sexta-feira, setembro 30, 2005

A NOSSA FALA XXIX - INCULCAS

Quando ouvi, pela primeira vez, o BILHETE POSTAL dos Rio Grande, com letra do João Monge, avivei a minha memória e, se houvesse discos pedidos naquela estação de rádio, teria telefonado para a repetirem. Quantos eu escrevi....quantos!
Normalmente era aos Domingos, depois de missa, enquanto almoçava, passava uma e dizia:"Eh! Rosa, precura lá ao tê cachopo, se me pode escrever umas regras prá mnha filha Zabel que stá em Lesboa". Era ali mesmo no vão da escada. A Ti Purificação metia a mão no bolso falso da saia cimeira e de lá tirava a última carta, que eu já lhe lera , por via de ver a direcção da Zabel. Relíamos a carta e começava a ditar o que queria que constasse:«Mnha crida filha, muito estimo que ao seres recebora desta te encontres de boa saúde a mais o Chico e os netinhos. Nós cá vamos andando como Deus deixa. Sempre te quero dzer que o nosso porquinho já está bem cevado e que pensamos matar lá perto do Natal. As couves estão lindas e cá andamos na apanha da azeitona. O azeite há-de chegar pra todos. O teu pai já anda a beber do vinho novo e diz que é bom. O que é preciso é que quando cá tornares vás à vila por mor do nosso chão da quelha funda que dizem que não está lá registedo.Fui lá pra pagar a décima e não me souberam dar inculcas dele.Que não existia o nosso chão. Era só o que mais faltava. Bem sabes que eu não sei uma letra e o teu pai ainda menos.
(Num àparte queriam sempre que eu dissesse quem estava a escrever a carta, já que antigamente o escrivão mor da aldeia era o ti Emídio, figura de nariz rubicundo, cor de borra de vinho, sempre encarnado, os dedos amarelos do mata-ratos e da onça holandeza, sempre de cigarrinho ao canto da boca e que , como era ele que antes do João Constâncio distribuia as cartas pelo povo - o carteiro é aquisição tardia e de luxo - sabia sempre quem devia resposta a carta recebida. Tinha ele uma livreta, como ainda hoje tem o Zé Lopes quando aponta a malta para as excursões, onde registava tudo. Escrevia lindamente: uma caligrafia, sempre com caneta de aparo, que fazia inveja até à da ti Ermelinda da lameira, que sempre chamou estampilha aos selos de correio, e que era tida como a que melhor desenhava a letra. .. Engraçado.
O ti Emídio, desde que não estivesse borracho - o que era raro - mandava hóstias na escrita! Lembro-me que o Furdas, duma vez se sai com um grito meio espanhol ao ver aquela tinta sobre o papel: cafones!!!
Sabia a vida toda da aldeia este ti Emídio que morava ali no bairro da lameira, paredes meias com o Zé Maroco, sócio cortador de cabelo e raspador de barbas, aos Sábados, do inefável Do-do-ming-gos Pa-pata- ta- nisca. Tinha em casa um arcaz enorme onde metia a semente do poia pelas barbas e cabelos do ano inteiro. O Domingos gostava mais de dinheiro: os filhos eram bastantes e a tasca do zé julho e do ti zé rolo era mesmo ali a dois passos da barbearia. Às vezes esquecia-se e o sabão secava na cara do cliente. Nada que não se resolvesse, com mais uma esfregadela da fronha com o pincel.
Voltemos ainda ao ti Emídio: ia acima do cemitério e perguntava ao Refe: já tem inculcas do seu Mário? e o Refe: anda cá a matar a bicheza! três branquinhos como a carga do moleiro e se as inculcas ainda não tivessem chegado o Refe dizia ao velho Emídio: toma lá 5 mil réis compras o papel e o sobrescrito e já sabes o que dizer a esse malandro. Se sobrar dinheiro o fatela tem lá a gaveta! Era logo: tasca do fatela, mais um cagão dos grandes, uma cigarrada e o princípio do delirium tremens. Ia ao Arplano, ali no caminho da vila e era o mesmo: mais trocos na gaveta do fatela! mais branco no fígado do Emídio. Mas dava sempre conta do recado. Voltava sempre às origens e lá saía: olhe que eu já escrevi a exigir que eles dêem inculcas do que se passa! Bem hajas, diziam invariavelmente.
Ia mesmo ao campo: duma vez foi ao Chamiço, lá para os coitos da portela, bem para lá do batcharel, bem passado o zé ferrenho e encontra-o a caminho: onde vais, ó chamiço ?- Inda bem co vejo ó snhor joão: olhe lá, os meninos quando nascem já trazem as unhas grandes? - Alguns já, responde o velho Emídio. - Oia, o meu! brada o chamiço: traz as unhas como um gavião. Ia agora a registá-lo ao Tó Robalo. E o velho Emídio: volta pra trás que eu trato disso. Atão vamos a beber um copo! Emídio estava sempre disponível . - Atão e da tua cachopa tens tido novas? -Olhe que não: aquela velhaca nunca mais me deu inculcas.
Não longe do coito do chamiço, mais perto do tiago, servia de criado o grande zé luís barata. Coitado! Tinha fome mas a Aguércia não lhe dava comida bastante. Vai daí, um domingo, quando a menina ia à missa, começa à pedrada a ela para o caminho. Menina Aguércia, clama por céu e terra e volta pra trás. Barata andava por ali: atão não vai à missa? -O Zéi tu sabes lá: choviam pedras do céu! - é-lhe bem feita! - Rais ta parta. - É o que acontece a quem é avarento. Eu aposto que se me der um bocado de queijo e uma fatia de pão, o diabo já não a atenta! - Tu achas que é o diabo, zéi! - É poi! A velha Carapita até me deu inculcas dele, que ele anda por aqui a tentar quem vai à missa e não pratica uma boa obra antes. Aquelas que fizerem o bem levam o anjo da guarda e pronto, o diabo já não as atenta! Fosse como fosse a Menina lá foi buscar a chave, abriub a porta da rede mosqueira e deu o pão e o queijo ao Barata. «Vai a ver que já passa bem a quelha! Mas tem que fazer isso todos os Domingos. Quando eu tiver inculcas que ele abalou aqui das portelas logo lhe digo,! Olhe que a Carapita é má filha da puta e conversa com ele . Até diz que está casada com o diabo!» E a menina: «O Balão parece o diabo, parece!»
Assim Barata foi comendo e Aguércia passando.
Não se esqueçam de dar inculcas!

segunda-feira, setembro 26, 2005

A NOSSA FALA XXVIII - BARRONDA

Quando me juntei ao tribunal, naquela tarde de fim de Verão, o debate em curso andava na política e nas eleições autárquicas que aí vêm. Por regra, vou àquela “sala de audiências” mais para ouvir do que para falar, por isso, apesar de chamado a depor por diversas vezes, mantive-me cautelosamente neutro. De qualquer modo, o tribunal assume invariavelmente a sua vocação para a acusação e eu também não tinha argumentos de defesa. O debate já estava a amornar quando se chega Ti Fcisco Choças.

- Santas tardes a todos qant’stão. Isto é que está uma cousa, já aí está o S. Meguel e não há meios de chover.

Vendo aqui uma oportunidade para introduzir tema mais profícuo, lancei:

- Olhe, já que fala nisso, sabendens vós o que é que têm em comum os dragões, o peso das almas e a agricultura?

Ti Manel Fretas desconfiou que havia marosca na pergunta, vai daí, respondeu em conformidade:

- É o caralho que ta foda.

Ti Eugénio, 95 outonos, o homem mais velho da aldeia, mais 6 que o outro, não hesitou a impôr-se:

- Tento na língua ó rapazinho. Atão mas qu’arrai!

Apressei-me a esclarecer:

- É o S. Miguel, porque matou um dragão, é o que pesa as almas quando chegam ao céu e marca o fim do ano agrícola.

Não se podia esperar que algum dos arguentes presentes no auditório fosse versado em dragões. Em boa verdade, nem eu era. Igualmente, a problemática do peso das almas também não era propriamente um tema sobre o qual pudessem ter qualquer opinião. Confesso: nem eu. Daí que tenha sentido um certo alívio por ninguém ter pegado em nenhum desses temas. Dei o objectivo como alcançado quando Ti Fcisco declara:

- É o fim da agricultura é, atão se no chove…

- Mas isso vai a mudar ó rapazes, vem aí a lua do S. Meguel e vai a cair aguinha que Deus a há-de mandar – titubeou na sua gaguez Ti Domingos Patanisca. Fez-se entender perfeitamente quando continuou:

- Essa cousa da lua mandar na agricultura é qê nunca entendi comédado. Ó Inserme, tu qu’és uma pessoa com estudos, explica lá a estes burros que somos nós como rai a lua manda nas plantas.

- Ó diabo! Agora que você me chapou ó Ti Domingos. A influência da lua na agrícola! Atão vamos lá a ver se me safo. Bom, eu só conheço uma explicação, mas se calhar há outras ideias, portanto o que eu vou a dizer pode não ser bem bem a coisa como ela é. Isso tem a ver com o efeito da luz nas plantas. As plantas agradecem duas coisas: a água e a luz, se falha uma, elas não crescem. É ou não é?

- Ai isso, poi claro, sem aguinha, nada feito.

- Exactamente! Aguinha, mas também luz. Ora, donde é que vem a luz? Do sol, durante o dia, da lua durante a noite. Certo? Que elas agradecem o solinho, isso todos nós já sabemos, não é verdade? É que é essa luz que permite que as plantas façam uma coisa que se chama fotossíntese...

- Mau! Atão agora as plantas também tiram fotografias? – saltou Ti Julho Aspirante.

- Claro que não, Ti Julho, mas deixe lá isso da fotossíntese, o que interessa é que as plantas precisam de luz durante o dia. Atão e de noite? Põem-se a dormir? Ná, as plantas não dormem, portanto, também agradecem a luz durante a noite, porque as ajuda a não parar de crescer. Ora, donde é que vem a luz de noite? Principalmente da lua, é ou não é? Atão, se assim for, conforme o quarto da lua, as plantinhas desenvolvem-se mais depressa ou mais devagar. Por exemplo, da lua nova à lua cheia, ou seja, no crescente, dizem os entendidos, devem-se semear as plantas que nos interessa que desenvolvam os órgãos reprodutores...

- Qu'arraio de porra é essa? - interrompeu, e bem, Ti Augusto Estanqueiro.

- Olhe, Ti Augusto, faça de conta que é como se as plantas estivessem BARRONDAS, com vontade de criarem muitas sementes para se multiplicarem, como a fava, a ervilha, o milho ou as flores. Repare que cada grão de fava, de ervilha ou de milho é uma semente, não é? E quanto mais sementes elas tiverem mai contentes ficamos nós, mas elas também, porque dão melhor continuidade à "raça", faz de conta. Está a ver Ti Augusto?

- Já intindi.

- Mas se nos interessar mais que se desenvolva a parte vegetativa, como as folhas ou as raízes, então o quarto minguante é melhor. Olhe, por exemplo as couves, as cenouras ou as cebolas devem ser semeadas no quarto minguante. Quero eu dizer com isto que, nas primeiras fases do desenvolvimento das plantas, elas são muito sensíveis à luz da lua, precisam dela ou para crescerem ou para se reproduzirem, e portanto, quando se diz que a lua manda na agricultura, isso pode ter a ver com a influência que a luz da lua tem nesse desenvolvimento das plantas.

- Hum! É capaz que seja, é poi!

O debate prosseguiu com depoimentos vários sobre as plantas que se dão melhor com o minguante ou com o crescente, sobre a vinha e o melhor quarto para a poda e a inevitável história que foi um burro que ensinou os homens a podar as videiras. Eu só me metia para tentar reafirmar a teoria. Quando me levantei, satisfeito, para abandonar a barra, Ti Domingos Patanisca gaguejou ainda:

- Já vi que tu sabes, rapaz, no és burro nanhum, digo-to eu, mas tamém no quero que te vás imbora sem aprinderes nada aqui co’s velhos. Falaste aí em burros e barronda e o catano... Atão tu sabes ver cand’é q’ma burra está BARRONDA?

- Eu? Ó Ti Domingos, sei lá eu ver uma coisa dessas…

- Atão! S’os burros sabem, e são burros…

terça-feira, setembro 20, 2005

A NOSSA FALA XXVII - ACARREJA

O tempo dos ganhões e das juntas de bois (vacas e até de burros, mulas ou mistas) está quase extinto por todo o país. Tempos houve, todavia, que homem e bestas puxavam os carros pela canga, unida ao tiró por uma cravelha reforçada com um tamoeiro, por mor de facilitar as oscilações. Sim, que nem sempre os animais eram do mesmo porte, ou até da mesma raça.
O ganhão tinha brio nos seus animais e era uma honra ter bestas com pêlo a reluzir e o carro bem oleado, os fueiros direitinhos, canelos em bom estado e, claro uma vara com aguilhão na ponta para o acicate e o respeito. Bastava a sombra para que a junta espevitasse o pé. Havia vários na Aldeia, desde o ti Zé Rolo que chegava a vir vender produtos vários a Castelo Branco , chegando a trazer dezoito juntas de vacas.A camioneta da carreira deu-lhe cabo do negócio e o homem finou-se cedo...(não tão cedo que não tivesse tido tempo de casar duas vezes e deixar geração em dezasseis filhos e filhas) ; o ti Mné Guerra, de alcunha o Geba, o irmão, o tiDomingos, velhaco quanto bastasse, o ti Zé Domingues, o Alberto Vaz, o Vigura que num Domingo de borracheira deitou os dentes à orelha do Agostinho Cagarela, conhecido por Cabo Vermelho e com um dentada lhe arrancou o brinco... Foi meu pai que, quando a ambulância chegou ao inevitável café da Rosa, lha meteu no bolso com recomendação ao bombeiro. O Cagarela acabou por ficar com a orelha soldada. Mas havia mais, o ti Zé Carreto que não se cansava de falar "no mê filhe dótorrrr", ou o Talha Burricos e por aí fora.
Por este tempo o som das dornas ecoava por aqueles caminhos e, não raro , nas subidas era preciso um garoto com um calhau para pôr por detrás da roda a servir de travão e os acompanhantes deitarem unhas às rodas e, a mando do ganhão, de vara na mão, todos à uma, incitarem as vacas até ao cimo. Superado o obstáculo, dava-se repouso às bestas e até se desaguavam com "gacho". Era a ACARREJA.
No Verão, por alturas de Julho, havia a outra acarreja: a da semente. Era ver os homens de chapéu e lenço encarnado ao pescoço por causa da pragana, aproveitando o relativo fresco da manhã para carregar o moio da semente (sessenta molhos, atados com um nagalho de colmo). Era preciso uma técnica especial para encatrafiar entre os fueiros e o vértice do carro tanta palha.. Se uma carga caísse, era garantida uma choradela de entrudo... Os molhos iam para as eiras e, a mangoal, homens frente a frente, e, a mando do zé padre, certinhos, batiam a palha e faziam saltar o grão.
As malhadeiras que depois apareceram aliviaram um tanto esta azáfama das malhas que começavam com a desejua, às cinco - figos secos e aguardente desmanchada com água e açúcar - a que se seguia a côdea, por volta das oito, o almoço às dez, o jantar ao meio dia, a merenda pelas três e meia, a ceia às sete e o ceote, à despedida, pelas nove . Tanto comer! dirão os mais novos.... Mas nenhum deles vergou a mola e tocou o mangual de sol a sol . Dormia-se até nos córregos!
A ti julha do bate-sacas malhava na quinta- feira. Andava preada: primeiro porque ameaçava molho e depois porque a panela de ferro rachou! Tinha que ir à vila a comprar uma no mercado de quarta. E foi. Mercou a panela e vinha com ela à cabeça, mas a idade tudo traz do que é mau e lá concluiu que não chegava à aldeia com a panela à cabeça, em cima da molídia. Decidiu vir de camioneta: Chico julho a motorista e ti Martinho a cobrador. Chovia bem. Ti Martinho avisa que lhe tinham dito que a polícia estava ao asilo e o melhor era que, quem não tivesse lugar sentado, fosse a pé pela calçada até à água férrea que ele depois parava e as pessoas montavam. Lá vão todas ligeirinhas, calçada abaixo e esperam a camioneta. Quando ela assoma na curva cimeira, toca a porem-se a jeito para subir... Chico julho nem as viu. Foi ali o princípio do fim do mundo. Até ficava mal em língua de mulher ... Ti Julha teve mesmo que trazer a panela até à aldeia, a pé. Teve que se deitar mal chegou a casa e o bate-sacas é que teve que se esgadanhar a fazer os preparos para a malha, porque podia deixar de chover e o pessoal estava falado.
Ainda assim, no dia seguinte à hora da camioneta, bate-sacas larga da eira e vem à espera da camioneta. Quando chegou, ti Martinho estava lá por cima a descarregar volumes maiores. Vai o bate-sacas:" desça-se cá para baixo que eu quero saber porque é que vossemocê ontem não amontou a minha mulher ali na fonte da água férrea! "Ti Martinho era a graça em pessoa e são famosas algumas das suas tiradas que talvez venham aqui ao baile noutra altura, respondeu lá do alto: "amonte-a você, ou já lhe falta o material?"
Claro que tudo se riu e bate-sacas afogou a tosquia num copo dos grandes na tasca do fatela, enquanto remoía: filho da puta do velho, chapou-me com esta.
Voltou à eira danado, e, sozinho, fez a acarreja das sacas de semente para o arcaz da loja.

segunda-feira, setembro 12, 2005

A NOSSA FALA XXVI -ESPLICONDRÍFICO

Até parece admirável que a populaça tenha criado termo tão esquisito e de difícil pronunciação, ela que é, em termos de adaptação linguística, adepta da lei do menor esforço : Ninguém diz TAMBÉM, mas todos dizem tamen, só para servir de exemplo. O povo é assim mesmo.
O tempo dos chamados animais de estimação, embora sempre tenha havido quem deles se servisse e ufanasse, esse tempo, essa moda e até a chamada de atenção para os direitos dos animais é relativamente recente. Já agora, sempre é de referir que os animais não têm, per se, quaisquer direitos pela simples razão de que não têm Razão e, logo, consciência dos seus actos, pelo que são, por natureza inimputáveis, portanto, não se lhes pode atribuir culpabilidade ou responsabilidade. Breve: não são livres, estão condicionados. Os direitos são-lhes atribuídos por nós e é em função dos direitos que nós -humanos- lhes concedemos, que eles usufruem de reservas naturais, por exemplo.
Bom... Vamos ao esplicondrífico:
Vedeta sem paralelo quando aparecia lá pela Aldeia, o que até nem era muito frequente, esta ave de arribação, distinguia-se e dava logo nas vistas. Em cinco minutos, Tecla, Paca, Rosa Manata, Pieres e outras que tais, depressa espalhavam: Está cá o Tira -Linhas!
O nome foi discutido no adro: coiote pete, chibeto, teixeirinha, manquinho, nosso cabo, sapo e outros como o fala-barato, isidorico, mota e eu, está claro, todos disputámos a alcunha a dar àquele pernalta. Acabou por ficar o Tira-Linhas.
Era única aquela figurinha: cabelo preto de azeviche, espetado que nem cerdas de javardo após banho de lama, a tal ponto quem nem Lucho ,Guerrilhas, Vinagre, Maneta, ou até mesmo Camião ou Calça Defuntos, desdenhariam de um cabelo só que fosse, para enfiar a ponta de cabo em buraco de sovela, quando palmilhavam sapatos grosseiros ; a testa era alta, desempenada, sem rugas, os olhos negros vivos, mas pequenos. Piscavam muito, se calhar era tique, nunca tirei a limpo; o nariz, esse, era um galho de eucalipto seco: uma penca na verdadeira acepção do termo, com duas ventas onde cabia um polegar à vontade; bigode, pois então, pretinho como o cabelo, sempre bem aparado; lá nisso do aprumo, Tira Linhas era irrepreensível. O queixo tinha uma covinha bem pronunciada no torno, mas nunca se lá via um pêlo; sabia-se escanhoar; o pescoço era o de uma cegonha, mal acomparado, media bem meio palmo. Os ombros eram largos e os braços pendentes parecia não mais acabarem: chegavam-lhe quase aos joelhos; as mão eram finas, sem calos, unhas sempre bem aparadas; invariavelmente vestia calções e mostrava umas pernas peludas na ponta das quais dois pés, para aí 45, espreitavam pelas aberturas das sandálias. Corria que nem um galgo: manhã cedo, era vê-lo, cavacal pela rua das aranhas, até à fontinha, direito ao feijão, subia ao poço do Dr. Amândio, passava as oliveiras de melão, descia às taliscas, subia ao alto e voltava à aldeia: todos os dias. Corria sempre sozinho e mesmo quando descia ao povo, era de poucas falas. Dali saía pouco e ainda entrava menos. Um eremita!
A discussão pelo nome a pôr- lhe foi acalorada: Vareta, dizia chibeto e logo coiote: espigão, o mota, que era ganhão, aventa com fueiro, vou eu atiro com empa de feijoeiro, isidorico, figurinha quase parecida, salta com esta: esplicondrífico! Ficou tudo a olhar para ele. Espli...quê? remata logo o fala barato, andas a ler muito ó isidorico! Bonito, bonito, atira o manquinho era palito, mas o teixeirinha, aquela bolinha de carne, foi quem levou a melhor: fica tira linhas e ponto final. Sem votação, ficou decidido: tira linhas.
Nisto aparece o césaro: nem era preciso vê-lo, bastava cheirá-lo... Tabu espanhol! cheira a cem metros. Sem saber da história sai-se com esta: atão não querendens lá ver que aquele gajo, o fininho, que mais parece uma sovina de virar as filhós, que mora além em cima ao pé dos calípios do Robalo, o grande filho da puta, que não tem outro nome, a subir ali a barreira do oiteiro, larga uma bojarda das rijas, começa-se a rir e sai-se: anda cabrão, que não encontras casa como a que deixas! Eu estava-me a pantear e ouvi o foguete . A minha mãe até berrou da cama: porco, que és um porco! Tive que chegar à porta do quarto a dizer-lhe que não tinha sido eu... Ataca chibeto: quem diria! amanhã já lhe dizemos que se quiser uma rolha para o cu lhe faço uma! Teixeirinha nunca perdia pitada: tu és maluco! vamos mas é oferecê-lo ao jaimeca para trompete da banda de aldeia de joão pires... Todos começaram a rir. Essa é boa, ó teixeirinha.
Fala barato conta a última: atão não quereis ver que a mulher do esfola gaitas foi com ele ao hospital e quando lhe perguntam o nome do zéjulho, ela responde: sei lá! ele a mim só me chama: ó melher, ó melher! e eu a ele é sempre: ó home! oh! home!
Então é que foi rir.
Ó Isidorico, pergunta ainda o fala barato: como é que tu querias chamar ao Tira Linhas?
Esplicondrífico, diz o Isidorico!
Ouviu-se um coro: sim senhor, ESPLICONDRÍFICO!
O Césaro ficou à nora!
Às vezes eram assim as noites no adro, encostados ao muro do marcelo e o padrão a ouvir!
Boa-noite!

sexta-feira, setembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXV - APICHAR

Todos os anos era a mesma comédia: naquele dia, nos 30 minutos a seguir às 7 da manhã, sucediam-se os silvos dos foguetes a subir seguidos do estrondo dos arrebentamentos. Os galos permaneciam calados, os cães ficavam excitados, os bebés choravam assustados, muitos adultos e adultas apresentavam queixa contra desconhecidos por lhes cortarem o sono e chamavam-lhes nomes feios.

Havia festa na aldeia e os povos vizinhos tinham de saber: supostamente era essa a função dos foguetes em tempos faltos de telefonia, televisão ou internet. Mais ou menos intercaladamente, ouviam-se os foguetes de resposta e os de 12 tiros, para acabar com 5 minutos de foguetes de morteiro. Eram sobretudo estes que incomodavam os dorminhocos: a cada 4 ou 5 segundos o estrondo seco do morteiro fazia estremecer levemente os pindricalhos de vidro do candeeiro, entrava pelas trompas do eustáquio adentro e provocava uma grande agitação na região ventral-anterior do hipotálamo, mais especificamente no núcleo supraquiasmático, desregulando o NREM e o REM e, claro, confundindo os sonhos.

Agora, acabou! Já não há foguetes, não há estoiros no ar às 7 da manhã, uma pessoa já pode dormir até às 8.

- Festa sem foguetes, nem é festa nem é nada – declarou o Ti Ambrósio Espantamulas

Conta-se que duma vez, o primeiro foguete da alvorada assustou uma cegonha passante que largou a cobrita que levava no bico com ideias de a entregar ao filhote como pequeno almoço, tendo a dita vindo abater-se no caldeirinho de água que a Natalina Figoseca levava na molídia, e que tinha ido a buscar à fonte do ribeiro cimeiro. Quando desceu o caldeiro para conferir que raio lá tinha caído, e deu com o réptil ainda moribundo, sentiu-se invadir por um arrepio tão grande que lhe eriçaram todos os pelinhos e pintelhinhos do corpo. Botou a fugir caminho abaixo aos gritos e só parou ao pé da velha Conceição Jajanova, que a animou e lhe prometeu que ia ela buscar o caldeiro. E foi. Agarrou na cobrita pelo rabo, deu-lhe forte com a cabeça numa pedra do muro e, meteu-a ao bolso do avental. Mais tarde, já perto da hora do almoço, esticou cuidadosamente o escamoso bicho em cima do batorel, fez-lhe um talho latitudinal a meio, com abertura suficiente para enfiar um dedo de cada lado e, de seguida, puxou devagarinho em sentidos opostos, assim como se faz para tirar a pele aos coelhos. Removido o pulmão, o instestino, e outras excrescências, cortou-lhe ainda a cabeça com uma podoa. Instintivamente, Ti Conceição sentiu as glândulas gustativas em efervescência à vista daquele pedaço de carne rosada e tenra que daí a pouco havia de fritar em azeite, alho e uma pitada de coentro e depois degustar, lânguidamente. E logo em dia de festa.

O mundo é composto de mudança, disse o Luís Vaz e cantou o Zé Mário, e o mundo inclui as festas populares. Parece que antigamente, para além dos foguetes, festa que não metesse porrada não era festa não era nada. Para além deste pormenor, um estudioso concluiu algumas outras coisas interessantes no fenómeno das actuais festas populares, a saber:

que as festas, apesar da capa, se realizam cada vez mais à margem do motivo religioso que lhes deu origem, o que denota uma separação nítida entre o cariz sagrado e profano – nalguns casos há litígio com o pároco, noutros há negociação bem sucedida;

que é assumido cada vez mais o objectivo comercial de procura do lucro material, em que até a data da realização tende a privilegiar as vantagens comparativas inerentes ao afluxo de pessoas, em vez de respeitar a data da celebração religiosa do santo em nome da qual a festa é realizada;

que se verifica um progressivo esvaziamento das referências simbólico-culturais características da localidade e da comunidade em que a festa se inscreve;

que este esvaziamento simbólico foi como que substituído por novos valores os quais acompanham e decorrem do processo de modernização das sociedades rurais;

que esse processo de modernização fica muito a dever a padrões de vida, de consumo e de fruição importados do espaço urbano e subsidiários da cultura de massas;

que a motivação dos protagonistas principais (mordomos, comissão), assenta menos nas questões da fé e orienta-se mais para a prossecução de uma estratégia de afirmação identitária no espaço de origem;

que a dinâmica da festa em si se pauta por elementos completamente desligados da matriz cultural local, como sejam os espectáculos dos artistas e grupos musicais que se fazem pagar bem, em cujas actuações apresentam aparelhagem sofisticada, jogos de luzes e som muito alto, por contraponto ao realejo, acordeão ou banda filarmónica que se satisfaziam com uns tintos como paga;

que a postura dos intervenientes (público) é tendencialmente passiva, inibindo-se de participar dançando ou cantando, resumindo-se ao consumo quase estático;

que se regista uma actualização dos géneros consumidos durante a festa, embora a bifana e os pipis venham conseguindo oferecer alguma resistência ao hambúrguer e ao cachorro;

enfim,
assim como já não há homens como antigamente, parece que também já não há festas como antigamente.

O fim das alvoradas de fogo anulou a possibilidade de acontecer ao Miguelito e ao Camião, os habituais técnicos pirotécnicos, o mesmo que naquele ano. Consta que estavam eles em competição, munidos cada um com seu isqueiro espanhol de torcida, a ver quem APICHAVA mais rapidamente o rastilho dos foguetes, quando aconteceu algo inusitado. Era preciso ir soprando a torcida para não se apagar. Duma das vezes, o Miguelito já tinha chegado a torcida ao rastilho várias vezes e ele não havia maneira de APICHAR. Zangado – o Camião já estava a largar o terceiro foguete de resposta seguido – assoprou-lhe com tanta força que a placa lhe saltou da boca indo cair no meio do silvado da ribeira. Preocupado em ver onde tinha ficado a placa, não reparou que o rastilho tinha finalmente APICHADO e estava na hora de o largar. Não o fez, e quando se deu conta já ia no ar agarrado à cana, bem uns dois metros – convém lembrar que o Miguelito é homem seco de carnes não ultrapassando o seu peso as 3 arrobas e meia. Valeu-lhe o metro e oitenta do Camião que, ao ver a cena, se atirou às calças do Miguelito, e os dois tombaram para o silvado.

Isto é verdade. Acredite quem quiser.

terça-feira, setembro 06, 2005

A NOSSA FALA XXIV - TORGALHO

Era engraçado o raio do garoto...Nunca tirava as mãos dos bolsos. Contava histórias e mais histórias, ria-se antes do fim e, em vez de ajudar, empatava.No tempo da azeitona, punha-se junto das mulheres, em cima do fato, pisava a azeitona a passear dum lado para o outro ,tingia os toldes e, ainda a manhã ia a meio: "Tenho fome! " Estava tudo trabalhado! Quando este grito soava, pronto! havia um que tinha que largar tudo para alimentar sua excelência.
Sabia tudo de cor: equipas de futebol, programas de televisão, nomes de telenovelas, marcas de sabonete, cores das bandeiras, tipos de queijo francês, marcas de vinho portugueses, as províncias de espanha e até as quatro dinastias com os reis todos seguidos, embora às vezes na dos Filipes se enganasse, porque o nosso primeiro era o segundo deles, afluentes dos rios principais da margem esquerda e direita, sistema das serras, identificação e altitude, e, pasme-se, linhas e horários de combóios, para além, é claro, da estação de comboio mais perto de qualquer rua de Lisboa. As velhas pasmavam! Se começavam uma cantiga, ele arrematava logo que a Gina Maria a tinha gravado, que o Pissarra é que a cantava bem, ... - que sei eu? - e se o assunto virava para problemas sociais, tipo fome no mundo e miséria à porta de casa, aventava com estatísticas tais, que todo mundo se deslumbrava. A do Vigura até dizia: "sabe tralha, o garoto, é mesmo um torgalho, tem graça! " Quem não achava piada à história era o velho comandante:« pouca conversa com o garoto, FAAAAAAAATTTTTTTTOOOOOOO! Muda-te! Ó mulheres! rais partam tanto palavrear! a minha mãe é que tinha razão: " às mulheres, ainda que lhes cortem metade da língua ainda falam o dobro do que deviam". E virava-se para o cachopo: «vai-me além a buscar uns nagalhos que preciso deles», isto a ver se o despegava das mulheres e de cima dos toldes onde esborrachava a azeitona toda: «raios o afundem, pensa que o lagar já é aqui! Ah! tempo. ! » O lã branca desce-se da escada, faz a muda e ala, vai-se afastando para a moita. O Comandante viu-o: « oh! lã branca, onde pensas que vais?- "Ò ti joão, vou só aqui a aviar a vida! " E o velho: « Caga já aí e limpa o cu a um torrão! assim nem daqui a dez dias colhemos a azeitona! CHOVA! CHOVA!»
Pior, pior, foi ao almoço! Ao meio dia comandante dá a ordem: «Vamos à bucha! »
Zé Luís, Chibarreiro, Mija a Parede, Pirolito, Cão Reles , Roupinha Afineda, nosso Fernando foram ao regato passante lavar as mãos, as mulheres foram pelas bolsas da merenda e todos se foram chegando ao lume.
E vou eu:« Não é preciso abrirem as bolsas. Há aqui almoço para todos.» O comandante: «é a despachar, que o patrão é pobre!» e eu: «calma: a hora de comer também é paga!» e o comandante: « o comer azeda, o trabalho não, há que comer depressa para não azedar e irmos ao trabalho! »
O garoto, entretanto, tinha estado na carrinha a ouvir o rádio e quando viu o maralhal junto, logo se chegou!
«Quantos metros cúbicos de água debita a barragem de Idanha no ponsul?» perguntou
e o comandante: « olha lá: com quantos dentes nasce um cabrito?» a malta riu... o garoto encavacou! Diz a do Alguitarra:" o garoto é torgalho mas o comandante chegou para ele!" ; A do Lavra Miúdo pisca o olho ao garoto e diz-lhe, sem o comandante dar conta: «vai além ao Furdas que ele diz-te. » O garoto foi e diz ao velho: «nasce com oito.» E o velho:« de cima ou de baixo?» e a do Lavra Miúdo: «trabalhou-o!» O lume crepitava, o entrecosto desaparecia, a farinheira era um regalo e a morcela foi um ar que lhe deu. Ia eu a botar a segunda roda de copos quando o comandante: «imbora que a cegonha já fez o ninho na escada! »
Aí, a Café triste, neta do comandante:" rais ma partam: atão estive onte à noite a friter umas petingas que estava cos desejos e agora não as provo?"Vai-se à cesta e lá vem a malguinha com as sardinhas: eram 14. E vou eu: «Ó filha do diabo, tu eras capaz de comer estas catorze sardinhas, fora o feijão ciclista?» "Cala-te, o´rapa o tacho, que eu trouxe a contar contigo!" O garoto aproximou-se e deita as unhas a uma mão cheia de sardinhas e devora-as num ai!
Diz a Maregas: «Eu comia durante uma semana com essas sardinhas»! e a do Lavra Miúdo: « para mim e para o meu dava para um dia». A Café Triste não gosta nada da conversa e desafia o garoto:´«ó torgalho, bota aí mais uma das tuas a ver se endrominas ali o velho comandante» .
O garoto sentiu-se animado e aventa com esta:
« A ver se percebeis :Vou-vos contar a história do CÚMULO dos cúmulos: no tempo em que os animais falavam e os mulos e as mulas também botavam"gente" para o mundo, o mulo com a venta arregaçada e os dentes luzidios àparte uma fiada de erva que teimosamente persistia encravada entre os prémolares, excitado pela urina da mula morde-a no pescoço, relincha e dá quatro pinotes e meia dúzia de escritos para o ar, deixando tudo aparvalhado.»
Vai a do Lavra Miúdo: "eu é que estou aparvalhada com este palavreado"! logo a Café Triste:« ó fardo, tu não ouves o comandante?! despacha lá a história cassenão ele ao fim não nos paga a jorna». "Pronto", diz o Torgalho. E continua:« o mulo pôs-se na mula assim comédado mas não acertava com o barómetro no mijateiro da mula... E vai esta: tu não vês que isso é o CÚ, MULO»?!
" Já acabou?" pergunta a do Alguitarra, e a do Lavra Miúdo igual: pasmada e pasmona! A Café Triste, que tocava a ciranda como nunca vi a ninguém, enquanto cantava : Ai o Sol quando nasce inquilina/ Ai às pedras do meu balcão/ também eu in(qu)ilinei /aos teus olhos, ó João... Ai o Sol quando nasce inq(ui)lina/ ài às pedras do meu anel(i)/ também eu inq(ui)linei /aos teu olhos, ó Manél(i) ,de repente, põe-se a rir e vai de explicar às outras a história do torgalho. Elas, incrédulas, a pouco e pouco, lá foram entendendo, mas rir riram pouco: isto do pudor ...até mesmo com os cães que fazem à vista de toda a gente é preciso revirar os olhos que é pecado!
Nisto, o comandante: FFFAAAAAAAATTTTTTTTTOO! MMMMMUUUUUUUUDDDDDDAAAAA-TTTTTTTEEEEEEEEEEEEEE! Mulheres! ó mulheres ! rais parta tanto paleio!E a Café Triste: «Ponha-se manso que inda nunca lhe faltou fato. só sabe é espantar os pardais.» e brada também: "CHHHOVA!! CHOOVVVVVA!" Nosso Fernando:" é chapada esta, faz mangação do velho e ele cala-se" Se fosse noutro tempo, encorria-a à pedrada!"
O garoto, sempre de mãos nos bolsos vem ouvir a conversa dos homens e fica-se por ali... O velho chama-o: " ouive lá! tu és novo, tens muito que aprender! se quijeres!: a gente quando tem um rancho a trabalhar para nós é sempre o primeiro a fechar a navalha.Viste!? eu colhi uma muda antes de elas cá chegarem... E depois não sejas como as mulheres: ainda que lhe cortassem metade da língua que têm, ainda falavam o dobro do que deviam; olha que nosso senhor te deu duas orelhas e só uma língua e isso quer dizer que deves ouvir o dobro e falar metade! O importante não é dizer o que sabes, mas saber o que dizes. A vida é filha da puta e ou abres a pestana ou te passam a perna». Eu estava por ali e pensei: é filósofo, o raio do velho.! tem tarimba! e viro-me para o garoto: "Não sejas torgalho"!

sexta-feira, setembro 02, 2005

A NOSSA FALA XXIII - PASMONA

A religiosidade é a essência do Homem, dizia Émile, um intelectual francês do século XIX. A religiosidade institucionalizada transforma-se em Igreja e adquire o direito de estabelecer a classificação do que é sagrado ou do que é profano. Os ritos sagrados são bons e devem ser seguidos, os ritos profanos são maus e devem ser abandonados. “A” verdade reside no sagrado, logo, o sagrado acha-se no direito de se poder aproveitar do profano, vai daí, encaixa à vontade festas em solstícios e equinócios já celebrados. A porra é quando o profano se quer aproveitar do sagrado. Sujeita-se, pois claro. Vem isto a propósito do dia dedicado a louvar o senhor S. Bartolomeu e de alguns ritos…mais ou menos profanos. O povo é religioso, o povo tem fé, o povo segue os dogmas da Santa Igreja Católica Apostólica Romana mas…há situações…

Quando Natanael, cidadão israelita, contemporâneo do Cristo, decidiu segui-Lo, não podia saber que, por via da sua fé, havia de ser martirizado – rezam as crónicas que terá sido esfolado vivo e frito em azeite - algures no oriente, por via disso chegaria a santo e, por via disso, daí a 20 séculos havia de ser louvado numa pequena aldeia da beira interior de Portugal, já com o nome de Bartolomeu, ou, como sempre se referia a ele a minha avó, o Senhor San Bartlameu, ou ainda San Bertlomeu como lhe chama ainda hoje o Ti Miguelito.

Apresenta-se ele empunhando uma faca na mão direita e a segurar o diabo por uma corrente com a mão esquerda. Todos os anos, no vigésimo quarto dia do mês de Augusto lhe organizam uma festa com o seu nome e o levam em cima de um andor em procissão, outeiro acima cavacal abaixo, a Banda de Aldeia de João Pires pá pá párá pá pá, pó tchim, pó tchim enquanto o sino não pára o dlim dlim dlão, dlim dlim dlão, para o deixarem uma temporada na capela do Espírito Santo.

Diz o povo que nesse dia, porque a festa é dele, concede um dia de liberdade ao diabo, para ambos se poderem divertir. O santo fica-se ali mesmo pelo recinto, a tirar a barriga de misérias, a beber bejecas fresquinhas e a comer frango assado, pipis, moelas, bifanas, cachorros quentes com muita mostarda, chanfana, o que mais haja, e, claro, a bailar com solteiras e casadas metido na pele de quem muito bem lhe apetecer. O diabo, esse dedica-se a fazer o que mais gosta, ou seja, diabruras. Ora, já se está a ver o que pode acontecer quando o diabo anda à solta. Pode acontecer que alguém caia para o poço quando está agarrado à burra a tirar água para regar os tomates os pimentos, as beringelas e restantes hortícolas, que os cães apareçam a praticar actos homosexuais, que um furacão destrua cidades nos Estados Unidos, que apareçam muitos incêndios em Portugal, que os burros fiquem de caganeira, que o governo tome medidas drásticas, que aconteçam inundações em vários países do mundo, que as pitas saltem para cima dos galos, que as raparigas andem também mais soltas e os marotos dos rapazes se aproveitem, que o Benfica não ganhe nem em casa, enfim, que não me saia o euromilhões a mim. No dia seguinte, preso novamente o diabo, o ressacado S. Bartolomeu tem de andar a emendar o que pode.

Na tarde desse mesmo dia, também fazem um “ramo” ao santo padroeiro, onde o povo lhe oferece pão, bolos variados, azeitonas, feijão, vinho, e… pitos vivos. Os pitos têm de ser mesmo vivos.

Consta, então, que algum povo, católico, crente, cliente infalível da dominical eucarística, insuspeito, portanto, cede à tentação - mais um indício de que o diabo anda mesmo à solta - de atentar contra os dogmas da Santa Igreja Católica Apostólica Romana com ritos eminentemente profanos. Um povo deita duas moedas na caixa do santo e uma na do diabo (pelo sim, pelo não). Outro povo, mais sofisticado, chega-se sorrateiramente ao pé do martirizado Natanael, pede-lhe a faca emprestada por uns momentos e corta o pão ou o bolo que comprou no ramo, ou, esfrega o pito nas suas barbas.

Naquele ano, bem custou à Ti Maria Chebarrêra dar aquele dinheirão pela bandeja com o pão de ló e a garrafa de vinho do Porto, mas tinha-lhe dito quem sabia que o bolo tinha de ser comprado no ramo do Senhor San Bartlameu e depois tinha de cortar uma fatia com a abençoada faca. Escolheu a hora em que Ti Miguelito, o guardião do santo se foi a verter águas. Quando entrou, já lá estava a velha Júlia Jonja às voltas com a faca que o santo segurava vigorosamente, enquanto com um pé acalcava a boca da saca onde um galo pedrês se debatia ingloriamente.
- Atão no sai, Ti Julha? Ande qu’eu a ajudo.
Desarmado o israelita, apressaram-se, uma a cortar a fatia do bolo, a outra a picar a crista do galo e a esfregá-lo nas barbas da escultura. Mocha como está a faca, a operação precisou de mais tempo do que o previsto, para além de esfarelar abundantemente o pão de ló, espalhando migalhas pelo soalho de madeira da capela, o que significava uma pista comprometedora . A velha Jonja esteve vai não vai para soltar um palavrão perante tantas contrariedades, mas lembrou-se do local onde estava e conteve-se. Já estavam a devolver a faca quando entra a velha Catrina Cástá:
- Rais vos pelem. Se o senhor prior vos vê reza-vos um responso. Vá! aviar-vos lá qu’ê fico aqui de guarda, Nosso Senhor me perdoe.
À saída ainda viram o Miguelito que já lá vinha de pernas arqueadas agarrado à portinhola. Largaram as duas ligeiras Lagariça acima.
- Parece que ninguém nos viu, ó Ti Julha.
- Deus queira que não, filha. Atão quem é que está mal?
- É a minha netinha, anda munto PASMONA. Ê bem diche à mnha Clara pa no andar com comédias logo a seguir à boda, porque era Lua Nova, mas eles andavam co fogo no rabo, agora a garota anda mesmo PASMONA. Amanhein já le dou o bolinho…
- Olha, filha, atão é como as minhas pitas, também andam umas PASMONAS. Atão tu no vês que já vou no tarcêro galo, já as dêtei tanta vez, intéi uma cócó, e no há manêras delas trérem nada, os ovos sempre gorados, sempre gorados. Agora vou a exprimentér com este galito.
- Olhe, bô sorte Ti Julha.
- Bô sorte pra ti tamém, filha, e pá tu netinha, coitadinha.

quinta-feira, setembro 01, 2005

KATRINA

 There was a house in New Orleans
 They called the Rising Sun
 And it was been the ruin of many a poor boy
 And God I know I was one
 
 My mother was a tailor
 She sewed my new bluejeans
 My father was a gamblin' man
 Down in New Orleans
 
 Now the only thing a gambler needs
 Is a suitcase and trunk
 And the only time he's satisfied
 Is when he's on a drunk
 
 Oh mother tell your children
 Not to do what I have done
 Spend your lives in sin and misery
 In the House of the Rising Sun
 
 Well, I got one foot on the platform
 The other foot on the train
 I'm not goin' back to New Orleans
 To wear that ball and chain
 
 Well, there was a house in New Orleans
 They called the Rising Sun
 And it was been the ruin of many a poor boy
 And God I know I was one