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quarta-feira, novembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXXV - ÃIÃ

O café da Rosa é uma instituição. É ela a única que ainda mantém a traça original. Havia outros, mas a gadanha da morte já os ceifou : O Fatela, onde por estes tempos de chuva se jogava o fito e a raioula, o Chico Miguel, com talho ao lado e pocinho estreito e fundo com cesta presa por corda onde se refrescavam sumos cerveja e vinho ao natural - uma delícia -, O Zé Rolo, onde a Ti Maria Labouxa fazia jeropiga com laranjada Prazeres, açúcar amarelo e groselha, - uma purga - , o Zé Júlio com loja atrás para a troca dos taleigos e o Zé Cavalheiro que todas as semanas ia a Penamacor buscar a mistela para conceber um vinho branco que era a causa de muitas caganeiras do povo. Vá lá que a ribeira estava perto....
A Rosa também não foi sempre assim: Quando o Zé Augusto e a Rosa juntaram os trapinhos aquilo era uma casa em derrocada mais parecendo um palheiro. Ainda ajudei a subir as vigas lá para cima. Havia uma divisória que primeiro serviu de barbearia - o Zé Augusto foi ainda barbeiro - e depois funcionava como tasca com mesa de matraquilhos onde Tonho Branquinho, para além de se ufanar das suas capacidades pedreirísticas arreliava tudo e todos com os seus golos à cagadinha. A Rosa arranjava por lá uns petiscos de se lhe tirar o chapéu: lebres com couve, coelho bravo com batata cozida, meloreja, nacos de carne na caçola com entremeada e entrecosto à mistura e colorau com fartura, rolas estufadas, perdiz guizada, e o que mais houvesse! Eram poucos os dias em que, de Verão, eu jantava em casa.
Podia trazer aqui muitas histórias que se passaram dum e doutro lado do café/tasca da Rosa. Aí vai uma: Certa vez, um sábado, era para aí meio da manhã, um viajante todo bem posto entra na Rosa e« arranje-me um garoto se faz favor». A Rosa saíu, demorou-se um instante e sai-se com esta:« Desculpe lá mas agora não há por aqui nenhum; só está ali o meu, mas está a fazer os trabalhos da escola» . O homem começou a rir, a Rosa não achou piada: " ora o filho dum filho dum filho do diabo, hein! Não queria ele agora que o meu Zé Mnel deixasse de fazer as coisas da escola para o vir a aturar! Não queria ele mainada! Era só o que faltava! ÃIÃ!
«É assim mesmo Rosa! Uma mulher quer-se com génio! » diz o Tonho Pedro, alfaiate, que àquela hora já tinha enfardado aí umas dez ginjas com aguardente. «É preciso ter descaramento, um gajo que a gente não conhece a pedir para lhe arranjares um garoto! ÃIÃ! Eu mandava-o logo para a real grande puta que o pariu!»
É lugar comum dizer-se que a água lava tudo menos a má língua. Eu concordo. Só por isso, e não quero ser má língua, me atrevo a contar uma outra história ocorrida nesse fabuloso café da Rosa. Devo mesmo confessar, em abono da verdade, que em tempos não ainda muito afastados, não havia café mais saboroso que o da ti Rosa.Era um café marca ZULU. Acima de excelente. Mas como tudo o que é bom tem um fim rápido, também esse café desapareceu. Ainda bem que a Rosa não.
Aí vai a estória: a mulher do velho Melro chega ainda quase noite (embora fosse já madrugada) a casa de ter ido tratar do 'vivo' e encontra a filha Mariana toda nua na cozinha a tirar um prato de sopa da panela de ferro pendurada nas cadeias.«Atão que preparos são esses? Já não tens roupa para te vestires?» "Ai mãe, logo vossemocê apareceu; mas sabe: isto é o fato do amor!"(Esclareça-se que Mariana se tinha casado dois dias antes e por não ter ainda arrumada a casa para onde ia viver com o Amândio Solipa, tinha ficado a viver na casa da mãe, que naquele tempo não havia lua de mel).
A mulher do Melro apesar de tudo acabou por ter gostado de ter visto a filha como já havia muito não a via e até cogitou:« é jeitosa a minha filha! Não admira que dê que fazer ao Amândio!Bem bonda eu que nunca me apresentei assim ao meu Melro.»
A imagem e a frase da filha tornaram -se uma cisma para ela.Não lhe saía da cabeça aquela beleza de corpo e vieram-lhe uns apetites que há muito já não tinha e uma vontade enorme de naquela noite se encostar ao Melro que, coitado, também já tinha mudado a pena e devia ver mal que não reparava nela senão para lhe ralhar.
Rumina, rumina e decide-se.
Nessa noite a Mariana e o genro iam jantar à casa dos compadres e deviam vir tarde. O Melro andava à jorna, chegava cedo, comia alguma coisa e 'ala que se faz tarde! cama!'.
Até se arrepiava de ser capaz de fazer o que em todo o dia tinha andado a pensar.
Quando lhe pareceu que eram horas de o Melro chegar, ateou o lume, pôs lenha de calipo seca para a casa ficar bem quente e toca a despir. Só ficou com uns chanatos por mor do sobrado que lhe arreganhava a sola do pé.
O Melro chegou, subiu as escadas e dá de trombas com a mulher naqueles preparos:"tás maluca ou quê? Vai-te a vestir, dianho!Olha se por aí chega alguém! Rais a afundem!" E ela: «Sabes,Melro, hoje de manhã agarrei a nossa Mariana assim incourinha , chamei-a à atenção e ela : "ò mãe, tu não vês que isto é o fato do amor?"»Solta o Melro um som de chateado e sai-se:"Se querias apresentar o teu fato do amor devias tê-lo passado antes a ferro".
Esmoreceram os apetites da velha e só soube desabafar: ÃIÃ!

quinta-feira, julho 21, 2005

A NOSSA FALA - XVI - PLANGANA

Dos que me lêem, poucos terão participado em quintos, muitos nem saberão o que isso é e outros terão ouvido falar.
Então é assim: um rancho de pessoas ajustava com um proprietário o cultivo e trato de um determinado cereal, por exemplo, uma beirada de milho ou a ceifa de uma seara e consequente malha.... O mesmo valia para o olival, vinha, etc. O produto dividia-se em cinco partes, quatro das quais eram para o patrão e uma para os componentes do rancho que ajustara o trato.
Era eu garoto, portanto pau mandado, participei no acompanhamento de alguns quintos: sachava e aterrava milho e ia à água com uma cântara para dar de beber ao pessoal e, no tempo da ceifa, para molhar os colmos para fazer os nagalhos com que se atava a semente. Trabalho sacana porque a cântara não se podia pôr ao ombro por causa do rebordo que feria e, na mão, pesava que parecia chumbo, tanto mais que a fonte não ficava mesmo ali ao lado.
Foi numa destas partes em que, lembro-me bem, meu pai matou cinco cobras e partiu uma foice a matar a terceira que queria mamar os caçapos de uma lura que ele tinha achado. O comentário: "à puta da cobra cheira-lhe a leite e quer papar os caçapos". De vez em quando lá ia a ver o que se passava. Acabou por trazer os caçapos para casa. Foi então numa dessas partes que a ti conceição do penajóia que estava encarregada de fazer o almoço: feijão encarnado, massa manga de capote, com muito toucinho, buchanha, chouriça e outras partes do animal por excelência que é o porco, se dá conta que a panela de ferro só deitava 'escuma'. Eh! cachopo!, carraio puseste tu na água que a panela só bota escuma?? Eu?, nada. Vou à fonte apanho a água e trago-a limpinha. E ela: daqui a nada são horas do almoço e não tenho isto pronto. E eu a pensar: pior estou eu que estou farto de acarrejar água e não há meio de dizer que já chega... E a panela a deitar espuma para fora a apagar o lume e mais água fria para dentro e mais um arreganho na panela e a ti conceição: traz lenha moço, traz lenha. E eu lá ia buscar mais giestas e ramadas de carvalho secas, punha no lume aumentava a ala, mas a puta da escuma sempre a apagar o lume e a fazer mangação de mim e da ti conceição. Traz mais água, dizia ela. Estou trabalhado, dizia eu. De repente a mulher lá se convenceu que o que acontecia não podia ser e diz para mim: olha lá, isto não pode ser. Temos que despejar a panela. Traz-me aí as PLANGANAS e ajudas-me a despejar. E eu: pomos aqui um colmo espalhado, botamos a panela para cima da palha, o entulho fica lá e a água some-se! e ela: rais ta parta garoto: despacha-te atão. E o que era? A velha tinha lavado a panela e esqueceu-se do esfregão do sabão lá dentro. Rais trinta ma partam! vai a mais lenha, corre!
Despejou a cântara para panela, ateou-se o lume e lá se cozeram os feijões e mais o adubo que o caldo exigia a horas de o rancho comer.
Isto era um sábado. Domingo, havia intervalo: os velhotes vestiam o surrobeco, penduravam de uma corrente o relógio de bolso na casa cimeira do botão do colete, travavam a jaqueta num ombro e, depois de missa, havia fito com fartura, tinto a cada trinta e um e consequente arrebenta, bebedeira que bastasse e porrada muitas vezes. Boa mistura... Pior , era quando Três Dôques, especialista no jogo da cavaquinha e a quem baptizaram assim porque num jogo de bisca de nove por três vezes seguidas ficou com três duques na mão ( ele chamava-lhes dôques) e protestou: "três dôques seguidos não pode ser; arreio o jogo! e lá ficou o três dôques. Mas, pior, dizia era quando ele, maroco, zé verniz, ferro velho e às vezes eu que também não era santo, se apanhávamos uma cadela saída, lhe passávamos pela vulva um farrapinho que atávamos na ponta de um pau e disfarçadamente untávamos as calças do surrobeco aos velhos do fito: os cães atiravam-se às pernas dos velhos e era uma risada geral com os velhos a praguejar e a enxotar os cães : garotos dum cabrão, se vos agarro! Mas nunca agarravam.
Num desses domingos apareceu, já a meio da tarde, lá em casa, ALBANO TABORDA CURTIS, o Tarzan e diz: vê lá se o teu pai por aí tem uma lebre e uns coelhos para eu jantar. Lá se lhe arranjaram os coelhos e a lebre e diz o meu pai: então isto é para quantos? e ele: eu e outro. Não pode ser, diz meu pai. Vais lá a ter daqui a uma hora e logo vês.
Fui eu mais o meu pai: os dois comeram a lebre, os dois coelhos, um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas. Sozinhos. Acreditem que é verdade.
E o meu pai: "mais vale sustentar um burro a pão de ló do que estes dois a palha".
E repetia: uma lebre, dois coelhos um barranhão de tomates e uma PLANGANA de batatas cozidas; puta que os pariu, aos dois!"

sexta-feira, julho 08, 2005

A NOSSA FALA XIV - COMÉDADO

O mundo dá as voltas do catano que nós sabemos. Tudo porque o mundo é redondo, não é um paralelepípedo. Antigamente, o mundo aparecia-nos a preto e branco, agora, chega-nos a cores. E, também o sabemos, o dia a dia, a noite a noite, a preto e branco, era substancialmente diferente do dia a dia, da noite a noite, a cores. Sobretudo à noite, era preciso dar a volta às cores da lua. Roubar galinhas, coelhos ou marouva - sempre para comer nunca para estragar - era uma boa opção para alguns contemporâneos dos Beatles que esperavam na aldeia, o tempo de ir para a tropa.
No solstício do Verão daquele ano, logo a seguir às bonecas de S. João que se queimaram na Lagariça, no Outeiro e no Cavacal, apresentava-se ela, a Lua, prenha da luz que o sol lhe emprestava desde o outro lado do mundo. Pitincouro, Lambranca, Fainica, Montanhaque e Pantelhão tinham construído um mapa das capoeiras e coelheiras existentes na aldeia, marcadas a caneta azul as que ofereciam boas condições de recolha de mantimento para a rambóia dos sábados que armavam no palheiro do Fainica, a caneta vermelha os alvos inexpugnáveis ou perigosos. Naquela data, já tinham visitado a maior parte dos azuis. Havia-os que era como limpar o cu a meninos, outros não. Havia vezes que a missão corria bem, outras nem por isso.
Numa das capoeiras de limpar o dito aos ditos, a coisa ia-se complicando por via da cóia que o Lambranca já levava e que, na verdade, já vinha das bonecas do dia anterior, porque ele correra-as a todas três. Tinha passado o fim da estival tarde no fito, intervalando para branquinho fresco em cada uma das 10 vezes que se tinha feito 31. Para não ter de ouvir a velhota, deixara-se ficar no povo, embandulhando mais meia dúzia de branquinhos frescos até que o sino da torre bateu as 10, hora aprazada com os comparsas comensais para demandar em busca de galinácio animal. Como era o mais delgado, cabia-lhe quase sempre aproveitar o buraco e agarrar a pita, sem incomodar muito o galo, enquanto os outros, estrategicamente colocados, montavam guarda no exterior. O sinal de perigo combinado era o pio do mocho que eles foram apurando ao longo do tempo.
- Putas das pitas, cheiram mal como um corno – sussurrou ele ao Pantelhão que estava mais próximo.
- Anda cala-te e avia-te. O esterco dos coelhos é bem pior.
Agachado, o Lambranca ia avançando aos encontrões aos fundos dos baldes de lata velhos onde elas depenicavam o milho e as couves migadas miudinho e misturadas com farelo, resmungando cada vez que sentia a bota deslizar na caca espalhada pelo chão de terra, mas o que o irritou mesmo foi ter posto a mão mesmo em cima de uma viscosidade mal-cheirosa quando, vacilante, mandou as duas mãos ajudar os pés, para se não estatelar.
- Foda-se! Já caguei a mão nesta merda da merda de pita.
Nessa altura, dando-se conta do intruso, a comunidade galinácea começou a manifestar-se algo agitada, a começar pelo galo de crista de açafate. Ao erguer-se com ideia de limpar a mão a alguma coisa bateu com a nuca num prego espetado na trave. O Pantelhão ouviu-lhe alguns impropérios e insistiu, baixinho:
- Faz pouco barulho, caralho! E avia-te, porra!
A coisa descambou mesmo foi quando o Lambranca, na ânsia de limpar a mão suja, a raspou com força na trave de pinho e espetou, fundo, uma escádia no dedo mindinho. Instintivamente, levou o mindinho à boca para aliviar a dor. O sabor amargo da caca de galinha fê-lo cuspir vigorosamente para cima dos bichos.
- Puta que pariu esta merda, eu vou é partir esta merda toda ó caralho!, berrou ele, descontrolado.
A capoeira reagiu, obviamente, com múltiplos cacarejares, cabeças já levantadas. Quase às cegas, o Lambranca alçou a mão ao calhas para agarrar uma das cabeças afuniladas na ideia de a calar de imediato com uma torcedela de pescoço. Estranhamente, quanto mais torcia, mais o animal cacarejava. Instalou-se o alvoroço no galinheiro. O Pantelhão desesperava do lado de fora do buraco:
- Ó Lambranca dum cabrão, qu’arraio de bulha andas tu aí a fazer c'as galinhas?
Já os outros se tinham juntado quando o Lambranca aparece com uma pita a estrebuchar desalmadamente, agarrada por uma asa. O Fainica foi o primeiro a perceber e a dar-lhe a volta fatal ao pescoço:
- Mata a puta da pita COMÉDADO, caralho!
A fuga foi mesmo à justa porque já se percebia o balancear de um candeeiro a petróleo que vinha dos lados da casa do Ti Ambrósio Fanhoso.
Noutro sábado, tinham marcado o palheiro do Ti Zé Manel Caturrão. Lá chegados, deram com fechadura e reboco novinhos, não havia hipótese de buraco para o Lambranca. Vira-se o Pitincouro: destelhamos o telhado. É muito alto, porra, lembrou o Fainica, só se a agarrarmos com uma corda. E onde é que está a dúvida? Vós, esperar ali no barroco que eu já venho.
Só foi preciso desviar 4 telhas. O Montanhaque alumiava com uma lanterna de pilha quadrada e dava as coordenadas ao Pitincouro que segurava a corda de nylon enquanto o Pantelhão ia atirando pedrinhas para fazer as galinhas levantar a cabeça.
- Alumia COMÉDADO, porra!
À enésima tentativa, a pita pedrês lá enfiou a cabeça no nó corredio.
30 anos mais tarde, no solstício do Verão, o filho do Lambranca havia de passar boa parte da estival noite a trocar SMS com a filha do Fainica. Não havia bonecas de S. João.