segunda-feira, setembro 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CLVIII - GALFARRO

É típico das diferentes gerações, cada uma de per se, considerar que a que vem atrás de si " nunca sabe o que custa a vida".


Ouvimos a geração derradeira clamar que a malta nova precisava de fazer uma dia de ceifa, um dia de malha ou de acarreja, ou mesmo de plantio de batatas, quando não, preparar em condições, uma terra de horta. « Aí é que eles aprendiam..!»

E continuam: vale mais uma quarta classe antiga do que o "quíntimo " ano agora. Esta canalha é só galfarrada, não sabem nada, brincam com aparelhagens, sabem de cor ir para aqui e para ali a viajar mas se lhe perguntamos a diferença entre o sobreiro e a azinheira, especam-se: " isso interessa a alguém?" e insistem: nem sabem as linhas de combóio, nem os sistemas das serras, nem as províncias de Portugal, nem os rios e seus afluentes de cada uma das margens, não sabem nada... Quando indagados acerca da utilidade desses conhecimentos.... , alguns nunca tinham visto o combóio, outros, de água corrente só tinham visto a ribeira xêndrica e suas enxurradas e de serras sabiam qual a Estrela por mor da neve, que é bem visível das terras xendras e é a culpada de um sem número de geadas e de alguns invernos prolongados.

Duma vez me lembro eu de uma batalha entre os galfarros da estrada, entre os quais estava eu, filho do chico mainovo, tonho cavalheiro, celestino grande, mnechquim rela, zé verniz, chquim pitincouro e os galfarrões do cavacal: zé solipa, filho da maripcanina, carpinteiro exímio que é hoje, a ombrear com riconho, zé espantado, tonho peidorreiro, tonho raposo, tonho bate sacas, tonho macho, domingos faquinha,... foi uma luta sem tréguas, cada grupo de cada lado da ribeira a aventar água misturada com gelo e a regarmo-nos uns aos outros, isto, deve dizer-se, em pleno entrudo, Março findo, Abril a assomar...

Razão têm os menos novos de hoje quando dizem que já nada é como era. Nem a ciclicidade do tempo... Se hoje fosse vivo, nunca Homero teria descrito o mito do eterno retorno, esculpido no escudo de Aquiles com a regularidade que se verificava naquele tempo. Se há cantos que valha a pena reler é este do canto XI da Ilíada do excelso vate grego, cego. Também já não se escreve assim... Outros tempos...

Galfarros sem escrúpulos foram todos os cachiços: zé, tonho, chquim, lurdes, todos adeptos da velha prática ,descrita por Camilo em A Brasileira de Prazins: "aquilo era olho que vê e mão que pilha"...

O mais vergonhoso e desumano que acontecia a esta rapaziada - galfarros- era que tinham que correr as ruas de aldeia, algemados, com o 'senhor' regedor à frente e o 'senhor' presidente da junta, á altura, Domingos Sarapião e Domigos de Campos, respectivamente, que assim queriam chamar a atenção que "os gatunos caem sempre nas malhas da justiça". Galfarro do mesmo jaez dos cachiços era o Salazar, nome que assentava na perfeição ao João, mas caía mal ao Chico, bombeiro honesto, ambos filhos de velha Natcha, cunhada de velha Lorpa, vedeta da crónica passada com seu filho Tonho Félix, que um dia, ludibriada pelos grandes estrategas da aldrabice, e que deram curso a muitos galfarros - Mné Freitas e Zé Luís Barata -se aperaltou para ir à Rádio Renascença a falar com o Sr António Sala e a mais com o seu inseparável adufe, arma musical em que rivalizava com Marijulha do Toco, insuperável, com Amália do Alfácea. Outras músicas, outros tempos, outros valores...

Os grandes educadores destes tempos, que ora vos trago, eram os pais... Bastava um olhar esguiado do paterfamilias para tudo andar alinhado,... a escola completava, muitas vezes à base de bordoada de deixar mazelas, como aconteceu ao Zé Pedro, filho do alfaiate, que ficou com uma 'bola de cotchu' nas nalgas do assentamento frequente e forte de que foi vítima porque não sabia a tabuada do quatro. Tinha lá porras, a escola para a galfarrada daqueles tempos... e tinha que decorar as linhas do combóio!....!!!!! mesmo sem nunca o ter visto, quanto mais experimentado.!..

Se calhar foi por isso que eu, galfarro fino, pedi ao meu pai que me trouxesse a Castelo Branco a ver o combóio... Queria que eu o visse das grades! .. que não, disse eu, quero lá ir dentro... obriguei-o a comprar bilhete de gare - quem ainda se lembra deste conceito ?- e lá percorri uma carruagem inteirinha. Valeu ainda que apareceu o Luís Batatas, Aranhiço, e sub chefe da estação, que ao saber da exigência como prémio da quarta classe, me levou até junto do maquinista e pude ver tudo. Pediam pouco os galfarros daquele tempo...

Vai lá vai... nos tempos que correm.... Outros galfarros!

Xi GGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDEEEEEEEE

4 comentários:

João Luis disse...

bonito texto !!! E que entrem com o pé direito todos os galfarros deste pais que para a semana iniciam trabalhos escolares ...

Zé Morgas disse...

Galfarro.
Penso que a última vez que ouvi uma variante do termo, foi numa celebérrima noite passada em Penamacor no cumprimento de uma secular tradição:
"roubar" o maior numero de vasos, e colocá-los em frente à porta da Igreja Matriz.
Madrugada cedo, passam os avós de um dos meliantes participantes, e a Avó, ao ver alguns dos seus vasos ali colocados, berra com voz trovónica:
- "Galfarragem do diabo, se andáseis com o lombo coçado comedado, não fazieis estas patifarias, bandidos..."

pratitamem disse...

Vivas ao amigo João Luís e já agora a este escrito Changoto!
Pois tem tanto de certo e maravilhoso melancólico, como cinco mais cinco serem dez.

António Serrano disse...

Melhor?! É possível, mas não vai ser fácil!
Só tenho pena de não saber descodificar todos os "nomes" que apareceram em tão magnífica prosa. Dada a proximidade entre as Aldeias, a esta distância, ainda acerto um ou outro...
Verdadeiro gozo na leitura deve ter sentido que os conheceu a TODOS.
Pronto, "não fumei, mas cheirei"!
Delicioso perfume de tempos que já deram.
Galfarragem!!! Ele há cada palavra!
Nota: Recordo a Ti Patrocina do Galfarro a vender garrafinhas de "capilé" nas festas das nossas
Aldeias... Outro Galfarro lhe cantou, certamente.