terça-feira, agosto 22, 2006

A NOSSA FALA - LXV - CACHEIRA

Quando, ainda não há muito tempo, - de facto os eventos hoje por hoje são tão efémeros que apenas lhes damos importância instantânea e já não guardamos respeito ao tempo - bom, não há mesmo muito tempo, publicava-se em Portugal um jornal matutino diário, de enorme expansão - O SÉCULO - , de boa memória, diga-se, que na sua sua última página, na última coluna, ao cimo, à direita, tinha sempre por título: "há sempre uma história para contar".
A estória que hoje eu vos trago, também não tem muitos anos - afinal eu ainda não penso sequer que já estou entradote, quanto mais que já sou velho - ( bem, COTA, no dizer da rapaziada mais nova, se calhar, já sou) e por isso não se pode chamar história a um facto tão recente quanto esta estória que agora aqui trago. (Estais a ver o jogo das palavras?!) - já pareço o Fernão Lopes naquele seu famoso visualismo.
Não sei mesmo se já vos contei aquela do «pássaro para o primeiro» , mas estou em crer que sim, aquela em que quem primeiro fizesse, todas certas, as contas que o senhor professor ditava, levava para casa o pardal que ele matava com a sua pressão de ar - ao tempo chamava- se (veja-se já o pedantismo ) FLOBÉR (correspondente a FLAUBERT), mas não é essa a que vos quero contar, embora o professor fosse o mesmo da história anterior.
Antes mesmo da tal estória reparai como se vilipendia o português - honra seja feita ao Baságueda e outros, como o Arcaz , que regeneram o verdadeiro linguajar e lhe dão o lugar que, com o tempo, justamente conquistou, só que, como atrás disse, já poucos respeitam o tempo. Razão tinha o velho Comandante: AH! TEMPO!:
Qualquer borra botas diz baby-sitter em vez de ama, diz abat-jour em vez de quebra- - luz, enche a boca a dizer coffee break por intervalo para café, chaise longue por espreguiçadeira, T-shirt por camisola de manga curta, algibeiras por bolsos, lanche por merenda, check up por actualizar, cachecol por abafo, e-mail por correio electrónico, barbecue por assador, blazer por casaco, para além dos famosos bué por muito, e DÁAA por ceguinho. Já não há respeito pelo genuíno Camões... também já são poucos os que sabem alguma coisa de latim... Daqui a cinquenta anos já poucos saberão que o Português é novilatina e que 60% do Inglês também.
Verdade seja dita que, às vezes, me faltam palavras para expressar o que quero. Mas isso não é incompetência da língua. A incompetência é toda minha. MAINADA.
Dessa incompetência faz parte o nome científico duma erva que nesta época do ano está já em fase de deixar cair a semente e que cria uma cacheira no topo de uma haste, assim parecida com a do alho porro ou da cebola quando espigam. Não é mesmo, com certeza, por acaso, que o cheiro que exala é semelhante ao do alho e a forma esférica e repartida por pequenos filamentos é também igual aos destes bolbos. Não sei o nome científico, mas não digo, como um amigo meu, borrocu quando pretensamente de forma erudita quer dizer o tal barbecue e que eu chamo de assador e mainada. Não sei, dizia, o nome científico, mas sei o popular: erva caralheira. Assim mesmo. A forma arredondada ligeiramente mais estreita no cimo e o facto de estar na ponta de um longo pescoço devem ter sugerido à populaça a semelhança evidente com o pai da humanidade.
Vai daí, e porque o povo não é de modas - quando não tem, cria - sai espontaneamente o nome: erva caralheira e ponto final.
Críamos também nós, imberbes fedelhos em idade escolar, que se conseguíssemos que uma garota da escola ao lado comesse uma baga que fosse da cacheira da erva caralheira, os seus apetites sexuais relativamente a quem lhe tivesse dado o fruto ou o pão com a tal baga seriam tais, que se entregaria desalmadamente a um esfreganço de crica que nos transportaria até ao oitavo céu. ... Aí mesmo: aquele acima do Olimpo. Então, era vê-los junto àquele famoso muro, de que já vos falei, onde estava o fontanário com que XARINGÁVAMOS as cachopas, a tentar conseguir que elas dessem uma dentada na maçã de BRAVO MOFO ou no paposseco, daqueles com maminha e tudo - lembrais-vos deles? - onde disfarçadamente se tinha introduzido uma baga da cacheira da erva caralheira.
Não consta na história da aldeia que alguma donzela, alguma vez, se tivesse entregue a um mancebo por motivos da ingestão de uma baga da cacheira da erva caralheira.
O facto é que ainda hoje essa ideia perdura. E o que nunca pode morrer é a ideia, mesmo que já não se consiga fazer nada. É a vida!
Há coisa bem feitas , não há?!
Ide dando algumas inculcas para sabermos se ainda vos cativamos com as nossas estórias.
Um XXXXIII dosGGGGGGGGGGGRRRRRRRRAAAADDDDDDDDDDDDDEEEEEES!

segunda-feira, agosto 07, 2006

A NOSSA FALA - LXIV - ALDEAGAR

Sempre as aldeias tiveram e têm um tontinho, ou mais, e espalha brasas que, em menos que leva a apagar um fósforo em dia de vendaval, difundem uma qualquer notícia, não raro, distorcida.
Mesmo que não sejam tontos (tarantas), algumas mulheres há que, em menos de uma ave-maria põem uma notícia do beco da ribeira ao cimo do ribeiro cimeiro e do bairro da padaria ao alto da lagariça. Exemplos mores dessa arte de espaventosa capacidade de comunicação foram Tecla e Pieres, por exemplo, ou Paca, velha Raposa ou Ilda do Vinagre. Eram bichas de rabiar em fogueira de S. João. O comandante bem dizia: " isto é má gado: às mulheres inda que lhe cortem metade da língua falam o dobro... deus deu-nos uma língua e duas orelhas, é para ouvir o dobro e falar metade". Filosofia de trazer por casa, mas funcional. Exemplos de tarantas lá temos o inefável Tonho, entretanto desaparecido, o Tramoço, Fainica, Feijão que não sendo espalha-brasas também aldeagavam quanto bastasse. Rosnavam ameaças, inventavam atoardas, ameaçavam-se fazendo o gesto mais revelador de pré-início de luta a sério: punho fechado por debaixo do queixo, ao mesmo tempo que, depois de traçarem um risco no chão:" se pisas o risco arrebento-te a alma!".
A Vontade de Poder, essa força que nos move a partir do mais básico de nós mesmos, em que o cérebro reptiliano avassala e subjuga todas as aprendizagens, sejam elas tradicionais ou pessoais, permitindo acções que até nos fazem, por vezes, gritar: "esta nem parece minha", a Vontade de Poder, queria eu dizer, impõe que fiquemos sempre por cima, que sejamos os vencedores, que ninguém nos ponha os pés no pescoço. Muito simples, como dizia um dos maiores vultos do pensamento ocidental, castrado na sua mensagem, só porque ousou ser diferente e não alinhar na NOMENKLATUR e no STABLISMENT, Nietzsche de seu apelido, é tempo, dizia ele, de sermos heróis e não humildes a ponto de nos confundirmos com cobardes. A moral tem que mudar, e essa, de aceitar, resignado, que o que se sofre neste mundo será corrigido no outro, é balela "com que o povo néscio se engana" no dizer do nosso inimitável zarolho.
A figura que hoje aqui vos trago era também zarolha, mas não por ter sido atingido por bala traiçoeira, antes porque um horrível cancro lhe foi comendo aos poucos o olho direito que ele trazia sempre tapado com uma lata. Por isso lhe chamavam o "olho de lata". Era o Mnel, da família dos alfáceas. Bom trabalhador com uma pronúncia muito "sui generis". Dele se conta que duma vez foi a Lisboa ao hospital de Oncologia, ali pertinho de Sete Rios a dar para Palhavã, a fim de fazer umas análises circuntanciais e relativas à sua moléstia: era triste e arrepiante ver a carne a desfazer-se, o que mais não seria sentir como Mnel sentia!!!; quando chega a sua vez de ser atendido as coisas passam-se mais ou menos assim:
- Onde foste ,Mnel?
-Fui às Lisboas, catapum, catapum, catapum, rio abaixo, ao hospital.
- O que foste fazer?
- Lá no Hospital disseram para eu mijar para um garrafo, mas eu enchi três, três garrafos; havia lá umas enfermeiras muita boas, tinham as mamas como as ratas pecarrichas, eram muita boas, anda cá ela!
enquanto foi e veio, logo as pombas correio da aldeia fizeram correr a notícia de que o Mnel se tinha apagado. E pior: inventaram a herança que ele havia de deixar.
A sobrinha que sempre o tratara e, por direito próprio, se tornaria a única herdeira é que não gostou da conversa e faz valer a sua Vontade de Poder:
-Ò varinas dum corno, o que andandendes praí a aldeagar? Invejosas de merda! se vós passásseis o que eu passo a tirar aquela trampa do olho do homem todos os dias até as tripas vos saíam por essa boca! Putas! Metei-vos na vossa vida! Se tivésseis tanto que fazer como eu, não andáveis para aí a dar ao lambarão, feitas bácoras dum corno. Sempre a aldeagar, sempre a aldeagar!O dia que mordêreis a língua haveis de morrer com o vosso próprio veneno!
Linguinha de trapos é que a alfácea não era. O certo é que o Mnel voltou e ainda durou um bom par de anos até que o mal lhe apanhou partes vitais do cérebro e acabou por o levar. Dores que o homem passou não se desejam nem ao pior dos inimigos.
O tempo é como a água: aquele tudo apaga e esta tudo lava, (menos a má língua), ambos correm, fluem e, embora fisicamente, ao contrário do que o velho SKOTEINÒS, Heraclito de Éfeso, dizia - que tu não te podes banhar duas vezes na mesma água dum rio - ou o que dá na mesma, - a história não se repete - verdade é que o eterno retorno anda aí e que que cada ano há uma Primavera, nova e diferente da anterior, é verdade, mas sempre Primavera, a deixar compreender Chatelêt:" em tudo o que permanece, algo está em mudança, e em tudo o que se altera algo há que sempre fica" Eu sou sempre eu mas sempre diferente de mim "- basta ver as fotos do B.I. .
Mas agora reparo eu!, Que diabo estou eu para aqui a aldeagar!?
Ficai-vos com um
XI GGGGGRRRRRRRRAAAAAAANNNNNNNNNNDDDDDDDDDDDDEEEEEEEEE!

terça-feira, agosto 01, 2006

A NOSSA FALA - LXIII - FIGOS MARANHÕES

Em todas as sociedades há elementos que gostam que as coisas não mudem e há outros que se esforçam para que a mudança aconteça. Os primeiros aceitam as estruturas tradicionais e tudo fazem para a manutenção da ordem e da disciplina vigentes; defendem a estabilidade e a harmonia do seu mundo sustentadas nas normas tradicionais; recebem com hostilidade as novidades que as podem comprometer; a modernização causa-lhes augústia. Os segundos, pelo contrário, entendem a mudança como necessária e desenvolvem uma forte propensão para contrariarem e subverterem as estruturas e a ordem estabelecidas, por as considerarem factores de estagnação e inibidoras da inevitável modernização.

Digamos, com Khun, que estamos perante dois paradigmas antagónicos, em que o anterior entrou em crise e surge um novo que pressupõe a aniquilição do outro. A transformação do velho para o novo é sentida como uma desorganização social, um caminho para a anomia, como diria Durkheim, pelo menos enquanto o sistema normativo antigo não é substituído pelo novo que emerge. Ainda com Khun, e utilizando o exemplo mais conhecido, pense-se nos efeitos da substituição do paradigma geocêntrico pelo que já apontava, certeiramente - eppur si muove -, para a nossa mesquinhez no contexto do universo, e os efeitos que tal provocou na visão do homem, do mundo, e… de Deus. Neste sentido, a modernização constitui um processo criativo e destrutivo da ordem anterior. Será? Ou será que a mudança é um processo primário, inexorável, e a estabilidade é apenas um afrouxamento da mudança?

Noutro quadro, recorramos a Bourdieu para pedir emprestado, o conceito de “campo”, aqui tomado, abusivamente, generalizado à escala societal. As posições relativas dos que são pró e contra a mudança leva-os a lutarem pela subversão ou pela conservação das estruturas, entendidas sobretudo no sentido da doxa, ou seja do senso comum, das “certezas” do velho paradigma, e do nomos, isto é das leis gerais, tendencialmente invariantes, que regem o seu funcionamento.

Esta conversa densa só para dizer que Ti Julho Ramelica era um fundamentalista do velho paradigma, um lutador tenaz do campo conservador.

O que se passava, em termos simples é que Ti Julho Ramelica não gostava da modernidade. Ele era um apreciador da ordem e do costume, avesso ao novo, hostilizava o desvio. Tirando a enfardadeira, que lhe dava jeito, por via da artrose, desconfiava de tudo o que era tecnologia. Entrava o velho sec XX na última década quando, a muito custo, lá concordou finalmente com a mulher em comprar o frigorífico, e em aceitar a televisão que a filha, emigrante na capital da Nação, lhe ofereceu, mas ninguém teve manhas para o convencer das virtualidades do micro-ondas. Mesmo no Verão, a mulher tinha de fazer o caldo na panela de ferro, ao lume. Doutra maneira, dizia, não lhe sabia bem. Incomodavam-no outras modernices como o telemóvel - proibiu a filha de oferecer um à patroa -, as saias curtas - umas desavergonhadas, é o que elas são -, as barulhentas motas de 4 rodas - espantam-me as pitas, haviam de marrar c'os cornos numa sobreira-, a música rock - eu sou capaz de bater os testos melhor do que eles - e, claro os piercings - atão mas qu'arraio de coisa é aquela?. Não seria admiração nenhuma que, se para tal tivesse preparação, discordasse em absoluto com o Vaticano II e com a missa noutra língua que não o latim.

Naturalmente, não apreciava futebol. A bem dizer, não achava qualquer utilidade a nenhum desporto, porque, no seu paradigma, o esforço tinha de ser produtivo. Daí que, não se inibia de, alto e bom som, invectivar aqueles “parvos que andam todos a correr atrás de uma bola, a cansarem-se que nem malucos, se querem suar, que me vão lá a arrancar as batatas”. Cada vez que passava junto ao polidesportivo a caminho da horta no serralheiro, arranjava sempre maneira de comentar com alguém “rais os palirem, andam eles ali a cansarem-se atrás do rai da bola, p’ra quêi? Se querem suar, ê tenho lá muntas inchadas e uma vinha para escavachar…”. O Mundial fora uma ralação para ele: “ na tilvisão é todo o santo dia naquilo, arre porra!”

A sua aversão ao futebol aumentou naquele dia em que regressava da horta com um caldeiro de lata de cogulo com figos maranhões, pendurado no cabo do sacho que equilibrava no ombro direito. Tinha acabado de repetir à Ti Ressureição Bandolas a sua teoria da improdutividade da actividade futebolística, quando uma bola chutada com força a mais galgou a rede do polidesportivo e veio embater em cheio no caldeiro dos figos.

Conjugada a raiva da situação com a maldade própria que lhe era (re)conhecida, Ti Julho atirou com o sacho para o lado, agarrou na bola e sacou do bolso a sua inseparável navalha de tachas pretas e folha já gasta de mais de 20 anos de uso, e põs-se a tentar espetá-la no esférico. Ou porque a raiva lhe reduziu o discernimento e a habilidade no manuseamento da navalha, ou porque o “cautchu” era duro, o certo é que a arma se lhe fechou apanhando-lhe o indicador, provocando-lhe um talho dos grandes e abundante soltura de sangue. A situação fê-lo atingir as raias da exasperação absoluta. Cego de dor e de humilhação, agarrou no sacho e começou a bater na bola que saltitava caprichosa como que a fugir das investidas do Ti Julho. Os jovens futebolistas assistiam agarrados à rede, comungando da opinião: “o velho passou-se…” O espectáculo só terminou quando o Ti Julho Ramelica desnocou o cabo do sacho numa pedra, quando falhou a fugidia bola redonda, e ele abalou com passo apressado berrando as mais ordinárias imprecações e os mais inconvenientes impropérios.
Juro que ele ia visivelmente consternado quando passou por mim. Quinze dias passados fui levar-lhe o caldeiro a casa e consolei-o, informando-o que, ao menos, os figos maranhões não se estragaram: papei-os eu.

sábado, julho 15, 2006

A NOSSA FALA - LXII - TRAMBELHO /TRAMBELO

Tempos inefáveis eram aqueles em que, apanhado o comboio em Castelo Branco, a malta da região que, na altura, estudava em Lisboa e não era assim tanta que não se conhecesse, ocupava toda uma carruagem - às vezes até já estava parada na estação e depois era só atrelá-la à máquina - .
Embora a viagem demorasse umas boas cinco horas, o tempo não custava a passar. Não raro, e porque a carruagem era sempre a última e o comboio parava em tudo quanto fosse estação ou apeadeiro, lá apareciam uns fregueses das Benquerenças, do Retaxo, dos Amarelos, das Sarnadas e por aí abaixo. Aquilo era fatal: mal se acomodavam, o cesto da merenda era logo aberto e "são servidos"? Ai não que não éramos!
Quantas foram as vezes que o meu pai me dava cinco litros para oferecer à Senhora da casa onde eu me hospedava. Nunca o vinho chegou sequer ao Entroncamento. Depois comprava outro vinho e era esse que oferecia. Era a vida.
"Olha, filho, não botes a cabeça fora da janela do camboio que ele passa numa ponte tão rente, tão rente que já se contam por nove os que lá ficaram." Invariavelmente era assim. E continuava: "Vê se te portas com trambelhos de gente...Já és um homenzinho!"
Voltas dei eu para descobrir donde raio vinha este termo TRAMBELHO. Lá descobri: o trambelho era uma espécie de registo que regulava a entrada da semente na mó - se se queria a farinha fina apertava-se o registo, se mais grossa alargava-se o trambelho.
Assim também aquele que se porta comédado e tem os cinco alqueires bem medidos tem trambelos de gente o que não tem regra e ora aperta ora alarga sem rei nem roque, não tem tino, é um taranta. Ah! o registo aqui não é o assento no livro do registo civil. Não. É uma roda dentada na ponta de um eixo, rachado ao meio, que atravessava os candeeiros a petróleo na parte metálica onde assenta a chaminé e servia para regular a chama desse candeeiro. Havia-os também nos fogões a petróleo e com a mesma finalidade: regular a potência da chama.
Figura inolvidável da xendrada era o Zé Bondito. A paciência que a ti Maria teve em aturá-lo só a divindade a saberá. Só apanhava uma bededeira por ano: de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro. mesmo nos bissextos. Duma vez o encontrei eu deitado na valeta ali ao fundo da curva do muro do Marcelo, em frente da casa do Geadas... Chovia sem trambelhos nenhuns. Água com fartura!
Vinha eu de levar uma bilha de gás ao Rancheiro, lá por detrás do cemitério, com o incansável carrinho quadrado, boina na cabeça e bota cardada, quando, depois de passar a ponte, começo a ouvir um rosno compassado. Apuro a orelha: era o Bondito!
"Ó tzéi?Tzéi! "clamei.... "rais o afundem... "Voltei atrás àquilo do Cavalheiro e lá engatei o Fainica, que era vizinho do Bondito, e o João Feijão, que só veio a troco dum copo. Os três lá arrastamos Bondito para debaixo do alprendre do Geadas, onde é agora a loja do Licas, mesmo na curva do aidro. Fui pôr o carrinho na garagem estrela, ao canto do Fatela por debaixo do baturel da velha Batista e vou-me à casa da ti Maria, quase ao cimo da Lagariça, paredes meias com o velho Comandante e bem perto da velha Passarinha, vedeta outra que um dia trataremos aqui comédado: - era Passarinha, porque era a parteira de serviço na Aldeia e, claro, tinha que ver muita passarinha - !
Bato à porta e lá oiço passos do lado de dentro, apercebo-me do aumento da luz no registo do candeeiro a petróleo : "quem está aí?" Lá me identifiquei, já a velha Pássara estava no cimo do balcão, a Maria Chan Chan já vinha com uma pinha acesa a ver o que se passava, o velho Sarrabeco com a voz catarral "que é lá isso,home? e até a mari troncha, que antes queria ter um filho,(e teve oito antes de o seu Jabão se enforcar) aparece à esquina tentar ver à luz dum fósforo que acabara de riscar na lixa da caixa, brada: «O que queres à mulher a esta hora, ó fedelho" tu num sabes as horas? já num há trambelhos nenhuns!-
A ti Maria, é preciso dizê-lo, era uma das forneiras da comunidade, já dormia - que o dia começava às quatro da manhã para ela quando deitava lume ao forno da D. Carminda, do outro lado das escolas velhas, um pouco acima do Tonho pitincoiro e em frente do velho Forelho. (Isto é que são dados geo- estratégicos! qualquer rasca, curioso em G.P.S.. daria no forno com estas indicações).
Voltemos à narrativa...
Lá venho com a Ti Maria - esta malta, a bem dizer, dormia vestida - direitinhos ao alpendre do geadas, mas ... Bondito, viste-o!
Ao fim de algum tempo lá o achamos na rua de trás, portinhola desapertada e a cantarolar: "Ela já anda na rua!ela já anda na rua! côtche!côtche! côtche!"
«Vergonha da família, vocêi num sinvergonha deste porte, seu porco sujo?!» e ele: « ela já anda na rua! ela já anda na rua!... Caminhe à minha frente para casa, seu badalhoco!"
O Bondito, aquecido como estava, nem arrastava o pé! A água continuava a cair!
"Estou chapado!" digo para mim. De repente penso:" vou a buscar o carrinho , sento lá o velho e...ala!."Foi um instante.
Empurrei o velho lagariça acima, levei-o em braços até à soleira e deixo-o para a ti Maria: "bem hajas tu! meu home! bem hajas tu! é a minha cruz.... O Comandante ouviu e conheceu a minha voz:"és tu ,Changoto?! "Sou, meu avô!" Não tardou já estava a descer as escadas com a candeia baixa, a abrir a porta da adega, ali mesmo em cima do barroco que tanto servia de eira como de passadeira de figos:" ó porra! estás molhadinho que nem um pito! anda lá pra cima pró pé do lume!" A custo lá lhe disse que não, que bebia um copito e me ia à cama!
Aos poucos lá se foi convencendo: "vês o que dá a falta de trambelos do Bondito! Ê tamém gosto dele mas vêi lá se algum dia me viste borracho. Um homem tem que honrar o tchapéu que traz na cabeça. A canalha é que pode perder o tino! um homem tem que andar com trambelos de gente. "
«Já me vou avô! Fique descansado que eu tenho trambelhos, assim comédado! Dê-me a sua bênção» "Deus tabindçôe, mê filho! e te faça um home de bo sorte!Amén"
Desci a Lagariça sem trambelos nenhuns com o carrinho a saltar na carecada das pedras de quase meia calçada e só parei ao lume, já o meu pai dormia e a minha mãe estava em cuidados. Quis saber a história. Contei-lha, deu-me um beijo, e deitei-me.
Quereis mais trambelhos que estes?
UM XXXXXIIIIGRRRRRRRAAANNDDDDEE!

sexta-feira, julho 07, 2006

A NOSSA FALA - LXI - ESCARAPUÇAR

Lembro-me de uma vez, quando se estudava a formação das palavras, que, em causa, estavam as divergentes nau e nave, provenientes do étimo latino NAVEM. A explicação dada, então, pelo meu companheiro de turma, foi, que NAU entrou na Língua Portuguesa por via marítima e NAVE teria entrado por via espacial. Era também estralibeta este velho companheiro.
Numa aldeia bem perto da nossa quando os pirolitos com os berlindes foram substituídos pelas caricas e, porque tal nunca tinham visto, imperioso se tornava arranjar um nome para aquela nova forma de tampa ou rolha, o povo não se ensaiou muito: como as caricas são parecidas com as formas dos bolos de coco, sejam em lata ou em papel, nada mais simples que chamar-lhes FORMINHAS. Ainda hoje por lá se chamam assim. Ainda outra: uma mulher, por acaso casada com um natural desta aldeia, tinha como apelido CARRECHANA. Dava-se o caso de a mulher ser de tez muito escura. Ora como as trovoadas também escurecem o céu, quando ameaçam a descarga, a ligação foi instantânea: vem aí uma carrechana!
O que aqui nos traz hoje é também uma palavra que derivou de carapuça, não por via gramatical, mas por via imagética, direi eu agora. De facto a palavra carapuça é, por demais, conhecida e até sentida, já que continuamente nos estão a enfiar uma. A uns assenta bem, a outros nem tanto!
ESCARAPUÇAR dizia-se essencialmente da situação em que a baraça com que se enrolava um pião, fosse porque não fora bem apertada ou apertada de mais, fosse porque o nó que se punha junto ao ferrão e que permitia enrolar de baixo para cima o dito cordel, fosse ainda porque o desgaste da baraça era já de tal monta que mal se podia puxar, fosse por que razão fosse, o certo era que o pião não dançava e tínhamos que o pôr na roda do meio à espera que um amigo no-lo tirasse.
Poucos tiveram tantos piões novos como eu : o sr. João Vicente, mecânico que era na garagem Petronilho em Penamacor, vinha todos os dias apanhar a camioneta ali ao pé de casa. Invariavelmente nós jogávamos o pião e ele pedia-mo sempre a mim.
A força daquele homem era bruta: chegou a levantar do chão uma carrinha HANOMAG para que o seu parceiro pudesse por uma preguiça a fim de tirarem o pneu, pois, o macaco tinha-se avariado. Quando ele lançava o pião, se caísse em cima de qualquer outro que estivesse no sal (castigo por causa de não ter saído da roda) era certo e sabido que o escarchava. Às vezes o pião batia numa pedra ou em alcatrão mais rijo, e, de um, ficavam dois. Logo a mão ia ao porta- moedas, saíam cinco mil réis e "vai comprar um novo."
Havia piões esgravunas que mais pareciam galinhas a esgaravatar e outros que até se ouviam zunir, bem calibrados que quando a velocidade reduzia se deitavam sobre o seu próprio eixo e, ... aí vinham eles para fora da roda! Estes eram os mais valiosos.
O ESCARAPUÇAR vem do facto de ao vestirmos o pião com o cordel e, embora fosse vestido de baixo para cima - ao contrário da carapuça que se enfia de cima para baixo- às vezes o cordel se desmaranhar, (desemaranhar) , o pião, assim vestido, parecia uma boneca de carapuça. Já percebestes agora por que razão a via de entrada na língua portuguesa foi a via imagética? Como é parecido passa a ser igual. MAINADA! É apenas uma questão de imaginação.
Quantas vezes eu ouvi a mesma história ao João Vicente quando escarchava os piões !- a ele não se lhe escarapuçava a baraça. Tinha uma só dele que fazia a inveja da malta.
Dizia ele:" sabeis porque é que eu tenho esta força toda? Porque como muito bacalhau e o bacalhau é o peixe mais valente que há no mar.» «Como é que sabe isso? », perguntávamos nós, malandrecos, só para tornarmos a ouvir a resposta: "porque depois de pescado, esquartejado seco, salgado e demolhado ainda lhe fazem uma punheta". Todos ríamos e até corávamos.
Também nós ficávamos escarapuçados, assim como que "incouros" perante vocabulário desta monta. O que é facto é que até parece que gostávamos.
Se lermos isto à luz da Psicanálise pode ser que, de algum modo, isto consista num mecanismo de defesa do eu que assim evita o complexo de castração, através de uma transferência para o outro da nossa incapacidade.
Se calhar, sou eu que estou a meter alguma escarapuçadela! No melhor pano cai a nódoa.
Escarapuçado se dizia ainda, quando, garotos imberbes e de experiência curta, nos era pedido para ogarmos um bom molho de colmo e nos era dado um nagalho... Quem não soubesse como pegar na palha, era certo e sabido que o molho se escarapuçava e era alvo de mangação.
Passou-se algumas vezes comigo até que com o tempo dei nela e os velhos já não me atentavam. Outros tempos em que os garotos eram facilmente escarapuçados!
Havia de ser nos dias de hoje!

sábado, junho 24, 2006

A NOSSA FALA - LX - ESTRELIDO(A) / ESTRALIBETA

Qualquer destes termos se usam de forma indiferenciada, apenas tendo como referente canalha ou pré-púberes. Nunca para adultos.
Isto dos referentes "tem lá porras", como dizia o velho comandante - há quanto tempo não aparecia - , quando se referia ao trabalho que era preciso para preparar uma pipa de madeira para poder,em condições, levar vinho novo.
As palavras são sempre inocentes, qualquer maldade que lhes seja atribuída resulta sempre de intenções malévolas de quem as emite, ou, o que é ainda pior, de quem as ouve. Jacques Lacan, neo - freudiano francês, dizia :" tu não me podes falar do sítio donde eu te escuto", o que, bref, quer dizer que eu não posso ter certeza de que o outro, que me escuta, entendeu o que eu quis dizer da forma como eu queria que ele o tivesse entendido.
Voltemos ao referente: há palavras que eu quase tenho a certeza de que todos entendem da mesma maneira. Por exemplo: se eu disser gato, a imagem mental construída refere-se a um animal, quadrúpede, mamífero,..., mas se eu disser carteira a coisa complica-se porque, só no contexto eu sei a que se refere, pois pode ser um médico ou um operador de seguros e referirem-se à sua carteira profissional, pode ser um aluno e temos a mesa da escola, um negociante e temos a carteira das notas,...,; mais complicado ainda se eu disser FELICIDADE onde já não há representamen universal. Pior ainda se me refiro a Deus...
Mas que tem isto a ver com o nosso estralibeta ou estrelida?
O velho Kant - esse chinês de Konigsberg - colocava na intenção moral o valor da acção que havia de valer por si mesma sem poder ser utilizada como meio para um fim. Aqui se passa similarmente.
Garotos estralibetas eram os meus velhos companheiros de escola que já uma vez vos trouxe aqui sob a forma de apelidos. Uns mais que outros, é claro. Eu estava no grupo dos mais.
Eu pertenço ao grupo dos que estrearam as então chamadas escolas novas. Dois edifícios geminados em que apenas o pátio coberto, que dava acesso à entrada, era comum a rapazes e a raparigas. Tudo o mais era separado. Por detrás das ditas escolas havia dois pátios separados por um muro em granito com cerca de 80cm de altura. A meio, dum lado e do outro do muro estavam duas tomadas de água e um bebedoiro onde a malta se dessedentava: rapazes e raparigas, obviamente, cada um de seu lado da tal parede.O Sapo tinha um ferro espeta com uma argola que encaixava perfeitamente na rosca da válvula que regulava o jacto de água de forma correcta, para não respingar, ou colar ao bico. De vez em quando, as coisas bem combinadas, um de nós vinha à casa de banho antes do intervalo, sabíamos onde estava escondido o ferro do Sapo, abríamos o jacto ao máximo e, claro, quando as garotas estavam do outro lado a beber, a jogar ao descanso, ao lenço, à corda, ou o que quer que fosse, eu e Coiote Pete íamos agachados junto ao muro, Coiote punha um pau aguçado já à medida na saída da água e eu fazia pressão : as garotas ficavam todas regadas. Os cachopos, esses riam a bom rir.
Um dia a mãe da Zabel Rela, a ti Conceição, que tinha um nariz mais do que grande, que era minha vizinha, quando não estava no campo, :" tens a mania que és estralibeta mas se me tornas a molhar a cachopa vais ver como te mordem... ."
Mas eu fingi que não ouvi. A Zabel foi meter nas orelhas do professor e lá alinhei com o Coiote para o pé do estrado. Tivemos que contar a história a todos, papamos dez reguadas bem puxadas cada um e tivemos que escrever na página central do caderno:" nunca mais molho as raparigas" 100 vezes. "E isto é para não serdes estrelidos", disse o professor Zé Candeias. A Zabel quando soube: "Bem feito!"
Ora nós não tinhamos intenção nenhuma de ofender quem quer que fosse. É esta a falência da moral kantiana. Quando praticamos a acção, partimos da representação de uma máxima transformada em lei, qual seja, a de que qualquer garoto que tivesse as condições e os apetrechos que nós tinhamos, jamais perderia a oportunidade de xeringar as cachopas. É ou não é? Só se é garoto uma vez. Depois... ardeu a tenda!
Mas eu era estralibeta por outros motivos: o Zé Guerrilhas, um dia, apanhou-me naquilo da Troa e arranca:« Quem de vinte cinco tira quantos ficam»; a princípio fiquei atordoado, mas logo após saio-me: ficam 15.« É estralibeta o raio do garoto! »
O Trem vem então com esta: «um velho faz um cigarro com 5 beonas, quantos cigarros consegue fazer com vinte cinco beonas?» E eu, rápido: «ora, faz 5;» e o Trem:« se isto fosse assim tão fácil, não valia a pena fazer-te a pergunta» e acrescenta: «Levas os miolos todos daquela lata de bolachas se amanhã souberes a resposta...»
Se havia coisa de que eu gostava, era de encher os bolsos com nacos de bolacha Maria partidos irregularmente e que resultavam do facto de antigamente, os merceeiros , meterem tudo em cartuchos de papel cinzento: o arroz, o acúcar, a massa, o colorau,... as bolachas Maria. Havia umas, torradas, que eram o supra-sumo. Era para mim um consolo ir de Aldeia até à sorte da Ribeira todo o caminho a deliciar-me com os restos das latas. Tempos...
Fui para casa a matutar no problema, juntei-me com o Coiote Pete e mais uns quantos, prometi dividir os restos das bolachas, às escondidas, andamos todos a guardar os velhos que fumavam Onça e MataRatos e outros cigarros sem filtro como o Paris, o Sporting, o Português Suave, o Definitos, o Provisórios, onça Holandesa em mortalha de 'papel Cegonha não há outro que se lhe oponha', juntámos 25 beatas, experimentamos em folha de caderno da escola, já escrita, como quando fazíamos os cigarritos de barbas de milho ou folha de videira seca e, de repente, Varinha de arado:«Ó cabrões, então de cada cigarro que o velho faz sobra uma beona.» E eu» pois é, o velho faz seis cigarros e ainda sobra uma beona» .
Nem sei quantas vezes acordei de noite: às vezes a rir-me da descoberta, outras a antecipar o prazer de saborear as bolachas.
Às nove - isto era tempo de férias - lá fui eu à casa do Trem: «não me digas que já deste nela?!»
"Poi já! ,digo, faz seis cigarros e ainda sobra uma beona". «És ESTRALIBETA, não há dúvida."
Lá me vieram a parar os bocadinhos de bolacha à mão, pedi um cartucho e fizemos uma farra com bolachas e um refresco de vinagre com água do cântaro e acúcar. Um veneno, mas uma delícia.
Isto a modos que é assim como aquels velhotes que quando vêem uma febra das novas: «Ah! tempo! Já não fazia nada, mas a ideia, essa é que não pode morrer, a ideia tem que estar sempre cá. Se abala a ideia o melhor é a gente apagar-se...
Aqui fica a solução: NUNCA SE PODE PERDER A IDEIA, MESMO QUE JÁ NÃO SE CONSIGA FAZER NADA. Essa é que é essa. Os velhos afinal também podem ser estrelidos ou estralibetas.
Um XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIII ...E N O R M E.

segunda-feira, junho 19, 2006

A NOSSA FALA - LIX - AZADO OU AZADINHO

Comecemos pela fonética e pela grafia: leia-se ÁZÁDO ( os A abertos) e não confundir com asado. Este é um cântaro de barro onde as famílias refrigeravam a água que as mães iam buscar à fonte : (quem não se lembra:«que é que é que vai deitado e vem em pé»? ou « o que é que tanta vez vai à fonte até que lá deixa a asa?). Nada disso com o nosso ázádo.
Trago-vos hoje aqui duas figuras, entretanto desaparecidas do mundo dos vivos, que, por certo, alguns ainda lembrarão e outros, eventualmente a maioria, nunca sequer ouviu falar.
Em tempos, numa conferência memorável, ouvi que "é preciso desarmar a história". De facto, o estudo da história quase se limita a reis e heróis em guerras e batalhas. Por mero acaso lá se referem poetas e outros escritores, alguns engenheiros, arquitectos ou doutores, raramente professores, poucos padres e doutras profissões contam-se pelos dedos de uma só mão: por exemplo o Bandarra, ou o zé do telhado. O povo, esse só aparece como patuléia = pata ao léu = pé descalço nas guerras constitucionais. Vamos desarmar, pois a história. Honra aos ignotos deste país e mais ainda aos xendros que se vão na ' bruma da memória ' .
Vou trazer-vos dois AZADOS, dois Mnés Chquins: o Carreiras e o Chéte.
O Mné Chquim Carreiras era muito azado: dava explicações privadas numa casa com primeiro andar na esquina do início da rua do cavacal a fazer esquina com o beco do Bento, do Furdas e da Libra, pegada em tempos com a casa da minha bisavó Rosa que morreu no mesmo dia em que lhe nascia a terceira bisneta. Ainda por cima a 29 de Fevereiro. Coisas do dianho!
Foi o Mné Chquim Carreiras professor privado de muito boa gente que ali se começou a tornar pessoa: bancário, professor, solicitador, até juíz e muitas outras profissões. Quem não tivesse dinheiro para pagar o pouco que cobrava, bastava que permanecesse nas redondezas com pedra e ponteiro e registasse o que ele pregava. Assim mesmo: a sua voz tonitroante ouvia-se bem aí a uns bons 50 metros da casa. Os que erravam algum exercício eram tratados acima de BESTA, BURRO AO QUADRADO, CAVALGADURA, ALIMÁRIA, CAMELO e outros epítetos que por não poderem ser ditos se devem calar como queria L. Wittgenstein: «o que não pode ser dito, cale-se.» MAINADA.
Mas o Mné Chquim Carreiras era ainda bem AZADO para outro mister: cantava divinamente. Digo bem:DIVINAMENTE. Fui dos poucos que tive o privilégio de (poucas vezes, porque lá em casa, a hora de levantar era por volta das seis ou antes, sobretudo neste tempo de Verão), tive o privilégio, dizia, de acordar ao som daquela voz de timbre raríssimo, clara, sem artifícios e poderosa como poucas que tenho ouvido. Uma pena que nunca se tenha registado aquele som. Está registado no meu ouvido. Um encanto! Então para o fado de Coimbra, ainda está para nascer quem eu conheça ao vivo quem o cantasse melhor...E sem acompanhamento! Não desafinava e a temporização era a adequada. Encantador, só vos digo.
Não era muito bem visto porque era um tanto anticlerical (ao fim tornou-se devoto confesso e praticante) e dizia que não ia ao funeral de ninguém porque o morto não lhe poderia retribuir o gesto quando ele morresse. De facto, foram poucos os que o acompanharam até à "Quinta das Tabuletas".
O outro AZADO é o nosso Né Quim (Chéte) : uma bomba de trabalho e muito azado para arranjar e pôr cabos em podoas, enxadas, ancinhos, foices, martelos, sachos, pás, picaretas, arranjar fueiros para os carros de vacas e carroças, alinhar hortas, demarcar veredas, e também para fazer um petisco com pouca coisa. Sabia fazer render o que tivesse. Sempre na panelinha de ferro. Duma vez o vi eu fazer uma perdiz que tinha agarrado lá para os lados dos pinheiros:
põe um bocado de toucinho do presunto no fundo da panelinha, quando estava a corar tirou-o e meteu a bem dizer uma cabeça de alho com um pouco de azeite e uma cebola mal cortada em quartos sem desunir, deitou as tripas da perdiz dentro duma meia para o molho, ia virando com a colher de pau, retirou a meia com as tripas aí ao fim duns cinco minutos, deitou a perdiz inteira (depenada, é claro) e duas folhas de louro.Tapou. Foi-se à adega, mais propriamente ao pipo que apenas estava separado de nós por um cortinado de chita da tabela pendurado por um baraço corredio, trouxe uma cafeteira cheia de vinho, provamos, voltou a mexer a perdiz, foi-se ao asado e tirou meio copo de alumínio de água que deitou na panelinha para"assustar"-disse- .
Raspa umas batatinhas novas miúdas deita-as para a panelinha com duas malaguetas do vinagre e mexe outra vez, salga, espera um pouco e prova. Verte um bom meio quartilho, talvez passar, de vinho, tira da cantareira um prato grande de "resmalde"=(esmalte).
Com a toalha a servir de pega despeja a panelinha no prato, traz um garfo para cada um e um copo que mais parecia um almude, parte duas fatias de ganhão dum pão enorme que mais parecia uma roda de carro e :"senta-te e come." Que remédio!
Um pitéu. Era assim o Chéte. Trabalhador incansável e amigo do vinho mais que o diabo de almas em pecado. Solteirão...
Só que um dia...
Um dia uma Solipa que enviuvara em França e que, por mor de não perder a pensão de viuvez, não se podia voltar a casar, deu a volta ao Chéte, lavou-lhe a roupinha, mudou-lhe a enxerga com palha centeia nova, comprou duas almofadas e um travesseiro de barbas de milho ao trindade de Caria, mudou os cobertores mais negros que borra de azeite e pôs lençóis de linho na cama de ferro, varreu a lage comédado, substituiu as sertãs enferrujadas por frigideiras asseadas, forrou as cantareiras com plástico verde com motivos amarelos, areou os cacos de barro, avinhou uma panela de ferro nova e...deitou-se com o Chéte.
A Aldeia acorda estupefacta: às seis e meia da manhão nosso Né Quim, tão Azado, ainda meio desasado, da bebedeira da véspera, aparece àquilo da D. Zezinha a gritar: «Ê (=eu) agóa (=agora) tamém já,Oh!Oh!, Ê agóa tamem já,oh!oh!, ê agóa tamém já,oh!oh!
E foi assim a primeira do nosso AZADO Né Quim Chéte.
Fazei-vos AZADOS para o que quer que seja.
Um XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

sábado, junho 17, 2006

NENIKIKAMEN

"(...) na história épica da Batalha da Maratona, no ano 490 a.C., quando, na planície da Maratona, a cerca de 40 Km de Atenas, 7000 guerreiros gregos derrotaram 20 000 invasores persas.

Para os historiadores, esta vitória grega viria a ser considerada como a batalha que salvou a civilização ocidental, tal como hoje a conhecemos. Depois da batalha, um corredor solitário foi enviado desde Maratona até Atenas para contar ao povo o grande triunfo. Quando chegou ao centro de Atenas, completamente exausto, apenas conseguiu gritar NENIKIKAMEN (Ganhámos), para, de seguida, sofrer um colapso e morrer."


(Confesso que não sou adepto do folclore exagerado à volta do mundial; fico-me discretamente por umas minis e amendoins no café. Depois da vitória futebolística sobre a Pérsia, em vez de continuar nas minis e nos amendoins como alguns milhões de portugueses, fui-me à net a saber coisas sobre a Pérsia actual. Eu acho que esta minha atitude deveria ser apresentada como uma referência nacional e inscrita no manual de boas práticas do amante de futebol).

quinta-feira, junho 08, 2006

A NOSSA FALA - LVIII - OH! DIANHO

Quase sem darmos por isso chegámos a dez mil visitas. OH! dianho!
Mais este ano que tem o dia da besta: 06/06/06, o famoso 666, número maldito já que duplica o três, número sagrado por excelência, tal como o sete, resultado da soma do primeiro número perfeito - o três - porque para além de ser o número de pessoas da SS. Trindade, é o primeiro que tem princípio, meio e fim com o primeiro quadrado perfeito, (o quadrado de 2 que, como se sabe, é 4) uma vez que o quadrado de 1, é ele mesmo.
Comecei a escrever esta peça no dia 4, mas depois vi que todo o borra botas falava do que sabia e não sabia a propósito deste tema disse cá para mim: oh! dianho, tens que deixar os números e alinhar por outra vereda. Maináda!
Veio-me à mente um poema do poeta latino Horácio: «Oh! fonte de Bandúsia, mais brilhante que o vidro cintilante,/mais famosa que as Pirâmides do Egipto e mais constante que os números babilónicos!/ Em vão o sangue de um jovem cabrito/com a fronte ainda mal inchada/com os cornos nascentes/que o preparam para as lutas amorosas/em vão, tinge de rubro as tuas águas cristalinas/É a ti que se vem dessedentar o rebanho errante/e o boi cansado de puxar ao arado/.As tuas águas cristalinas correm entre os seixos onde a azinheira /que me dá sombra, entrelaça as suas raízes. "
É ou não é lindo?! (a tradução respeita escrupulosamente a mensagem do poema)
Vamos então por aqui, dianho!
O povo tem também as suas poesias e, sem dúvida, a marca maior desta característica assenta nos provérbios e ditos populares para além das mais que famosas lengas-lengas.
Sirvam de pequeno exemplo: "quem muito dorme! pouco aprende/é como a lenha verde/que mal se acende;» ou estoutro: "Não há pau como o de carvalho/nem lenha como a de azinho/nem filhos como os dos padres/que chamam ao pai, padrinho."
Quando era miúdo, foram bastas as vezes que acordei com o som roufenho do búzio, que soprado com mestria pelo Zé Planeta ou pelo Manta-Rota, homem sempre com a malandrice na ponta da língua, não tivera ele sido aluno de nosso Fernando, Zé Luís, Mnel freitas e outros que tais, que quando uma mulher apanhava azeitona no panal por baixo da sua escada se saía:" anda deixa-te aí ficar, que debaixo de mim é que tu estás bem".
Ouvia-se em quase toda a aldeia aquele som, aí por essas seis e meia da manhã, os ranchos juntavam-se e lá se ia para os olivais e «Vamos ,vamos, que o patrão é pobre e quer ver a azeitona colhida»
Já rapazote, fui também nessa leva a colher azeitona para os lados do forninho. Comigo ia Júlio Casqueiro, Guilherme Chornico, Chquim Camião,Olho de lata, e mais uns quantos que a memória agora não aclara. às tantas, estava eu na muda, do meu lado esquerdo ficou o Guilherme e, à direita, o Casqueiro. Arranca o Guilherme: "Fui à serra à lenha/escorreguei num rosmaninho/Vê se ouves,o Julho/que tens um arame no focinho! » O casqueiro: "Vá la a ver a confiança!" Eu calado, continha o riso! Volta o Guilherme : " Fui à serra à lenha/ escorreguei num sargaço/Ouve-me bem, ó Julho/que só comes bolota e bagaço.» E o Júlio:" OH! DIANHO, vê se tens tento na língua, cassenão inda te cai uma arrochada num corno"... e o Guilherme: "quem é que aqui tem cornos?" Descemos todos à pressa a evitar uma encarniçada luta de galos. A coisa esteve feia mas lá se compôs.
O meio-dia é a hora sagrada de almoço. O ambiente estava tenso e saio-me eu com esta:
Ó ti Guilherme, atão e quando o seu Fernando vai ao quadro e o professor lhe diz:» multiplica aí 4 por 11. » O Fernando vira-se para o professor e solta: "Calha bem! Não há tabuada do Onze"!
Até o Casqueiro se riu e as conversas aos poucos retomaram o curso normal da colheita da azeitona: Mulheres, ó mulheres, olha o fato.- colho pró chão" O rai do home, tanta pressa tem, levanta lá a escada para esticar bem o panal, vá! o dianho do home!» ...
Dei por mim a cantarolar (de Sophia) : olhei o que se faz debaixo do Sol/Tudo é vaidade e tempo perdido/O que falta cantar não se pode/e tu só queres agarrar o vento!(...) A música é do Chico Fanhais. Vale a pena ouvir.

terça-feira, maio 30, 2006

A NOSSA FALA -LVII -ACADEJA

Já andáveis com saudades! Todos temos na vida momentos em que o lazer e/ou o prazer tem que ficar adiado. Foi o caso.
Em tempos num encontro com Fernando Namora a que tive a oportunidade de assistir, explicou ele que já tinha todo o livro escrito, faltando-lhe apenas a primeira frase e o título. A estória passava-se no Alentejo, mais concretamente em Pavia, e ele resolveu deslocar-se à vila para ver se se inspirava. Contou que não demorou mais de um minuto a arranjar a primeira frase e título: O livro é "O Trigo e o Joio" e a primeira frase:" a vila é uma rua". Nem mais. Podeis confirmar.
De repente, também me transpus para a curva do adro da nossa Igreja (que bem precisa de umas obras e, pelo menos, das paredes limpas e dos vidros substituídos, e....).
Olhei para cima na direcção de Aldeia de João Pires, e que vi eu? A aldeia como era quando eu era garoto.
Não havia café da Rosa, a casa estava a cair e o Zé Augusto é que a reconstruiu, ao lado onde é agora a casa do Chinchas, era a casa da velha Mona, cuja loja estava arrendada ao Fatela e era onde ele tinha o sal para as salgadeiras e outras drogas que não podia ter na tasca. Lá dentro tinha um poço onde eu ainda refresquei muita laranjada Cristalina e alguma cerveja, para além de uns garrafõezitos de vinho bem arrolhados. O largo, em frente, era terra batida com o talho do ti Zé Rolo e a tasca, na perpendicular a casa de alferes Rei, o homem das festas populares, ao lado da casa do Clube Fernão Lopes que tinha no r/c a barbearia, primeiro do sr. Joaquim Vicente e depois do Domingos Patanisca e Zé Maroco e, à ponta, a tasca do Zé Júlio.
Regressando à estrada -afinal a aldeia é uma rua, como dizia o Namora - passei pela casa da Conceição do Trem que vendia desde chita da tabela até bacalhau corrente e do graúdo, a tasca do fatela, o quintal do chquim pardalinho e menina aguércia onde se comia arroz de manjerico, e logo o do Zé Geadas hoje do Antonino. Em frente a tasca do Chico Miguel que tinha, pasme-se, quatro furdas de porcos coladinhas às escadas que dão, ainda hoje, acesso ao primeiro andar da casa e ao pátio, lá por cima. Logo após, o Tó Robalo e o largo do batoco com a paragem das camionetas. A casa do Carradas, hoje café, era da ti Antónia Costa e tinha por baixo o porco e a burra. Assim mesmo. A da esquina, da Pragana, tinha também um burro e na escadaria de acesso havia um buraco onde estavam as galinhas que andavam livremente pela rua. De vez em quando um carro passava e depenava logo metade da pita. Essa casa do Carradas tinha um balcão alto com laje no cima onde se fazia a descamisa do milho até às tantas. À esquerda ia-se para o cavacal e à direita para o outeiro. O largo do Batoco, onde agora está a sede do tribunal da má língua, tinha uma poça de água ao canto, por detrás da casa, onde o povo embacelava vides. A história deste baldio e da sua "requisição popular" ainda um dia aqui há-de ser contada. As galinhas = pitas andavam livremente por ali e nós jogávamos o pião, a bilharda, o pinoco, o malhão = burro, a esconder e a achar, ao fito, à raioula, ao espeta,... Duma vez ao filho do Zé Pantelhão, o Zé Inácio, que está em França, furei eu a bota com o ferro aguçado pelo ti Mné ferreiro, que lhe deixei o pé pregado. Levei uma malha.
À tarde, era ver as Gornhatas, a Espeta Figos, a Surreição, a mulher do Calça Defuntos, a Tonha Costa, a Nicas e as mais que por moravam por perto, vindas da rega da horta, ali chegavam e«gacha, gacha, gacha, gacha, !pnina, pnina, pnina, pipipipipi...Não sei como, mas as galinhas lá acudiam ao chamamento e estendiam uma passadeira da boca do poleiro até ao chão e as galinhas lá seguiam atrás delas, para o descanso nocturno. Era a ACADEJA.
Quando a semente proveniente das eiras era lançada para os arcazes era a Acadeja. Se te pediam para chegares para perto de quem pedia um objecto distante, do tipo: "ACADEJA-ME aí o foição! era ainda a acadeja. Se te pediam para esconderes o sacho no segundo rego da leira do feijão verde era :"Não te esqueças de acadejar o sacho no rego".
Como ficais agora cientes, esta palavra era polissémica. Maináda!
Mas a estrada continuava: o fechamento do largo da paragem das camionetas era feito pela casa dos pais dos que aqui escrevem e, seguindo acima, vinha o João rela e o João robalo com capoeira e coelheira mesmo ao lado, chegadinhos à oliveira grande que já não o é e que tem a ver com o nosso pratitamem. Em frente, quintal e casa de Julho Casqueiro ou Aspirante, Chico Rolo, Maria Esteves, à esquerda, quintal do Ribeiro e casa do sr Brigadeiro, hoje de nosso Fernando, com a horta da madrinha Angelina e casa do velho Argentino, estrada das Águas, quintais do Carradas e do regedor primitivo, palácio do tenente Birra em frente ao Chico Sarapião e chquim Área..Galinhas por todo o lado e à tarde lá vinham as mulheres, Tecla incluída, mulher do ti Mnel Ferreiro, artista maior de relojoaria e ajuste de aros em rodas de carroças e carros de bois, e: "Pnina, pnina, pnina, gachagacha, gachagacha! Todas acadejavam as suas pitinhas, não raro sem lhes meterem o dedo a ver se o ovo do dia seguinte já vinha a caminho...
Chegamos à curva das antigas escolas, um enorme sobreiro, o forno colectivo, o quintal e casa do professor Tanganho e D. Carminda frente ao Ferro Velho ou Forelho, Zé Verniz, e grande Celestino, paredes meias com o ti João Toscano e Penajóia. Era assim a estrada da nossa aldeia.
Havia apenas duas pessoas que faziam desviar a malta da estrada: Padre Zé Pedro, no seu ânglia e Dr. Landeiro no seu Peugeot. Aí o grito não era ACADEJA, mas ARREDA!ARREDA!ARREDA!
Outro dia logo vos digo como era a estrada do adro para a vila!
Hoje ficamos com este jogo, mas não resisto a que, como estamos em tempo de pesca, vos dediqueis a comer, comédado, uns peixinhos de água doce:
primeiro pescá-los, não destripar nem escamar, acender um bom borralho de esteva ou giesta, queimar a grelha, arranjar uma plangana com água da ribeira onde o peixe se pescou, salgar essa água a gosto, depois um pratinho onde está um molho feito de alho esmagado à bruta, azeite e vinagre.
Eis a sucessão:
1 - aventa-se com o peixe para a grelha, se cair para o borralho não faz mal
2 - vira-se para assar dos dois lados
3 - tira-se com uma sovina
4 - atira-se para a água salgada
5 - recolhe-se e passa pelo prato do molho
6 - põe-se em cima da fatia do pão
7 - papa-se.
Se verificardes bem, aí ao quinto peixe, a água fica quente e o sabor do peixe melhorará substancialmente.
Vantagens: a carne do peixe solta-se das espinhas, toma-se convenientemente do sabor, saboreia-se como pertence, não se suja mais louça - a não ser um copo se não quiserdes beber da borracha ou directamente da garrafa - .
Experimentai!
Ensinamentos de velho, que comigo, acadejou muito peixe na barriguinha.
UM XXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!

quinta-feira, maio 18, 2006

A NOSSA FALA - LVI - CARCHANTADA

Ouso dizer, sem receio de represálias, que o EX-LIBRIS da nossa aldeia podia e DEVIA SER o Lagar da Lameira.
Quase me nasceram lá os dentes: se não os de leite, pelo menos os definitivos. Com toda a certeza.
Aquele lagar de três varas era um dos três que moíam na aldeia. Para além desse havia o da D.Carminda, ali mesmo onde hoje é a casa do Roupinha Afinéda, acima da casa dos Soalheiros, frente com a casa do professor Marcelo e da ti Catrina Casaca, velhaca como as cobras. Nosso Fernando trabalhou lá um bom par de anos. Havia ainda a FÁBRICA do professor Leitão, a única já electrificada com moinhos de pedra a rodarem sobre superfície metálica e prensas para a espremedura. O lagar da lameira e o da D. Carminda eram integralmente manuais ( se bem que este trabalhasse às vezes com motor Diesel) e a moagem era feita por juntas de bois.
Dediquemo-nos ao da Lameira, que foi aí que eu privei com os lagareiros. Ainda recordo alguns: os velhos Menas, uma família inteira, o velho Manuel, o Chico de andar apressado. Moravam ali a meio da lagariça, paredes meias com a minha bisavó paterna, Isabel, perenamente descalça, pisava silvas como nós andamos em cima de azulejos. Era a mãe do meu avô que dizia que nunca tinha conhecido o pai. Por causa disso não vamos culpar a minha "DESAVÓ". Ensinou-me ainda muita coisa, sobretudo em matéria de ervas de campo e outras que tais: sabeis o que é o LENTICÃO? e o MIJACÃO? sequer ouvistes falar no CU DE GALO, fruto comestível, agre e doce, que ainda hoje "rabusco" por essas baixas vinhateiras? sabeis? Eu sei. A minha DESAVÓ ensinou-me e eu aprendi. Não sou como aquele velho professor que se queixava do ensino ministrado nas faculdades... Instado sobre que dizer da sua aprendizagem nessas mesmas escolas sai-se airosamente com esta: "eles ensinaram-me mal, mas eu aprendi bem". MAINADA!
Assim se passou comigo.
Outros mais recentes que felizmente ainda pisam as ruas de Aldeia- O Zé Lopes, rapaz do dia de Karraio, o Tonho Mota, que já abalou para a Tapada dos calados, o Tonho Lopes, irmão de Zéi, e claro, o inefável Alberto, senhor do Galante, boi de cobrição, que entrou no enredo do desacorçoado.
Voltemos ao lagar senão ainda me dais alguma CARCHANTADA porque escrevi um título e vadio por outras paragens.
O edifício, na sua estrutura base, pelo menos visto de fora ainda está em condições razoáveis e quase um quadrado perfeito. Entrava-se nele por um portão de lata pintado com um preto que mais parecia alcatrão, e dum lado e doutro havia um telheiro coberto, sendo que o da direita servia para armazenar a lenha que o CHAMIÇO garantia quase todos os anos, e só depois, mesmo ao lado do pocinho da água é que se entrava no lagar propriamente dito, por uma porta robusta de duas folhas. Estava sempre acessível durante a safra. Lá dentro havia dois compartimentos: o da direita tinha o pio onde os bois de Alberto moíam os "bifinhos de caroço", a manjedoira e mais ainda uma tarimba onde Beto dormia e ressonava; o lado esquerdo tinha um desnivelado onde os grandes trabalhos eram feitos: enchimento e escaldamento das ceiras; a massa era trazida do pio em gamelas de lata com duas asas que se enchiam à pazada, e onde se situava também a caldeira. A massa era espremida por sistema de varas: enormes troncos de sobreiro que acabavam num fuso com chave, tudo em madeira, dos quais se suspendiam enormes pedras que se levantavvam por meio de uma tranca que fazia rodar o fuso na chave e, assim, permitia maior aperto. O azeite corria directamente para as tarefas (enormes potes de barro) encastradas no granito. A técnica de depuração era o decante, pelo que a TAREFA que ficava mais acima tinha uma torneira de descarga que o lagareiro abria e o azinagre, às vezes com algum azeite envolvido, corria para o INFERNO, ao canto, o qual era periodicamente aliviado para a ribeira que passa mesmo ao lado. Ao canto esquerdo mais perto da porta ficava o canto do bagaço, que o velho Alcides barrigudo ia a buscar para depois ainda ser mais espremido na fábrica de S. Miguel d'Acha.Era assim o lagar.
O ZÉI do CAFÉI comprou-o, em tempos aos três sócios que nunca se entenderam muito bem, Casa Campos, Zé Manel Landeiro e Zé Carreiras...
Era assim a medidura e a respectiva poia: a casa tinha duas panelas à cabeça, e mais uma por cada nove, o lagar (melhor os lagareiros, tinham uma panela (dois litros) por cada dez, a lenha tinha litro e meio por moedura, e a água tinha meio litro por moedura. A média era de três moeduras. O restante ia para o dono da moedura que, ao tempo era de 600Kg.
Não percebestes nada já sei! Aí vai a explicação: os lagareiros eram em número de três e ainda o ganhão que tratava das juntas de vacas que moíam a azeitona no pio. Quando da medidura do azeite, o lagareiro chefe, depois de o decante ter sido bem feito de uma tarefa que recebia tudo para a segunda que só recebia o azeite decantado, media o azeite para o pote do dono da azeitona, sendo que a poia era sempre paga à cabeça.
O trabalho começava por volta das cinco da matina, o que no Inverno não era lá muito agradável. A essa hora lá ia eu a dar água para a caldeira. Era eu, a mulher do Tonho Mota e a mulher do Chquim Lavra-Miúdo. O sistema era rotativo: um tirava a água do pocinho que estava à entrada da porta maior do lagar, outro acarrejava e o terceiro despejava para a caldeira. Não havia luz cá fora (mais tarde lá apareceu) pelo que quem tirava a água do pocinho tinha que"tentear" a superfície da água e fazer o deborco do caldeiro e puxar pela corda. Acabei por combinar com as mulheres: eu ficava sempre a tirar e elas entre si acertavam quem ficava na acarreja e no despejo. Assim foi. Era um prazer acertar à primeira sem tentear a água e o caldeiro entrava deborcado no líquido. Um autêntico motor era o que eu era!
Acabada esta tarefa sentava-me à lareira da caldeira a olhar a ala ou o borralho, e, não raro, dava com cada cabeçada no ar que até parecia que me tinham dado uma carchantada na nuca.
As mais das vezes havia petisco. Aí por essas seis era o desjejum: uma lata de atum sangacho em molho de tomate, meia dúzia de batatas cozidas e sobrantes do jantar do dia anterior, uma cebola das grandes, pão caseiro em fatia de ganhão e azeite, muito azeite. Comia-se sempre à colher e o copo era só um e de lata zincada, suspenso sempre no gargalo do garrafão. Comia-se do barranhão, também ele de lata. Nunca precisava de ser lavado porque ficava sempre bem limpinho com as voltas finais que se davam com o naco do pão. Passava-se pela água a ferver da caldeira e deborcava-se ao lado da pedra até à próxima.
Às vezes havia pândega de mais requinte: bacalhau desfiado, enchido, entremeada e até caça: lebres e coelhos, que ao tempo abundavam...Pudera! Era tudo semeado, desde a lagariça e taliscas até à serra da Raposa e da Marvana, já a dar vistas para a serra de Malcata. Nada do que se passa agora: estevas, giestas e eucaliptos.
Não raro, dormia um sono assado, sentadinho ao borralho da caldeira e vinha Zé Lopes:"dou-te uma CARCHANTADA se te pões aqui a dormir. Inda pegas a maleita aqui a nós e depois vais a buscar o azeite à ribeira".
Duma vez, à noite fui eu à caça com o Mnel Chquim Alma de Sino... À caça, é como quem diz... Saímos no seu ultra famoso Cortina verde, pendurámos por baixo uma tábua, presa com arames e aí vamos para os campos da ribeira da Ceife, ali perto do velho Figueira a dar vistas para o Chico Aleixo: entrámos pela arada adentro (aquele carro era um arrasa montanhas) e, não tardou, já tínhamos uma lebre e dois coelhos, mortos à CARCHANTADA pela tábua suspensa no mais que famoso Cortina verde! E... ala que se faz tarde! Caminho de aldeia! Digo para o Alma de Sino: «Ó Mnel, um coelho destes levo-o eu para amanhã papar com os lagareiros ao fim de dar a água. Tu se queres vais lá a ter aí por volta das seis que já deve estar prontinho». Assim foi.
A panelinha de ferro deixou evaporar um cheiro a cebola e alho com folha de louro, azeite e uma malagueta e coelho bravo; antes de tirar despejou-se um copo de lata de vinho. Assámos umas batatinhas miúdas à beira do borralho, esmagámos mais uns dentinhos de alho, misturámos com sal, azeite e vinagre, murrámos as batatinhas, despejámos o coelho para a gamela que servia de barranhão, e, cada um com sua colher, atacámos ... E foi um ai!
Invariavelmente saía-se Tonho Mota: "Não há dente como o do alho/ nem peixe como o atum/ nem carne como a do c....../ que não tem osso nenhum."
Se coisa há que eu gostava que acontecesse é que este EX LIBRIS fosse adquirido por entidades públicas e se transformasse num museu do azeite. Enquanto é tempo.
XXXXXIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRRRRRAANDDDEEEE

Parir


A questão não é parir ou não parir. A questão é aonde parir. Tal como a questão shakespeariana, parece que esta também não é de fácil resolução.

Foto roubada daqui

segunda-feira, maio 08, 2006

A NOSSA FALA LV - JAVARINO

O melhor do mundo é a canalha. E no mundo da canalha, há garotos mais javarinos do que outros. Habitualmente, até achamos piada aos mais javarinos. Aqui se deixam algumas peripécias de um javarino.

Mário nasceu de uma paixão de Verão entre o Zé Meioquartilho e a Maria Pápófigo. O caso deu o burburinho adequado aos meados dos anos 60 numa aldeia do interior, mas a coisa acabou por se compôr quando eles juntaram os trapinhos e acabaram com o falatório. Que ele era um belo rapaz e ela era uma rapariga séria, todas têm um deslize, ora essa, e não foi Nosso Senhor que disse: "quem nunca pecou que atire a primeira pedra”? Resultado: foi como que perdoado o pecado do Zé e da Maria no palheiro do Ti Ambrósio Meioquartilho, naquela noite da festa do Senhor S. Bartolomeu.

Calhou que Mário nasceu no ano em que o Zé foi chamado para a tropa. Dividido entre o dever patriótico de guerrear pela Nação na longínqua África e o dever paternal de assegurar o sustento da Maria e do pequeno, aconselhado pelo padrinho, Zé Meioquartilho hesitou pouco e, passada a Senhora do Bocesso, deu o salto a caminho da verde França. Nos 10 anos seguintes, todos os 3 meses a Maria havia de receber o suficiente para si e para o garoto. E nesse tempo todo, apenas por cinco vezes, e à sorrelfa, Zé viu o seu Márinho. Regressou de vez, já resolvida a questão colonial do país e também a questão do seu serviço militar.

O garoto cresceu pois sem a presença física do pai, o que terá decisivamente condicionado a sua trajectória e a sua personalidade. Vem nos manuais pedopsiquiátricos, mas nós, as pessoas de bom senso, também o sabemos, que a figura masculina tem a sua função praticamente insubstituível no quadro familiar. (Alguns cidadãos com certas tendências sexuais, acompanhados de outros cidadãos com certas tendências políticas não concordarão. Estarão no seu direito de não concordar. Passemos por cima da problemática, porque ela não se coloca aqui à volta da Baságueda.)

Voltemos ao Márinho. Um autêntico javarino que só tinha más ideias. Entre outras judiarias, era ele o autor - recentemente revelado - da cena do cão a ganir e com um corgalho de latas presas ao rabo que de quando em vez aparecia no adro à saída da eucaristia dominical. O truque estava em escolher um cão cujo dono fosse um católico apostólico romano praticante. O sentido de fidelidade do animal fazia o resto.

Na escola era o brigão maior, a má companhia que convencia os outros a fugir à escola para ir aos ninhos ou à marouva. Sempre que tinha oportunidade escondia a régua ao professor Tanganho, mas acabava invariavelmente por levar com ela, por via dos acusa-cristos. Na noite de S. João era sempre o que mais contribuia com vasos no adro. Bastas vezes, no tempo dos taralhões, arranjava ele uma corgalhada de passarinhos nos costis dos outros. Não perdia oportunidade de se divertir a chamar nomes à velha passarinha, ao tonho maranhão, ao jabão feijão, à chicórrela e a outros típicos da aldeia. A chicórrela era particularmente desgraçada porque não podia estender as ceroulas ao sol que o Márinho ia lá buscá-las e largava no falo do chafariz do Batoco ou no cimo do padrão do adro. As queixas das traquinices do garoto chegavam à Maria Papófigo e ela, lá ia respondendo invariavelmente: "ê no faço nada dele!"

A judiaria que mais gozo lhe dava era a de atar uma linha preta à aldraba das portas das beatas e dos ricos. Uma das maiores vítimas era o Professor Marcelo. A coberto das trevas da noite, enrolava caladinhamente uma ponta da linha a uma das aldrabas de chumbo da porta do velho professor primário, desenrolava cuidadosamente até à esquina traseira da Igreja e, puxava. Numa das vezes, já o madeiro jazia ao lado, a mirrada esposa do venerável mestre aposentado veio de robe cor de rosa e pantufas ver quem batia e, não vendo ninguém, voltou a fechar, julgando ser o vento. Mal deu 2 passos, a aldraba fez-se ouvir de novo. Depois de constatar que não havia ninguém do lado de fora e que o vento mal soprava, começou a rezar baixinho uma Ave-Maria. Passou a Pai-Nosso e em altavoz quando, mal fechou a porta, o batente voltou a cair com estrondo na almofada de metal. O Senhor Professor, para desgosto da esposa, não era homem de fé, por isso, atirou de lá um “qu’arraio de porra é essa mulher, atão isto são horas de rezas, inda por cima em altos berros?” A aldraba insistia e a senhora acompanhava com o Pai-Nosso ainda mais alto. Irritado, o Senhor Professor levantou-se do velho cadeirão e berrou autoritário:

- Cala-te já mulher do diabo!

Apercebendo-se do motivo do terror da esposa, abriu a porta vigorosamente e praguejou para fora:

- Mas que coisa é esta, homem. Eu não acredito em fantasmas, eu rebento é já com o filho da puta que aí está.

Quando tal ouviu, no escuro da esquina da Igreja, Mário sentiu a noite ganha. Foi com prazer tenso que ele puxou a linha mal o velho Marcelo fechou a porta, na ânsia de o ouvir de novo a praguejar. Puxou repetidamente a linha, até que o professor primário reapareceu de caçadeira na mão e lança dois tiros para o ar, enquanto soltava aos berros as imprecações mais ordinárias, fazendo com que a esposa corresse a buscar o terço e se pusesse a rezar ainda mais e com mais fervor, pedindo perdão a Deus pelos desmandos do marido.

Quando sentiu que o café da Rosa esvasiara e o maralhal vinha a saber do que passava, Mário botou a fugir pela caminho abaixo, deu a volta pelos cabeços e entrou no café da Rosa sorridente, mas sem contar a ninguém que era ele o provocador do alvoroço. Havia de repetir a cena mais algumas vezes, quase sempre com o mesmo resultado, até que foi apanhado e metido na garagem do Regedor Xico Sarapião durante uma noite.

Feito o exame da 4ª classe, como repetente, ainda seguiu para o colégio. No Carnaval já quase tinha atingido o limite de faltas, ainda assim, com tempo para infernizar a vida ao velho Professor Barbosa. Entre outras, a sua maior maleita era a asma. Sabendo que ele não suportava o pó do giz, Márinho deleitava-se a bater vigorosamente a esponja no quadro de ardósia, sempre que ia haver aula de Físico-Química, fazendo com que o intervalo se prolongasse por mais um quarto de hora. Depois de dois anos sem aproveitamento e de muitas e variadas javarinices, a mãe de Márinho concordou enfim em que ele abandonasse os estudos e iniciasse a carreira da sua vida: trolha.

A última travessura plagiou-a do pai, corria o Verão de 85, já não no meio da palha do palheiro do Ti Ambrósio Meioquartilho, mas no banco de trás do seu Ford. Acudia a cachopa por Françoise, e era a primogénita do Mnel Jquim Caipila, com quem Zé Meioquartilho tinha partilhado quarto e cozinha em Paris de França nos primeiro anos da sua diáspora. Na entrada do Ano Novo, dispensado do serviço militar por mór do pé chato, partiu Márinho para a Gália. Por lá ficou. Menos javarino, mais homem.

quarta-feira, maio 03, 2006

Definitivamente

1.
Na sua última noite, Abril oferecia uma brisa suave e uma temperatura fresca de Primavera. Àquela hora, ligeiramente adiantada, o céu nocturno mostrava-se limpo e era dominado, no alto sul, pelo Leão, deixando já perceber uma ponta do Escorpião que havia de subir ainda mais um pouco. A Lua ia no segundo dia de crescente apresentando-se com um fiozinho de luz que apanhava a sua Antártida e crescia, pelo lado oriental, até um pouco mais acima do equador. Pareciam estar reunidas as condições propícias para um concerto de excelência e eu decidi que não o podia perder. Tomei o caminho da serra, em direcção à escuridão, fugindo às luzes e aos ruídos. Acomodei-me o melhor que pude, sentado no barroco e apurei os ouvidos. Por esta época, todas as noites, toda a noite, os concertantes mostram o que valem.
Contei 7, cada um na sua árvore, cada um no seu território, cada um com o seu trinado, cada um com a sua partitura, que nunca se repetia. Definitivamente, confirma-se que como o rouxinol, ninguém canta.


2.
O dia apresentou-se bem disposto de sol e de vento. Pouco habitual em dia de Nossa Senhora do Bom Sucesso. À passagem pela Baságueda, parei um instante, só para observar como a água deslizava arrebitada mas serena. Saudei-a e segui para o cabeço onde o arraial fervilhava de vida, como em nenhum dos outros 364 dias do ano. Pelos campos ao redor, por entre azinheiras e estevas espraivam-se os novos burros . Não estavam engalanados com o branco e amarelo das giestas floridas, tão pouco de roxo do rosmaninho. Ao lado da tenda dos ipod’s, tamagoshi’s e leitores de mp3, vendiam-se cabrestos, albardas e cilhas. Ao lado da romaria, a feira, ou seria ao contrário? Definitivamente, a timidez da romaria cedeu à arrogância da feira.

quinta-feira, abril 27, 2006

A NOSSA FALA - LIV - DESACORÇOADO

Já uma vez vos falei do fenómeno linguístico que consiste na lei do menor esforço. Aqui está mais uma prova. Correctamente, a palavra deveria ser descoroçoado - que significa, nem mais nem menos com o coração despedaçado/desfeito /desalentado /sem forças - mas isto daria muito trabalho de dobragem de língua ao zé povinho que prefere, naturalmente, o desacorçoado. Para o povo, em regra, o que serve já é bom, e desde que se faça entender, não precisa mais. Ao contrário de muita gente da nossa praça que se farta de falar e não diz nada de jeito. Só desejo, que no caso vertente, a nódoa não caia no melhor pano... Adiante que se faz tarde.
Tudo começa manhã cedinho: aí obra de umas cinco da manhã. PASSA CULPAS, vai aos gravatos à meda da lenha, apicha um palito a uma pinha, faz uma escaramuça por cima da ala com os gravatos, põe mais alguns, ajeita o pau grosso que tinha ficado da noite anterior, acrescenta uns tocos e umas cepas, desce as cadeias da chaminé, pendura a panela de ferro, já com água de nascente que apanhara na mina, bota para dentro uma gamela de feijão frade que a LIBRA previamente lavara e deixara de molho, verifica a ala, arreda uns paus mai grossinhos, diz à mulher que já volta e sai a caminho do PUTA MALUCA que morava pra lá do ABADE, que lhe dava passagem"por aquilo que é meu", salta o muro do caminho das portelas que vem das oliveiras de melão, arrima à eira, engata na vereda que dá à casa do Puta Maluca e endireita para o palheiro, onde vira uma réstea de luz que rebrilhava da torcida da candeia de azeite que a PATA GALHANA regulava com um alfinete, com que segurava a saia de fora, "por mor de poupér, que o azeite custa a ganhar". Isto porque o velho registo de aumento ou redução da torcida já tinha os dentes do carreto remoídos e não puxavam o trapo. Chaminé já tinha desaparecido e sempre recomendava ao PUTA MALUCA: «põe a candeia em sítio firme e longe da palha e dos cornos da bezerra, tu vê lá !nom nos desgraces» . O PUTA MALUCA fazia que não ouvia.
Bom... O PASSA CULPAS chega-se à porta do palheiro, e, para não assustar, nem o PUTA MALUCA nem a bezerra, que por ser nova, ainda não se acomodara à nova pensão, espreita pela fisga entreaberta e - que vê ele? - o PUTA MALUCA em cima do balde do desaguo, a pôr-se na bezerra. Assim mesmo! A bezerra estava saída e o PUTA MALUCA que já não se lembrava de ir à PATA GALHANA, desacorçoadinho de todo, vem-lhe assim uma vontade e ....bumba! toca de saltar à bezerra...
PASSA CULPAS, fica apardalado, esfrega os olhos, confirma o facto, finge que tosse, mas o PUTA MALUCA, no frenesim do acto não o ouve... PASSA CULPAS entra e vê a cara de prazer do PUTA MALUCA: "Karraio estás a fazer"?...e o PUTA MALUCA: "Dá-lhe lá um beijo na boca que eu num chego lá".
Acto cumprido, Puta MALUCA sentiu o pecado e sai-se: « a puta estava mesmo desacorçoadinha de todo; assim já sei que a posso levar ao Alberto daqui nada» e o Passa Culpas: «Tu é que é que estavas desacorçoado». " E tu num te estavas a pôr na chibeta amarela, ali ao pé do barroco do Rainho, quando a tua se foi à missa? Pensas que num vi? Atirou o PUTA.
Houve silêncio, que o caso não era para menos , mas logo se sai o PUTA: "num me vieste a ver a saltar à bezerra! Vamos ali a malhar um tinto e já me contas... chega-me aí essa paveia, tira-lhe o nagalho e bota aqui na manjedoura!
Lá foram os dois, a torneira da pipa chiou, o copo deborcou-se PASSA CULPAS pede a grade emprestada ao PUTA MALUCA e dirige-se à mulher: "EH cachopa! arranja-me aí cem mil réis que tenho que ir a chegar a bezerra ao boi do Alberto antes que lhe passe o cio". Lá se foi ela à bureca onde guardava o dinheiro dentro duma lata por causa dos ratos, tira os cem mil réis e recomenda:"tu vê lá se o boi enterra bem a bezerra, pega-lhe na sovela com a mão e encatrafia-a assim comédado e diz ao Alberto que, se não pegar, o boi, à próxima, lhe dá o salto sem pagarmos, vê lá!" PUTA MALUCA rosnou e partiu caminho de aldeia.
Alberto, ao tempo, moía a azeitona no lagar da Lameira e quando o Sol começou a clarear lá aparece o PUTA MALUCA, chega-se à orelha do Alberto: " Traz lá o boi que a minha bezerra está desacorçoada de todo. Já a experimentei lá em casa, no palheiro, e nem se mexeu". Alberto, invariavelmente bêbedo:" agora o boi está no acarro, tens que esperar" e vira-se para o TONHO MOTA: «Ó Tonho aqui o Puta Maluca ensaia as bezerras antes de as trazer ao boi. Se a mulher o vê a cavalo na bezerra é capaz de lhe perguntar: "Ah! queres uns cornos, queres,? trocas-me por uma vaca? vê lá se te troco por um burro!" E riram-se. PUTA MALUCA vai pela vara com aguilhão e queria ferroar o Alberto : «Está quieto senão não te cubro a bezerra! «É a tua sorte» diz o Puta.
Acabado o acarro, bezerra presa na parede ali ao pé do Posto de transformação, Alberto traz o Galante, e quando lhe cheira a bezerra saída tira a língua para fora, quase aventa com Alberto e nem houve preliminares. Foi tiro e queda.
PUTA MALUCA assomou-se, viu que estava bem encavado e foi um ar que lhe deu.
«Eu num te disse que ela estava desacorçoadinha de todo? Eu bem sabia.»
Os cem escudos mudaram de mão e Alberto, para fazer as pazes, lá vai com o PUTA MALUCA a beber o alboroque àquilo do Cavalheiro. Só podia ser assim.

terça-feira, abril 25, 2006

Cravo vermelho SEMPRE

Individualmente, uma pessoa aprecia relembrar algumas datas importantes na vida. Não pretendo ir a determinados pormenores como o dia da primeira comunhão (só me lembro de levar uma fitinha branca, mas tenho ideia de que foi bonito), ou o dia da conquista da primeira namorada (quer o dia quer a cachopa estarão algures numa pasta oculta do meu disco rígido, deixa-as estar) ou até o dia da primeira vez (não me lembro o dia certo, mas recordo a circunstância o que vai dar ao mesmo). Mas há outras datas que uma pessoa já tem bem assinalado no mapa mental dos eventos importantes e dignos de comemoração, quanto mais não seja porque a dita comemoração, invariavelmente, mais não é do que um pretexto para uma comezaina (uma excelente forma de comemoração, convenhamos). Ele é o aniversário propriamente dito (o da esposa convém ser mais importante do que o nosso), o de casamento, o dos filhos... Depois não desdenhamos as oportunidades de outros calendários, como o dia da sementeira das batatas, do Senhor S. Bartlameu, da vindima, da matança do porco, do Natal, dos piqueniques na Senhora do Incenso, e na Senhora do Bom Sucesso... Alimentando-nos de pipis, moelas, filhós, ovos verdes e pataniscas, alimentamos e reforçamos a nossa identidade individual, familiar e até nacional.

É aqui que entra o 25 de Abril. A trajectória da nossa identidade nacional teve ali um acerto. O mais decisivo acerto do Século XX, a par do fim da monarquia, atrevo-me a defender.
Como em relação a outros acontecimentos, existem simbolos intrínsecamente associados, existem protagonistas sem os quais o acontecimento não o teria sido. Refiro-me ao cravo vermelho, e aos capitães de Abril.

Isto só para declarar solenemente que não apreciei ver alguns senhores deputados da Nação prescindir do simbolo de Abril, incomodou-me que o Presidente da República, ele, o responsável mór no que toca a identidade nacional, ostentasse o seu desprezo por um simbolo com o significado do cravo vermelho. Não apreciei igualmente ver a passividade dos senhores deputados da direita parlamentar na referência que o Presidente da Assembleia fez aos capitães de Abril.

Aproveito a oportunidade que este blogue me dá para declarar solenemente o meu apreço pelo 25 de Abril e o cravo vermelho. Espero que este singelo acto seja suficiente para me distinguir dos senhores deputados da direita parlamentar e do Senhor Presidente da República Portuguesa, no que concerne à sua valorização e ao seu reconhecimento (do 25 de Abril) para a identidade nacional.

(Ah! também gostaria de declarar solenemente a minha divergência para com o Sr Alberto João).

quinta-feira, abril 13, 2006

A NOSSA FALA - LIII - ZARANZUM

A Páscoa está à porta.
Com ela vêm as festas populares, manta no chão, pastelinho de bacalhau, frango corado, arroz de miúdos, salada de alface, ovos verdes, pão-de-ló, azeitonas retalhadas, queijo, tinto com fartura e pão cozido em forno a lenha, sem fermento mas com o velho crescente - ora arrecadado da cozedura anterior, ora, mais fresco, requerido que fora da vizinha ou amiga que cozia ontem e eu amanhã-.
Que pensais vós? Era mesmo assim. Até mais: algumas vezes fui eu com tenaz na mão ali à casa da ti Antónia Costa , onde agora é um café e antes fora a casa do Carradas que matou o Vigura com uma gadanha (das de agadanhar, nanja daquelas da sopa, também chamadas de conchas) - modernices - , fui eu, dizia, de tenaz na mão, a pedir uma brasinha com que se ateava uma pinha e logo a ala com agulha de giesta ou vide bem seca: assoprava-se com toda a força, que, abano, ou não havia, ou, não convinha, porque espalhava a brasa e era perigoso. A pinha ateava - ou a giesta - e pronto! poupava-se um fósforo. Assim mesmo: poupava-se um fósforo (que ao tempo se chamava pálito). Não era como agora!
Que vejo eu? Arreparai comigo: a malta é agora mais banhada do que nós éramos - não quer dizer que seja mais asseada - ; tomam banho com água do esquentador, quase a ferver, nunca fecham a água e demoram quase uma boa meia-hora com a água a cair-lhes no lombo... Coisa impensável no meu tempo de púbere/adolescente/jovem: aquecia-se no fogão a gás, ou antes, nos velhinhos fogões a petróleo, desentupidos por agulha com arame simétrico, muito fininha e haste de lata reles, regulador de entrada de ar no bojo e êmbolo de pressão na lateral, encimado por uma espécie de trempes encaixadas em orifícios com o feitio de pé de galo e uma grelha que permitia que nos recipientes de diferente diâmetro aproveitassem ao limite o calor proveniente da combustão que não era instantânea, já que, antes, se tinha de deitar numa espécie de patena, um pouco de petróleo azul, que aquecia a cabeça do fogão e só depois é que, quando estivesse ao rubro, se fechava a entrada de ar e se dava à bomba para que o fogão desenvolvesse. O regulamento era feito pela abertura que permitia a entrada de ar. ( Vistes bem o tamanhão deste período ?) -Era assim que escreviam o Alexandre Herculano e também o Imannuel Kant-.
Quem tinha dois, fazia um figurão: nas festas da Srª do Almortão, em Idanha-a-Nova, levava um e isso até possibilitava a feitura do caféi, em pucheirinho de barro, areado para a festa, e assentava com tição, roubado às brasas da assadura do pito ou da entremeada, atirado ao rubro para dentro do pucheiro.
Espetava-se-lhe uma dose de redina bagaceira, rija como um corno, davam-se dois arrotos, as mulheres ficavam arrumar os cestos e a malta ia correr as tendas. Olarilolela!
Casais a percorrer tendas de festa de braço dado era coisa pouco habitual.
Compra obrigatória era um colar de pinhões atravessados por uma linha enfiada em agulha fina. Páscoa sem amêndoas também não fazia sentido, só que, às vezes os velhotes compravam das mais baratas, espécie de bolas redondas com açúcar por fora e muita farinha por dentro: uma purga era o que era.
Havia ainda as santinhas feitas de uma pasta açucarada com a imagem da santa colada e que se comprava junto à porta da capela. Vinha suspensa de um baraço que se punha ao pescoço. Outras compras não vêm aqui ao caso porque já estão poluídas das modernices...
Agora vai tudo de carro ou de camioneta mas antigamente não era assim: a malta preparava o jerico com manta nova por cima da albarda e entre as duas - a albarda e a manta, - metia-se uma pouca de erva meia murcha que serviria para a merenda do animal, regra geral bem desaguado em casa com farelo ralado em caldeiro de água limpinha. Por cima, os alforges em cujas bolsas se metiam as iguarias para o pasto dos maganos e evidentemente cinco litros do verdadeiro. Os mais abonados, com carroça, engalanavam-na com mimosas e outras flores garridas e lá iam a cavalinho sentados no banquinho atravessado. A maioria ia a pé.
Parava-se em sítios estratégicos, tocava-se o pífaro, o realejo, um armónio ou concertina, uns adufes ou pandeiretas, às vezes até umas carchanolas, passava-se a borracha pela malta, dançava-se uma moda ou duas e retomava-se a marcha.
Chegados à festa, procurava-se uma azinheira, oliveira ou sobreira, juntavam-se os familiares ou amigos, punha-se a erva ao burrito atado com rédea meia larga e ... ala para o arraial!, visita à capela, esmola na caixa, acendimento da vela, e... tasca ou tenda até à hora de missa.
O almoço só depois desta e da procissão.
Depois do almoço, com a saudável partilha dos petiscos e intercâmbio entre a vizinhança mesmo que não fosse conhecida, mais uma volta às tendas, arrumar a trouxa, mais um copinho para a assossega e volta para casa.
Os netos esperavam os avós e alguns mais brincalhões atiçavam a canalha:" deixa-te aí estar sentadinho que o teu avô passou pelo curral a deitar a viandita ao bácoro e já te traz a prenda"; o garoto: «sabe o que é?» « é um zaranzum atado numa guita; zune como a puta que o pariu; zune mai ca um enxame de abril!» O garoto corria para a mãe todo contente: «ó mãe o avô traz-me um zaranzum atado numa guita! «Rais o palirem, atão tu inda cais nessa? tu no sabes, meu cagão, que um zaranzum atado numa linha é uma tábua com um buraco presa a um baraço das sacas?»
Lá se ia o contentamento do garoto... Era assim.
Agora, boa boa, foi a do velho Refe que, ao chegar à festa, encontrou o seu Mário deitado no chão e sai-se com esta: «Eu cando vi o mê Mário no chão logo disse: ou ele caíu, ou alguém o tombou! Com toda a certeza, ele sozinho no era capaz.»
Grande lógica esta do Tonho Refe.
Não ajudava a ponta dum corno na preparação da merenda para as festas, mas quando lá entendia que estava na hora da abalada, mostrava má cara, ralhava e, invariavelmente, saía-se com esta: « Não há nada como o combóio: quem está, monta; quem não está, fica. Mulheres dum corno tanto demoram!
Desgraçado foi ainda o Vale Quem Tem que prometera ir de Monsanto, donde era natural, até à Sra da Póvoa, sempre de mãos postas e sem falar. Não lhe passou pela cabeça que podia precisar de mijar. E precisou...
No ano seguinte a mesma coisa, mas agora já podia falar porque essa parte da promessa já a tinha cumprido. Sentou-se nas guardas da ponte a chorar e a Prazeres viu-o, assim a chorar e precurou-lhe a razão: «já o ano passado deixei de cumprir a promessa por via de uma mijadela Prometi vir sempre de mãos postas e agora torna-me a dar vontade de mijar e se deslaço as mãos lá se me vai a promessa outra vez.»
Prazeres, condoída, olhou à volta e, não vendo ninguém que batesse com a língua nos dentes, disse: "desça ali em baixo que eu desaperto-lhe a portinhola e vossemocê alivia-se».
Vale Quem Tem nem queria acreditar! e a Prazeres: "quer ou não"?
Lá desceram e Vale Quem Tem suspirava de alívio e atreve-se: «já agora, dê-lhe lá uma abanadela que ele está habituado a ela»
Fosse como fosse Vale Quem Tem casou com a Prazeres. Sou compadre deles.
Vamos à festa?
Um XXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII.

segunda-feira, abril 03, 2006

A NOSSA COMEDURA - VII - PASTÉIS ( BOLOS) DE BACALHAU

O bacalhau é, por excelência , o noso peixe. Quando digo nosso, digo dos portugueses. Não vamos discutir por causa de um filho malcriado, que, tendo vivido mal o complexo de Édipo, bateu na mãe, a ponto de lhe fazer uma guerra;... se calhar estaríamos melhor como espanhóis. Se calhar, não.... Mas, já nada é como dantes. Adiante, que não foi para isto que aqui cheguei.
Festa ou excursão que se preze apresenta sempre pastelinhos de bacalhau.
Vamos ser eficazes. O tempo urge e, ou a receita entra a tempo ou continuais a mamar batata por bacalhau em bolinhos...
Exigências:
1 Bacalhau do verdadeiro: de seca amarela de preferência, bem demolhado. Duas mudas, ou três, de água, de pele para cima e em água fresca o mais que puder ser. Sempre.
2-Batatas das que vêm da terra no tempo que é dado. Nada dessas parvoíces de batatas lavadas e/ou batatas novas que se esfarelam como castelos de areia. Bem descascadas, limpas de resíduos de talos, bem lavadinhas e inteiras. Nada de abrir batata ao meio.
3- Muita e viçosa salsa, lavada, posta a secar e migada comédado! Pois! Vós sabeis.
4- Ovos frescos, varáveis em quantidade conforme os pastéis que se façam.
5- Cebola da branca - evitar a roxa e mais ainda a espanhola, fechada como casulo - a cebola quer-se solta, a tender para o doce e nada daquela cebola apertada dos espanhóis. Espanha tem muita coisa, mas, grande parte da que nos aparece no mercado, vale pouco. De bom têm pimentos, pimentada/pimentão e pouco mais.
6- Alhos, esmurrados primeiro, depois bem esmagados com a lâmina de uma faca grossa em cima da tábua de cozinha. Aproveitar bem os unguentos. Nunca esborrachar e/ou migar o grelo. NUNCA.
7. EM CASO DE NECESSIDADE UM POUCO DE FARINHA SEM FERMENTO E UM CHIRRICHICHI DE VINAGRE PARA QUEM GOSTE DESTE PALADAR NOS PASTÉIS, O QUE NÃO É O MEU CASO. PRESCINDO DO VINHO AZEDO.
8- Um tacho, de preferência em ferro fundido, com água, em lume médio, onde se colocam as batatas inteiras e descascadas e, por cima, no mesmo tacho e água, o belo bacalhau com a pele para cima. Deixar cozer o tempo necessário, escorrer de imediato, retirar o bacalhau, fazer um semi-puré das batatas com garfo -nada de varinha mágica -, meter a mão, conferir se não há grelos esquecidos, desfiar e pelar o bacalhau À MÃO, envolver com colher de pau e combinar, à mão, de forma a conseguir uma massa mais ou menos homogénea.
9- Calcular o número de ovos necessários para fazer a ligação, batê-los, envolver à mão na massa, misturar os alhos bem esmagados, a salsa bem segadinha, conseguir uma pasta solta sem ser líquida, deixar assentar. Se for necessário -estritamente- um pouco de farinha sem fermento para unir e absorver algum excesso de líquido.
10- Deixar repousar aí obra de um dia, ou pouco mais ou menos, tendo o cuidado de ir remexendo a pasta por forma a que os ingredientes se combinem.
11- Aquecer bem o óleo (em sertã ou frigideira que permita a flutuação dos pastelinhos) - que deve ser adequado à fritura a elevada temperatura, para evitar gordura entranhada, deve ser substituído cada três frituras e nele devem flutuar alguns cascarões de ovo para evitar o aparecimento de espuma e consequente desajuste na mexidela
12- Fazer os pastelinhos com a ajuda de duas colheres - obviamente o tamanho da colher determina o tamanho do pastel -; preferi as medianas: o pastel frita melhor, mais depressa e não ensopa.
13- Retirar da fritura depois de virados no óleo quente para um pano/papel absorvente e só por fim colocar na travessa de apresentação.
14 - Degustar e conviver.
(Como reparastes não se fala em sal. O bacalhau é, por cultura, peixe conservado em salga. Tende cuidado. Se for necessário adicionai à massa sal fininho, de mesa.)
Bom apetite. Acompanhai com bons amigos e vinho de uva do bom - tinto ou branco - é indiferente.
Xi e boas festas.

quinta-feira, março 30, 2006

A NOSSA FALA - LII - AVIAR A VIDA

A vida dá muito que pensar. Cada um pensa-a nos momentos e nos locais que escolhe ou dá mais jeito. Mas há um momento que me parece mais ou menos universal para pensar na vida: é quando estamos a aviar a vida. Mesmo considerando que as condições de exercício do acto têm vindo a evoluir no sentido de maior comodidade e conforto, a verdade é que, a solenidade do mesmo se mantém, aconteça ele no recato da divisão aquecida, com azulejos azuis decorados com motivos marinhos, tampa amolfadada, etc. como na largueza do pinhal, acocorado debaixo de uma giesta de 5 anos. Consoante o ambiente, há quem goste de ler, de fazer palavras cruzadas, de ficar a ouvir os passarinhos, ou quem, simplesmente se entregue à reflexão, que é como quem diz, a pensar na vida

Muitas ideias surgem nesse momento, desde que praticado em regime de “slow outfood”, se é que existe o termo, sem calhar não mas, pese embora o estrangeirismo do qual se pede perdão, o que interessa é que se entenda a ideia. Por exemplo, é perfeitamente plausível que DaVinci estivesse a aviar a vida e a olhar-se ao espelho quando decidiu pintar aquele sorriso na Mona Lisa. Nessa perspectiva, a tese do auto-retrato ganharia consistência, ou seja, aquele sorriso enigmático que tantas questões tem suscitado, aquele esgar de prazer que se adivinha naquela face, mais não seria que a expressão de DaVinci a aliviar-se das lentilhas do almoço. Não menos plausível é a hipótese de que Isaac Newton estaria a aviar a vida debaixo de uma macieira bravo mofo quando se desprendeu uma maçã e caprichosamente lhe bateu na cabeça. A percepção da força gravitacional poderá ter surgido a partir da maçã, mas não custa nada aceitar que poderá ter ganho mais força quando Newton se congratulou por os seus dejectos jazerem em terra e não flutuarem. Quem me diz a mim que o próprio Darwin não terá germinado mentalmente o evolucionismo enquanto aviava a vida num ambiente tão profícuo à reflexão como as Galápagos. E Einstein? A inércia da energia, a fórmula do e= mc2, não poderia perfeitamente ter sido como que revelada num momento de reflexão específico como este que agora estamos a abordar aqui? Outros exemplos se poderiam conjecturar, mas não quero abusar.

Permito-me um último pensamento. Provavelmente, a maior invenção associada ao acto, é bem capaz de ser a do papel higiénico. Seguindo a lógica das plausibilidades (!), ao inventor dessa insignificância poderá ter acontecido algo semelhante ao que sucedeu ao Jabão Feijão. Era ele garoto e, sempre que podia, no Verão, juntava-se ao Armando Cabeça Grossa, ao Tonho Espanta Mulas, ao Fcisco CáVai e ao Zé Caga e Tosse e lá iam todos nadar para o tanque do Dr Amândio, espécie de piscina tosca sempre com água porque alimentado por uma mina. Ao lado do tanque crescera uma imponente figueira maranhoa que a canalha utilizava como prancha de saltos para a água.

Um dia, se calhar por via do efeito dos pirolitos já ingeridos e dos dois discos plenos de feijões frades e pimentos assados e salada de tomate que tinha emborcado ao almoço, para acompanhar meia dúzia de sardinhas – ementa desaconselhada para um garoto de 10 anos -, deu ao Jabão Feijão uma caganeira repentina e imparável. Calhou bem não ter que baixar nem calças nem calções de banho, que naquele tempo não se usavam, porque a canalha nadava sempre incoura. Aviada a vida, que ficou de imediato muito mais radiante e colorida, preparava-se para saltar de novo para o tanque quando o Espanta Mulas o avisou:
- Ai de ti qu’entres na água sem limpares o cú.
À volta dele só junça e outras ervas. Já algumas vezes se tinha socorrido de outros materiais como pedras, mas ali só havia pequeninas. Folhas de couve, também já tinham sido muito úteis. Mas o que ele mais gostava de usar era folhas de eucalipto jovem, por causa do cheiro, só que ali não havia nenhum. Ah!, espera aí! as folhas de figueira são verdinhas e largas, descobriu ele, de repente. E vai disto, 10 folhas de figueira maranhoa passaram pelo rabo de Jabão Feijão. Ainda não tinha chegado à água e já ele começara a sentir um prurido anal que rapidamente se tornou em ardor forte. Os outros observaram perplexos uma cena que, noutro contexto e com testemunhas mais crescidas, haveria de arruinar a reputação do Jabão Feijão: um garoto completamente nu agarrado às nalgas esfregando vigorosamente o ânus com a mão direita enquanto dava saltinhos e gritinhos, alguns a atingirem as raias do histerismo. O alivio só chegou dentro de água.

Jabão Feijão ainda hoje deve recordar o episódio, a partir do qual passou a nutrir uma enorme admiração pelo inventor do papel higiénico. Até nós, que pelos vistos, nunca tivemos o doloroso mas enriquecedor conhecimento empírico fornecido pela utilização de uma folha de figueira maranhoa (ou coriga, ou pexixota, ou abêbera) na nossa higiene anal, igualmente lhe devemos estar profundamente agradecidos.

Podereis perguntar: mas ó karraio, qu'arraio de conversa é essa? a que propósito é que isso vem? Bem, há momentos e locais em que uma pessoa se põe a pensar na vida…