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segunda-feira, setembro 15, 2008

A NOSSA FALA - CXIII - PUCHEIRO

As voltas que o povo dá às palavras para, depois, as fixar num fonema com um som - o significante de Saussurre - são imprevisíveis. Assim é com esta forma. Repare-se: o espicho é o jacto de vinho que jorra de uma pipa onde não se quer meter a provadeira - cana com uma racha ou abertura que possibilitava a certificação se o vinho já estava claro e que, no orifício natural da cana até ao nó fundeiro, permitia transportar vinho bastante para um copo - . O espicho era feito quase ao cimo da vasilha onde o orifício respirador era tapado com uma rolha estreita de cortiça e vedado com cebo. Uma sovela, normalmente feita de vareta de guarda chuva, penetrava cebo e cortiça e o néctar saía com a pressão, aí para quase um metro afastado e era um regalo aparar o tinto no copo: fazia espuma e exalava um cheirinho que só quem teve a oportunidade de provar pode agora recordar. O orifício era fácil de tapar e até de selar: bastava pôr o dedo e /ou mais um pouco de cebo que estava sempre à mão e ele lá continuava a sua fermentação.
Havia também o vinho da balsa que resultava da inclinação da dorna e cuja claridade era aferida através de um rasto ou um bico velho de charrua, que se atirava para o líquido, às vezes ainda fervente: se o rasto fosse ao fundo, já estava claro, e não criava engulhos na garganta pelo que já se podia beber. O sabor a mosto era dominante mas, como não havia melhor, aquele era excelente. Fiz o meu tirocínio com o velho Comandante que, aí ao quinto dia já lhe arreava assim comédado.
Vem isto tudo a propósito das vindimas que agora estão no apogeu.
De caminho queria aproveitar para vos apresentar uma figura de xendro inigualável: de tudo sabia, de tudo dava conta e novidade que lhe caísse na orelha, passado pouco tempo estava mais torcida que uma cepa: a Chicorrela. Sempre ali pelo chafariz do batoco, tudo mirava, com todos se metia e até ia ao tribunal - banco só de homens onde a maledicência imperava e a linguagem era do mais verrinoso e viperino que imaginar se possa -. Chicorrela ou Relochica como eu lhe chamava, nada temia e desafiava qualquer um para dizer mal de quem quer que fosse. Seguia aquele velho aforisma: temos que dizer mal dos outros porque eles também dizem mal de nós .
A casa de Relochica ficava pertinho da velha casa do Barata, velho tugúrio onde se criaram nove filhos e cujo espaço seria aí duns 18 metros quadrados: subia a cama descia a mesa, subia esta
descia a primeira, a canalha dormia a monte, raparigas dum lado e garotos do outro.
Apesar do curto espaço ainda cabia, logo à entrada, um tonel de 400 l ,onde Barata guardava o vinho. Por cima estava, sempre de borco, um pucheirinho, copo único, de asa partida, que tinha que ser bebido de uma só vez, sob pena de não mais o provar.
Na perpendicular entre a casa do Barata e a de Relochica, em frente da velha Libra, morou a mãe de uma das ilustres personagens, José Antunes Ribeiro, de alcunha o Pucheiro, nunca soube porquê, e que foi alto magistrado. Chicorrela não tinha pucheiros. Ao lume estava a panelinha de ferro e havia umas gafeteiras, sempre de luto, por dentro e por fora, onde, de quando em vez, se fazia uma chicória, de borra assente com tição ardente, que servia de café. O açúcar era água de figos secos, guardada religiosamente em escoureiro bem tapado e vidrado.Nunca ninguém soube bem o que Relochica comia porque passava o dia no trequelareque do batoco a dar troco ao Chico Pedro, Manel Freitas, Augusto Estanqueiro, Zé Luís, e companhia...
Notícia que lhe caísse na língua, depressa fermentava e o que seria uma inocente lagartixa logo se tornava tiranossauro rex. Se os ilustres lorpas que gerem os nossos bancos e as empresas do PSI fossem comparados a esta nossa Relochica, pouco passariam de pigmeus face a Gulliver. E a preços muito mais módicos.
Vamos lá ver agora como derivou a palavra PUCHEIRO, nesta forma de entrada na língua que leva o nome de LEI DO MENOR ESFORÇO. Diga-se a talho de foice que, ao menos as palavras entravam e eram assimiladas; agora é uma algaraviada de siglas e de palavras emprestadas que arrepia: já ningúem diz AMA, mas baby-siter, ninguém merenda, todos lancham, ele é teen-ager, o open, o coffee break,... que sei eu!? quando se devia dizer tão só adolescente/jovem, abertura ou intervalo para café... Olhai os espanhóis: não basket, mas baloncesto, nem andebol, mas balonmano, não corner, mas saque de esquina, ...
Agora é que é: a palavra deriva do ESPICHO, já acima explicado; ora esta mesma palavra já é derivada por sufixação de PICHO (o ES vem do latim EX que significa movimento de dentro para fora, como em Ex-pulsar, por exemplo); como sabemos uma das funções do picho é essa mesmo de expulsar por jacto o líquido que está no ventre; daí a PICHORRO/A é um passo como vaso para aparar o líquido do espicho; a linguagem que diga respeito aos genitais é sempre castrada e isso parece pertencer a um inconsciente colectivo, que, um dia destes, logo vos trarei aqui, pelo que não admira que se alivie a conotação da forma mais simples - lei do menor esforço - de Pichorro derivou foneticamente por ditongação o nosso PUCHEIRO. Simples não é? Como o povo, e todos os que são competentes.
Como estamos também no início do ano lectivo, aqui vos deixo a questão: já vistes algum BOM PROFESSOR complicar o simples? Aposto que não, mas aqueles tarefeiros do ensino, que não preparam aulas nem se esforçam pelo seu brio e dos seus alunos, esses complicam... E então já nada é simples.
Para concluir e verdes que não há só cultura popular aqui vos deixo registadas as medidas internacionais e respectivos nomes para garrafas de vinho em vidro:

Nabucodonosor - 15 litros
Baltasar - 12 litros
Salmanazar - 9 litros
Galão - 7,5 litros
Matusalém - 6 litros
Garrafão - 5 litros
Jeroboão - 3 litros
Magnum- 1,5 litros
Garrafa - 0,75 litro
Púcaro - 0,5 litro
Meia garrafa -0,375 litro
Quarto de garrafa - 0,180 litro

Deste lado, vos deixo algumas medidas antigas:
Almude- 28 litros
Cântaro - 20 litros
Deca - 10 litros
Quartão- 7 litros
Cântara - 5 litros
Canada - 2 litros
Gafeteira - 1 litro
Quartilho - 0,50 litro
Meio Quartilho - 0,125 litro
Copo de três - 0,020 litro

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.

segunda-feira, setembro 12, 2005

A NOSSA FALA XXVI -ESPLICONDRÍFICO

Até parece admirável que a populaça tenha criado termo tão esquisito e de difícil pronunciação, ela que é, em termos de adaptação linguística, adepta da lei do menor esforço : Ninguém diz TAMBÉM, mas todos dizem tamen, só para servir de exemplo. O povo é assim mesmo.
O tempo dos chamados animais de estimação, embora sempre tenha havido quem deles se servisse e ufanasse, esse tempo, essa moda e até a chamada de atenção para os direitos dos animais é relativamente recente. Já agora, sempre é de referir que os animais não têm, per se, quaisquer direitos pela simples razão de que não têm Razão e, logo, consciência dos seus actos, pelo que são, por natureza inimputáveis, portanto, não se lhes pode atribuir culpabilidade ou responsabilidade. Breve: não são livres, estão condicionados. Os direitos são-lhes atribuídos por nós e é em função dos direitos que nós -humanos- lhes concedemos, que eles usufruem de reservas naturais, por exemplo.
Bom... Vamos ao esplicondrífico:
Vedeta sem paralelo quando aparecia lá pela Aldeia, o que até nem era muito frequente, esta ave de arribação, distinguia-se e dava logo nas vistas. Em cinco minutos, Tecla, Paca, Rosa Manata, Pieres e outras que tais, depressa espalhavam: Está cá o Tira -Linhas!
O nome foi discutido no adro: coiote pete, chibeto, teixeirinha, manquinho, nosso cabo, sapo e outros como o fala-barato, isidorico, mota e eu, está claro, todos disputámos a alcunha a dar àquele pernalta. Acabou por ficar o Tira-Linhas.
Era única aquela figurinha: cabelo preto de azeviche, espetado que nem cerdas de javardo após banho de lama, a tal ponto quem nem Lucho ,Guerrilhas, Vinagre, Maneta, ou até mesmo Camião ou Calça Defuntos, desdenhariam de um cabelo só que fosse, para enfiar a ponta de cabo em buraco de sovela, quando palmilhavam sapatos grosseiros ; a testa era alta, desempenada, sem rugas, os olhos negros vivos, mas pequenos. Piscavam muito, se calhar era tique, nunca tirei a limpo; o nariz, esse, era um galho de eucalipto seco: uma penca na verdadeira acepção do termo, com duas ventas onde cabia um polegar à vontade; bigode, pois então, pretinho como o cabelo, sempre bem aparado; lá nisso do aprumo, Tira Linhas era irrepreensível. O queixo tinha uma covinha bem pronunciada no torno, mas nunca se lá via um pêlo; sabia-se escanhoar; o pescoço era o de uma cegonha, mal acomparado, media bem meio palmo. Os ombros eram largos e os braços pendentes parecia não mais acabarem: chegavam-lhe quase aos joelhos; as mão eram finas, sem calos, unhas sempre bem aparadas; invariavelmente vestia calções e mostrava umas pernas peludas na ponta das quais dois pés, para aí 45, espreitavam pelas aberturas das sandálias. Corria que nem um galgo: manhã cedo, era vê-lo, cavacal pela rua das aranhas, até à fontinha, direito ao feijão, subia ao poço do Dr. Amândio, passava as oliveiras de melão, descia às taliscas, subia ao alto e voltava à aldeia: todos os dias. Corria sempre sozinho e mesmo quando descia ao povo, era de poucas falas. Dali saía pouco e ainda entrava menos. Um eremita!
A discussão pelo nome a pôr- lhe foi acalorada: Vareta, dizia chibeto e logo coiote: espigão, o mota, que era ganhão, aventa com fueiro, vou eu atiro com empa de feijoeiro, isidorico, figurinha quase parecida, salta com esta: esplicondrífico! Ficou tudo a olhar para ele. Espli...quê? remata logo o fala barato, andas a ler muito ó isidorico! Bonito, bonito, atira o manquinho era palito, mas o teixeirinha, aquela bolinha de carne, foi quem levou a melhor: fica tira linhas e ponto final. Sem votação, ficou decidido: tira linhas.
Nisto aparece o césaro: nem era preciso vê-lo, bastava cheirá-lo... Tabu espanhol! cheira a cem metros. Sem saber da história sai-se com esta: atão não querendens lá ver que aquele gajo, o fininho, que mais parece uma sovina de virar as filhós, que mora além em cima ao pé dos calípios do Robalo, o grande filho da puta, que não tem outro nome, a subir ali a barreira do oiteiro, larga uma bojarda das rijas, começa-se a rir e sai-se: anda cabrão, que não encontras casa como a que deixas! Eu estava-me a pantear e ouvi o foguete . A minha mãe até berrou da cama: porco, que és um porco! Tive que chegar à porta do quarto a dizer-lhe que não tinha sido eu... Ataca chibeto: quem diria! amanhã já lhe dizemos que se quiser uma rolha para o cu lhe faço uma! Teixeirinha nunca perdia pitada: tu és maluco! vamos mas é oferecê-lo ao jaimeca para trompete da banda de aldeia de joão pires... Todos começaram a rir. Essa é boa, ó teixeirinha.
Fala barato conta a última: atão não quereis ver que a mulher do esfola gaitas foi com ele ao hospital e quando lhe perguntam o nome do zéjulho, ela responde: sei lá! ele a mim só me chama: ó melher, ó melher! e eu a ele é sempre: ó home! oh! home!
Então é que foi rir.
Ó Isidorico, pergunta ainda o fala barato: como é que tu querias chamar ao Tira Linhas?
Esplicondrífico, diz o Isidorico!
Ouviu-se um coro: sim senhor, ESPLICONDRÍFICO!
O Césaro ficou à nora!
Às vezes eram assim as noites no adro, encostados ao muro do marcelo e o padrão a ouvir!
Boa-noite!