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terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

XXXXXXXXXXXIIIIIIGGGGGRRRRAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEE

quinta-feira, março 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIV - CAMBALHÃO


O domingo imediatamente seguinte à lua cheia imediatamente seguinte ao equinócio da primavera - o de Páscoa - estava já próximo. Naquele ano dos finais de 60 os dias andavam primaveris e era tempo de caiar a casa. Ti Arminda Malagota desceu ao palheiro onde dormia a burra andorinha, e depois de atirar com um braçado de feno para a manjedoura, para acalmar a burranca que resfolgava excitada, desviou cuidadosamente uma pedra da parede, deixando ver um buraquinho com a abertura suficiente para ela lá introduzir a sua mão. De lá retirou uma bolsinha da qual escolheu 3 moedas de 5 escudos que enrolou no lenço das mãos e voltou a colocar a pedra no sítio que se encaixou na perfeição. Nunca ninguém iria conseguir perceber que ela escondia ali uma bolsinha de linho com notas e moedas que somavam mais de 50 contos de réis. E foi-se a caminho do povo, à loja da Ti Rosa do Cunha a comprar 2 quilos de cal branca que havia de desfazer em água num velho caldeiro de lata mexendo cuidadosamente com um changoto limpo, numa proporção de 1 de cal para 3 de água como a sua mãe lhe tinha ensinado, até obter uma solução cor de leite que deixaria em repouso até ao dia seguinte.

Logo à entrada, do lado esquerdo, a sua casa tinha uma pedra rectangular –a pedra dos cântaros - com 1 metro por 40 de fundo, encrustrada na parede à altura da boca do corpo, sobre a qual estavam sempre dois cântaros de barro – os asados  -  que no Verão forneciam uma água mai fresquinha que eu sei lá! e nos espaços à volta deles, ela ajeitava a sua colecção de antiguidades: um candeeiro de lata que lhe deu o primo Pantelhão, um lampião antigo que herdara do pai que tinha herdado do pai, três molídias, quatro cabaças envernizadas e uma colecção de outras peças em madeira que o seu homem, Manel Malagoto, se entretinha a fazer nas noites chuvosas de Inverno: cangas, chambaris, arados, tropessos, carros de bois. Juntou tudo no batorel do lado de fora e meteu-se a esfregar vigorosamente as paredes com escova de arame e lixívia.

Havia de fazer o mesmo na lareira. Esfregou a panela de ferro, as trempes, o pucheiro e o caldeiro da vianda com palha de aço, varreu cuidadosamente a cinza da pieira, aquela para onde as filhas, quando eram garotitas, deitavam os dentes que lhes caíam e recitavam “pilhêrinha, pilhêrão, toma lá este dente podre e dá cá um são”,  sempre a cantarolar uma cantiga que tinha ouvido, em garota, ao Ti Mné Ceguinho, e que falava de um tuberculoso que queria bem a uma rapariga fina, filha do regedor, um amor não correspondido que acabava em tragédia com o rapaz a suicidar-se depois de matar a autoridade local e a filha fina. A cinza, guardou-a num caldeiro de lata farrusco, com ideia de a botar na leira dos alhos.

Já o astro caía atrás da Gardunha quando lhe aparece João Tramoço que vinha pelo pagamento da cava da vinha. Nesta altura do ano, o Tramoço ganhava uns tostões cavando vinhas ao cambalhão, técnica antiga adequada nos vinhedos em que as videiras estavam dispostas de forma irregular. Algumas semanas mais tarde, seria preciso arrasar os cambalhões por forma a que o terreno ficasse novamente direito. Desta forma, a terra arejava e eliminavam-se as ervas.

O Tramoço ajustava o preço consoante a área e o tipo de terra e, entre duas borracheiras, aos poucos ia deixando as vinhas pejadas de pequenos montes de terra. Depois de ter suado durante a manhã daquele sábado a cavar a vinha do Mnel Malagoto apresentava-se para receber o combinado, que havia de ser trocado por vinho nas tabernas do Cavalheiro, do Zé Rolo, do Fatela e do Xico Miguel, durante o domingo.
O Malagoto que se dedicava a mudar a cama da andorinha assoma à porta do palheiro: 
- Eu pago-te mas só quando fores a desfazer os queijos que lá deixaste. Atão aquilo é trabalho que se faça?
Durante a tarde ele tinha passado na vinha e não aprovara o trabalho do Tramoço que, para despachar a empreitada e receber a paga, saltara os espaços onde não havia erva.
- Mintira!, defendeu-se o Tramoço.
A discussão foi azedando até que o Tramoço decretou:
- Ai no me quer pagar? Atão vai a ver, vou lá e desfaço os cambalhões todos.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXXIII - EMBISGA/EMBISGAR

Foram, que eu saiba, duas, as mulheres a quem se atribuiam poderes de bruxaria nas terras xêndricas: a velha Batorelhas e a velha Casaca. Batorelhas morava mesma à esquerda da igreja, primeira casa, com acesso por uma escadaria granítica a meio da qual havia um bureco do qual dependia, de manhã e à tarde, uma tábua com travessas, por onde duas pitas e um galo desciam e subiam, já que era ali a capoeira. Todos os dias Batorelhas tomava o cu para ver se tinham ovo e, a confirmar-se, subia a um baturel, metia a mão num caco colocado à entrada e tirava o ovo; a velha Casaca morava numa casa ao início da rua das aranhas, paredes meias com a velha tasca do estanqueiro, tinha uma loja que nunca vi aberta e ascendia-se ao primeiro andar, também por uma escadaria de pedra, só que, em vez de ser frontal como a de Batorelhas acompanhava a parede da casa e acabava num pequeno alpendre que tinha um telheiro suspenso por colunas de madeira. Diziam as más línguas que a casa não tinha sobrado e que Casaca, mesmo de noite, se passeava pelas traves e caibros e que, de vez em quando se ouvia um zunido que resultava da vassoura de giesta que ela montava. Não havia mobília a não ser uma pedra de lar onde, dependurada das cadeias , baloiçava uma panela de ferro, serventia constante da magra culinária. Como ninguém a via ir à lenha, diziam que, de noite, montada na amestrada vassoura, ia à serra da Carochinha, ordenava aos gravetos que se formassem em molho, metia a vassoura por baixo e aí vinham, ela e a lenha até casa. Chispava uma pinha com  um embisgar do olho direito e o lume acendia-se não sendo preciso meter lenha, já que bastava ela mostrar vontade e o gravato saltava para a fogueira. Famoso era o seu escarro. Puxava lá do fundo da garganta o muco, enrolava-o na cavidade bucal e expelia-o com trejeitos de arte a uma distância considerável. Com um tremoço no meio, pareceria um ovo estrelado. Saía pouco, sempre de preto e a olhar de lado, desconfiada. Garoto que a vislumbrasse ou adulto que por ela passasse punham as mão atrás das costas ou dentro do bolso e faziam figas com as mãos ambas e praguejavam: vade retro Satanas".
Batorelhas não era tão misteriosa: desde que o tempo o permitisse sentava-se na escada, chamava as pitas e o galo, esfarelava-lhes pão molhado ou restos de uma batata cozida e estimulava-os- pnina,pnina,pnina, gatcha,gatcha,gatcha...,tomava-lhes o cu e, toda escanchada, deixava ao léu tudo, sem qualquer pudor, e se lhe apetecia verter águas, abria as pernas por debaixo do bureco das pitas e ali mesmo se aliviava, limpando-se à combinação de flanela, cuspindo, também ela um valente escarro, mas não com a arte de Casaca. Sempre descalça, a sola dos pés podiam pisar um alacrário ou carapetos de silva, até mesmo um brocho que os cascos aguentavam, qual muralha inexpugnável às arremetidas dos picos. Uma vez a vi eu a esfregar ouriços para lhe sacar a castanha. Aquilo sim, era calçado!
Era raro ver-se Casaca na rua;  já Batorelhas corria as ruas sem qualquer problema, mas não se livrava que a canalha  a apupasse com o " olha a bruxa, olha a bruxa...! " Acompanhava-a sempre um pau, que lhe servia de bengala e com ele ameaçava qualquer garoto que dela se aproximasse. Já sabia que se o atirasse a algum nunca mais o via. A figura era de uma mulher esguia, de pescoço alto, seca de carnes, nariz um tanto adunco e um olhar mortal. Quando zangada, ora embisgava um olho, ora o outro e, ao ralhar, mostrava uma gengiva com três dentes apenas e fazia um esgar que a tornava numa figura cuja aparência não se afastava muito daqueles desenhos clássicos das fadas más das fabulosas histórias de então.
Curiosamente não era a elas que o povoléu recorria quando queria mezinhas, unguentos ou qualquer artifício para enfeitiçar alguém. Todos lhes tinham medo. Outras eram as benzilhoas que quebravam os quebrantos, deitavam a agulha ou tinham preparados para as maleitas, chás para as dores e sei lá que mais : Figo Seca, Espeta Figos, Rosa Manata, Julha do Toco, Olho de Lata, e outras.
Que conste nos anais xêndricos, nada aconteceu de mal que estas mulheres - repare-se que são sempre mulheres- alguma vez tivessem causado, fosse pelo embisgar dos olhos, fosse pelas curandices.
Outros que vós bem conheceis, de fato e gravata, bem montados e sempre acompanhados por acólitos de igual vestimenta e montada, loirinhos e de olhos azuis como os meninos bons das minhas histórias da minha meninice, esses sim, parecendo que não partem um prato, escavacam a cantareira toda.
É com esses que vos deveis pôr a pau porque sendo coelhos não comem couves, nem cenouras, mas subsídios de Natal e de férias.
Bom Natal para todos!
XXXXXXIIIIIIIIGGGGRRRRRRRRRRAAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEE

sexta-feira, julho 22, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVIII - LAVARINTO

A vida, às vezes, é mesmo um lavarinto. Chegamos a um ponto que nem sabemos para onde nos virar. É mesmo um lavarinto.O velho Cartesius dizia que se nos perdêssemos numa floresta e não soubéssemos para onde nos dirigir para chegarmos a um local habitado, o melhor era decidirmo-nos por um rumo e, sem vacilar, seguir sempre em frente. Partia do princípio, paradigmático à época, de que o caminho mais curto entre dois pontos era a recta. De facto a geometria em vigor era a euclidiana e portanto tudo se passava no plano. E como tudo ocupa um lugar no espaço então para ir de um lugar a outro o melhor era sempre em frente e em linha recta. Se nos puséssemos às voltas mais ainda aumentávamos o lavarinto e não saíamos da floresta. Nem sempre assim é e, às vezes, melhor é contornarmos, darmos uma volta e, parecendo que é mais longe, ganhamos tempo e o longe torna-se perto...
Deixemos então o lavarinto das coordenadas cartesianas e os eixos da ordenadas e das abcissas e detenhamo-nos, sentadinhos num batorel, à sombra da nogueira do Chquim Pardalim, ali mesmo onde o velho Prim e o Marrafa engenheiravam forma de fanar uns tomatitos, à pála, ao velho Fatela, que, embora sempre de olho neles, acabava sempre por ver parte do lucro da venda da caixa ir-se embora nos bolsos do Marrafa e do Prim. Eram uns artistas. O Marrafa ainda ia, às temporadas, até à Panasqueira, às minas, mas quando o tempo cá fora já era melhor, desandava e juntava-se ao velho Prim em tudo quanto fosse de malandrice e pilhagem. O Prim, esse, dizia que não precisava de trabalhar para se governar...às vezes andava num lavarinto porque a Guarda ia a casa dele frequentemente e dava com vestígios... Lá ia para a prisão e de alto e bom som lá bradava:"agora até me servem o prato e põem roupa lavada na cama!" E assim vivia.
Voltemos então ao batorel do Fatela à sombra da nogueira dos Landeiros, paredes meias com o chão do Geadas.
Convido-vos a outro lavarinto mental. Hoje deu-me para aqui...
Já reparastes que o homem não pode viver sem símbolos? Mesmo os sons que profere, acaba por os desenhar sob forma gráfica - as letras - que depois associa e constrói palavras e logo frase e depois texto e discurso e obra literária. E quando fala quer simbolizar qualquer coisa no sentido em que se refere sempre a outra coisa que é diferente do que diz. É aquilo que a palavra simboliza que faz com que a realidade se torne clara à nossa consciência. Dito de chofre: é no símbolo que o real nos aparece. Sendo assim, o símbolo não é a realidade, mas a sua revelação, a sua manifestação. Estais-me a acompanhar neste lavarinto? Continuemos então.
Se as palavras disserem apenas aquilo que cada um de nós quer dizer e não deixarem espaço para o que outro que nos ouve ou nos lê quer também dizer, a partir do momento em que deixam de ser símbolos e passam a ser simplesmente signos, então degeneram como palavras. São meros veículos de transmissão: uns MEDIUM que se esvaem na efemeridade do momento. Sejamos objectivos e directos: quando uma frase designa apenas aquilo que uma pessoa quer dizer e exclui a participação de outra na construção do significado, nessa altura, torna-se estéril. Fecha-se sobre quem a profere e exclui quem a escuta ou lê, em vez de permitir um fluxo - dis-curso - de comunicação entre ambas as partes. Ora a palavra é ou deve ser o antípoda desta tese, ela é, por natureza, diálogo, logo movimento, nunca estagnação. Clarifiquemos o lavarinto em que vos estou a meter: Se as palavras não tiverem vida, se não mexerem, se não agitarem, se não provocarem, estão mortas. Endoutrinam, dogmatizam, cegam em vez de desafiarem e educarem. Disse ! Aqui é que vai um lavarinto!
O Marrafa nos túneis da Panasqueira orientava-se melhor, até mesmo sem o gasómetro na testa...
Ah!, mas não penseis que já vos larguei. Vós é que podeis largar-me. Mas aposto que quereis saber o fim deste lavarinto! ou engano-me?
Cada um de nós é uma pessoa... Para as finanças e para o Estado somos, cada um, um indivíduo com um número. Nunca uma pessoa com um nome. Critérios...
De si, o termo PESSOA é um nó numa rede de relações (com outros nós) .
Verdade insofismável é que todos podemos usar o pronome Eu, mas ninguém o pode usar por cada um de nós quando nos referimos à nossa própria pessoa. Eu só sou eu para mim. Para vós sou um tu e vós para mim sois também um tu. Assim todo o Eu implica um tu e todo o tu é proferido por um eu. E esta relação implica ainda um ELE/A e mais ainda uma relação mais complexa como é a da dimensão Nós/Tu, que inclui o ELES, de modo que o ELE/ELA se inclui no EU/TU. E pior é que cada pessoa não admite nenhum plural. Cada um de nós é só ele e mais ninguém. Que Grande lavarinto!
Acomodemo-nos no batorel para encontrarmos a saída do lavarinto. Afinal cinco pessoas não são cinco pessoas, mas dez. São cinco tu e cinco eu. Se um sair e for observador então ele é um ele/a e continuam a ser na mesma dez porque ele continua a ser um eu e um tu e cada um dos outros são também eles/as e eus e tus...

Já estava com saudades de vós. Podeis crer. Nada melhor que um exerciciozinho para aquecer.
XXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAA
AAAAAAADDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

(publicado por karraio, texto do changoto)

sexta-feira, outubro 08, 2010

A NOSSA FALADURA - CLIX - CHÓ OU CHOCHE

Que me lembre foram dois os burros mais famosos da Aldeia dos XENDROS: por encima de todos a burra do vellho Freitas, a quem só faltava escever e falar, o resto sabia tudo, dizia ele, que tinha o palheiro para a besta , ali na rua do Outeiro a dar para os Cabeços, quase pegado com o Chquim Gonito. Segundo o velho Freitas, a quem já conheci de bengala, mais para lá do que para cá, era a burra que o despertava, manhã cedo, para acender o lume para a ti Emília pôr os feijões a cozer, para a bucha da manhã.
O outro burro, este, mesmo burro, inteiro, ruço, orelha afitada, alto, macho assim mesmo comédado, possante, emparelhava com novilha no carro de Zé Luís Barata.
Foram muitas as vezes que lidei com ele, mormente quando ia apanhar caruma para os lados da serra, a dar vistas para a Bemposta, nos pinhais do professor Tanganho e do Silva da Santa Marta, ou, se preferirmos, Cum filhode puta, senhor que era do mais que famoso tractor fiat azul de motor à vista. ... Grande máquina... Este animal de nome 'Estudante', tirando o mês de Março em que a reprodução burreira impedia função que não fosse a do acasalamento, era duma mansidão e trato incríveis. Em Março, todavia, Zé Luís via-se aflito para o conseguir suster no palheiro. Foram muias as vezes que rebentou com a corda que o prendia à manjedoura e que com as patas escavacou a porta de entrada . Mesmo Zé Luís, nessas alturas, só conseguia pegar-lhe à noite, até que decidiu prendê-lo com corrente de ferro e freio justo no dente, cossenão o bicho deixava de conhecer o dono e tornava-se bravo que só visto.
O sexo e a reprodução , como dizia o meu querido amigo Lameiras, "tinha lá porras".
Ainda hoje habitam a aldeia netos do Estudante.
Havia outros asinos de qualidade, alguns de nomeada, fosse na jeira da lavra, no acomodar ao batorel para as donas se montarem de cernelha na albarda, na habilidade a andar para trás com a carroça, no ritmo cadenciado de tornar e tornar em volta da nora de olhos vendados, na força com que ferravam os cascos a puxar os carros com os moios da semente por alturas da acarreja,... Havia até alguns que serviam de guias a um par de cabras e umas quantas ovelhas conduzindo-as, sem o dono a acompanhar, até à Quelha Funda, ao Carregal, ao Ribeiro Cimeiro, à Lameira da Pinta, às Portelas, ao Batcharel e a mais sítios que não vem aqui ao caso. Podemos citar o burro do Rogante, imponente, que mais parecia um mulo, a junta do Júlio Aspirante, e , claro, a não menos famosa burra do Zé Borges, fidalga, que até tinha um papel de celofane verde a tapar a testeira durante o Verão, "por mor do Sol" , que nunca comia palha e chegou a trazer fraldas quando Borges queria os cagalhões para semear os alfobres. Era lavada e escovada por D. Isabel de 15 em 15 dias. Ficava a alumiar.
Estudante nunca se serviu desta donzela, que Borges guardava-a em bom recato por alturas do cio e se tinha que sair com ela, informava-se antes por onde Estudante vagueava...
Duma vez me lembro eu que o burrico do João Rela, por metade do Estudante, mas inteiro como ele, apesar de preso à ferradura do Ti Zé Júlio, enquanto a ti Isabel fazia a troca da semente pela farinha, mandou dois escritos, atirou com as angarelas ao ar, arreganhou os lábios, aferranhou os dentes e atacou a impecável burra de Borges, mostrando toda a sua membral pujança e espetando com Borges no chão no intuito de satisfazer apetências que não obedeciam a qualquer moral.
Fotografia não tenho mas imaginai o que foi um burrico de metro e dez a querer possuir uma burranca de metro e setenta.
Um fado foi o que foi e o povo a rir e a gozar à farta, Borges a praguejar e Isabel quando vem à porta e vê o estrago, deita as mãos à cabeça e « rais palira o burro e a mais o zé borges que tinha tanto caminho para passar e logo veio por aqui para me desaustinar o Mimoso. Pouca sorte a minha»
Bem que gritavam um e outro, "CHÓ BURRO, COCHE BURRA, CHÓ BURRO, CHOCHE BURRA. Nada.
Borges, que até tinha estribo na albarda, apreciava os estragos, sacudia o casaco que usava mesmo no pino do Estio, praguejava por ter sujos os sapatos reluzentes, apreciava as palhas no impecável chapéu verde garrafa, que tirava com esmero, mas não se metia no engate de Mimoso com a sua Felosa.
Lá fui eu, mais coiote pete e três dôques a ver se resolvíamos a contenda. Valeu que as rédeas eram compridas e, armados de cacetes jeitosos, lá puxamos o Mimoso que espumava e afastámos a Felosa que se tinha posto a jeito mas nunca se amagou a pontos de a cópula poder ter acontecido. Ficaram os dois mal e o mais satisfeito era Zé Borges que assim mantinha intacta a sua Felosa, lavadinha e perfumada por D. Isabel e com estribos na albarda.
Agoras sempre vos digo que burra sofrida era a de Teixeirinha que lhe metia silvas debaixo da albarda para andar sempre a galope e burra mansa como a terra e que fazia tudo o que eu lhe ordenasse era a da minha avó. Nunca lhe bati, bastava que lhe falasse e ela cumpria. Ia com ela para todo o lado, mas sempre a desaguava com umas águas ludras de vianda com farelo e , pronto, tinha o que queria dela. Se dissesse "CHÓ" estacava, Se dissesse "esquerda," parecia um soldado fiel.. Foram muitos os sonos que dormi a cavalo nela porque tinha absoluta certeza que, a partir do momento em que a virasse para o caminho para onde queria ir, ela lá me levava e parava só debaixo da figeira curiga que por lá estivesse...
Grandes animais...Estes sim, mereciam confiança...
Para bom entendedor...

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sábado, fevereiro 21, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXVIII - CASQUEIRO

Eram quatro os fornos que trabalhavam para o povo. Não se podiam considerar comunitários, já que tinham dono e forneiro. O povo, melhor, as mulheres do povo, no entanto, cozia(m) o pão em qualquer deles: em frente às escolas velhas, o forno da D. Carminda, onde pontuava como forneira a ti Maria Bondita, não raro, coadjuvada pelas suas duas filhas, na 5 de outubro o forno do ti Mné Alfácea, no Beco da Ribeira o do Mija a Parede e no Oiteiro, à direita da barreira, o da Figo Seca.
Não havia moleiros na aldeia, que sejam da minha lembrança. Com toda a certeza, deve ter havido porque os moinhos de vento, tanto à direita como à esquerda do alto da estrada, atestam esse mister. A ribeira nunca correu todo o ano, mas falava-se no moinho dos Casacos, mesmo onde a ribeira tem uma queda de água em socalco e lá está (ainda estará?) a levada que fazia mover a roda da azenha.
Nos meus tempos de garoto, o moleiro vinha de Penha Garcia e trazia a farinha moída, centeio, milho(pouco) ou trigo, que levava uma semana antes e moía na sua azenha no Ponsul. Era o ti António Beringuilho.
A mula que sempre o acompanhava era uma animal de se lhe tirar o chapéu: alta, espadaúda, crina farta, castanha escura, reluzente, arreios sempre a brilhar, levava 5 taleigos como se não fosse nada. Valente animal, mansinha, nem era preciso prendê-la à ferradura do Agostinho Ratado. Era uma mula egueira, orelha curta, viva de olhar e dente sadio.
Aparte o Beringuilho, todos os comércios faziam a troca da semente por farinha, mediante o pagamento da poia: o taleigo da semente tinha dois alqueires e perdia a dízima.
Para facilitar começou a pesar-se naquelas balanças decimais cujos pesos permitiam alguma batota que um dia vos explicarei.
Faziam-se trocas no Fatela, no Cunha, no Zé Rolo, no Zé Júlio, na Troa, e periodicamente passava o Zé Oliveira que levava a semente e deixava a farinha. Até que começaram as sacas e os pacotes e se deixou, a bem dizer, de semear cereal. Lembro-me bem dos quintos e de todos os cabeços até à serra da Marvana e da Raposa serem semeados de centeio, na maioria, e algum trigo.
Quem fazia o casqueiro tinha que acarrejar a lenha para o forno, excepção no do Alfácea que era permanentemente abastecido pelo Chamiço que dava também a lenha para o lagar quando trabalhava. Claro que cobrava poia, tanto no forno como no lagar.
A sala do forno tinha a toda a volta uns baturéis onde as mulheres pousavam os tabuleiros com o casqueiro (e ou as bicas) já finto(as). Cada uma delas - o forno metia quatro tabuleiros - tinha uma marca que podia ser uma caruma, um pau de esteva, ou como ainda hoje é o meu carimbo, tinham um sinete que timbravam no cimo do pão antes de o forneiro o meter, por mor de não baixar e assim não haver dúvidas de pertença.
A periodicidade da cozedura variava em função do número do agregado ou das fainas do campo, mas era hábito uma cozedura cada 15 dias.
Pode parecer estranho a quem não viveu neste tempo, mas uma caixa de fósforos dava para um ano e fermento para o pão era também coisa que não se gastava : os fósforos eram substituídos por um tição que se pedia à vizinha que já tivesse o lume aceso e o fermento era vantajosamente substituído pelo crescente, que era também cedido por quem tivesse pão bem finto.
A isto chama-se economia.
Ao sair do forno, o casqueiro era embrulhado num cobertor dentro do respectivo tabuleiro e era lentamente que arrefecia. Na verdade, se o pão arrefecer ao ar, a côdea solta-se do miolo e não fica nada de jeito. Nunca se comia no dia em que era feito. Primeiro deixava-se assentar que era para luzir mais. No dia, lá se comia uma biquinha ou fazia-se uma ( taborna) = tibórnia .

O velho Estopa, naquele Verão tinha ido para os quintos, para lá do Frade e do Batcharel e para não terem de se levantar ainda mais cedo - é preciso notar que se trabalhava de sol a sol - os homens decidiram que dormiam por lá. O almoço seria levado, cada dia, por uma das mulheres e eles tinham comida de seco para o desjejum, a côdea, a merenda e a ceia.
Só que o Estopa, um dia antes de acabar a estrafega do quinto, foi acometido de tal borreira que se viu nas horas del conho.
Papel não havia e Estopa tinha que limpar o traseiro com palha molhada dos nagalhos.
O Sol era inclemente, Estopa suava, não podia atrasar-se na linha do corte e esgadanhava-se todo para ir a par, mas lá lhe vinha outra vez a vontade.
As ceroulas molhavam-se e secavam, Estopa sofria atrozmente e estava mais vermelho nas partes que um pimento para pimentada.
Lá chegou a casa, a arrastar as botifarras, diz à mulher para lhe aquecer água, tempera-a com um pouco de fria, mete as nalgas na selha, lava-se com sabão macaco, a sorver ar e a assobiar para não gritar.
A mulher que tinha cozido, e o cheiro do casqueiro desafiava a fome, preparava uma taborna morna. Só que os assobios do homem aguçam-lhe a curiosidade e quando se depara com aquela vermelhidão: «oh! home, isso está feio; espera aí que vou por um pano macio e já te limpo.» Só que Estopa não consentia que lhe esfregassem, nem mesmo com pano macio, as pudibundas partes e a mulher sai-se com esta:« põe-te aí de cu pró ar ao pé do lume, maneiras junto à candeia que eu boto-te aí um pouco de farinha triga que me sobrou do pão pra secares».
Estopa, desacorçoado (=descoroçoado) como estava, nem hesita. A mulher lá espalha a farinha, mas os resíduos gasosos da borreira entraram em descarga e quando ela estava mesmo por trás, sai-lhe uma bojarda que salpica a cara da mulher. A linguagem trocada não é traduzível, mas não vos é difícil imaginá-la.
A taborna ia ficando por comer mas a necessidade obriga e mesmo no meio do cheiro lá a roeram enquanto o casqueiro, esse, estava a salvo, abafado no cobertor e não ficou garanhotado como a cara de Angélica.
Acidentes.
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sexta-feira, dezembro 05, 2008

A NOSSA FALA - CXIX - (t)CHANCA

Não sei bem se já partilhei convosco, mas não faz mal se me repetir. O ocidente, onde vivemos, tem uma mão cheia de matrizes que determinam a nossa forma de ser ,estar e pensar e até agir, crer, procriar, tudo... Os livros incidem, na sua maioria em duas grandes matrizes, que afinal são três:a grega ou helénica e a judaico-cristã: a Bíblia, sempre a Bíblia, sem ou com Novo Testamento. Ineludível, indiscutível, irrebatível. Cá para mim, porém, não são só estas as grandes marcas teleonómicas que nos vinculam a uma forma específica de viver a vida. Como Camões quando viu o fogo de Santelmo -vi,claqramente visto -, também eu claramente vejo que não podemos deixar para trás, ou alijar para o lado, as influências marcantes dos celtas, (basta ver os enormes robles - que ainda os há - e que eles plantavam por cada filho varão; isso mesmo, o QUERCUS, o carvalho robusto, frondoso e duradouro; depois, dos romanos, esses dominadores imperiais que por aqui andaram, na Bética e na Lusitânia, com centro na vetusta Egitânia e, que mais não fora, nos deixaram, como legado, a língua com o seu SERMO VULGARIS ou PLEBEUS, e até com o ERUDITUS, para aqueles que sabem que Cícero teve essa alcunha, por causa de uma barruma que tinha mesmo na ponta do nariz e que se parecia com um chícharo. Daí que não ficasse apenas com o nome de Marcus Tulius e se distinguisse pelo Cícero. A sua eloquência era tal- basta ler as Verrinas, ou as Catilinárias, para ficarmos espantados com a capacidade investigatória e oratória, não sem Retórica da mais apurada, que ainda hoje, aqueles que nos explicam o significado das obras nos museus ou nas igrejas, ou..., se chamam cicerones. Mas não ficam por aqui as nossas matrizes: os árabes, esses soldados do profeta, de espada em forma de crescente e que o brazão de Penamacor ostenta, deixaram estigmas culturais que o tempo não mais apagará. Não vingou a língua, se bem que alguidares, almotolias, almofarizes, alcatruzes, alfinetes e outros al, para além das práticas no fabrico de azeite, vinho, sistemas de rega, tudo e ainda mais, nos chegou por via dos moiros. Os moiros, esses mesmos a quem os reis conquistaram os castelos até ao Algarve.
Sendo assim, a nossa cultura não é unívoca mas plurívoca. Invoca e evoca muitas matrizes.
Vem tudo isto a propósito de que andei a procurar, cá bem no fundo, donde derivaria etimologicamente este fonema TCHANCA, que hoje aqui vos trago. A verdade é que não encontro raíz que me pareça fidedigna e, olha, se errar também não vem daqui grande mal ao mundo. Tenho para mim que isto há-de ser celta.
O velho Corlha, soldado veterano, combateu em la Liz na primeira guerra mundial e foi dos poucos portugueses que escapou à chacina. Tinha mesmo uma pensão, dessa sua jornada por terras de França. Era crónico vê-lo sentado com outra figura castiça que ainda não constou neste memorando: o velho Domingos Argentino, emigrante lá pelas sulaméricas e agora vivendo dos rendimentos, especialista a amortalhar tabaco de onça, em mortalha da marca Cegonha (não há outro que se lhe oponha). Tinha uma bela casa com um dossel de vinha ferral por um corredor exterior até à porta onde é hoje a casa do Branquinho. Era das casas mais originais, com frescos pintados nas paredes de tom predominantemente azul.
O Corlha, coxeava devido a uma TCHANCA mal tenteada: contrabandista, como muitos, trazia um carrêgo para o Zé Aranhiço, já tinha passado a Baságueda e vinha já todo lampeiro a pensar que o dia estava ganho. Ouviu o tropel de cavalos e teve que acelerar. Ia a atravessar uma barroca, e, fosse pelo peso do carrêgo, ou por ter escorregado na altura do impulso, para, de uma TCHANCA o passar, bateu na outra margem e partiu o tornozelo. O grito de dor denunciou-o, perdeu o carrêgo, mas salvou a vida, que o mais certo era ficar ali sem se conseguir mexer, se a guarda fiscal não desse com ele. Depois ainda foi preso por ter envenenado o irmão; enfim, uma vida complicada a do nosso Corlha. Já não a de Domingos Argentino, esse, por essas dez aparecia ali pelo batoco, sentava-se no batorel do Agostinho Ratado, amortalhava cigarro atrás de cigarro, ia ao Chico ou ao Fatela escorropichar um copinho e voltava e era vê-lo a comentar quem ia ao chafariz.
Quem lhe fez a casa foram dois irmãos que vieram dos Escalos e casaram na Aldeia: Moisés e Tonho Pitincouro - os Pitincouros. Deles se dizia que sabiam tralha como um corno. Se alguém quisesse saber quantos litros levava uma pipa ou um poço ou o que quer que fosse e tivesse forma cilindrica, tinha que se socorrer deles. Eram artistas: faziam render o segredo. Eles sabiam o valor do PI. Nunca o revelaram. Os 3,14 eram exclusivos dos Pitincouros.
O Zé Chornico tinha aberto um poço, ali perto donde eram as poldras, num chão colado ao Zé Toco ( o Zé Mangueira, de quem se dizia que o tinha tão grande que dava duas voltas à perna e sobravam 15cm para mijar) e deu com um nascente dos lados do sol nascente -os melhores- e quis saber quantos litros levaria o poço para calcular se havia de afundar mais ou não.
Não tinha fita métrica, calculou a altura pelos degraus da escada e o diâmetro:«ponho aqui um barrote de travesso e espeto-lhe uma tábua por cima e meço isto à Tchanca» Depressa fez o que pensou, mas a Tchanca não dava certo com as bordas do poço e então chega-se aos Pitincouros e: « o mê poço tem de altura dezoito degraus de escada e de largura três tchancas dois palmos, uma mão de travessa e o mê tchapéu. Quantos litros poderá levar quando estiver rasinho?» Os Pitincouros calculam a altura com base nos 35 cm por degrau e cada Chanca a 1 metro,o palmo a 20 cm, a mão travessa a 10 e o chapéu a 15, e concluem: "Ó ti Zéi isso é bicho pra conter aí por volta de 22.500 litros". Vamos a beber um copinho que a água já me dá. Quando é que me podeis ir a forrar o poço"?
E assim, valendo-se do seu saber o valor de PI os Pitincouros lá ia arranjando trabalho. Sim, que eles eram pedreiros de profissão.
Novas xendrices para a semana.
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sábado, julho 15, 2006

A NOSSA FALA - LXII - TRAMBELHO /TRAMBELO

Tempos inefáveis eram aqueles em que, apanhado o comboio em Castelo Branco, a malta da região que, na altura, estudava em Lisboa e não era assim tanta que não se conhecesse, ocupava toda uma carruagem - às vezes até já estava parada na estação e depois era só atrelá-la à máquina - .
Embora a viagem demorasse umas boas cinco horas, o tempo não custava a passar. Não raro, e porque a carruagem era sempre a última e o comboio parava em tudo quanto fosse estação ou apeadeiro, lá apareciam uns fregueses das Benquerenças, do Retaxo, dos Amarelos, das Sarnadas e por aí abaixo. Aquilo era fatal: mal se acomodavam, o cesto da merenda era logo aberto e "são servidos"? Ai não que não éramos!
Quantas foram as vezes que o meu pai me dava cinco litros para oferecer à Senhora da casa onde eu me hospedava. Nunca o vinho chegou sequer ao Entroncamento. Depois comprava outro vinho e era esse que oferecia. Era a vida.
"Olha, filho, não botes a cabeça fora da janela do camboio que ele passa numa ponte tão rente, tão rente que já se contam por nove os que lá ficaram." Invariavelmente era assim. E continuava: "Vê se te portas com trambelhos de gente...Já és um homenzinho!"
Voltas dei eu para descobrir donde raio vinha este termo TRAMBELHO. Lá descobri: o trambelho era uma espécie de registo que regulava a entrada da semente na mó - se se queria a farinha fina apertava-se o registo, se mais grossa alargava-se o trambelho.
Assim também aquele que se porta comédado e tem os cinco alqueires bem medidos tem trambelos de gente o que não tem regra e ora aperta ora alarga sem rei nem roque, não tem tino, é um taranta. Ah! o registo aqui não é o assento no livro do registo civil. Não. É uma roda dentada na ponta de um eixo, rachado ao meio, que atravessava os candeeiros a petróleo na parte metálica onde assenta a chaminé e servia para regular a chama desse candeeiro. Havia-os também nos fogões a petróleo e com a mesma finalidade: regular a potência da chama.
Figura inolvidável da xendrada era o Zé Bondito. A paciência que a ti Maria teve em aturá-lo só a divindade a saberá. Só apanhava uma bededeira por ano: de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro. mesmo nos bissextos. Duma vez o encontrei eu deitado na valeta ali ao fundo da curva do muro do Marcelo, em frente da casa do Geadas... Chovia sem trambelhos nenhuns. Água com fartura!
Vinha eu de levar uma bilha de gás ao Rancheiro, lá por detrás do cemitério, com o incansável carrinho quadrado, boina na cabeça e bota cardada, quando, depois de passar a ponte, começo a ouvir um rosno compassado. Apuro a orelha: era o Bondito!
"Ó tzéi?Tzéi! "clamei.... "rais o afundem... "Voltei atrás àquilo do Cavalheiro e lá engatei o Fainica, que era vizinho do Bondito, e o João Feijão, que só veio a troco dum copo. Os três lá arrastamos Bondito para debaixo do alprendre do Geadas, onde é agora a loja do Licas, mesmo na curva do aidro. Fui pôr o carrinho na garagem estrela, ao canto do Fatela por debaixo do baturel da velha Batista e vou-me à casa da ti Maria, quase ao cimo da Lagariça, paredes meias com o velho Comandante e bem perto da velha Passarinha, vedeta outra que um dia trataremos aqui comédado: - era Passarinha, porque era a parteira de serviço na Aldeia e, claro, tinha que ver muita passarinha - !
Bato à porta e lá oiço passos do lado de dentro, apercebo-me do aumento da luz no registo do candeeiro a petróleo : "quem está aí?" Lá me identifiquei, já a velha Pássara estava no cimo do balcão, a Maria Chan Chan já vinha com uma pinha acesa a ver o que se passava, o velho Sarrabeco com a voz catarral "que é lá isso,home? e até a mari troncha, que antes queria ter um filho,(e teve oito antes de o seu Jabão se enforcar) aparece à esquina tentar ver à luz dum fósforo que acabara de riscar na lixa da caixa, brada: «O que queres à mulher a esta hora, ó fedelho" tu num sabes as horas? já num há trambelhos nenhuns!-
A ti Maria, é preciso dizê-lo, era uma das forneiras da comunidade, já dormia - que o dia começava às quatro da manhã para ela quando deitava lume ao forno da D. Carminda, do outro lado das escolas velhas, um pouco acima do Tonho pitincoiro e em frente do velho Forelho. (Isto é que são dados geo- estratégicos! qualquer rasca, curioso em G.P.S.. daria no forno com estas indicações).
Voltemos à narrativa...
Lá venho com a Ti Maria - esta malta, a bem dizer, dormia vestida - direitinhos ao alpendre do geadas, mas ... Bondito, viste-o!
Ao fim de algum tempo lá o achamos na rua de trás, portinhola desapertada e a cantarolar: "Ela já anda na rua!ela já anda na rua! côtche!côtche! côtche!"
«Vergonha da família, vocêi num sinvergonha deste porte, seu porco sujo?!» e ele: « ela já anda na rua! ela já anda na rua!... Caminhe à minha frente para casa, seu badalhoco!"
O Bondito, aquecido como estava, nem arrastava o pé! A água continuava a cair!
"Estou chapado!" digo para mim. De repente penso:" vou a buscar o carrinho , sento lá o velho e...ala!."Foi um instante.
Empurrei o velho lagariça acima, levei-o em braços até à soleira e deixo-o para a ti Maria: "bem hajas tu! meu home! bem hajas tu! é a minha cruz.... O Comandante ouviu e conheceu a minha voz:"és tu ,Changoto?! "Sou, meu avô!" Não tardou já estava a descer as escadas com a candeia baixa, a abrir a porta da adega, ali mesmo em cima do barroco que tanto servia de eira como de passadeira de figos:" ó porra! estás molhadinho que nem um pito! anda lá pra cima pró pé do lume!" A custo lá lhe disse que não, que bebia um copito e me ia à cama!
Aos poucos lá se foi convencendo: "vês o que dá a falta de trambelos do Bondito! Ê tamém gosto dele mas vêi lá se algum dia me viste borracho. Um homem tem que honrar o tchapéu que traz na cabeça. A canalha é que pode perder o tino! um homem tem que andar com trambelos de gente. "
«Já me vou avô! Fique descansado que eu tenho trambelhos, assim comédado! Dê-me a sua bênção» "Deus tabindçôe, mê filho! e te faça um home de bo sorte!Amén"
Desci a Lagariça sem trambelos nenhuns com o carrinho a saltar na carecada das pedras de quase meia calçada e só parei ao lume, já o meu pai dormia e a minha mãe estava em cuidados. Quis saber a história. Contei-lha, deu-me um beijo, e deitei-me.
Quereis mais trambelhos que estes?
UM XXXXXIIIIGRRRRRRRAAANNDDDDEE!

segunda-feira, março 13, 2006

A NOSSA FALA - L - ENCRIR OU INCRIR

A Lameira não foi como agora está. Com início no chão do ti Zé Latas, havia um "alcaduque" (espécie de alvanel coberto, formando um túnel) que a canalha atravessava de gatas à luz de bocados de borracha ateada numa pinha. Muitas vezes o atravessei... Claro que esta aventura só era possível durante o Verão , pois, de Inverno esse "alcaduque" ficava cheio de água por mor de uma ribeira que passava junto às figueiras do Zé Maroco , por debaixo do pontão que dava para o beco da Ribeira e desaguava por detrás do lagar na "nossa ribeira", depois de ter passado por debaixo do caminho do cemitério. As mulheres lavavam a roupa nesta ribeira e punham a roupa a corar estendida num banco de relva que sempre por ali havia. Não vos falo das oliveiras e das amoreiras que nós tínhamos que fintar quando jogávamos a bola... Não falo nem é preciso...
Tal como agora também então a Lameira servia de campo dos mercados aos segundos Sábados de cada mês. O que já não era igual era a mercadoria que ali se trocava ou vendia: porcos, burros, vacas, cabras e ovelhas, fora as tendas. As brincadeiras dos velhotes tinham piada e se algum garoto por ali aparecia,logo um provocava: "ó catraio, sabes qual o animal que dá o fruto antes da flor? No sabes? É o burro, é o burro; espera aí sentado até que bote cá fora os cagalhões e verás que o cu dele depois se abre como uma camélia encarnada!" E riam-se a bom rir... E outro: "gostas de castanhas? olha: o burro as caga e tu as apanhas" Mais uma risada. O tempo nem custava a passar e se o negócio se fechava lá estava o alboroque à espera naquilo do Cavalheiro. Era sempre assim.
Três foram, pelo menos, os burros ou burras mais famosos de aldeia: a burra do velho Freitas, inteligentíssima, até sabia escrever e sabia sempre o tempo que fazia. Se chovesse ninguém a arrancava do palheiro e para se desaparelhar bastava que o velho lhe desapertasse a cilha e lhe sacasse o rabo do atafal que ela dava um safanão e deixava tudo direitinho no balcão da parede junto à manjedoura...Outro que não lhe ficava atrás era o ESTUDANTE, burro mais que famoso do Zé Luís Barata, que lavrava sozinho, fazia a torna na perfeição. Zé Luís ficava dum lado e seus filhos Zé ou João ficavam em cada extrema da leiva e apenas viravam a aiveca. O ESTUDANTE fazia o resto. Inultrapassável era também o jerico inteiro do João Rela: pequenino, mas verguio como a puta que o pariu. Em Março - por este tempo que agora corre - mal via uma burra aventava com cinco escritos ao ar, atirava com os aparelhos, arreganhava as beiças, alevantava o cachaço, zurrava e espirrava, chegava às burras e nem que o desancassem com porrada nunca desistia enquanto não farejasse o cu da fêmea. Era mau filho de puta este burrico. Fora isso era manso como a Terra.
Deixava-se montar pela ti Conceição e ajeitava-se ao batorel. Aguentava teso quando estava à carga. Mal via as cordas de ENCRIR - estas cordas serviam para segurar a carga ajustada à albarda do burro e que tinham uma forma própria de se colocarem, por forma a permitir que as duas sacas ficassem uma de cada lado e até pudessem sustentar mais uma ou até duas de sobrecarga, em média media cinco braças (ou braçadas), cerca de metro e meio cada uma e que se obtêm esticando os braços ao máximo da sua extensão - , o burro ajeitava-se logo e nunca se mexia, nem que a mosca o arreliasse. O mesmo com o ESTUDANTE, só que este era muito mais valente e as cordas de INCRIR tinham mais uma braça, dada a altura do animal. Mais parecia um cavalo. Era mesmo um animal nobre. Um cigano ouvi eu oferecer cinquenta notas batidas pelo ESTUDANTE ao Zé Luís. Ele é que não esteve pelos ajustes :"Desaparece-me da vista senão apicho-te aqui o fadista que te encorre até Medelim. "
Admirais-vos agora de a nossa aldeia ser a terra dos doutores e engenheiros? Dizia o senhor Arnaldo, que em tempos trabalhou nas Finanças de Penamacor, que Aldeia do Bispo tinha mais pessoas formadas em cursos superiores do que o concelho todo.
Olha a admiração! Aldeia que tinha burros destes, pouco espanta que tivesse tanta gente formada. E em forma. MAINADA!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A NOSSA FALA - XLIV - A MANDINGA

Zé Borges ( o prometido é devido) era mais aldrabão que os políticos em campanha eleitoral (façanha julgada impossível). Era uma bomba de palavreado! Sempre bem arreado, bota reluzente que de vez em quando era reforçada no brilho com tinta coureina e cuspo do Zé guerrilhas, onde Borges se dirigia para quase nelas se ver ao espelho... de andar meio gingão, frequentemente metia as mãos nos bolsos e, ao mesmo tempo, puxava as calças para cima, deixando ver o cano da bota e mais ainda umas meias alvas, bordadas pela D. Lurdes com cinco agulhas - um esmero -; ficava nessa altura com a aparência de ser um pouco mais alto do que realmente era - era uma das mandingas que utilizava para provocar ilusões; entrava nas tascas mas não bebia nem pagava; o interesse era sempre meter conversa e achar campo para enfiar mais umas boas galguérias. Não raro, aqueles que o conheciam de gingeira, serviam-se da mesma mandinga e puxavam as calças para cima ou subiam para cima dum qualquer banco que estivesse à mão e cantavam o "arregaça, arregaça a calça, que se soltou da alsa"...Aí Zé Borges via que o peixe já não rendia, servia-se de uma tosse gutural, embolsava uma escarreta e atirava-a para o centro da estrada, dizendo invariavelmente: "ah! puta! com um tremoço no meio parecias um ovo estrelado"; o cabelo estava sempre nos trincos e de tamanho curto, próximo do rente: é que Zé Borges fora marinheiro, dizia ele, CAPITÃO DE FRAGATA, e dispunha-se a mostrar a jaqueta com os galões a quem o quisesse comprovar - mais uma mandinga - .
Contava ele que em África tinha visto uma jibóia com 15 metros e que com um arrocho tinha partido um dente de marfim a um elefante e que duma vez se viu frente a frente com um leão: calmo, como se impunha, agarrou um pequeno estadulho e quando o leão abre a boca para o apertar nos dentes afiados, enfia o estadulho na boca do rei da selva que, ferido no céu da boca, mete o rabo entre as pernas e foge acagaçado com a calma de Borges. Em Lisboa o comboio andava 30 metros debaixo de água e na aldeia tinha ele tido uma ovelha que tinha parido e criado oito gatos.
Um dia, Chquim Mouraria, mais conhecido por Malagoto, genro de padre Zé, mandador nas eiras onde se fazia a malha a mangoal (ainda vos lembrais dele?), velho Prim, aquele mesmo que um dia enquanto o velho Remédios, viúvo já, descia à loja para trazer um pucheirinho de vinho e dar um copo ao Prim, ele, o mal agradecido, com um gravato, saca a farinheira que o velho cozia na panelinha de ferro e, apercebendo-se que ele já subia, enfiou-a na fralda da camisa e, embora a dor da escaldadela fosse enorme, aguentou firme e emborcou o copinho ao velho; quando chegou à tasca do Fatela mostrava a cicatriz da escaldadela: "só queria uma farinheira mas fiquei com duas," dizia o malandro), bom, mas então era o Malagoto, o velho Prim, o Marrafa (que passava os dias sentado no baturel do Fatela ou do Chico - era só atravesar a estrada -, e mais ainda o velho Corlha, Zé Espantado, Zé Ferrenho, Manuel Freitas e Zé Luís - uma equipa de rara envergadura em matéria de artimanha - combinam espetar uma ao Zé Borges. Depois de muitas hipóteses Malagoto decidiu: pagamos um copo ao João Feijão, para o Borges não desconfiar e é o Feijão que lhe vai dizer que a cadela aqui do Ferrenho pariu dois borregos e que os dois tinham uma cabeça para a frente e outra para trás e mamavam à vez com a boca em cada uma das tetas da ovelha. E foi.
O Feijão, ao princípio, ficou relutante mas com mais uns copinhos lá se foi ao Zé Borges e dar a notícia. Não tardou que Borges aparelhasse a burra - animal invejável, sempre bem calçado de ferradura e aparelhado com gosto, albarda sempre coberta por manta de farrapos, arreios reluzentes, e, que eu me lembre, a única burra que tinha estribos - e se pusesse a caminho à casa do Ferrenho que ficava para lá das Portelas, no Batcharel, mesmo em frente ao pinhal do Chico Sarapião, regedor que era, ao tempo.
Ferrenho, bem instruído por aquela equipa de mandingas, fez-se de novas e mais atiçou Zé Borges: « Ó Sr. Zéi, ele verdade, é, sim senhor, mas veio cá o veterinário e levou-os para a Vila. Só se cá vier amanhã!» Volta Zé Borges à aldeia prometendo que voltaria no dia seguinte. E voltou... mas não encontrou o Ferrenho e ficou sem ver nada outra vez. Fez a viagem todos os dias da semana. Esperou o Ferrenho à hora de missa no Domingo e lá combinaram dia e hora.
Ferrenho via-se agora encalacrado porque já não sabia como descalçar a bota. Calhei a passar, passo a mão pela careca do Ferrenho, Mnel Freitas sai-se logo:"oh! tu és cma elas: só gostas dos carecas!",ouvem-se os risos do costume, passa-se por cima e acabo por saber a história contada pelo Malagoto que, proibido como estava dos médicos de tocar em pinga de álcool, se oferecia agora à mulher para ir tratar das pitas à capoeira, onde tinha escondida uma garrafinha com aguardente da rija. A pobre da mulher nunca desconfiou desta mandinga do Malagoto! Abalou cedo, coitado! Bem,... mas adiante
Digo eu ao Malagoto:« Óh Chquim, agora só vos safais se disserdes que, dada a raridade do fenómeno, o Estado vos confiscou os borregos e os levou para o Museu de Arte Natural».
-"Diz lá outra vez!" Eu repeti umas quantas até que o Ferrenho foi capaz de dizer direitinho a tramóia.
Malagoto, que ao tempo, trabalhava em Castelo Branco assujeitou-se a perder meio dia só para ver se o Borges aparelhava a besta e ia ao encontro do Ferrenho a ver dos borregos.
Borges, militar como fora, - tratos são tratos - à hora aprazada lá estava. Ferrenho portou-se à altura.
Nesse dia no adro não se falava de outra coisa.
Borges, só tarde e às más horas é que se apercebeu da mandinga.
Tendeirinho, figura rara na aldeia, pedreiro em Campolide, esposo amado e dedicado de Mari Chã Chã, numa de filósofo da àgora grega, sai-se com uma de se lhe tirar o chapéu:«Bem feita! ia por lã e veio tosquiado!»
Até o Tonho Bondito e o Zé Balão tiraram as mãos dos bolsos e bateram palmas!

sexta-feira, setembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXV - APICHAR

Todos os anos era a mesma comédia: naquele dia, nos 30 minutos a seguir às 7 da manhã, sucediam-se os silvos dos foguetes a subir seguidos do estrondo dos arrebentamentos. Os galos permaneciam calados, os cães ficavam excitados, os bebés choravam assustados, muitos adultos e adultas apresentavam queixa contra desconhecidos por lhes cortarem o sono e chamavam-lhes nomes feios.
Havia festa na aldeia e os povos vizinhos tinham de saber: supostamente era essa a função dos foguetes em tempos faltos de telefonia, televisão ou internet. Mais ou menos intercaladamente, ouviam-se os foguetes de resposta e os de 12 tiros, para acabar com 5 minutos de foguetes de morteiro. Eram sobretudo estes que incomodavam os dorminhocos: a cada 4 ou 5 segundos o estrondo seco do morteiro fazia estremecer levemente os pindricalhos de vidro do candeeiro, entrava pelas trompas do eustáquio adentro e provocava uma grande agitação na região ventral-anterior do hipotálamo, mais especificamente no núcleo supraquiasmático, desregulando o NREM e o REM e, claro, confundindo os sonhos.

Agora, acabou! Já não há foguetes, não há estoiros no ar às 7 da manhã, uma pessoa já pode dormir até às 8.

- Festa sem foguetes, nem é festa nem é nada – declarou o Ti Ambrósio Espantamulas

Conta-se que duma vez, o primeiro foguete da alvorada assustou uma cegonha passante que largou a cobrita que levava no bico com ideias de a entregar ao filhote como pequeno almoço, tendo a dita vindo abater-se no caldeirinho de água que a Natalina Figoseca levava na molídia, e que tinha ido a buscar à fonte do ribeiro cimeiro. Quando desceu o caldeiro para conferir que raio lá tinha caído, e deu com o réptil ainda moribundo, sentiu-se invadir por um arrepio tão grande que lhe eriçaram todos os pelinhos e pintelhinhos do corpo. Botou a fugir caminho abaixo aos gritos e só parou ao pé da velha Conceição Jajanova, que a animou e lhe prometeu que ia ela buscar o caldeiro. E foi. Agarrou na cobrita pelo rabo, deu-lhe forte com a cabeça numa pedra do muro e, meteu-a ao bolso do avental. Mais tarde, já perto da hora do almoço, esticou cuidadosamente o escamoso bicho em cima do batorel, fez-lhe um talho latitudinal a meio, com abertura suficiente para enfiar um dedo de cada lado e, de seguida, puxou devagarinho em sentidos opostos, assim como se faz para tirar a pele aos coelhos. Removido o pulmão, o instestino, e outras excrescências, cortou-lhe ainda a cabeça com uma podoa. Instintivamente, Ti Conceição sentiu as glândulas gustativas em efervescência à vista daquele pedaço de carne rosada e tenra que daí a pouco havia de fritar em azeite, alho e uma pitada de coentro e depois degustar, lânguidamente. E logo em dia de festa.

O mundo é composto de mudança, disse o Luís Vaz e cantou o Zé Mário, e o mundo inclui as festas populares. Parece que antigamente, para além dos foguetes, festa que não metesse porrada não era festa não era nada. Para além deste pormenor, um estudioso concluiu algumas outras coisas interessantes no fenómeno das actuais festas populares, a saber:
que as festas, apesar da capa, se realizam cada vez mais à margem do motivo religioso que lhes deu origem, o que denota uma separação nítida entre o cariz sagrado e profano – nalguns casos há litígio com o pároco, noutros há negociação bem sucedida;
que é assumido cada vez mais o objectivo comercial de procura do lucro material, em que até a data da realização tende a privilegiar as vantagens comparativas inerentes ao afluxo de pessoas, em vez de respeitar a data da celebração religiosa do santo em nome da qual a festa é realizada;
que se verifica um progressivo esvaziamento das referências simbólico-culturais características da localidade e da comunidade em que a festa se inscreve;
que este esvaziamento simbólico foi como que substituído por novos valores os quais acompanham e decorrem do processo de modernização das sociedades rurais;
que esse processo de modernização fica muito a dever a padrões de vida, de consumo e de fruição importados do espaço urbano e subsidiários da cultura de massas;
que a motivação dos protagonistas principais (mordomos, comissão), assenta menos nas questões da fé e orienta-se mais para a prossecução de uma estratégia de afirmação identitária no espaço de origem;
que a dinâmica da festa em si se pauta por elementos completamente desligados da matriz cultural local, como sejam os espectáculos dos artistas e grupos musicais que se fazem pagar bem, em cujas actuações apresentam aparelhagem sofisticada, jogos de luzes e som muito alto, por contraponto ao realejo, acordeão ou banda filarmónica que se satisfaziam com uns tintos como paga;
que a postura dos intervenientes (público) é tendencialmente passiva, inibindo-se de participar dançando ou cantando, resumindo-se ao consumo quase estático;
que se regista uma actualização dos géneros consumidos durante a festa, embora a bifana e os pipis venham conseguindo oferecer alguma resistência ao hambúrguer e ao cachorro;
enfim,
assim como já não há homens como antigamente, parece que também já não há festas como antigamente.

O fim das alvoradas de fogo anulou a possibilidade de acontecer ao Miguelito e ao Camião, os habituais técnicos pirotécnicos, o mesmo que naquele ano. Consta que estavam eles em competição, munidos cada um com seu isqueiro espanhol de torcida, a ver quem APICHAVA mais rapidamente o rastilho dos foguetes, quando aconteceu algo inusitado. Era preciso ir soprando a torcida para não se apagar. Duma das vezes, o Miguelito já tinha chegado a torcida ao rastilho várias vezes e ele não havia maneira de APICHAR. Zangado – o Camião já estava a largar o terceiro foguete de resposta seguido – assoprou-lhe com tanta força que a placa lhe saltou da boca indo cair no meio do silvado da ribeira. Preocupado em ver onde tinha ficado a placa, não reparou que o rastilho tinha finalmente APICHADO e estava na hora de o largar. Não o fez, e quando se deu conta já ia no ar agarrado à cana, bem uns dois metros – convém lembrar que o Miguelito é homem seco de carnes não ultrapassando o seu peso as 3 arrobas e meia. Valeu-lhe o metro e oitenta do Camião que, ao ver a cena, se atirou às calças do Miguelito, e os dois tombaram para o silvado.
Isto é verdade. Acredite quem quiser.

terça-feira, julho 05, 2005

A NOSSA FALA XIII - ENCORRANCHA

ENCURRANCHA OU ENCORRANCHA


Certo, certo é que a memória não encurrancha. Cheguei a esta asserção (para o povo que não sabe o que é encorrancha, não estranhe que haja quem não saiba o que é uma asserção); (eu até propunha ao “dono” do blogue que se criasse um glossário onde o maralhal pudesse ver o que as palavras queriam dizer); ficaria assim explicado o que é um batorel, um tamoeiro, uma cravelha, um cancelão, um brocho, uma brocha, uma cisgola, uma fanega , um moio, um caisenadinha, um dembanão, um chirrichichi, uma infusa, uma semilha, uma paveia, um canelo ou até um picanço bacoreiro, um tropa - gatos, um espadacho dos grandes, um flecho, para não falar de um piorno, piorna ou piorneira, ou duma pieira que até tinha direito a ladainha e tudo quando caía um dente dos de leite à canalha: «Pieirinha pieirão, toma lá este dente podre e dá-me cá outro são» ) (...). estais vós a ver agora porque é que a memória não encorrancha?( ou encurrancha)?
Vamos lá então à história ou estória ou aventura ou a um desencurrancho. ( ou será que é desencorrancho) .Ouvi isto tanta vez ....mas nunca o vi escrito. Olha, vai onomatopaico. Como vos parecer, assim é).
Já algum de vós viu um ninho de papa–figo? Aquilo é uma obra de arte! Um ninho suspenso como se fora uma cesta de verga das de tiras de castanheiro bravo. Um espectáculo, um deslumbramento! Verdadeiramente excepcional. Só vi um, mas vedes que não me esqueci. Lá está: a memória não encurrancha!
Claro que caí do cabrão do sobreiro quando fui tirar o ninho do papa-figo. Caí eu e a pernada e, claro, o ninho. Lembro-me como se fosse hoje!
Tempos dum cabrão eram aqueles em que, garoto a saber a tabuada, acompanhava o velhote a Alcanena, ali mesmo ao pé dos olhos de água onde há uma remanescência que só vista (vêdes a falta que faz o glossário?). Só a visitei muitos anos depois: à remanescência e ao Alviela que, aprendi eu, dava a água a Lisboa... ( Lisboa devia só beber vinho e laranjada, que a água que ali nascia dava mal para um povo de aldeia). Bom, mas adiante que a memória dorme mas não encurrancha.
Aí alombei com alguns quilos dos grandes que o caminho era feito a pé e a distância aumentava a cada passo em vez de minguar. Míngua tinha eu de uma infância infantilmente vivida. Mas era o tempo em que não havia lugar nem tempo para essas mariquices da entrada gradual no mundo do trabalho... Ah! Tempo! Já o velho comandante dizia: ah tempo! Um dia trago-vos só o comandante. Fica prometido.
E doutras coisas que eu me lembro. Se não lembro parece que as revivo quando escrevo. E se o bom actor é aquele que quando se apresenta e para mim representa, me deixa sem saber se está a representar-se – isto é, se está a ser a sua própria pessoa -, ou se está a representar e, assim, o que ele representa não é a sua pessoa mas a pessoa do outro que ele empessoou na sua pessoa e, assim, é um hipócrita no sentido grego do termo, já que parece uma coisa e é outra. Usa diferentes más-caras. Com filho da puta, já vos dei cabo da mona. Sabeis porquê? Porque a memória não encurrancha! Às vezes dorme. Mas não encorrancha.
O actor é para ser levado a sério senão finta-nos. Olhai para os políticos! Se os não levais a sério, eles enrabam-vos a brincar. Mas não sejais vós a pôr a manteiga. Encostai antes as nalgas à parede...As nalga e as patas. Escoiceai-os! Olhai que a memória dorme mas não encorrancha. Este conselho vos dou eu.
A esta hora estais vós a dizer: porra! Este não é o mesmo changoto dos outros textos! Mas é! Vos asseguro eu que sou o mesmo.
Só que a memória não encorrancha e veio aqui a ter muita alembradura.
Já dizia o meu avô comandante do inferno: quem quer bolota, tropa! (uma vez que não temos glossário convém dizer que este TROPA, pertence ao verbo TREPAR e o imperativo da ordem feito indicativo presente no caso seria TREPA). Já agora sempre se assinala que na raia sul a bolota se distingue da lande e da boleta e ainda da azinha ( se é doce e boa para comer crua ou assada), locais onde o dito parafraseado é assim:” quem quer bolet(r)a, trepa! ( leia-se trêpa).
O que vós aprendeis neste blogue!
Mas vamos à história do encu(o)rrancha:
A bandeira de guerra tinha ido ao guerrilhas a mandar fazer uns sapatos finos para o casamento do filho do espeta-figos. A noiva era garriça! Gente do campo. Bravia quanto baste e com uma escola que fazia com que o zé inverno não arrebitasse cachimbo em matéria de decidir o que quer que fosse, salvo em definir onde plantaria os tomates, os pepinos e o feijão, as batatas e as couves, para além de escolher o borrego para a sra do incenso. Fora isso o inverno encolhia. Nem o chapéu escolhia que era ela que lho comprava. Alguns lhes vendi eu. Olarila!
Bom, mas a bandeira de guerra que era prima da garriça velha, foi então encomendar uns sapatos ao guerrilhas, artista da sovela e da ponta de cabo, em linho nº6, da ataca e da tomba em bota cardada. Ó Lurdes diz o guerrilhas, tenho aqui um atanado ensebado que isto faz um sapato macio como um filha da puta, mas não o podes deixar ficar à água, cassenão encorrancha. Isto é que é artigo! Mando-te virar os sapatos em Castelo Branco, na loja do Barbas, ali mesmo ao pé da sé e fazes uma figurona no casamento do espeta figos. Não podes é andar com eles à agua. Se chover no dia do casamento, não os ponhas a secar ao lume. Põe-os na adega, aí obra duns três dias e traz-mos cá que eu dou-lhe uma cera de burnir à mistura com cera de abelha e sebo de cabrito velho. Ficam como novos e não encorrancham.
Dão-te até ao casamento da tua Beatriz, ou eu não seja guerrilhas.
Mas assim não os posso levar ao campo, retorque a bandeira de guerra.
Tu és parva ou quê? Para isso compras umas sandálias de pneu de avião, ponteadas por dentro e em cabedal do rijo. Ficas servida para dez anos. Essas já não encorrancham. Inda vais ao meu enterro com elas.
Então, não é que foi mesmo? E as sandálias não estavam encorranchadas. O mesmo não se podia dizer do guerrilhas...