segunda-feira, julho 11, 2011

A NOSSA FALADURA - CLXVII - (E)INCOURO

No final dos anos 60 os "campos de férias" de Verão em espaço rural permitiam a aprendizagem e desenvolvimento de um conjunto de competências de indiscutível utilidade para o futuro de crianças e adolescentes. Sobretudo porque não existia didáctica imposta pela figura do tutor / orientador / animador.

Uma das mais perseguidas era a arte de manter todo o corpo a boiar. Já não me lembro muito bem mas acho que aprendi a nadar numa charca da ribeira das Taliscas que naquele tempo se aguentava com água quase até ao S. Bartlameu, em harmoniosa partilha com umas cobritas d’água, rãs e até um casal de cágados. Ou terá sido no enorme tanque do Dr Amândio, alimentado por uma mina de água fria mas limpinha, ladeado por um freixo e uma figueira cujas pernadas se utilizavam cuidadosamente como prancha de saltos? Se calhar foi no poço do bezerrinho, 5 metros de fundo, poucos eram capazes de lá ir buscar uma mão cheia de lodo para exibir triunfalmente aos outros! Ou então terá sido na “barragem” da brigadeira? ou na de medelim? Que importa? A esta distância, só consigo concluir que eram locais perigosos, absolutamente desaconselhados.

O método de aprendizagem era cientificamente básico, resumido à repetição exaustiva, por tentativa e erro, por imitação, raramente por orientação, a verdade é que lá conquistei o truque de contrariar a gravidade dentro de água.

Mas estes "campos de férias" numa aldeia do rural profundo eram igualmente importantes para a aquisição de muitas outras competências, utilíssimas para o quotidiano de uma época em que a informação tinha de ser buscada na realidade e não no google. Vejamos por exemplo algumas das que podiam ser apreendidas por mor da irrestível atracção que os garotos tinham pela água.

- Competências para lidar com a autoridade materna: nenhuma mãe sabia por onde andavam aqueles garotos durante toda a tarde, se calhar por isso é que quase todos eram recebidos com uma pequena sova de chinelo (correctivo que se revelava manifestamente insuficiente para impedir a repetição do ritual vezes sem conta ao longo do Verão);
- Competências para a maximização da eficiência na utilização de recursos escassos: nas viagens eram utilizadas pasteleiras que chegavam a aguentar 4 garotos, sentados no volante, no quadro, no assento e no suporte atrás;
- Competências para a inovação: em corajosa antecipação às praias de nudistas, a moda ditava nadar incouro (era raro o que usava calções de banho,logo estigmatizado como betinho, banidas as toalhas, chinelos, protector solar, barrinhas de cereais para o lanche, pacotinhos de sumo);
- Competências para a improvisação na adversidade - havia sempre a marouva da época numa figueira, pereira ou “maçãzeira” para assaltar na viagem de regresso a casa;
- Competências para a criatividade e adaptabilidade: a sede podia facilmente ser saciada em qualquer poço que apresentasse água clara (não confundir com transparente) a atirar para o esbranquiçado, água de sabão mesmo, e que passasse no teste do cuspo: bebível se a saliva se dispersava, não potável em caso contrário.

À excepção da charca das Taliscas pode ainda listar-se uma outra competência absolutamente decisiva neste contexto:
- Competência para responder com rapidez e eficiência a situações inesperadas: era preciso botar a fugir quando o dono aparecia a vociferar imprecações e impropérios contra a canalha, invasora da sua propriedade privada. Vista de cima, a debandada aparentemente caótica de meia dúzia de garotos a correr encouros no meio do restolho, era cena para marcar o filme tuga que se fizesse sobre o “Verão de 69”. É que às vezes não havia tempo de agarrar todas as peças…

Foi o que aconteceu ao ZéChquim espanta mulas. No caminho para o Ferrador, foi assaltado por uma repentina cólica que não lhe deu o tempo necessário para se baixar e aviar a vida comédado junto do eucalipto jovem que escolhera para dele usar as cheirosas folhas. Chegado ao poço, apressou-se a fazer chegar o balde de esmalte na ponta da picota / burra / cegonha e a passar por água as suas cuecas novas que a mãe tinha comprado no último mercado como prenda por ter passado para a 4ª classe, estendendo-as de seguida cuidadosamente ao sol numa das bordas da pia de pedra. Quando o ti Bezerrinho se aproximou sorrateiro e brandiu o seu cajado, furioso, o espanta mulas apenas conseguiu agarrar os ténis rotos e a camisa.

Já à sombra da grande figueira pchichota na horta do Ti Guilherme chornico, o espanta mulas reparou que as cuecas do João parretcho eram iguais às que ele tinha deixado na pia a secar: branquinhas e com abertura à frente. Com a autoridade que lhe inspirava o dobro do tamanho, decretou:
- Ó parretcho, dá cá as tuas cuecas.
- Isso é qu’era doce! – atreveu-se o outro.
- Se não m’as dás levas já aqui uma malha.
Apercebendo-se da determinação do espanta mulas, o pequeno João tentou escapar mas rapidamente foi agarrado, e a sua resistência foi inútil perante a força bruta do matulão que o desnudou por completo para lhe arrancar as cobiçadas cuecas. Cego de raiva pela humilhação, o parretcho agarrava em tudo a que deitava mão para atirar ao espanta mulas que se pôs a cabanir e nem pensou no que estava a fazer quando, à falta de mais pedras e torrões, arrancou 2 figos de palma da figueira do inferno que havia junto ao barroco do chornico e os lançou na direcção do gatuno. Os outros garotos assistiam divertidos na plateia da sombra pchichota. Foram eles que valeram aos protagonistas principais, ajudando-os pacientemente a arrancar os dolorosos carapetos, da palma da mão do parretcho, da nalga esquerda do espanta mulas.


Seria interessante reunir Watson e Skinner com Vigotsky, Piaget e Bandura e ouvir as suas palestras neste campo de observação, relativamente aos processos de aprendizagem daquelas variadíssimas competências técnicas e emocionais.

15 comentários:

pratitamem disse...

No que diz respeito ao processo de aprendizagem, julgo aqui demonstrar, salvo melhor opinião, um conjunto de competências técnicas e sobretudo emocionais, onde me parece que tanto Watson, Skinner, Vigotsky e mesmo piaget ou pandura, tenho cá que?.. num sei! Tava a ver que o Amigo Karraio, nunca mai punha faladura! Mai nada...

pratitamem disse...

Uma cosa comedádo é uma cosa comedádo e ler a ouvir, luar na lubre pousa, ainda melhora este teu "post" escrito comedádo!

jogilbo disse...

Olhe quvocemecê sabe mesmo scraver como deve ser!

Não imagina como foi bom, ao lê-lo, rever-me nos meus tempos de garoto, passados na Benquerença, na já remota década de cinquenta do século passado.

João L Oliveira disse...

Que fizeste tu ao blog !? Aumenta o tamanho da letra que já sou cota ! Não alteres as configurações que já uma vez me aconteceu, não foi fácil recuperar o template inicial.

pratitamem disse...

O ser vive naquela caixa, que aquele estranho nos deu quando eramos caganitos, nós somos estes que aqui andamos, eu o João Oliveira o Anselmo e por ai... não é mau, é a nossa caganice, o nosso amor, a nossa vida!

pratitamem disse...

Não é facil, sendo fácil, não eras TU, e tu és tu, Um Amigo que se chama João Oliveira, esse cristão novo, que nos diz que o santo oficio é terrivel, mas o Fernão Mendes Pinto, era tudo menos mentiroso, no entanto viveu as passas do Algarve e tu és apenas isso um Algarvio, feito cristão novo em Odivelas um ser que vive naquela caixa que o estranho nos deu, aquela caixa dos mistérios e da vida e do mundo que somos nós, eu e tu e todos os cristõs novos.
Esta vida feita de sabores tantas vezes até à amagura, disso da vida, quem disse por mim, por ti, quero ser vivo, Então agora tem que nos comer os ossos, e essa é a verdade em que acredito, tarde ou cedo, bem ou mal, tem que me mamar, sem isso não vivo, ou me chupam ou vivo até ao tutano, mas não me comem por parvo que eu não deixo! Tirem lá metade do subcidio? de natal, mas o Natal não me tiram, porque o Natal sou eu e tu!

Chanesco disse...

os nossos jovens , ditos à rasca, e alguns dos que parece ainda usarem cueiros e já nos governam, é que deveriam ter bebido desta pedagogia.
Provavelmente já não viveriam em casa dos pais eternamente incourinhos como os passarinhos, à espera que os canutchos engrossem.

karraio disse...

João, eu seja ceguinho se toquei nas configurações. Nem com um dedo. Eu sou um indivíduo sério, pá!
Agora a sério, não sei o que se passou, vou ter de arranjar maneira de adquirir competências nesta matéria. Se aprendi a nadar, acho que consigo aprender a mexer nas configurações...

Idanhense sonhadora disse...

Pous éi ,Karraio ,a mim tamem maconteceu o mesmo c´ó Joeum no que conta à sua págena , mas contando do fim ....Fequei a meio da sua faladura sem saberi o que tinhacontecido ...E eu que pareci q'atéi sou a uneca mulheri por aqui !!!, fequei a roer-mi de curisedéde intéi hoje que lá agarrei tudo o couvera scrito .Tamém fui obrigueda a por as lunetas p'ra leri o que houvera scravido.Digo -lhe mai : concordo co vezinho Chanesco em relaçã a esta garoteda que nos governa .Houveram eles de ter tido a nossa escola de vida quando eram pecarrethos e outro galo lhes cantaria ...Mas tamem digo : ámetade do subsídeo podem eles levari ,mas o Natal das nossas terras e todas as alembranças que temos nos nossos corações não nos conseguem roubéri .
Muntas vegitas
Xquina

oxendro disse...

Vai ao Designer de modelos do Blogger e repoe as larguras predefinidas do modelo do teu blog


Tenho a certeza que é essa a soluçao !!!!!!

Vai ao bastidor do blog!!!! onde estao aquelas gavetas!!!!! se

oxendro disse...

Olha o Baságueda com farda de Verão e sem gravata !!!

oxendro disse...

Vai ao Designer de modelos do Blogger e repõe as larguras predefinidas do modelo do teu blog....se não consegues repor , vai alterando a medida ate ate ficar tudo na 1ª pagina


Consultei aqui um técnico e temos a certeza que é essa a solução pois isso acontece muita vez nos blogs !!!!!!

António Serrano disse...

Encouro/incouro! Há um monte de tempo que não lia/ouvia esta palavra. Grande arrelia para a minha Mãe ver dois incouros já grandotes, ali mesmo ao lado da Tapada do Cabeço, a secar ao Sol ou a correr pela sombra das oliveiras, depois do banho numa das charcas da Ribeira ou num dos poços lá perto. Mas isto pouco interessa. O texto é mais uma maravilha de recordações e aqui fica o meu apreço com um bem haja. E já estou guloso pelo próximo. Que não tarde tanto como este. Nas férias é que se trabalha. Que o digam (raros cá estão) os nossos camponeses desses tempos difíceis.

Anónimo disse...

Não, há pelo menos mais uma mulher a seguir os vossos escritos.
Por favor continuem. Adoro

pratitamem disse...

Meu deus, o que foi que aconteceu! vaMOS salvar o nosso blog! João Ajuda! jOºAO ajuda por favor,é o luis que pede.