sexta-feira, julho 27, 2007

A NOSSA FALA XCII - AVEZADO

Os assuntos que nos despertam interesse dependem, como tudo, aliás, das circunstâncias. Excluindo desde logo aqueles que, consta, são próprios das damas – telenovelas, trapos, maridos, filhos -, continuando a excluir os que, consta, são mais habituais nos valetes mas que as circunstâncias não favorecem – o campeonato da bola está parado, a política está calma(!), as férias ainda não foram, restam-lhes (a eles) duas categorias de assuntos interessantes: as virtudes, qualidades, capacidades e atributos físicos das donzelas (repare-se que não caí no facilitismo de resumir tudo no termo “gajas”), e, os temas sérios.

Por via das tais circunstâncias, e porque sou cavalheiro (de género, não só mas também), o tema que me despertou interesse, e de que vos venho falar hoje, é dos sérios. Foi suscitado por uma história que adiante vos contarei e que me levou a revisitar alguns escritos arrumadinhos nas estantes da minha biblioteca, sobre a religiosidade (ora aí está: é ou não é um assunto sério?).

Parece que a religiosidade é incontornável em qualquer sociedade, seja ela simples ou complexa, constituindo a fonte original das normas em que assenta a ordem social, ou seja, retira-se dos estudos do francês Emile Durkheim, sem religião não haveria moral (normas), sem normas não haveria ordem, e isto seria um regabofe maior do que o que é. Se assim é, a sociedade, para conseguir a coesão e a ordem, precisa que os seus membros sejam religiosos e comunguem dos mesmos valores. Se assim é, a desordem é culpa dos não religiosos. Hum! Cheguei aqui sem querer, e não queria chegar.

Outro clássico, o nosso “camarada” proto-comunista Karl Marx, escreve que “a religião é o ópio do povo”, esclarecendo que é uma forma de alienação, porque as crenças religiosas levam à atribuição a entidades místicas, das capacidades e poderes que, na verdade, são dos homens. Esta, e outras ideias tão ou mais subversivas foram-lhe inspiradas pelos compatriotas Feuerbach e Hegel. Mas o Karl vai mais longe e tenta convencer que as crenças religiosas só servem para legitimar a posição de subordinação das classes dominadas, na medida em que pregam a aceitação resignada das condições de existência. As classes dominantes instrumentalizam a religião, a religião instrumentaliza as classes dominantes. Que as classes dominantes padeciam de uma perigosa falta de ética já nós sabiamos, agora a religião... Compreende-se que o Karl tenha avançado com a proposta de as classes dominadas se unirem para acabar com tanto pecado.

Outro prussiano, Max Weber, (re)encontrou outra “utilidade” no fenómeno religioso: factor de mudança da sociedade. Nos seus estudos sobre a influência da religião na vida social e económica, chegou à conclusão que ela não era necessariamente uma força conservadora, algumas - caso do protestantismo -, tiveram mesmo um impacto decisivo no desenvolvimento do capitalismo no Ocidente. Foi à conta da ânsia de serem ricos que alguns crentes fervorosos inventaram o capitalismo, todavia, o interessante é que o verdadeiro objectivo deles não era a posse de bens materiais mas a busca de um sinal do criador de que faziam parte do gupo de escolhidos com lugar reservado na lotação limitada do paraíso. Aqui sim, a religião como caminho para a felicidade dos homens.

Todos os citados concordam no papel dos rituais enquanto alimento espiritual e reforço da coesão comunitária, seja qual for a religião em questão. São conhecidos rituais vários, alguns deles manhosos e até macabros. Há um outro pormenor, curioso por sinal, que eles partilham: não eram crentes, nenhum deles. Mandam as leis universais do equilíbrio que a seguir, eu deveria visitar também o S. Tomás de Aquino, ou o S. Anselmo (Deus é o ser do qual não se pode pensar nada maior), o Ayatolah Khomeiny e, claro, Joseph Ratzinguer. Falhas graves na minha biblioteca.

Ah! Mas falta a história que suscitou o interesse por assunto tão sério. Já estais avezados, não é? Ei-la:

Zé Valquentem, morador em Monsanto, fizera uma promessa à Srª da Póvoa: ir a pé até ao santuário do Vale de Lobo com as mãos postas. O compromisso nascera numa noite de temporal, quando um raio lhe assou instantâneamente o porco que chafurdava na furda, paredes meias com o cubículo onde ele dormia. Na falta de santuário de Santa Bárbara, transferiu para a colega Srª da Póvoa o agradecimento por ter sobrevivido. A explicação do pormenor das mãos postas desconhece-se, mas deverá ter o mesmo significado de outros rituais manhosos como aquele do percurso de joelhos em Fátima.

Meteu-se Valquentem ao caminho bem cedo, com ideia de almoçar uma patanisca de bacalhau no sopé da serra d’Opa, todavia, passada que estava a Meimoa, já com vistas para o arraial sobreveio-lhe uma irritante cólica que o levou a optar pelo alívio das tripas, em detrimento do cumprimento da promessa. Vociferou impropérios ao caldo de feijão que tinha emborcado às 5 da manhã. No ano seguinte, partiu em jejum, para não dar argumentos a boicotes do corpo. O problema é que o nosso organismo não acompanha o fervor religioso do espírito. A bexiga pôs-se a recolher os líquidos todos do corpo e, ia ele a passar ao largo da terra dos Xendros, na Saramaga, parecia-lhe que ia rebentar. Prazeres Batórelhas ia de regador enfiado no antebraço a regar o alfobre quando se deparou com o Valquentem a maldizer a sua sorte com palavras nada consentâneas com a postura das mãos, a pontos de Prazeres ter de lhe chamar a atenção:
- Atão mas qu’arraio de reza é essa? Foi assim qu’o inxenéram a rezar?
A simplicidade aflitiva com que o Valquentem contou a sua história fez com que Prazeres compreendesse rapidamente o drama e logo ali se prontificou a ajudar o monsantino a não quebrar a promessa. Destemida, abre a portinhola das calças do Valquentem, encontra a abertura das ceroulas e as águas verteram abundantemente. Antes dos agradecimentos, o Valquentem ainda sentiu à vontade para pedir:
- Já agora, dê-lhe lá uma abanadela que também está avezado a ela.
Em jeito de bónus, ainda vos informo que dali nasceu namoro e casório e ambos são velhotes felizes, residentes ali mesmo por detrás da Matriz de Aldeia do Bispo.
Na circunstância, parece que o Max Weber era o que estava mais certo.

Aviso à navegação:
Eis-me rumo ao sul a iodar as nalgas. Torno antes do senhor S. Bartlameu.

sábado, julho 21, 2007

A NOSSA FALA - XCI - (t) CHINCA

Comecemos por uma lenga lenga: à morte ninguém escapa/nem o bispo, nem o Rei nem o Papa.../Mas hei-de escapar eu: compro uma panela/ meto-me dentro dela/ e quando a morte vier/ Digo-lhe assim: aqui não há homem nem mulher/ Aqui não mora ninguém/ Passe Vexa muito bem.
O ser humano é mesmo um artolas. É o ser mais maligno à superfície da Terra.
Na distribuição dos espaços a cada um dos seres vivos ficaram para últimos o peixe, o lobo e o homem. Perguntou o Demiurgo: «Que queres tu, peixe? » "Quero o fundo mar"; « para ti será»... E tu, lobo, de que espaço queres usufruir»? ; "Do alto das montanhas, Senhor!" «Ficam-te desde já concedidos»; e «e tu, macaco pelado, que queres?»; " Eu só quero arte e manha"; «São tuas». E foi assim que a partir daquele momento nem o peixe escapa no fundo mar nem o lobo no alto das montanhas ao detentor da arte e da manha.
Mné Gaguela era cunhado de TonhoZÉi. Rivalizavam entre si a ver qual fazia menos. A velha Menas, mãe de Mné e sogra de Tonho é que se desunhava na acadeja da lenha e, mesmo já velhinha, ainda ia para os quintos para dar de "mamar" a estes dois.
Só queriam era candonga, andar na moinice, viver na gosmia, mas, o que era indubitável, era que lá iam bebendo sempre o seu copinho a ponto de irem borrachinhos de todo, estrada acima, até ao Mnel Ferreiro, altura em que viravam até ao recôndito lar.
Para se ver a sabujice e a lambugueirice destas duas prendas veja-se que Mné, para não ter o trabalho de se casar, pediu a própria mãe em casamento. Nem Freud no se melhor teria imaginado uma destas!
Tonho Zéi, esse, andava sempre "co reumático". De Verão e de Inverno calçava sempre umas alpergatas espanholas, 'que os pés não me cabem nas botas por mor dos ginetes (=joanetes) e de inverno atolo e ando sempre molhado e o reumático no quer húmido, de Verão em qualquer lado espeto um crapeto (carapeto) ou umas unhas de gato (v.g.-abre olhos ou abrolhos), inté mesmo uma palha de restolho me fura a sola da alpargata (alpergata)', e, por via disso, Tonho Zéi, nem ia à azeitona, que, não sendo trabalho pesado, exigia que os pés andassem todo o dia no degrau da escada e a finura da borracha até fazia parecer que andava descalço, e, de Verão, não ia à ceifa porque podia espetar alguma seta nos pés.
Do que ele gostava era da vindima.... aí é que era... Andava sempre a ver de quem o convidasse para esmagar as uvas. As grainhas não o apoquentavam, podia fumar o seu cigarrinho e matava a sede com tinto do outro ano. Mné Gaguela, nem isso.
Tenho pena que as palavras não reproduzam a fala entoada de Mnel. Mas é assim...
Sócrates (o grego, que não este basófias...) nunca esceveu, porque, dizia, as palavras são polissémicas e quem lê pode ir para onde o locutor não queria, ao passo que o diálogo à hora, se bem que efémero, torna a palavra viva e ajustada.
Esclarece e não dá azo a interpretações dúbias ou ambíguas...
Quer um quer outro, eram expertos no costil. A bem dizer, metade das refeições eram chicha de ave agarrada em armadilha. Tinham agúdias todo o ano e conheciam de cor os melhores agachis.
Preguiçosos a levantarem-se, não eram... Manhã cedo lá iam com os costis engudiados na noite anterior à luz da velha candeia e, por volta do meio-dia, aí apareciam com o almoço. Ainda lhes comprei alguns passarinhos. Tempos...
Tonho Zéi era mais velho e sabia mais da folha do que Mné. Os costis que custavam mais a engudiar dava-os sempre ao Mné e o monte que ele fazia era sempre maior do que o do cunhado. Daí a chamar azelha ao Mné ia um passo e, como cada um sabia os costis que punha, o dinheiro de alguma venda era correspondente aos passarinhos agarrados e nestas coisas, quem mais tem, mais agarra. Mné ficava sempre a perder. Não era raro que andasse dever cigarros a Tonho ZÉi:"ó cunhado, eu pago, eu pago, pró Verão eu pago..." Tonho Zéi tinha uma espécie de régua no bolso e com a navalha acentava cada um dos cigarros que o cunhado lhe pedia. «Contas são contas, mainada»; também os costis que eram mais difíceis de armar porque o arame que segurava a tensão da mola estava muito aguçado para ser mais sensível, também esse, tonho Zéi passava ao Gaguela. Ouviam-se cá fora os praguejos de Mné quando se entalava a experimentar o costil, que (t)chincava facilmente.
O. S. Bartolomeu vem aí. Numa noite dessa festa, já lá vão uns anitos, Mné tinha arranjado umas coroas e comprou cigarros com "cu de cortiça" = (cigarros com filtro). Tinha agarrado um alacrário (escorpião) e meteu-o numa caixa de fósforos dos grandes...
Chega-se a mim, lá lhe paguei um copinho servido pelo meu amigo Zé Cadete que até foi a Nova Iorque na SAGRES, no tempo da vida barata, e :« Ó primo, queres ver que eu vou a (t)chapar o meu cunhado Tonho Zéi!?, queres ver, queres?» " Então como? "« espera aqui que já vês..." Chamou o Tonho Zéi, lá tive que pagar mais três copitos, e Gaguela:´«Ó cunhado queres um cu de cortiça, queres?» "ôia! hoje tens cu de cortiça!? dá cá, homem". «Toma, Toma»! Tonho Zéi agarra no maço tira o cigarro CT e Mné Gaguela, solícito, apresenta-lhe a caixa grande dos fósforos...: «Toma tamém lume, toma »; "cum filha da puta até tens palitos dos grandes...festa é festa...; abre a caixa e mete a mão a pensar que ia tirar os fósforos mas saíu-lhe uma ferroada do alacrário... O que a seguir se passou não pode ser transcrito. Imaginai!
Gaguela no entanto sempre ia dizendo: Toma. toma, é por causa de não me dares sempre os costis que se (t)chincam fácil, toma, bem feita; prá outra vez é pior! pensavas que no mas pagavas, pensavas,?; agora toma!
Não há dúvida: a arte a manha não agarram só peixes e lobos... Agarram-nos a todos.
Para a outra vez logo vos dou mais significados de (t)chincar...
XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

terça-feira, julho 17, 2007

A NOSSA FALA - XC -(t) CHANCA

Era costume os mais velhos procurarem passar rasteiras aos mais novos. Sobretudo se fossem estudantes,então, o prazer era redobrado já que o gozo aumentava quando constatavam que «aqueles que andavam na vida da escola se esqueciam da escola da vida». Foi assim que o Zé Guerrilhas, sapateiro afamado, mais amigo de vinho que as próprias uvas, um dia me faz esta questão:« Olha lá, tu que andas lá na estudantaria, vê lá se desatravancas este problema: O que é que para um não chega e pra dois é demais?» a verdade é que não descortinei a solução e Zé Guerrilhas, todo inchado porque ia insiner um estudante sai-se com esta: « estás ali a ver a passagem para o chão do Sardones por detrás da casa queimada?» «Estou, mas o que é que isso tem a ver ...» «Espera que já vês... Quando a ribeira leva água tu só com uma (t)chanca não consegues chegar ao outro lado, mas se puseres uma poldrinha ao meio até nem precisas de dar grande salto porque já te sobra terra onde pores os pés. Vês tu que para uma não chegava mas para duas já era muito?» Lá tive que conceder razão ao velho Guerrilhas que, raro era o Domingo em que não se pegava com alguém, até mesmo com os irmãos Chquim Guerrilhas e Mné Maneta.
As coisas são como são; só o homem é que não é como é. Quer sempre parecer! É por isso que, por exemplo Marques Mendes que é pequeno (sob muitos pontos de vista) quer parecer grande; por isso Sócrates que é grande quer parecer gigante e por isso ninguém o cala nas basófias... foi por isso que Hitler se tornou lider na Alemanha Nazi e pela mesma razão Mussolini o queria imitar na megalomania que não no tamanho!
Chaplin escalpelizou isso de forma indelével em o Grande Ditador...
Mas... quanto mais alto se sobe de mais alto se cai... veja-se Hussein, veja-se Salazar, veja-se Franco, veja-se Ho Chi Min, veja-se Filipe II de Espanha e I de Portugal, Carlos V e o mais que quisermos.
Queremos sempre parecer mais do que somos. Mais grave: queremos ter sempre muito mais... Longe vão os tempos da AUREA MEDIOCRITAS e do ' baste a quem basta o bastante de lhe bastar' do nosso Pessoa...
Por natureza e agora também por cultura e logo por civilização, o homem quer sempre transcender-se. Chega mesmo a devorar-se a si mesmo! Mais não faz do que repetir as leis do neo liberalismo económico que tão desgovernadamente nos governa. Afinal o que quer a COCA COLA? - destruir a Pepsi para ficar senhora do mercado; e que quer a Sony? - tornar os seus próprios produtos obsoletos porque se ela o não fizer, logo vem a Samsumg que o fará. .. E assim andamos.
Agora até criaram e já alguns praticam a Flexi-segurança...! enfim...
Outro pormenor de não menos relevância é o desejo de Transcendência. O Homem furou as núvens: foi-se até à divindade. E aí joga conceptualmente com o absurdo como regra lógica: no caso concreto do catolicismo lá está a Revelação como o fundamento: Deus humaniza-se, a Virgem é mãe sem perder a virgindade, o Pai é um com as outras duas pessoas, o pão é corpo e o vinho é sangue, o imortal morre, o infinito limita-se, a forma materializa-se o espírito reifica-se... A Fé é por excelência a lógica do Absurdo.
Dizem que são mistérios e, portanto, DOGMAS : é a negação do homem: deixa de pensar para acreditar. Temos que volver a Pessoa: A Fé é cega!
Um pensador Dinamarquês: Soren Kierkggaard, falava num hiato ou intervalo que faria a ponte entre o deus humanizado e o homem deificado e a salvação do homem só era possível num estádio último de vivência - o estádio religioso - em que o homem se encontraria sozinho perante Deus, mais ou menos como Abraão no Sinai. A Fé destrói deus.
Abraão porque nunca vacilou na obediência às ordens do deus da sarça ardente, obriga Deus a emendar a mão e a disponibilizar um carneiro para substituir Isaac seu único filho de Sara, já atado na pira para ser imolado pelo fogo...
Isto sim que foi uma grande TCHANCA!
Ao homem já não bastava este mundo: inventou outro e promete-o com argumentos e subterfúgios do mais caricato que imaginar se pode. Outra TCHANCA: salta-se do real para o imaginário; ou para o mítico, se preferirmos. Já não há intervalo como no dinamarquês: Ele está aqui no meio de nós; sem mais. Que grande TCHANCA.
E o mais grave é que não bastava já uma religião... Outras aparececeram do mesmo jaez e com argumentos mais ou menos paralelos lá vão também dando grandes TCHANCAS porque o que para um é pouco para dois é muito. Tinha razão o velho Guerrilhas. Eu é que na altura não o soube ler convenientemente e nem sei se agora o consegui...
É decisivo que saibamos medir as distâncias e, se vemos que não podemos lá chegar, mais vale dar uma volta e ir por terreno seguro... Assim não me escorrega o pé e não fico marcado pelo lodo do lapacheiro para onde escorreguei por me ter faltado o pé...
Pronto! está bem... Chega de sermão. Fico-me por aqui senão já dizeis que também eu sou mais papista do que o Papa. E Então do que este Ratzinger! LIVRA! Fujo à TCHANCADA. Fazei o mesmo!

sábado, julho 07, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIX - BURRANCANA

A agressividade do ser humano, mau grado todas as formas de socialização de que foi sendo alvo ao longo dos tempos, é um fenómeno visível por demais para poder ser escamoteado. Há, desde logo, que reparar que é o único ser que consciente, voluntária e até, pasme-se, com prazer mais que requintado, agride, magoa, fere, tortura, mata,... É bicho esquisito este macaco pelado!
São por demais conhecidos os primeiros códigos que não visavam tanto o estabelecimento da ordem pública como pretendiam demonstrar quem detinha o poder e podia decidir da vida ou da morte: os códigos de Nabucodunosor e Hamurábi, o espartanismo, as ordálias, o Jus romanum, todas as formas hediondas praticadas pela Inquisição, para além dos requintes orientais em matéria de máquinas de fazer sofrer...
Hoje por hoje, se bem que algumas destas práticas ainda vigorem, temos outras formas mais sofisticadas de violentação, seja ela ocasional ou bem esquematizada.
A própria conceptualização alterou-se significativamente: ESTRESSE, BULLYING, BURNOUT, RUSTOUT,... É ver as nossas escolas a serem frequentemente vitimadas por formas diferentes de acosso ou assédio aos mais fracos, levando-os até a suicídio se o ambiente familiar não se apercebe do fenómeno e colabora na sua resolução.
Isto serve apenas para demonstrar que o baságueda não é apenas "Água baixa" ou basa agua. Quando lhe dá na bolha extravasa das margens e alaga tudo o que esteja no leito de cheia. Já Brecht:" todos culpam o rio que sai das margens e ninguém culpa as margens que o apertam"
Lembro-me bem de o meu primo "Escolinhas", o estoura vergas, vir das portelas com a sua bolsa onde se acumulavam a pedra e os ponteiros, o livro único, uma pedra aquecida, quando, no inverno, o frio exigia que as mãos aquecessem, preparando-se para as inevitáveis reguadas, e a merenda, pois claro que não dava para ir e vir durante o intervalo para o almoço. Tinha o Escolinhas uma merendeira de alumínio com duas molas laterais, onde trazia uns sólidos, tipo um naco de chouriça ou de morcela ou farinheira, uma presa de uma ovelha entretanto abatida, e às vezes a marmita vinha simplesmente cheia com caldo, daquele caldo com feijão, couve e massa. Uma maravilha, era o que era. A minha tia Natividade não deixava que o Escolinhas passasse fome...
O que a bolsa trazia sempre era queijo fresco. Não havia dia nenhum que um bom naco de queijo não fosse o complemento da refeição do Escolinhas.
As roupas afinadas que eram os "companheiros da Escola" do Estoura eram mesmo isso: roupinhas afinadas. Invariavelmente, coiote pete, contra-mestre, pitincouro ou até pinga ou portas, sapo ou bolas, filho do chico mai novo, e evidentemente esta vedeta que vos escreve, para além dos outros que agora não adianta enumerar, invariavelmente um ou mais que um, todos os dias, tínhamos que esborrachar o queijo ao Escolinhas. Era fatal. A irmã mais velha, a Lurdes, mulher brava, trabalhadora daquelas assim comédado, só lhe dizia: rais todos ta partirem...És mesmo um Burrancana. Fazem todos mangação de ti! tu não te envergonhas?! és mesmo um burrancana!"
Escolinhas, coitado, iniciava uma desculpa que de nada valia porque o vozeirão da Lurdes ecoava pela loja:« burrancana, que és um burrancana!»
A sala da escola estava organizada em função dos postos militares conseguidos em duelos de competências travados por nós todos através de desafios que tinham lugar nas quartas-feiras da parte da manhã. Assim, por exemplo, eu, que tinha sido sorteado para cabo, desafiava o brigadeiro que era, por hipótese, o Jolim da pata branca. Se eu ganhasse ficava com o posto de brigadeiro e o Jolim ia para cabo. Mas não ia de mãos a abanar: uma dúzia de reguadas dadas por mim e "que fossem bem puxadas" senão era eu quem as papava. Alguns que estavam a meio da hierarquia ficavam quietos mas o professor registava os combates e os postos e se eles não tinham a iniciativa era ele que os obrigava a digladiarem-se entre si.
Escolinhas nunca passou de sargento. Lá estava a Lurdes: «burrancana, que és mesmo um burrancana... tu num vês os outros a passarem-te a peneira? inda hás-de ficar no tinteiro, meu burrancana!»
O desgraçado lá ia a ordenhar as ovelhas com o velho Jerónimo, irmão de Tonho da Aldeia e já noite cerrada, em cima do arcaz do trigo, é que fazia as cópias e os mais trabalhos à luz de uma candeia de torcida curta que o ti Domingos e mais a Ti Natividade já estavam entre os cobertores e luz era coisa que não queriam... Mais a mais era preciso poupar.
Mas não... Escolinhas não ficou no tinteiro e, no exame, em Penamacor só trocou os afluentes do Sado, dizendo que os da margem direita eram os da esquerda. Também que interesse tinha? Se calhar ainda nem hoje o Escolinhas, que vive agora no Canadá, alguma vez viu o Sado e nem o Mira, o Xarrama, o S. Martinho e o Marateca. Era asssim e mainada.
Agora o que eu espero é que vós que me ledes não sejais burrancanas e vos espalmem o queijo dentro da bolsa.
Lá que vos queiram ir às nalgas, isso ... agora que sejais vós a pôr a manteiga!!!!
Toca a abrir os olhos e a ver se ninguém fica no tinteiro nem é burrancana.
Força! que o futuro está sempre à frente e eu já tenho saudades dele.

quarta-feira, junho 20, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVIII - CATRINO

Todos nós vivemos e 'con vivemos' com inúmeras máscaras. Vamos ler a palavra: más + caras. Raramente as máscaras favorecem as pessoas. São sempre ou quase formas horripilantes, enrugadas, feias, adamastoras... Se assim é, cumpriria saber por que razão nós mudamos continuamente de 'más caras'.
Parece absurdo que tenhamos prazer em parecermos pior do que somos. Em vez de matarmos o pai para ficar com a mãe, como explica Freud, acabamos por matar a mãe e preferir o pai. É a inversão total dos valores pessoais. Creio mesmo que os psicólogos da motivação e , consequentemente do auto conceito e da auto estima, ficarão baratinados se analisarem em fundura esta problemática. Afinal eu sou claramente masoquista quando me transformo num outro ainda muito mais feio do que eu e nisso tenho prazer e até o demonstro porque não me coíbo de me apresentar aos outros assim tão horroroso. É caso para dizer CATRINO!
A terça parte daqueles que connosco convivem, ou com quem temos que conviver, vale pouco; o valor estatístico não é meu. Indubitavelmente, todos conhecemos nas nossas circunvizinhanças indivíduos queixinhas. Passam a vida a dizer lamechas, andam sempre doentes e até parece que andam a ler o SYMPOSIUM médico para saberem quais os mais adequados medicamentos para as mais esquisitas doenças. Enfim, são mesmo queixinhas...
Figura marcante desta postura de queixinhas foi a velha Passarinha, vizinha do velho Comandante e do Zé Sarrabeco, alfaiate e da Maritroncha, que antes queria ter um filho do que ir buscar um molho de lenha à serra. A alcunha adveio-lhe da profissão: era ela ia que buscar os bébés ao Fundão, como os pais explicavam aos filhos quando um novo rebento passava a pertencer à família.
Foi ela que me foi buscar a mim e à grande maioria dos de mais de quarenta que habitam a aldeia.
Naqueles tempos nascia-se muito - basta lembrar que chegou a haver cinco professores a trabalhar em simultâneo (Zé Paula de Campos, -Tanganho-Carminda, Guiomar, Zé Candeias, Libério, para servir de exemplo), e, como se nascia muito, a velha Pássara não tinha mãos a medir. Os seus serviços de parteira entendida eram continuamente requisitados.
Era Novembro adiantado, frio como um corno, água que Deus a dava,lapacheiros e poças de água, algumas caramelizadas, já noite de breu, o velho Chamiço sobe as escadas de pedra que davam acesso à porta da velha Passarinha, bate: "quem é?"«ó ti Rosa, alevante-se lá, que a minha já deitou as águas e está pra lá a berrar cas dores»"quem?"? «a minha, despache-se, catrino, cassenão inda o garoto cai pró chão». A velha Passarinha lá se levantou, acendeu um palito e a candeia de petróleo, rodou o chavelhão da porta, premiu o trinco, espreita para lá das agueiras bastas e lá vê o Chamiço aflito...."atão mas inda no está vestida?! despache-se lá, catrino, já tenho ali o carro, com os burros para irmos mai depressa.". « Já vou». Aquela gente não perdia grande tempo a mirar-se ao espelho, ou a preocupar-se com as relações entre as cores e os modelos: blusa de chita, para cima da combinação que se mantinha no corpo toda a semana, camisola de lã e xaile, lenço na cabeça, saiote comprido sapato de borracha, duas penteadelas e, ala! Apesar disso, o tempo parecia uma eternidade ao Chamiço: "Ande lá depressa! veja se se despacha!" Até o velho Comandante se chega ao cimo das escadas: "Que é lá isso!Tanto barulho, nem um home pode dromir!"«Ó ti João é a minha que já deitou as águas»... Lá surge a velha Pássara e o Comandante: "Rais a partissem, tanto demora a arranjar-se...em vez de se andar sempre a lamuriar, mexa-se!" «Cala-te que no é nada contigo, meu Comandante do Inferno dum raio que te parta» Eram assim os vizinhos...
Chamiço e Pássara lá desceram as escadas, às escuras, que luz não havia nem era precisa. A Pássara lá se sentou na traseira do carro, sempre a queixar-se, o Chamiço chega-lhe um saco de palha para ela não molhar a saia e espeta o ferrão nos burros que arrancam, espavoridos, lagariça acima, até ao coito do Chamiço. Pelos córregos dos velhos caminhos lá vão na velocidade possível, passam as oliveiras e a fonte de melão, sobem o frade, viram ao batcharel, contornam as portelas e lá estava a casa do Chamiço, com a luz acesa , ali mesmo entre castanheiros milenares. Ambiente perfeito, bucólico, calmo e só faltaria ali passar o Míncio, para Vergílio poder ser o poeta narrador deste acontecimento, em vez deste reles prosador.
Na noite molhada, os gritos da Chamiça rasgam os ares e a Pássara:" Eh! cachopa, olha que isto no é o fim do mundo"...pediu que lhe chegassem a luz mais perto, espreitou por entre as pernas da Chamiça, mete os dedos na boca do corpo, pede água quente num caldeiro lavadinho, panos crus, brancos, com fartura e toalhas.
«Daqui a cinco minutos tens mais um filho, ó Chamiço!» Começam as ordens: "arreda para lá esta cangalhada toda e põe-me aqui ao pé as bacias, a água quente e toda a roupa que te pedi" e a Chamiça dá mais um grito, a velha Pássara afasta-lhe as pernas, levanta-lhas quanto pode: "Vá, faz força, Catrino, faz força, vá, um, dois, três, força, catano, força, faz de conta que estás a mijar, força!Já lhe apalpo a cabeça, força!, catano, força! isso, força! e o cachopo lá veio assim de repente, a velha apara-o. "Catrino, ó Ana! tinhas razão...É um um belo cachopo!"
Era mais ou menos assim que se nascia neste país.
E que rijos que foram os nossos antanhos, catrino!
A única que viveu até aos noventa e tal sempre a queixar-se foi a velha Passarinha.

quarta-feira, junho 13, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVII - GENÊTES

Eu não conheço nenhum trabalho científico, com ambição de exaustividade, que trate do processo de surgimento da “fala” popular, seja da “nossa”, seja de outra região qualquer. Teria de ser um autêntico Tratado linguístico, muito mais do que uma espécie de dicionário da fala popular porque não se poderia limitar à semântica dos vocábulos ou das expressões e à suas origens e evolução, muito mais que uma gramática porque não se poderia ficar pela morfologia, pela sintaxe, pela ortografia. Havia de precisar, se almejasse reconhecimento e credibilidade, de ir mais fundo na busca de tudo isso nos contextos em que são utilizados. Haveria até de se socorrer de algumas histórias onde eles ganhassem mais sentido, como se faz aqui no Baságueda. Fica já aqui o manifesto de total liberdade para o plágio de situações, episódios e personagens.

Vem isto a propósito da reflexão (intelectual!) suscitada por uma expressão que ouvi há dias à minha sogra. A cena passa-se lá em casa com a karraiazinha a encenar uma das suas monumentais birras, quando a avó se sai com esta.
- Ai o rai da garota! Tem cá uns genêtes!
Conseguimos apreender pacificamente de onde vem a maior parte das palavras e expressões que já foram tratadas em “a nossa fala”. O Changoto já tem tido a preocupação de se demorar nesse trabalho. Seja do latim ou do grego, a lei do menor esforço parece ser a regra principal, porque o povo é simples e gosta de coisas simples. Nós também.

Mas esta dos “genêtes” soou-me diferente. Porque atira para conceitos que, convenhamos, não estão propriamente na orbita da fala e da cultura popular, como “genes”, “génio”, “genética”. É absolutamente improvável que a autora da expressão alguma vez tenha contactado ou ouvido falar de um tal Darwin e de uma tal sua teoria sobre a origem e evolução das espécies. Mesmo levando em linha de conta o seu vasto e riquíssimo curriculum vitae em matéria de agricultura, designadamente no que concerne a hortículas, tão pouco se pode aceitar, nem como mera hipótese, que tenha visto nas suas ervilhas o mesmo que Mendel. Não merece a pena ir para além da simples referência à impossibilidade de qualquer contacto com algum escrito de Bateson. Adond’rai foi, então, o povo buscar palavra tão cara?

Um estudante tê-la-á utilizado numa reunião familiar alargada, em que toda a gente entendeu o sentido e depois adaptou o som e estendeu ao resto do povo? O Senhor Prior, no sermão eucarístico, ter-se-á perdido em considerações sobre a origem da vida – seguramente para discordar de Darwin – e, o povo católico, naturalmente integrou no seu léxico?

Fosse como fosse, o vocábulo faz parte da “fala” da terra dos xendros e à volta, e, tudo indica, há bastante tempo.

Já lá vão uns anitos, ainda José Socrates não tinha nascido, num domingo à tarde em que teve de separar uma bulha entre o seu Artur e o filho do Zé Púcaro, o Ti Armindo Estanqueiro desabafou com uma ponta de orgulho:
- O mê Artur tem cá uns genêtes… Ah! garoto dum d’rai…

Desde tenrinho que o Artur se revelava mais agitado do que o normal. Ti Armindo ia procurando amansar o cachopo à custa de muitas sovas de cinto e de trabalho no campo, mas ele não dava mostras de abrandar a genica com que nasceu. A avó Ressureição bastas vezes se esforçava para meter o fedelho ao rêgo, mas só conseguia que ele se virasse a ela aos pontapés. Por causa disso, já tinha ganho a alcunha de “batenávó”. Um dia, no tempo da lavra, o garoto foi posto à frente da burranca para a conduzir a direito. Como era de esperar, o Arturinho fazia de propósito para andar aos ziguezagues, na esperança de que o pai se chateasse e o mandasse embora para a brincadeira no povo. A dada altura, ia ele rente ao cômaro com o terreno do Batorelhas, viu o pai concentrado no percurso do arado, atirou com um torrão de terra aos olhos da burranca que se espantou para o chão do vizinho, arrastando arado e Ti Armindo que praguejava furioso:
- Ah! garoto dum filho do diabo quê rebento-te a alma, atão no vês o q’andas a fazer?
E o Arturinho:
- Filho do diabo é vómecei…
- O quêi? O que é q tu dexeste? - E começa a tirar o cinto das calças avançando firme para o petiz, a gritar – Quem é que é filho do diabo? Quem é que é filho do diabo?
À vista da correia o batenávó meteu os genêtes no bolso e respondeu baixinho:
- Sou eu mê pai

quarta-feira, junho 06, 2007

A NOSSA FALA - LXXXVI - GALULA

Ainda não há muito, os marmeleiros estavam floridos. Às pétalas da flor chama-se GALULA. A Galula é como o tremoço: por muito que se coma não enche barriga. Eu que o diga! Nos tempos em que era um ás do futebol, trinco com funções de médio de distribuição, fui um dia jogar contra o Eléctrico de Ponte de Sôr... Cada um de nós tinha recebido dez escudos para o almoço, que a organização só garantia a bucha depois do jogo. Eu e mais Varito, o pateta do Milhazes e o Força Hercúlea fomos a jogar bilhar e compramos cinco escudos de tremoço: era quase um alqueire. Comemos e jogámos e se não nos vêm chamar não dávamos pelas horas.
Foi chegar e equipar e ala para o campo.
O sal do tremoço e mais os fininhos que tínhamos mamado, juntos, com um sol de esturrar tordos às quatro da tarde, começaram a fazer efeito...
Nós éramos dos que não podíamos falhar: atrás de nós só o Tonho Bisga que era o guarda redes e hoje é médico. O pobre do Henrique Belejo, o velhinho, cansava-se na acarreja de água para nós bebermos.
Ficamos emparrançados, com o bandulho cheinho de água que até se ouvia o balanço quando saltávamos para cabecear o esférico (nome que eruditamente se dava à tchintcha )...
Fica o resultado: empate a 2 golos, sendo que a segunda parte durou 58 minutos até que o Eléctrico empatasse.
Por cortesia deixámos o troféu em disputa para o clube, que o que nós queríamos não era mais prolongamento nem penáltes, mas a bucha prometida. E que boas foram as achigãs grelhadas, fresquinhas da barragem de Montargil e quentinhas a sair do borralho... E o mais que veio a seguir para ensopar os almudes de água que tínhamos emborcado.

Mas... Volvamos ao Baságueda e à nossa querida xendrice.

Havia na Aldeia dois Tonhos Valentes: um morava no oiteiro, tinha um dedo saroto na mão esquerda e era, vá lá, um lavrador razoável, o outro morava no cavacal ali ao pé da cruz, era Guarda Republicano reformado e tinha uma hérnia bem destacada pelo que lhe chamavam o COBRADO. É esta a vedeta que hoje vos trago.

O homem era caçador mas ninguém queria caçar com ele. Tinha uma perdigueira a quem chamava DULCE que era a sua companhia. Amandinho Leitão, às vezes, lá ia com ele e o seu Piloto.(...)

Malinos como eram, Coiote Pete, Abraço de Bazuka, Chibeto e eu, está claro, combinámos um dia pregar uma das valentes ao Tonho Valente: o mais conceituado na opinião do Cobrado era eu. Ficou então decidido que eu me encarregaria de dizer ao Valente que estava uma lebre na cama na vinha do Corlha:"tu viste-a?" Vi, sim senhor, estava deitada ao toro da videira grande na ponta do fio que dá para o poço da figueira maranhoa. Já a lá vi mais do que uma vez!"Entretanto Coiote e companhia tinham ido ao quintal da vítima, roubaram-lhe um coelho e foram a atá-lo na tal videira com um baraço. E eu: " Vomecê bem sabe que ali passa muita gente e se o Ti João Toscano ou o Toco a vêem, são eles que a agarrram",« Bom , vou lá a ver... "Vá aqui pelo caminho do ribeiro cimeiro, entre por trás, por aquilo ali da Bate-orelhas, a passar junto à vinha do Caturra". Ele aí vai.
Eu corri pela estrada a avisar os outros, que se esconderam a ver a marosca. Lá aparece Tonho Valente com a sua espingarda de canos sobrepostos, de três tiros...Olha para a videira e lá estava o coelho. Atira-lhe um foguete, levanta-se pó e o coelho nem buliu. Deita-se a correr confirma que 'a lebre' estava lá caída e, lampeiro, vai a agarrá-la. Na sofreguidão nem reparou que era o coelho e ainda por cima seu! quando o quer puxar fica-lhe preso pelo baraço ao toro da videira:«Querias galula, tonho Valente! querias galula! e riam-se a perder, fora da vista dele...
O General Mola, alcunha por que era conhecido o nosso Tonho Valente, ainda assim, meteu o coelho na bandoleira para não se perder tudo... Arrancou pelo caminho velho do ribeiro cimeiro a praguejar. Ia preado...
Entretanto Chibeto e Coiote já tinham vindo para a frente e espetaram uma pele de lebre na porta da loja do General.
Eu fiz-me de novas quando, com o meu inefável carrinho quadrado ia levar uma bilha de gás à casa de Cum Filha da Puta, que era vizinho: «Anda cá, garoto do catano! Nunca esperei isso de ti!,atão tu fazes-me uma destas?! e eu:"Que mal é que eu fiz? a consciência não me acusa de nada." «Disseste-me que havia uma lebre na vinha do Corlha..." «e havia,vi-a lá mais do que uma vez...» "olha o que lá estava!olha!" «olhe ali a pele da lebre espetada na sua porta!Isto foi malandragem de gente sem vergonha». Aproximou-se e viu a pele da lebre que tinha um papel escrito: a lebre estava ao toro da videira, mas quem a papa sei eu!
Eu queria estoirar a rir mas lá me consegui conter.
É a vida!

domingo, maio 27, 2007

A NOSSA FALA- LXXXV- PASPALHO ou PASPALHÃO

Vou começar com uma estória que não pertence aos xendros, mas podia pertencer porque lá também há paspalhões que se deixam embasbacar por dois dedos de conversa, quatro sacos de plástico, um embrulho de guardanapos e uma caneta que depressa deixa de escrever... Enfim, paspalhões, mesmo.
Volvamos à estória:
No seu descapotável, um novo rico, daqueles que dizem que têm um MêGuêbêguêtê, com volante de pau, conta voltinhas e rádio de FME(leia-se mesmo fme), com a sua donzela de cabelos desfraldados, qual Isadora, parou ao deparar com um letreiro junto da ponte de um rio, ali para os lados de Odiáxere, que apenas tinha escrito: XPTO. Armado em Chico esperto pergunta ao meio alentalgarvio:« Então XPTO quer dizer o quê?- o senhor sabe ler? num parece!, sei ler sim senhor - então se sabe leia!- mas isto não faz sentido! ai não?! quanto vale o X em numeração romana? - vale dez - poi, e que letra tem a seguir? um pê -, poi, e a outra qual éi? é um tê, - poi, e quanto vale o zero que está na ponta? - então um zero vale nada: poi! ... Então agora é só ajuntar tudo e já sabe o que isto quer dizer. Aqui todos sabemos! Não alcançando onde o alentalgarvio queria chegar pediu mais explicações:« então, é só ler mê home : Despe-te e nada!» , até parece um paspalhão!
Tempos outros, estes e aqueles em que a nossa Aldeia, por artes e ofícios do inefável padre Zé Pedro, esse javarino de tanta vida, que nunca sabemos qual aquela que agora assume ou se sequer ainda respira o poluído oxigénio que nos dá vida aos neurónios..., tempos outros os da nossa Aldeia, dizia, quando, por impossibilidade de funcionamento de um colégio, já que existia o Externato de Nossa Senhora do Incenso (E.N.S.I.) e era proibido que existissem dois privados no mesmo concelho, é criado o colégio de Nosso Senhor do Calvário, em Medelim, já no concelho de Idanha a Nova. A rivalidade entre os dois sempre foi manifesta, mas a amizade entre os estudantes de um e outro nunca esteve em causa. Felicito daqui o pequeno /grande Honorato que o ano passado juntou os antigos alunos do colégio de Medelim...
Famoso foi o Penha Garciense Mário, alto e espigado, meio desengonçado, mais parecendo uma empa de feijoeiro, a quem nós, por graça, perguntávamos se a temperatura lá por cima (teria para aí 1,90m) era a mesma que nas bases. Mário vinha ter aulas de Matemática junto com outros na casa de Xquim Pardalim, homem de um só testículo, que não o impediu de gerar três filhos (um, mais duas) no ventre de uma espanhola,ganhadora que fora de um concurso de beleza em Coria, a D. REMA, que ainda encontro amiúde, se bem que Pardalim já faça tijolo para lá de 25 ou 30 anos. Companheiros de Mário, foram Mesquita, professor aposentado, xquim Rolo, ortopedista, Fernando Elvas, professor aposentado, José Vaz, bancário aposentado, Tero Caturra, oficial da GNR, aposentado,e por aí fora.
Ora aconteceu que no exame de aptidão à faculdade Mário chumbou. Enviou então um telegrama ao irmão: "Eu preparado. prepara pai", ao que o irmão respondeu: « Pai preparado, prepara-te tu».
Naquele tempo a Aldeia era um ponto de confluência de importância significativa e o pai de Mário que trocava taleigos de semente por farinha e tinha uma Hanomag veio esperar o filho : « Anda cá mê paspalhão dum corno, anda cá... Mário nem teve tempo de aceitar a mala que o ti Martinho oferecia na escada da camioneta: já duas vergastadas com o guarda chuva de pano azul lhe assentavam no lombo, ali mesmo em frente ao Batoco: « Paspalhão de merda, que és um paspalhão! És a vergonha da minha cara! como é que eu agora chego à Aldeia e digo que ficaste no tinteiro, meu paspalhão?» Num fujas que lá inda comes mais!»
Mário, lá do alto do seu pescoço de cegonha, envergonhado até ao sete estrelo, ainda por cima ali mesmo à frente de tanta gente que nem o conhecia, em terra estranha..., Mário, só dizia: Ó senhor meu pai, num fui só eu, em Setembro torno lá e passo. Agora estar a malhar-me não resolve o problema... Mnel Beringuilho lá acalmou os ânimos, ferrou dois tintos no Chico Miguel, montou-se com Mário na Hanomag e lá foram os dois...
Nessa noite havia cinema na Aldeia: o ecran era a parede da Igreja, do lado esquerdo a dar para o caminho das águas em frente ao Faustino e à antiga casa do pároco, a imagem era difusa e repartida. Reproduzia-se, nos documentários, a chegada do homem à lua... Eu era garoto e ia ver o SHALAKO, com a Brigitte Bardot, estava ao pé do meu avô Comandante: «Inda há paspalhões que acreditam que o homem foi à lua! São mesmo uns paspalhões! Se fosse à lua, caía! aquilo é uma pantominice. São todos uns pantomineiros e quem neles acredita é um paspalhão!» - Tu num acredites; o homem esteve tanto na lua como eu agora estou na vinha dos pinheiros a tirar água do poço!» São todos uns paspalhões, é o que eles são.»

domingo, maio 13, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIV - ESCOUREIRO ou scorêro

Andei muito tempo para perceber donde raio vinha esta palavra... Isto porque o tal SCOREIRO tanto servia e serve para guardar as azeitonas de conserva, desde que não sejam muitas, pois aí usa-se a talha, como, e principalmente, para conservar o enchido (chouriços/as, morcelas, buchanhas - que saudades de uma boa buchanha! chamada pelos mais afoitos de ptchanha- (palavra esta que até custa a pronunciar mas que era mesmo assim!-) ) no azeite.
Acabei por concluir que esta pronúncia meio esquisita era uma adaptação sonora do significante AÇUCAREIRO, isto porque antigamente, nalgumas casas,- ainda vi- , o açúcar que era utilizado era a água da cozedura dos figos secos num caldeiro de lata e que depois serviam para aviandar o porco, de mistura com umas beldroegas, ou coisa assim, por môr de não lhes provocar alguma borreira, em tempo quente, e já meio cevado para a matança.
Coisa admirável sempre foram as técnicas de conservação: o sal, desde logo o mais barato, portanto o mais utilizado, - lá estava o belo presunto que se tirava agora em Maio, se punha de molho, se untava (barrava) de azeite com um molho de colorau, por mor da mosca, se encafuava numa saca branca de linho - não raro, aquelas mesmas onde vinha antigamente o enxofre em flor, a qual era lavada vezes sem conta, se virava do avesso, se colocava na boca uma fita de nastro e depois se pendurava, com o presunto, no forro da casa para secar) . Quando descia fazia-se a prova: um bom naco era cortado da peça, que voltava para a salgadeira - espécie de arcaz cheio de sal grosso onde o presunto coabitava com aquele excelente toucinho rosado, que até mesmo pessoas com fastio roíam, e também umas tiras de entremeada que eram o consolo do azeitoneiro em tempo da colheita da dita (azeitona)-. Ainda hoje me lembro desses raros paladares. E o mais é que a rapaziada não era gorda por aí além. ...Isto porque suavam assim comédado!. Reparemos que nos desertos o essencial continua a ser o sal. O sal é o oiro do deserto. A questão é que nós hoje queremos só ar condicionado. Não suamos. Bem me lembro eu de à noite tirar a camisa e se passado algum tempo a quisesse vestir outra vez tinha que partir o tecido, porque o salitre era tanto que ficava tesa. Assim mesmo: tesa: sustentava-se de pé sem qualquer apoio tal a quantidade de suor nela impregnado. Não é, portanto, por acaso, que os nossos mais idosos tenham o gosto salgado e que o grande defeito dos nossos enchidos seja o de ficarem salgados. Eles precisavam de sal. O seu equilíbrio homeostático requeria iodo e por isso salgavam a comida. Como não se poluíam com as bebidas que hoje nos invadem... ou bebiam água, ou vinho, ou aguardente, e trabalhavam de sol a sol, o sal era queimado pelo organismo. Hoje temos ar condicionado em todo o lado e vamos de carro para toda a parte, - não suamos e, portanto, não perdemos sal - em consequência, temos tensões elevadas, obesidade e outras coisas que tais. Remédio portanto é:SUAR! Só que para suar é preciso esforço...
Bom... mas o assunto era o SCORÊRO:
Dia de Sexta -Feira Santa à tardinha... Vinha eu todo suado, vou-me ao cântaro da água e emborco três copázios de esmalte do precioso líquido! Vou ao chafariz do batoco, trago dois caldeiros valentes de água, desço o balde adaptado a chuveiro feito pelo ti Zé Latas, encho-o, subo-o, abro a torneira e um banho/duche é, sem dúvida, um prazer inenarrável, mais a mais numa altura destas, em que eu vinha de tirar esterco dos currais a quarenta e três porcos- uma enormidade!
Quando desci, minha mãe:
«não tenho nada feito... não sabia a que horas vinhas!
" Não se rale! eu já me trato!
« olha que hoje é Sexta-Feira Santa... Não se pode comer carne... Abre ali uma lata de atum e coze uns ovos!»
" Isso tem muita mão de obra, eu estou com a galguéria e não me apetece atum nem esperar que os ovos cozam"!
« Vai ver ali à Rosa se lá há alguma coisa...»
"Vou mas é ao ESCOUREIRO e pesco um chouriço"..
« Olha, calha bem, boa ideia!»
Estava eu já refastelado a comer prazeiteiramente o meu chouriço, quando ela, assarapantada, entra por ali dentro:
«atão tu no vês que o chouriço é carne?»
" Este não, mãe! não vê que o PESQUEI com o anzol do garfo ali no escoureiro!"
«Rais ta partissem, damonho! Já está, já está!»
Lá me lambi com o chouricinho macio e se tinha sal não dei conta.Eram chouriços divinais aqueles: o unto escorria por entre os dedos e a gente lambia-se tal qual os gatos na sua higiene POST PRANDIUM! Já são raros chouriços com estes paladares. Ainda se encontram e se provam, mas só nas aldeias. VIVAM AS ALDEIAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabava eu de sair de casa, consoladinho, vinha o Tonho Arplano, já um pouco corcunda - os anos não perdoam - a resmungar. Não percebi o que dizia e meto-me:
- Ó ti Tonho, Karraio vai práí a ruminar?
- Então num queres lá saber que fui onte ao doutormédico e que ele me disse que eu tinha uma nascido aqui à entrada do meu cu?!
Eu sei do que foi... eu senti a picada...Fui a aviar a vida ali ao restolho do Cavalheiro, por baixo da figueira maranhoa e espetou-se-me aqui uma palha... Num liguei...Fiz uma torcida com a palha, alimpei as nalgas e ala! Passados uns tempos isto começou-me a doer e a minha lá me aqueceu um caldeirinho de água, lavei-me com sabão da borra do azeite, e fui-me a ver o que se passava porque eu bem apalpei alguma coisa que dantes lá num estava! Nem disse nada à minha... Quando cheguei à vila já ia desacorçoadinho de todo.
-E foi aí que ele lhe disse que tinha uma fístula à entrada do ânus!?
-Foi isso mesmo que ele me disse, mas eu num te vi lá! Como é que sabes?
-Olhe ! Eu cá se fosse a si tinha-lhe dito:" Vossa mercê, senhor doutor, há-de desculpar! Esse nascido num está à entrada do mê cu! está mas é à saída! Aqui num entra nada! só sai!
Rais ta partissem, garoto do diabo! Lá abalei, todo contente e o velho Arplano ficou-se a praguejar e a amaldiçoar a sua má sina!

sexta-feira, maio 11, 2007

OUTRAS FALAS

A abelha zune, ou zumbe; a águia grita; a andorinha chilreia, gorgeia, trinfa, ou trissa; o bezerro muge; o bode bodeja; o burro zurra, orneia, ou orneja; a cabra berra; o cachorro gane, ganiza, ou late; o camelo blatera; o canário canta, gorgeia, trina, ou trila; a cegonha grita, ou glotera; a cigarra canta, ou fretene; o cisne canta, ou arensa; o coelho chia, ou guincha; o corvo crocita, ou grasna; o crocodilo chora; o cuco cuca, ou cucula; o elefante brame, ou urra; o gaio grasna; o galo canta, cucurita, ou cucurica; a lebra chia, ou berra; o leitão cuincha, ou cuinca; o lobo uiva, ou ulula; a mosca zoa; o mosquito zumbe; a ovelha bale; o pardal chilreia, chilra, ou chia; o pato grasna, ou grassita; o pavão grita, ou pupila; a pega palra, tagarela, galreja, ou galra; o peru gruguleja, ou grulha; a raposa regouga; a rola geme; o rouxinol canta, gorjeia, trina, ou chilreia; a serpente assobia, ou silva; o urso brame, ronca, ou ruge; o veado brame.
E o homo sapiens sapiens? Esse fala. E quantas falas ele fala…

quinta-feira, maio 03, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIII - MOINA ou MOINICE

Por natureza o homem é um animal mamífero. Só que alguns mais propriamente deviam ser chamados de mamões. Só estão bem à coca ou à mama. São esses que andam sempre na moinice. Faz-me isto lembrar uma cantiga que aqui não posso reproduzir em música mas deixo a letra:

O Senhor Hitler mais o Senhor Mussolini
Inventaram uma guerra de extermínio
Uma guerra de espantar!
Os alemães inventaram um submarino
Que é uma espécie de pepino
Que anda no fundo do mar...

Na minha terra deu-se um caso espantoso
Que espantou todo o povo
Que fez toda a gente espantar...
Na minha terra era o galo
Que punha o ovo
Para a galinha descansar

Minha vizinha
Tinha lá na capoeira
Uma galinha poedeira
Com uma frigideira ao lado
Minha vizinha
Queria que a galinha
Lhe pusesse um ovo estrelado

Na minha terra nasceu um crianço
Que estava sempre no mamanço
Só mamando estava bem
Mas um dia de tanto mamar
Podem acreditar
O crianço engole a mãe

Havia um refrão que se intercalava entre cada estribilho:

D. Chica,D. Zefa, D. Amélia
Fecha a porta catramela
para a bicha não entrar

Foi por cusa do último estribilho e dos versos assinalados que esta cantiga me veio à memória e "por se acaso"... deixo-a para a posteridade.
Pronto está bem...
Eu sei que também quereis um bocadinho de mama, às vezes. Quem não gosta de chupar numa boa mama?

"Salgueirinho da ribeira
cortado à mão canhota
não há coisa mais macia
do que as mamas de uma cachopa!"

Eu dou-vos maminha hoje: duas receitas de entrada para um engate assim comédado:

1-

Pera abacate com molho vinagrete

Escolhei peras abacates que não estejam muito rijas - sinal que estão muito verdes e o paladar não é o melhor - mas que não estejam muito apalpadas pois ficam com nódulos e estraga a aparência/aspecto da comezaina e pode-se perder o engate! E isso é que não pode ser.
Parti-as ao meio no sentido longitudinal, tirai o enorme caroço e com uma colher macia retirai de cada uma das metades a massa com o devido cuidado para não estragardes a casca, que deveis guardar, pois vai servir de covilhete, para o frente a frente degustativo...
Com um garfo esmagai essa massa até não ficar com grânulos. deixai repousar. Entretanto descacai umas gambas previamente cozidas, deixai de fora a cabeça e parti em bocadinhos o corpo do crustáceo tendo o cuidado de lhe retirar aquela horrorosa tripa preta que lhe percorre todo o dorso. A quantidade de gambas fica ao vosso critério, sabendo que não podem ser muitas pois, podia dar-se o caso de depois não se poderem meter na casca da pera juntamente com a massa esmagada e o molho que agora ides preparar: Um bom Ketchup (Heinz,Calvé,Hellmans)
Mostarda (Savora, Calvé) Mayonnaise (a caseira é a melhor, mas dá muito trabalho pelo que vos podeis ficar pela Heinz ou Hellmans). Numa malga deitai em partes quase iguais estes três condimentos e mexei até ficar com cor de tijolo. Podeis provar e constatar se o vinagre da mostarda contrasta bem com o doce do Ketchup. Fazei as correcções que entenderdes até que fique do vosso paladar. Deitai a massa esmagada para esta combinação de molhos e envolvei juntamente com os bocadinhos de gambas entretanto descacadas e partidas, enchei as cascas das peras, enfeitai a gosto deixando um arco de gambas espetado na pasta obtida. Apagai as luzes, acendei uma vela flutuante, convidai o objecto do engate e saboreai esta maravilha...
A resposta dela vai ser: «que bom!» e vós: "tu queres é mama!" Nada pior para estragar um engate.

2

gratinado de couve naba com delícias do mar

Cozei em água pouco salgada e já a ferver as folhas de couve naba que considerardes necessárias para os convidados. A fervura é rápida e a panela não pode ser tapada para que a cor natural da couve naba não escureça, retirai para uma coador deixai escorrer mas de modo a que não perca toda a humidade. Com a varinha mágica triturai ligeiramente de forma a que não fique uma papada, distribuí umas delícias do mar por toda a massa, deitai para um tabuleiro de ir ao forno, batei os ovos necessários para a cobertura, levai ao forno a gratinar e servi quentinho e muito aconchegadinhos ao parzinho.

Agora que já vos dei a mama não vos dediqueis à moinice. É pôr ao trabalho e mainada!
Bom proveito, ou como se diz em espanhol: Que vos aproveche!
Para fim de conversa ponde-vos a enumerar os mamões que andam à vossa volta e constatareis que é pelo menos um terço dos que conheceis! Palavra de Francesco Alberoni!

quinta-feira, abril 05, 2007

A NOSSA FALA - LXXXII - ÔIA

Em todo o tempo houve gabarolas. Aqueles a quem nós damos sempre de desconto, que não valem pelo que valem, mas pelo que outros dizem que valem, por bajulice ou apadrinhamento, ou porque eles próprios se arvoram em auto estimados sujeitos e não têm pejo de se alcandorar até alturas para as quais não têm escada.
Basta ir, no actual, de Portas a Sócrates, para vermos a insofismável verdade do que atrás se disse.
São tantas as bajulices que deixam ou , o que é pior, porque premeditado, são tantas as basófias que intencionalmente difundem "ao povo ignoto", que, quem anda minimamente atento ao que se passa em seu próprio redor, fica tão basbaque, que só lhe sai do fundo do seu ser: ÔIA!PARA SEMELHANTE MERDA É PRECISO TANTO BASQUEIRO!
Mas, ou sou eu que ando taranta ou há quem me queira pôr atarantado: será possível que, ao fim de tanta enrabadela ainda haja quem ponha a manteiga no olho cego para penetração mais fácil!?
Nanja eu, que me encosto à parede e daqui só sai, nada entra" Mainada!"
Dispenso-me de exemplificar - ainda agora o Tribunal de Contas o fez por mim! E a Independente...
Mas o povo(?!) - eu também sou - prende-se mais à telenovela e a hediondas coisas como a Bela e o Mestre, do que ao que é decisivo para si e para o país e depois queixa-se.
Mas...
Não era aqui que eu queria chegar...
Já William James dizia que a mente não é contígua mas contínua e irreversível :- mesmo que eu não me mexa, nem aos olhos, se os abrir e fechar, apesar de continuar a olhar para o mesmo sítio, - a sensação (se calhar seria melhor ter dito percepção) - já não é a mesma.
As ideias acotovelam-se e querem sair todas ao mesmo tempo e depois saíu isto!
É caso para gritar :ÔIA!
Vamos lá então a pôr água na fervura, que é como quem diz: trata mas é do discurso assim comédado, à maneira do baságueda e no atentes a cabeça ao leitor que vem aqui para recordar eventos curiosos da xendrice e nada disposto a leituras enviezadas em que se confunde o cu com as calças.
O BASÁGUEDA OU CONTINUA A SER BASÁGUEDA OU ENTÃO ...
Vamos lá à história:
Xquim do Trem, filho de Domingos Argentino e tio de Domingos Portas, cunhado de António Rela, que é irmão de Xquim Meirim, aquele que fazia fintas à Tonho Maranhão, quando, nos bons tempos da fonte, das amoreiras, das oliveiras , das mulheres com o cântaro de água à cabeça, se jogava à bola naquele baldio, onde as Santas, Mortes, Pachaus, Ermelindas, Reis e Modas, vizinhos que eram, por esta altura, estendiam, a corar, a roupa lavada na ribeira, bem batida na pedra inclinada e bem calçada, por mor de não haver perigo de um afundanço das ventas na corrente da ribeira encostada ao chão do Maroco, bem, então o Xquim do Trem ajustou a cava da vinha ao Zé S. Marcos.
Estávamos em Abril - O Zé escolhia sempre as férias neste tempo (ele era guardador de vacas ali para os lados de Peraboa) primeiro, porque fazia anos no dia de S. Marcos, que não é, nem mais nem menos, que o dia 25 de Abril e há (havia) festa de arromba na freguesia de Águas. S. Marcos (o nosso, irmão de João Lúcio, de Domingos Lúcio, de Lurdes Lúcio, mulher de Miguélito, para além de Fernando Lúcio casado com Perpétua Nascimento e pais- ambos dois -de Ildefonso, boleiro afamado, afilhado do Farmacêutico que trouxe a Farmácia para a Aldeia por sugestão do inefável Padre Zé Pedro, filho de Ti Jerolmo e D. Augusta) ,estávamos então nos começos de Abril, repito, e o Zé para ter uns pataquinhos para o Mata -Ratos e algum copinho na tasca do Fatela, ajustava cavas por dá cá aquela palha. Xquim do Trem ajustou-lhe a vinha da quinta do Ramalhão, paredes meias com a famosa de Cum Filha da Puta, e perto da horta dos Planetas, a dar vistas para a Tapada do Domingos Manata e do Chico Rolo. Era nessa quinta que a Troa - mulher em segundas núpcias com o Xquim do Trem - cultivava uns nabiços em pleno Verão que vendia quase a preços de agora.
PARÊNTESIS( Faço aqui este parêntesis só para vos assinalar que com esta profusão de pormenores até um ceguinho sabe quem são estas personagens. A partir de agora vou dispensar-me de fornecer tantos indicadores,porque a evidência não se demonstra).
Xquim do Trem ajustou então a cava da vinha ao S. Marcos. Passadas duas horas já o S. Marcos estava à porta do Trem a pedir meças pelo trabalho!
- "Dinheirino pra cá, vá!
- Ôia! O Quêi!? - Tu já cavaste a vinha?
- Já sassenhora! Pode lá ir a ver!
- Quando acabar de almoçar logo lá vou na burra.
- Mas já me podia dar algum dinheirinho de adianto!
- Ná! Se calhar passaste a manhã a dormir e agora querias mama!
- Nassenhora! Eu cavei a vinha toda!
- Vai ali ao Zé Rolo, bebe lá um copo dos grandes e diz-lhe que pago eu! quanto à vinha depois de almoço falamos...
Xquim do Trem almoçou uns grelos com uma boa peixota de bacalhau, vai-se ali à casota da entrada da lagariça, pertinho mesmo do chão do Lavra Miúdo, um pouco à frente da nespereira do Mné Raposo, paredes meias com o quintal do Isidorico, aparelha a burra que mais parecia uma mula,tal o porte do animal, sempre bem cevada, orelha afitada, lustrosa , mansinha como a terra (mostezinha),:cabresto com rédea na cisgola, albarda com estribos e tudo, cilha em pele de búfalo(tinha sido eu quem a fez), bordadinha a lã na rabicha e atafais com atacas ...Um espanto, aquele animal! Mete pelo caminho das Águas abaixo, passando ali à Igreja, à casa do Vale Quem Tem, passa a casa queimada, avança pela quelha, passa as poldras , a curva da casa do Mné Maneta, àquilo dos Manatas, entra na vinha: só queijos. Cambalhões mal construídos, erva sem ser voltada, um aqui outro ali, nada de jeito...
O Trem vem preado por ali acima, espora a burra que mete a galope e lá estava o S. Marcos à espera:
- Atão aquilo é trabalho que se faça, seu gandulo!
- Ôia! Vomecêi num teve tempo de chegar àquilo do Tôco e já me está a dizer que o trabalho num está bem?
- A minha burra não é lesma como tu! Nem um corno! não mamas nem um corno, enquanto num cavares a vinha assim comédado!
- Ai éi?! eu logo lhe digo a vomecêi como é que canta a rata!
S. Marcos mete pelo Oiteiro acima, a passar ali à oficina do Zé Guerrilhas e ao Tonho Pedro, ao cimo da barreira, não dá as boas tardes a ninguém, dá um pontapé na porta da loja, agarra na enxada e, a praguejar e a escarrar, aí vai ele... Xquim Camião que passava na altura lá do cimo do seu pescoço de cegonha e naquela linguagem que poucos cortam:
-Ôia! num me digas que vais a trabalhar?! Deve haver ingano!
- Vai-te à fonte limpa, ouviste?
Camião ficou ainda mais taranta do que já era, encolheu os ombros e ainda o ouve a mandar para a pata que o pôs ao Tonho Feduchas que, malino como era, se mete com ele: "Ó Zéi, vais a abrir uma bureca para o pirolis lá fazer o ninho?"
Nada deteve S. Marcos na sua determinação: foi-se aos cambalhões que tinha feito e esborralhou-os todos.
Aliviado, mete a enxada ao ombro, entra pela loja do Trem:
-Num me pagou!? já fui a desmanchar tudo quanto tinha feito! bem feita!
-Ôia! nunca vi trabalhador cma ti! mas bem hajas! assim fico logo com a vinha esborralhada! é dois em um.Bem hajas!

PÁSCOA e vão 2

D'hoje a 3 dias
é o domingo imediatamente a seguir
à lua cheia imediatamente a seguir
ao equinócio da Primavera.


Um tal Gregório, o nº 13 da sua dinastia, linha, ou lá como se rai se chama a ordem das santidades, decidiu que o mundo em que ele mandava havia de celebrar uma tal de Páscoa.
Vivamos todos, então, uma Páscoa assim comédado, em paz e em harmonia com o caos.

Ainda de acordo com as contas que o tal Gregório, o 13º, deitou ao tempo, completam-se hoje 730,4849998 dias solares que este vosso humilde blogue se revelou aos mundos que partilham deste tempo. Aos outros, também.

domingo, abril 01, 2007

A NOSSA FALA - LXXXI - EU SEJA CEGUINHO

Hoje fiquei com a sensação que os agricultores xendros estão à frente do seu tempo, no que toca a métodos de produção. Sempre atentos às novidades tecnológicas aplicadas à arte de amanhar a terra e de tirar dela o que ela tem para dar, são exemplares na adopção de técnicas e instrumentos revolucionários, alguns deles só eventualmente generalizados daqui a alguns anos. Eis o que ainda hoje, em pleno adro, imediatamente antes da "missa dos ramos" eu ouvi:
- É verdade! - garantia "nosso Zéi" - a minha (mulher) já nem precisa de cardo para fazer os queijos. O mê genro arranjou-me um produto que se espalha no pasto onde as cabras rapam, que quando as vou ordenhar, o leite já vem coalhado. O problema é que só resulta com as cabras virgens, por isso é que lá pus uma aramada para as separar das outras.
- Ah! ôlha, o mê genro, atão, - atalha Xquim Moca -, trouxe-me ontem de Castelo Branco uma seringa especial para tirar o azeite directamente do toro das oliveiras. A gente espeta a agulha ali rentinho à base da árvore, a uma fundura de 3 dedos, e tira logo azeite. Eu ainda lhe disse, atão mas pr'a qu'arrai trazes isso agora, qu'o tempo da azeitona inda lá vem tão longe. E ele: estavam em promoção, catano, tinha de aproveitar. E eu: bom, atão fizeste bem.
- No v'estandem pr'aí a gabar - entra "nosso Fernando" - que vós no tendeis lá uma máquina c'má minha, que me trouxe o mê filho, de Lisboa. É assim a modos qu'um laboratório de mão, vem numa malinha, a gente leva aquilo pr'á vinha, mete lá uma folha de videira, e aquilo diz logo ali se a parreira está boa de saúde, a qualidade do vinho que vai a dar, a cor dele, inté a graduação.
- Hum! - desconfia o Mantarrota que assistia ao lado - e isso é mesmo assim?
- Mau! - vira-se "nosso Fernando" com cara séria - Ê seja ceguinho!

terça-feira, março 27, 2007

A NOSSA FALA - LXXX- MOSTOZINHO OU MOSTEZINHO

Mais uma da lei do menor esforço: vejam só o que derivou de doméstico(zinho). Aplicava-se este termo quando uma besta: vaca, burro, cavalo ou mulo/mula, eram mansinhos. Dizia-se mesmo: é manso como a terra.
Era assim que nos queriam no tempo da outra senhora: mostozinhos. Que ninguém fizesse ondas que a ordem era: pela lei e pela grei. Alinhadinhos, na grande maioria, ali andávamos nós em fila indiana preparando a defesa da Pátria, acima da qual, em termos valorativos, apenas se encontrava Deus. Só por fim vinha a família, expressa no seu mais genuíno termo: Lar. Era esta a hierarquia dos valores: Deus, Pátria, Lar. A pessoa, enquanto indivíduo, era um elemento pertencente à Nação/Estado, una e indivisível, onde até o livro de aprendizagem, era o livro único, independentemente do local geográfico. Os meninos em idade escolar de S. Tomé e Príncipe, para além de terem também sofrido a construção do edifício padronizado que povoa Portugal, também aprendiam -pasme-se - que no próprio Equador onde se situam, os dias crescem ou minguam conforme no seu movimento aparente, o Sol esteja em Câncer ou em Capricórnio, que a sucessão das estações era invariável e que eram os solstícios e os equinócios que as determinavam. E, claro, os que habitavam o hemisfério sul, como Angolanos, Moçambicanos, Timorenses... aprendiam a mesma ordem embora eles constatassem que era ao contrário. O importante é que ficassem calados porque já era um privilégio a poucos concedido esse de aprenderem a ler, escrever e contar... Mostozinhos é como se queriam. Para isso havia os seus eficientes e eficazes encarregados de vigilância, que criaram em nós todos que vivemos tempo bastante nesse período, um estigma de medo, temendo por tudo e por nada que fôssemos chamados à pedra.
Num dia de Verão, dos anos sessenta, julgo que o de 68, cedinho, por essas 6h 30 min, aparece minha mãe alvoroçada no meu quarto que estavam lá em baixo na loja o senhor Domingos Campos, Presidente da Junta e o senhor Chico Manteigas, o Sarapião, Regedor que era ao tempo, que queriam falar comigo. O que é que eu tinha feito e tal e mais isto e mais aquilo e eu Nada, mãe, não fiz nada, então porque é que eles cá estão? e eu : sei lá! Já lá vou.
Acontecia que naquela noite, no muro do Marcelo, que entretanto tinha sido pintado de novo, apareceram, mesmo quando faz a curva a chegar à estrada, bem à vista de todos, portanto, uma foice e um martelo em tamanho razoável, num vermelho vivo e que isso era motivo de comentário logo àquela hora da manhã.
Levantei-me, passei água pelos olhos e aí venho eu: "Dá cá um abraço, rapaz, "disse o sr. Domingos Campos. Eu fiquei taranta, a minha mãe embasbacada e o Chico Sarapião abria o Século, O Diário Popular, o Jornal do Fundão e o Reconquista para mostrar o meu nome constante nas listas dos alunos das diferentes escolas do país que estavam no Quadro de Honra!
Eu nem sabia que isso existia e fiquei também como um basbaque.
Aos poucos acordei e pus-me a ler. Era o primeiro filho daquela terra que tinha o nome nos jornais de maior tiragem nacional e regional; era o orgulho da aldeia; era a honra da família; era o modelo de cachopo, mesmo mostozinho; era uma jóia de pessoa! Sei lá que mais... Deve dizer-se que os jornais naquele tempo só chegavam no dia seguinte ou passados dois: vinham na camioneta enrolados como um canudo e era preciso saber abrir para não serem rasgados. Alguns vinham dentro de uma cinta colados com massa de farinha que inevitavelmente o rasgaria se fosse aberto antes de chegar às mãos do legítimo destinatário. Eu, como era Mostozinho e os correios estavam lá em casa e a camioneta era ali que tinha a paragem tinha ordem para abrir os volumes. Um privilégio. Podia mesmo fazer as palavras cruzadas!
Depois daqueles elogios todos a minha mãe pediu os jornais e ao menos aquela folha e espetou-a na porta do correio. Mãe é mãe, não há nada a fazer, nem a dizer.
Sarapião chama-me então de parte: "olha lá, eu sei que não foste tu, mas diz-me lá quem é que pintou a foice e o martelo além no muro do Marcelo" e eu: "qual foice e qual martelo, onde é que isso está? " Vim à rua e vi. Lá estavam salientes os instrumentos da ceifa e do carpinteiro, esses mesmos, símbolos do Partido Comunista. «Não faço a mais pequena ideia,» disse para o Sarapião. De repente saio-me com esta: " se aquilo o preocupa tanto por que raio não lhe passou já tinta por cima ?" Nem esperou mais, foi-se ao ti Faustino comprou meio litro de tinta e um pincel e queria que eu borrasse as siglas: «Tire o cavalinho da chuva! não tenho nada a ver com isso e não sou seu criado.» Protestou, que me ia acusar ao meu pai quando o visse mas lá passou por cima a tinta branca. Só que o vermelho era muito forte e Chico Sarapião ficou ali a manhã toda a fim de ir dando demão após demão até definitivamente ninguém ficasse a saber que a população da freguesia que tinha sob a sua responsabilidade em termos de segurança era toda concordante com o Estado da Nação e não havia quem destoasse dessa Ordem.
Quando comecei a escrever esta crónica(?!) estava longe de pensar que Salazar iria ganhar o concurso(?!) do melhor português de sempre. Embora não tenha visto, vim a saber que foi por uma percentagem de 41% e com mais 20% que o segundo (outro estranho), Álvaro Cunhal.
Longe de querer fazer uma psicanálise deste fenómeno, sempre penso, todavia, que mais do que grupos organizados que, para além de se mobilizarem, mobilizaram ainda outros, o caso é que, se é verdade que o dito ditador jaz enterrado, ainda não está morto e os seus seguidores ressuscitam-no cada vez com força maior. A vingança serve-se fria e aqui está um bom exemplo... São mecanismos de compensação, assim uma espécie de sublimação não alheada de alguma fantasia, em que o prazer se associa a um certo masoquismo colectivo de gente, preparada e condicionada a uma ordem como que pré estabelecida, numa imitação de teleonomia. Tudo isto encaixado num cérebro de coordenadas cartesianas, habituado a ordem e segurança e a um imobilismo estático assente num conservadorismo atávico, inevitavelmente conduz a regressões em que se invocam algumas preferências e condições como os campos cultivados, a ausência de desemprego, a não proliferação de subornos, compadrios e corrupção, a segurança, enfim...
Sempre vos digo, e por aqui me fico, que é preciso estar alerta e não nos deixarmos embalar nesta modorra da indiferença, do faz de conta, neste país do mais ou menos.
Só vos aconselho: não sejais mostozinhos ou mostezinhos.

domingo, março 25, 2007

Bom som para BUER




Os barbudos são chapados pra buer. E para tocar? Filhos do diabo dos barbudos, a tocar e a buer ao mesmo tempo, rais os palirem...

sexta-feira, março 09, 2007

A NOSSA FALA - LXXIX - CARRICHO OU CARRITCHO

A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

ZECA

Faz hoje 20 anos, fui a Setúbal esconder-me no meio de uma multidão, no adeus ao trovador da liberdade.
Inté cantei...
Se soubesse tocar piano, se tivesse um piano, era bem capaz de lhe dedicar uma das suas baladas. O jovem do carrapito comprido fá-lo por mim. E por vós se quiserdes.

domingo, fevereiro 18, 2007

A NOSSA FALA - LXXVIII - MANDONGO(A);MANDONGUICE

Na nossa vida, circunstâncias há que, de forma inesperada, nos deixam cicatrizes que, noutras ocasiões, aparentemente sem nada a ver com o primitivo assunto, nos remetem para ele. Ficamos, então, a tentar deslindar porque raio é que aquilo nos veio à memória sem termos feito qualquer esforço, doutras vezes, ralamo-nos quanto baste tentando recordar um nome ou uma situação, e nada nos ocorre.
Foi cedo que aprendi: quando se encontra sem se procurar é porque já muito se procurou sem se encontrar. Às vezes andamos à procura do lápis e trazemo-lo pendurado na orelha... É a vida!
Vem isto a talho de foice do tema que hoje quero tratar convosco.
Comecemos por uma pequena história: Em tempos, um bispo de Lamego foi ministrar o Crisma a uma aldeia - ainda havia aldeias naquele tempo que merecessem visita pontifícia - .
Sabido como é que os bispos gostam mais de (se) mirar na reluzente superfície dos seus Paços, e são muito avessos a poluir os seus sacrossantos sapatos a condizer com a vestimenta - não seguissem eles o exemplo do máximo bispo, professor Ratzinger, que só veste e calça Giorgio Armani- raras eram e são as saídas dos episcopais aposentos.
Neste particular aspecto o papa anterior foi excepção...
Bom... mas o bispo entabelou uma conversa com os crismandos e queria saber o que significava o Crisma; um dos cachopos bate na cintura da mãe e questiona-a:« ó mãe, digo?» e ela:" e tu sabes?" e ele:« sei, mãe.» , "então diz"... O rapazote levantou o braço e apontou, qual torre de catedral gótica, o indicador ao céu, o bispo dá-se conta e interpela:«ora ali está um menino que nos vai elucidar..."O santo sacramento do crisma significa que nós passamos a pertencer ao exército da santa madre igreja apostólica, católica, romana»! Apressa-se a dizer o prelado: " Eu não diria melhor... e como chamamos nós aos soldados que viram as costas ao inimigo?" aí o garoto nem se deteve: « UM CAGÃO, SENHOR BISPO!» Assim mesmo.
Mário Zambujal em "A Crónica dos Bons Malandros" ao lado do Silvino Bitoque e do Doutor, tem o Caga d'Alto. Os marmanjos que o nosso bom povo apelida de mandongos são assim como que um cozido destas figuras: batem e fogem. Mamam até que haja leite, escondem-se e riem-se dos que, por dever de ofício, chegaram tarde porque não são gulosos e sabem respeitar a vez e as oportunidades.
Um desses apareceu-me um dia: queria mama!Eu só lhe disse:" os malandros para mim, têm que trazer um pêlo na palma da mão"..Ficou a olhar para mim e eu pensei: "vinhas por lã, mas vais tosquiado", não querias tu mainada do que"ensinar a missa ao cura" ou 0.
" ensinar a estrelar ovos à tua avó"; esqueceste-te"que o diabo sabe muito, porque é velho"; olha o mandongo! "Vá mas é mamar na quinta pata de um cavalo"
Em toda a parte - desgraçadamente na política e nos governantes, acentuadamente - há destes artistas que comem sempre " à pála " e que querem - muitas vezes conseguem - fazer dos outros "otários".
Há-os e houve na aldeia. O pior não são eles: é o povo ceguinho, endrominado, que não os enxerga e embarca pacoviamente no seu palavreado. Esses pantomineiros da palavra enrolam o povo néscio com sacos de plástico, um isqueiro, uma caneta e uma avental de plástico... em troca só querem uma cruz em quem os representa e eles representam.
A um desses pus eu um dia esta questão no meio de um grupo de malta ali no largo do Zé Rolo em frente do inefável café da Rosa: "sabes como se distinguem os caracóis machos dos caracóis fêmeas?" Ficaram todos a olhar... Tentou iludir a questão:« e tu, sabes distinguir um formigo duma formiga?» "Sei : agarro os animais pela patas e abano-os: os que baterem as bolas são machos, os outros são fêmeas". Ficou descalço, mas os circunstantes atalharam-no: "vá lá...responde lá ao Changoto... ANDAS AÍ SEMPRE FEITO PAVÃO, ANDA, DESENCULATRA LÁ ESTA!" Que não, que não sabia... confessou... «Então ficas a saber, meu mandongo de trazer por casa: agarras numa saca deles e espalha-los no chão. A seguir, sentas-te em cima deles: os que te forem ao cu são os machos». Abalou estrada acima e só apareceu no outro dia.
Sempre vos digo: «Para bom entendedor...»
É que os cagões não só os que fogem, são também os pavões! Se vos pondes debaixo apanhais com as bostas...
Como me dizia o velho Comandante:" Vê bem, antes de saltares".