Quando de põe a pensar, o povo, habitualmente, raciocina simples, mas encerrando profundidade e, não menos verdade, verdade. Os ditados e adágios populares são disso claros exemplos. Quanto se põe a falar, o povo, habitualmente, é espontâneo, prático e económico, em termos lexicais, fonéticos, sintácticos e semânticos. Claro que convém introduzir aqui a condicionante da matriz cultural e geográfica onde a fala se fala, o que faz com que as falas sejam simples e entendidas sobretudo para quem partilha dos mesmos códigos semânticos. Eis este humilde blogue e essa modesta rubrica "a nossa fala" a atestá-lo.
Quer a estrutura do raciocínio quer a do linguajar popular se hão-de poder arrumar, desconfio, segundo uma matriz de categorias. Os quadros teóricos da lógica filosófica, da psicologia cognitiva e da linguística, entre outras disciplinas, haviam de ajudar a compreender a estrutura das operações lógicas mentais e discursivas que informam o raciocínio de uma pessoa cujo universo só reconhece as leis newtonianas, e nem todas, mas sobretudo, privilegia o lado prático e pragmático das coisas. Deixemos esse trabalho para outros trabalhos e fiquemo-nos pelo trabalho de campo, porque, como bem se percebe, simplicidade de raciocínio e de discurso não parece ser o forte deste linguarejar. Reconhece-se que há muito a aprender com o Ti Ambrósio e com a Ti Perpétua, como a seguir se verá.
Ti Ambrósio Patanisca e Ti Perpétua Pardala formavam um casal peculiar, um par ímpar. Físicamente, ele era alto e seco e metia os pés para dentro, ela baixa e rechonchuda e caminhava com os pés a marcar as 10 e 10. No temperamento, ele era discreto e ponderado, senhor de pensamentos lineares mas cautelosos, ela era palradora e espontânea, adepta do juízo fácil que, bastas vezes, resultavam em boato. Ti Ambrósio caía para o lado do cepticismo e da dúvida metódica, achava desnecessário tirar o chapéu quando tocava a avé-marias, bem como não via utilidade em contar a sua vida nos buracos do confessionário. Ti Perpétua tinha uma quase doentia veia religiosa, na qual misturava indistintamente a fé na Santa Igreja Apostólica Católica Romana com a fé na crendice popular mesmo na mais primária. Ti Ambrósio deu-se conta deste traço da personalidade da mulher logo na noite do casamento. Como ela se recusava a apagar a luz, ele deduziu, logicamente, que lhe estava a dar um sinal claro sobre a sua vontade em continuar com as brincadeiras que dois jovens recém casados é suposto terem na cama. Viria a descobrir, desconsolado, que afinal, ela só não se atrevia a tomar a iniciativa de apagar a luz porque, acreditava piamente, aquele que o fizesse, morreria primeiro.
Ti Ambrósio apreciava o final das tardes de Verão no jardim do Batoco onde a vida da aldeia transitava em julgado mas, por vezes, se abordavam também temas mais profundos e complexos. Naquela tarde, enquanto à mesma hora se continuavam as celebrações do solstício do Verão em Stonehenge, o Batoco discutia o derivado popular do confronto paradigmático do geocentrismo versus heliocentrismo.
Partidário do primeiro, Ti Mnel Talha Burricos agarrava-se inabalavelmente ao argumento empírico:
- Essa agora! Atão o sol no s’alevanta do lado da Espanha e no vai andando, andando, andando, até se deitar do lado do Fundão?
- E à hora da comida está sempre ali em cima de Aldeia de João Pires, no falha – junta-se Ti Fcisco Furdas.
O Senhor António, que ganhara o direito a tratamento deferente por via da sua condição social de descendente de família mais abastada e por ter dedicado mais tempo à caneta do que à enxada, não perdeu a oportunidade de afirmação que a ocasião e o tema lhe proporcionava. Pedagogicamente, tratou de abrir a mente dos companheiros de vara para as certezas científicas da astronomia e da física, conjugando com a denúncia dos falsos juízos induzidos pelo recurso apenas aos sentidos, rematando:
- O facto de se ver o sol a andar no céu ao longo do dia, não quer dizer que ele anda à volta da terra. Isso era o que os antigos pensavam porque era essa a sua percepção, era isso que eles viam.
Ti Ambrósio ouvira com atenção. E, sem nunca ter lido ou sequer ouvido falar de Wittgenstein, surpreendeu o improvisado professor:
- Ó Senhor Antonho, atão se os antigos diziam que o sol é que andava à volta da terra porque era isso que eles viam, atão o que é que nós vemos agora, se afinal é a terra que anda à volta do sol?
À mesma hora, no batorel da casa da Ti Perpétua, a que se juntara uma dúzia de vizinhas da rua da Lagariça, o tema era mais terreno, partilhando todas o esforço de consolar a dor da Ti Amélia Refa, que tinha enterrado o homem trêsantontem. Cada uma à sua maneira, emprestavam à prostrada viúva a sua solidariedade incondicional. Ti Perpétua, na sua vez, exibiu a sua faceta mais positiva quando colocou a sua mão sobre a da outra e lhe disse, com voz chorosa:
- Deixa lá Amélia, isto é só desgraças. Olha, a ti morreu-te o homem, a mim, foi-me a pita a pôr fora.