quinta-feira, janeiro 26, 2006

A NOSSA FALA - XLIV - A MANDINGA

Zé Borges ( o prometido é devido) era mais aldrabão que os políticos em campanha eleitoral (façanha julgada impossível). Era uma bomba de palavreado! Sempre bem arreado, bota reluzente que de vez em quando era reforçada no brilho com tinta coureina e cuspo do Zé guerrilhas, onde Borges se dirigia para quase nelas se ver ao espelho... de andar meio gingão, frequentemente metia as mãos nos bolsos e, ao mesmo tempo, puxava as calças para cima, deixando ver o cano da bota e mais ainda umas meias alvas, bordadas pela D. Lurdes com cinco agulhas - um esmero -; ficava nessa altura com a aparência de ser um pouco mais alto do que realmente era - era uma das mandingas que utilizava para provocar ilusões; entrava nas tascas mas não bebia nem pagava; o interesse era sempre meter conversa e achar campo para enfiar mais umas boas galguérias. Não raro, aqueles que o conheciam de gingeira, serviam-se da mesma mandinga e puxavam as calças para cima ou subiam para cima dum qualquer banco que estivesse à mão e cantavam o "arregaça, arregaça a calça, que se soltou da alsa"...Aí Zé Borges via que o peixe já não rendia, servia-se de uma tosse gutural, embolsava uma escarreta e atirava-a para o centro da estrada, dizendo invariavelmente: "ah! puta! com um tremoço no meio parecias um ovo estrelado"; o cabelo estava sempre nos trincos e de tamanho curto, próximo do rente: é que Zé Borges fora marinheiro, dizia ele, CAPITÃO DE FRAGATA, e dispunha-se a mostrar a jaqueta com os galões a quem o quisesse comprovar - mais uma mandinga - .
Contava ele que em África tinha visto uma jibóia com 15 metros e que com um arrocho tinha partido um dente de marfim a um elefante e que duma vez se viu frente a frente com um leão: calmo, como se impunha, agarrou um pequeno estadulho e quando o leão abre a boca para o apertar nos dentes afiados, enfia o estadulho na boca do rei da selva que, ferido no céu da boca, mete o rabo entre as pernas e foge acagaçado com a calma de Borges. Em Lisboa o comboio andava 30 metros debaixo de água e na aldeia tinha ele tido uma ovelha que tinha parido e criado oito gatos.
Um dia, Chquim Mouraria, mais conhecido por Malagoto, genro de padre Zé, mandador nas eiras onde se fazia a malha a mangoal (ainda vos lembrais dele?), velho Prim, aquele mesmo que um dia enquanto o velho Remédios, viúvo já, descia à loja para trazer um pucheirinho de vinho e dar um copo ao Prim, ele, o mal agradecido, com um gravato, saca a farinheira que o velho cozia na panelinha de ferro e, apercebendo-se que ele já subia, enfiou-a na fralda da camisa e, embora a dor da escaldadela fosse enorme, aguentou firme e emborcou o copinho ao velho; quando chegou à tasca do Fatela mostrava a cicatriz da escaldadela: "só queria uma farinheira mas fiquei com duas," dizia o malandro), bom, mas então era o Malagoto, o velho Prim, o Marrafa (que passava os dias sentado no baturel do Fatela ou do Chico - era só atravesar a estrada -, e mais ainda o velho Corlha, Zé Espantado, Zé Ferrenho, Manuel Freitas e Zé Luís - uma equipa de rara envergadura em matéria de artimanha - combinam espetar uma ao Zé Borges. Depois de muitas hipóteses Malagoto decidiu: pagamos um copo ao João Feijão, para o Borges não desconfiar e é o Feijão que lhe vai dizer que a cadela aqui do Ferrenho pariu dois borregos e que os dois tinham uma cabeça para a frente e outra para trás e mamavam à vez com a boca em cada uma das tetas da ovelha. E foi.
O Feijão, ao princípio, ficou relutante mas com mais uns copinhos lá se foi ao Zé Borges e dar a notícia. Não tardou que Borges aparelhasse a burra - animal invejável, sempre bem calçado de ferradura e aparelhado com gosto, albarda sempre coberta por manta de farrapos, arreios reluzentes, e, que eu me lembre, a única burra que tinha estribos - e se pusesse a caminho à casa do Ferrenho que ficava para lá das Portelas, no Batcharel, mesmo em frente ao pinhal do Chico Sarapião, regedor que era, ao tempo.
Ferrenho, bem instruído por aquela equipa de mandingas, fez-se de novas e mais atiçou Zé Borges: « Ó Sr. Zéi, ele verdade, é, sim senhor, mas veio cá o veterinário e levou-os para a Vila. Só se cá vier amanhã!» Volta Zé Borges à aldeia prometendo que voltaria no dia seguinte. E voltou... mas não encontrou o Ferrenho e ficou sem ver nada outra vez. Fez a viagem todos os dias da semana. Esperou o Ferrenho à hora de missa no Domingo e lá combinaram dia e hora.
Ferrenho via-se agora encalacrado porque já não sabia como descalçar a bota. Calhei a passar, passo a mão pela careca do Ferrenho, Mnel Freitas sai-se logo:"oh! tu és cma elas: só gostas dos carecas!",ouvem-se os risos do costume, passa-se por cima e acabo por saber a história contada pelo Malagoto que, proibido como estava dos médicos de tocar em pinga de álcool, se oferecia agora à mulher para ir tratar das pitas à capoeira, onde tinha escondida uma garrafinha com aguardente da rija. A pobre da mulher nunca desconfiou desta mandinga do Malagoto! Abalou cedo, coitado! Bem,... mas adiante
Digo eu ao Malagoto:« Óh Chquim, agora só vos safais se disserdes que, dada a raridade do fenómeno, o Estado vos confiscou os borregos e os levou para o Museu de Arte Natural».
-"Diz lá outra vez!" Eu repeti umas quantas até que o Ferrenho foi capaz de dizer direitinho a tramóia.
Malagoto, que ao tempo, trabalhava em Castelo Branco assujeitou-se a perder meio dia só para ver se o Borges aparelhava a besta e ia ao encontro do Ferrenho a ver dos borregos.
Borges, militar como fora, - tratos são tratos - à hora aprazada lá estava. Ferrenho portou-se à altura.
Nesse dia no adro não se falava de outra coisa.
Borges, só tarde e às más horas é que se apercebeu da mandinga.
Tendeirinho, figura rara na aldeia, pedreiro em Campolide, esposo amado e dedicado de Mari Chã Chã, numa de filósofo da àgora grega, sai-se com uma de se lhe tirar o chapéu:«Bem feita! ia por lã e veio tosquiado!»
Até o Tonho Bondito e o Zé Balão tiraram as mãos dos bolsos e bateram palmas!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

A NOSSA FALA XLIII - ENCRENCAR

Em cada aldeia deve haver um homem assim - sim, refiro-me apenas a eles. Um homem sempre pronto a dar à língua, a meter o bedelho em tudo o que não lhe diz respeito, cuscovilheiro (não constava no meu dicionário, não sei se a grafia é esta, mas deve entender-se com o mesmo significado que habitualmente se atribui a certas mulheres e - sinais dos tempos modernos - também a alguns homens), gozão, malino, desconfiado, provocador, convencido, uma espécie de torgalho, mas refinado. Avelino Falabarato era um desses. Um dos melhores sítios para o ver em acção era na sessão de sueca da tarde de domingo. Não importava que estivesse a jogar ou de fora, era certo e sabido que ele encrencava a jogatana e o resultado era sempre o mesmo: valentes discussões que divertiam uns e exasperavam outros. Tudo porque o outro não jogava as cartas que devia ter jogado. Irritante para todos era a sua maldita balda para desconversar e para dar um sentido maldoso às palavras.

Quando um dos seus compinchas se despedia era inevitável ouvi-lo:

- Já vás? Anda vai e vem qu’inda m’aqui agarras.

Havia os que já lhe conheciam a faceta e nem ligavam. A maioria, não apanhava o sentido, e ainda que atento, raramente o visado levava a mal. Uma vez, o Alfredo Mamanaburra levou, e não foi de modas: deitou as mãos à portinhola das calças de fazenda do Falabarato e... apertou com força, como quem espreme os tomates para fazer a tomatada. Avelino teve de aguentar a dor e a galhofa das testemunhas. Quando era ele a despedir-se lá vinha:

- Atão vá! Já me vou qu’hoje vou a dormir com uma mulher casada.

Em situações raras, tinha boas tiradas como aquela no casamento de um sobrinho em que o 4º quente da ementa era cozido à portuguesa e a senhora de decote generoso lhe encheu o prato de cenouras.

- Ó mnha senhora! atão vomecêi cuida que eu não tenho cenoura? Ande tire lá isso que já tenho que chegue.

- Olhe que dizem que faz bem aos olhos…- quis ela ser ingenuamente simpática.

- Pois, está bem! Mas ande que eu vejo bem a carne…

Sempre que apanhava um novato no grupo, desafiava-o para a aposta habitual. Mostrava-lhe a mão fechada, assim como que a jogar à moedinha e atirava:

- Tu queres apostar a todo o dinheiro de nós os dois juntos que eu tenho mais dinheiro aqui na minha mão do que tu?

O outro, se calhava ter a carteira bem recheada, e calculava que seria impossível o Falabarato conseguir guardar numa mão fechada a mesma quantia, atrevia-se:

- Olha que perdes! Vamos lá atão a ver.

Triunfante, o Falabarato exibia uma moeda de 1 euro e perguntava:

- Eu tenho aqui 1 euro. Mas é meu, tu não tens dinheiro nenhum teu aqui na minha mão.

Naturalmente, a aposta considerava-se saldada se o perdedor pagasse uma rodada.

Doutra vez, arranjou um sarilho com a Lurdes Malagota que vinha da horta com um caldeiro cheio de cabeças de nabo na molídia e o Falabarato não resistiu:

- Ó Lurdes, os teus nabos parece que não são lá grande merda. Os meus é que são bons. Olha, eu tenho lá um nabo que tem talo no grelo.

A Lurdes não a apanhou, mas o homem dela sim. Valeu o Feduchas que se pôs no meio e convenceu o ofendido que o Falabarato estava a brincar.

- Ele que vá a mangar c’a puta qu’o pariu, ora o filho dum corno.

Eram conhecidos outros jogos de palavras da mesma laia que o Falabarato gostava muito de usar, provavelmente desde que comprara uma cassete do Leonel Nunes na Senhora do Incenso: ele era “o meu feijão verde tem fio”, “ a minha uva tem cacho”, “a minha couve tem talo no olho”, ou “o bacalhau tem rabo”, etc.. Um malabarista da palavra, o Avelino Falabarato.

Mas aparece sempre um mais esperto. Um dia, ia ele a caminho da vinha armado de tesoura e serrote para a poda, no coldre de cabedal enfiado na correia das calças, passa pelo chão do Moca que estava armado de guilho e marreta a rachar lenha. Vira-se o Falabarato:

- Ó Moca, dou-te 20 euros se me venderes aí o monte da lenha.

O Moca olha para as 3 toneladas de lenha de azinho, sorri para o brincalhão do Falabarato e responde:

- Se me deres os 20 euros, sou capaz de te vender a lenha.

Avelino Falabarato ficou surpreendido com a oferta, mas não podia voltar atrás. Agarrou na nota de 20 e passou-a para as mãos do Moca.

- Pronto! Negócio feito, vou já a buscar o meu ratatau e ainda levo hoje a primeira carrada.

- Levas o quê? Tás parvo ó fazes-te? Eu disse que aceitava os 20 euros para te vender a lenha, não disse quanto é que queria por ela.

- Ai o rai! Já m’encrencaste!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Karraiazinha

MADALENA

(foto retirada devido a processo de desactualização irreversível)



Ano II

Tenha tudo de bom
O que a vida contém
Tenha muita saúde
E amigos também

sexta-feira, janeiro 13, 2006

A NOSSA FALA - XLII - CATREFA E/OU CATREFADA

Isto hoje vai ser mais variado: começamos por uma lição de fonética e acabamos com uma receita de coelho doméstico com couve de repolho.
Então é assim: Catrefa deriva do latim CATERVA. Significa GRANDE QUANTIDADE. Vergílio, na Eneida, e cito de cor que agora não tenho aqui a obra à mão, escreve assim: Et regina, magna cum stipante CATERVA virginum, dum maximus pontifex ad aram ascendebat... Aí vai a tradução: e a rainha, acompanhada por uma grande quantidade de donzelas, ao mesmo tempo que o sumo sacerdote se dirigia para o altar, lá no alto ...
Como é por demais sabido, o povo faz a língua e segue frequentemente a lei do menor esforço. Isto é mais visível quando algumas consoantes são muito próximas em termos de som e pronunciação ou quando a articulação da palavra oferece alguma dificuldade. Nesse caso, dá-se a volta por cima. Foi o que aconteceu com a passagem de caterva a CATREFA: Dá-se uma metátese (reparai que se passa de CATER a CATRE e depois verifica-se um abrandamento do V ao F. Reparai que estas duas consoantes se pronunciam quase da mesma maneira: são labiais, só que o V é sonoro e o F é surdo. Vai daí, o povo não está com meias medidas: fica CATREFA, e não se fala mais nisso. E ficou. Voltaremos a esta temática um dia que calhe!
Era Sexta-Feira à noite.Verão assim quente comédado! Junto ao muro do Marcelo estava eu com Coiote Pete, Jorge Alguitarra, J.J. Cabeças, Barbaças e Abraço de Basuca. A conversa entre cachopada vai sempre a dar ao mesmo: gajas.
Avaliavam-se várias figuras, quando nisto, passa o mardlhequinho (chamavam-no assim porque não era capaz de pronunciar bem os dois RR e como tinha marrecos e estes iam até à ribeira em fila indiana, ele quando os queria de volta à capoeira ia à ponte e punha-se: "mardlheco mardlheco, mardlheco, mardlequinho!...."O facto é que os marrecos acudiam à voz e aí iam perfilados atrás dele como os gansos iam atrás de Konrad Lorenz.
Diz Coiote Pete:« OH! se o mardlheco vem a esta hora, dorme cá. O velho tem uma coelheira dum corno. Fui lá outro dia com o Tero e vi. A porta está fechada com um baraço num prego e o cão é manso como a terra.» E vai o Cabeças:« porra, mas o carregal é longe!» Logo atalha Alguitarra:« vamos de tchasso.»« Só há uma», diz o Barbaças...E eu: «Vou buscar a do meu velho e empresto-a. Eu a roubar os coelhos não vou, mas posso-os cozinhar e emprestar a bicicleta.» Nisto o irmão do Basuca passa na bicicleta e é logo interpelado: «Ó puto, vai a pé para casa e deixa ver a chincha.» O cachopo protestou mas a ameaça do Basuca resolveu tudo num instante. Aí vão eles: Coiote Pete, Cabeças e Basuca. Eu fui pelos garfos, colher de pau, louro e a bifar uma bilha de gás , um redutor com tubo e um fogão Presmalt de dois bicos que a minha mãe levava para as excursões, alguitarra arranca a buscar o vinho e o pão e o barbaças foi-se por um tacho dos grandes, cebolas, azeite e alho. Agarramos no carrinho do gás e ala: toca a andar para a mina de Toco Jabão. Havia lua... E que não houvesse! todos conhecíamos o caminho.
A páginas tantas diz o Barbaças: «Atão e comemos os coelhos com quê?» « Com couves é que era bom,» digo eu. E eles: "Com couves? A Ti purificação tem-nas lá boas debaixo da laranjeira, daquelas do repolho." «Vai lá e traz aí umas quatro ou cinco, enquanto eu e aqui o Alguitarra montamos a bancada». Assim foi.
Pelos atalhos das Taliscas, entretanto, os outros três lá iam em busca dos coelhos do mardlheco. Foram e vieram.Trouxeram só um. Um, pensávamos nós: era uma e prenha!
Coiote Pete, viemos depois a saber, apalpava o lombo (nenhum se lembrou duma pilha nem dum fósforo) e agarrou aquele(a) que lhe pareceu maior, meteu-a para dentro do saco, pôs no suporte da bicicleta e: ala milhano!
Depois de uns quantos praguejos e alguns a dizer que já não comiam e de alguma narrativa lá nos decidimos a esfolar a coelha. Dizia Coiote: «fugiam como os ratos e era uma catrefada deles, no se via nada o que quereis? fosseis lá vós»! Entretanto quando a barriga da coelha é posta à luz da lua vimos que tinha dez caçapos.«Mal empregada.Trazia uma caterva de coelhinhos. Meu amigo, vai mesmo assim»! E foi.
Como só havia um tacho e para adiantarmos tempo eu já tinha as couves cozidas e vá lá que o ti joão caçador tinha um balde perto do poço ali ao lado, senão, não tinhamos onde as deitar.
A coelha era rija, demorava a cozer e para variar a conversa ia a bater sempre ao mesmo: gajas.
Vou eu:«porra! não se fala mais em gajas hoje. Contamos uma história engraçada cada um e pronto, até que a coelha se coza maneirinhas.» e foi assim que o Cabeças arranca com esta: «Atão não querendens lá ver que o padre zé pedro, outro dia, vira-se para o tzé sardones e atira-lhe:-"ó Sardones, olhe que você ainda não pagou a côngrua nem deu a esmola para o santo!" E o Sardones: «Oh senhor prior: eu tenho uma catrefada de filhos, farto-me de trabalhar para ver se não passam fome... Bem, a congra é lá com a minha mulher, mas a esmola ao santo, pago-lha já: o senhor prior empresta-me o santo durante um mês e eu sustento-o junto com os meus filhos. »O pessoal que ouviu pôs-se a rir e o padre desandou.
E nós também rimos e quase em uníssono: bem feita!
Ao fim de um boa hora lá se roeu a coelha!

1 -Alagar bem o tacho; não poupar o azeite : à vontade aí meio quartilho ou mais.
2 - Deitar cebolas migadas, alho e louro e o coelho migado grosso. Abaixar o lume e deixar cozer no azeite na cebola e no alho.
3 - Testar se o garfo já espeta na carne e juntar as couves (não esquecer que as nossas já estavam cozidas para ganharmos tempo). Tapar o tacho deixar cozer, lentamente.
4 - Quem gostar de umas batatas pode acrescentar depois de as couves já terem suado.Temperar de sal a gosto e picante se gostarem.
5- Sempre em lume brando
6- Juntar vinho tinto ou branco, avivar o lume, deixar apurar e servir.

NB: reparastes que não leva água. A água é apenas a resultante do próprio coelho e das couves. A importância de cozer sempre em lume brando e com o tacho sempre bem tapado, está aqui. Doutra forma tende a esturrar e lá se vai o petisco.

Muita atenção: não vale roubar o coelho!

terça-feira, janeiro 10, 2006

A NOSSA COMEDURA -IV - BATATAS (solteiras, assadas na água e à cão reles)

Sem dúvida uma das bases alimentares "do nosso povo" (onde é que eu já ouvi isto?), o tubérculo da batateira, para além de ser de muitas variedades permite quase tanta modalidade de confecção como o nosso querido e fiel amigo da Terra Nova, Noruega, Pacífico,...
Hoje vou trazer-vos aqui três possibilidades de confeccionar a batatinha, assim comédado. - E COMÉDADO, não custa nada - .
Iniciemos então a confecção:

a) BATATINHAS SOLTEIRAS

Arranjai uma boa caç(ar)ola, ou caçoilo de barro, ou melhor ainda uma travessa da mesma argila.(Em alternativa um bom tabuleiro (lata) de alumínio, daqueles de meter os bolos de leite ou os esquecidos, em tempo de boda, ) e
1 - começai por descascar as batatas ( se forem das novas e pequenas basta que as raspeis). Cortai aos cubos ou quartos, ou longitudinalmente em forma triangular;
2 - descascai também umas quantas cebolas;
3 - disponibilizai uns tomates e pimentos e meia dúzia de dentes de alho;
4 - cortai em fatias "ad hoc" umas tiras de entremeada, umas rodelas de chouriço;
5 - lavai duas ou três folhas de louro;
6 - no fundo da caçola vertei generosamente umas gorgoladas de azeite;
7 - envolvei as batatinhas aos cubos com as cebolas grosseiramente cortadas, os tomates rachados à balda e meia dúzia de tiras de pimento, as folhas de louro e os alhos espalhados, as fatias de entremeada e as rodelas de chouriço;
8 - fazei uma mistura de vinho branco e água em percentagem mais ou menos idêntica, dissolvei o sal necessário e um pouco de colorau. Podeis mesmo aquecer um pouco para que a liquefacção seja melhor conseguida. Despejai sobre o preparado anterior. Quem gostar de picante pode meter, a gosto;
9 - Metei no forno aquecido. (Bom, bom é em forno de lenha, mas não havendo, serve o do fogão doméstico) aí obra de uns trinta ou quarenta minutos e no caso de começarem a tostar sem estarem devidamente cozidas/assadas convém tapar com uma folha de alumínio.

N.B. - Acompanham divinamente qualquer prato de carne seja ela confeccionada no forno ,ao lume ou no fogão!

b) BATATINHAS ASSADAS NA ÁGUA

1 - Ponde um recipiente, com o tamanho que considerardes necessário para o número de comensais, com água, a ferver;
2 - utilizando de preferência sal grosso, vertei nessa água umas boas quatro ou cinco mãos cheias de sal;
3 - antes ainda de levantar fervura e com o sal já derretido introduzi as batatas com casca e bem lavadinhas, que devem ser adequadas, como se fosse para assar no borralho/cinza (a chamada batata miúda);
4 - a água deve apenas cobrir as batatas. Deixai cozer destapadas;
5 - quando estiverem prontas escorrei, deixai arrefecer só um bocadinho e apanhai para um saco de plástico. As batatas devem apresentar um coloração esbranquiçada na casca, fruto do cloreto de sódio;
6 - entretanto tende já feito um molho à base de azeite, vinagre tinto de vinho, bocadinhos de folha de louro, e bastante alho a que tirastes o grelo e esborrachastes grosseiramente e colorau.
7- socai as batatinhas dentro saco que deve ser transparente para haver a certeza que são todas murradas, despejai o molho bem batido e servi de imediato, a fumegar.

NB- São excepcionais para peixe assado na brasa (bacalhau, chicharro, besugo, sardinha, corvina, ...) ou mesmo carne: entremeada, entrecosto, febras, frango, ...

c) BATATAS SALTEADAS À "CÃO RELES"

1 - Descascai as batatas necessárias e cortai em cubos médioS; lavai bem;
2 - servi-vos de uma frigideira anti-aderente para a qual verteis um pouco de azeite e uma pouca de banha de porco. (nunca deveis fritar apenas em banha que facilmente esturra e é insalubre);
3 - introduzi as batatas, avivai o lume, tapai o recipiente, deixai suar;
4 - escarchai, mesmo com casca, meia dúzia de dentes de alho;
5 - quando destapardes o recipiente, aventai com os alhos para dentro, salgai a gosto com sal do grosso; tornai a tapar;
6 - quando as batatas aparentarem uma coloração levemente acastanhada, no caso de vos apetecer, salpicai com um chirrichichi de colorau. Mexei e servi de imediato.

NB - acompanham bem, lombo ou lombinho de porco assado, frango corado, entrecosto e o que mais for de carne boa e saborosa. Se gostardes de um pouco de verde para dar cor, estas batatas casam muito bem com um esparregado de nabo, espinafre, (...) ou mesmo roupa velha.
Facílimas de confeccionar, demoram pouco mais de 5 minutos num bom fogão e admitem quase todo o tipo de carnes para sua companhia.

Aqui vos deixo três desafios. Ousai experimentar e dizei-me dos resultados!
Bom apetite!

sexta-feira, janeiro 06, 2006

A NOSSA FALA - XLI - PI(E)LHARANCA

«Onde raio tenho a gaita que a não acho?» Perguntava o Mné Grande. E eu: " Ó Mnel isso já não é uma gaita ; é uma p(e)lharanca! deve ser parecida com a tripa duma farinheira cozida acabada de comer"!»Quando chegares à minha idade logo vês se não vais precisar dum peniscópio
Era um gosto vê-lo comer, a este pesado amigo.Tinha por hábito dizer que nunca na vida tinha almoçado:«só enganei o estômago
Sempre disponível: bastava que se lhe arranjasse um assento mais ou menos ajustado àquela massa informe e se lhe pusesse à mão o que fosse preciso ele fazer: descascar batatas, raspar cenouras, migar carne, e o resto - um pão dos grandes, um garrafão de cinco, uns nacos de presunto, queijo, malgas de azeitona retalhada e, por copo, uma garrafa - . Era assim: ia trabalhando, comendo e bebendo. Aí por essas onze já se ouvia o pigarro da sua garganta. Poucas falas, que quanto mais falasse mais ar entrava e mais se lhe irritava a garganta.Portanto: há que tapar a entrada do ar com mais pão e presunto e queijo e molhar bem a garganta para tudo escorregar comédado.Era só uma garrafinha de cada vez. Assim mesmo: uma garrafinha !
Ao almoço comia pouco- pouco é como quem diz: dois discos de sopa de feijão com couve e massa manga de capote, basta quanto pudesse ser, cinco batatas das grandes, uma massinha de borrego e uma travessa de esparregado de nabo por via dos alhos que catava a cada instante. Duma vez lhe vi comer três cabeças. Era aproveitado: sobrava pouco e, delicadamente perguntava: « as pelharancas, deito-as aos gatos?» às três mais ou menos começava a sesta. Até às cinco. Acomodava-se no assento e pronto, já só se ouvia ronco!
Quando era mais novo o nosso Mnel era trabalhado: arranjava sempre desafios no Domingo à tarde onde ele pudesse ser o vencedor e assim encher o fatinho sempre à mama.
Alguns dos que me lêem hão-de ainda lembrar-se das amoreiras no largo baldio da lameira - resquícios de uma pequena indústria artesanal- . A mais alta estava pegada à tasca do Cavalheiro. Não era raro que a rapaziada se queixasse e, mais ainda, as mulheres que tinham lavar as nódoas provocadas pela tintura da amora.(Se por acaso ficardes com as mãos sujas de comer amoras, o antídoto é lavar as mãos com amoras verdes. A roupa é que não se pode lavar assim) .
A pernada mais alta dessa amoreira tinha inclinação para o lado da estrada e o que se meteu na cabeça do Mné Grande?:«Pago cinco litros a quem me desafiar e chegar mais alto a subir a esta amoreira.» Depois de esperar que alguém aceitasse o desafio,acrescenta: «Cagões, sois todos uns cagões! Pronto: podeis juntar-vos cinco contra mim!» Aí, João 27, chico traitoiras, arrebenta canelas, zé encrencas e macuácua, aceitam a aposta. Impõem como condições que só poderia subir uma vez cada um, nunca voltar atrás à procura de melhor caminho e que o Mné Grande era o primeiro a subir.
A malta começou a juntar-se. Mné Grande ainda protestou, mas logo se ouviram vozes: "agora o cagão és tu"! .
Decidiu-se: embarra pela amoreira acima, galho após galho e com a envergadura dos seus quase dois metros, estica a mão direita, arranca um raminho e precura lá de cima: «Vistens todos donde cortei o ramo?» Confiante na vitória ele aí vem, sorriso franco, a encostar-se à parede. Arranca Encrencas, mas a falta da altura impediu-o de bater Mné Grande. Vai Traitoiras , mas um galho que se escavacou, obrigou-o a voltar atrás e pronto. Mnel não foi de modas: ´"ò Cavalheiro traz aqui 5 litros que alguém os há-de pagar!"Foram ainda tentar bater a altura do Mnel, o arrebenta canelas e macuácua, sem resultado.
Sobrava 27: perninha fina, sempre a piscar os olhos, gracioso no andar - a mulher até dizia que ele dava para modelo! -, tira o casaco de lã, arremanga as calças até um pouco acima dos tornozelos, cospe nas mãos e aí vai. A malta animava-o. 27, calmo, acenava com a palma da mão sinalizando que era precisa muita calma. Segue cauteloso amoreira acima...e o povo: ' o gajo cai, ai cai,cai.....! ' o melhor é agente afastar-se cassenão inda nos cai em cima.'
A pernada estreitava, 27 abanava mesmo no limite e eis que...para espanto de todos, Mnel Grande incluído, faz o pino na pernada e bate com os pés onde Mnel Grande tinha cortado o raminho. Com calma, endireitou-se , desceu até ponto mais seguro e: "Atão e agora, quem é que ganhou?hein?" E todos: ' Anda Mnel, paga e não bufas. Se quiseres um copinho tens que lho pedir por favor! ' e riam-se a bom rir.
Chegou 27 ao chão e são indizíveis os comentários.
Mné Grande praguejava, mas não teve remédio senão arrotar com os cinco litrinhos.
Diz o Traitoiras:" eu cuido que a minha guardou na gaveta umas plharancas de corates que sobraram do jantar de ontem. Vou por elas e de caminho a ver se arrebanho umas cõdeas de pão por mor de termos mataborrão pra tanto vinho." Encrencas empurrou-o logo: «despacha-te!»
27 nem parava dum lado pro outro.Todos lhe davam palmadas e ele:« porra! já chega! vandens mas é a malhar no cu da burra!
Chegou Traitoiras com os restos do jantar e dois couchos e foi um ar que deu aos cinco litros.
Aqui está o poder de uma mão cheia de pelharancas!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

ACTA ANTECIPATIVA DA MORTE DO MARRANO

Às sete da manhã nevoenta
De 30 do mês do Natal
Saíram de casa, com pêlo na venta,
Os constituídos para dar cabo do animal.

A equipa é mais que distinta,
Moca, nosso Fernando, nosso Zé,
Karraio, e Changoto da quinta,
Gaducha, Chaves e um Sardones até.

Ali bem perto, às Poldras
Junta-se à trupe o Zé Caçador,
Grita: "Já cá levo as cordas",
E acelera forte o seu tractor.

Chegados ao local de abate,
Aguardente fraca, pouco adoçada,
Nozes e figos secos como contraste
Iniciam a valente almoçarada.

Apresentam-se as armas à porfia:
Fusis, navalhas, serrote e machado,
Pedras, maçarico e até um fio,
Mais a banca para o condenado.

Muda-se a farda, calça-se a bota,
Entra-se na furda, separa-se o tó,
Ata-se-lhe a pata, empurra-se prá porta
Cada um sua sentença, afaga-se com dó.

O animal já habituado ao aposento,
Recusa-se a percorrer o caminho...
E então que num momento
Se lhe aperta um arame ao focinho.

Com três a puxar e quatro a empurrar,
O malhado lá passa a porta do curral.
Os outros, todos a ver, acabam de ralhar
E acompanham os algozes ao tribunal.

Diz um:"passa-lhe a corda por baixo"
E outro:"vê se me tombas o animal"
"Cala o bico senão inda te racho
Pega-lhe no rabo que não te faz mal".

Ao fim de uma boa meia hora
(vergonha das vergonhas em matança)
Lá conseguem tombar a alimária.
Podia finalmente começar a dança!

"Vá lá!" diz o mestre, "todos ao mesmo tempo,
Um dois trê..."espera aí que me vai escapar"
Aguarda-se então um breve momento,
E, depois, então, foi só levantar.

Poisa-se o volume ao comprido na tábua,
Puxa-se a jeito, compôe-se a faceira...
Logo um traz um balde de água,
E o matador pega na matadeira.

E foi um "ai...", logo à primeira,
Enterrou a faca, tirou-a e ficou a olhar
O animal a grunhir, a ferida que fizera,
O sangue a correr em bica para o alguidar.

A colher de pau não parava no barro
Sempre a dar-lhe para não coalhar.
Metia-se a mão, sacava-se o tarro,
Comentava-se a facada sempre a segurar.

"Põe-te a pau que ele vai esticar"
Aconselhava o que pegava a orelha.
"Olha o esperto", diz o do traseiro a brincar,
"Vê lá se te foge e te chamo azelha."

"AtençãolAtenção! Vamos lá a preparar."
Clama o matador a ver a brincadeira!
"Não estive eu aqui a aprumar-me
E ficar envergonhado por uma asneira."

Ao fim de uns bons esticões
Lá se ficou o porco, sem bulir...
Limpa-se a barbela, dão-se uns apalpões!
Desatam-se as cordas! Começa-se a sorrir.

"Arre porra, ninguém quer mecha!"
Diz o que segurava a pata dianteira.
"Um homem tem mesmo que fazer queixa:
Não há um copo! Só querem brincadeira."

Ouve-se então alguém a vir,
Viram-se todos para o portão.
Era o Barrocas campeão a tossir
Que já trazia o cigarro na mão.

"Vá lá, chegou mesmo à hora.
Tínhamos deixado molhar os palitos,
Mas não temos que nos preocupar agora,
Já temos quem acenda o maçarico."

Sorriso largo, fumarada solta,
Calmamente se aproximou.
Com a mão a todos deu a volta,
E foi ele que em vedeta se tornou.

Iniciaram-se piadas de caserna,
Até que se ouve uma voz tonitroante:
"Isto aqui é alguma taberna?
Assim isto não vai p'ra diante."

"Tens razão" comentam os conjurados
"Vamos mas é ao que interessa
Daqui a pouco estamos gelados
Por nos pormos a olhar aquela peça."

Foi assim que o maçarico se acendeu
E se chegou o lume à ferida.
Na agulha uma guita se meteu
E pouco tardou, estava já cosida.

"Vamos lá mas é a pôr ordem nisto"
Ditou o Barrocas então chegado
"Mas haja cuidado por Cristo
Qu' algum inda pode ficar queimado."

"Bem falado, então isto é assim":
Vocifera alto nosso Fernando.
"Um aqui sempre atrás de mim
Que eu dou-lhe lume brando."

A chama do escaldante queimador
Sempre orientada no sentido sul
Implicava atenção ao calor
Pois até já o bocal estava azul!

Lá se ia chamuscando, primeiro atrás,
Logo à frente, depois a barriga,
Sempre um a dizer como se faz
E em latim se inicia uma cantiga:

Infelix animal es, suine ora mortue,
Ut augeas ventres omnium scholarium
Dolore maxima, duces saevi, impiique
Te damnant, etiamsi sis sordidum.

A música é depressa por todos adoptada
Sai um coro afinado, sem maestro.
Apesar de não perceberem nada, nada,
Entravam bem na melodia, mesmo a estro!

E o porco lá ia, com jeito, sendo queimado
Sempre atrás do lume ia o raspador.
Em breve ficou bem pronto dum lado,
Aquilo é que estava a ficar um primor.

"Eh! Malta! Está na hora de ser voltado."
Logo todos se apressam para lhe pegar
Primeiro de costas, o lastro breve assoprado,
Depois com jeito e arte foi só virar…

"Vá lá a ver quem sabe arranjar o focinho",
Aponta o Gaducha ao vê-lo ainda por fazer
E logo um se lhe atalha ao caminho:
"Isso já toda a gente sabe quem há-de ser".

"Ouve lá, ó meu basbaque de tanto saber,
Inda não tiraste as mãos das algibeiras
Sabendo que há muito por fazer
E pões-te a dar sentenças brejeiras?"

Uns riam, outros acenavam que sim senhor
Mas lá acabaram por concordar:
A cabeça pertencia ao matador.
E lá teve o desgraçado que se baixar.

"E o rabo! Quem faz o rabo a preceito?"
E viram-se todos para o Caçador
"Eu cá não tenho qualquer jeito,
Haja alguém que faça o favor."

É agora a altura das carchanolas,
Unhas para os que são ignorantes
Queimam-se bem pois parecem solas
E brinca-se com elas como dantes.

Aquele que as tira, finge que as aventa
Mas guarda-as, bem guardadinhas
E metê-las nos bolsos é o que tenta
Das pessoas que estão mais vizinhas.

Os que dão conta, empurram-no com força
E ele aconselha-lhes alguma calma.
Calado, salta para outro como uma corça
Senão não dá descanso à sua alma.

Dá a volta e no que estava mais distraído
Lá enfia, por fim, a sua encomenda
Afasta-se aliviado e descontraído
E atenção aos outros recomenda

Todos, sem à partida fazerem referência,
Vão sempre guardando a rectaguarda.
Não fiquem eles com a indecência
De as levarem consigo na farda.

Enquanto tudo isto se passava
O cerdo ia ficando como novo
Barbeado conforme a navalha passava
Já quase se podia mostrar ao povo.

Apaga-se o maçarico já desnecessário
Grita-se por água rápida e com fartura
Procuram-se pedras de natureza vária
Inicia-se a lavagem à bacorura.

Nosso Zé, com muita jeiteira
Segurava a mangueira numa mão
Na outra, regava com uma cafeteira
A medida que se fazia o raspão.

Trabalho, trabalho, tinha o matador
A limpar as rugas daquela tromba:
Escarafunchava com raiva e vigor,
Estoirava como se fora uma bomba.

Já bufava e as mãos se lhe engadanhavam
Quando repara que faltavam as orelhas.
"Uma esfregadela era o que precisavam
Os que aqui passaram, os azelhas."

E exclama: "quem me traz sal grosso
Para vos ensinar como se devem limpar
Estes abanos às vezes rijos como um osso"?
Prestes, Karraio, logo lho foi buscar.

E preciso agora fazer-lhe bem o cu
De maneira que não se fira a tripa.
Resta saber quem será o gabirú
Que a tal trabalho se dedica.

Vê-se um, disponível, a sacar da navalha.
Tal disponibilidade a todos espanta
E quando ia a iniciar aquele trabalho:
"Eh! pá!, olha que é preciso tirar a trampa."

"Mau..., ainda ninguém teve fome?"
Diz um que andava com a perna manca.
"Olhem que até à uma ninguém come!
E servirem-se já da morcela da banca!"

Logo em resposta ouve o que pedia
"Galinha que canta é a que põe ovo,
Já era assim que o meu avô me dizia,
Come-a tu e diz-me que tal é o provo."

"Vai mas é buscar um bom nagalho
Enfia-o aí até ao fundo da abertura
Torce e puxa para ti, ó meu bandalho,
O que conseguires sacar da ranhura."

"Tem tento nessa língua, ó depravado,
Senão ainda limpo a essa linda cara
Aquilo que vier a ser o resultado
Da sonda que ainda há pouco enterrara."

Tão amena conversa se ia travando
Era tão boa a disposição de toda a gente
Enquanto no traseiro se ia cortando
Que ninguém se lembrou da água quente.

"Se isto vai continuar assim, desta maneira,
Digo-vos que ponho os pés a caminho.
Vamos lá acabar com a brincadeira
E ver se alguém me traz um copo de vinho."

E continua, alterado o grande artista:
"Tu, ó Faz-Nada, acadeja-me água quente
E vê se deixas de te armar em fadista
E te portas de modo a seres gente

"Porque é que logo me viste a mim
Que estava aqui tão sossegadinho
Toma mas é um raminho de alecrim
Que te faz muito melhor que o vinho."

Valeu à circunstancia que o Caçador
Ali apareceu com aperitivo e garrafão.
Assim, lá se acalmou todo o vapor
Da zanga que estava a ruinar a sessão.

Já com o chambaril o Moca aparecia
E os nervos das traseiras se revelavam
Há já muito tempo que se não via:
Todos com o transporte se preocupavam.

Uns apareciam com sacas de serapilheira
Outros com varapaus como fueiros
Cada um defendia a sua maneira
Tudo se acalmou e lá foram ligeiros.

A roldana e a corda tinham sido aprontadas
À entrada da porta alguma dificuldade
Tardou -os na sua pressa danada
E tiveram que refrear as ganas da vontade.

Já dentro da loja debaixo da viga
Engata-se a corda, eleva-se o animal.
Um sobe ao banco, faz uma figa
Dá um nó de modo que não fique mal.

"Pronto, já está, podeis deixar o bicho"
Devagarinho lá o foram baixando
O gato sapou para o seu nicho
E o material preciso se ia preparando.

Surgem alguidares, travessas, pratos
E logo: "Então, mas afinal isto o que é?"
Mais me pareceis uns grandes ratos.
Haja alguém que vá buscar um café.

Abre-se o ventre agora escancarado
Com golpe ao centro pouco profundo
Não tardou que o cutelo bem afiado
Trouxesse o corte direito até ao fundo.

Volta ao cimo e, com os dedos em V,
Abre caminho ao bico da navalha
As tripas logo toda a gente as vê
E traz-se o tabuleiro que as apanha.

Agucei então umas sovinas de esteva
Para o porco poder ficar largo a secar
E disse. "Atenção, daqui ninguém o leva,
Sem a carne estar boa para se cortar."

Entretanto, o cheiro de um fígado a assar
No borralho, que ficara sempre aceso,
Anima o corpo, que já estava a ficar
Devido ao frio, um pouco teso.

Então, sem que ninguém o veja
Changoto inicia a sua faena culinária:
Já tinha limpo das tripas a molareja
e agora limpa as glândulas da alimária.

Num tacho já frigem dentes de alho
Em azeite fino da bela oliveira,
Juntos com louro e um famoso molho
Que é criação da sua alta craveira.

A chicha, cortada em nacos valentes
Entra logo com a pimentada caseira
E todos com a fome afiam já os dentes
A contar com a cheirosa petisqueira.

Boné na cabeça, avental a preceito
Atento ao fogo, à trempe e ao tacho
Vai deitando vinho, sempre com jeito
Não se agarre a comida com o fogacho.

Dá a provar o molho de vez em quando
E cada um apruma o seu paladar
Ajusta-se o sal, corrige-se o picante
Envolve-se o entulho, fica-se a esperar.

Sai fumegante o tacho com o petisco
Cada um pega a sua arma na mão
Estava já um prestes a morder o isco:
"Vê lá se reparas que tens aí um pão."

Célere recolheu o braço atrevido
Mas os compinchas não lhe perdoarão:
"Tu, ficas a saber que já estás cozido
Ficas encarregado de servir do garrafão."

Lamuriento, teve de aceitar o seu destino
Ele que tanto gostava de dar ao dente
Até que deixasse atestar bem o papinho
Tinha agora que comer atrás da gente.

Pouco tardou estava o barranhão aliviado
A rapaziada dirigia-se já para junto do sol,
Quando de repente se ouve um alto brado:
"Cada um lave o que sujou, enquanto está mole.

Muito a custo lá foram até junto da torneira
Esfregão, pano, água e, claro, detergente
Deixaram tudo a brilhar na cantareira
Ficou a dona de casa toda contente.

Faltava agora descer o defunto esticado
Alarga-se o nó, deita-se sobre a padiola
Leva-se até ao veículo para ser transportado
Até junto dos qu' aguardavam junto da Escola.

A viagem correu sem qualquer acidente
Já todos traziam um lavado fatinho.
Na presença de quase toda a gente
Eleva-se até ficar bem, com jeitinho.

Finalmente, de novo fica o cerdo exposto
Já a lenha seca ardia na metade do bidão
Pouco faltava pra qu’o que lá estava posto
Não tardaria, estava feito em rubro carvão.

Cada um para o talho então se dirigiu
Cortava onde podia, apetecia ou conseguia.
Azelhice tamanha em muitos então se viu
Mas nem por isso arrefeceu a alegria.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

A NOSSA COMEDURA - III - BACALHAU À ALMA DUM RAIO

Tempos dum raio aqueles: uma pessoa levantava-se - NO VERÃO - noite escura, breu como alcatrão, acendia-se o lume para a cozedura do malhinho (feijão frade) , aguado quanto bastasse que o caminho era ainda longo e não se compadecia com os gases intestinais. O caminho era para andar em rancho," c'ossenão!": se queres ver o teu companheiro a andar, põe-te a cagar!
Assim fui eu, garoto ainda, mais a minha mãe - mulher ímpar, há pouco desaparecida do mundo dos conviventes, mas que perdura sempre na propagação dos que amadamente gerou e criou - caminho da serra da Raposa fazer um quinto. Aquilo era a doer! Não tanto para para mim que não entrava nas contas, e que, quando me apetecia largava o sacho da sacha (= monda) do milho, quando se aterrava por mor de , se chovesse, a água não lhe levar a terra e deixar a raíz ao sol exposta e logo secar.
Se o calor me apertava muito, vinha para a sombra dum abrinheiro de rainha Cláudia - não era grande sombra, mas sempre era melhor que a torreira do sol - , dava volta ao resto da merenda e rapava o que aparecesse.
Quando, já noite adiantada, chegávamos a casa, eu e a minha mãe, ela mais estafada do que eu, o que apetecia era um refresco de vinagre, água do cântaro e açúcar.
Tantas vezes fiz esta maravilha de gelado!
Ainda hoje gosto deste refresco. Tem é que ser com vinagre do verdadeiro! Tinto. Assim mesmo comédado.
Ora.... (e lá vem a estória... e, claro, a receita!)
Ainda muitos dos que nos lêem se hão-de lembrar que se criavam porcos para a matança no centro do povo. No ano em que o Karraio (= ingrumêncio .) nasceu - 1961, Outubro, o nosso bacorinho crescia ali no beco do Chico, numa furda, paredes meias com o velho Valente.
Minha mãe, já ia adiantada na gravidez e as ordens foram estas: " ficas cá, pedes a burra emprestada à avó, tiras o esterco ao porco e vais a descarregá-lo ao chão na leira do poço pequeno que é por causa de lá semearmos as batatas."
Pronto! fiquei e tirei o esterco.
Não penseis vós que era tarefa doce! Para um garoto espetar a forquilha no feto, cardido e cardado pelo patear do roncador, e acertar nas angarelas, era aventura hercúlea!
Não me levantei para as migas do feijão pequeno, mas foi pouco depois. Três vezes fui com a burra a descarregar o esterco!
Eram para aí obra das cinco da tarde quando desaguei a burra, a meti no palheiro e me fui lavar debaixo do caldeiro com um funil invertido, furado à laia de chuveiro, coisa que era um luxo para a época! Lavava o cabelo com petróleo para evitar o piolho e ficar reluzente. Até alumiava!
Disse cá para mim:" vou-me a fazer um refresco de vinagre e espeto-lhe uma sorna das valentes!". esta era a ideia...
Quando chego ao pé do fogão vejo umas aparas( Pelharancas) de bacalhau na água a dessalgar!
Tiro de cabeça!:
1 - cozem-se uns quantos olhos de couve da branca, sem sal
2 - enquanto a couve ferve, estalam-se uns valentes dentes de alho numa sertã funda
3 - Quando tiverem estalado tiro-os e boto para o mesmo azeite uma cebola às rodelas e deixo alourar bem
4 - tiro a pele e as espinhas ao bacalhau, lasco-o grosso e deito para a cebola já dourada. Abafo!
5 - abaixo lume e deixo cozer lentamente
6 - escorro as couves, espalho maneirinhas, a fim de perder mais depressa a água e arrefecer um chisco
7 - confirmo se o bacalhau já se tomou do azeite assim comédado. Envolvo bem.
8 - deito o alho que fora retirado, avivo o lume, deito os olhinhos da couve e mexo com a colher de pau.
9 - Tapo bem aí obra duns cinco minutos. Torno a envolver e abafo.
10 - salpico com vinagre do verdadeiro, deixo suar!
11 - papo tudo e arroto!

PS. - para quem quiser, pode, na altura em que deita o bacalhau para a cebola a aloirar, juntar umas batatinhas cortadas largas, às rodelas. Só depois de quase semi fritas /cozidas, deve acrescentar os olhos da couve.

Só vos digo: é a oitava maravilha do mundo!

Minha mãe é que não gostou muito desta minha desenvoltura, e : Ah!ALMA DUM RAIO!

domingo, dezembro 25, 2005

A NOSSA FALA - XL - ABOBRINHO

Dantes havia muitas eiras por essa aldeia e campos fora.
De luxo, era a da ti Natividade, ali mesmo atrás da igreja: toda em lage, com guardas inclinadas, também em cantaria, com uma área para aí de 80 metros quadrados. Mas, havia muitas outras: no ti Mné Guerra, no Césaro, no velho Cavalheiro e uma também bem jeitosa ali para o chão do Robalo onde vivia quase meia aldeia nos tempos idos: zé padre, tonho troncho, ambrósios, feijão, césaros, sabão, potes, menina aguércia, e logo depois, puta maluca, passa culpas, abades, rainhos, ferrenho - já a dar para o bacharel- . Viam-se todos nas matanças e, claro, nas malhas. A semente juntava-se numa eira, onde o acesso da malhadeira, que, ao tempo, tinha rodas de ferro e era traccionada por um tractor, não fosse muito complicado. Isto, quando havia quantidade que justificasse a máquina, como lhe chamavam, porque, muitas vezes, a malha era a mangoal e o mandador era, quase sempre, o padre zé.
Engraçado foi uma vez o professor Leitão que quis pôr uma mota velha a fazer andar a máquina... Faz lembrar a história do S. Luís nos Escalos de Baixo: num ano em que não chovia tiraram o Santo da capela e fizeram-lhe uma procissão a ver se as núvens apareciam. A procissão acabou mas a água não chegou. Vai daí, o papa-arroz sai-se com esta: ' se o santo não nos dá água, damos-lha nós a ele'. e ala! : tiraram o santo do andor e aventaram com ele para dentro do poço, ali pertinho da capela. E não é que depois começou a chover?!!!.
O mesmo com o professor Leitão: a mota não fez andar a malhadeira e, de castigo, levou-a para o poço que tinha no chão colado à ribeira, ali mesmo, pegado ao café do Cavalheiro, mesmo ao lado da ponte, e obrigou a mota a tirar água. Eu vi! E tirou mesmo: Fazia re(de)moinhos na pia de pedra e ainda enregueirei a água para os tomates que o professor tinha por debaixo de uma nogueira enorme que aí havia. Era habilidoso o professor Leitão. Parecia o inventor Pardal! Engenheiro era também o nosso querido Amandinho, filho do dito, que vinha todas as Segundas--Feiras a Castelo Branco, ainda a estrada era em MacAdame, no super famoso Réu-Réu-Tum-Tum, uma preciosidade duma arrastadeira, que pegava a manivela e/ou de empurrão e a canalha, entre a qual eu, subia toda para cima e aquilo não amelancava! Chegávamos a andar vinte em cima do réu réu tum.
A matrícula era AC-00-01. Nós até lhe chamávamos o Antes de Cristo por causa do AC.
Vim nele fazer o exame de admissão à Escola e ao Liceu a Castelo Branco.
Comigo, fazia exame o menino Zequinha, filho único do sr. Barbas, que tinha um armazém de solas e cabedais ali junto à Sé. Quando me viu tão cedo, antes da chegada da camioneta da carreira, perguntou-me como tinha ido: «vim no réu réu tum tum»."Isso o que é"? «É um carro antigo com eixos de pau»."tu és maluco! agora eixos de pau!" «É verdade!». Fizemos o exame escrito e antes de ir para o almoço diz-me o Zequinha: "onde é que está o carro"? Levei-o lá. Deitou-se no chão a apalpar o eixo, chegando mesmo a raspar com uma latinha: "puto de merda! bem me enganaste: os eixos são de ferro!" e eu: « não, não são! parecem! São de pau-ferro que vem do Brasil». O Zequinha foi para casa com esta e foi o fim da tourada.
Bem, mas o que nos trazia aqui é o abobrinho.
Passou-se (ou não, que interessa?) na eira do choupa, para os lados dos pinheiros: Julho no fim, calor de assar tordos ao meio dia.
Puta Maluca, Passa Culpas, Aguércia, velho Comandante (há quanto tempo não aparecia o meu velho avô!), Rainho, Bombo, Ambrósio, Proença, e, claro, o Choupa, tinham todos a semente, dum lado e do outro da eira, para a máquina entrar no meio das duas medas e a malha acontecer nos primeiros dias de Agosto. Era regra que ao S. Bartolomeu já tudo devia estar bem acadajado e era preciso pagar a côngrua ao sr. prior e a poia pelas barbas ao patanisca.
Era para ser!
Então não é que a 28 ( ou seria 29?) desse mês de Julho se alevanta um cabrão dum abobrinho que, com vento com uma força dum filho da puta, rodopiando sobre si mesmo, passa no meio das medas da semente e arranca tudo para o céu! molhos inteirinhos de semente, de grão bem grado, foram cair a mais de cem metros! Aqueles que se desprenderam dos nagalhos espalharam-se pelo astro e foi ver cair palha e mais palha por toda a zona, até mesmo na aldeia! Um prejuízo dum corno!
Tudo olhava para o céu incrédulo, inventavam-se justificações para o fenómeno, a ti Rosa Manata, fez uma reza com esconjura, em pratinho novo de esmalte, com azeite virgem e raminho de oliveira guardado, propositadamente para estas ocasiões, desde o Domingo de Ramos ; a velha Bate-Orelhas faz quatro figas atrás do cu, e o Zé Borges (figura incontornável, que um dia há-de ser visita aqui no nosso blogue) não foi de modas: «Isto foi obra dos cabrões dos espanhóis que se puseram todos ali na fronteira a assoprar para não deixarem para cá passar as núvens com água.»
Deve ser por causa disto que: "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento".

segunda-feira, dezembro 19, 2005

A NOSSA FALA XXXIX - CAFONES

Desde garoto que simpatizo com a cooperação transfronteiriça. Do outro lado da fronteira eu via um mundo novo, uma espécie de mundo”civilizado” onde havia mais de tudo. Numa primeira fase, este tudo resumia-se a chumbo para a pressão de ar, caramelos e torrões de Alicante. Numa segunda fase o interesse estendeu-se às “chicas guapas”. Mais tarde havia de chegar à cultura propriamente dita - incluída a componente gastronómica, evidentemente -, mas só muito mais tarde.

Lembro-me de uma vez que eu, mais o Montanhaque e o Molezas, garotos ainda imberbes, fugimos aos velhos, providos de duas latas de atum, uma cebola, um saquinho de plástico com duas pitadas de sal e 5 tomates dos grandes para o almoço, e partimos de bicicleta à descoberta de Valverde del Fresno, (inconscientemente) imbuídos de espírito cooperante. O Montanhaque pedalou numa bicicleta, tipo último modelo antepassado da TT, com volante direito, o Molezas deslizou numa de corrida, levezinha como uma pena e eu, tive de me esforçar a dobrar para os acompanhar na velha pasteleira que roubei ao meu pai e que era pesada como um corno. Escusado será dizer que a amarela não foi minha, mas subi ao pódio na mesma.

Já havia Tratado de Roma, mas nada de Mercado Único, Espaço Schengen, e outras futurices. Vá lá! quer os Guardas Fiscais, quer os Carabineros não nos consideraram perigosos e deixaram-nos passar, contra entrega do Bilhete de Identidade, devolvido à volta. Não podiam eles adivinhar que o objectivo da nossa incursão em terras de Castela era mesmo o contrabando e estava relacionado com motivos “bélicos”: comprar chumbo para a pressão de ar. Para os ludibriar, acondicionariamos as caixas de chumbo junto ao pirilau, bem seguras pelas cuecas, tendo eles visto apenas os caramelos. Uma vitória estrondosa sobre as forças repressivas da liberdade de circulação de pessoas e bens, e da cooperação transfronteiriça. A preocupação no sucesso da missão impediu-nos de pedir um golo de água às autoridades, apesar da sede que nos matava. Daí que logo que saímos da sua vista, atirámo-nos ao primeiro poço que descobrimos. Era estreitinho, não havia burra (picota, cegonha) e a água estava a 1 metro da borda. Valeu uma lata de salsichas velha e dois atacadores atados um ao outro. Confirmada a potabilidade da água segundo o método do cuspo – cuspia-se para a água, se a saliva dispersava, era boa, se permanecia junta, não convinha beber), bebemos sofregamente, não nos importando nada com a cobra que correu a esconder-se no fundo quando nos sentiu.

Dois ou três anos mais tarde, haveria de ser em Valverde del Fresno que eu entraria, pela vez primeira, numa discoteca, daquelas comédado, globo espelhado no centro da pista de dança, música muito alta, fumos, jogos de luzes e... chicas guapissimas. Encostado ao balcão, com ar displicente e uma Aguilla na mão, ninguém desconfiou. O ar do rapaz era o de tipo batido naqueles ambientes. O único problema que havia tinha a ver com o horário de funcionamento da fronteira. Como encerrava entre a meia noite e as 8 da manhã, ou os cooperantes portugueses abandonavam o barulho das luzes por volta das 11 e meia da noite para estarem no rio torto um minuto antes da meia noite – o que, convenhamos, não dava jeito nenhum, sobretudo se a chica guapa também estava interessada na cooperação transfronteiriça – ou, então, só de manhã é que se poderia voltar a pisar território luso. Naquele tempo, sem telemóveis com roaming activado, a maioria dos pais portugueses não compreendiam o alcance da cooperação transfronteiriça.

E eu simpatizava mesmo muito com essa coisa da cooperação transfronteiriça. E tinha pena do meu avô, cuja experiência era bem mais dura do que a minha. “Naquele tempo”, repetia ele, “conhecia eu melhor os caminhos para a Espanha de noite do que agora os conheço de dia”. As histórias dele, no que toca ao tema da cooperação transfronteiriça, eram todas de contrabando, sempre à volta de carregos pesados, de café, sapatos, borracha, de andar toda a noite, à chuva e ao frio, sempre a fugir aos carabineros e aos guardas fiscais que lhes podiam confiscar a mercadoria ,etc, ou seja, a cooperação transfronteiriça do meu avô não incluía nem caramelos nem discotecas, muito menos chicas guapas. Felizmente, as coisas evoluem.

Pioneira nesta modalidade arcaica de cooperação transfronteiriça por via do contrabando era a MariPortas. Sim, uma mulher, dir-se-ia mesmo, uma mulherona. Em portunhol precisar-se-ia: uma mulher de CAFONES. Alta, pernas ligeiramente arqueadas, voz grossa e vocabulário viril, manteve-se sempre solteira mas, consta, com experiência. MariPortas era inseparável do seu cão, apropriadamente baptizado de Fiel, que alimentava a ovos estrelados. Para além da cabrada que pastoreava, Maria Portas dedicava-se igualmente ao contrabando e fazia ver a qualquer homem, no volume e peso do carrego, no andar ligeiro e até nas artes de contornar a vigilância das autoridades. Contam-se duas peripécias.

Um dos estratagemas habitualmente utilizados pela MariPortas era aplicado quando contrabandeava calçado. A “importação” era feita em duas viagens, na primeira só entravam alpargatas do pé esquerdo, completando-se o par na segunda viagem. Na hipótese de ser apanhada numa das vezes, a preocupação de MariPortas era mínima, porque sabia que, em leilão da mercadoria apreendida, só ela poderia estar interessada em comprar 50 alpargatas, todas do mesmo pé.

Outro estratagema igualmente digno de nota, destaca-se pela simplicidade. Mari Portas vinha sempre à frente a bater terreno. Se calhava ser apanhada, coisa rara, armava um espectáculo de gritaria e correria por entre codeços, estevas e azinheiras, obrigando os guardiões da fronteira a mobilizarem-se todos para a encurralarem e confiscarem o carrego. Enquanto ela jogava ao esconder e achar com os guardas fiscais, o grupo que trazia a soldo rodeava o perímetro e escapulia-se em segurança. E que trazia o carrego da MariPortas? Palha.

Esta mulher era de CAFONES.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

A NOSSA COMEDURA - II - ARROZ DO OSSO DA SUÃ

Expliquemo-nos: o osso da suã é a quilha do peito de sua exª, a bacoreza. Quem já abriu um porco não tem dúvidas sobre a sua localização, quem já assistiu a uma abertura, quando por exemplo segura numa parte do tabuleiro para aparar as tripas, facilmente o situa, mas quem não teve estes privilégios precisa de saber o que seja este osso da suã. Não é raro que a malta lhe chame: osso da sevã. Se é verdade a analogia,quase sempre ouvida nas matanças, e que consiste no provérbio: "mata o teu porco e conhecerás o teu corpo", se é verdade esta analogia, dizia, então o osso da suã correstonde ao nosso esterno. Pior! dizem uns. Vamos aos trocos:Já ouvistes falar da lei da simetria? Ainda pior! bradam muitos. Então é assim: os egípcios tinham uma forma característica nas suas forma pictóricas e que deixaram gravadas para a posteridade em túmulos, templos e outros locais em que apresentavam o corpo de perfil e o rosto de frente ou então o rosto de perfil e o corpo de frente. Esta é a regra. Há, no entanto, uma estátua em madeira muito famosa, chamada "O ESCRIBA",que aparece totalmente de frente numa simetria perfeita: Uma linha imaginária que passe pelo nariz, esterno e umbigo divide a imagem em duas partes simetricamente iguais. Aqui está a lei da simetria. O esterno é então aquele osso onde, à frente no nosso corpo as costels entroncam e que assim fecham a cavidade toráxica onde, contente (julgo) bate o nosso coração. Forma assim uma couraça protectora para que o músculo que faz expandir o sangue não seja facilmente agredido.
No porco passa-se o mesmo (salvo seja). Alguns ainda lhe chamam o osso do crescimento exactamente porque é um tanto cartilagíneo, isto é, é menos rijo que os outros ossos das costelas a ponto de, com um pouco de força, um faca vulgar, o cortar. Quando se separa do resto das costelas, então, miga-se grosseiramente com um cutelo ou um machado.
Inicie-se agora a confecção:
Ingredientes: Osso da suã, uma cebola média finamente picada, 3/4 dentes de alho esborrachados, pimentada caseira ou, em alternativa, colorau, um chirrichichi de azeite, duas folhas de louro, arroz, de preferência vaporizado, vinho tinto de uva, água e sal se não se usar pimentada, um ramo de salsa, picante a gosto.
1- Depois de migado, melhor dito, partido aí com uns 5/6 cm de comprimento lançam-se os ossos para uma panela de ferro ou tacho também de ferro. É decisivo que seja de ferro ou, noutra boa hipótese, de barro.
2- deixe-se fritar um pouco ( cerca de 5-10 min.) na sua própria gordura, com o recipiente tapado.O lume não deve ser vivo mas também não pode ser mortiço. Convém vigiar e mexer frequentemente para não colar.
3- Deite-se a cebola picada, deixe-se esturgir um pouco e arreganhe-se com um pouco de água.
4- Quando a cebola estiver bem lourinha, deite-se a salsa mais o alho, o louro, mais um pouco de água e aguarde-se que quase evapore
5-Acrescente-se o vinho; envolva-se bem e deixe puxar um pouco. Verifique se a carne está quase comestível por forma a que quando o arroz cozer ela esteja macia
6 - deite-se a água a ferver necessária para o arroz, ( se usar arroz vaporizado, que indubitavelmente é o indicado, duas vezes e um quarto, chega) o picante se gostar, tempere agora com o azeite -pouco- e o colorau se não usou pimentada. Rectifique temperos.
7- deite-se finalmente o arroz; dê uma boa mexidela e deixe cozer.
8-passados 8 a 10 min., depois de ter levantado fervura, confira-se o paladar, teste-se o arroz a ver se já abriu; se não, aguarde-se mais um pouco, sempre com o recipiente tapado.
9- Deite-se para o recipiente onde se vai servir e ponha-se de imediato na mesa de forma que ainda quase borbulhe. O arroz tem que vir soltinho mas sem ser escorregadio (malandro)
10-quem quiser, pode facultar coentros picados que cada comensal usará como lhe aprouver.
NB. - Pode, nesta confecção de prato, juntar-se o coração migado em cubos. Faz um bom conjunto.
Sempre vos digo que se sair simétrico ao que eu faço, a malta lambe tudo até ao fim.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXXVIII - F(E)CÁ !

Júlio Aspirante ou também Julho Casqueiro, levantava-se à hora de almoço. Quando os outros vinham para casa almoçar, estava Julho a chegar a parelha de burros ao carro, sempre armado de fueiros. Nazaré, sua mulher, andava sempre a duzentos à hora e, se não trazia o cântaro da água à cabeça, certo e sabido que na molídia pousava um caldeiro para o qual apanhava à mão todos os cagalhões de burro que ficassen caídos na estrada:'que eram para os alfobres,'dizia. Duma vez tinham dois porcos a criar. Um era o da matança da casa e outro queriam vendê-lo. Assim, num segundo Sábado de Dezembro - faz agora anos - por esse meio-dia, Nazaré, à frente, com caldeirinho de lata com meia dúzia de grãos de milho e 10 bolotas e Júlio atrás do porquinho, preso com um baraço a uma pata traseira, de giesta na mão - a qual acenava para orientar a caminhada do porco para um lado ou para outro - saem do portão do quintal para ir à lameira tentar vender a nalguda.
Arranca Nazaré abanando o caldeirinho para meter barulho com o milho e com as bolotas: Fcá!,Fcá! Fcá! . E Julho :" rais a palissem, anda lá bonita, anda nalguda! e a porca: "Ronron,ronronronron", bem, uma orquestra afinada. Fcá,fcá,fcá, nalgudanalgudanalguda, ronc,ronc ronc: experimentai fazer tudo ao mesmo tempo e vereis a beleza da orquestração.
O animal sai bem e abanando a nalga lá ia estrada abaixo... Nisto, à curva do adro, aparece a camioneta da carreira (é a camioneta, não é o Toni Carreira) e, como é sabido, na aldeia, apesar de ser aquela que de todo o concelho mais largos tem, o povo está sempre no meio da estrada, a camioneta buzina com toda a força, que o sr. Fernando não era de modos, e "filha da puta! "grita Casqueiro ao ver a porca passar-lhe ao lado assustada com o som da buzina. Julho puxa o baraço mas o cordel rebentou. Nazaré, aflita, corre para a frente da porca e, ao querer fazer mais barulho com os ingredientes do caldeiro, aventou-os e a porca foi rapar para a valeta um resto de erva, mas já ia quase àquilo do velho argentino onde é agora o Branquinho. Julho vai por outro nagalho, Nazaré apanha as bolotas e os bagos do milho e o povo, solidário, habituado que está a estas peripécias, abre os braços e vai enxotando a porca para baixo outra vez na direcção da lameira. Nazaré e Julho praguejam à porfia e com uma cordita de nylon lá vai ele tentar laçar a pata da nalguda.
É preciso dizer que não indo os dois com fato de ver a Deus, enfim, lá levavam uma roupita mais coisa e tal, que sempre iam ao mercado, não é verdade?
A custo Nazaré põe o caldeirinho com a bolota na frente do focinho da nalguda e Julho lá consegue de novo atar a baraça à pata da porca.
Entre praguejos e comentários: «vá lá, vá lá, mesmo assim o homem teve sorte. A porca era mansa! vá lá,vá lá!» ...É neste entrementes que a porca unta o fatinho de Julho Aspirante: " só me faltava mais esta! puta da porca agora cagou-me a farda! raispartamnodiabo! Nazaré ficou para morrer:« já passa da uma e nós aqui. Ainda por cima agora o meu Julho tem que ir mudar de farda. Atão mas há-de vestir o quê? O que está na arca está tudo amarfanhado e outra roupa capaz não tem!» Raisparatamnodiabo! Lá vai ficar a porca mais um mês na furda.»
Nosso Fernando tinha acabado de cortar o cabelo ao chicó-rela e deita os olhos à porca: " eh! Nazarée! nem penses ir a vender a porca hoje ao mercado:« À uma já vais tarde, e à outra ela está barronda. Ninguém ta quer assim. » Nazaré pôs-se logo a fazer contas: " o nosso mercado de Janeiro calha cedo, vá lá vá lá! assim não passam as quatro luas para estar barronda outra vez". Vai logo Nosso Mnel: "porque é que a não chegas? Lévasa ali ao barraco do jaimelgas e aquilo é um instante! Sempre fazes algum com ela. O que está a pedir é mesmo um salto do barraco do Jaimelgas. É mau filho de puta: o gajo chega ao cimo das giestas e chama-o: barraco!barraco! no sei donde é que o cabrão aparece, mas logo se chega a nós a roncar. oh filho do diabo! a porca no sou eu!vai-te lá encostar a quem te fez as orelhas.´Digo-to eu, é mau filho de puta o barraco do jaimelgas. Leva cinquenta paus pelo salto mas aquilo vale a pena. Não falha e se falhar para o mês que vem tornas lá, o porco goza e não pagas nada ao jaimelgas. " E a Nazaré chorosa: "e onde é que tenho os cinquenta mil réis. Ia agora a vender a porquinha para poder comprar a farinha para amassar uns pãezinhos que nem isso há em casa pr'os meus garotos."
Aí é que ninguém apareceu para ajudar a Nazaré e mais o Julho!
Lá voltam, Nazaré , julho e a nalguda para a furda. Tocam de pôr os burros ao carro e, mesmo sem almoço, lá se vão para a Tapada, ele de vara à frente do carro e ela de caldeirinho à cabeça para ir apanhando os cagalhões de burro que fosse encontrando pelo caminho. Haveriam de trazer umas couvitas, cozê-las com um naco de toucinho do porco do ano anterior, comê-las sem pão e sem luz que não fosse a que emanava de dois toros de videira que tinham trazido e toca para a cama que debaixo das mantas está-se quente e poupa-se lenha. Os filhos ficavam ali um pouco mais até ao esmorecer completo da brasa. Depois, cama também, que descer até à Rosa só lhes traria mais frio e outro lume depois não tinham.
Eram outros natais!
Já não há F(e)cás nas aldeias, daqueles criados a vianda. Há uns suínos engordados à pressa na maioria dos casos.
Outros tempos!
Já não há Nazarés de caldeirinho com dez bolotas a meter barulho e a fazer ouvir o F(e)cá!,F(e)cá!, nem há Julhos com parelha de burros. Agora há tractores e rautau-taus, !
Outras paisagens!
Ficam-se as lembranças. É isto a eternidade. As coisas perduram enquanto as lembrarmos. A vida é a relembrança. A rememoração. Os filhos lembram os pais e estes os avós. É isto a eternidade. Não é o céu, nem o inferno nem nada. É apenas a memorização. Apenas!

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Madeiro

Hoje apetece-me ser politicamente incorrecto.

O madeiro é das poucas “tradições”, que ainda mobilizam o povo, que acode em massa a assistir ao desfile nos dias 8 de Dezembro de todos os anos.

Em Penamacor, parece que sentem grande orgulho em ostentar o ceptro de maior madeiro do país, porque mobilizaram meia dúzia de retros, uma dúzia de tractores, uma dúzia de motoserras, para deitarem abaixo uma dúzia de sobreiras.

Nas aldeias, são um pouco mais comedidos, ficam-se pela metade.

Digo eu, sem mais rodeios:

Nos moldes actuais, é praticamente inexistente a ligação deste madeiro ao espírito religioso (e/ou até pagão) original.
Na perspectiva ecológica, é potencialmente um crime.

Sem rodeios nenhuns:

A tradição do madeiro deixou de o ser.

domingo, novembro 27, 2005

A NOSSA CRENDURA -I

Lembrei-me de trazer à mnese algumas crenças, crendices, lengas-lengas, rezas e outras tradições que o tempo vai apagando na inexorável sucessão de dias e noites. " Cada noite páre um dia" e "porque atrás de tempo, tempo vem" a verdade mesmo é que, aos poucos, algumas formas de estar e viver se vão esboroando, ruindo anacronicamente e, ao fim, desaparecendo. Não vamos ser lamechas com uma ideia de um retorno ao passado, ( o sebastianismo é tão típico português!...) mas também não vamos condenar à partida quem tal não merece. Aprendi com Sophia que o decisivo é "ter saudades do futuro" e que, ao contrário de Joaquim de Carvalho, que defende que a saudade é exclusiva do povo luso, no seu Ensaio sobre a Saudade, mais próximo fico do professor Lloyd, que vê também a saudade no gesto feliz de um cão ao abanar o rabo, qual limpa- pára- brisas em dia de chuva intensa, ao ver o dono, mesmo que seja anos passados, como o demonstra claramente o de Ulisses quando, incógnito, pretendia entrar em casa para aquilatar da fidelidade da sua Penélope, vindo da sua Odisseia.
Dizem os nossos companheiros menos novos que" o tempo tudo leva e tudo traz", o que, bem vistas as coisas, não é em absoluto verdade, porque muito do que vai nunca mais volta.
Comecemos por uma lenga lenga:

Sarra madeira
no cu do zé Peneira
lá vem o leão
c'a tranca na mão
feijões p'ra mim
cagalhões p'ra ti

ou estoutra

pipa nova, pipa velha
foi ao mar arrebentou
aqui está meus senhores
quem se cagou

prossigamos com uma oração:

nesta cama me deitei
sete anjos nela achei
três aos pés
quatro à cabeceira
Nª Srª à dianteira
Nª srª m'apareceu
e Nª srª me disse
tu drume e repousa
não tenhas medo
de nenhuma cousa


Mas... baságueda, sem estória, perdia a tarimba. Cá vai ela:
Nosso senhor encontrou-se um dia com o diabo. Rivalizavam entre si acerca de quem era o mais poderoso e o mais esperto. Iam caminhando e chegaram a um chão todo cultivado, onde reverdesciam umas batateiras de " alto lá com elas". Diz Nosso Senhor para o diabo:« Vês aqui esta magnífica plantação?» « Claro» , disse o diabo.
«Então dou-te a escolher : queres ficar com a parte de cima ou com a parte de baixo ?» O diabo vendo a viçosidade das batateiras, floridas e com muitos frutos pendentes, apressou-se: "quero por cima!", Nosso Senhor disse-lhe: «então: está bem. Quando vires que estão capazes, ceifa-as e recolhe-as que eu cá virei buscar o que ficar por debaixo da terra,.» O diabo aguardou mais uns dias, poucos- que a pressa de ganhar o cegava - e ceifou a rama da batata. Nosso Senhor passados dois dias lá apareceu e arrancou as batatas, encheu o forro e comeu durante todo o ano, enquanto o diabo via as folhas a murcharem e os frutos a não ter qualquer utilidade.
Furioso dirige-se a Nº Senhor: "Tu já sabias. Tens que me conceder a desforra. " Nosso Senhor pediu-lhe que escolhesse o que quisesse. O diabo encontrou uma seara já com as espigas pendentes. Disse então: "Vamos apostar sobre esta seara." Nosso Senhor lá o convenceu a esperar um pouco até que acabasse de comer e dirigiram-se para a seara. Chegados ao sítio de onde a seara proporcionava melhor vista - o chamado PENEDO GORDO - o diabo propôs:" vês esta seara? Eu agora quero ficar com a parte de baixo". Nº senhor concordou. Quando o grão já estava grado e bem sazonado, Nº senhor ceifou, levou para a eira, malhou e arrecadou. O diabo esperou mais uns tempos convencido como estava que o fruto agora iria engrossar ainda mais e por fim decidiu-se a arrancar o restolho. Constatou que mais uma vez se tinha enganado. Como não tinha vergonha nenhuma e perder era o que menos queria - a vaidade emerge sempre -,voltou junto de Nº Senhor: "Até aqui foi a brincar, mas a partir de agora é que vai ser a sério. Quem ganhar desta vez é o melhor de nós dois". Nº Senhor, impávido: « escolhe o que quiseres" . O diabo esperou que as árvores florissem, e:" O que primeiro comer um fruto de árvore é o melhor"! As amendoeiras estavam todas floridas, naquele espectáculo magnífico que conhecemos e, logo o diabo: "quero ficar com o fruto daquela árvore" . Nosso Senhor: «Pronto, de acordo»!
O diabo, para aparecer logo com o primeiro fruto e poder cantar vitória, montou cama debaixo da amendoeira e nem de lá saía. Só que, entretanto, Nosso Senhor foi comendo nêsperas, macãs, pêras e o que mais de fruta havia e até oferecia ao diabo, que raivoso, roía as unhas até ao fundo do dedo.
E, já agora, ficais a saber que para sacar carapetos de silva do calcanhar , o melhor que há é unto sem sal. O unto sem sal é enxúdia de galinha doméstica guardado em papel de cartuxo em buraca onde rato não entre.
Para tirar espinhas de chicharro espetadas na garganta, nada que chega a papas de linhaça a ferver onde a pessoa se senta e ao gritar por causa da escaldadela, expulsa a espinha. Outro dia logo vos conto esta história...

quinta-feira, novembro 24, 2005

A NOSSA FALA XXXVII - GIRALDINHA ou GERALDINHA

Riconho era maluco pelos Rolling Stones. Mas não só: adorava uma cantora francesa de nome Sheila.Uma senhora febra! Riconho não se cansava de olhar para a capa do disco onde ela aparecia em todo o esplendor dos seus cabelos negros compridos e uma pele morena de revirar os olhos. Riconho tentava cantar ao desafio com Sheila: Écoute ce disque /et il te dira/que l'amour existe/et je pense à toi./Écoute ce disque/et tu comprendras/que l'amour existe/car je pense à toi. De polaina na mão, enquanto afagava os aros de uma porta - Riconho é carpinteiro - o gira discos passava a Sheila e Riconho arramalhava no seu francês de orelha: Écoute ce disque...
Paralelo no apreço por Mick Jagger e Keith Richard, só mesmo o camarada Licas e Chibeto. Licas acima de todos com o indispensável: «I can get(no) satisfaction.»Impagável o prazer de ouvir Licas a cantar e a dançar este monumento musical. Havia outros artistas na aldeia que um dia poderão vir à liça...
Riconho tinha uma bicicleta que partilhava com 'o nosso Mário'. Aos Domingos um e outro rivalizavam no cabelo com Brylcream e cabelo à Elvis. Apareciam no adro por essas 11 horas. Aí começavam as histórias e a disputa pela liderança da conversa. Engraçado é que nessa altura se tratavam por VOCÊ:
«Cale-se, você é um abre-nó! Errar uma perdiz daquelas que quase lhe cagava na cabeça!!» dizia Riconho;' Nosso Mário não se ficava atrás:"Atão e você?! sentado no barroquinho do Rela, a lebre a dormir-lhe aos pés, armado em otário, vai lá com um gravato a enxotá-la, grita Hei!, manda-lhe dois foguetes e nada! se eu lá não estivesse para a ardulhar, você via-a mas é ir embora! você é um azelha!" Era um prazer apichá-los e nisso tanto eu como Coiote Pete éramos exímios. Era mesmo um gozo!
A malta juntava-se e era risada de arrebentar até ao santo sacrifício da saída da missa. Nessa altura miravam-se as 'chicas' e toca para o almoço.
Invariavelmente Riconho alugava o táxi do Fatela e ia para a giraldinha! (ou geraldinha)
Duma vez foi com toco jabão à Covilhã ver um filme com música dos Rolling Stones, feito num espectáculo ao vivo em Los Angeles e onde ocorreram alguns assassinatos. Tinham sido os Black Angels da segurança privada dos Stones... Riconho que teve que pagar o bilhete ao Tonho Fatela, Tôco, fora o táxi vem pior que estragado:" ganda porcaria de filme! nem uma puta de uma cena erótica, nem uma boa tranca de mulher".
Quase ia perdendo o gosto pelos Ralingstanes, como ele dizia. Pela Sheila é que ele nunca perdeu o gosto: Écoute ce disque....
Outra amiga da giraldinha era Maria Bila. Ia a tudo quanto era excursão: Sra do Incenso, Sra do Bom Sucesso, Santa Luzia, Senhora de Fátima, Santa Maria Adelaide, e o que mais houvesse, Nazaré, Óbidos ou Peniche, Viana do Castelo, Serra da Estrela, tudo. Queria ir sempre nos lugares da frente, e era engraçada quando se apresentava, toda equipada, para mais uma corrida uma viagem: saia comprida reluzente de nódoas, ensebada a ponto de ser impermeável e blusa de chita de manga comprida com três botões no punho, bem vincada, aí com umas quatro linhas de ferro de engomar, boné a preto e branco na pála, escurecido como fora de tanto o pôr e tirar, alpergatas espanholas, que permitiam vislumbrar uns tornozelos encardidos com samarras de negridão, impenetráveis a qualquer doença que pretendesse invadi-la de fora, bolsa de merenda que mais parecia alforge de besta e, claro, uma cabaça de vinho a tiracolo cruzada no ombro por um baraço cuja cor não aparece em nenhum catálogo cromático. Um verdadeiro asseio, esta ti Maribila.
À hora de comer lá puxava ela da sua bolsa e depois de abrir o nagalho que a fechava, metia a mão e sacava-a com um bolo de leite, um pastel de bacalhau, três ou quatro azeitonas, uma talhadita de queijo, punha tudo no colo da saia e: "Eh! cachopos e cachopas, querendens provar da mnha merenda?" Logo uma a repreendia:«rais ta parta Maria. Atão tu misturas tudo dentro da bolsa? olha pra isso,tudo misturado umas coisas com as outras! Aí é que está um preparo! rais ta partissem.» e ela: «Atão?! Cá dentro não há prateleiras, cá fora escusa de as haver» e Eu: "MAINADA"!
Era trabalhada para voltinha esta ti Maribila. Pouco faltava para quase andar tanto na giraldinha como o nosso Riconho.
O pai, o ti Domingos, já desdentado com o queixal de baixo quase a comer o nariz, tanoeiro, punha aduela em pipo, martelava aro, compunha tampo, estancava fenda, bem lhe dizia: «eu no sei que vida há-de ser a tua ...sempre na giraldinha...

sexta-feira, novembro 18, 2005

A NOSSA COMEDURA -I - A MELOREJA

Iniciamos aqui um entremeado na nossa faladura. O homem nem vive só de pão nem só de palavras. Se o pão for bem acompanhado sabe melhor. Embora o povo na sua filosofia bruta diga quando algo lhe ocorre contra os seus desejos que "mais vale pão seco do que tal conduto", bom, bom,é que o pão e o conduto sejam aprazíveis ao paladar e que a sua degustação não sofra quaisquer contratempos. «Que vos faça bom proveito à barriga e ao peito são as contas que eu lhe deito.»
Nesta altura do ano começam as matanças e nada melhor para ensaiar a nossa comedura do que uma boa meloreja. Assim comédado!
A matança tem regras:
1- Determina-se o dia da matança
2- Convidam-se os amigos/familiares e verifica-se se não há empanques por parte de ninguém.
3-Na noite do dia anterior a vítima fica sem comer, por mor de não ter a tripa cheia ao outro dia.
4-Trata-se de preparar todo o apoio logístico: tripa, laranja, algodão, cominhos, tesouras e facas, loiça adequada, lenha com fartura, alho sal, pimentão do bom, azeite do melhor, tábuas de migar a carne, tabuleiro para as tripas ou até alguma carne, aventais...
5- Cedinho, por essas sete ou antes chegam-se os homens junto ao local da matança
6-O lume já está aceso e um pucheiro com aguardente desmanchada com água e açúcar amarelo já começa a circular para matar o bicho, metem-se as botas na ala, esfregam-se as mãos e
7- Prepara-se uma corda para atar o animal por uma pata
8 - O dono salta para a furda e "nalguda! oh nalguda!!" coça-lhe o samarro e tenta por bons modos enfiar a laçada da corda numa das patas traseiras do bicho
9 - A bem ou a mal o porco/a lá deixa os aposentos e é conduzido até junto da banca
10- Tomba-se o animal, o matador aperta-lhe o focinho com um baraço, sobe-se para banca,lava-se a barbela com água quente, limpa- se com um pano, ata- -se bem à banca quando não até a uma árvore que esteja perto,os homens põem-se a postos um agarrados aos presuntos outro às mãos, o matador faz o sinal da cruz, abre a matadeira e pica o desgraçado, aparece o alguidar com sal e uma mão sempre a mexer o sangue que cai, vão tirando algumas farropas de coalho de sangue,o porco grunhe até dar as últimas.
11- Desapertam-se cordas e baraços, vai mais uma rodada de aguardente desmanchada e doce e
12 - antigamente com colomo de palha, agora com maçarico ,chamusca-se a preceito evitando queimar as mãos de quem raspa. São vários os utensílios usados, desde facas velhas até chapas de lata,ou mesmo as unhas das mãos.Tiram-se as unhas ao quadrúpede e inicia-se a lavagem com água quente.
13 - Quando já branquinho de todo faz-se o cu, e o picho se for macho, ata-se com um baraço,abrem-se os nervos, mete-se o chambaril e ala
14-Pendura-se o animal,limpa-se bem limpinho
15 - Embrulha-se rapidamente uma talhada de queijo fresco e quatro azeitonas retalhadas, uma dentada de pão e limpa-se o esófago com um tinto do novo apanhado do espicho de esteva e
16 - Inicia-se a abertura do ventre, aparam-se as tripas para o tabuleiro e enquanto o matador vai separando as peças e um vai à procura de duas sovinas pra deixar as banhas suspensas, dois ou três homens deitam-se à separação das tripas, ajuizando da sua qualidade.Há sempre algodões prontos para alguma fatalidade
17 - Sobe-se o caldeiro suspenso das cadeias, põem-se as trempes do lume, a meloreja é rapidamente migada e começa a cozer dentro da caçola ou de uma sertã de duas asas; batatas com casca são postas a cozer em panela de ferro.

18 - Aí vai a receita:

deita-se para a sertã aí obra de 2dl de azeite e logo a carne, esmagam-se alhos,tiram-se-lhes os grelos e atiram-se para a sertã, vai- se mexendo com colher de pau até a carne ficar meia frita, duas folhas de loureiro bem lavadinhas,picante a gosto,pimentada caseira se houver, rega-se com água, sempre a pouco e pouco,já que carne deve ficar entre o frito e o cozido, prova-se, rectificam-se temperos, e quando estiver quase pronta, um bom meio litro de vinho tinto para a confecção mexendo sempre, tiram-se as batatas do lume, descascam-se ou pelam-se, chama-se o povo para a mesa, despeja-se a sertã para um barranhão, parte-se pão com fartura põem-se as batatas em travessa e, cada um com seu garfo,pica na carne e molha a batata no molho e toca a comer. Não raro aparece um esparregado de nabo para dar o verde ao prato.O vinho é sempre a encher até o barranhão ficar limpo.
A seguir pode-se alindar esta classe de cozinhado com um prato de sopa de couve traçada e massa da grossa em puré de feijão encarnado, um arrozinho de osso da suã, fígado e soventre, sempre com azeitona retalhada e culmina com um galo ou um coelho bem guizado. Para sobremesa um arroz doce, pudim de ovos, tigeladas, e no fim um café e um bagaço do rijo para arrebater.
Às 11 os homens estão despachados e bem comidos e "ala para o sol".

quarta-feira, novembro 16, 2005

A NOSSA FALA XXXVI - CATANOS M'A CHAPÉREM

Ti Domingos Feduchas era um “engenhocas”. Deitava a mão a tudo: pingo em caldeiro roto, meias solas em bota gasta, remendo em agueira de telhado, enxertia de carapiteiro em pêra marmela, mergulho de videira, ilhó em cabresto, portado em capoeira, capador e matador de porcos, corte de cabelo, construção de carros de bois... Foi aliás um destes que lhe abalou a reputação: meteu-se a conceber e a construir um carro de bois dentro do palheiro, com rodas de pau revestidas a aro metálico e tudo, mas só no fim é que deu conta que não cabia na porta. O povo, quando soube, riu-se muito e, claro, teve choradela de Entrudo.

Era tempo de castanhas e a mulher, Ti Angélica Chamiça, entretinha-se a morsegar as martainhas que tinha comprado naquela manhã, enquanto Ti Domingos ajeitava o borralho. Avaliando oportuna a hora, lançou:
- Ó Domingos, atão sempre vamos a Lesboa ao casamento da filha da afilhada ó não? Já só faltam 15 dias e temos de dar uma resposta à rapariga. Tamém parece mal no irmos no encontras tu?

Ti Domingos Feduchas era avesso a viagens. A filha que tinha na França muito insistia para ele lá ir, mas ele, "está quieto!", "vinde cá vós se querendeis". Não sentia necessidades de sair do seu mundo onde tudo dominava. Era um verdadeiro homem do campo. Bastas vezes, quando chovia, calçava as galochas, agarrava no guarda-chuva de pastor e passeava pelos campos, sem destino, só para ouvir a água a cair e sentir o cheiro da terra molhada. Ele conhecia os caminhos como ninguém, sabia de cor a quem pertenciam todos os bocadinhos. Admirava os que os apresentavam arranjadinhos, reprovava o desleixo e o abandono. Claro que nenhum se comparava ao seu chão da quelha funda, à sua vinha da raivosa ou à sua horta na saramaga. As suas oliveiras e árvores de fruto apresentavam-se sempre devidamente limpas, a vinha exemplarmente podada e escavachada, a horta alinhada a régua e esquadro, com a ajuda de dois ferros e um baraço. Na agricultura, mandava ele hóstias. E no resto, que viesse o primeiro, mesmo apesar da história do carro de bois. Agora, tinha de ir a Lisboa, “rai's parta o diabo”. O vivo ficava entregue ao irmão, ficava bem entregue.

No dia anterior à partida, deu uma volta por todos os prédios, inspeccionando tudo demoradamente, como se se despedisse deles por muito tempo. Ti Angélica passou o dia atarefada a encher 4 cestos de verga com repolhos coração de boi, azeitonas carrasquenhas retalhadas, adoçadas à pressa à custa de uns escaldões, queijos de cabra, enchidos vários saídos do azeite, garrafas de jeropiga, figos secos, nozes, frascos de tomatada e de pimentada, malgas de marmelada nova, alhos, cebolas, ovos, pão e bicas de azeite cozidas no forno das traseiras. Já noitinha, ao Ti Domingos coube coser a serapilheira que tapava os cestos com guita e agulha de albardeiro. Foi nessa altura que Ti Angélica se lembrou que não sabiam a hora da camioneta. Aflita, corre Lagariça abaixo, sem mesmo se assustar com a botelha em forma de cara e uma vela acesa lá dentro que os garotos tinham pendurado numa oliveira. Estava tudo escuro e silencioso, mas ela não deixou de bater enquanto não lhe responderam do lado de dentro.
- Ó Rosa, atão a qu' horas é que passa a camineta das seis pa CastéBranco?

Como era de prever, Ti Domingos não se deu muito bem na capital da Nação, encafuado nas 4 assoalhadas do 10º andar frente, onde a afilhada morava em Odivelas. Custaram-lhe a passar aqueles 4 dias.
Na última noite, à ceia, descaiu-se para o afilhado que nunca tinha visto o mar. No dia seguinte, cedinho, foi conduzido ao Guincho. Embasbacado perante a imensidão, Ti Domingos Feduchas, homem simples, homem do rural profundo, soltou:
- CATANOS M'A CHAPÉREM! Já tinha ouvisto dezer qu’era grande, mas no fiz que fosse tanto.
O afilhado ficou-se de lado a apreciar, divertido, a expressão de espanto do padrinho, por isso não estava à espera que mesmo ali Ti Domingos Feduchas fizesse a sua análise de “engenheiro”:
- Ó Chico, o mar é bonito é poi! E grande com’á puta qu’o pariu…mas, o qu´ê gostava de ver era o paredão que aguenta tanta água.

quarta-feira, novembro 09, 2005

A NOSSA FALA XXXV - ÃIÃ

O café da Rosa é uma instituição. É ela a única que ainda mantém a traça original. Havia outros, mas a gadanha da morte já os ceifou : O Fatela, onde por estes tempos de chuva se jogava o fito e a raioula, o Chico Miguel, com talho ao lado e pocinho estreito e fundo com cesta presa por corda onde se refrescavam sumos cerveja e vinho ao natural - uma delícia -, O Zé Rolo, onde a Ti Maria Labouxa fazia jeropiga com laranjada Prazeres, açúcar amarelo e groselha, - uma purga - , o Zé Júlio com loja atrás para a troca dos taleigos e o Zé Cavalheiro que todas as semanas ia a Penamacor buscar a mistela para conceber um vinho branco que era a causa de muitas caganeiras do povo. Vá lá que a ribeira estava perto....
A Rosa também não foi sempre assim: Quando o Zé Augusto e a Rosa juntaram os trapinhos aquilo era uma casa em derrocada mais parecendo um palheiro. Ainda ajudei a subir as vigas lá para cima. Havia uma divisória que primeiro serviu de barbearia - o Zé Augusto foi ainda barbeiro - e depois funcionava como tasca com mesa de matraquilhos onde Tonho Branquinho, para além de se ufanar das suas capacidades pedreirísticas arreliava tudo e todos com os seus golos à cagadinha. A Rosa arranjava por lá uns petiscos de se lhe tirar o chapéu: lebres com couve, coelho bravo com batata cozida, meloreja, nacos de carne na caçola com entremeada e entrecosto à mistura e colorau com fartura, rolas estufadas, perdiz guizada, e o que mais houvesse! Eram poucos os dias em que, de Verão, eu jantava em casa.
Podia trazer aqui muitas histórias que se passaram dum e doutro lado do café/tasca da Rosa. Aí vai uma: Certa vez, um sábado, era para aí meio da manhã, um viajante todo bem posto entra na Rosa e« arranje-me um garoto se faz favor». A Rosa saíu, demorou-se um instante e sai-se com esta:« Desculpe lá mas agora não há por aqui nenhum; só está ali o meu, mas está a fazer os trabalhos da escola» . O homem começou a rir, a Rosa não achou piada: " ora o filho dum filho dum filho do diabo, hein! Não queria ele agora que o meu Zé Mnel deixasse de fazer as coisas da escola para o vir a aturar! Não queria ele mainada! Era só o que faltava! ÃIÃ!
«É assim mesmo Rosa! Uma mulher quer-se com génio! » diz o Tonho Pedro, alfaiate, que àquela hora já tinha enfardado aí umas dez ginjas com aguardente. «É preciso ter descaramento, um gajo que a gente não conhece a pedir para lhe arranjares um garoto! ÃIÃ! Eu mandava-o logo para a real grande puta que o pariu!»
É lugar comum dizer-se que a água lava tudo menos a má língua. Eu concordo. Só por isso, e não quero ser má língua, me atrevo a contar uma outra história ocorrida nesse fabuloso café da Rosa. Devo mesmo confessar, em abono da verdade, que em tempos não ainda muito afastados, não havia café mais saboroso que o da ti Rosa.Era um café marca ZULU. Acima de excelente. Mas como tudo o que é bom tem um fim rápido, também esse café desapareceu. Ainda bem que a Rosa não.
Aí vai a estória: a mulher do velho Melro chega ainda quase noite (embora fosse já madrugada) a casa de ter ido tratar do 'vivo' e encontra a filha Mariana toda nua na cozinha a tirar um prato de sopa da panela de ferro pendurada nas cadeias.«Atão que preparos são esses? Já não tens roupa para te vestires?» "Ai mãe, logo vossemocê apareceu; mas sabe: isto é o fato do amor!"(Esclareça-se que Mariana se tinha casado dois dias antes e por não ter ainda arrumada a casa para onde ia viver com o Amândio Solipa, tinha ficado a viver na casa da mãe, que naquele tempo não havia lua de mel).
A mulher do Melro apesar de tudo acabou por ter gostado de ter visto a filha como já havia muito não a via e até cogitou:« é jeitosa a minha filha! Não admira que dê que fazer ao Amândio!Bem bonda eu que nunca me apresentei assim ao meu Melro.»
A imagem e a frase da filha tornaram -se uma cisma para ela.Não lhe saía da cabeça aquela beleza de corpo e vieram-lhe uns apetites que há muito já não tinha e uma vontade enorme de naquela noite se encostar ao Melro que, coitado, também já tinha mudado a pena e devia ver mal que não reparava nela senão para lhe ralhar.
Rumina, rumina e decide-se.
Nessa noite a Mariana e o genro iam jantar à casa dos compadres e deviam vir tarde. O Melro andava à jorna, chegava cedo, comia alguma coisa e 'ala que se faz tarde! cama!'.
Até se arrepiava de ser capaz de fazer o que em todo o dia tinha andado a pensar.
Quando lhe pareceu que eram horas de o Melro chegar, ateou o lume, pôs lenha de calipo seca para a casa ficar bem quente e toca a despir. Só ficou com uns chanatos por mor do sobrado que lhe arreganhava a sola do pé.
O Melro chegou, subiu as escadas e dá de trombas com a mulher naqueles preparos:"tás maluca ou quê? Vai-te a vestir, dianho!Olha se por aí chega alguém! Rais a afundem!" E ela: «Sabes,Melro, hoje de manhã agarrei a nossa Mariana assim incourinha , chamei-a à atenção e ela : "ò mãe, tu não vês que isto é o fato do amor?"»Solta o Melro um som de chateado e sai-se:"Se querias apresentar o teu fato do amor devias tê-lo passado antes a ferro".
Esmoreceram os apetites da velha e só soube desabafar: ÃIÃ!

domingo, outubro 23, 2005

A NOSSA FALA XXXIV - ENGONÇO

Agora namora-se às claras. Dantes, nem pensar! O arrastamento da asa era coisa, não raro, tumultuosa: ele era o recado ao ouvido no baile da garagem do Cavalheiro, o encontro furtivo no chafariz, a piscadela de olho à saída da missa do dia, aos domingos, as combinações em carta metida no meio de livros de uma amiga confidente e concordante, um piropo recatado, mas com alguma provocação, o fazer parte do mesmo rancho no tempo da colheita da azeitona, alguns bailes particulares na garagem ou loja de uma que tivesse os pais em França e assim não haver empanques, algum magusto na encosta da serra ali para os lados do João Ratão e da Carochinha, enfim...que sei eu?

A oficialização do namoro ocorria quando o senhor prior lia os banhos do alto do altar: " D. Maria Cândida Peixota, filha de uma burra e neta de uma porca, quer contrair matrimónio com o senhor João Feijão, filho dum burro e neto dum cão. Se alguém souber de algum impedimento contra este dois animais, um leva a albarda outro leva os atafais, e é para esses que eu falo, deve declará-lo com juramento" .

Os menos atingidos pela pobreza compravam os banhos (ou pregões) e esses só tinham os editais colados com farinha amassada na porta da igreja, antes do guarda-vento. Tempos!

As primeiras amostras públicas do par de namorados, ele com uma camisa branca TV, com os punhos virados e colarinho de palmo, em bico pronunciado, um colete justo onde brilhava uma corrente que segurava no bolso pequenino um relógio marca Comboio e ela de casaco e saia beges, camisa de lantejoulas, meias de vidro cor creme e sapato também ele pardo, só depois da benção paterna. Era vê-los - estrada abaixo, estrada acima, ela com os braços cruzados, um olhar de soslaio de vez em quando e ele, corta unhas marca Trim, made in USA, girando freneticamente em torno do indicador, preso como estava a uma pequenina corrente de bolinhas e a outra mão no bolso. O sapato reluzia - . De mão dada só quando iam a casa dos padrinhos a levar o arroz doce e uma bandeja com bolos de leite, esquecidos, borrachões e uns cascuréis (=coscorões), para além de umas cavacas e um bolo de buraco, de noz ou amêndoa, não raro ainda quentinho,já quase em vésperas de casamento. Nessa altura já iam ao lusco fusco sem guarda nupcial (irmã ou irmão mais novo da noiva) e, claro, ao virar da esquina ele puxava-a e, PIMBA! espetava-lhe uma beijoca na cara. «Vê se tens modos», dizia ela.

Antes deste ponto, porém, tinha havido o clássico pedido: "ao que venho, venho, oh! que digo, digo, venho dizer à menina, se quer casar comigo". Era assim. A mãe dela era a primeira a saber das intenções do magarefe e preparava o pai: "Ó Chico, olha ca nossa Rosa quer cá trazer o Tonho da sarmaga; parece que o cachopo lhe falou bem e ela não está fora. Vê lá tu quando é que ela to pode cá trazer". E o pai «já tiraste inculcas do moço? Ele não é filho além do Faz Nada?» E a mãe: "Faz nada, não, que tem oito filhos!" E o pai: «A modos que ainda comem lá em casa em mesa de engonço e se alumeiam a candeeiro de sessenta luzes! A ti Catrina, a mãe, coitada, nunca tem nada para pôr na mesa que o Faz Nada não lhe dá troco. Tira lá isso a limpo e depois diz que pode cá vir aí no sábado à noite.» (Esclareça-se desde já: a mesa de engonço eram os joelhos e o candeeiro de sessenta luzes era uma pinha acesa).

Lá apareceu o Tonho. Bateu à porta. "Entre quem é". Descobriu-se o Tonho,subiu para a soleira da porta, uma mão no peito e a outra a segurar o chapéu: «Vossemocê dá-me licença, ti Chico? Boa Noite nos dê Deus! « "Entra lá Tonho. Podes pôr o chapéu na cabeça que o telhado não tem cocas» "Com sua licença. " «Senta-te aí nesse trapesso enquanto eu vou por uma pchorra de vinho. Não me demoro nada»

Entretanto Ti Deolinda e a Rosa chegaram. 'Boa noite' ! disseram quase em uníssono.

Tonho olhava de soslaio a Rosa, a mãe interpôs-se entre ambos, o silêncio era cemiterial.

Ti Chico surge da loja com o vinho: «Parece que meto medo! Tudo tão calado. Eh! cachopa, chega aqui dois copos e põe aí uma azeitonas, ao menos.»

A Rosa adiantou-se: "sabe, pai eu e o Tonho"...; «És tu que o pedes a ele ou é ele a ti?» Aí o Tonho afoitou-se: «Pois é, ti Chico, eu gosto da sua Rosa e, a meu ver , ela gosta de mim. Se Vossemocê não vê mal nisso eu queria-a namorar!» " Toma tento no que te digo: só tenho esta filha. Quando ela nasceu eu já sabia que não podia ficar com ela. Se ela quer ir contigo que vá, mas se algum dia a tratares mal ou a enganares e eu souber, é melhor desapareceres pra sítio onde nem o diabo te encontre. Entendeste? " «Sim senhor, ti Chico. Fique vossemocê descansado. !» "Bom: namoras às quartas e aos sábados, aqui em casa, à noite, até serem horas de cama e aos Domingos podeis passear por sítios onde toda a gente vos veja, que eu não quero cá maledicências." « Sim senhor ti Chico!»

"Bebe o copo, anda! " Tonho tremia... deu um golo no copo.

«Eu sei que sou mais pobre, já acabei a tropa e vou outra vez pra marcenaria a ver se arranjo uns patacos...»

«Isso é bom! Com o tempo logo se vê. Eu ódepoi logo vejo se merece a pena ajudar-te. Primeiro tens que saber o que custa a vida. Eu vou-me à cama. A Deolinda quando entender que vá lá a ter!»

E foi assim.

A casa da Rosa já tinha luz eléctrica. Estavam a pensar comprar uma televisão. O Tonho já a tinha visto na tropa. A Rosa fora um dia à casa do Chico Sarapião, regedor ao tempo, e toda a noite sonhou com aquilo: os retratos mexiam-se, iam e vinham, falavam como as pessoas, até parecia que era verdade!

Aquilo sim , ruminava o Tonho! não há cinza e não é preciso estar sempre a mudar de pinha como lá na casa da mãe. Não era preciso atear a ala nem acender pavio com palito feito de esteva seca, quando, às vezes, se acendia a candeia de petróleo. E a mais, não cheirava! Dizia de si para si : «ele há coisas dum filho da puta!»

Mais espantado ficou ainda quando a Rosa se levantou e foi buscar um gravador de fita: um FIDELITY, rebobinou a fita com a patilha, pressionou a alavanca de início, e, baixinho, que o ti Chico já ressonava, começaram a ouvir Joselito em : el pequeño roxinol. O Tonho não queria crer! Levantou-se a remirar.

«Ó Rosa vê lá se o teu pai ao Domingo precisar de ajuda lá na fazenda, eu não sei muito, mas vou-o a ajudar.» " Eu precuro-lhe," disse a Rosa.

Pouco mais disseram. Ali estavam a ouvir a música, a ver o lume, essa companhia muda, a olharem-se, lá sorriam um para o outro, estalava-lhes o coração, a ti Deolinda escabeceava, mas um estalo da lenha de pinho acordou-a e pronto!

«Vá, por hoje chega! vamos à deita.»

O Tonho deu as boas noites, uma manzada à Rosa e aí vem: 'Até têm uma mesa de vidro com um pé ao meio! E cadeiras de encosto! Assim não é preciso a gente estar curvada de cabeça para baixo para levar a comida da mesa de engonço até à boca. Se calhar também não comem só caldo de couves como lá na casa da minha mãe. Bem se lembrava ele da história que o abrutalhado do pai quase sempre contava: "Ó Arnaldo, queres caldo? Não que me escaldo! Eu antes queria pão, mas como o como se não mo dão?"

Eu não sabia que era assim a casa da Rosa!

O amor não aumentou, porque já não podia ser mais.

Nessa noite o Tonho, quando se espojou na enxerga de palha de milho, jurou:' Quando eu me casar com a Rosa já hei-de ter uma mesa de castanho com quatro patas e seis cadeiras de encosto e um espelho para pôr na parede! Rais ma partam se não hei-de. Não hadem fazer mangação de mim. E a canalha que eu tiver nunca há-de comer só caldo e menos ainda na mesa de engonço. Se não tiver luz eléctrica hei-de arranjar um petromax que até de noite se hadem ver as espinhas ao peixe miúdo. Olarila!

Dormiu-se assim !