito de estabelecer a classificação do que é sagrado ou do que é profano. Os ritos sagrados são bons e devem ser seguidos, os ritos profanos são maus e devem ser abandonados. “A” verdade reside no sagrado, logo, o sagrado acha-se no direito de se poder aproveitar do profano, vai daí, encaixa à vontade festas em solstícios e equinócios já celebrados. A porra é quando o profano se quer aproveitar do sagrado. Sujeita-se, pois claro. Vem isto a propósito do dia dedicado a louvar o senhor S. Bartolomeu e de alguns ritos…mais ou menos profanos. O povo é religioso, o povo tem fé, o povo segue os dogmas da Santa Igreja Católica Apostólica Romana mas…há situações…
Quando Natanael, cidadão israelita, contemporâneo do Cristo, decidiu segui-Lo, não podia saber que, por via da sua fé, havia de ser martirizado – rezam as crónicas que terá sido esfolado vivo e frito em azeite - algures no oriente, por via disso chegaria a santo e, por via disso, daí a 20 séculos havia de ser louvado numa pequena aldeia da beira interior de Portugal, já com o nome de Bartolomeu, ou, como sempre se referia a ele a minha avó, o Senhor San Bartlameu, ou ainda San Bertlomeu como lhe chama ainda hoje o Ti Miguelito.
Apresenta-se ele empunhando uma faca na mão direita e a segurar o diabo por uma corrente com a mão esquerda. Todos os anos, no vigésimo quarto dia do mês de Augusto lhe organizam uma festa com o seu nome e o levam em cima de um andor em procissão, outeiro acima cavacal abaixo, a Banda de Aldeia de João Pires pá pá párá pá pá, pó tchim, pó tchim enquanto o sino não pára o dlim dlim dlão, dlim dlim dlão, para o deixarem uma temporada na capela do Espírito Santo.
Diz o povo que nesse dia, porque a festa é dele, concede um dia de liberdade ao diabo, para ambos se poderem divertir. O santo fica-se ali mesmo pelo recinto, a tirar a barriga de misérias, a beber bejecas fresquinhas e a comer frango assado, pipis, moelas, bifanas, cachorros quentes com muita mostarda, chanfana, o que mais haja, e, claro, a bailar com solteiras e casadas metido na pele de quem muito bem lhe apetecer. O diabo, esse dedica-se a fazer o que mais gosta, ou seja, diabruras. Ora, já se está a ver o que pode acontecer quando o diabo anda à solta. Pode acontecer que alguém caia para o poço quando está agarrado à burra a tirar água para regar os tomates os pimentos, as beringelas e restantes hortícolas, que os cães apareçam a praticar actos homosexuais, que um furacão destrua cidades nos Estados Unidos, que apareçam muitos incêndios em Portugal, que os burros fiquem de caganeira, que o governo tome medidas drásticas, que aconteçam inundações em vários países do mundo, que as pitas saltem para cima dos galos, que as raparigas andem também mais soltas e os marotos dos rapazes se aproveitem, que o Benfica não ganhe nem em casa, enfim, que não me saia o euromilhões a mim. No dia seguinte, preso novamente o diabo, o ressacado S. Bartolomeu tem de andar a emendar o que pode.
Na tarde desse mesmo dia, também fazem um “ramo” ao santo padroeiro, onde o povo lhe oferece pão, bolos variados, azeitonas, feijão, vinho, e… pitos vivos. Os pitos têm de ser mesmo vivos.
Consta, então, que algum povo, católico, crente, cliente infalível da dominical eucarística, insuspeito, portanto, cede à tentação - mais um indício de que o diabo anda mesmo à solta - de atentar contra os dogmas da Santa Igreja Católica Apostólica Romana com ritos eminentemente profanos. Um povo deita duas moedas na caixa do santo e uma na do diabo (pelo sim, pelo não). Outro povo, mais sofisticado, chega-se sorrateiramente ao pé do martirizado Natanael, pede-lhe a faca emprestada por uns momentos e corta o pão ou o bolo que comprou no ramo, ou, esfrega o pito nas suas barbas.
Naquele ano, bem custou à Ti Maria Chebarrêra dar aquele dinheirão pela bandeja com o pão de ló e a garrafa de vinho do Porto, mas tinha-lhe dito quem sabia que o bolo tinha de ser comprado no ramo do Senhor San Bartlameu e depois tinha de cortar uma fatia com a abençoada faca. Escolheu a hora em que Ti Miguelito, o guardião do santo se foi a verter águas. Quando entrou, já lá estava a velha Júlia Jonja às voltas com a faca que o santo segurava vigorosamente, enquanto com um pé acalcava a boca da saca onde um galo pedrês se debatia ingloriamente.
- Atão no sai, Ti Julha? Ande qu’eu a ajudo.
Desarmado o israelita, apressaram-se, uma a cortar a fatia do bolo, a outra a picar a crista do galo e a esfregá-lo nas barbas da escultura. Mocha como está a faca, a operação precisou de mais tempo do que o previsto, para além de esfarelar abundantemente o pão de ló, espalhando migalhas pelo soalho de madeira da capela, o que significava uma pista comprometedora . A velha Jonja esteve vai não vai para soltar um palavrão perante tantas contrariedades, mas lembrou-se do local onde estava e conteve-se. Já estavam a devolver a faca quando entra a velha Catrina Cástá:
- Rais vos pelem. Se o senhor prior vos vê reza-vos um responso. Vá! aviar-vos lá qu’ê fico aqui de guarda, Nosso Senhor me perdoe.
À saída ainda viram o Miguelito que já lá vinha de pernas arqueadas agarrado à portinhola. Largaram as duas ligeiras Lagariça acima.
- Parece que ninguém nos viu, ó Ti Julha.
- Deus queira que não, filha. Atão quem é que está mal?
- É a minha netinha, anda munto PASMONA. Ê bem diche à mnha Clara pa no andar com comédias logo a seguir à boda, porque era Lua Nova, mas eles andavam co fogo no rabo, agora a garota anda mesmo PASMONA. Amanhein já le dou o bolinho…
- Olha, filha, atão é como as minhas pitas, também andam umas PASMONAS. Atão tu no vês que já vou no tarcêro galo, já as dêtei tanta vez, intéi uma cócó, e no há manêras delas trérem nada, os ovos sempre gorados, sempre gorados. Agora vou a exprimentér com este galito.
- Olhe, bô sorte Ti Julha.
- Bô sorte pra ti tamém, filha, e pá tu netinha, coitadinha.