quarta-feira, dezembro 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLXI - ALAGOSTO OU ALAGOADO

O tempo é inexorável. Não se pode chamar o detrás. O que passou é irrepetível. É por isso que o tempo, sendo, nunca é. A mobilidade é a sua característica maior. Mas, hélas! em tudo o que se move, algo permanece estático e em tudo o que repousa algo se altera. Na verdade, o passado já não é, e o futuro ainda não está, logo, um já não existe, e o outro ainda não faz parte. A efemeridade do presente conduz inevitavelmente ao ponto - aquela dimensão que não tem extensão mas sem o qual não seria possível a recta, depois a superfície e a seguir o volume. A tridimensionalidade, afinal, aparece da inextensibilidade.
A polémica entre a realidade experiencial, material, empírica, mensurável, configurada, representável em figuras num plano, embatia numa outra: a realidade ideal. Esta era perfeita, modelar, única, sem dimensionalidade, conceptual, eidética, original e sem defeito já que imperfectível, eterna, paradigmática, enfim, hiperurânia.
A dicotomia e, depois, a harmonia dos contrários perpassaram a história do pensamento humano: bem/mal, direito/esquerdo, vida/morte, sono/vigília, .../..., céu/inferno, deus/diabo, dia/noite/,... e ainda hoje permanece.
Se hoje fossem vivos, esses grandes vultos do pensamento humano, cujas referências ainda hoje se invocam, se hoje fossem vivos, dizia, ficariam pasmados: afinal a realidade nem é real nem ideal, é virtual. O que é e o que parece, finalmente, fundiram-se: a nova metafísica reduz-se ao electrão. O tempo e o espaço quase se colam: acontece no Japão, eu vejo em casa, tenho falta de dinheiro? em dois minutos sou milionário,...
Em tempos que já lá vão, ouvi explicar que tinha havido um milagre grego, no sentido em que a qualidade e quantidade da obra produzida na Atenas de então eram de tal monta, que não tinham explicação possível.... Deu-se-lhe o nome de milagre grego (a eles que o que mais que queriam era acabar com os milagres na criação!) ! A incongruência reside no facto de que o que os gregos pretendiam era exactamente varrer as entidades divinas da criação do mundo e por isso elencaram uma série de causas a que chamaram ARCHÊ(s), princípios primeiros, causas encausadas, origem de tudo quanto existe e por isso há pinhos e eucaliptos, macieiras e sobreiros, corvinas e chernes,... É a unidade no seio da multiplicidade, ou se preferirmos, a multiplicidade derivada de uma origem comum: fosse a água de Tales, o indeterminado de Anaximandro, o ar de Anaximenes, o fogo de Heraclito, o Amor e o Ódio de Anaxágoras, o número de Pitágoras, os quatro elementos de Empédocles, (...) a verdade é que o elemento criador era um dos elementos da natureza. O natural originava o natural e o sobrenatural era de outra dimensão, portanto, não metia no mundo e suas variações, nem prego nem estopa.
Perguntareis vós a que raio de propósito vem esta lenga-lenga, mas as ideias, como as cerejas e as palavras num discurso colam-se umas às outras. Às vezes saem em catadupa, amontoam-se à saída e é difícil contê-las originando profusão de informação, o que conduz à perda de nexo e, logo, à liquidação do objectivo. Há, pois que conter a verborreia!
Para esse efeito temos por aí quanto baste, desde Sócrates, Socretinos e afins, até outra mão cheia de pregadores sem púlpito, mas que nos entram em casa se lhes franquearmos a porta. Basta um click!.
É princípio de decência em todos os domínios da acção humana que não se pode ser mais papista que o papa. Não se pode ser alagoado, lampeiro. O velho Comandante - há quanto tempo não trazia aqui o meu velho avô, mestre inexcedível em matéria de saber empírico - tinha uma expressão impagável: "quem não sabe tocar corneta que não se meta."
Olhando em redor o que vemos é uma plêiade de incompetentes a mexer onde não sabem e, claro, a ditarem ordens quando o que deviam fazer era "estar quêdos!".
Constatamos que aquilo que mexe connosco está nas horas da amargura e os tais iluminados que nada têm a ver com os gregos de que acima vos trouxe memória, insistem que é a única alternativa. Porquê? porque são alagostos. Não sabem tocar corneta e arranham em tudo: ele já foi ministro da cultura, da educação, dos assuntos parlamentares, ajunto do primeiro ministro, porta voz do governo, ministro da defesa, bolas! que mais?. Isto não é um homem, é uma invenção! Como dizia um velho amigo transmontano ::SACODE!
Nada de estranhar neste rectângulo, porque quem nos representa raramente tem dúvidas e nunca se engana. Assim vamos indo, cantando e rindo, levados, levados sim,...
Ninguém entre os xendros de então se comparava a Velho Jonja, cachopo canho, ligeirinho no andar campeão na fisga, imbatível no jogo do pinoco, defesa esquerdo na bola, artista maior na arte de engudiar e armar costil, poço sem fundo em matéria de conhecimento da valdevinagem de então. Lia a Flama, o Zíngaro, a Crónica Feminina, Caprichos, Zaida, Século Ilustrado (...)e era impenitente devorador de tudo quanto fosse programa de futilidade. Sabia tudo de todos com uma profusão de pormenores que, quem quisesse saber personagem de novela, artista de nomeada, filiação ou paternidade de vedeta televisiva, horas e locais de espectáculos, honorários e prémios, concursos , filmes de cowboys, que sei eu, todos os intérpretes da música francesa de então com os títulos das canções e até algum traiteio, quando o título não fosse bastante, ... Sempre bem penteadinho, aprumado no porte, sapato de atacador sempre bem apertado, casaquinho ou colete justos, e o seu constante: « Tão!, tão!, viste ontem o filme do flecha quebrada?, tão!,tão! viste o Laredo!, tão!tão, viste o bonanza,...tão!, tão!.?
Até parece que ainda agora o oiço a imitar a música do Bonanza! era ele e o Chquim Jolim da pata branca. .. Outros tempos!
Quando eu estava para elas, aos Domingos à tarde, no adro, a assistir a três dôques e chquim cachiço a jogar à cavaca, metia-lhe veneno:" Oh Jonja, um dos cinco violinos era o Matateu, não era?" « Você é uma besta! Matateu era do Belenenses e os cinco violinos eram do Sporting!» Vasques, Travassos, Peyroteo,...» "Pronto,! " Mas o Joe Pequeno era dos Robin dos Bosques! « Não no era, era o irmão mai novo dos Bonanza com o Adam e o Hoss!" Era uma tarde de cultura era o que era!
Duma vez decidi-me mesmo a provocá-lo a sério:" Olha lá, ó Jonja; Quando é que uma rolha de cortiça flutua no vinho?" O Jonja ficou apanhado porque isso não vinha na crónica nem na flama, nem... E o Jonja:« e que me importa a mim isso? Sabes quantas cantigas vão ao festival, sabes? Calma, aprende lá esta : a rolha de cortiça flutua no vinho quando lá a pões!" Isto é para não seres tão alagosto!"
Abalou com umas trombas que nem um barraco!
XI GGGRRAAANNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

domingo, outubro 24, 2010

A NOSSA FALADURA - CLX - BOIEIRA

Não sendo muitos, sempre foram alguns de que me lembre, os chamados "negociantes", por terras xêndricas. Nenhum se sobressaía aos outros e, muitas vezes, até faziam sociedade. Lembremos uns quantos: Zé Labouxa (o tal que descobriu o ninho à mouxa =mocha - fêmea do mocho), ti Chquim Vaz, pai de Alberto, autêntica esponja vinícola, que todos os anos moía com a sua mansa junta a azeitona no lagar da Lameira.
Que pena ter-se ido esse lagar!
Tenho visto muito lagar de varas mas nenhum como esse: nem em localização, nem em espaço, nem em lagareiros, nem em qualidade do azeite espremido, nem em convívio, nem em robustez e perfeição de construção. Uma beleza na arte e técnica de fazer azeite.
Já por mais de uma vez me fiz aqui eco dessa riqueza de aldeia que vai desaparecendo aos pouco por debaixo de bosta de galinha, peru e afins... assim se estraga o nosso passado histórico.
Mas voltemos ao tema da BOIEIRA e dos "negociantes": Ainda havia o Ti joão Valente, pai do amigo Zé Cadete que visitou Nova Iorque a bordo da Sagres, o Tonho Augusto, pai de Zé Augusto, marido da Rosa do Café, o Zé Branco e mais uns quantos que esporadicamente também se dedicavam a esta vida, mas não com a frequência dos que citei: Manel Guerra, o Geba e seu irmão Domingos, o Vigura, às vezes Miguelito e, mais tarde a dupla de sucesso nestas andanças, meu tio Tonho Cunha e Zé Cigano.
Corriam os mercados e feiras da raia e viviam dos negócios que iam fazendo. Era vê-los de jaqueta ao ombro e a indispensável boieira, bem presa com alfinete de dama, no bolso interior.
Burros, machos, vacas e vitelos, rebanhos inteiros, tudo negociavam e pagavam a pronto: sacavam da boieira e de lá retiravam as "notas". Um burro valente, manso de dente são, alto de joelhos, crina reluzente, bem arreado era animal para umas quinze notas, o equivalente nos tempos de hoje a sete euros e meio. Exacto: um conto e quinhentos ou quinze notas que era a unidade de negócio e valia cem escudos cada uma. Tinham a efígie de D. Afonso de Albuquerque e pareciam um lençol.
A contagem das notas e a consequente passagem de uma mão para a outra tinha um ritual: Sacada a boieira, essa enorme carteira em cabedal, bordada e com dois rasgos protegidos por duas películas de casquinha onde estavam a mulher e os filhos em fotografia, as notas começavam a ser puxadas uma a uma, esfregadas entre o indicador e o polegar, confirmando se não iam duas de uma vez a troco de uma cuspidela nos ditos dedos e: "Promeira","Sgunda", três, quatro, cinco... "Conte lá a ver se lá tem cinco que ele fez-se para se contar". Conferida a mais que revista enumeração, voltava-se ao ritual: Promeira, Sgunda,... até terem passado as quinze notas de uma boieira a outra.
Ao fim, é claro, havia sempre o alboroque. Todos os negócios eram feitos com alboroque, ao fim. Era o fechamento do contrato.
Duma vez Chquim Vaz viu-se negro com um cigano: vendeu-lhe uma burra já quase cega, bem tratada sem dúvida, mas de aparência desleixada. Passados quinze dias, na feira da Zebreira volta a encontrar o cigano e negoceia com ele uma burra. O cigano bem dizia: "é um belo animal embora num tenha vista, mansinha como a terra, sabe lavrar, andar para trás com a carroça e chega-se ao batorel para as mulheres se poderem montar...mas num tem vista" Chegam a acordo por oito notas, Vaz traz a burra na camioneta do Balhau e mal a descarrega na Lameira a burra mete-se a caminho direitinha ao palheiro. A ti Ana mal a viu: "Olha a Boneca". Chquim Vaz nem estava nele, praguejou, amaldiçoou o cigano e volta à Zebreira, mas cigano viste-o! Lá tirou inculcas e consegue saber que vivia em Segura... Lá vem com Balhau e Boneca, acaba por encontrar o cigano e ia-se a ele... O cigano:"calma... Eu num o enganei... Sempre lhe disse que era um belo animal mas que num tinha vista. " Chama-se a guarda, confirma-se a versão do cigano e o veredicto foi que não foi o cigano que o enganou, mas ele que se deixou enganar pela beleza do animal. Vaz roía uma travisca de giesta e diz para o cigano:"Torno-te a burra por cinco notas" O cigano agarrou nas cinco notas e tornou a ficar com a burra. Vaz andou uma semana sem dormir: a pensar que tinha ganho na venda da burrica acabou por perder três notas na torna e mais duas e meia que teve que dar ao Balhau pelo frete, fora os copos que bebeu para abafar a mágoa.... Vidas!
Tardou a ter outra vez a boieira cheia.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAANNNNNNDDEE

sexta-feira, outubro 08, 2010

A NOSSA FALADURA - CLIX - CHÓ OU CHOCHE

Que me lembre foram dois os burros mais famosos da Aldeia dos XENDROS: por encima de todos a burra do vellho Freitas, a quem só faltava escever e falar, o resto sabia tudo, dizia ele, que tinha o palheiro para a besta , ali na rua do Outeiro a dar para os Cabeços, quase pegado com o Chquim Gonito. Segundo o velho Freitas, a quem já conheci de bengala, mais para lá do que para cá, era a burra que o despertava, manhã cedo, para acender o lume para a ti Emília pôr os feijões a cozer, para a bucha da manhã.
O outro burro, este, mesmo burro, inteiro, ruço, orelha afitada, alto, macho assim mesmo comédado, possante, emparelhava com novilha no carro de Zé Luís Barata.
Foram muitas as vezes que lidei com ele, mormente quando ia apanhar caruma para os lados da serra, a dar vistas para a Bemposta, nos pinhais do professor Tanganho e do Silva da Santa Marta, ou, se preferirmos, Cum filhode puta, senhor que era do mais que famoso tractor fiat azul de motor à vista. ... Grande máquina... Este animal de nome 'Estudante', tirando o mês de Março em que a reprodução burreira impedia função que não fosse a do acasalamento, era duma mansidão e trato incríveis. Em Março, todavia, Zé Luís via-se aflito para o conseguir suster no palheiro. Foram muias as vezes que rebentou com a corda que o prendia à manjedoura e que com as patas escavacou a porta de entrada . Mesmo Zé Luís, nessas alturas, só conseguia pegar-lhe à noite, até que decidiu prendê-lo com corrente de ferro e freio justo no dente, cossenão o bicho deixava de conhecer o dono e tornava-se bravo que só visto.
O sexo e a reprodução , como dizia o meu querido amigo Lameiras, "tinha lá porras".
Ainda hoje habitam a aldeia netos do Estudante.
Havia outros asinos de qualidade, alguns de nomeada, fosse na jeira da lavra, no acomodar ao batorel para as donas se montarem de cernelha na albarda, na habilidade a andar para trás com a carroça, no ritmo cadenciado de tornar e tornar em volta da nora de olhos vendados, na força com que ferravam os cascos a puxar os carros com os moios da semente por alturas da acarreja,... Havia até alguns que serviam de guias a um par de cabras e umas quantas ovelhas conduzindo-as, sem o dono a acompanhar, até à Quelha Funda, ao Carregal, ao Ribeiro Cimeiro, à Lameira da Pinta, às Portelas, ao Batcharel e a mais sítios que não vem aqui ao caso. Podemos citar o burro do Rogante, imponente, que mais parecia um mulo, a junta do Júlio Aspirante, e , claro, a não menos famosa burra do Zé Borges, fidalga, que até tinha um papel de celofane verde a tapar a testeira durante o Verão, "por mor do Sol" , que nunca comia palha e chegou a trazer fraldas quando Borges queria os cagalhões para semear os alfobres. Era lavada e escovada por D. Isabel de 15 em 15 dias. Ficava a alumiar.
Estudante nunca se serviu desta donzela, que Borges guardava-a em bom recato por alturas do cio e se tinha que sair com ela, informava-se antes por onde Estudante vagueava...
Duma vez me lembro eu que o burrico do João Rela, por metade do Estudante, mas inteiro como ele, apesar de preso à ferradura do Ti Zé Júlio, enquanto a ti Isabel fazia a troca da semente pela farinha, mandou dois escritos, atirou com as angarelas ao ar, arreganhou os lábios, aferranhou os dentes e atacou a impecável burra de Borges, mostrando toda a sua membral pujança e espetando com Borges no chão no intuito de satisfazer apetências que não obedeciam a qualquer moral.
Fotografia não tenho mas imaginai o que foi um burrico de metro e dez a querer possuir uma burranca de metro e setenta.
Um fado foi o que foi e o povo a rir e a gozar à farta, Borges a praguejar e Isabel quando vem à porta e vê o estrago, deita as mãos à cabeça e « rais palira o burro e a mais o zé borges que tinha tanto caminho para passar e logo veio por aqui para me desaustinar o Mimoso. Pouca sorte a minha»
Bem que gritavam um e outro, "CHÓ BURRO, COCHE BURRA, CHÓ BURRO, CHOCHE BURRA. Nada.
Borges, que até tinha estribo na albarda, apreciava os estragos, sacudia o casaco que usava mesmo no pino do Estio, praguejava por ter sujos os sapatos reluzentes, apreciava as palhas no impecável chapéu verde garrafa, que tirava com esmero, mas não se metia no engate de Mimoso com a sua Felosa.
Lá fui eu, mais coiote pete e três dôques a ver se resolvíamos a contenda. Valeu que as rédeas eram compridas e, armados de cacetes jeitosos, lá puxamos o Mimoso que espumava e afastámos a Felosa que se tinha posto a jeito mas nunca se amagou a pontos de a cópula poder ter acontecido. Ficaram os dois mal e o mais satisfeito era Zé Borges que assim mantinha intacta a sua Felosa, lavadinha e perfumada por D. Isabel e com estribos na albarda.
Agoras sempre vos digo que burra sofrida era a de Teixeirinha que lhe metia silvas debaixo da albarda para andar sempre a galope e burra mansa como a terra e que fazia tudo o que eu lhe ordenasse era a da minha avó. Nunca lhe bati, bastava que lhe falasse e ela cumpria. Ia com ela para todo o lado, mas sempre a desaguava com umas águas ludras de vianda com farelo e , pronto, tinha o que queria dela. Se dissesse "CHÓ" estacava, Se dissesse "esquerda," parecia um soldado fiel.. Foram muitos os sonos que dormi a cavalo nela porque tinha absoluta certeza que, a partir do momento em que a virasse para o caminho para onde queria ir, ela lá me levava e parava só debaixo da figeira curiga que por lá estivesse...
Grandes animais...Estes sim, mereciam confiança...
Para bom entendedor...

XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAAAAADDDDDEEEEE

sexta-feira, outubro 01, 2010

COLHEITA DOS GATCHOS 2010

Confira-se aqui como foi em 2008

Confira-se aqui como foi em 2009


Agora, deguste-se 2010:


CARDÁPIO


TRASEIRO DE CERDO BEM CURTIDO EM SALGADEIRA À MANEIRA
E APRESENTADO EM ALTAR MADEIREIRO, JUNTO COM AÇO CORTICEIRO

LASCAS REDONDAS DE ENCHIDO MAGRO CORTADAS A TODO O LARGO
BICAIS OLIVAS, A MERECER "VIVA"

ARREDONDADA ESTRELADELA DE PEIDOS ENCASCADOS BATIDOS
COM ACOMPANHAMENTO DE VÁRIOS TIPOS DE ENCHIDOS
PIMENTOS DE VÁRIAS CORES
E ERVAS DE TODOS OS SABORES

OUVIDOS DE TÓ COZIDOS, MIGADOS E TEMPERADOS A PRECEITO
COM COENTRADA, BOLBO CHOROSO E O MAIS QUE VIER A JEITO

CALDO BASTO LEGUMINOSO DE FEIJÃO ENCARNADO
COM MASSA MANGA DE CAPOTE E DE COUVE ENFEITADO

JAVARDA PEQUENA EM CAÇOLA ARGILOSA
DEIXADA DE MOLHO PARA SER MAIS GOSTOSA

CABRINHA FORRA DE MEIA IDADE, POR TAL SINAL,
QUE NEM A QUEM SOFRA DO ÚRICO FAZ MAL

CICLISTAS, LENTILHAS, GRAVANÇOS, FEIJÕES
E TUBÉRCULOS ASSADOS E ESMAGADOS AOS MURRÕES

CASQUEIRO FORNEIRO, LEITE ESPREMIDO E FERMENTADO,
TINTO, BRANCO E DEMAIS LÍQUIDOS, TUDO DO VERDADEIRO

QUEM QUISER FRUTA ENCHA A BLUSA AO COLHER
OU TREPE À FIGUEIRA E COMA OS FIGOS QUE QUISER
DIXIT ET SCRIPSIT

NIHIL OBSTAT

IMPRIMATUR



mainada!






domingo, setembro 26, 2010

HABEMUS PATREM

XENDROS, CUCOS, ARANHIÇOS E BARRENTOS (principalmente) têm à sua disposição um novo Pároco, a partir de hoje, baptizado como Joaquim António.

O Baságueda deixa aqui os mesmos votos de há cinco anos atrás :
que apascente o seu rebanho comédado.

segunda-feira, setembro 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CLVIII - GALFARRO

É típico das diferentes gerações, cada uma de per se, considerar que a que vem atrás de si " nunca sabe o que custa a vida".


Ouvimos a geração derradeira clamar que a malta nova precisava de fazer uma dia de ceifa, um dia de malha ou de acarreja, ou mesmo de plantio de batatas, quando não, preparar em condições, uma terra de horta. « Aí é que eles aprendiam..!»

E continuam: vale mais uma quarta classe antiga do que o "quíntimo " ano agora. Esta canalha é só galfarrada, não sabem nada, brincam com aparelhagens, sabem de cor ir para aqui e para ali a viajar mas se lhe perguntamos a diferença entre o sobreiro e a azinheira, especam-se: " isso interessa a alguém?" e insistem: nem sabem as linhas de combóio, nem os sistemas das serras, nem as províncias de Portugal, nem os rios e seus afluentes de cada uma das margens, não sabem nada... Quando indagados acerca da utilidade desses conhecimentos.... , alguns nunca tinham visto o combóio, outros, de água corrente só tinham visto a ribeira xêndrica e suas enxurradas e de serras sabiam qual a Estrela por mor da neve, que é bem visível das terras xendras e é a culpada de um sem número de geadas e de alguns invernos prolongados.

Duma vez me lembro eu de uma batalha entre os galfarros da estrada, entre os quais estava eu, filho do chico mainovo, tonho cavalheiro, celestino grande, mnechquim rela, zé verniz, chquim pitincouro e os galfarrões do cavacal: zé solipa, filho da maripcanina, carpinteiro exímio que é hoje, a ombrear com riconho, zé espantado, tonho peidorreiro, tonho raposo, tonho bate sacas, tonho macho, domingos faquinha,... foi uma luta sem tréguas, cada grupo de cada lado da ribeira a aventar água misturada com gelo e a regarmo-nos uns aos outros, isto, deve dizer-se, em pleno entrudo, Março findo, Abril a assomar...

Razão têm os menos novos de hoje quando dizem que já nada é como era. Nem a ciclicidade do tempo... Se hoje fosse vivo, nunca Homero teria descrito o mito do eterno retorno, esculpido no escudo de Aquiles com a regularidade que se verificava naquele tempo. Se há cantos que valha a pena reler é este do canto XI da Ilíada do excelso vate grego, cego. Também já não se escreve assim... Outros tempos...

Galfarros sem escrúpulos foram todos os cachiços: zé, tonho, chquim, lurdes, todos adeptos da velha prática ,descrita por Camilo em A Brasileira de Prazins: "aquilo era olho que vê e mão que pilha"...

O mais vergonhoso e desumano que acontecia a esta rapaziada - galfarros- era que tinham que correr as ruas de aldeia, algemados, com o 'senhor' regedor à frente e o 'senhor' presidente da junta, á altura, Domingos Sarapião e Domigos de Campos, respectivamente, que assim queriam chamar a atenção que "os gatunos caem sempre nas malhas da justiça". Galfarro do mesmo jaez dos cachiços era o Salazar, nome que assentava na perfeição ao João, mas caía mal ao Chico, bombeiro honesto, ambos filhos de velha Natcha, cunhada de velha Lorpa, vedeta da crónica passada com seu filho Tonho Félix, que um dia, ludibriada pelos grandes estrategas da aldrabice, e que deram curso a muitos galfarros - Mné Freitas e Zé Luís Barata -se aperaltou para ir à Rádio Renascença a falar com o Sr António Sala e a mais com o seu inseparável adufe, arma musical em que rivalizava com Marijulha do Toco, insuperável, com Amália do Alfácea. Outras músicas, outros tempos, outros valores...

Os grandes educadores destes tempos, que ora vos trago, eram os pais... Bastava um olhar esguiado do paterfamilias para tudo andar alinhado,... a escola completava, muitas vezes à base de bordoada de deixar mazelas, como aconteceu ao Zé Pedro, filho do alfaiate, que ficou com uma 'bola de cotchu' nas nalgas do assentamento frequente e forte de que foi vítima porque não sabia a tabuada do quatro. Tinha lá porras, a escola para a galfarrada daqueles tempos... e tinha que decorar as linhas do combóio!....!!!!! mesmo sem nunca o ter visto, quanto mais experimentado.!..

Se calhar foi por isso que eu, galfarro fino, pedi ao meu pai que me trouxesse a Castelo Branco a ver o combóio... Queria que eu o visse das grades! .. que não, disse eu, quero lá ir dentro... obriguei-o a comprar bilhete de gare - quem ainda se lembra deste conceito ?- e lá percorri uma carruagem inteirinha. Valeu ainda que apareceu o Luís Batatas, Aranhiço, e sub chefe da estação, que ao saber da exigência como prémio da quarta classe, me levou até junto do maquinista e pude ver tudo. Pediam pouco os galfarros daquele tempo...

Vai lá vai... nos tempos que correm.... Outros galfarros!

Xi GGGGGGRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNDDDDDDEEEEEEEE

terça-feira, agosto 17, 2010

CLVII - A NOSSA FALADURA - TORA

Não se pense que falamos da Bíblia judaica...A TORAH, livro sagrado por excelência para o judaísmo e, sobretudo, os famosos livros do Pentateuco (Penta=cinco e Teka -armazém,arquivo), a saber: Génesis,Êxodo,Levítico, Números e Deuteronómio, os únicos cinco directamente revelados por Deus a Moisés.
Não é dessa Torah que hoje tratamos...
Nesta altura do ano já se descamisava muito milho ratinho nos lastros dos balcões graníticos.A vizinhança , depois da janta, juntava-se e, todos juntos tiravam o folhedo ao milho e punham a nu a maçaroca que depois acabava de secar num panal que era recolhido todas as noites por mor da orvalhada, que na aldeia dos xendros era sempre farta, dada a sua cota baixa.
Não era só o milho que era descamisado. Também as primeiras vagens secas do feijão que havia de durar para todo o anosofria do mesmo afã.
Júlio Dinis descreve exemplarmene esta faina agrícola na Morgadinha dos Canaviais e, se na xendrice não se davam beijos quando surgia uma maçaroca de milho-rei, pelo menos, o bafejado disso fazia alarde.
Local por excelência era o balcão da Tonha Costa, ali mesmo no largo da paragem das camionetas, pois ficava mesmo por debaixo de uma lâmpada de iluminação pública e era largo quanto baste para dez pessoas ali compartilharem trabalho antes da deita. Muitas noites ali estive eu também com um pau aguçado para furar alguma camisa mais húmida e fosse resistente ao desfolhar de cada uma das folhas até chegar à maçaroca.
Falava-s de muita coisa mas não de bola, nem de"gajas" nem doutras futilidades que tais. Assuntos sérios a maior parte das vezes, sem que, de vez em quando não surgisse por ali alguma historieta brejeira, não raro com alguma malandrice inocente pelo meio...
Às vezes aparecia por ali o Tonho Félix, filho de velha Lorpa e que era o único varão xêndrico que acartava a água no cântaro de barro à cabeça, sem o auxílio das mãos e sem molídia. O barro assentava directamente no cocuruto da cabeça de Félix. Quer ele, quer a mãe andavam sempre descalços e lembro-me dos pés da velha Lorpa que eram quase tão largos como compridos,devido ao tamanho descomunal dos joanetes. Pisavam silvas e os carapetos não entravam naqueles cascos (perdoe-se a força da expressão).
Na escala de inteligência de Binet, muito provavelmente Tonho estaria com 55 a 60 pontos de Q.I., o que o situaria no degrau do parvo e é consabido que quando se socializava, de imediato era o alvo das atenções e servia de bobo. O ser humano é mesmo assim: o que importa não é a pessoa,mas o defeito da pessoa e sente um prazer inefável a gozar com a inferioridade do outro: se um indivíduo tem a triste sorte de ser marreca, o mais não interessa, mas é o marreca para todos.
Tonho não era senhor de uma chiba muito acentuada, mas dava para perceber que tinha uma pequena concertina às costas.
Eu não era melhor que os outros e uma noite meteu-se-me na cabeça atentar Tonho Félix:
-O Tonho, de dia está calor como um corno e tu podias ganhar uns trocos se à noite fosses cortar as maçarocas das canas. O milho já está todo desbandeirado e as canas deixava-las lá que depois o Vigura logo as ata e as traz. Nós aqui só precisamos das maçarocas.
- Tu num vês que de noite stá escuro como o alcatrão?
- Eu empresto-te o meu cágado... e arranjo-te uma bucha num bandoleira como tu nunca viste: um pão de quilo, uma cabaça de vinho, uma tora de toucinho februdo, e outra tora de chouriço paio do ano passado e um grande naco de queijo.
- Tu és parvo,pra que queria eu o cágado? (Os outros também parvos a olhar para mim sem verem onde é que isto ia dar).
- Levas um coto duma vela e uma caixa de palitos. Quando já não vires riscas um palito na lixa da caixa apichas a vela, botas uns pingos de cera na casca do cágado, pões o cágado no chão e, como ele anda devagar, tu tinhas tempo de ver a maçaroca na cana, de a esnocar e meter para a saca.
Tonho não ouviu mais nada, sai disparado a rosnar e os outros , vá lá, só depois dele desaparecer, é que comentaram e se desmancharam a rir
- Um raio ta palira, garoto do diabo, és tchapado... Onde é que foste a buscar essa do cágado... um raios ta palira!
O Sr. S. Bartlameu vem aí... A descamisa já não se faz e a festa rija em honra do orago também já foi coisa doutros tempos. Já não há maçarocas e os frangos para o leilão e as belas fogaças já estão em extinção.Nem já para as merendas se levam toras de toucinho februdo ou de morcela ou chouriça,.
Vale o baságueda para rememorar...
Ainda no tempo do Padre Pinto - Que repouse onde merece estar...- fui eu o leiloeiro. Aquilo esteve valente e os mordomos nunca tinham visto tanto dinheiro e disseram ao Padre Pinto
-O Rapa a unha, vai ali para a adega e come e bebe o que quiseres com quem quiseres
Eu fui e agarrei uns poucos. A loja tinha por lá umas abóboras meninas e como os vi meios tocados, enxertei um garrafão do Chquim Bargão e parti uma botelha, pus numa travessa
: Vá lá... comei aqui um melãozito... Dois ainda roeram e apenas disseram que tinha falta de doce...
Outros tempos, outros passatempos.
Se estais de férias que sejam mais doces que as botelhas.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNDDE

quarta-feira, agosto 04, 2010

A NOSSA FALADURA - CLVI - ARTESA

Serão muitos poucos os xendros que se lembram deste termo. Os tempos passam e com eles a memória se esvai. Vão longe os tempos em que os animais conviviam paredes meias com os seus donos. A chamada loja servia de casa de banho para todos, principalmente para as mulheres que se viam e desejavam para ir aviar a vida. Deve dizer-se que o mais mal cheirososo de todos é aquele que traz consigo o nome, mas, em contrapartida é o mais saboroso e aquele que é aproveitado do rabo até à ponta do focinho, ou tromba, se preferirdes - o porco.
Era para ele que se guardavam todas as águas sujas e se formava a vianda... Os vizinhos que não tinham como criar tal bicheza, esses, guardavam também as sobras e despejavam no caldeiro dos que tinham, contando que, na altura da matança, lhes coubesse um naco de febra que aumentaria o paladar da couve tronchuda.

Conhecida é a história de o porco chamar burro ao burro, pois então:"és mesmo burro... o nome assenta-te na perfeição... Passas a vida a acarrejar comida para mim, que só como e durmo..." Pois é, espera pelos Santos ou pelo Natal e depois logo te conto... Contigo já são catorze os que aqui conheci e eu ainda cá ando. Enche bem o fato que quanto mais pesares mais te louvam, com a faca espetada na barbela... vai grunhindo, vai...". Anda sorve a artesa (=pia) bem sorvida.»

Como o porco também nós vivemos de ilusões. Iludimo-nos com a efemeridade de algo que nos correu bem e somos sempre heróis por culpa própria em todas as histórias em que somos intervenientes. Os outros são sempre mais burros que nós. Ou julgamos que são. Puro engano...

Passamos a vida a considerar qe as ilusões que nos impingem são as maiores verdades e nunca, ou raramente, pomos em questão a seriedade dessas verdades: só assim, à laia de amostra, já algum dia vos questionastes acerca de a alma existir ou não? Por que carga de água havemos de ser duais: corpo e alma? por que raio há-de esta ser imortal e aquele mortal? Não será mais razoável entender a imortalidade como a lembrança dos antepassados na memória dos vivos? Quero dizer, por exemplo, que os meus pais são para mim imortais porque enquanto eu viver os recordo e à vida que me proporcinaram, mais aos tempos que com eles convivi. Aqui é que está a imortalidade e não numa crença sem sentido racional, mas que se enraizou numa tradição cultural com tal força que se tornou lugar comum e portanto padrão cultural indiscutivel. Ilusão? Temos legitimidade para assim pensar.

Recordo aqui uma cena: foi apresentado um elefante a três cegos... A um deram-lhe para apalpar o rabo e ele disse,: o elefante é como uma corda... A outro possibilitaram-lhe que percorresse o dorso e: "o elefante é como uma parede..., ao terceiro colocaram-lhe as mãos numa pata do paquiderme e ele: "o elefante é como uma coluna,...

São assim as nossas convicções quando não as fazemos sofrer o efeito do crivo criterioso: julgamos que a nossa verdade é a única verdade...

Perdoe-se-me a ousadia da alegoria: sorvemos tudo o que nos vão pondo na artesa e como não saímos da pocilga da loja, até julgamos que não há outra comida diferente da que nos dão. Sorte a do burro que sempre arrisca uma vergastada, mas rói a folha viçosa da parreira, quando não mesmo se refastela com uva madura ou maçaroca de milho grada, iguarias que nunca passarão pela artesa do tó. É caso para parafrasear Luísa de Gusmão: "antes burro toda a vida do que porco por um ano".

Que conte dos anais da inteligência bacoreira resta aquela questão do porco à galinha:« sabes tu, animal de plumas, a diferença entre empenhado e imiscuído?» O bico respondeu: "Não". «Pois olha, retorquiu o quadrúpede roncador : "Para a semana casa-se a filha do nosso patrão... tu vais estar empenhada na boda com os teus ovos, mas continuas aqui... Pior estou eu que estou lá imiscuído ..."

Este queria não comer do que lhe punham na artesa... de pouco lhe adiantou... Assim nós, salvo seja...

XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIGGGGGRRRRRRRAAAAAAAAAANNNNNNNNDDDDDEEEEE!

quinta-feira, julho 01, 2010

A NOSSA FALADURA - CLV - FERRÉM

Há alturas da nossa vida em que o que esperávamos que acontecesse, por variáveis, as mais parasitas possível, é profundamente alterado. Temos qua aprender a lidar com o imprevisto.
Não que concorde muito com o pensador de largos ombros (Platão, de nome próprio) mas admirei o seu pensamento em O FÉDON : A vida é um treino para a morte.
Vem isto a propósito de que já há bastante tempo que vos queria agitar a cabeça outra vez.
Calhou hoje.
Aquilo que nós não somos é muito mais do que aquilo que somos: na verdade , eu sou apena um indivíduo e em termos absolutos fico diluído no seio da sociedade que é, ela própria, composta por indivíduos.
Fazendo parte da sociedade, tenho mais um número do que um nome, porque onde quer que eu vá só me perguntam números ( B.I. N.I.F., N.I. B., ...) e nunca o nome. Não deixa de ser interessante este país, onde os cavalos têm nome e as pessoas apenas têm números.!
A verdade é que sendo todos imperfeitos, todos somos importantes e , mais ainda, a sociedade é o que é porque são os indivíduos - entidades únicas, uma a uma- que a constituem. Logo, o importante sou eu enquanto indivíduo e não a sociedade enquanto massa anónima de indivíduos.
Aqui está o nó górdio da questão: a minha individualidade não se pode confundir na massa caótica da sociedade. Afinal a vedeta sou eu e não o todos que é igual a nenhum , porque estão todos no mesmo pedestal... Não! eu quero um degrau só para mim e subo ou desço viro para um lado ou para outro , não porque me mandam, mas porque eu decido. Nunca alieno a minha Personna e os outros só me afectam se eu quiser ser afectado por eles. E ,por muitos, quero mesmo ser afectado que eu não sou um antissocial; por outros, nem tanto...
Bom... mas voltando ao cerne , não há dúvida de que aquilo que eu sou é muito maior do que aquilo que eu não sou.
Breve: o NÃO-SER é maior do que o SER. O que eu sou é ridículo face o que eu não sou.
Mas se lermos isto do outro lado da barricada então aquilo que eu sou é muito mais importante do que aquilo que eu não sou, porque os outros também não são aquilo que eu sou e assim o cam- po do SER é muito maior do que o do Não -Ser, porque os outros, tal como eu, são enquanto são eles próprios e assim o que todos somos é maior do que aquilo que não somos. Logo O SER É MAIOR DO QUE O NÃO-SER.
Pronto, ficamos aqui... e vamos à xendrice.
O que devia acontecer na aldeia xendra não era e o que não devia ser abundava.
Vejamos:
Zé Cavaleiro só tinha uma videira de casta CALÚ mas dava vinho para todo o ano! Não devia poder acontecer mas era facto.
Zé Rolo não devia ter jeropiga que não fosse resultado do 3 por 1 de mosto para aguardente, mas laranjada Prazeres, canela e um pouco de agurdente fraca adoçada com açúcar amarelo, matava a bicheza a muita gente.
Troa, Tó e João Robalo, deviam ter sempre chita da tabela, mas estava sempre esgotada: o que devia ser não era.
As ruas deviam ser calcetadas, mas não eram... Duma vez, eu, coiote pete,o grande, nosso sargento, abraço de bassoka, toco jabão, jorge alguitarra, zé verniz, e não sei se mais algum, plantámos uma leira de couves em frente da casa do então Presidente da Junta, o sr. Domingos Campos... Não devia ter sido , mas foi.
Os xendros tinham lá porras: primavam pelo que não devia ser e cuspiam no que devia ser... Ou seria o contrário?
Costume em desuso em o pagamento da "PATENTA": Cachopo de fora de aldeia que "alevantasse" dali garina, tinha que a "comprar".
Manel, moço escorreito, bem posto, fugido à tropa, arrastou a asa a Alzira e ela disse que sim.
Oficializado o namoro na casa do velho Chaves, fui logo encarregado do pagamento da patenta.
Chamei os dois à pedra e ele não se encolheu: tudo o que quiséssemos desde que ele também fosse. E foi.
Falei com "nosso cabo", tinha 5 coelhos bravos congelados,Manquinho e Alguitarra punham o vinho e Zé Figueira roubou o pão à ti Conceição Pires (sogra) e o resto foi disponibilizado por "Tu no me ouves" e seu irmão Farnando, que eram ali vizinhos e tinham uma horta assim comédado...
Mas faltava a ferrém... Diz Estoira Vergas: Nosso Farnando, ali à frente da casa do brigadeiro tem lá ferrém de categoria e o Guilherme Chornico ali na raivosa tem lá alface de meter cobiça!
Manquinho disponibilizou bicicleta e Tu No me Ouves também e lá foram Estoira Vergas e Alguitarra ao Guilherme e, eu e coiote pete ,a nosso farnando a pilhar a necessária ferrém. Era ainda pequena mas deu para o que se pretendia: fazer salada para os coelhinhos... Ainda se roeu um pouco de corriol e língua de passarinho, mas tudo entrou como ferrém e ninguém morreu. Mainada.
Lá se paparam os coelhinhos e depois viemos para a inefável Rosa e aí , quem estava mamou o que quis à conta do Manel que, já borrachinho, tanto lhe dava 2 como 3: acabou pagando três contos e meio.
A minha ( sempre vos digo a título de curiosidade) ficou-me em 868$50 ( era um mês de ordenado) e não meteu ferrém que eu não conhecia as hortas da vila.
Agora é tudo nético e já não há bairrismo. Já é tudo virtual e ferrém é coisa que não consta do vocabulário up date, download, upload, refresh, search, facebook, twitter, e mais que vós sabeis.
Mas nada que chegue a uma boa patenta acompanhada por excelente ferrém, tinto de uva, pão caseiro, batata de tempo e companhia de eleição
Ainda haveis de pagar a patenta. Mesmo que sem ferrém...
Xi GRAAAANNNNNDDDDDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

domingo, junho 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CLIV - COGOLHO

Há alturas da vida de uma pessoa em que parece que tudo está do lado contrário.
Na sua sabedoria mais que milenária, sem direito a fidedignidade, mas nunca desprezízel, o povo, essa massa anónima de que todos fazemos parte, mas em que uns mamam à frente e, por isso, empurram os outros para a teta traseira, o povo, escalpeliza superirmente: uma desgraça nunca vem só, ou, não há duas sem três, quando um diz mata-se, o outro diz esfola-se, ... e por aí fora.
Vem isto a propósito do facto de que já há muito que andava para voltar a comunicar convosco no basa.
Hoje, embora a contratempo, arranjei um nico de tempo. ..
Vamos ver o que sai...
Tenho andado tão atarefado que o cogolho do meu pensar, coitadinho, só pensa em trabalho...
Nem vos conto... e tão pouco a vós vos interessa. Citemos De Gaulle: "François, François, desémerde toi." ou mais prosaicamente, como aquele velho professor de francês que nunca usava dicionário, e, quando não sabia , desenrascava-se e, se queria dizer que as peras tinham manchas, logo arrematava : "ces poirs ont des piques". Mainada.
A figura do Regedor desapareceu da administração pública portuguesa. Figura respeitada, autoridade reconhecida, o Regedor era uma espécie de inquisidor mor, que decidia do que era lícito ou não e a quem muitos recorriam quando se sentiam lesados nos seus direitos, mais que privados, em termos de propriedade. O Regedor dava voz de prisão ao acusado e a GNR vinha com o jipe levar o presumido culpado até instâncias de justiça superiores.
Assisti a muitas "prisões" na Aldeia. Aliás, as manas catatuas, enfermeiras que eram em Penamacor, tinham sempre medo dos Domingos, porque os "homes" de Aldeia arranjavam sempre forma de lhes estragar o fim de semana. E elas eram de Aldeia.
Verdade se diga que a sanha domingueira dos xendros era habitual: quantas vezes vi eu um de sacho e outro de podão, um atrás do outro, a correr pelo cavacal acima ... e outros a tentar apaziguar de longe?
O Melro, por causa da água de um poço de meias que tinha como cunhado, Zé Pateta, muito parecido so seu geringonço andar com Domingos Perdido,o Pangalum, correu o Cavacal todo até ao Ribeiro Cimeiro com um foição pra o ,dizia, "esgadanhar" todo.
O velho Estopa, sogro dos dois, coxo, dava à nalga quanto podia para ver se evitava uma tragédia...
Pateta conseguiu entrar na loja, trancou-se por dentro e o Melro verberava palavras intraduzíveis , quando o Estopa chegou e começou a atentar, de longe, o Melro.
A raiva do Melro era tal, que se foi ao sogro e, literalmente, o espojou no chão e lhe disse " vomecê no se meta, cossenão eu no repondo por mim e fica a sua filha sem home e o cemitério com mais um habitante..." Foi aí que chegou a filha de Estopa e mulher de Melro:" O home, tu vê lá o que fazes... olha os nossos filhos... "
Eu vinha a passar com o inefável carrinho do gás ,vejo o alvoroço no canto do Bolas, chego-me e depressa vejo o que se passa...
"OH Melro, tu és maluco ou quê. ? Tu até nem tens horta naquele chão, para que raio queres tu a metade da água?! « Queria regar umas estacas e este cabrão do meu cunhado nem o cogolho da pia me deixou no fundo do poço.» " Espera aí: "OH Pateta, abre lá porta que havemos de conversar." O gentio já era muito e o Pateta afoitou-se.
Ali mesmo ficou esclarecido e jurado que o Pateta, durante o fim de semana não tocava na água do poço, salvo se fosse para matar a sede. Mainada
Domingos Aranhiço, Guarda fiscal reformado e a exercer a funçao de Regedor, chegava então ao local da contenda. Quis saber de tudo mas já eu e Melro vínhamos caminho da Rosa. Bebemos um copo, Melro mandou o foição pela mulher e acabamos a jogar ao fito. Foi lindo. Até pareci um Regedor...
Era assim a Aldeia nos Domingos de há 40 anos...
Figura indelével da matriz xêndrica foi SALAZAR, sempre ilegal nos carros, sem carta, matrícula diferente atrás e à frente, altifalante no cimo do tejadilho e um sem número de caixas de discos cassetes e fios, para além dum fogão pequeno e toda uma panóplia de aparelhos com que animava as festas da região. Eu e Toco Jabão bifámos-lhe o Proudy Mary do Ike and Tina Turner... Gastamos agulhas sem fim a ouvir esa fabulosa música no gira discos de Jabão... Outros tempos.
Volvamos a Salazar: Chquim Gonito copmeçou a ver as saladas (alfaces) a murchar e estranhou o facto porque a terra estava sempre bem regada. Desconfiou de lagarta ou ralo, mas , a mulher , um dia, ao enregueirar repara que as alfaces não tinham cogolho... As folhas de fora largas e no meio nada... Continua a ver e verifica que o cogolho tinha sido cortado. Gonito nem queria crer....
O tempo estava quente, trouxe uma jaqueta e escondeu-se junto à casa que foi do velho Freitas: lá vem o Salazar de navalhinha em punho e balde de plástico a cortar o cogolho às alfaces. e ruminava: " num vejo um corno" !Gonito salta de lá ,: "anda que pra te prender só preciso do outro",amargulha" as trombas do Salazar, ata-lhe as mãos com um cordel e chega-se à porta de Aranhiço com Salazar e a prova do crime.
A custo, Aranhiço lá vem, inteira-se do crime, confirma a identidade e diz:« olha lá Chquim, ficas bem com oitenta mil réis que este cão te vai pagar pelo prejuízo.?» " E quando é que os vejo"?, » «Amanhã, antes de missa, quero os oitenta mil réis cassenão vais dormir a Penamacor.» Salazar tinha muita festa para animar e não teve como não aceitar a sentença. Gonito ficou sem algumas alfaces mas com oitenta mil réis que era a jorna de dois dias do seu ofício de pedreiro.
Assim mesmo .
Sempre vos digo que o ser humano obedece, aceita, até exige a autoridade, o que ele não tolera é o poder, a prepopência, a tirania, a imposição, a intolerância... Um dia falo-vos disto.

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sexta-feira, maio 14, 2010

A NOSSA FALADURA - CLIII - ATAFEGAR

A nossa vida, embora ininterrupta na sua sequência: - um dia segue-se ao outro, até que um dia a nossa cadeira fica vazia para sempre - a nossa vida, esse intervalo de tempo em que passamos no mesmo tempo e espaço com outros -é efémera. As efémeras, já agora, são uns insectos que no espaço de duas horas, nascem, crescem, reproduzem-se e morrem...Reparai só: duas horas... Não têm tempo para discutir heranças; nunca se zangam. Para quê? Passado pouco tempo, morrem... de nada vale invocar direitos...Só os humanos não aprendem que são efémeros e que tudo passa.. e gabam-se de ser inteligentes...! o paradoxo é evidente.

Quando me ponho a pensar nesta estultícia humana as ideias atafegam-se-me e fico comprimido e limitado na minha soltura pensante. Vamos a saber: a morte nunca é um problema. Não tem solução, logo não é questionável. A vida, essa sim. Essa tem problemas e então o que há a fazer é tentar, até ao limite, vivê-la bem. Se a vivermos bem, a morte, venha ela quando vier, cai na sequência. Curiosa era a posição de Epicuro, pensador da chamada época helenística: enquanto eu for vivo a morte não tem que me afligir porque a vida vence a morte e ela, portanto, não é, e quando morrer ela também já não mete medo porque nessa altura já não sou e, em consequência, ela também já não me aflige... Já antes Platão em o Fédon dizia que "a vida é um treino para a morte". O que há a fazer, então, é tão só sabermos viver e aprender a morrer. Tão simples! E isto pensava-se há já 2.500 anos. Isto já não me atafega o juízo, de tão claro e correcto que é. Se o meu amigo Zé Lameiras ainda por cá andasse, era espingarda para dizer: "os gregos tinham lá porras". E digo eu:" se tinham!" A morte é inelutável. Não há que atafegar o tino com ela. Mainada!

O velho Garcia era pastor lá para os lados da Arrancada, ali quando se vira para a carreira de tiro de Penamacor, na estrada do Meimão, perto da ribeira da Ceife. A Rouca, companheira fiel, tratava da horta e era, com ele, ordenhadora das ovelhas, quando, já Sol posto, Garcia chegava com o rebanho ao aprisco. Aí eram os dois a dar ao dedo e ordenhar as ovelhas depressa para os baldes que a janta apetecia e a cama estava aberta para os corpos lassos. Mas... só depois da espremedela do leite coalhado com a flor do cardo. A Rouca tratava dos cardos como se fossem bebés: estrume da burrica, bem fermentado, ao toro, monda manual de corriol ou língua de passarinho, bolsa de pastor, veredo ou outra erva maligna. Ali só havia lugar para o cardo. E para as empas, claro: cada um deles, e eram aí obra duns 15, tinha uma estaca que impedia que o vento os vergasse. Tinha um escadote em madeira que Garcia lhe fizera - era habilidoso o Garcia, até acendia as barbas do milho que lhe serviam de tabaco, amortalhadas em papel de cartuxo, com a fricção da cabeça de um prego sobre o fundo de um vidro de garrafa de pirolito e, uma vez, até o vi deitar um foguete utilizando a mesma técnica- «tinha lá porras» o Garcia.

Por esta altura do ano, era vê-la, à Rouca, montada no escadéu e com a tesoura numa das mãos e uma malga na outra, a cortar a flor do cardeiro, com todo o cuidado, mais que Malagueta, Maroco, Patanisca ou Pombo tinham acortar o cabelo aos velhos, cada Sábado. Por cima do arcaz tinha umas folhas de jornal onde o punha a secar e, à medida que ia secando, guardava-o numa bolsa de pano aos quadrados que ela própria cosera com esmero.Depois da ordenha, leite coado por paninho alvo para uma bilha inox, todos os dias areada até parecer um espelho e colocada estrategicamente perto do lume para se manter quentinha, comiam o caldo . Rouca ajeitava a francela e os achinchos, Garcia batia com cacheira de torga, que ele próprio aprimorara, num almofariz de bronze, que mais parecia um sino, a flor cardeira com umas areias de sal grosso, até ficar bem moída. Levava sempre à inspecção superior de Rouca que aprovava ou pedia mais miúda ainda. Quando achasse que já estava, juntava-lhe um copinho de água morna, esperava que o suco se desfizesse, fazia uma espécie de balão dum paninho impecavelmente branco, Garcia deitava o conteúdo da malga com cuidado e Rouca atafegava com toda a força para dentro da bilha com o leite já amornado. O último aperto, ou atafega, era dado sempre por Garcia que até gemia de tanta força aplicar. Enquanto o leite coalhava, roíam um pouco de pão e conduto, Garcia arrefinfava-lhe um esmalte de tinto, Rouca ia ao asado. O leite coalhou...
Sentava-se num tropesso, punha uma touca e Garcia ia deitando o coalho aos poucos com um coucho para dentro do achincho. Rouca ia espremendo o soro, apertava com as mãos, ajustava o achincho, e, ao fim, espalhava sal grosso para fazer aqueles queijos únicos que ainda agora me sabem... Outros tempos, sem ASAE, mas com uma garantia de qualidade que hoje só raramente se encontra.

Todos comiam e se algum morreu de brucela nunca se soube nem se deixou de comer aquele divino leite coalhado espremido.

Vamos lá então viver a vida comédado que esta sabemos que existe e a outra nunca ninguém deu dela testemunho. Mainada!

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CHANGOTO

quinta-feira, abril 22, 2010

A NOSSA FALADURA - CLII - CRUITO

Donde a origem deste termo, não sei. Admito, no entanto que tenha a ver com cocuruto, significante por demais complicado para ser adoptado pela lei do menor esforço, tipicamente popular. Assim, deve ter ficado coruto, evitando a haplologia e, logo depois porque o o é abafado por ser ante- tónico, sofre a natural elisão, ficando cruto e daí à simples ditongação é um passo e cá temos o nosso CRUITO. O cruito é a parte mais elevada de qualquer objecto: o cruito do monte, do eucalipto, da cabeça,etc..
A propósito do famoso vulcão da Islândia, cujo nome ninguém se atreve a pronunciar, a não ser é claro, os islandeses, dei comigo a pensar na desmesurada ganância humana e nessa agressividade que tão característica nos é, a ponto de, se necessário, passarmos por cima de toda a folha, só para sermos os primeiros a chegar ao cruito.
Leia-se aqui cruito como o alvo dos nossos desejos ou projectos, aquilo que mais queremos num momento e que, portanto, fica mesmo por cima de tudo o mais, logo, no cruito das nossas preocupações.
Ao longo dos tempos, sempre o homem foi melhorando o seu nível de vida, preocupando-se sempre em criar objectos que lhe permitissem maior independência. O paradoxo, ao fim, é que esses mesmos objectos que o homem cria para ter mais tempo para si, acabam por o dominar e sujeitar.
Expliquemo-nos: a locomoção humana estava a cargo dos pés e pernas, é claro, mas aos poucos , com a domesticação dos animais e a invenção da roda, aliadas à técnica da tracção, o macaco pelado começou, ou a montar ou a servir-se de veículos para se deslocar a si e às bagagens.
Permita-se-me alguma erudição: os romanos chamavam à bagagem IMPEDIMENTA, ou seja aquilo que impedia o pé de andar mais depressa. As bagagens são sempre um empecilho porque impedem ou dificultam o andamento. Naquele tempo, era atraso, principalmente para o exército e era complicado quando não conseguia passar a vau e tinham mesmo de construir pontes, essas grandiosas obras de engenharia romana, ainda hoje visíveis por toda a Europa.
Progressivamente se foi evoluindo até ao automóvel, ao combóio... Isto em terra, porque o homem, desde muito cedo aproveitou o elemento líquido e os grandes rios tornaram-se grandes auto estradas comunicacionais, e o mar, logo depois, em vez de separar, a breve trecho ,começou a unir sem ser necessário construir pontes. Não contente ainda, virou-se para o Ar e, construiu desde a passarola do Padre Gusmão, tão excelentemente evocada por Saramago em O Memorial do Convento, até aos foguetões que já foram à lua e esquadrinham as longínquas parcelas do universo conhecido. Nem mesmo o fundo do mar escapa a este sagaz predador. Tudo perscruta a ver se encontra algo ainda maior para saciar a sua por demais insaciável avidez.
O curioso e paradoxal é que, com tanto domínio e com cada vez mais conhecimentos, basta que a Geia decida mostrar um pouco da sua vitalidade interior para ficar tudo e todos condicionados à mãe Natura.
Todos com tanta pressa e tiveram que arranjar tempo para esperar. Mainada.
O mesmo se passa com qualquer outro instrumento - que mais não é que um prolongamento de nós - decida avariar ou não obedecer de imediato aos nossos comandos: se a máquina de lavar avaria, como havemos de lavar a roupa?, se o frigorífico não cumpre a função, como conservamos em boas condições, os alimentos?
Reparemos que, há um sec. ou pouco mais, nada disto existia e as pessoas viviam. Andavam devagar e tinham tempo para tudo. Agora andamos depressa e não temos tempo para nada.
Mari Varónica conheceu mais homens que a Rosa Maria da cantiga da srª da Saúde e mudava de parceiro, mais que de combinação. Não era preciso ser cão para a farejar.
Aquele que com ela mais tempo coabitou foi o Mnel Césaro, coveiro, grande sofredor de asma e que por estas alturas se via aflito com os olhos sempre vermelhos por causa dos pólens.
Tinham casa na aldeia, ali para os lados da rua das Aranhas, próximo do velho Flor e com eles vivia tmbém o burro, não sendo raro vê-la a carregar as angarelas com o esterco do dito e mais o dela e dele: um primor de asseio e uma convivência que desafiava qualquer biodiversidade. Nenhum morreu por mor disso e consta que a ASAE nunca lá foi a conferir do cumprimento das normas de higiene. Outros tempos.
Tinham também um casebre, lá para os lados dos Pinheiros e quando lhe dava para bradar - o que não era raro - ouvia-se às oliveiras de Melão.
Perto do casebre cresceu um carvalhoto. Diz Varónica para o Césaro: " Oh mnel, sobe ali ao cruito do carvalhoto e ata lá este baraço bem atado". O Mnel era de poucas falas e obedece: ata uma ponta do baraço a uma bota e foi trepando até onde pôde. Atou o baraço e desceu. Varónica: "ata agora a outra ponta ali à parnada grossa daquela oliveira". Lá foi Mnel... «Estica, estica!» bradava Varónica. De tanto puxar o baraço que tinha atado no cruito do carvalhoto desprendeu-se, Mnel, cai num bate-cu doloroso e Varónica:« Num vales um corno e tens dois».
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sábado, abril 17, 2010

FALADURA ISLANDESA

Gaia espirrou, levemente, através de um buraquinho na ilha branca do atlântico norte.
Os gafanhotos espalharam-se pela Europa.

Em nenhum dos noticiários (h)orais na tilfonia ou na tilvisão eu ouvi o locutor dizer o nome do vulcão do buraquinho. Ficam-se todos por "vulcão islandês". Estou desconfiado que sei porquê: Eyjafjallajökull. À primeira parece difícil, mas à quarta, a fala dura islandesa já não é tanto.

Além do Eyjafjallajökull, há lá mais glaciares e vulcões a que os islandeses chamam de Vatnajökull, Langjökull, Hoffsjökull, Mýrdalsjökull, Drangajökull, ou Snæfellsjökull,

segunda-feira, abril 05, 2010

5

PENTE QUINQUE FÜNF FIVE CINQ PIAT FEM پنج
CINCI ПЕТ PÄŤ TANO PUMP חמש VYF
خمسة CINC BEŞ ファイブ CINQUE ĦAMES FIMM


Foi cincantontem que o Baságueda começou a discorrer.

terça-feira, março 30, 2010

A NOSSA FALADURA - CLI - GUINHA

Mais uma vez voltamos à lei do menor esforço: guinha, mais não é que as duas sílabas finais do significante BORREGUINHA. Só que borreguinha tinha muita exigência linguística e o povo, na sua eficácia mais que tradicional, depressa deu a volta por cima e reduziu para GUINHA. Tão simples quanto isto.
Estamos quase na Páscoa e serão muitos os anhos a ser imolados e comidos, cozinhados das mais diversas formas.
Comecemos então pela confecção da guinha para esta Páscoa:
- Em tempo prepare-se um bom pau de loureiro capaz de suportar a rês no ar e resistir ao calor do forno a lenha
-Amanhe-se um borrego de boa casta (merino, malato,...) aí com obra de 8 kg, limpo. Apare-se o sangue para uma malga onde previamente se deitou sal e vinagre. Coza-se e reserve-se no frio.
-Cuidado ao abrir: apenas na zona da gola um corte e outro com cerca de um palmo no ventre por onde sairão as tripas. (qualquer bom matador sabe fazer isto e também que a mão que mexe em lã nunca pode tocar na carne).
-Bom é que seja morto com dois dias de antecedência e fique a secar pelo menos 12h
- Extraia-se o célebre bodum das duas massas, abra-se o queixal, retire-se o maxilar inferior e a língua e machadem-se os dentes do superior com um machado cortante procurando não esfacelar.
-Com o fígado, os rins, coração e as glândulas (tudo finamente partido) faça-se um guisote com cebola puxada quase ao mel, temperada com pimentada caseira, bastante alho, picante para quem gosta, salsa migada e sem tomate. Não pode cozer muito , junte-se um bom arroz (basmati, estufado, uncle bens, ou outro rijo) e encale-se, de modo a que nem fique aguado nem seco (água crrespondente a uma vez e meia).
-Entretanto, faça-se uma pasta com uma boa cabeça de alho, (os dentes sem grelo), batida em almofariz com sal grosso, duas colheres de sopa de banha de porco, azeite, três colheres de margarina vegetal, pimentada caseira (atenção ao sal), duas folhas de louro.
- Com navalha ou faca bem afiada façam-se uns golpes de dentro para fora, mas sem perfurar a carcaça, ao longo de todo o borrego, introduza-se o guisote no interior do borrego e cosam-se os dois rasgos com fio de brabante ou outro resistente. De seguida barre-se o exterior com a pasta, de forma homogénea, atravesse-se com o pau de loureiro por forma a que caiba no forno onde vai ser assado e amarre-se bem o borrego com arame resistente mas flexível, de forma a que não rode no eixo. Existem no mercado uma espécie de grampos que evitam que rode.. (Haja o cuidado de no extremo interior do forno colocar um tijolo de 15cm para servir de apoio a uma das extremidades do pau de loureiro -está bem de ver que terá de ser a mais grossa. Deixe-se repousar no mínimo 24 horas.
- Aqueça-se o forno lentamente com lenha rija seca, como quem avinha (torga, azinho, cepa de oliveira, medronho, moca de esteva,...) nada de muita ala, vá-se espalhando o calor de forma uniforme por todo o lar e abóbada.
- Tape-se a carcaça com papel alumínio de forma a que esta não encoste à carne- podem utilizar-se pequenas forcas de pau de loureiro, espetadas na carne, e, assim, criem intervalo entre a folha e a carne.
- Quando o forno estiver bem quente, limpe-se, coloque-se um tabuleiro com vinho branco, azeite e batatas partidas à padeiro ou, então, novas, redondas e pequenas, duas cebolas picadas e que ficará por debaixo do borrego.
-Introduza-se o borrego com o dorso para cima, apoie-se a extremidade no tijolo, tendo tido o cuidado de precaver outro suporte para a entrada do forno e deixe-se tostar por 15 a 20 min. com o forno bem fechado.
-Retire-se o alumínio , mexam-se as batatas que entretanto começaram a ser regadas com o molho que foi caindo do borrego. Verifique-se o líquido e, se necessário, acrescentar água a ferver para não encruarem e deixe-se por mais 30min.
-Vire-se agora o borrego, repita-se a observância do líquido nas batatas, confira-se o tempero e volte-se a tapar o forno, por mais uma hora.
-Vire-se de novo, voltando à posição original e deixe-se cozer por mais 45min.
-Sirva-se a acabar de sair do forno e pode ser ainda acompanhado por uns grelos de couve salteados. Bom proveito.
Quem ofereceu o borrego foi o Amílcar faiçal que o cravou ao pai João Estica, regedor que foi por muitos anos, depois de reformado da G.N.R. em Medelim, e sapateiro remendão que cortava as meias solas, em corpon, à canha e a mim me fazia espécie. ..
Nosso Zéi foi o matador e seguiu as instruçóes que lhe e vos dei:" agora com esta é que tu me chapaste, a abrir um borrego assim; bem, sempre quero ver a obra que daí sai!"
Minha tia Isabel do Tonho labouxa emprestou o forno e a loja para a comezaina e a equipa era do mais fino que se podia arranjar: coiote pete, toco jabão, abraço de basuca, nosso sargento, o grande, joão antónio, o geba, que ofereceu o vinho, filho do chico mainovo que levou o pão, contramestre que levou um queijo, João Pinga que roubou dois chouriços à mãe, zé isidorico que se apresentou com um uísque dos valentes, e o pedro safara que nos presenteou com azeitona britada, do alentejo como ele e, está claro, eu, o grande artífice da confecção e o ofertante faiçal mais nosso zéi, que ali era o dux veteranorum.
Só vos digo que sobraram os ossos e o que valeu, para além do já referido, foi uma sopinha de grão, cabeça de nabo, muita abóbora e agrião com quatro ovos cozidos e picados, aromatizada com hortelã, que entretanto fui fazendo na panelinha de ferro da tia Isabel. Lamberam-se.
Pedro Safara, naquele timbre alentejano genuíno de Barrancos, dobrou o prato da sopa e ao fim, enquanto se limpava à cota da mão: "belo caldo, si senhor e : Oh, rapa a unha, do que é que fizeste o caldo?" Lá lhe disse e ele: «nós lá em Barrancos damos a abóbora aos porcos» e eu: "nós aqui também".
Boa Páscoa! Vemo-nos na Sra do Bom Sucesso, que a do Incenso não a passo cá.
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sábado, março 06, 2010

A NOSSA FALADURA - CL - MITRÁCULAS ou BITRÁCULAS

Comecemos por uma lição de fonética: as letras consoantes têm identificação alfabética, conhecidas na ordem do abcedário, mas também se conhecem pela sua pronunciação.Na verdade as vogais são pronunciadas sem nenhum obstáculo vocálico na passagem do ar pela cavidade bucal, mas já não se passa o mesmo com as consoantes. Não reparamos neste pormenor mas ele é real. Adiante... No caso vertente interessam-nos as consoantes LABIAIS e se vos derdes ao trabalho de ir a um espelho e dissserdes as palavras bola, mola, pola, por ex. haveis de reparar que não notais diferença. Mesmo os surdos mudos e os mais experimentados leitores da fala labial revelam dificuldades sem fim numa situação destas. Não asseveram com segurança o que estão a ler, tal a proximidade dos sons e do trejeito labial. Experimentai...., vá lá.
Não admira que o termo que hoje aqui vos trago alterne com a maior das facilidades entre Bitráculas e Mitráculas. De facto em termos de pronunciação, elas acabam por ser indistintas. Ide ao espelho, ide.
Negra Vida era pintor... Já há muito que o não vejo. Suponho, e creio não me enganar, que ainda por cá anda. Contratei-o num Domingo à tarde no adro e até, inevitavelmente, fomos ao café da Rosa. Acertámos tudo e na Segunda lá estava eu ao cimo da Cardosa à espera do Negra Vida... Ao fim de meia hora de espera meti o carro a caminho da ribeira da Ceife, direitinho à casa do Aleixo. Negra Vida ainda dormia. O pai quando me viu: «qu'é que fazes aqui a esta hora?» "venho pelo seu Luís que prometeu para mim hoje". Nem foi preciso mais, arranca escadas acima e só ouço duas espapadas nas bitráculas e um palavreado indizível e não tardaram 5 minutos, Negra Vida aparece-me meio acordado meio a dormir com vontade de me pedir desculpa e não ir, mas as ameaças paternas levaram-no a entrar no carro e "Vamos embora senão dá cabo de mim". Bem vistas as coisas e as mitráculas bem encarnadas de Negra Vida, concordei e arranquei.
Deixei acalmar as ondas, parámos na pia de um poço :«Vai arreganhar essas fuças, mergulha as bitráculas no líquido, vê se acordas que já falamos, mexe-te". Negra Vida nem pensava, limitava-se a obedecer. Lá foi, sentou-se, voltou a limpar a remela, vaporizou para a água, esfregou-se, espreguiçou-se, praguejou, abanou a cabeça (quase caía),«eu num posso ir assim, stou atordoado, a cabeça parece um sino a zumbir, já me espojo por aí e amanhã vou.»
Chamei-o à realidade, veio, comeu bem, voltou a lavar as mitráculas, encara os pincéis e os baldes, papou dois Alka -Seltzer e, ao fim de meia hora, Negra Vida praguejava e pintava. E que belo serviço ele fez!..Desfazia-se em agradecimentos: «quando precisar, eu largo tudo e venho pra si, quero que os outros se chapem...»Mainada!
No mundo em que vivemos, o mundo descartável, de consumismo desenfreado, em que nada é já seguro, fazendo lembrar aquele texto soberbo de Vieira em que a culpa da efemeridade das coisas era a guerra, chegando ao cúmulo, para ele, é claro, de afirmar que:"nem já o frade tem segura a sua cela". Já nada era seguro naquele tempo e agora ainda menos.
Já não é estável o trabalho, já emprego não é garantido, já as leis são convenções passageiras, já a família é um valor do passado, já os pais e os idosos são uns chatos que só dão trabalho, já palavra de honra é uma veleidade, já os amigos são de ocasião, já os deuses são materiais.
A Fé é um negócio, crê-se por negócio, por troca, cumprem-se promessas em troca de benesses, já nada é como era.
Bem! diga-se desde já: nem tinha que ser! Ainda bem que não é, senão não havia novidades. Mas há valores que deviam manter-se firmes e inabaláveis.
Olhai só os novos deuses que agora avassalam o mundo: o poder, esse imperador que tudo sorve e absorve. Todos o querem, por ele matam, mentem, traem, vingam, mentem, e a ele se subjugam, se escravizam, se enfeudam, se entregam num frenesim irracional, em que as emoções desenraízam o ser humano para campos nada condizentes com um ser que se arvora em rei do universo. Babanca, é o que o homem é.
Depois, um segundo deus, o sexo. Não já o Eros puro, aquele encanto da carícia, da mão dada, do namoro como prefácio, do olhar terno, da empatia entre um par que por tanto se amar o que mais deseja, mas de forma natural, é meter-se no corpo do outro. Nada disso: é negócio, podridão, abuso, violação, provocação, efemeridade. Depois o dinheiro, a riqueza, a fama, o mundo do ter em vez do ser, com os bancos e as bolsas a servirem de templos e gestores e corretores e executivos e banqueiros a serem os novos sacerdotes. A nova religião é gananciosa, pede mas não dá. Diga-se, em abono da verdade, que a religião tradicinal também diz que é preciso dar, mas nunca dá o exemplo. É ver o fausto... O mundo da rede, essa global invasora das nossas casas, franqueando-lhe nós próprios a entrada. O poder da comunicação com a televisão à cabeça e logo toda a telemática.
Do que nós precisávamos era de uma espapada como o velho Aleixo espetou ao Negra Vida naquela manhã em que o fui buscar para me pintar a cozinha e a sala.
Se gostais: Ficai-vos com Deus. Mas o vosso, não os de agora.
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sexta-feira, fevereiro 05, 2010

A NOSSA FALADURA - CXLIX - CAMPANITO

As marcas da antropogénese, ou seja, as progressivas mudanças que o pitecantropo sofreu, desde o aumento do perímetro cefálico, à oponência do polegar, passando pela famosa dialéctica de LEROI GOURHAN, que explicava a evolução a partir do momento em que o homem primitivo passou o peso do corpo para os pés e, consequentemente, a locomoção, que possibilitou a libertação da mão e a consequente feitura de instrumentos, o que depressa se manifestou numa maior e melhor capacidade de pensar e logo uma acção sobre a natureza mais conseguida, originando assim a cultura que ao longo dos tempos também foi evoluindo.
Convém assinalar que a cultura é algo de substantivo, ao contrário da civilização que é acessória e, portanto, adjectiva. Em rigor deve dizer-se que uma pessoa é culta e não que ela tem cultura. Já a civilização, essa é dispensável. Na verdade, não se pondo em causa a sua utilidade e simplicidade em termos tecnológicos e não só, a civilização não é necessária para a sobrevivência humana. Esta conclusão encontra eco na circunstância de que o importante é saber adaptar-se ao meio que o rodeia que permite ao homem ter resistido até hoje e não o facto de ter televisão e telemóvel...
O que é natural é naturalmente bom e o que é transformado pode ou não ser .
Todos sabemos que sempre se comeu queijo e chouriço e azeitonas e presunto e tantas outras iguarias, que nunca precisaram de condições exigentes que, hoje, técnicos, em regra insuficientemente preparados e esquecidos das suas origens, avaliam, exigem e impõem.
Todos os estudos, mesmo os encomendados pelas entidade superiores, apontam o caminho a seguir pelos portugueses: ater-se à sua originalidade produtiva tradicional e não submeter-se aos ditames europeus que uniformizam gostos e assim condicionam paladares.
Ainda podemos saborear a bela sardinha e o chicharro ao natural, mas, se calhar por pouco tempo e temos que passar a deglutir uns insípidos enlatados, em conservantes uniformes e universais, em vez de podermos conviver ao sabor do que a natureza nos proporciona, como aliás os nossos antanhos faziam e não foi por aí que morreram.
Lembro-me bem de dois caminhantes incansáveis que todas as quintas feiras iam da Aldeia dos xendros até á cidade da Covilhã com um macho carregado de ovos que compravam durante a semana e que para eles se reduzia de Sábado a Quarta: Joaquim Catrino e José Planeta. Catrino era longilíneo, chapéu clássico, sapato reluzente, amigo do tinto, andar elegante, corneta sonora e angarelas em ferro feitas pelo ti David, ferreiro que era no beco da Ribeira, angarelas em vime entançado... já Planeta era mais atarracado, chapéu redondo a imitar o de coco, jaqueta à meia haste e colete sempre com relógio cortebert, preso por corrente de prata com presilha dupla, à cautela, para não lhe cair, angarelas em pau e cesto de castanho. Não usava aparelho sonoro como Catrino para se anunciar, antes bradava com a sua voz, mais conhecida que os sustos do Tonho de Aldeia: Quem vende ovos? Quem vende ovos? Lá desciam as escadas aquelas que dos ovos faziam o pouco dinheiro com que geriam o governo da casa, já que a jorna dos respectivos, nem sempre lhes vinha parar à mão...
Encontrei o filho de Catrino não há muito num casamento a que ambos fomos em Alcobaça. Estava novo o Domingos Catrino, meio irmão do meu tio e pai do noivo Manuel Joaquim Catrino, já aposentado da P.S. P.. Há quanto tempo os não via...
Foi aí que recordámos, eu e o Domingos, aquelas aventuras de garotos quando os dois, por detrás do cemitério apanhávamos campanitos e com navalha afiada os limpávamos e construíamos bardos e cancelas, fazíamos cravelhas e tirós para carros de bois em miniatura, hastes para bandeiras que pregávamos com carapetos de silva e e até casebres rústicos e choças de pastor, tudo para embelezarmos o presépio de Natal, que ele, como sacristão e eu como acólito, todos os anos fazíamos, do lado da Epístola, na Igreja Matriz. Pedia meças aquele presépio com os nossos artefactos de campanito e mais uma gruta em cortiça e mantas de musgo que mais ninguém era capaz de tirar como nós da Serra da D. Maria ali para os lados do canchal, por detrás do depósito da àgua, ao alto de Aldeia...
Bons tempos, outros valores, outras tradições, outras culturas, outros entreténs. Era assim a vida de catraio novo. Se queria brincar tinha que fazer o brinquedo: não havia padrinho que oferecesse ou avô que cedesse ao pedido, menos ainda pais que pudessem satisfazer tais pedidos. Como eram valiosos aqueles brinquedos ! não os estragávamos, não! eram religiosamente guardados e para o outro ano aumentava-se a variedade. Orgulhosos, tal como Apeles, escutávamos vaidosos e embevecidos os pareceres dos que apreciavam o nosso presépio. Mais que as imagens de anjos e Reis magos, pastores, ovelhas, montes e lagos de papel de prata de chocolate, mais que tudo, o importante era que vissem os nossos bardos e pequenas estruturas de campanito que estrategicamente colocávamos no presépio, que era de todos, mas muito mais nosso...
Mais uma vez a habilidade manual desafiava a critividade da imaginação criadora e o pensamento divergente proporcionava novas soluções cada ano nunca se repetindo as imagens na totalidade. Sempre produzíamos coisas novas. Leroi Gourhan tinha razão.

É caso para dizer: ah CATRINO!

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segunda-feira, janeiro 11, 2010

A NOSSA FALADURA - CXLVIII - LIMBINO/LEMBINO/LAMBINO

A água, a par da saúde e do trabalho com justa remuneração são, porventura, os valores maiores da sociedade contemporânea. Ao contrário do que habitualmente se defende os gostos e os valores são para serem discutidos e a prova é que nem todos gostam do mesmo nem todos hierarquizam da mesma forma os valores. por isso se discutem. Ainda assim ouso deixar estes que aqui vos apresentei como estando no topo da minha hierarquia.
A História ensina-nos que os grandes aglomerados populacionais começaram a aparecer junto aos grandes rios e/ou lagos, com terras férteis envolventes, no cimo de montes por mor da defesa natural e também, sobretudo depois dos grandes movimentos comunais com o aparecimento da nova classe laica - os burgueses - , nas encruzilhadas das grandes vias.
No caso vertente interessam-nos os rios e a sua importância decisiva para as comunidades humanas. A água é indispensável à vida e quanto mais perto e em maior abundância ela for , tanto melhor. É também fácil de ver que as terras mais férteis são as de aluvião, com aragem fácil, clima mais ameno, mais planas, enfim mais ricas em tudo.
A aldeia dos xendros pode servir de exemplo: embora mal nascida - devia ter nascido a partir do dr Ângelo para cima - faz o aproveitamento pleno do vale da ribeira com hortas pequenas de cultivo intensíssimo e é um regalo ver tudo bem tratado desde a Saramaga até quase às Águas quando confronta com a Casa Megre. Grande parte da alimentação da Aldeia é colhida nessas terras das duas margens da ribeira. A grande razão é porque há água e os poços nem são muito fundos e quase pegam uns com os outros. Todos regam e chega para todos.
Já não é tanto assim quando subimos e observamos os terrenos da serra. Bons tempos outros em que eu, velho Jonja e às vezes outros malinoos íamos caminho da serra, às endireituras da tapada do Pirolas e do Elias, do Alguitarra, do Barata e da Garriça, a armar costis às felosas e taralhões, piscos e rabitas, melros e cotovias e o que mais caísse. Crime, mas era assim.
A Garriça tinha uma língua que nem um braço e se mordesse, o veneno da mordidela deixaria muito mal o vitimado... Sempre atenta, baixinha, olho vivo e sagaz, ouvidos com antenas parabólicas, nunca deixava cair uma conversa e topava tudo. Não sei mesmo se dormia... Apesar de viver afastada do casario, numa casa granítica, mesmo ao lado de um eucaliptal basto e perto dos terrenos onde cultivava tudo temporão, andava sempre bem informada e espalhava novas ao vento. Rivalizava com Zagaia e Galfarra a apresentar os primeiros cebolos e as primeiras couves e tinha alface todo o ano, coisa rara ao tempo e que lhe rendia bom dinheiro porque a vendia a bom preço para os casamentos caseiros.
Segurava azeite nas mãos e até o pobre marido, o Caetano, andava sempre nas lonas... Era muito limbina.
A extrema da sua propriedade pegava com Barata e tinham um poço de meias. Aos Domingos não era de ninguém e Garriça tirava água às Segundas, Quartas e Sextas e Barata às Terças, Quintas e Sábados. Na semana seguinte trocavam os dias.
Quando o Verão apertava Garriça, pela calada da noite, punha o burrico à carroça onde já tinha dois bidões e rapava a água ao Barata. Era muito lambina.
A horta da Garriça verdejava e a de Barata, sempre estrumada, pouco dava, que a água era à ração.
Um dia Barata tinha-se ficado pela aldeia e quando ia caminho da tapada ouve o chiar da carroça. A lua ia alta e alumiava bem, escondeu-se e viu o serviço da Garriça, toda lembina. Deixou-a encher os bidons, esperou que viesse para casa, aparelhou a junta e vem com o seu carro carregado com um tanque de cimianto que lhe tinha trazido o filho João, que era bombeiro, com duas bombas de borracha, e dois baldes grandes. Faz vácuo com as borrachas e saca a água toda à Garriça dos bidons para o tanque. Como se não fosse nada com ele, regressa a casa. Cedo, tirava a água do pocinho de meias e vê chegar a Garriça com o seu burranco e carroça.
Quando esta, de repente, se dá conta que não tem água nos bidons começa a praguejar furibunda, numa linguagem intraduzível.
Barata, malandro quanto baste e feito mula: "Karraio de conversa é essa? uma mulher com esse palavreado?!" e a Garriça:" rouberam-me a auga que traguia aqui nos bidons e que tinha apanhado no poço de baixo...; E o Barata:« está baixo, está, o ladrão do poço! Há gente sem vergonha nenhuma...» e sai-se com esta para a Garriça: « Eh ti Maria, deixe-se disso, amanhã já aqui tem mais água» "Cabrões tireram-me a água aqui dos bidões....!»...
O Barata malino:« Vá lá que não lhe roubaram os bidões... sempre lhe deixaram o vasilhão... foram bons rapazes...!»
E remata: « Sabe como é que se apanha uma cabra mocha por um corno»?
A Garriça lampeira: " a cabra mocha num tem cornos, mê basbaque!"
E o Barata:« atão alimpe-se como me alimpou a água a noite passada: uma cabra mocha pega-se por um corno, mandando lá um».
A Garriça andou uma semana a pão trigo e água, a treinar-se para ir a pé à sra de Fátima a pedir água para os bidons. O Barata ouvia-se na Bemposta a rir.

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terça-feira, dezembro 22, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLVII - ESCARAMOUÇO

O natural é o caos e não a ordem. Só há bem pouco tempo esta asserção começou a fazer sentido. Na verdade, na sua incontida ânsia de tudo prever e controlar, o ser humano esforçou-se por ter um conhecimento semelhante ao divino. O próprio Galileu disse que "quando temos dos fenómenos da natureza um conhecimento matemático, o nosso conhecimento desse fenómeno iguala o conhecimento divino". Estabeleceu no entanto diferença marcante: por muitos fenómenos que se conheçam, todos eles não passam de uma insignificância, face ao que há para conhecer e que Deus conhece desde todo o sempre e sem precisar de fazer cálculos.
À medida que a tecnologia foi avançando, as certezas de antanho foram sendo abaladas, caíu-se num indeterminismo ou incerteza em que a ciência gravita hoje refugiando-se num probabilismo que tudo justifica, mesmo os erros. Finalmente o erro ganhou importância e o seu aparecimento frequente não esmorece a investigação, antes a espevita e incendeia. O probável é o crível e o crível não é certo. A certeza é inimiga da verdade como o óptimo é inimigo do bom.
Foi o contributo dos novos pensadores das ciências sociais que chamou a atenção para este fenómeno e, claro, como quem faz ciência é o homem e este continua a ser"ESSE DESCONHECIDO", como bem disse Alexis Carrell, então, fácil é deduzir que se ele nem a si se conhece não lhe será possível conhecer o resto do Universo. Refugia-se então na probabilidade, não porque goste, mas devido ao reconhecimento das suas incompetências mentais e intelectuais, tecnológicas,... . Volvamos a Galileu: «o que para o homem é de dificílima inteligibilidade é para a natureza de facílima execução.»
Esta aceitação do indeterminismo não é pacífica porque a ciência, ela mesma, para progredir, tem que partir do princípio de que aquilo que sabe e em que assenta o seu saber, é seguro e lhe permite projectar para o futuro. Nós, vítimas desse saber, vamos usufruindo o que nos vão pondo à disposição. Facto é que, aos poucos a tal ordem científica com o seu método de rigor põe ao nosso serviço um sem número de benesses que nos são muito úteis se as soubermos usar bem. Sirva de exemplo o telemóvel, ou o automóvel ou um simples frigorífico...,vacinas, que sei eu!?
É nesta crença de que as coisas acontecerão como se previa que o progresso vai acontecendo e, seja de erro em erro, ou de verdade em verdade, do que não restam dúvidas é que a humanidade vai cada vez tendo mais comodidades e não vem aqui ao caso discutir se isso é vantajoso ou se é prejudicial.
Estamos prépreparados para a ordem, o método, o seguidismo. Basta experimentar dizer o alfabeto em sentido inverso e logo vemos quão vantajoso é termos connosco a ordem clássica das letras.
Vem isto tudo ao caso por causa do nosso termo de hoje: escaramouço.
A malta do meu tempo vivia na angústia permanente de ir à tropa e ser destacado para uma qualquer das ex-províncias. Se havia alguns ofícios que na tropa eram um luxo: padeiros, por ex, outros havia que eram uma convivência com o perigo e esses eram a grande maioria.
Tira Linhas foi como enfermeiro para Moçambique. Passava a maior parte do tempo no Hospital militar já que o seu trabalho era conceituado, apreciado e respeitado.
Um dia, porém, contou-me ele numa daquelas faenas gastronómicas, desta vez no quintal do Isidorico (já lá está...), em que eu fazia jus à fama de artista na culinária, foi convocado para ir num helicóptero socorrer alguns camaradas que tinham sido alvo de um emboscada.
Tira Linhas equipa-se e depressa estava no ar e passado pouco tempo já estava no local do acidente. O médico que o acompanhava logo ia decidindo o que fazer com cada um daqueles pobres soldados ali amontoados num recanto, enquanto muitos tiros se ouviam, resultado da perseguição entretanto movida aos "turras". O Helicóptero não parava, num vai vem contínuo a levar feridos para o hospital de campanha... Tira-Linhas e o médico continuavam a volta , enquanto uma máquina abria uma vala para enterrar os mortos sem nome num escaramouço de cadáveres em vala comum.
Decidiram confirmar os mortos para os enterrarem e não ficarem vestígios.
Vários outros soldados e um unimog seguiam-nos a ele e ao médico e conforme o médico dizia: "este está morto", logo dois ou três soldados o atiravam sem qualquer zelo para cima do unimog e assim se iam amontoando num escaramouço entrópico. Como calhasse é que ficavam... Numa das decisões do médico, porém, o "este está morto" teve resposta: «não tá siô, só tá muito ferido". Logo um dos soldados:´«oh preto dum cabrão sabes mai có médico? ( perdoe-se-me a violência da linguagem, mas foi assim mesmo) se ele diz que tás morto, tás morto e mainada» e já ia a pegar-lhe para o atirar para cima dos outros. Aí Tira Linhas, intervém: "que é lá isso?" Ajoelhou-se junto do ferido constatou da gravidade dos ferimentos e foi então que mostrou todas as suas competências, deixando todos de boca aberta. Era assim Tira Linhas.

Ementa daquela noite: Polvo à Algarvia que Tira Linhas tinha trazido de Lisboa

1- Coza-se o polvo - quanto maior e rosa claro for, tanto melhor -sem sal e apenas com uma cebola grande em tacho com pouca água - o polvo solta quase a água para a sua cozedura -; Demora cerca de 40 a 50 min de fervura viva.

2-Tire-se para um crivo e deixe-se arrefecer; reserve-se a água da cozedura

3- Miguem-se às rodelas umas boas 4 cebolas para um tacho largo com o azeite considerado necessário: puxem-se bem até alourarem tendo o cuidado de não deixar queimar,

4- Juntem-se tomate sem pele e uma camada de batatas também às rodelas largas, uma primeira camada de polvo e um bom ramo de salsa espalhado por cima a toda a largura do tacho

5- Acamem-se alternadamente tomate batatas e polvo, de forma a que acabe com batatas.

5.1 - Se houver, junte-se miolo de camarão

6- Reduza-s o lume e deixe-se apurar

7- Quando as batatas estiverem quase cozidas (engroladas) cortem-se dois pimentos às rodelas , rectifiquem-se temperos: sal, picante ... deite-se um copo de vinho branco e abafe-se.

8- Deixe-se acabar de apurar

9- Pique-se um ramo de coentros que se atirará por cima quando estiver a ser servido

10 - Come-se com prazer e com algumas bocas à mistura.


BOAS FESTAS: O MELHOR DOS NATAIS PARA TODOS OS BASAGUEDEIROS!

xxxiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiGGGGGGGGGGGGGRAAAAAANNNNDDDEEEEE!

quarta-feira, dezembro 09, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLVI - ABOQUILHA ou Abequilha

O velho Talha Burricos era fino como um alho... Eu que o diga. Nunca queria o gás depois das seis. Ia sempre pelo lado de trás a bater à porta, deixava a bilha e depois ia à frente e bradava: "Eh! cachopo, fica-te ali a garrafa do gás, amanhein de manhein leva-me uma." Já sabíamos o que era de manhein. E o pior era que me calhava sempre a mim.... Era a vida.
Quem fornecia quer o vinho para a missa quer o pão ázimo para a hóstia consagrada era a Casa Campos. que, não sendo por aí além, nenhum potentado, tinha a vantagem da ser governada por três irmãs, qual delas a mais religiosa e a mais poupada. Assim se manteve até que a velha da gadanha as foi ceifando e pronto: acabou-se o vinho branco arinto exclusivo para o sr prior e o pão lascado para o corpo de deus. Posso dizer-vos que quer um quer outro eram deliciosos. .. Por altura da desobriga, até porque na aldeia, naquele tempo, ainda havia xendro com fartura, era necessário fazer muita hóstia... Por ali vinham o padre Lobo das Águas, o padre Robalo das Aranhas, o padre Tarcísio do Pedrógão, o padre Manel de Penamacor, o padre Fatela da Meimoa, o padre Baptista da Benquerença, o padre Agostinho, já sem paróquia, o padre Carreto, também já jubilado,..., era mesmo uma confraria, e todos confessavam a rapaziada de aldeia que se perfilava a cada um dos confessionários. De vez em quando os padres faziam intervalo, por via das regras e da bucha que nisso, primeiro o padre Zé Pedro e depois o padre Pinto não se poupavam: era à tripa forra.
Sempre vos digo que os petiscos eram de lamber ou não fosse eu quem compartilhava essas aras de bem comer e até, às vezes, a confecção com a ti Mari Rainha. Outros tempos. Mais ainda: nenhum de vós alguma vez comeu pão ázimo com fiambre e vinho branco de missa... é o cúmulo. Se um dia vos calhar essa oportunidade, provai e depois contai-me. A pena é que já não há fiambre como antigamente e menos ainda vinho branco arinto. Vai lá vai...
Bom, a Casa Campos não faliu, mas os tempos mudaram e o padre Pinto - de boa memória - encomendou o vinho ao Talha Burricos, esse mesmo que queria o gás logo às seis da matina.
A casa dela não era longe e nem precisava de levar o mais que famoso carro quadrado. Ajudava-me à bilha do gás, punha-a ao ombro e ALA!, batia ao portão, Talha Burricos aparecia prestes, entrava pelo quintalinho, sempre pejado de mato por mor dos agueiros não atolarem, subia quatro degraus e entrava na cozinha. Já a panelinha de ferro cozia o feijão pequeno das Taliscas e o ambiente estava amornado pela lenha de carvalho arrecadada em tempo e agora a dar um jeitão. Lá ajustava eu a bilha ao redutor, experimentava a ver se tudo estava nos conformes e: "pronto, já está, bom dia e até logo". Logo O Talha burricos atalhava: «onde vais com tanta pressa...? espera aí um pouco» e para a ti Strudes (Gertrudes): « Eh mocita, arranja aí um aboquilho e leva-nos à loja.» Não tardava lá vinha o belo casqueiro embrulhado em bragal de primeira em cesto de vime e uma bandeja com uma tora de presunto, uma malga de azeitona retalhada, um queijo cabreiro num prato de esmalte e, uma vez até me calhou que havia castanhas assadas, já descascadas.
Sai-se o Talha:« Toma tento no que digo! se o queres tornar a provar tens que manter o bico fechado...» eu fiquei a olhar e ele: « vamos a provar o vinho de missa , mas no te esqueças, bico calado». O pipo não tinha torneira, deitou aguardente para desinfectar a borracha, como lhe chamava, sorveu para um pucheiro e vasou para uns copos de alumínio que até reluziam de tão areados. « Vá, bebe!» meti uma azeitona, tirei o caroço e vou-me ao néctar. Aquilo ainda não estava consagrado mas já era sacro. Que pinga de estalo! «Anda lá corta aí uma fatia de pão e um naco de abequilho que hás-de beber um copo assim comédado!» A hora era boa, a fome melhor, o branco convidava e o aboquilho era de ginjas: ataquei... Mais um alumínio e um estalo: " oh ti Tonho, este inda é melhor do que o da Casa Campos! " « É pra que vejas que eu num faço batota... isto é o sumo da uva puro, nem uma gota de água. É assim que querem é assim que têm.» Lá lhe expliquei a razão de ser daquela exigência e bebemos ainda mais uma cartolinha.
Passado não muito tempo voltei à loja e já o pipo tinha torneira. Havia mais gente que sabia que o vinho de missa lhe tinha sido encomendado e desafiaram o Talha Burricos: 'Ó ti Tonho. dê-nos lá a provar o vinho do padre!' «Eh cachopos, eu até vos dava um provo, mas o vinho é tão bom qinté coalhou com'ó azeite: experimenta a ver se já corre alguma coisa...» Lá ia um mais lampeiro a ver se tinha sorte, mas nada. « Vês!? coalhou!» Eu caladinho como um rato, saí com eles mas depressa voltei: "como é essa do vinho coalhar"? « Aprende que eu não duro sempre: o vinho já está ali em barricas, tirei-o todo por cima e meti a torneira a fazer ver. Se não fosse assim, só com os provos já se me tinha ido. » Vai lá vai! porque é que o diabo sabe muito? porque é velho, respondem os entendidos.
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terça-feira, dezembro 01, 2009

A NOSSA FALADURA - CXLV - MORRINHA

Água de cuco só molha quem está enxuto, já dizia o velho comandante, que, mesmo com morrinha não deixava de colher azeitona. Era velho dum raio: nada o vergava, nem frio nem calor, nem fome, nem sede, nem doença, nem pão rijo, nem morcela já rançosa. O queijo, seu conduto preferido, deixava-o embrulhado em folha de botelha, no meio do arcaz da semente e, como não lhe punha indicativo, sempre que precisava dum, praguejava por céu e terra, a ponto da velha Pássara (era a parteira oficial de toda a aldeia - foi ela que me foi buscar ao Fundão) vir ao balcão da casa contígua a barafustar: "num viesse um raio que queimasse a língua, comandante do inferno! Já lá tens o lugar guardado" « Vá pra quem a lambeu, velha dum corno» O azedume era notório, mas mal ela precisasse dum chirrichichi de azeite, ou uma brasinha pra atear o lume de manhã, ou um golo de aguardente para matar a bicheza e desinfectar um dente que escarafunchava com um pau de travisco aguçado e lhe doía,..., logo a Pássara batia à porta do velho Comandante.
Não longe morava a velha Nazaréi, mãe de Zé Lopes, enxertador de nomeada, lagareiro afamado e angariador de povo para excursões a tudo quanto fosse visitável: Srª de Fátima, santa de Alenquer, capela dos ossos, Viana do Castelo, Gerês, Nazaré ... e mais caseirinho, a Srª do Incenso, do Bom Sucesso, do Almortão e da Póvoa, que sei eu, Santa Luzia do Castelejo, Serra da Estrela, barragem Castelo do Bode,..., nada lhe escapava.
Aos Domingos, depois de missa, lá andava ele de tasca em tasca, da Rosa ao Zé Rolo, do Chico ao Fatela, deste ao Cavalheiro, vinha ao adro, especava-se na estrada, sempre de livreta na mão, pronto a assentar o nome e a indicar o lugar na camioneta. A meio da tarde já não dizia coisa com coisa e não se cansava de apregoar as suas competências, que não havia na área enxertador como ele e que se às vezes lhe falhava uma enxertia, a culpa era do cobridor que não tinha cuidado e lhe desandava a pua que ele ajustara com a sua própria saliva depois de aguçada com um só corte da sua navalha enxertadeira, de tachas em freixo que ele próprio fizera, e que até fazia a barba aos pêlos das pernas de uma cachopa.
Já que se fala em enxertadores, é dever de xendro nomear o velho Cucharra, homem pesado, que já mal conheci, mas que a partir de meados de Fevereiro não descansava um dia a espalhar arintos, rufetes, rabos de ovelha, baldrões, ferrais, dedo de dama, uva formosa, moscatel e outras castas. Uma bomba, este Cucharra. Era capaz de andar, um dia a cavalo noutro, sem nunca se endireitar, sempre curvado a fazer finco nas cruzes, sem se queixar. Comia uma quarta de feijão frade com cebola e muito azeite, e um galo dos grandes, daqueles das bodas, não lhe fazia papo. Valente Cucharra: o nome advinha-lhe do facto de ter a mão encurranchada por mor de uma cortadela feita pela enxertadeira. Ia até aos Três Povos a sua fama, para Norte, e Alcafozes e Idanha-a-Velha ainda hoje têm vinha de enxerto do velho Cucharra.
Voltemos ao Zé Lopes e às suas excursões...
Duma vez tem uma ideia genial: queria comprar mais uma tapada limítrofe da sua na fonte salgueira e o dinheiro era curto.
Vai daí, andou dois meses a guardar garrafões de plástico vazios- inda eu lhe levei muitos -.
A excursão era à Nazaré. Encheu o fundo da camioneta com os garrafões e, a meio da viagem, começa a cair uma morrinha chata, miudinha, basta quanto bastasse.
Zé Lopes tinha-a fisgada e desde cedo começa a dizer que ninguém podia ir ao mar porque a água estava a ser analisada porque era do melhor que havia para o reumatismo. Ele tinha acautelado o caso e tinha escrito um postal ao Presidente da Junta da Nazaré que o autorizou a encher 100 garrafões de água do mar , mas cada um custaria 5$00.
Quem sofresse de reumatismo tinha que largar os tais 5$00, mas só ele é que podia ir encher os garrafões.
Assim foi. Os garrafões tiveram venda garantida e Zé Lopes lá angariou mais 500$00 de lucro, às abas da água salgada do Atlântico, que eram uma boa ajuda para a compra da Tapada.
E o caso ficou ainda mais sério e a veracidade do diagnóstico reumatismal foi exponenciado quando Manta-Rota, seu sucessor nestas andanças excursionistas, que entretanto tinha espetado uma sorna, devido aos etílicos, lança os olhos ao mar e exclama:« A água há-de ser mesmo boa para o reumatismo... Olhar além... inda há bocadinho a água chegava ao cimo do paredão e agora já vai ao fundo. Os gajos têm-se fartado de vender água» Todos olharam e confirmaram.
Zé Lopes asseverou: "Só lá apanha água quem tiver ordem, mainada". A morrinha recomeçou e até à aldeia ninguém falava doutra coisa senão do jeito do Zé Lopes para aquelas lides.
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quarta-feira, novembro 11, 2009

UMA ESCRITA QUE DÁ GOSTO

Aqui no Baságueda gostamos de uma boa história embrulhada numa boa escrita.

A que se segue foi importada, mas preenche os requisitos.




Carta dirigida pelo Dr Frederico de Moura, Médico e Historiador de Vagos, ao Dr Nogueira Lemos, Médico Cirurgião de Aveiro


Meu caro Lemos

É coisa axiomática que o pénis não obedece a freio; e é coisa de esperar que a natureza o tenha dado a animal que lhe não obedece. Mas como a esta estuporada profissão que exercemos só aparecem anormalidades, aberrações e coisas em desacordo com a natureza, surgiu-me hoje no consultório esse rapazinho que lhe envio, com um freio de tal dureza e de tal conformação que o insubmisso pénis tradicionalmente indomável, não teve outro remédio senão ceder. Calcule os mistérios e os paradoxos desta ladina natureza! Esse moço, na casa dos vinte anos com uns corpos cavernosos que devem estar isentos de qualquer obstrução, e concerteza dispondo de uma libido afinada capaz de lhe fazer sair, erecto, o próprio umbigo, resolve ir para o casamento com os seus (dele) três vinténs e confirma, então a suspeita que já tinha, de que no auge da metálica erecção, o pénis fica em crossa como o báculo de um bispo, por incapacidade de vencer a brevidade e a dureza do freio que lho verga para a terra. Calculará o meu prezado Lemos, as acrobacias de alcova que este desgraçado terá de realizar para conseguir a penetração de um membro viril, quase tão torto como uma ferradura, na vagina suplicante da consorte.

De modo que o rapazinho veio pedir-me socorro, e eu condoído peço-lhe a sua colaboração em favor da harmonia conjugal, com a certeza de que por isso ninguém nos irá acoimar de chegadores. Condoa-se a cirurgia de braço dado com a medicina que, por intermédio deste fraco servidor que eu sou, já se condoeu e endireitemos o pénis torto (e nada de confusões, que não é mole pelo que me afirma o proprietário). Lembremo-nos, sobretudo, ao praticarmos esta obra, que vem aí um tempo em que um pénis destes, mesmo em arco ou em forma de saca-rolhas, nos fariam um jeitão, e ajudemos o pobre rapaz que se compromete comigo a fazer bom uso dele, emprenhando a mulher da primeira vez que o usar, depois da operação ortomórfica que o meu amigo lhe vai fazer sem sombra de dúvida.

Desculpe mandar-lhe desta vez uma tarefa fálica! Ouvi uma mulher um dia dizer que um Phallus é um excelente amuleto e que dá sorte verdadeira. Se quiser tirar a prova não tem mais que endireitá-lo… e jogar a seguir na lotaria. Desculpe, pois, a remessa de bicho tão metediço que eu por mim prometo, logo que possa, e em compensação, mandar-lhe uma vulva virgem inacarada como uma concha de madrepérola.

Um abraço do seu amigo certo

Frederico de Moura



PS: Como a minha letra é muito má segundo a sua opinião, e como o assunto desta carta é muito importante para duas pessoas, uma das quais do sexo fraco, entendi do meu dever dactilografá-la. Assim, não haverá nenhuma razão para o meu amigo dizer que não entendeu o que eu queria e, por partida, deixar o aparelho na mesma ou pior, ao rapaz.

Quero ainda dizer-lhe que para sua compensação, tenciono depois do êxito que o seu ferro cirúrgico vai alcançar comunicar o seu nome à mulher beneficiada que, por certo, lhe ficará eternamente grata, ficando sempre com a sua pessoa presente na memória nos momentos – e oxalá que sejam muitos! – em que se sentir penetrada por um pénis que só o meu amigo conseguiu endireitar. E nem sei se o Estado virá louvar a sua acção, se lhe for dado conhecimento que os filhos que saírem daquele casal são devidos em grande parte não ao seu pénis mas, sem dúvida, à sua mão.

E filhos com a mão nem toda a gente se poderá gabar de os fazer!

Creia-me seu afeiçoado, Frederico
27/03/1958