quarta-feira, agosto 08, 2012

A NOSSA FALADURA - CLXXXII - ACONDUTER

Nada, nem ninguém como as coisas de aldeia e as gentes de aldeia! Não sei se deverei falar em "bons tempos" aqueles em que vivi e, sobretudo, convivi na aldeia. Foi lá que aprendi muito da escola da vida. Poucos me ensinaram tanto como o velho Comandante, aquele avô severo, rude, áspero, bruto, na verdadeira acepção da palavra, que se gabava de nunca ter posto as mãos em cima dos filhos! Pudera! batia-lhes em pêlo com a bomba de borracha do vinho ou com o cinto pelo lado da fivela, quando não com as cordas de sobrecarga ou mesmo vergôntea de gesta ou arrocho de aperto.
Tito Lívio dizia de Aníbal Barca que mal dormia, pouco se alimentava, era de resistência invulgar, sempre o último a deitar-e e o primeiro a levantar-se, capaz das maiores façanhas, simultaneamente conselheiro e admoestador, capaz do elogio ou de uma sentença de morte que ele próptio executava, vigilante ímpar, passando furtivamente pelos sentinelas, verificando se dormiam ou se se mantinham despertos. O que fosse apanhado a dormir nunca mais acordava. O velho Comandante timha muito a ver com este famoso general Cartaginês, o primeiro que foi a atravessar os Alpes, ínvios até então, como conta Salústio repetido por Lhomond, ele, o seu exército e os elefantes. Foi obra: ir de Sagunto (Barcelona) até Cannas e derrotar os Romanos em casa. O velho Comandante era igual: por tal severidade a avó Isabel se findou cedo. Poucos aguentavam aquele ritmo: tanto trabalhava à canha como à direita, quer a cavar, a ceifar, a gadanhar a cortar, a podar,... Era um ambidextro, na verdadeira acepção. Sempre o primeiro a chegar ao trabalho e, se se tratava de trabalho onde pudesse adiantar, como na apanha da azeitona, por exemplo, era certo e sabido que quando os assalariados chegavam já tinham tudo montado: fato estendido, escada encostada, lume aceso e ele já no cimo da muda a gritar: CHOVA!CHOVA!. Era capaz de trabalhar de sol a sol, ir de noite a Espanha, no tempo da guerra civil, entregar vacas e estar na linha da frente para pegar ao trabalho logo cedo. Um fenómeno!
Cito, um tanto de cor, o retrato de Lívio que, sendo romano, nunca será muito probo relativamente a um cartaginês :" princeps proelium ibat, ultimus, conserto proelio, excedebat. Inhumana cruidelitas, perfidia plus quam punica, nihil veri, nihil sancti, nullum deum metus, nulla religio...".
Parcimonioso, mais que medieval, bastava-lhe um figo seco para aconduter uma refeição...
Fazendo aqui uma espécie de anacoluto convém esclarecer que não é raro, no lingujar popular a troca de sons, especialmente, no caso vertente, a troca do som E pelo A: em vez de assobiar dizem assobier, por mijar pronunciam mijer, por molhar preferem molher (as vogais finais devem ser abertas)... e por aí fora.
O nosso linguajar de hoje é alvo desta permuta de fonemas: em vez de a condutar, sai aconduter. ( leia-se ACONDUTÉR).
Que me lembre, apenas duas matanças aquele homem fez para casa. Não se pense que os porcos eram valentes; ao contrário... tal como o dono, eram magros, de cabelo ericedo (=eriçado), e de pequeno porte. Se nas outras matanças a refeição era uma festa, ali apenas se comia a meloreja, um prato de sopa de couve, mal aconduteda, fígado e soventre, bebia-se vinho por copos que mais pareciam dedais, lá aparecia uma cunca de queijo e "ala milhano" que se faz tarde!.
Raramente oferecia um copo a alguém e, se fosse o caso, nunca oferecia nada para aconduter.
 De facto, estranho que apenas conhecesse aquela casa iria com uma apreciação errada do que é uma típica casa de aldeia: junto do pipo se não havia, depressa aparecia um pão e o respectivo conduto, para acompanhar o copo: azeitonas, queijo, presunto, uns fritos de beringela, se fosse o tempo, ou, que mais não fosse, uma tora de toucinho salgado para fazer boca. Eram assim as casas de aldeia: sempre que se bebia tinha que se comer. Nunca se comia pão seco, sempre aparecia algo para aconduter. É esta a escola que eu pratico: alguém que me visite tem sempre pão e algo para aconduter. No velho Comandante não era assim.
Eu, enquanto neto, beneficiava de uma excepção: lá vinha o figo deco ou, raramente, um naco de pão com um queijo seco embrulhado em folha de botelha e guardado no arcaz da semente, "por mor de ficar macio".
 Agora que já vos matei a bicheza e vos trouxe um naco de prosa para aconduter, prometo voltar mais cedo para não vos desavezar...
XI GRANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEE


1 comentário:

jogilbo disse...

Tinha que s,apeguilher bem, o conduto não abundava e só o pão, às vezes já bem duro, é que havia mais!

A malta agora, apesar da crise, já não está avezada às dficulidades!