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sábado, março 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CL - MITRÁCULAS ou BITRÁCULAS

Comecemos por uma lição de fonética: as letras consoantes têm identificação alfabética, conhecidas na ordem do abcedário, mas também se conhecem pela sua pronunciação.Na verdade as vogais são pronunciadas sem nenhum obstáculo vocálico na passagem do ar pela cavidade bucal, mas já não se passa o mesmo com as consoantes. Não reparamos neste pormenor mas ele é real. Adiante... No caso vertente interessam-nos as consoantes LABIAIS e se vos derdes ao trabalho de ir a um espelho e dissserdes as palavras bola, mola, pola, por ex. haveis de reparar que não notais diferença. Mesmo os surdos mudos e os mais experimentados leitores da fala labial revelam dificuldades sem fim numa situação destas. Não asseveram com segurança o que estão a ler, tal a proximidade dos sons e do trejeito labial. Experimentai...., vá lá.
Não admira que o termo que hoje aqui vos trago alterne com a maior das facilidades entre Bitráculas e Mitráculas. De facto em termos de pronunciação, elas acabam por ser indistintas. Ide ao espelho, ide.
Negra Vida era pintor... Já há muito que o não vejo. Suponho, e creio não me enganar, que ainda por cá anda. Contratei-o num Domingo à tarde no adro e até, inevitavelmente, fomos ao café da Rosa. Acertámos tudo e na Segunda lá estava eu ao cimo da Cardosa à espera do Negra Vida... Ao fim de meia hora de espera meti o carro a caminho da ribeira da Ceife, direitinho à casa do Aleixo. Negra Vida ainda dormia. O pai quando me viu: «qu'é que fazes aqui a esta hora?» "venho pelo seu Luís que prometeu para mim hoje". Nem foi preciso mais, arranca escadas acima e só ouço duas espapadas nas bitráculas e um palavreado indizível e não tardaram 5 minutos, Negra Vida aparece-me meio acordado meio a dormir com vontade de me pedir desculpa e não ir, mas as ameaças paternas levaram-no a entrar no carro e "Vamos embora senão dá cabo de mim". Bem vistas as coisas e as mitráculas bem encarnadas de Negra Vida, concordei e arranquei.
Deixei acalmar as ondas, parámos na pia de um poço :«Vai arreganhar essas fuças, mergulha as bitráculas no líquido, vê se acordas que já falamos, mexe-te". Negra Vida nem pensava, limitava-se a obedecer. Lá foi, sentou-se, voltou a limpar a remela, vaporizou para a água, esfregou-se, espreguiçou-se, praguejou, abanou a cabeça (quase caía),«eu num posso ir assim, stou atordoado, a cabeça parece um sino a zumbir, já me espojo por aí e amanhã vou.»
Chamei-o à realidade, veio, comeu bem, voltou a lavar as mitráculas, encara os pincéis e os baldes, papou dois Alka -Seltzer e, ao fim de meia hora, Negra Vida praguejava e pintava. E que belo serviço ele fez!..Desfazia-se em agradecimentos: «quando precisar, eu largo tudo e venho pra si, quero que os outros se chapem...»Mainada!
No mundo em que vivemos, o mundo descartável, de consumismo desenfreado, em que nada é já seguro, fazendo lembrar aquele texto soberbo de Vieira em que a culpa da efemeridade das coisas era a guerra, chegando ao cúmulo, para ele, é claro, de afirmar que:"nem já o frade tem segura a sua cela". Já nada era seguro naquele tempo e agora ainda menos.
Já não é estável o trabalho, já emprego não é garantido, já as leis são convenções passageiras, já a família é um valor do passado, já os pais e os idosos são uns chatos que só dão trabalho, já palavra de honra é uma veleidade, já os amigos são de ocasião, já os deuses são materiais.
A Fé é um negócio, crê-se por negócio, por troca, cumprem-se promessas em troca de benesses, já nada é como era.
Bem! diga-se desde já: nem tinha que ser! Ainda bem que não é, senão não havia novidades. Mas há valores que deviam manter-se firmes e inabaláveis.
Olhai só os novos deuses que agora avassalam o mundo: o poder, esse imperador que tudo sorve e absorve. Todos o querem, por ele matam, mentem, traem, vingam, mentem, e a ele se subjugam, se escravizam, se enfeudam, se entregam num frenesim irracional, em que as emoções desenraízam o ser humano para campos nada condizentes com um ser que se arvora em rei do universo. Babanca, é o que o homem é.
Depois, um segundo deus, o sexo. Não já o Eros puro, aquele encanto da carícia, da mão dada, do namoro como prefácio, do olhar terno, da empatia entre um par que por tanto se amar o que mais deseja, mas de forma natural, é meter-se no corpo do outro. Nada disso: é negócio, podridão, abuso, violação, provocação, efemeridade. Depois o dinheiro, a riqueza, a fama, o mundo do ter em vez do ser, com os bancos e as bolsas a servirem de templos e gestores e corretores e executivos e banqueiros a serem os novos sacerdotes. A nova religião é gananciosa, pede mas não dá. Diga-se, em abono da verdade, que a religião tradicinal também diz que é preciso dar, mas nunca dá o exemplo. É ver o fausto... O mundo da rede, essa global invasora das nossas casas, franqueando-lhe nós próprios a entrada. O poder da comunicação com a televisão à cabeça e logo toda a telemática.
Do que nós precisávamos era de uma espapada como o velho Aleixo espetou ao Negra Vida naquela manhã em que o fui buscar para me pintar a cozinha e a sala.
Se gostais: Ficai-vos com Deus. Mas o vosso, não os de agora.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGRRRRRRRRAAANNNNDDDDDDDEEEEEEEE