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sexta-feira, novembro 16, 2007

A NOSSA FALA - C - AVESSEIRO

Ou eu leio mal a realidade ou isto anda mesmo às avessas.

Todos os dias ouvimos que fábricas faliram, mais uns quantos desempregados e os comandantes a dizer que criaram 60.000 postos de trabalho! organizações internacionais deixam claro que é em Portugal que o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior e os chefes dizem conceder um subsídio de fralda aos casais com mais de três filhos mediante o preenchimento de um sem número de papéis ... representa um grande esforço económico mas é assim que se reduz o fosso! dizem que querem fixar as pessoas no interior, cada vez mais desertificado, quer em gente, quer em florestas e cultivos e que vemos? fecham escolas, centros de saúde, reduzem-se os meios de comunicação...; os bancos apresentam lucros chorudos e os juros nunca descem nem tão pouco se mantêm; as petrolíferas mal se fala no aumento do crude já estão a aumentar o preço do combustível e as mais valias são as sabidas; as empresas de Telecomunicações comem-se umas às outras em publicidade caríssima mas não reduzem o preço das nossas chamadinhas; as finanças autorizam a justiça a adquirir nem sei quantas viaturas topo de gama; as Estradas de Portugal em rota de falência são premiadas com um contrato de 75 anos para composturas de vias.... Fazem-me lembrar um texto de Guerra Junqueiro a propósito do Marquês de Pombal que aqui vou citar de cor, admitindo alguma impropriedade que o Guerra me desculpará: «O próprio Pombal é o desejado? Não. Dum deserto quis fazer um jardim... Como? Plantando traves: regou-as com sangue e adubou-as com mortos»;
Num país em que quase só vemos agricultores de alcatrão em grandes jeeps pagos com a subsídiocultura que é uma vergonha descarada: compensa-se a extensão que é dos que já têm muito e despreza-se a produção e bom tratamento dos terrenos para além de dificultarem o acesso deslocando os serviços para locais distantes dos centros urbanos...; vemos os técnicos nos gabinetes e o mais a esmorecer... enfim...isto anda às avessas ou sou eu que vejo mal a realidade.
Quando era pequeno fui mandado a guardar um único borrego:"vais para o chão do caminho das águas e guardas o borrego no avesseiro a ver se ainda rapa algum verde". E pronto, lá fui e deixei corda larga ao animal na baixa contra o sol (portanto avesseiro), à sombra, onde algumas poucas ervas ainda tentavam a viçosidade, resistindo aos calores que começavam a apertar. O borrego era um merino, cabelo (lã) encaracolado, manso como a terra, e ainda algumas vezes me montei nele e ia às corrichas; ia comigo para onde eu fosse e quando o deixava na casa da Leitoa os MÉS ouviam-se longe protestando contra a falta de companhia.
Foi às avessas também que levei uma solha, estampilha, espapada, lamparina ou bolachada, porque logo à primeira vez quando o borrego se deitou a acarrar, ao pé do barroco onde eu estava sentado à sombra da velha azinheira, eu, lembrando-me que coiote pete, varinha de arado, filho do chico mainovo, jolim da pata branca, contramestre, moisés pitincouro, velho jonja, nosso cabo, tonho cagarela e outros se divertiam na Lameira ao pontapé NA MINHA BOLA, eu, disse cá para mim, mas alto para o borrego ouvir:" oh! mê cabrão, atão já no queres comer mais? Já rapaste o avesseiro todo? Eu bem que achei que o animal tinha comido depressa demais mas sempre o puxei outra vez para a baixa e ele nada! E pensei: "se não queres comer vais para o palheiro e é já"!
Agarrei em mim e no borrego pela corda e numa corrida cheguei ao povo, ia a meter o borrego quando o meu pai me brada: "olha a pressa que tens! atão o borrego nem teve tempo de comer comédado e tu já vens de volta?" E eu: «ele deitou-se à sombra...» A lamparina caiu-me nas bitráculas:" atão tu no sabes que estes animais acarram?" Fiquei a olhar como um basbaque... "Poi, estes animais comem e remoem e depois tornam a comer... Toca pró avesseiro outra vez!" Lá se me foi a bola. Às avessas também eu fiquei a saber que o borrego era um pequeno ruminante. Era assim muita da aprendizagem antigamente. Aquilo a que muitos chamam o curso de pontapé no cu. Às avessas também vos digo que este curso se sobrepõe a muitos formais... em muitas circunstâncias.
Ao ritmo a que isto anda estou em crer que qualquer dia estamos como aquela mãe vaidosa que num dia de Juramento de bandeira só tinha olhos para o seu Mnel, ali aprumado no centro da parada... Quando é dada a ordem para marchar: "olher além, mulheres, o mê Mnel, no meio destes todos é o único que leva o passo certo." Mainada.

ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
para alcançar nossos ideais.
Mostraremos que é grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo de nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE
Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

sábado, julho 21, 2007

A NOSSA FALA - XCI - (t) CHINCA

Comecemos por uma lenga lenga: à morte ninguém escapa/nem o bispo, nem o Rei nem o Papa.../Mas hei-de escapar eu: compro uma panela/ meto-me dentro dela/ e quando a morte vier/ Digo-lhe assim: aqui não há homem nem mulher/ Aqui não mora ninguém/ Passe Vexa muito bem.
O ser humano é mesmo um artolas. É o ser mais maligno à superfície da Terra.
Na distribuição dos espaços a cada um dos seres vivos ficaram para últimos o peixe, o lobo e o homem. Perguntou o Demiurgo: «Que queres tu, peixe? » "Quero o fundo mar"; « para ti será»... E tu, lobo, de que espaço queres usufruir»? ; "Do alto das montanhas, Senhor!" «Ficam-te desde já concedidos»; e «e tu, macaco pelado, que queres?»; " Eu só quero arte e manha"; «São tuas». E foi assim que a partir daquele momento nem o peixe escapa no fundo mar nem o lobo no alto das montanhas ao detentor da arte e da manha.
Mné Gaguela era cunhado de TonhoZÉi. Rivalizavam entre si a ver qual fazia menos. A velha Menas, mãe de Mné e sogra de Tonho é que se desunhava na acadeja da lenha e, mesmo já velhinha, ainda ia para os quintos para dar de "mamar" a estes dois.
Só queriam era candonga, andar na moinice, viver na gosmia, mas, o que era indubitável, era que lá iam bebendo sempre o seu copinho a ponto de irem borrachinhos de todo, estrada acima, até ao Mnel Ferreiro, altura em que viravam até ao recôndito lar.
Para se ver a sabujice e a lambugueirice destas duas prendas veja-se que Mné, para não ter o trabalho de se casar, pediu a própria mãe em casamento. Nem Freud no se melhor teria imaginado uma destas!
Tonho Zéi, esse, andava sempre "co reumático". De Verão e de Inverno calçava sempre umas alpergatas espanholas, 'que os pés não me cabem nas botas por mor dos ginetes (=joanetes) e de inverno atolo e ando sempre molhado e o reumático no quer húmido, de Verão em qualquer lado espeto um crapeto (carapeto) ou umas unhas de gato (v.g.-abre olhos ou abrolhos), inté mesmo uma palha de restolho me fura a sola da alpargata (alpergata)', e, por via disso, Tonho Zéi, nem ia à azeitona, que, não sendo trabalho pesado, exigia que os pés andassem todo o dia no degrau da escada e a finura da borracha até fazia parecer que andava descalço, e, de Verão, não ia à ceifa porque podia espetar alguma seta nos pés.
Do que ele gostava era da vindima.... aí é que era... Andava sempre a ver de quem o convidasse para esmagar as uvas. As grainhas não o apoquentavam, podia fumar o seu cigarrinho e matava a sede com tinto do outro ano. Mné Gaguela, nem isso.
Tenho pena que as palavras não reproduzam a fala entoada de Mnel. Mas é assim...
Sócrates (o grego, que não este basófias...) nunca esceveu, porque, dizia, as palavras são polissémicas e quem lê pode ir para onde o locutor não queria, ao passo que o diálogo à hora, se bem que efémero, torna a palavra viva e ajustada.
Esclarece e não dá azo a interpretações dúbias ou ambíguas...
Quer um quer outro, eram expertos no costil. A bem dizer, metade das refeições eram chicha de ave agarrada em armadilha. Tinham agúdias todo o ano e conheciam de cor os melhores agachis.
Preguiçosos a levantarem-se, não eram... Manhã cedo lá iam com os costis engudiados na noite anterior à luz da velha candeia e, por volta do meio-dia, aí apareciam com o almoço. Ainda lhes comprei alguns passarinhos. Tempos...
Tonho Zéi era mais velho e sabia mais da folha do que Mné. Os costis que custavam mais a engudiar dava-os sempre ao Mné e o monte que ele fazia era sempre maior do que o do cunhado. Daí a chamar azelha ao Mné ia um passo e, como cada um sabia os costis que punha, o dinheiro de alguma venda era correspondente aos passarinhos agarrados e nestas coisas, quem mais tem, mais agarra. Mné ficava sempre a perder. Não era raro que andasse dever cigarros a Tonho ZÉi:"ó cunhado, eu pago, eu pago, pró Verão eu pago..." Tonho Zéi tinha uma espécie de régua no bolso e com a navalha acentava cada um dos cigarros que o cunhado lhe pedia. «Contas são contas, mainada»; também os costis que eram mais difíceis de armar porque o arame que segurava a tensão da mola estava muito aguçado para ser mais sensível, também esse, tonho Zéi passava ao Gaguela. Ouviam-se cá fora os praguejos de Mné quando se entalava a experimentar o costil, que (t)chincava facilmente.
O. S. Bartolomeu vem aí. Numa noite dessa festa, já lá vão uns anitos, Mné tinha arranjado umas coroas e comprou cigarros com "cu de cortiça" = (cigarros com filtro). Tinha agarrado um alacrário (escorpião) e meteu-o numa caixa de fósforos dos grandes...
Chega-se a mim, lá lhe paguei um copinho servido pelo meu amigo Zé Cadete que até foi a Nova Iorque na SAGRES, no tempo da vida barata, e :« Ó primo, queres ver que eu vou a (t)chapar o meu cunhado Tonho Zéi!?, queres ver, queres?» " Então como? "« espera aqui que já vês..." Chamou o Tonho Zéi, lá tive que pagar mais três copitos, e Gaguela:´«Ó cunhado queres um cu de cortiça, queres?» "ôia! hoje tens cu de cortiça!? dá cá, homem". «Toma, Toma»! Tonho Zéi agarra no maço tira o cigarro CT e Mné Gaguela, solícito, apresenta-lhe a caixa grande dos fósforos...: «Toma tamém lume, toma »; "cum filha da puta até tens palitos dos grandes...festa é festa...; abre a caixa e mete a mão a pensar que ia tirar os fósforos mas saíu-lhe uma ferroada do alacrário... O que a seguir se passou não pode ser transcrito. Imaginai!
Gaguela no entanto sempre ia dizendo: Toma. toma, é por causa de não me dares sempre os costis que se (t)chincam fácil, toma, bem feita; prá outra vez é pior! pensavas que no mas pagavas, pensavas,?; agora toma!
Não há dúvida: a arte a manha não agarram só peixes e lobos... Agarram-nos a todos.
Para a outra vez logo vos dou mais significados de (t)chincar...
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

quarta-feira, maio 11, 2005

A NOSSA FALA III - MAINADA!

MAINADA, ou seja mais nada, isto é, não há mais nada a acrescentar, que é como quem diz, está tudo dito, porque se algo for adicionado, será necessariamente supérfluo.

1. Numa tertúlia de adro, quase a bater as 3 da manhã, discute-se a problemática do próximo Benfica/Sporting. Um, que os lampiões não andam a jogar um caralho, são uns toscos a jogar à bola, o Trapatoni é um tosco, não merecem ganhar o campeonato e que os de Alvalade é que sim porque sim, o Sporting tem um plantel de luxo, o Liedson é uma máquina, outro, mas o que é que tu tens, alguma vez o Liedson se compara ao Simão, o Benfica é que sim porque sim, o primeiro, estás aí com merdas mas nós é que estamos na UEFA e vamos ganhar aquela merda, o segundo, tu vais ganhar é piças, tu és é parvo, não percebes nada de futebol, o Benfica tem tido azar é com as lesões, e já para já, se o Benfica não joga nada como é que ia em primeiro? Hã! Vá, diz lá. E o outro, porque vós tendeis comprado os árbitros todos olha o caralho! Eh! Pá! Foda-se, não me venhas com essa ó caralho, tu pensas que nós somos o Porto ou quê? Pois foi, olha, ganhaste ao Belenenses como? Hã? com um penalti inventado, caralho, foi ou não foi? Mas qual inventado ó caralho. Se calhar vocês nunca beneficiaram de um penalti? Foda-se! Tu és fodido! És mesmo lagarto ó caralho. Canta agora, quando fores à Luz já as papas. Quê? Queres apostar em como vamos ganhar à Luz? Vai já uma apostinha ó caralho. A quê? Pá! A um jantar. Vai! Tá apostado caralho. Ó Artur, parte aqui.
O Artur costuma ficar calado nestes debates sobre a arte de jogar à bola. Não aprecia futebol por aí além. É daqueles mocinhos bem parecidos, com algum sucesso junto das meninas, de óculos arredondados, que habitualmente se destaca pela sua postura educada e discreta. Mas não perde uma noitada de copos e acompanha bem nas cervejas dos companheiros de tertúlia. Todavia, ao assunto bola, e não estando as gajas na ordem do dia, prefere meditar sobre os problemas do mundo, gosta de ler livros difíceis, de física e de filosofia, e até já tem feito umas pesquisas na net sobre DaVinci, Einstein, Marx, Niztche.
Em vez de partir a aposta, olhou para as mãos entrelaçadas dos seus amigos, esticou as pernas, recostou-se lentamente para trás e proferiu com voz bem colocada: " a exterioridade da interioridade é indissociável da interioridade da exterioridade".
No outro banco, o Luís, que se também se mantivera mudo, não conseguiu evitar um… "MAINADA!"

2. Zé “Repolho”, rapaz folião, amante de moto4 (e de gajas, apesar de elas, ao que parece, não deixarem que ele seja muito amante), já ia na nona mine preta. Rudolfo “Nalgudo”, jovem orgulhoso da mosca que exibe há 3 meses, já vai na nona mine branca. À semelhança do que acontecera por alturas da quinta mine, ambos se vão esconder na penumbra da ruela para a mijinha da ordem. A meio da dita, o primeiro solta ruidosamente um flátulo, algo musicado. O segundo só conseguiu articular:
"MAINADA!".