quarta-feira, dezembro 31, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXX - (ES)CARAMOUÇO

Os Menas eram mais que muitos. A mãe de todos eles - e eram oito vivos quando eu comecei a ser gente- era vizinha de minha bisavó paterna, Isabel de seu nome, a quem eu ainda fiz a vida negra. Nunca lhe vi uns sapatos. Os pés, se caminhassem na areia, não precisariam de plataforma larga, pois, a bem dizer, tinham tanto de comprido como de largo. Vi-a várias vezes calcar lacraus e pisar silvas e outras plantas com carapetos. Por vezes levava-me com ela à lenha para o lume e já garotelho trazia quase tanta lenha como ela. Insisti com meu pai para lhe oferecermos um fogão a gás que substituísse a velhinha panela de ferro que lhe servia para tudo confeccionar. Invariavelmente tinha miga de batata que nunca mais comi igual. Fedelho como era, lembro-me de me sentar num tropesso de cortiça, perto do lume, junto a uma mesa esconça, coberta por uma toalha de estopa, bordada à mão, e mais encardida que tapete de seira à entrada de lagar de varas. É aqui que volvemos aos Menas. A mãe, Maria - pois que outro nome poderia ter? - morava contígua  à minha bisavó, cofiava o linho sentada num banco de pedra, ali na curva da lagariça, com tal arte e rapidez que me deixava encandeado a olhar para a sua destreza, na sábia habilidade da articulação da roca e do fuso. Era a companheira predilecta de minha bisavó. O pai, Mnel, junto com Chico e João eram os lagareiros do lagar da lameira. Que saudades tenho desse lagar!Diga-se, de passagem, que já aqui no basa fizemos força para que este espaço, que ainda se mantém de pé e em estado razoável de conservação, fosse adquirido pela autarquia e sobrevivesse como escola viva da arte de bem laborar a azeitona . É, de facto, uma lástima que uma relíquia destas se deteriore sem recuperação condigna.
O lagar é fácil de descrever: duas salas. Numa estava o pio onde se moía a azeitona (600kg de cada vez - uma moedura -) a poder de tracção de uma junta de vacas do Alberto Vaz, que, jungidas, puxavam três enormes pedras de granito excêntricas entre si para  apanhar todo o lastro do pio. Em média cada moagem durava duas horas ininterruptas até a massa estar em condições de ir para as seiras. Eram estas em número de quatro o que, como facilmente se entende, implicava que cada uma levasse 150kg de massa. Para tal, tinham que ficar todas de alto (es)caramouço. Muitas vezes, quando a massa era mais esbarroteirada  era necessário um prodígio de equilíbrio, conseguido através de quatro estacas que se interpunham entre as seiras de forma a que o prumo não sofresse alteração significativa, já que, quando do aperto pelo peso das varas, podia esbarrondar para um dos lados e lá se ia tudo perdido. É que além das varas - enormes troncos de sobreiro - a prensa era acrescida pelo peso de pedras monumentais que se suspendiam da ponta dessas varas através de um fuso com uma chave - tudo em madeira - que era uma verdadeira obra de arte.O levantamento dessas pedras era feito pela força de dois homens que, simetricamente tocavam um barrote que, encastrado no eixo do fuso, o içava ou descia, conforme se quisesse maior ou menos pressão. Toquei-o muita vez. A massa era transportada do pio para as seiras mediante o uso de grandes gamelas que muitas vezes ajudei a transportar e que iam sempre de caramouço.
A outra sala era propriamente o sacrário do lagar: um espaço térreo que comunicava à direita com a sala do pio e à esquerda tinha a meio a caldeira, permanentemente quente por uma fogueira sempre acesa. Ligeiramente desnivelado, estava o patamar das seiras donde o oiro de oliva escorria para a tarefa  - talha de barro embutida na rocha - com torneira  de escape para aliviar o azinagre que ia directamente para o inferno - poço onde era retida a água ruça -   antes de ser descarregado para a ribeira que corria contígua. O azeite corria para outra tarefa paralela já decantado, donde depois seria medido para o respectivo dono. As seiras eram sempre espremidas duas vezes: após uma primeira espremedela, a massa era depois toda desfeita, tal como se faz com os queijos à ovelheira, e de novo enseirada, depois de escaldada pela água fervente, tirada da caldeira com uma gamela de cabo comprido. O bagaço resultante era depois amontoado num canto, donde finalmente seria posteriormente carregado para fábricas mais refinadas.
Os Menas dormiam pouco, tal como Alberto, já que, para conseguirem fazer três moeduras por dia, tinham que começar por volta das 5 da manhã e esgalhar até às 23. Ainda os acordei algumas vezes já que meu pai era um dos três a quem incumbia a tarefa de encher a caldeira. Nas férias de Natal, invariavelmente calhava-me a mim esse trabalho. Havia um pocinho à entrada do lagar, do lado esquerdo, donde eu tirava a água com um caldeiro preso a uma corda . Estava completamente às escuras pelo que tinha primeiro que tentear a altura da água para depois atirar o caldeiro de borco e encher outro maior que era transportado pela ti Rosa Mota ou pela ti Maria Augusta, que entre si se revezavam, ora na acarreja ora no despejo para a caldeira. Eu ficava sempre no pocinho. Apesar do frio das cinco da manhã num instante ficava a suar. O enchimento da caldeira demorava cerca de três quartos de hora, pelo que, como era noite de todo eu ficava ao lume da caldeira, sentado num banquinho de três patas e, não raro, dormia um sono assado para completar o sono interrompido àquela hora da manhã.
Assisti também a muitas medições do azeite pelo ti Mnel Menas, o mestre: a primeira deca (medida de dois litros) ia para a casa, a segunda de um litro ia para a lenha e outra ia para a água. Era desta que eu partilhava num terço. Significava isto que, por dia, ganhava um litro de azeite resultante do terço de cada uma das três moeduras. Nada mau. Depois o ti Mnel media dez decas para o dono.A décima primeira voltava a ser para a casa, a que se seguiam mais dez para o dono e assim sucessivamente. Não raro, comia o pequeno almoço com os Menas : uma plangana de couve cozida, ora com bacalhau, ora toucinho assado, atum, alguma febra ou chouriça, morcela ou o que os donos iam ofertando ou eu mesmo levava, sempre bem temperada com azeite do novo. Bebíamos um tinto do novo por um copo de lata que mais parecia um caldeiro e voltava a dormir até ser dia. Outros tempos!
Vem aí 2015: que aquilo que desejardes vos seja servido de escaramouço.
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIGGGGRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDDEEEEE!

2 comentários:

pratitamem disse...

Lindo de ler e sentir!

Joaquim Dionísio disse...

Pois então "outros tempos" em que agora as recordações vêm ao de cima como o azeite na água quente do lagar.....Faltou falar da distribuição do azeite em "odres" de pele às costas do Zé do café e outros de porta a porta.Também me veio à memória as fantásticas fatias de pão torradas na fornalha e mergulhadas no azeite ainda quente. Uma DELICIA.Como curiosidade refiro que as seiras e capachos usados no lagar eram fabricados nas Mouriscas naquela que foi a precursora da actual unidade com o fio de cairo/sisal e mais tarde com fio de nylon ou ambos. http://www.infoempresas.com.pt/Empresa_SIFAMECA-INDUSTRIAL-FABRICACAO-MECANICA-SEIRAS-CAPACHOS.html