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terça-feira, agosto 17, 2010

CLVII - A NOSSA FALADURA - TORA

Não se pense que falamos da Bíblia judaica...A TORAH, livro sagrado por excelência para o judaísmo e, sobretudo, os famosos livros do Pentateuco (Penta=cinco e Teka -armazém,arquivo), a saber: Génesis,Êxodo,Levítico, Números e Deuteronómio, os únicos cinco directamente revelados por Deus a Moisés.
Não é dessa Torah que hoje tratamos...
Nesta altura do ano já se descamisava muito milho ratinho nos lastros dos balcões graníticos.A vizinhança , depois da janta, juntava-se e, todos juntos tiravam o folhedo ao milho e punham a nu a maçaroca que depois acabava de secar num panal que era recolhido todas as noites por mor da orvalhada, que na aldeia dos xendros era sempre farta, dada a sua cota baixa.
Não era só o milho que era descamisado. Também as primeiras vagens secas do feijão que havia de durar para todo o anosofria do mesmo afã.
Júlio Dinis descreve exemplarmene esta faina agrícola na Morgadinha dos Canaviais e, se na xendrice não se davam beijos quando surgia uma maçaroca de milho-rei, pelo menos, o bafejado disso fazia alarde.
Local por excelência era o balcão da Tonha Costa, ali mesmo no largo da paragem das camionetas, pois ficava mesmo por debaixo de uma lâmpada de iluminação pública e era largo quanto baste para dez pessoas ali compartilharem trabalho antes da deita. Muitas noites ali estive eu também com um pau aguçado para furar alguma camisa mais húmida e fosse resistente ao desfolhar de cada uma das folhas até chegar à maçaroca.
Falava-s de muita coisa mas não de bola, nem de"gajas" nem doutras futilidades que tais. Assuntos sérios a maior parte das vezes, sem que, de vez em quando não surgisse por ali alguma historieta brejeira, não raro com alguma malandrice inocente pelo meio...
Às vezes aparecia por ali o Tonho Félix, filho de velha Lorpa e que era o único varão xêndrico que acartava a água no cântaro de barro à cabeça, sem o auxílio das mãos e sem molídia. O barro assentava directamente no cocuruto da cabeça de Félix. Quer ele, quer a mãe andavam sempre descalços e lembro-me dos pés da velha Lorpa que eram quase tão largos como compridos,devido ao tamanho descomunal dos joanetes. Pisavam silvas e os carapetos não entravam naqueles cascos (perdoe-se a força da expressão).
Na escala de inteligência de Binet, muito provavelmente Tonho estaria com 55 a 60 pontos de Q.I., o que o situaria no degrau do parvo e é consabido que quando se socializava, de imediato era o alvo das atenções e servia de bobo. O ser humano é mesmo assim: o que importa não é a pessoa,mas o defeito da pessoa e sente um prazer inefável a gozar com a inferioridade do outro: se um indivíduo tem a triste sorte de ser marreca, o mais não interessa, mas é o marreca para todos.
Tonho não era senhor de uma chiba muito acentuada, mas dava para perceber que tinha uma pequena concertina às costas.
Eu não era melhor que os outros e uma noite meteu-se-me na cabeça atentar Tonho Félix:
-O Tonho, de dia está calor como um corno e tu podias ganhar uns trocos se à noite fosses cortar as maçarocas das canas. O milho já está todo desbandeirado e as canas deixava-las lá que depois o Vigura logo as ata e as traz. Nós aqui só precisamos das maçarocas.
- Tu num vês que de noite stá escuro como o alcatrão?
- Eu empresto-te o meu cágado... e arranjo-te uma bucha num bandoleira como tu nunca viste: um pão de quilo, uma cabaça de vinho, uma tora de toucinho februdo, e outra tora de chouriço paio do ano passado e um grande naco de queijo.
- Tu és parvo,pra que queria eu o cágado? (Os outros também parvos a olhar para mim sem verem onde é que isto ia dar).
- Levas um coto duma vela e uma caixa de palitos. Quando já não vires riscas um palito na lixa da caixa apichas a vela, botas uns pingos de cera na casca do cágado, pões o cágado no chão e, como ele anda devagar, tu tinhas tempo de ver a maçaroca na cana, de a esnocar e meter para a saca.
Tonho não ouviu mais nada, sai disparado a rosnar e os outros , vá lá, só depois dele desaparecer, é que comentaram e se desmancharam a rir
- Um raio ta palira, garoto do diabo, és tchapado... Onde é que foste a buscar essa do cágado... um raios ta palira!
O Sr. S. Bartlameu vem aí... A descamisa já não se faz e a festa rija em honra do orago também já foi coisa doutros tempos. Já não há maçarocas e os frangos para o leilão e as belas fogaças já estão em extinção.Nem já para as merendas se levam toras de toucinho februdo ou de morcela ou chouriça,.
Vale o baságueda para rememorar...
Ainda no tempo do Padre Pinto - Que repouse onde merece estar...- fui eu o leiloeiro. Aquilo esteve valente e os mordomos nunca tinham visto tanto dinheiro e disseram ao Padre Pinto
-O Rapa a unha, vai ali para a adega e come e bebe o que quiseres com quem quiseres
Eu fui e agarrei uns poucos. A loja tinha por lá umas abóboras meninas e como os vi meios tocados, enxertei um garrafão do Chquim Bargão e parti uma botelha, pus numa travessa
: Vá lá... comei aqui um melãozito... Dois ainda roeram e apenas disseram que tinha falta de doce...
Outros tempos, outros passatempos.
Se estais de férias que sejam mais doces que as botelhas.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNDDE

quinta-feira, abril 27, 2006

A NOSSA FALA - LIV - DESACORÇOADO

Já uma vez vos falei do fenómeno linguístico que consiste na lei do menor esforço. Aqui está mais uma prova. Correctamente, a palavra deveria ser descoroçoado - que significa, nem mais nem menos com o coração despedaçado/desfeito /desalentado /sem forças - mas isto daria muito trabalho de dobragem de língua ao zé povinho que prefere, naturalmente, o desacorçoado. Para o povo, em regra, o que serve já é bom, e desde que se faça entender, não precisa mais. Ao contrário de muita gente da nossa praça que se farta de falar e não diz nada de jeito. Só desejo, que no caso vertente, a nódoa não caia no melhor pano... Adiante que se faz tarde.
Tudo começa manhã cedinho: aí obra de umas cinco da manhã. PASSA CULPAS, vai aos gravatos à meda da lenha, apicha um palito a uma pinha, faz uma escaramuça por cima da ala com os gravatos, põe mais alguns, ajeita o pau grosso que tinha ficado da noite anterior, acrescenta uns tocos e umas cepas, desce as cadeias da chaminé, pendura a panela de ferro, já com água de nascente que apanhara na mina, bota para dentro uma gamela de feijão frade que a LIBRA previamente lavara e deixara de molho, verifica a ala, arreda uns paus mai grossinhos, diz à mulher que já volta e sai a caminho do PUTA MALUCA que morava pra lá do ABADE, que lhe dava passagem"por aquilo que é meu", salta o muro do caminho das portelas que vem das oliveiras de melão, arrima à eira, engata na vereda que dá à casa do Puta Maluca e endireita para o palheiro, onde vira uma réstea de luz que rebrilhava da torcida da candeia de azeite que a PATA GALHANA regulava com um alfinete, com que segurava a saia de fora, "por mor de poupér, que o azeite custa a ganhar". Isto porque o velho registo de aumento ou redução da torcida já tinha os dentes do carreto remoídos e não puxavam o trapo. Chaminé já tinha desaparecido e sempre recomendava ao PUTA MALUCA: «põe a candeia em sítio firme e longe da palha e dos cornos da bezerra, tu vê lá !nom nos desgraces» . O PUTA MALUCA fazia que não ouvia.
Bom... O PASSA CULPAS chega-se à porta do palheiro, e, para não assustar, nem o PUTA MALUCA nem a bezerra, que por ser nova, ainda não se acomodara à nova pensão, espreita pela fisga entreaberta e - que vê ele? - o PUTA MALUCA em cima do balde do desaguo, a pôr-se na bezerra. Assim mesmo! A bezerra estava saída e o PUTA MALUCA que já não se lembrava de ir à PATA GALHANA, desacorçoadinho de todo, vem-lhe assim uma vontade e ....bumba! toca de saltar à bezerra...
PASSA CULPAS, fica apardalado, esfrega os olhos, confirma o facto, finge que tosse, mas o PUTA MALUCA, no frenesim do acto não o ouve... PASSA CULPAS entra e vê a cara de prazer do PUTA MALUCA: "Karraio estás a fazer"?...e o PUTA MALUCA: "Dá-lhe lá um beijo na boca que eu num chego lá".
Acto cumprido, Puta MALUCA sentiu o pecado e sai-se: « a puta estava mesmo desacorçoadinha de todo; assim já sei que a posso levar ao Alberto daqui nada» e o Passa Culpas: «Tu é que é que estavas desacorçoado». " E tu num te estavas a pôr na chibeta amarela, ali ao pé do barroco do Rainho, quando a tua se foi à missa? Pensas que num vi? Atirou o PUTA.
Houve silêncio, que o caso não era para menos , mas logo se sai o PUTA: "num me vieste a ver a saltar à bezerra! Vamos ali a malhar um tinto e já me contas... chega-me aí essa paveia, tira-lhe o nagalho e bota aqui na manjedoura!
Lá foram os dois, a torneira da pipa chiou, o copo deborcou-se PASSA CULPAS pede a grade emprestada ao PUTA MALUCA e dirige-se à mulher: "EH cachopa! arranja-me aí cem mil réis que tenho que ir a chegar a bezerra ao boi do Alberto antes que lhe passe o cio". Lá se foi ela à bureca onde guardava o dinheiro dentro duma lata por causa dos ratos, tira os cem mil réis e recomenda:"tu vê lá se o boi enterra bem a bezerra, pega-lhe na sovela com a mão e encatrafia-a assim comédado e diz ao Alberto que, se não pegar, o boi, à próxima, lhe dá o salto sem pagarmos, vê lá!" PUTA MALUCA rosnou e partiu caminho de aldeia.
Alberto, ao tempo, moía a azeitona no lagar da Lameira e quando o Sol começou a clarear lá aparece o PUTA MALUCA, chega-se à orelha do Alberto: " Traz lá o boi que a minha bezerra está desacorçoada de todo. Já a experimentei lá em casa, no palheiro, e nem se mexeu". Alberto, invariavelmente bêbedo:" agora o boi está no acarro, tens que esperar" e vira-se para o TONHO MOTA: «Ó Tonho aqui o Puta Maluca ensaia as bezerras antes de as trazer ao boi. Se a mulher o vê a cavalo na bezerra é capaz de lhe perguntar: "Ah! queres uns cornos, queres,? trocas-me por uma vaca? vê lá se te troco por um burro!" E riram-se. PUTA MALUCA vai pela vara com aguilhão e queria ferroar o Alberto : «Está quieto senão não te cubro a bezerra! «É a tua sorte» diz o Puta.
Acabado o acarro, bezerra presa na parede ali ao pé do Posto de transformação, Alberto traz o Galante, e quando lhe cheira a bezerra saída tira a língua para fora, quase aventa com Alberto e nem houve preliminares. Foi tiro e queda.
PUTA MALUCA assomou-se, viu que estava bem encavado e foi um ar que lhe deu.
«Eu num te disse que ela estava desacorçoadinha de todo? Eu bem sabia.»
Os cem escudos mudaram de mão e Alberto, para fazer as pazes, lá vai com o PUTA MALUCA a beber o alboroque àquilo do Cavalheiro. Só podia ser assim.

segunda-feira, março 13, 2006

A NOSSA FALA - L - ENCRIR OU INCRIR

A Lameira não foi como agora está. Com início no chão do ti Zé Latas, havia um "alcaduque" (espécie de alvanel coberto, formando um túnel) que a canalha atravessava de gatas à luz de bocados de borracha ateada numa pinha. Muitas vezes o atravessei... Claro que esta aventura só era possível durante o Verão , pois, de Inverno esse "alcaduque" ficava cheio de água por mor de uma ribeira que passava junto às figueiras do Zé Maroco , por debaixo do pontão que dava para o beco da Ribeira e desaguava por detrás do lagar na "nossa ribeira", depois de ter passado por debaixo do caminho do cemitério. As mulheres lavavam a roupa nesta ribeira e punham a roupa a corar estendida num banco de relva que sempre por ali havia. Não vos falo das oliveiras e das amoreiras que nós tínhamos que fintar quando jogávamos a bola... Não falo nem é preciso...
Tal como agora também então a Lameira servia de campo dos mercados aos segundos Sábados de cada mês. O que já não era igual era a mercadoria que ali se trocava ou vendia: porcos, burros, vacas, cabras e ovelhas, fora as tendas. As brincadeiras dos velhotes tinham piada e se algum garoto por ali aparecia,logo um provocava: "ó catraio, sabes qual o animal que dá o fruto antes da flor? No sabes? É o burro, é o burro; espera aí sentado até que bote cá fora os cagalhões e verás que o cu dele depois se abre como uma camélia encarnada!" E riam-se a bom rir... E outro: "gostas de castanhas? olha: o burro as caga e tu as apanhas" Mais uma risada. O tempo nem custava a passar e se o negócio se fechava lá estava o alboroque à espera naquilo do Cavalheiro. Era sempre assim.
Três foram, pelo menos, os burros ou burras mais famosos de aldeia: a burra do velho Freitas, inteligentíssima, até sabia escrever e sabia sempre o tempo que fazia. Se chovesse ninguém a arrancava do palheiro e para se desaparelhar bastava que o velho lhe desapertasse a cilha e lhe sacasse o rabo do atafal que ela dava um safanão e deixava tudo direitinho no balcão da parede junto à manjedoura...Outro que não lhe ficava atrás era o ESTUDANTE, burro mais que famoso do Zé Luís Barata, que lavrava sozinho, fazia a torna na perfeição. Zé Luís ficava dum lado e seus filhos Zé ou João ficavam em cada extrema da leiva e apenas viravam a aiveca. O ESTUDANTE fazia o resto. Inultrapassável era também o jerico inteiro do João Rela: pequenino, mas verguio como a puta que o pariu. Em Março - por este tempo que agora corre - mal via uma burra aventava com cinco escritos ao ar, atirava com os aparelhos, arreganhava as beiças, alevantava o cachaço, zurrava e espirrava, chegava às burras e nem que o desancassem com porrada nunca desistia enquanto não farejasse o cu da fêmea. Era mau filho de puta este burrico. Fora isso era manso como a Terra.
Deixava-se montar pela ti Conceição e ajeitava-se ao batorel. Aguentava teso quando estava à carga. Mal via as cordas de ENCRIR - estas cordas serviam para segurar a carga ajustada à albarda do burro e que tinham uma forma própria de se colocarem, por forma a permitir que as duas sacas ficassem uma de cada lado e até pudessem sustentar mais uma ou até duas de sobrecarga, em média media cinco braças (ou braçadas), cerca de metro e meio cada uma e que se obtêm esticando os braços ao máximo da sua extensão - , o burro ajeitava-se logo e nunca se mexia, nem que a mosca o arreliasse. O mesmo com o ESTUDANTE, só que este era muito mais valente e as cordas de INCRIR tinham mais uma braça, dada a altura do animal. Mais parecia um cavalo. Era mesmo um animal nobre. Um cigano ouvi eu oferecer cinquenta notas batidas pelo ESTUDANTE ao Zé Luís. Ele é que não esteve pelos ajustes :"Desaparece-me da vista senão apicho-te aqui o fadista que te encorre até Medelim. "
Admirais-vos agora de a nossa aldeia ser a terra dos doutores e engenheiros? Dizia o senhor Arnaldo, que em tempos trabalhou nas Finanças de Penamacor, que Aldeia do Bispo tinha mais pessoas formadas em cursos superiores do que o concelho todo.
Olha a admiração! Aldeia que tinha burros destes, pouco espanta que tivesse tanta gente formada. E em forma. MAINADA!

quinta-feira, novembro 24, 2005

A NOSSA FALA XXXVII - GIRALDINHA ou GERALDINHA

Riconho era maluco pelos Rolling Stones. Mas não só: adorava uma cantora francesa de nome Sheila.Uma senhora febra! Riconho não se cansava de olhar para a capa do disco onde ela aparecia em todo o esplendor dos seus cabelos negros compridos e uma pele morena de revirar os olhos. Riconho tentava cantar ao desafio com Sheila: Écoute ce disque /et il te dira/que l'amour existe/et je pense à toi./Écoute ce disque/et tu comprendras/que l'amour existe/car je pense à toi. De polaina na mão, enquanto afagava os aros de uma porta - Riconho é carpinteiro - o gira discos passava a Sheila e Riconho arramalhava no seu francês de orelha: Écoute ce disque...
Paralelo no apreço por Mick Jagger e Keith Richard, só mesmo o camarada Licas e Chibeto. Licas acima de todos com o indispensável: «I can get(no) satisfaction.»Impagável o prazer de ouvir Licas a cantar e a dançar este monumento musical. Havia outros artistas na aldeia que um dia poderão vir à liça...
Riconho tinha uma bicicleta que partilhava com 'o nosso Mário'. Aos Domingos um e outro rivalizavam no cabelo com Brylcream e cabelo à Elvis. Apareciam no adro por essas 11 horas. Aí começavam as histórias e a disputa pela liderança da conversa. Engraçado é que nessa altura se tratavam por VOCÊ:
«Cale-se, você é um abre-nó! Errar uma perdiz daquelas que quase lhe cagava na cabeça!!» dizia Riconho;' Nosso Mário não se ficava atrás:"Atão e você?! sentado no barroquinho do Rela, a lebre a dormir-lhe aos pés, armado em otário, vai lá com um gravato a enxotá-la, grita Hei!, manda-lhe dois foguetes e nada! se eu lá não estivesse para a ardulhar, você via-a mas é ir embora! você é um azelha!" Era um prazer apichá-los e nisso tanto eu como Coiote Pete éramos exímios. Era mesmo um gozo!
A malta juntava-se e era risada de arrebentar até ao santo sacrifício da saída da missa. Nessa altura miravam-se as 'chicas' e toca para o almoço.
Invariavelmente Riconho alugava o táxi do Fatela e ia para a giraldinha! (ou geraldinha)
Duma vez foi com toco jabão à Covilhã ver um filme com música dos Rolling Stones, feito num espectáculo ao vivo em Los Angeles e onde ocorreram alguns assassinatos. Tinham sido os Black Angels da segurança privada dos Stones... Riconho que teve que pagar o bilhete ao Tonho Fatela, Tôco, fora o táxi vem pior que estragado:" ganda porcaria de filme! nem uma puta de uma cena erótica, nem uma boa tranca de mulher".
Quase ia perdendo o gosto pelos Ralingstanes, como ele dizia. Pela Sheila é que ele nunca perdeu o gosto: Écoute ce disque....
Outra amiga da giraldinha era Maria Bila. Ia a tudo quanto era excursão: Sra do Incenso, Sra do Bom Sucesso, Santa Luzia, Senhora de Fátima, Santa Maria Adelaide, e o que mais houvesse, Nazaré, Óbidos ou Peniche, Viana do Castelo, Serra da Estrela, tudo. Queria ir sempre nos lugares da frente, e era engraçada quando se apresentava, toda equipada, para mais uma corrida uma viagem: saia comprida reluzente de nódoas, ensebada a ponto de ser impermeável e blusa de chita de manga comprida com três botões no punho, bem vincada, aí com umas quatro linhas de ferro de engomar, boné a preto e branco na pála, escurecido como fora de tanto o pôr e tirar, alpergatas espanholas, que permitiam vislumbrar uns tornozelos encardidos com samarras de negridão, impenetráveis a qualquer doença que pretendesse invadi-la de fora, bolsa de merenda que mais parecia alforge de besta e, claro, uma cabaça de vinho a tiracolo cruzada no ombro por um baraço cuja cor não aparece em nenhum catálogo cromático. Um verdadeiro asseio, esta ti Maribila.
À hora de comer lá puxava ela da sua bolsa e depois de abrir o nagalho que a fechava, metia a mão e sacava-a com um bolo de leite, um pastel de bacalhau, três ou quatro azeitonas, uma talhadita de queijo, punha tudo no colo da saia e: "Eh! cachopos e cachopas, querendens provar da mnha merenda?" Logo uma a repreendia:«rais ta parta Maria. Atão tu misturas tudo dentro da bolsa? olha pra isso,tudo misturado umas coisas com as outras! Aí é que está um preparo! rais ta partissem.» e ela: «Atão?! Cá dentro não há prateleiras, cá fora escusa de as haver» e Eu: "MAINADA"!
Era trabalhada para voltinha esta ti Maribila. Pouco faltava para quase andar tanto na giraldinha como o nosso Riconho.
O pai, o ti Domingos, já desdentado com o queixal de baixo quase a comer o nariz, tanoeiro, punha aduela em pipo, martelava aro, compunha tampo, estancava fenda, bem lhe dizia: «eu no sei que vida há-de ser a tua ...sempre na giraldinha...

terça-feira, outubro 11, 2005

A NOSSA FALA XXX - TCHOUTCHO

Antonho Batcharel foi parido no local do mesmo nome, com a ajuda da avó materna, a velha Emília Passarona, numa manhã solarenga de Abril, o primeiro de 5. Os primeiros sapatos calçou-os no dia em que fez 6 anos, as primeiras meias que enfiou foram as que o Menino Jesus lhe deixou na chaminé no Natal desse ano, e experimentou as primeiras cuecas já com 10. Passava os invernos com ranho constante no nariz e quando a mãe lhe ralhava "rais trinta ta partam Antonho, assoa-te mê bácoro", ele lá removia a pasta com a cota da mão que a seguir limpava ao cu das calças. Comia quando calhava. Quando lhe dava a fome, ia-se à panela de ferro que sempre estava junto ao lume e enchia o bandulho de couves, batatas e feijão. A partir dos 7 anos, bastas vezes escolheu sopinhas de cavalo cansado para o pequeno almoço. Por lá, variava entre a fruta da época que colectava directamente das árvores que encontrava nas andanças do pastoreio, e na sacola levava sempre um naco de pão rijo, queijo pedra, toucinho rançoso e azeitonas, raras vezes chouriça do ano anterior guardada no azeite. Nunca se sentou em carteira de escola, nunca pegou em aparo, nunca esfregou a pedra com cuspo, nunca aprendeu nem letras nem números. Até aos 15 anos, calcorreou a atalaia, o frade, a portela, a pedreira, a raivosa, o ferrador, atrás de 4 dúzias de cabritas . Ficou mudo e com cara de espantado o senhor alto e bem vestido que um dia se apeou dum grande carro preto e barulhento e lhe perguntou com ar sorridente:
- Ó rapazinho! Diz-me lá, então quantas cabras guardas tu?
- Ê no sei contar mê senhor – lamentou-se Antonho.
- Não sabes contar? Então como é que vês se te falta alguma cabra?
- Atão…ê conheço-as…
Chamava todos os animais pelo seu nome, e eles acudiam. A andorinha porque era preta com uma lista branca na nuca, a reboluda porque quando nasceu deu logo meia volta no chão, a peidada porque a mãe dava muitos dos implícitos, a aluada porque nasceu na lua cheia, o santinho porque fazia uns ruídos parecidos com espirros, o marradinhas porque desde cedo o habituou a dar-lhe marradas nas mãos, o tchoutchinho porque tinha uns olhos mortiços e parecia que andava sempre cansado, o intezédo porque desde cedo mostrou que ele é que havia de ser o bode mor, o barbicha, a malhada, a jinja, a peluda, a preta, a violeta, a estrela, a vitória, a esperta, a felosa. Quase todos os animais vinham comer-lhe à mão e as cabras deixavam que ele lhes chupasse nas tetas quando elas tinham amojo e ele fome. Era um menino feliz, o Antonho.
Todos os domingos ia à missa à aldeia, regressando ao fim da tarde carregado com as compras para toda a semana. Aos dezasseis anos o pai meteu-o a aprendiz de latoeiro na aldeia, mas deu-se mal porque o velho Tzé Latas o obrigava a estar todo o dia sentado a bater lata e a pôr pingos de estanho. Voltou para o batcharel e para as suas cabrinhas.
Todo o seu mundo se situava geograficamente entre a aldeia e o batcharel. Do lado de lá e do lado de cá, o desconhecido e admirável mundo novo. Tirando as 3 ou 4 vezes que foi à vila e às festas das Aranhas, saiu pela primeira vez da aldeia para ir às sortes a Coimbra, onde aproveitou para se fazer homem num quarto escuro e feio na rua direita que era torta como um changoto mal azado. Ficou apurado o mancebo e no ano seguinte apresentava-se no quartel de Elvas numa manhã de Outono, fria e chuvosa.

Antonho do batcharel não gostava da tropa, nem entendia porque o obrigavam a andar toda a manhã e toda a tarde a bater com as botas no alcatrão da parada. Vá lá! Ao menos as botas eram boas. A rigidez e a disciplina militar não jogavam com ele, habituado aos espaços abertos e arejados do batcharel, às vistas largas da atalaia, à liberdade de movimentos com as suas cabras. Por isso andava sempre muito THOUTCHO, isolava-se a pensar, nostálgico, no seu primitivo mundo, nos pais, nas suas cabrinhas, no burro pardal, na burra cotovia, nos cães piloto, bóbi e boneca, até nos irmãos que tanto teve de aturar e ajudar a criar. Um dia, estavam cumpridos dois meses de recruta, amuou. Não falou com ninguém durante uma semana inteirinha. Quando saiu do retiro decidiu dar inculcas. Pediu ao camarada d’armas Sabarigo, de alcunha o “gaspacho”, um autêntico torgalho que a todas as refeições gabava o gaspacho da avó de Barrancos, para escrever:
" Meus queridos pais e irmãos, estimo que estejam de boa saúde que eu cá vou como Deus quer. Então como está a burranca, já está melhor da pata? E a cocó já tirou os pitos? Meu pai, não se esqueça de dar o remédio à andorinha, porque ela está prenha. O porco era melhor matarmos no ano novo que eu não posso lá ir antes. Isto aqui na tropa não é bom porque ninguém trabalha. E o pior é fazerem-nos estar à torreira do sol e à chuva, só por estarmos. Dão-nos de comer às horas, mas a comida não presta. Quem me cá dera o caldo de grão e a molareja que a minha mãe faz. Não tenho mais nada para dizer. Saudades do vosso filho.”
Fechado e selado o envelope:
- Vá! Agora vais a meter a carta no marco do correio ali ao pé da porta d’armas.
No momento, vinha a entrar o Musgueira, seu vizinho na camarata, que o alertou:
- Então não dizes para onde a carta vai? Tens de falar alto para o marco saber para que terra é que tu queres mandar a carta.
- Aldeia do Bispo – gritou ele junto à abertura.
Uma das únicas vezes que se ouviu Antonho a rir foi quando o Musgueira, no escuro, lhe perguntou:
- Olha lá ó bimbo, alguma vez viste um peido luminoso?
O Musgueira estava deitado de costas, tirou as ceroulas, levantou as pernas para o ar, apichou um fósforo e chegou-o ao ânus, ao mesmo tempo que largava um ruidoso e prolongado flátulo. Antonho observou estupefacto a chama azulada que soprou das tripas do camarada.
Na ordem unida sentia muitas dificuldades em bater certo o pé e por causa dessa inabilidade, mandavam-no “encher” todos os dias. Finda a recruta, mal teve tempo de ir a casa despedir-se do seu mundo, mandado embarcar para a Guiné para, disseram-lhe aos berros, ir defender o nosso glorioso Portugal e matar os cabrões dos turras. Não conseguiu evitar uma lágrima quando deu a curva no caminho e deixou de ver a família toda que ficou a acenar. Uma só lágrima, contida, só uma, porque Antonho não podia saber que nunca mais voltaria ao Batcharel: na longínqua Guiné, uma mina terreste havia de o transformar em herói anónimo e inglório.

sexta-feira, setembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXV - APICHAR

Todos os anos era a mesma comédia: naquele dia, nos 30 minutos a seguir às 7 da manhã, sucediam-se os silvos dos foguetes a subir seguidos do estrondo dos arrebentamentos. Os galos permaneciam calados, os cães ficavam excitados, os bebés choravam assustados, muitos adultos e adultas apresentavam queixa contra desconhecidos por lhes cortarem o sono e chamavam-lhes nomes feios.
Havia festa na aldeia e os povos vizinhos tinham de saber: supostamente era essa a função dos foguetes em tempos faltos de telefonia, televisão ou internet. Mais ou menos intercaladamente, ouviam-se os foguetes de resposta e os de 12 tiros, para acabar com 5 minutos de foguetes de morteiro. Eram sobretudo estes que incomodavam os dorminhocos: a cada 4 ou 5 segundos o estrondo seco do morteiro fazia estremecer levemente os pindricalhos de vidro do candeeiro, entrava pelas trompas do eustáquio adentro e provocava uma grande agitação na região ventral-anterior do hipotálamo, mais especificamente no núcleo supraquiasmático, desregulando o NREM e o REM e, claro, confundindo os sonhos.

Agora, acabou! Já não há foguetes, não há estoiros no ar às 7 da manhã, uma pessoa já pode dormir até às 8.

- Festa sem foguetes, nem é festa nem é nada – declarou o Ti Ambrósio Espantamulas

Conta-se que duma vez, o primeiro foguete da alvorada assustou uma cegonha passante que largou a cobrita que levava no bico com ideias de a entregar ao filhote como pequeno almoço, tendo a dita vindo abater-se no caldeirinho de água que a Natalina Figoseca levava na molídia, e que tinha ido a buscar à fonte do ribeiro cimeiro. Quando desceu o caldeiro para conferir que raio lá tinha caído, e deu com o réptil ainda moribundo, sentiu-se invadir por um arrepio tão grande que lhe eriçaram todos os pelinhos e pintelhinhos do corpo. Botou a fugir caminho abaixo aos gritos e só parou ao pé da velha Conceição Jajanova, que a animou e lhe prometeu que ia ela buscar o caldeiro. E foi. Agarrou na cobrita pelo rabo, deu-lhe forte com a cabeça numa pedra do muro e, meteu-a ao bolso do avental. Mais tarde, já perto da hora do almoço, esticou cuidadosamente o escamoso bicho em cima do batorel, fez-lhe um talho latitudinal a meio, com abertura suficiente para enfiar um dedo de cada lado e, de seguida, puxou devagarinho em sentidos opostos, assim como se faz para tirar a pele aos coelhos. Removido o pulmão, o instestino, e outras excrescências, cortou-lhe ainda a cabeça com uma podoa. Instintivamente, Ti Conceição sentiu as glândulas gustativas em efervescência à vista daquele pedaço de carne rosada e tenra que daí a pouco havia de fritar em azeite, alho e uma pitada de coentro e depois degustar, lânguidamente. E logo em dia de festa.

O mundo é composto de mudança, disse o Luís Vaz e cantou o Zé Mário, e o mundo inclui as festas populares. Parece que antigamente, para além dos foguetes, festa que não metesse porrada não era festa não era nada. Para além deste pormenor, um estudioso concluiu algumas outras coisas interessantes no fenómeno das actuais festas populares, a saber:
que as festas, apesar da capa, se realizam cada vez mais à margem do motivo religioso que lhes deu origem, o que denota uma separação nítida entre o cariz sagrado e profano – nalguns casos há litígio com o pároco, noutros há negociação bem sucedida;
que é assumido cada vez mais o objectivo comercial de procura do lucro material, em que até a data da realização tende a privilegiar as vantagens comparativas inerentes ao afluxo de pessoas, em vez de respeitar a data da celebração religiosa do santo em nome da qual a festa é realizada;
que se verifica um progressivo esvaziamento das referências simbólico-culturais características da localidade e da comunidade em que a festa se inscreve;
que este esvaziamento simbólico foi como que substituído por novos valores os quais acompanham e decorrem do processo de modernização das sociedades rurais;
que esse processo de modernização fica muito a dever a padrões de vida, de consumo e de fruição importados do espaço urbano e subsidiários da cultura de massas;
que a motivação dos protagonistas principais (mordomos, comissão), assenta menos nas questões da fé e orienta-se mais para a prossecução de uma estratégia de afirmação identitária no espaço de origem;
que a dinâmica da festa em si se pauta por elementos completamente desligados da matriz cultural local, como sejam os espectáculos dos artistas e grupos musicais que se fazem pagar bem, em cujas actuações apresentam aparelhagem sofisticada, jogos de luzes e som muito alto, por contraponto ao realejo, acordeão ou banda filarmónica que se satisfaziam com uns tintos como paga;
que a postura dos intervenientes (público) é tendencialmente passiva, inibindo-se de participar dançando ou cantando, resumindo-se ao consumo quase estático;
que se regista uma actualização dos géneros consumidos durante a festa, embora a bifana e os pipis venham conseguindo oferecer alguma resistência ao hambúrguer e ao cachorro;
enfim,
assim como já não há homens como antigamente, parece que também já não há festas como antigamente.

O fim das alvoradas de fogo anulou a possibilidade de acontecer ao Miguelito e ao Camião, os habituais técnicos pirotécnicos, o mesmo que naquele ano. Consta que estavam eles em competição, munidos cada um com seu isqueiro espanhol de torcida, a ver quem APICHAVA mais rapidamente o rastilho dos foguetes, quando aconteceu algo inusitado. Era preciso ir soprando a torcida para não se apagar. Duma das vezes, o Miguelito já tinha chegado a torcida ao rastilho várias vezes e ele não havia maneira de APICHAR. Zangado – o Camião já estava a largar o terceiro foguete de resposta seguido – assoprou-lhe com tanta força que a placa lhe saltou da boca indo cair no meio do silvado da ribeira. Preocupado em ver onde tinha ficado a placa, não reparou que o rastilho tinha finalmente APICHADO e estava na hora de o largar. Não o fez, e quando se deu conta já ia no ar agarrado à cana, bem uns dois metros – convém lembrar que o Miguelito é homem seco de carnes não ultrapassando o seu peso as 3 arrobas e meia. Valeu-lhe o metro e oitenta do Camião que, ao ver a cena, se atirou às calças do Miguelito, e os dois tombaram para o silvado.
Isto é verdade. Acredite quem quiser.