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terça-feira, março 10, 2015

A NOSSA FALADURA - CCXXXIII - BAZAROCO

Nosso Fernando era, e ainda é, o mais velho dos Pombos. É daqueles que, com uma simples navalha, mata um porco de oito arrobas ou mais com uma única espetadela. Enterra a navalha uma vez, tira-a, limpa-a e poisa-a. Enquanto os outros seguram o porco e um mexe o sangue no alguidar com uma mão cheia de sal grosso, Fernando vai-se à mesa, corta um naco de queijo fresco, arrefinfa-lhe um branquinho e apenas limpa o focinho na chamusca, faz o cu e o pindrico se for macho, abre os nervos para o chambaril e torna a esperar que pendurem o porco para se dedicar a abri-lo. Rasga dois sulcos ao lado das tetas do animal, separa o soventre de baixo para cima num jeito certeiro, aventa a tira para trás e começa a abrir as laterais com uma eficácia que é de admirar em quem nunca foi cortador diplomado. Tão habilidoso é à direita como à esquerda. Aprecia a carne do animal decretando se tem boa febra ou se é só gordura, pede o tabuleiro para apararem as tripas, detém-se no osso da suã, abre-o nos dois sentidos puxa as tripas, tira o fel do fígado, vem até à língua, fazendo a gola de caminho e separa a fressura que pendura num prego da trave mestra da loja. Enquanto alguns vão a separar as tripas, nosso Fernando, pede uma malga e começa a cortar nas melorejas que eu logo me apresso a migar porque a bucha não pode tardar. Nosso Fernando vai-se até ao lume e aguarda que a fritada da meloreja vá para a mesa, roendo umas azeitonas retalhadas e mandando uma bocas aos das tripas: « sandens mesmo uns bazarocos, já arrebentásteis a tripa em cinco lados. Eu tinha vergonha...E tu oh nalga roxa, num vês que isso que estás a separar é a madre?! Isso num presta para levar enchido! És mesmo um bazaroco! já tiveste tempo de aprender. num sei pra que raio andandens a estudar se num distinguis a madre, da tripa dum animal. O que tu merecias era que ela estivesse saída e logo vias aí o sangue da lua...Palavra de honra!» Dou-lhe a meloreja a provar e salta logo: sal, precisa de sal. De pouca adiantava que eu lhe explicasse que o sal só fazia mal à saúde e que ele não gostava de meloreja mas de salgadeira. Lá o consolava com mais um branquinho e logo mandava a sentença: olha que a meloreja num quer branco. Casca-lhe mas é com uns tintos valentes na caçola».
Na minha casa paterna, matança não metia saia. As mulheres só apareciam mais tarde e competia-lhes fazer a viragem das tripas que os homens já tinham limpo e a respectiva adoba em laranja, alho, loureiro, sal e mais o que entendessem necessário para depois encherem o belo chouriço, bexiga, palaio...
Naquela matança, os homens estavam entretidos com as tripas e eu fiquei sozinho com ele e provoquei-o. Diga-se, antes de mais que nosso Fernando gabava-se de saber de tudo. Na verdade, ele era tosquiador, pedreiro, pintor, barbeiro, hortelão, meio sapateiro, limpador, podador e qualquer outra tarefa que lhe fosse cometida, era certo e sabido que nosso Fernando nunca se negava e desafiava quem fizesse melhor que ele
Começo eu: «Oh ti Fernando, já reparou que as mulheres não nascem mulheres?» E ele:" Então nascem homens, é?" « Não, elas nascem é com potencialidades para se tornarem mulheres; quando nascem ainda não são mulheres,» " lá isso pode ser verdade que eu à minha filha sempre lhe chamei de garota. Até agora, que já me deu dois netos quando falo para a minha, pergunto sempre pela nossa garota" Ora vê! Mulheres só são as do seu tempo que já se casaram, e, se bem calha, ainda lhes chama de cachopas quando passa por elas" Eu ia controlando a meloreja na caçola e ele apreciando e metendo veneno nos separadores de tripa, mas nunca esquecendo a conversa. Vem-se a mim e remata: « mas, porra, um garoto num é igual a uma garota! ele nasce com uma pindrica e ela com uma greta!» "Ora aí tem: não nascem mulheres, hão-de tornar-se mulheres"» Até aí tens tu razão, só chegam a mulheres quando se casam!» "não é bem assim" e começo a fazer uma oração de sapiência sobre a diferença entre natureza e cultura, a consideração que as mulheres têm nas diferentes culturas, religiões, povos... no seu papel social, na importância que sempre desempenharam na civilização... " «Vê lá num deixes esturrar a meloreja!
Percebi que a conversa estava desajustada e arranco-lhe com uma história sobre o significado do peido. Aí ele presta logo atenção. "Uma vez no combóio, no tempo em que ainda era tocado a vapor e o fogareiro ia alimentando a caldeira com hulha, na mesma carruagem e, num banco de frente uns para os outros, iam , um advogado, um médico e um agricultor. Não havia motivo de conversa e o lavrador, de repente, solta um sonoro. Diz o advogado: o peido é uma justa reivindicação do cu relativamente à boca; e o médico: o peido é uma consequência natural dos gases libertados por alguns alimentos que o organismo se vê na necessidade de expulsar. Digamos que é um arroto nos antípodas. O agricultor que encolhia mais uns quantos que lhe apetecia soltar, ia calado, até que lhe pergunta o médico: então e para si o que é o peido?

Nosso Fernando solta uma gargalhada e e depois de se ter certificado de que a meloreja estava no ponto: Oh corja de bazarocos, intão isso inda num está aviado?! Inté cagava um pé todo! se eu metesse as mãos a isso, já faz tempo que lhe estávamos a arrefinfar ! Nosso Zéi, irmão de Fernando, que também sabia da folha ainda lhe respondeu: O que tu sabes já a mim me esqueceu. Vai masé enchendo os copos que nós já aí vamos. Abriste pouco a cabeça do porco e se eu lá não tivesse ido a cortar mais meloreja ficavas só a molhar pão no molho. Fernando sentiu o toque :«quando tu nasceste já eu comia pão com côdea, meu bazaroco!
Tudo se compôs e a  plangana da meloreja depressa ficou aviada porque não adiantava guardar para as mulheres, que, se a comessem podiam quebrar a madre e nunca mais poderiam ser mães... Crenças que justificavam que os homens comessem o que era bom e as mulheres apenas assistissem, salvo as avós já em idade de não poderem voltar a ser mães, porque a essas já não fazia falta a tripa madre. Outros tempos!
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quarta-feira, agosto 08, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXII - ACONDUTER

Nada, nem ninguém como as coisas de aldeia e as gentes de aldeia! Não sei se deverei falar em "bons tempos" aqueles em que vivi e, sobretudo, convivi na aldeia. Foi lá que aprendi muito da escola da vida. Poucos me ensinaram tanto como o velho Comandante, aquele avô severo, rude, áspero, bruto, na verdadeira acepção da palavra, que se gabava de nunca ter posto as mãos em cima dos filhos! Pudera! batia-lhes em pêlo com a bomba de borracha do vinho ou com o cinto pelo lado da fivela, quando não com as cordas de sobrecarga ou mesmo vergôntea de gesta ou arrocho de aperto.
Tito Lívio dizia de Aníbal Barca que mal dormia, pouco se alimentava, era de resistência invulgar, sempre o último a deitar-e e o primeiro a levantar-se, capaz das maiores façanhas, simultaneamente conselheiro e admoestador, capaz do elogio ou de uma sentença de morte que ele próptio executava, vigilante ímpar, passando furtivamente pelos sentinelas, verificando se dormiam ou se se mantinham despertos. O que fosse apanhado a dormir nunca mais acordava. O velho Comandante timha muito a ver com este famoso general Cartaginês, o primeiro que foi a atravessar os Alpes, ínvios até então, como conta Salústio repetido por Lhomond, ele, o seu exército e os elefantes. Foi obra: ir de Sagunto (Barcelona) até Cannas e derrotar os Romanos em casa. O velho Comandante era igual: por tal severidade a avó Isabel se findou cedo. Poucos aguentavam aquele ritmo: tanto trabalhava à canha como à direita, quer a cavar, a ceifar, a gadanhar a cortar, a podar,... Era um ambidextro, na verdadeira acepção. Sempre o primeiro a chegar ao trabalho e, se se tratava de trabalho onde pudesse adiantar, como na apanha da azeitona, por exemplo, era certo e sabido que quando os assalariados chegavam já tinham tudo montado: fato estendido, escada encostada, lume aceso e ele já no cimo da muda a gritar: CHOVA!CHOVA!. Era capaz de trabalhar de sol a sol, ir de noite a Espanha, no tempo da guerra civil, entregar vacas e estar na linha da frente para pegar ao trabalho logo cedo. Um fenómeno!
Cito, um tanto de cor, o retrato de Lívio que, sendo romano, nunca será muito probo relativamente a um cartaginês :" princeps proelium ibat, ultimus, conserto proelio, excedebat. Inhumana cruidelitas, perfidia plus quam punica, nihil veri, nihil sancti, nullum deum metus, nulla religio...".
Parcimonioso, mais que medieval, bastava-lhe um figo seco para aconduter uma refeição...
Fazendo aqui uma espécie de anacoluto convém esclarecer que não é raro, no lingujar popular a troca de sons, especialmente, no caso vertente, a troca do som E pelo A: em vez de assobiar dizem assobier, por mijar pronunciam mijer, por molhar preferem molher (as vogais finais devem ser abertas)... e por aí fora.
O nosso linguajar de hoje é alvo desta permuta de fonemas: em vez de a condutar, sai aconduter. ( leia-se ACONDUTÉR).
Que me lembre, apenas duas matanças aquele homem fez para casa. Não se pense que os porcos eram valentes; ao contrário... tal como o dono, eram magros, de cabelo ericedo (=eriçado), e de pequeno porte. Se nas outras matanças a refeição era uma festa, ali apenas se comia a meloreja, um prato de sopa de couve, mal aconduteda, fígado e soventre, bebia-se vinho por copos que mais pareciam dedais, lá aparecia uma cunca de queijo e "ala milhano" que se faz tarde!.
Raramente oferecia um copo a alguém e, se fosse o caso, nunca oferecia nada para aconduter.
 De facto, estranho que apenas conhecesse aquela casa iria com uma apreciação errada do que é uma típica casa de aldeia: junto do pipo se não havia, depressa aparecia um pão e o respectivo conduto, para acompanhar o copo: azeitonas, queijo, presunto, uns fritos de beringela, se fosse o tempo, ou, que mais não fosse, uma tora de toucinho salgado para fazer boca. Eram assim as casas de aldeia: sempre que se bebia tinha que se comer. Nunca se comia pão seco, sempre aparecia algo para aconduter. É esta a escola que eu pratico: alguém que me visite tem sempre pão e algo para aconduter. No velho Comandante não era assim.
Eu, enquanto neto, beneficiava de uma excepção: lá vinha o figo deco ou, raramente, um naco de pão com um queijo seco embrulhado em folha de botelha e guardado no arcaz da semente, "por mor de ficar macio".
 Agora que já vos matei a bicheza e vos trouxe um naco de prosa para aconduter, prometo voltar mais cedo para não vos desavezar...
XI GRANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEE


sábado, março 26, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXV - CODECIDO

Todos conhecemos a irrequietude das crianças. Com razão dizemos que, quando não as sentimos buliçosas, ou estão doentes ou a dormir, ou, então, estão a fazer asneiras.

Todos sabemos também que entre os dois anos, mais ou menos, e os cinco, elas vivem a chamada idade da graça, como superlativamente lhe chamou Hamilton. Metem "bojardas" descabidas, mas como nos rimos face ao absurdo, elas pensam que estiveram muito bem e, claro, sentem-se contentes, porque no seu egocentrismo, este vedetismo encaixa de forma perfeita.

Todos reparamos que mal começam a construir frases a pergunta fundamental é "Porquê"?, a propósito seja do que for.

Em regra dizemos que são curiosas, mas não é essa a motivação que as impele continuamente a querer conhecer e saber de tudo o que as envolve. A questão é muito mais complexa e, sem sombra de dúvidas, é a necessidade de segurança que as força a querer saber. É também por isso que elas exigem colo quando, por exemplo, estamos com elas num local onde o horizonte delas é muito limitado. Quase trepam por nós acima porque querem estar à nossa altura e ter horizonte de visibilidade idêntico e, se puderem deitar a mão, é certo que não desperdiçam o ensejo.

A personalidade é dinâmica e vai-se construindo aos poucos e, se de algum modo, como queria Freud, o aforismo "os adultos que somos depende da criança que fomos", não se verifica em todas as circunstâncias. Se tal fosse verdade, então a dinâmica do homem seria um condicionamento retaliado e a astrologia poderia merecer algum crédito. Ora nem o homem pode ser sujeito a padrões estilizados e padronizados nem a astrologia é merecedora de qualquer ponta de crédito tantas as enormidades das candongas em que faz incorrer os incautos.

Por isso é que, se a mania de fazer perguntas é comum a todas as crianças, depois, já jovens e adultos, nem todos mantêm esse espírito indagador e investigador, limitando-se a fazer parte do anonimato, no "Maria vai com as outras", sem qualquer laivo de espírito aventureiro e criativo.

Convém, ainda, tal como as crianças, ir arriscando, ousar fazer coisas novas, sem sermos estouvados a ponto de querermos dar o passo mais do que permite a perna. É que 'podemos ir por lã e voltar tosquiados.'

Vem tudo isto- pasme-se - a propósito da primeira vez que espetei uma faca num porco para o matar. Saí-me bem na picadela, mas já não tanto na abertura do animal, parte em que tive que puxar por alguma inventividade, para não ficar a ser alvo de alguma choradela de entrudo. Remediei tudo na confecção da meloreja que saíu na perfeição e, antes ainda, na separação das tripas, arte em que imparo com as mulheres. O espanto foi tal que a ti Gulhermina se sai com esta: «o rai do cachopo é mesmo codecido».

Fiquei assim para o aparvalhado já que nunca tal significante ouvira e portanto também não lhe conhecia o significado. Não fora o contexto e ficava, como tinha acontecido quando abri o porco. Tinha que me desenrascar. Se me meti nelas é para ir até ao limite do razoável.

Passado tanto tempo - já lá irão alguns 20 anos ou mais - lembrei-me hoje do codecido. Não consta nos dicionários e portanto - lá está a veia da descoberta a espicaçar o engenho - pus-me a tentar descortinar qual o conceito erudito, parelho deste popular...

Alguns dos que me lêem ainda se lembram dum famoso comentador de futebol que dava pelo nome de Alves dos Santos. Quando um avançado sabia estar no lugar certo à espera do endosso da bola e aproveitava a oportunidade para rematar à baliza e, quiçá, marcar golo, invariavelmente Alves dos Santos enobrecia a codícia desse jogador. Tanto quanto me é dado saber o mais usado nem é o substantivo - CODÍCIA - mas o adjectivo -CODICIOSO - e, mais grave ainda, este adjectivo aplica-se na linguagem tauromáquica e refere-se ao touro que busca tenazmente atingir o cavaleiro ou o matador durante a lide.

A semântica deve ter feito o resto e o significado foi-se adulterando a ponto de chegar a este de fura pastos curioso e atrevido que não vira a cara a nada nem desiste, tal como o touro - que por acaso também é o meu signo - para brincarmos à astrologia.

Se algum de vós fizer melhor leitura do termo, deixe notícia.

As matanças constituem, também elas, um ritual de convivência, com características muito sui generis a ponto de haver a parte que compete aos homens e a que compete às mulheres. Um dia contaremos estas secções.

No tempo morto que medeia entre a parte final da abertura do porco e a confecção da indispensável meloreja há sempre histórias que se contam: umas conhecidas, outras nem tanto. Nem tudo é igual para todos.

Foi assim que na matança do Tonho Labouxa o Guilherme Chornico se sai com esta, para alguns mais que batida:

Dois amigos comprometeram-se a beber sempre dois copos, sendo um sempre à saúde do outro e o taberneiros já sabiam que serviam sempre dois copos. Mas um dia um deles diz ao taberneiro:"bota só um" e o taberneiro: os meus sentimentos! e ele: de quê? Então seu amigo não morreu? - Não! Eu é que já não bebo.

Também é uma resposta codecida. Saíu-se bem.

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terça-feira, janeiro 15, 2008

A NOSSA FALA CIII - MO(T)CHA

A época das matanças anda aí... Cada fim de semana, o número de cerdos que jura bandeira até meados de Fevereiro é incomensurável. Nunca tem paralelo com o ano anterior, como os paradigmas das revoluções científicas de Kuhn.
A perfectibilidade de um sistema não é, hoje por hoje, a caducidade do anterior. É antes o seu melhoramento. Já a política faz o mesmo: nunca um político diz, numa sessão de vários oradores, que o seu antecessor se esqueceu de dizer o que quer que fosse.... Simplesmente diz: "eu quero acrescentar ao que o meu colega disse antes,...." E assim se vai.
Voltando às matanças: Se o homem se preocupa em arranjar os amigos chegados para a festa da matança, a mulher, essa, preocupa-se com o colorau, com o algodão para atar a tripa, com esta mesma tripa, em escaldá-la, deixá-la de molho com muita laranja, em cortá-la a modos de ficar uma forma graciosa dependurada no varal do fumeiro, com os cominhos, e a salsa , e o alho sem grelo, e o sal grosso, e as batatas sem pó nem borboleta e os feijões para a sopa e as couves esfarrapadas para a dita, e os alguidares, e o areamento do vasilhão , mais ainda as enchedeiras e os funis e os chás e a cozedura do pão e o arroz para o osso da sevã, as trempes para o tacho da meloreja, que sei eu.... O porco é que não sabe nada disto... tem tempo amanhã de manhã...
«Ó Chquim, olha que as facas estão motchas... vê se as aguças comedado que amanhã fazem-me falta pra miguer a carne; tu num queres que eu peça a máquina da carne ao Bogalha, portanto trata de teres as facas em condições....» e o Chquim:« tu é que estás motcha; já ontem à noite agucei tudo: facas e tesoiras, ou pensas que num sei o que faz falta...? »atão tamém te digo que podes alimpar o cu ao aguço! esta que eu aqui agora tenho mal corta a manteiga ao lume...» »Ó fardo! onde é que está essa faca?!» Olha aqui.... tanto corta de frente como de costas...» «Catanos m’a chapem se eu não te trago essa bácora a cortar um guardanapo de papel...deixa cá ver...»
Estas erudições linguísticas prendem-se com aforismos populares que não deixam de ser o que sempre foram apesar da pseudo cultura que agora nos querem impingir...: «mata o porco e conhecerás o teu corpo.»
O que mais dá que pensar é que do que se come menos no dia da matança é o próprio porco. Esse dá a meloreja e o fígado com soventre numa fritada conjunta que há quem não dispense. Pelo meu lado deixo de parte tal pitéu que a meloreja e a sopinha da matança bem me sabe!
Em regra há sempre um galo que vai a ver o avô dele, ou um coelho bem anafado engordado que foi com umas quantas passas de figo e umas bolotas "por mor de alimpar das farinhas ca gente num sabe o que agora lá metem".
Duma vez ia eu e mais o Guilherme Chornico e o seu cão sempre com um pau na boca para não morder, velhaco como era - quase igual ao dono - , o meu pai e o velho Comandante , por essas sete da matina , num Dezembro molhado como um corno, tal as chuvadas que tinham caído, a caminho das Taliscas para a matança da minha ti Ana. Por altiras do Chquim Valente, ali ao alto da estrada de quem vai para a vila, tapada que agora é do Chinchas, ia eu e mais aqueles companheiros quando começamos a ouvir bradar: "Ai jasus! Ai Jasus! Rais parta a minha sorte, Ai Jasus!" Digo eu: «é a ti Ana» e meto fogo aos calcanhares a ver o que se passava... E era mesmo. Vinha preada com o lenço na cabeça, aos gritos e eu a querer que ela dissesse o que se passava e ela nada. Só gritava. Lá chegaram os outros e então: " Eh cachopos, já no há matança...desculpar-me mas já no há matança!" Logo o comandante:" rouberam-te o porco?" « Não; foi uma peste que o matou... parece um tição de carvão, mai negro có mal!...» " Mau, diz o Guilherme, uma peste matou-te o porco? atão é trabalho adiantado " Tu num gozes ca desgraça guilherme dum rai que ta parta...uma faísca caíu mesmo na cabeça do porco e deixou-o num carvão."
A verdade é que ninguém voltou para trás e fomos ver... Era mesmo verdade: durante a noite tinha trovejado e um raio deve ter caído na nuca do porco e fulminou-o. Na verdade era mesmo um monte inteiro de carvão. Nunca tal algum dos presentes tinha visto nem tinha notícia que tivesse acontecido em qualquer parte. O remédio foi fazer uma poça e enterrar o animal queimado.
Diz então a ti Ana:" Olher! o que vos posso servir é uma travessa de carne da cabra motcha que o mê Chquim matou ontem". O Ti Chquim ainda não sabia do desastre e chegou entretanto na sua bicicleta e ficou taranta de todo quando lhe dissemos o que se passara. Tinha ido ao povo a buscar o algodão para as ataduras que tinha ficado esquecido na pedra da lareira.
E eu:" O melhor é irmos a ver se damos uma malha na carne da cabra motcha que é para não se estragar e serem dois os prejuízos"...
Meu ti Chquim foi consolando a mulher e prometendo logo ali que ele já ia a ver dum porco e que a matança se havia de fazer na mesma e a salgadeira não havia de ficar sem presunto nem o escoureiro sem chouriços...
Calmo como era:" Vai por uma pichorra que havemos de sangrar a pipa já que não sangramos o porco."
Lá vem a minha tia com a pichorra e uns copos e não tardou uma malga de azeitona retalhada, um queijinho fresco ainda acinchado, e um barranhão de carne da cabra motcha.
As histórias foram-se sucedendo e a carne minguando, o vinho correndo, o dia clareando e a manhã ganhou-se assim.
Não vos deixo ir sem mais uma, tão verdade como a que acima contei: num dos tempos de natal para aí dos anos sessenta a minha mãe dizia para o meu pai:« olha que não tenho lenha para as filhós nem para secar o fumeiro depois da matança. Depois trazes-me lenha verde como um caçulho só faz fumo e chorar os olhos.» Perante tal descrição, num dia cedo depois de uma noite de trovoada parecida com a que antecedeu a não matança da ti Ana, lá vou eu e meu pai, à quinta do ramalhão com ideia de serrarmos um carvalho que estava mesmo chegado a outro que mais pareciam dois irmãos gémeos... Quando entramos na quinta junto à figueira bogalhal começamos a ver cavacos grandes de carvalho molhados mas secos... Então não é que uma peste caíu mesmo num dos carvalhos e o escarchou de alto a baixo espalhando achas por todo lado?!
O trabalho foi só acadajá-los, meter nas angarelas da burra, e ala para casa; enquanto eu vim trazer uma carga, o meu pai foi ajeitando outra carga e mais outra e a minha mãe nem queria acreditar: ficou com lenha seca e com abundância. Já se podiam fritar as filhós e secar o fumeiro sem chorar por causa do fumo.
Um bom ano para todos!
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domingo, janeiro 13, 2008

MATANÇA

Fim de semana de matança. A cerimónia decorreu mais ou menos como descrito em pretérita
ACTA
Almoço farto, com meloreja, osso da suã, caldo com muito entulho, azeitonas retalhadas, queijo fresco e curado, inté pudim.

Ouviram-se as falas do costume na circunstância: banca, carchanolas, chambaril, faceira, morcela da banca, passarinha, seventre, sovina de esteva, xica...

domingo, dezembro 09, 2007

A NOSSA FALA - CII - PIORNO OU PIORNEIRA

A mobília das tradicionais casas de aldeia resumia-se a pouco: três ou quatro tropessos de cortiça, umas trempes, umas cadeias suspensas do tecto, na qual se pendurava, tanto o caldeiro para a vianda do porco, como a indispensável panela de ferro, quando o lume com ala a fazia ferver mais depressa, já que lhe apanhava o fundo do bojo na totalidade e que ,depois de estar a ferver, era posta dum dos lados do lume na pedra do lar para manter a fervura; do outro lado, estava sempre outra panela- esta podia já não ser de ferro - onde havia sempre água quente que tanto dava para botar no caldo se estivesse basto, como no caldeiro da vianda, como no alguidar para lavar o barranhão e o talher usado ; ainda uma mesinha baixa, com uma gavetinha, onde se guardava o conduto para o pão, geralmente pendurado numa bolsa de pano cru dum prego da tabique (taipas) de ripa, forrado a papel de jornal, colado com massa de farinha ou farelo e, claro, o cântaro de barro - o asado - com a sua tampinha e o copo de alumínio, de borco na pia da tampa; algumas casas tinham um fogão a petróleo e muito poucas apresentavam um fogão eléctrico ou a gás de dois bicos sem forno. Raríssimas as que tinham fogão a lenha, em ferro fundido, e ainda menos as que dispunham de fogão alto de quatro bocas e forno. Na parede lateral à pedra do lar, num suporte de madeira com uma "étagère", uma candeia a petróleo- poucas vi já a azeite - com um registo que deixava sempre a torcida rente ao bocal e, claro, o canto da lenha -a PIORNEIRA - e a pieira para deitar a cinza e os dentes de leite dos garotos quando caíam, que, para além de manter ambiente quente, depois do lume apagado, era fertilizante indispensável nas leiras dos alhos e das favas. Era também da cozinha que, não raro, começavam as escadas que davam acesso ao forro onde se conservavam as batatas, as restes das cebolas, os cabos dos alhos, alguma bolsa com feijão grande e pequeno e mais uns alguidares de barro ou esmalte só usados em dia de matança e pouco mais. Era por baixo destas escadas que estava a cantareira com os pratos de alumínio ou esmalte e alguns tachos e panelas, pouco usados, uns e outras, já que o prato era colectivo - o barranhão.
O quarto tinha uma camita, quase sempre estreita para dois, com uma enxerga de palha de colmo ou milho. Lençóis eram pouco usados: antes se usavam uns cobertores finos que, depois eram completados por cobertores de papa e encimados por manta de ourelos ou de trapos ou de fita como também eram chamadas. No inverno, cama que se prezasse, havia de ter para aí uns cinco Kilos de roupa nas frias invernadas em que o vento perpassava a telha vã e encarquilhava as orelhas a descoberto fora das mantas.
A sala, quando existia, limitava-se a uma mesa e seis cadeiras a condizer, um aparador com cristaleira, onde estava a loiça dos dias de festa, chegando-se a passar anos sem ser usada. Nas paredes, uns quadros do Sagrado Coração de Jesus e/ou de Maria, a última ceia e o orago ou outro santo ou santa, trazido de alguma excursão. E assim se vivia. Lá se nascia e morria.
No pós guerra civil de Espanha -1936/39- o contrabando teve um incremento incrível e havia quem vivesse dessa economia paralela. Não era raro que os contrabandistas de aldeia fossem convidados a ir a Espanha à festa do S. Brás, padroeiro de Valverde del Fresno, e que os compradores e vendedores espanhóis, de alpergatas, meias grossas, gorras, pana, isqueiros, colchas e camillas,..., viessem também à aldeia quer pelas matanças, nesta altura do ano, quer no sr. S. Bartlameu , a 24 de Agosto...
Ora aconteceu que um espanhol veio para uma matança no Zé Aranhiço, ali ao cimo da lagariça e chegou no dia anterior, que a matança é cedo e a meloreja é coisa que não se pode perder. Dormiria na loja numa tarimba arranjada ad hoc mas já jantou com a família à roda da lareira a comer do barranhão como se impunha. Calhou a ficar do lado da lenha que era também o lado do cântaro da água - o asado -. Na casa do Aranhiço já havia petromax - luxo raro - mas a noite estava fria e o lume precisava de lenha para atear o toco que estava de cabeceira e servia de encosto aos paus mais pequenos que aqueciam o ambiente com a labareda: "mete lenha, espanhol dum corno", dizia o Aranhiço, "mete lenha, corno negro, tu num vês o lume a apagar-se"?... o espanhol tardou a entender que era a ele, que estava mais perto da lenha, que competia manter o ambiente quente e, as vezes que lhe chamaram de CORNO, passaram sem conto. Para cúmulo, a ti Alice tinha cozido feijão grande para a ceia, por mor de fazer o caldo da matança no outro dia de manhã com umas folhas de couve esfarrapadas, uns bagotes de massa manga de capote da grossa, onde, para adubo, se cozeriam também, a bexiga do porco do ano anterior e mais uns nacos de toucinho do alto. Os feijões estavam a saber a sal e a carne que os acompanhava tinha o mesmo forro de sal, pelo que o espanhol teve sede.
Acresce que os tintos na taberna do Cavalheiro e do Zé Rolo já tinham também feito securas.
Levantou-se então o espanhol para beber e:"oh, filho dum corno, dá-me água tamém a mim", "eu tamém quero" «e eu»... entretanto, os feijões iam descendo no barranhão enquanto o espanhol enchia o copo e servia a família de água... Quando se sentou, apanhou já o fundo alguidar e contentou-se com a cebola picada.
Quando regressou a Espanha, depois, aí sim, de ter comido à tromba estendida na matança, dizia para os de Valverde e de Eljas:« Mira! se fores a Portugal, nunca te pongas del lado del agua ni del piorno, sino te llamaran hijo dum corno».
Nunca o espanhol também tinha comido broa e dessa gostou: «pero se te deren broa, prueva-la que es boa.»
Outro tipo de contrabando este, da comezaina e da cultura típicas portuguesas.
Ficai-vos com um XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII
P.S. - Se por aí houver alguma matança, deixai recado.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS

Naquela noite, tinha caído um códão daqueles comédado. Albertino Chinchas levantou-se cedo para cumprir o compromisso firmado com o seu compadre Mnel Alma de Sino de lhe matar o marrano, como era hábito. De Verão ou de Inverno, Albertino gostava de vir lavar a cara na água do tanque que mantinha quase sempre cheio com água do poço. Bastas vezes, no Inverno, tinha de partir o caramelo com um martelo para chegar à água, mas ele sentia um prazer masoquista quando sentia os tomates a encolherem-se dentro das calças quando mergulhava a cara na água gelada. Acreditava que o acto de coragem era significado de virilidade e que a reacção dos testículos era sintoma disso mesmo.

Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.

O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.

O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.

O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.

Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.

sexta-feira, novembro 18, 2005

A NOSSA COMEDURA -I - A MELOREJA

Iniciamos aqui um entremeado na nossa faladura. O homem nem vive só de pão nem só de palavras. Se o pão for bem acompanhado sabe melhor. Embora o povo na sua filosofia bruta diga quando algo lhe ocorre contra os seus desejos que "mais vale pão seco do que tal conduto", bom, bom,é que o pão e o conduto sejam aprazíveis ao paladar e que a sua degustação não sofra quaisquer contratempos. «Que vos faça bom proveito à barriga e ao peito são as contas que eu lhe deito.»
Nesta altura do ano começam as matanças e nada melhor para ensaiar a nossa comedura do que uma boa meloreja. Assim comédado!
A matança tem regras:
1- Determina-se o dia da matança
2- Convidam-se os amigos/familiares e verifica-se se não há empanques por parte de ninguém.
3-Na noite do dia anterior a vítima fica sem comer, por mor de não ter a tripa cheia ao outro dia.
4-Trata-se de preparar todo o apoio logístico: tripa, laranja, algodão, cominhos, tesouras e facas, loiça adequada, lenha com fartura, alho sal, pimentão do bom, azeite do melhor, tábuas de migar a carne, tabuleiro para as tripas ou até alguma carne, aventais...
5- Cedinho, por essas sete ou antes chegam-se os homens junto ao local da matança
6-O lume já está aceso e um pucheiro com aguardente desmanchada com água e açúcar amarelo já começa a circular para matar o bicho, metem-se as botas na ala, esfregam-se as mãos e
7- Prepara-se uma corda para atar o animal por uma pata
8 - O dono salta para a furda e "nalguda! oh nalguda!!" coça-lhe o samarro e tenta por bons modos enfiar a laçada da corda numa das patas traseiras do bicho
9 - A bem ou a mal o porco/a lá deixa os aposentos e é conduzido até junto da banca
10- Tomba-se o animal, o matador aperta-lhe o focinho com um baraço, sobe-se para banca,lava-se a barbela com água quente, limpa- se com um pano, ata- -se bem à banca quando não até a uma árvore que esteja perto,os homens põem-se a postos um agarrados aos presuntos outro às mãos, o matador faz o sinal da cruz, abre a matadeira e pica o desgraçado, aparece o alguidar com sal e uma mão sempre a mexer o sangue que cai, vão tirando algumas farropas de coalho de sangue,o porco grunhe até dar as últimas.
11- Desapertam-se cordas e baraços, vai mais uma rodada de aguardente desmanchada e doce e
12 - antigamente com colomo de palha, agora com maçarico ,chamusca-se a preceito evitando queimar as mãos de quem raspa. São vários os utensílios usados, desde facas velhas até chapas de lata,ou mesmo as unhas das mãos.Tiram-se as unhas ao quadrúpede e inicia-se a lavagem com água quente.
13 - Quando já branquinho de todo faz-se o cu, e o picho se for macho, ata-se com um baraço,abrem-se os nervos, mete-se o chambaril e ala
14-Pendura-se o animal,limpa-se bem limpinho
15 - Embrulha-se rapidamente uma talhada de queijo fresco e quatro azeitonas retalhadas, uma dentada de pão e limpa-se o esófago com um tinto do novo apanhado do espicho de esteva e
16 - Inicia-se a abertura do ventre, aparam-se as tripas para o tabuleiro e enquanto o matador vai separando as peças e um vai à procura de duas sovinas pra deixar as banhas suspensas, dois ou três homens deitam-se à separação das tripas, ajuizando da sua qualidade.Há sempre algodões prontos para alguma fatalidade
17 - Sobe-se o caldeiro suspenso das cadeias, põem-se as trempes do lume, a meloreja é rapidamente migada e começa a cozer dentro da caçola ou de uma sertã de duas asas; batatas com casca são postas a cozer em panela de ferro.

18 - Aí vai a receita:

deita-se para a sertã aí obra de 2dl de azeite e logo a carne, esmagam-se alhos,tiram-se-lhes os grelos e atiram-se para a sertã, vai- se mexendo com colher de pau até a carne ficar meia frita, duas folhas de loureiro bem lavadinhas,picante a gosto,pimentada caseira se houver, rega-se com água, sempre a pouco e pouco,já que carne deve ficar entre o frito e o cozido, prova-se, rectificam-se temperos, e quando estiver quase pronta, um bom meio litro de vinho tinto para a confecção mexendo sempre, tiram-se as batatas do lume, descascam-se ou pelam-se, chama-se o povo para a mesa, despeja-se a sertã para um barranhão, parte-se pão com fartura põem-se as batatas em travessa e, cada um com seu garfo,pica na carne e molha a batata no molho e toca a comer. Não raro aparece um esparregado de nabo para dar o verde ao prato.O vinho é sempre a encher até o barranhão ficar limpo.
A seguir pode-se alindar esta classe de cozinhado com um prato de sopa de couve traçada e massa da grossa em puré de feijão encarnado, um arrozinho de osso da suã, fígado e soventre, sempre com azeitona retalhada e culmina com um galo ou um coelho bem guizado. Para sobremesa um arroz doce, pudim de ovos, tigeladas, e no fim um café e um bagaço do rijo para arrebater.
Às 11 os homens estão despachados e bem comidos e "ala para o sol".