terça-feira, janeiro 31, 2017

A NOSSA FALADURA - CCXLIX - (T) CHISCA


Os códãos têm sido à moda antiga e nem a chuva que agora cai ameniza a friagem. Vale o borralho de azinho que a lareira vai queimando. De vez em quando uma chazada a escaldar também ajuda a animar o espírito. Antigamente espetava-lhe com uma tchisca de redina curtida em passa de uva ou zimbro, mas agora deixei-me dessa mezinha. Lá que leve uma cucharrada de mel, ainda vá que não vá, mas os etílicos destilados ficam para os borrachões, bolos de leite ou filhós...
Pirolas era amigo de, logo pela manhã, lhe arrefinfar com um trago da rija, acompanhada de umas passas de figo. Quando o tempo arreganhava, como agora, deixava a botija, como lhe chamava, sempre à mão, na loja, para não ter que subir as escadas cada vez que lhe apetecia um trago. Assim evitava que a ti Esperança se aferranhasse e lhe rezasse das boas. Não raro, desafiava-me para uma tchisca, mas invariavelmente eu recusava e à laia de brincadeira :" Oh Pirolas, eu sou mai pra vinho". Talvez não houvesse na terra xêndrica quem mais vinho oferecesse do que Pirolas. A adega onde, sempre disponível estava a pipa e o copo de borco no bojo, para além da porta de entrada tinha apenas uma janela de duas folhas, sem vidro, aí à altura de um metro e meio. Dava directamente para um pio em cantaria aparelhada onde, no tempo da vindima seis homens a par, de rodo na mão pisavam o mosto. Esse pio dava ainda para mais três, de menores dimensões, até porque a loja era trapezoidal e estreitava bastante a partir do meio.O chão era de terra batida e as paredes que a revestiam eram em granito puro e duro. Mesmo no pino do Verão a fresquidão era uma constante e Pirolas tinha ao fundo uma espécie de tarimba onde, nas tardes cálidas ferrava o galho assim mesmo comédado. No balcão de acesso ao primeiro andar, também ele em granito, bem espaçoso, havia um buraco que servia de capoeira. O escadéu de acesso para as galinhas descerem e subirem era amovível. Pegado estava um pequeno palheiro onde Pirolas tinha uma burranca,«mais mansa que a terra» e que era a companheira de Pirolas quando ia até ao chão da serra. Ao lado da porta estava um baturel cuja utilidade alternava entre a facilitação para carga e descarga da burra que andava sempre com as angarelas  ou para servir de trampolim para a ti Esperança se montar, de lado, como pertencia às mulheres, já que a saia não lhes permitia que se escarrapachassem no dorso da albarda.
Pirolas tinha sido mestre pedreiro, mas quando eu privei com ele, as forças já não davam para picar a pedra que tão bem sabia aparelhar e muito menos para movimentar grandes calhaus toscos ou abrir buracos ao pistolo para fazer estacas de pedra que se usavam nas confrontações dos prédios mesmo junto aos cômaros e, permitiam, quando alinhados, suportar os arames onde videiras postas em série se apoiavam com as gavinhas, facilitando o aproveitamento extremo das propriedades.
Sabia histórias do arco da velha e tinha uma forma peculiar de as contar que provocavam o riso espontâneo de quem o ouvia. Lembro-me de uma em que o interveniente era um guarda fiscal que tinha a seu cargo as comunicações e que tinha um ligeiro defeito na fala: não pronunciava os "C". Duma vez em que foi chamado por causa de uma escaramuça entre contrabandistas um dos que interveio na separação da contenda diz para o colega:«há um cadáver». Ele, solícito, informa o comando de que havia um cadáver e que portanto seria necessário proceder a todas as formalidades exigidas por lei: avisar o delegado de saúde, os bombeiros, enviar eventualmente uma ambulância,.... Aconteceu, porém, que, quase de seguida, o colega brada-lhe a dizer que afinal o que pareceu cadáver estava vivo. Lá volta o nosso homem a ligar para o posto de comando: « informo (qu)e o adáver (qu)e era adáver já não é adáver, o adáver está vivo; repito: o adáver está vivo».


A circunstância em que vos escrevo está marcadamente dominada pelas determinações de Donald Trump que têm motivado manifestações contra em todo o mundo. Lembrei-me de que em tempos com a eleição de G Bush(filho) eu lhe ter escrito virtualmente uma carta. Mutatis Mutandis (expressão latina que significa - mudando o que deve ser mudado ) deixo-vos essa missiva que foi inspirada no Papalagui:


Ex.mo Senhor
Donald Trump
Casa Branca – WASHINGTON
Estados Unidos da América

Aceite V. Ex.cia os meus respeitosos cumprimentos.


Muito provavelmente esta carta nunca lhe chegará às mãos e o seu conteúdo não ferirá a sua membrana do tímpano. Ainda assim não posso e, mais ainda, não quero deixar de lha enviar. Não fora assim e não ficaria de bem com a minha consciência.
V. Ex.cia apesar de muito viajado não conhece o mundo. É como muitos que olham para o mar e não descortinam os navios. De facto, olhar não é ver.
Baseio esta minha afirmação e não tenho pejo em frontalmente lha apresentar num conjunto de razões das quais lhe deixo aqui algumas:
-         É sabido que toda a gente (julgo não estar a cometer uma falácia de forma) considera V. Excia como o homem mais poderoso do mundo uma vez que dirige o país que neste momento ocupa a charneira da economia mundial; sempre lhe quero dizer, no entanto, que ter poder não é o mesmo que ter autoridade. A esta, eu obedeço porque está legitimamente estabelecida, reconheço a sua necessidade e sinto-me protegido no seu seio. A autoridade tem regras e, se elas não forem observadas, eu posso reclamar, servindo-me de outros elementos sociais, também eles aceites como autoridade, e posso fazer valer os meus direitos de cidadão; já não assim é com o poder... Este arvora-se em dono e senhor, não só da vontade de quem o detém, como ainda pretende escravizar, submetendo à sua força, a vontade de todos aqueles sobre quem directamente o exerce e, o que é mais, - e nisto V. Excia tem sido o mais vivo exemplo – até pretende estendê-lo para fora dos contornos das fronteiras geográficas sobre que governa. O poder é tentacular: tudo quer engolir na sua voracidade sem freio e, qual buraco negro, alimenta-se destruindo alimenta-se da própria luz, não vendo nem deixando que alguém veja...
Não admira que as suas acções sejam contestadas e que os povos se manifestem rejeitando essa sua forma de tudo querer subjugar. Claro que tem sempre a seu lado sequazes leais, feitos à sua imagem e semelhança, não fossem eles escolhidos por si ! que o aplaudem mesmo quando diz as maiores barbaridades ou pratica as mais hediondas acções. Saiba, Senhor Presidente, que se o Estado faz falta para garantir ordem e estabilidade, - por isso ele é exigido e eleito nas democracias ocidentais e se mantém de geração em geração, não se podendo passar sem ele -  já a sua ocupação por pessoas é efémera e, dos que por lá passam, a história focará os mais lídimos representantes, votando, com o tempo a um ostracismo, os menos competentes a um esquecimento ou, tão só, a fugazes recordações, esporádicas e apenas como recordações do que se não devia ter feito. Tem V. Excia exemplos de qualquer destas categorias nos que o antecederam no trono do poder. Porque não imita Lincoln e prefere Reagan?
Convença-se Senhor Presidente  de que o mundo não é seu, mesmo que o tente. O poder maior do mundo senhor Presidente é a própria Natureza. É a ela que eu devo respeito, amor e obediência. Ela alimenta-me, garante a minha subsistência, cativa-me na sua beleza, possibilita-me momentos inolvidáveis, renova-se e renova-me cada dia, encanta-me na sua harmonia, alumia indiferenciadamente credos, cores, ricos ou pobres, do hemisfério sul ou do Norte. Tanta variedade e tanta beleza. ...
V.Excia, Senhor Presidente é também garantido na sua existencialidade por esta mesma natureza. Eis porque o meu pasmo atinge alturas incomensuráveis:
Como se atreve a, com o seu poder, martirizar quem só lhe tem feito bem?
Porque razão com a sua vaidade e orgulho, numa pedantice sem limites, ousa, mais que todos, agredir a atmosfera que o protege dos malefícios cósmicos?
Como é possível que, rodeado e pelo menos com acesso a tantos NOBEL, V. Excia não entenda de uma vez por todas que a natureza, um dia, - e não precisa de fazer muito esforço – se lembre de reagir a estas leviandades de um homem que se julga senhor do mundo quando afinal não passa de mais um elemento na engrenagem da mesma natureza?
Porque rejeita V.Excia fechar os olhos à evidência?
Sabe V. Excia com quem aprendi estas razões para argumentar contra a sua prepotência?
Eu digo-lhe:
Não foi com o homem branco que tem muito dinheiro e que cada vez é mais insaciável. Não; não foi com esse que tanta técnica tem! Não foi com o homem do TER, foi com um homem do SER. Um homem para quem os valores materiais valem o que valem mas não mais que o próprio homem, a tal ponto que se sujeite a eles. O dinheiro, esse vil metal, pelo qual se abandonam os verdadeiros valores humanos como a solidariedade, a paz, a amizade, a honra, para não falar da saúde e da própria felicidade, não é tudo na vida. Menos ainda a discórdia que V. Excia espalha por todo o lado sem qualquer razão que o justifique. Não aprendeu que tal como Kennedy no Vietname, também V. Excia apenas pode vencer alguma batalha mas nunca vai ganhar a guerra. Vai ter a desonra de uma derrota final. Não duvide! O tempo me confirmará.
A Natureza, tal como o tempo, o ar, os rios ou o mar não são objectos de posse. São. Pura e simplesmente: São. E é a sua existência enquanto seres, que, sendo, não são de ninguém, porque simplesmente SÃO, que possibilitam que tudo o mais também seja.
Foi isto que me ensinou  Tuiavii, chefe de Tribo de Tiavéa, nos Mares do Sul.
Eu aprendi.
Não quererá V. Excia acompanhar-me nesta aprendizagem? Deixe por uma vez o pedestal e caminhe comigo por esses córregos da natureza e admire a beleza do tojo, a flor da giesta, o sussurro da água, o trinar do rouxinol, o assobio do vento, a graciosidade efémera da nuvem, o cheiro da chuva, o bafo da aragem aquecida pelo sol, o espectáculo de um sol-pôr, a alegria do rebentar de uma nova vida e até a tristeza do fim de uma outra. Tudo isto é natureza. Tudo isto é simplicidade. Tudo convive e nada se agride. Tal como deve ser uma sociedade: a harmonia da diferença.
Termino, Senhor Presidente, como o mesmo chefe tribal:
“Talvez isto seja porque sou um selvagem que não compreende nada.”

XXXXXXXXXXXIIIIIIGGGGGRRRRAAAAAANNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEE

3 comentários:

Joaquim Dionísio disse...

Com "esta" (crónica) é que tu me lixaste. Da segunda parte não faço comentários uma vez que sou apolítico. Da primeira parte é que me sinto "levado" pelo tempo que passou pois não consigo lembrar-me da personagem em questão "o Pirolas. Vou tentar adivinhar mas com grande probabilidade de errar. Vizinho ? cuja mulher "Esperança" será que era o Zé Nicas? Espero na volta saber se me aproximei ou se pelo contrário deva sonhar com a meninice e abrir gaveta atrás de gaveta até encontrar alguma outra personagem que se adapte a tão soberbo relato. PARABÉNS. Abraço.

karraio disse...

Zé Nicas, nem mais. Essa memória está boa e recomenda-se...

pratitamem disse...

Os códãos, podem amaciar, mas já mais o basagueda os poderá transportar! Mas continuando a rimar, quem os poderá sanar? porventura o Basagueda, se de seu leito não se desviar! Eu gosto é da primavera no basagueda, quando ela ainda CORRIA, ao sabor do vento versos tempo! Gosto menos da basagueda das enchentes, desses Invernos, que nós pensamos controlar, por via da meteorologia. Mas a cujo leito mão tomamos, sempre no defeito que não controlamos! Defeito tomado heresia cantada, resta o bom tempo, de quando não era chamada. Serve esta aparvalhada cantilena, por mim inventada, para referir, que hoje nevou na Minha Querida Aldeia do Bispo e eu, Graças a Deus estava cá! Maís, de pouco posso acrescentar, Não sendo o facto de esperar o Inselmo no petisco e ele não pode ir! Tenho uma frase, por demais repetida, ao longo dos meus últimos trinta anos, que nunca me enganou, na verdade não é uma frase, é uma interjeição! " os americanos o quê?"