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sexta-feira, setembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXV - APICHAR

Todos os anos era a mesma comédia: naquele dia, nos 30 minutos a seguir às 7 da manhã, sucediam-se os silvos dos foguetes a subir seguidos do estrondo dos arrebentamentos. Os galos permaneciam calados, os cães ficavam excitados, os bebés choravam assustados, muitos adultos e adultas apresentavam queixa contra desconhecidos por lhes cortarem o sono e chamavam-lhes nomes feios.
Havia festa na aldeia e os povos vizinhos tinham de saber: supostamente era essa a função dos foguetes em tempos faltos de telefonia, televisão ou internet. Mais ou menos intercaladamente, ouviam-se os foguetes de resposta e os de 12 tiros, para acabar com 5 minutos de foguetes de morteiro. Eram sobretudo estes que incomodavam os dorminhocos: a cada 4 ou 5 segundos o estrondo seco do morteiro fazia estremecer levemente os pindricalhos de vidro do candeeiro, entrava pelas trompas do eustáquio adentro e provocava uma grande agitação na região ventral-anterior do hipotálamo, mais especificamente no núcleo supraquiasmático, desregulando o NREM e o REM e, claro, confundindo os sonhos.

Agora, acabou! Já não há foguetes, não há estoiros no ar às 7 da manhã, uma pessoa já pode dormir até às 8.

- Festa sem foguetes, nem é festa nem é nada – declarou o Ti Ambrósio Espantamulas

Conta-se que duma vez, o primeiro foguete da alvorada assustou uma cegonha passante que largou a cobrita que levava no bico com ideias de a entregar ao filhote como pequeno almoço, tendo a dita vindo abater-se no caldeirinho de água que a Natalina Figoseca levava na molídia, e que tinha ido a buscar à fonte do ribeiro cimeiro. Quando desceu o caldeiro para conferir que raio lá tinha caído, e deu com o réptil ainda moribundo, sentiu-se invadir por um arrepio tão grande que lhe eriçaram todos os pelinhos e pintelhinhos do corpo. Botou a fugir caminho abaixo aos gritos e só parou ao pé da velha Conceição Jajanova, que a animou e lhe prometeu que ia ela buscar o caldeiro. E foi. Agarrou na cobrita pelo rabo, deu-lhe forte com a cabeça numa pedra do muro e, meteu-a ao bolso do avental. Mais tarde, já perto da hora do almoço, esticou cuidadosamente o escamoso bicho em cima do batorel, fez-lhe um talho latitudinal a meio, com abertura suficiente para enfiar um dedo de cada lado e, de seguida, puxou devagarinho em sentidos opostos, assim como se faz para tirar a pele aos coelhos. Removido o pulmão, o instestino, e outras excrescências, cortou-lhe ainda a cabeça com uma podoa. Instintivamente, Ti Conceição sentiu as glândulas gustativas em efervescência à vista daquele pedaço de carne rosada e tenra que daí a pouco havia de fritar em azeite, alho e uma pitada de coentro e depois degustar, lânguidamente. E logo em dia de festa.

O mundo é composto de mudança, disse o Luís Vaz e cantou o Zé Mário, e o mundo inclui as festas populares. Parece que antigamente, para além dos foguetes, festa que não metesse porrada não era festa não era nada. Para além deste pormenor, um estudioso concluiu algumas outras coisas interessantes no fenómeno das actuais festas populares, a saber:
que as festas, apesar da capa, se realizam cada vez mais à margem do motivo religioso que lhes deu origem, o que denota uma separação nítida entre o cariz sagrado e profano – nalguns casos há litígio com o pároco, noutros há negociação bem sucedida;
que é assumido cada vez mais o objectivo comercial de procura do lucro material, em que até a data da realização tende a privilegiar as vantagens comparativas inerentes ao afluxo de pessoas, em vez de respeitar a data da celebração religiosa do santo em nome da qual a festa é realizada;
que se verifica um progressivo esvaziamento das referências simbólico-culturais características da localidade e da comunidade em que a festa se inscreve;
que este esvaziamento simbólico foi como que substituído por novos valores os quais acompanham e decorrem do processo de modernização das sociedades rurais;
que esse processo de modernização fica muito a dever a padrões de vida, de consumo e de fruição importados do espaço urbano e subsidiários da cultura de massas;
que a motivação dos protagonistas principais (mordomos, comissão), assenta menos nas questões da fé e orienta-se mais para a prossecução de uma estratégia de afirmação identitária no espaço de origem;
que a dinâmica da festa em si se pauta por elementos completamente desligados da matriz cultural local, como sejam os espectáculos dos artistas e grupos musicais que se fazem pagar bem, em cujas actuações apresentam aparelhagem sofisticada, jogos de luzes e som muito alto, por contraponto ao realejo, acordeão ou banda filarmónica que se satisfaziam com uns tintos como paga;
que a postura dos intervenientes (público) é tendencialmente passiva, inibindo-se de participar dançando ou cantando, resumindo-se ao consumo quase estático;
que se regista uma actualização dos géneros consumidos durante a festa, embora a bifana e os pipis venham conseguindo oferecer alguma resistência ao hambúrguer e ao cachorro;
enfim,
assim como já não há homens como antigamente, parece que também já não há festas como antigamente.

O fim das alvoradas de fogo anulou a possibilidade de acontecer ao Miguelito e ao Camião, os habituais técnicos pirotécnicos, o mesmo que naquele ano. Consta que estavam eles em competição, munidos cada um com seu isqueiro espanhol de torcida, a ver quem APICHAVA mais rapidamente o rastilho dos foguetes, quando aconteceu algo inusitado. Era preciso ir soprando a torcida para não se apagar. Duma das vezes, o Miguelito já tinha chegado a torcida ao rastilho várias vezes e ele não havia maneira de APICHAR. Zangado – o Camião já estava a largar o terceiro foguete de resposta seguido – assoprou-lhe com tanta força que a placa lhe saltou da boca indo cair no meio do silvado da ribeira. Preocupado em ver onde tinha ficado a placa, não reparou que o rastilho tinha finalmente APICHADO e estava na hora de o largar. Não o fez, e quando se deu conta já ia no ar agarrado à cana, bem uns dois metros – convém lembrar que o Miguelito é homem seco de carnes não ultrapassando o seu peso as 3 arrobas e meia. Valeu-lhe o metro e oitenta do Camião que, ao ver a cena, se atirou às calças do Miguelito, e os dois tombaram para o silvado.
Isto é verdade. Acredite quem quiser.