segunda-feira, março 03, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXXI - CHARRINCA

Hoje deu-me para aqui. Quero a vossa cabeça a aquecer.  A ver se não charrinca quando for preciso pensar na vida a sério. E já faltou mais! Há que preparar. Senão depois, enferrujados como estamos charrincamos por todo o lado e não damos carreira direita. A ver se gostais desta prosa:
Vivemos num tempo em que quase não há tempo para ter tempo. Apesar das velocidades que a tecnologia nos possibilita a verdade é que passamos grande parte da nossa vida a protestar que não temos tempo.
Por isso vivemos num tempo sem tempo. A característica mor deste tempo é a efemeridade. Tudo é efémero e descartável: pessoas, situações, objectos, … Já nada é como era e a própria memória, essa nobre faculdade humana, está hoje tão empobrecida e esquecida que já não é estimulada.
Trocamos a memorização e a recordação pelo registo em artefactos.
O futuro será de Alzheimer a não ser que se arrepie caminho e voltemos a accionar a nossa faculdade de evocar e reconhecer.
Até parece – perdoe-se a delação - que  o novo acordo ortográfico também alinha por este diapasão: tiram tanta letra que desconfiguram o português e a nossa língua deixa de ser novilatina para ser novimulticultural. Perde a sua identidade e a sua vernaculidade. Penso que isto é também consequência deste tempo sem tempo: quantos menos letras escrevermos, mais depressa escrevemos e assim ganhamos o tempo que não temos e nos falta. Triste solução.
Por isso, aparecer neste tempo quem recuse o fast thinking, com a mesma veemência que eu recuso o fast food, alguém que parou para pensar, que não se afligiu em parecer fora de tempo, em ser desalinhado face à grande maioria, que come em pé e não saboreia calmamente a refeição, é tão estranho que até destoa.
É mesmo necessário parar para pensar! Exercitar aquela que é a dimensão mais elevada do ser humano: a sua capacidade de criar, de romper com o estabelecido, de desobedecer ao status quo, de subverter o dogma, de propor ousadias e de nos convidar a nós próprios também a exercitar o nosso pensamento.
O tempo hoje nem é local nem global: é glocal, e o facto de as coisas que não sabemos serem muitas mais do que as que sabemos, não nos deve preocupar sobremaneira. Afinal estamos, hoje por hoje, sempre mais perto do erro, da falibilidade, do que da segurança e da estabilidade. Já nada está certo a não ser a insegurança, ela mesma. Mais que nunca o velho efésio tinha razão: panta rei. Tudo flui, tudo passa naquela fugacidade do instante eterno. Estamos muito num agora e pouco num aqui.
A indefinição do espaço e a ausência de fronteira obriga-nos a um nova concepção do limite. Afinal vivemos no limite sem contornos, no ilimitado.
É assim que se entende que cada vez que dou uma volta e volto ao ponto de origem, já não volto como saí. O não-eu fichteano desnorteia o eu e a inconsciência sobrepõe-se ao consciente, nesta efemeridade permanente, em que o que é, é o que não é. 
O que é, é apenas o que é nosso:  a subjectividade de cada momento é que revitaliza a objectividade do que acontece.
Estamos longe das coordenadas cartesianas em que tudo tinha um quadrante e o ponto era entendível nesse espaço; «Já nada sói como soía», pregava, faz tempo, o nosso zarolho.
A educação, ela própria, esse motor que impulsiona o progresso, vive o dilema de ficar para trás a empurrar para a frente. Esta nova realidade surge tão relampejante que ofusca o simples observador e, imperioso é que tenhamos a necessária competência para releituras desta realidade que nos ultrapassa e à educação.
O passo é maior que a perna.
Já nada é paradigmático, único, fechado, sistémico. Temos que aprender a aprender e limparmos as nossas leituras, pejadas de viciações, que já não se enquadram nas padronizações em que enraizamos o nosso saber.
O mundo, hoje por hoje, é da mobilidade, da alterabilidade, do movediço, do polémico. Não mais uma razão arquitectónica , alicerçada em fundamentos tidos como inabaláveis.
Os dogmas são rebatidos e já nada é sagrado, tudo é, a cada momento, profanado.
É aqui que entra, impante, a necessidade de uma ética mínima.
Na nova educação não pode haver pretensões ao “no meu tempo é que era”.
Os valores mais tradicionais entraram também em decadência e é indispensável uma nova escatologia axiológica.
Estamos numa nova dimensão da ética: não já a fixa deontologia do chinês de Konigsberg, menos ainda o oportunismo utilitarista de Mill, que não dava carreira direita no que à felicidade dizia respeito, mas numa ética de outra dimensão, virada para os tempos hodiernos, com fulcro no homem e no seu tempo, numa idiossincrasia com o ambiente e percorrendo todos os campos da sua actividade, acentuando o enfoque numa educação ética, que proponha uma educação para os valores e para a cidadania, pois só esta, enfim, possibilitará a almejada felicidade ao homem, perante as mudanças produzidas pela sociedade actual.
Tempos outros foram aqueles que proporcionaram as éticas do equilíbrio, da ponderação, da temperança, da aurea mediocritas… Os de hoje têm inimigos muitos, desde o egoísmo, muitas vezes camuflado num altruísmo reversível, em que o gene egoísta nunca desaparece, ao relativismo cultural que, hipocritamente, diz que cada cultura deve ser respeitada nos seus valores, mas quer sempre impor os seus, renegando-se a si próprio e aos outros, caindo num individualismo que pode levar a uma total perversão do que deve ser a compostura humana e humanitária.
Vamos então situar o homem perante uma charneira onde nada está fechado e tudo está em aberto.
A contemporaneidade é acidental relativamente ao tempo, mas é essencial para a assumpção da condição humana no tempo.
A necessidade educativa e/ou ética parte das exigências de compromisso do sujeito responsável e activo em estar presente no presente, que, no fundo, é um tempo caracterizado pelas ideias e crises, pela globalização, pela informatização, pela ruptura e avanços das tecnologias nas diferentes áreas do saber.
Num tempo em que o homem tem dificuldade em segurar o presente a dimensão ética adquire foros de necessidade premente, não com pressupostos valorativos impostos, mas antes, como propostas que sejam vivenciais e atractivas, visando a obtenção da felicidade que se busca.
A epistemologia desvia-se para a ética e os cientistas quase emergem como novos deuses e o saber arrisca-se a arrastar-se para uma crise axiológica que mais não é do que uma crise antropológica.
A questão agrava-se se confirmarmos que vivemos numa sociedade de informação, quando a questão mais premente é se essa informação é boa e, mais ainda se os cidadãos estão e são bem informados.
É que, tanta informação torna-se em desinformação e o que se transmite pode resvalar para os não valores e o homem acaba por desaparecer no meio da massa, no interior do sistema.
É por isso que mais ressalta e emerge a importância do papel da escola para que o homem não desapareça.
Entramos numa nova era que abriu os campos do desespero como diz Toffler e não há alternativa senão que
“ é obrigatório falar de uma ética mínima, entendendo por ética o espaço de procura e articulação de formas válidas de convivências, e, por mínima, o conjunto de valores comuns a todos os homens e culturas.”
Volvamos ao começo para que o norte não nos fuja! Neste tempo de mudanças contínuas, não cabe já falar de uma profissão mas de profissões e a ética das profissões acarreta a responsabilidade de arcar com a missão de ser o pontífice entre a tradição do constante com a alterabilidade do contemporâneo, satisfazendo as cada vez mais sucessivas especialidades formativas que a sociedade exige.
Basta ver que, paradoxalmente, a sociedade da comunicação convida a que se trabalhe em casa, que cada um “case” com a sua máquina, que produza no isolamento.
Singular paradoxo!
Morin tem vindo a recuperar para a ribalta as ciências humanas e sociais e, mais radicalmente ainda, Bourdieu assinala o decisivo papel do homem, já que é dele que tudo parte e a ele tudo retorna – o inultrapassável mito do eterno retorno, -  mas agora numa dialéctica fermentada num campus de forças, que acrescenta sempre novidades, como Husserl exigia na alteração da posição radical.
Talvez não seja asneira colocarmo-nos off-side e metermos muito do que temos crido até agora entre parêntesis, para que lixiviados de crenças que reputamos de bem fundamentadas, não nos confrontemos com a simples constatação de Gettier: afinal o relógio do tempo que sempre bateu as horas certas e me servia de fuso para as minhas tarefas, naquele dia, avariou e eu cheguei tarde ao trabalho…
Cartesius queria a ordem, mas, ao que parece, mais vale a entropia. A boa ordem, não é a ordem do racionalismo, mas a do humanismo e esta nunca é igual e, mais importante que seguir um método que não se renova, melhor será uma aparente ausência de metodismo, jogando numa abertura a novidades que permitam transformar o método em plano e assim admitir, e até aconselhar, alterações ao momento, enfrentando as realidades com novas epistemologias e novas diálises.
Os jovens de hoje gravitam na era da tecla, do click, do instante, do eficaz, do empréstimo, do importa e do exporta, do actualizar e reformular, do formatar, não estão muito para se encharcar com informação despicienda, desde os sistemas das serras até às linhas de comboio e afluentes das duas margens dos rios.
Eles sabem -  e quanto eles sabem que os outros não sabem! -, eles sabem tirar do caos a ordem de que necessitam. Não é preciso forçar! Está-lhes na massa do sangue: a inteligência racional casada com a inteligência artificial dá campo vasto de manobra para as novas ciências cognitivas.
Não queiram, pois os velhos do Restelo querer andar para a frente a olhar para o retrovisor.

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

A NOSSA FALADURA - CCXX - (T)CHIADEIRA / (T)CHIADÊRA

Eram vários os ganhões na terra xêndrica. Era famosa a junta do ti mné Guerra com duas vacas valentes - a mimosa e a mourisca- amarelinhas como o oiro, sempre luzidias e garbosas, sinal de bom trato. Seu irmão Domingos rivalizava com ele, mas, cá para mim, junta valente era a do Vigura, composta por dois animais possantes - a rosada e a bonita - mansos como a terra, pachorrentas mas como uma força conjunta quase inimaginável para duas vacas. Vigura carregava sempre mais que a medida e elas correspondiam. Embora trouxesse sempre a vara com o aguilhão a verdade é que nunca lha vi usar. Era mais bruto ele do que propriamente as vacas, sobretudo quando bebia. Num domingo na tasca da Rosa em disputa com Cabo Vermelho, mordeu-o com tal raiva que lhe arrancou o brinco da orelha esquerda e ainda teve tempo para cuspir para o chão parte do lábio inferior do desditado Cabo Vermelho. Foi meu pai que entregou ao bombeiro que chegou na ambulância os dois bocados de carne: o brinco da orelha e o lábio. Cabo Vermelho acabou por ficar inteiro porque lhe coseram os dois bocados. Vigura, esse acabou por ser morto com uma gadanha quando escavacava a porta de Carradas com um machado, com intenção de o matar. Carradas saltou pela janela das traseiras, agarrou na gadanha e ceifou literalmente o Vigura. Estória macabra...
Famosa era também a junta do Alberto Vaz, que era composta por um boi inteiro e uma vaca. Era sempre ele que moía a azeitona no pio do lagar da lameira. Gostava tanto ou mais de vinho do que o Vigura.
Havia ainda mais ganhões mas a parelha já não era composta por vacas. Ou era uma burra e uma vitela ou mesmo dois burros. Lembro-me do Júlio Aspirante, do Tonho Labouxa, do Alberto Rogante, do Zé Luís Barata, do Mné Chquim Labouxa, do Puta Maluca, do Passa Culpas, do Julho Sardones e mais não sei quantos. Os ganhões faziam de tudo na agrícola onde fosse precisa a força animal. Trabalhavam de sol a sol, uma jeira, e tanto lavravam como transportavam fosse os moios de pão no Verão, as dornas de uvas em Setembro, ou lenha para o lagar, areia da ribeira para pequenas obras, bem como pedra, toradas, traves, caibro, enfim, tudo.
Outros, tinham uma carroça e uma besta para a puxar e com ela também lavravam e transportavam. Cavalo só havia o do Raposo, casado com Bandeira de Guerra e mula também só a do Ti Zé Rolo.
As rodas dos carros eram envoltas em ferro na oficina de outro grande artista: o ti Mné Ferreiro. Homem muito reservado, poucos lhe ouviam a voz, calmo,  muito ponderado e com uma habilidade fora do comum. Construiu sozinho um sem número de relógios de torre de igreja, refazia relógios de bolso de peças múltiplas. Ainda tenho um com o mostrador marca Combóio. O ferro era aplicado na estrutura de madeira das rodas aquecendo-o em fogueira grande até ao rubro e depois arrefecido e cravado. Vi-lhe meter vários.
Num dia em que tocava o fole da forja para enrubescer a hulha em troca de o Ti Mné Ferreiro me aguçar o meu espeta , apareceu o Puta Maluca com a sua parelha de burros atrelada ao carro: « Ó ti Mnel, tire-me lá esta tchiadêra das rodas. A minha anda-me a atentar o tino a dizer que é uma vergonha». Mné Ferreiro riu-se e caladinhamente, chega-se a cada uma das rodas, saca a cuba do eixo, unta tudo muito bem com massa consistente e volta a meter as rodas. Puta Maluca ficou especado a olhar . Pagou cinco mil réis, coisa pouca, e lá se vai com os burros a puxar o tiró do carro todo contente porque já não ia tornar a ouvir o ranço da mulher.
Depois lá calhou a vez do meu espeta ser aguçado. Fui logo experimentá-lo no alcatrão da estrada: uma beleza! enterrava-se que era um encanto. Agora já podia vir para o largo do Batoco e limpar os adversários que já tinham o ferro do espeta motcho. Fiz um figurão.
XXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAANNNDDDDDEEE

terça-feira, fevereiro 04, 2014

A NOSSA FALADURA - CCIX - CAÇULHO

É lugar comum que nas aldeias as pessoas sejam mais conhecidas pelas alcunhas do que propriamente pelos nomes ou apelidos. Há mesmo alguns muito engraçados. Por muitos levantamentos que se façam nunca se consegue uma lista exaustiva e, menos ainda, da origem, ou sequer da justificação para essa alcunha.
Dou alguns exemplos: mama na burra, mija a parede, caga e torce, borra botas, papa arroz, alfácea, olho de lata,... Trago-vos hoje duas alcunhas de um casal para as quais não vislumbro a mínima justificação.
Maria TchanTchan Três e Dois são Cinco era casada com Mnel Tendeirinho. A casa onde,  mais ela do que ele, moravam ficava no alto da lagariça, ali no beco do Belorico, quando se vira no gaveto do Balão. Casa térrea de uma única divisão onde tudo se fazia: lareira, comida, dormida..., tudo. Tinham uma filha. Tendeirinho passava a maior parte do tempo em Lisboa. Vivia em Campolide no Bairro da Serafina, num tugúrio miserável, trabalhava como servente de pedreiro. Ganhava pouco e pouco mandava para Maria TchanTchan. Ambos analfabetos, nem por carta comunicavam. Tendeirinho vinha uma vez ou duas por ano à terra xêndrica e por pouco tempo. Nunca gozou férias. Tchan Tchan ia fazendo uns jornais na sacha do milho, na sementeira da batata, na plantação do eucalipto, na apanha da azeitona. A filha ia sempre com ela para todo o lado. O dinheiro não o conhecia. Viviam uma vida miserável. Pouco sociáveis, passavam a maior parte dos dias no casebre e era muito raro vê-las naquilo a que se chama O POVO. Tinham uma pequena horta, à renda, ali para os lados da quelha funda, onde cultivavam o pouco que comiam. Tendeirinho quando vinha, levava o que podia e que não podia ser muito, porque tinha que carregar com tudo às costas desde a estação de Campolide e era sempre a subir até à sua palhota. Tal como Tchan Tchan, também era muito reservado e mesmo os xendros que viviam perto dele chegavam a não o ver durante meses. Quando queria que Tchan Tchan lhe enviasse algum cesto com batata, cebola, alho, feijão e o mais que a terra dava, Tendeirinho dirigia-se à estação dos correios e fazia aquilo que se chamava, à época, (e não há assim tanto tempo como pode parecer) uma chamada de aviso. Consistia esta via de comunicação em o requerente pagar para que o titular do posto de telefone de destino fosse avisar o destinatário da chamada no prazo máximo de duas horas. À hora aprazada chegava, então, a ligação da estação de origem e a pessoa podia falar com quem desejava, num qualquer posto público. Estes postos públicos tinham uma cabina para a qual havia uma extensão telefónica a partir da qual os clientes falavam. A privacidade era nula, porque, em regra, essas cabinas estavam tão empenadas que as portas, quando as tinham, nunca fechavam. Era na loja dos meus pais que estava o posto público. Lembro-me uma vez ter recebido uma chamada de aviso para senhora Maria de Oliveira Martins, moradora na rua da Lagariça. Começo a indagar quem seria e nem mesmo o carteiro sabia quem era. Por exclusão de partes lá cheguei à conclusão de que seria a Maria Tchan Tchan Três e Dois são Cinco, tanto mais que a estação de proveniência era a de Campolide. Tchan Tchan estava na horta e lá fui eu de bicicleta a avisá-la. Chegou à hora e quando lhe digo para se dirigir à cabina, Maria nem sequer levanta o auscultador e começa ainda   distante «Quem é que quer falar comigo? És tu Mnel? Diz lá o que queres...» Bem, a cena dispensa comentários...Tive que a meter dentro da cabina, pôr-lhe o auscultador nos ouvidos, mas mesmo assim falava tão alto que era fácil perceber a conversa. O Tendeirinho pedia-que lhe mandasse cebolas e couves e alguma farinheira fresca que ela conseguisse arranjar. Maria sai-se então com esta: «Num te posso mandar as couves porque inda estão verdes como um caçulho»
Foi risada geral entre todos quantos estavam na loja. Já não se sabe o mais que Tendeirinho lhe pediu mas ela lá foi no dia seguinte a despachar o cesto com o pedido. Fui eu que lhe escrevi a tabuleta.
Esclareça-se, uma vez sem exemplo, que o caçulho popular é o carçulo, planta herbácea que cresce nas paredes e que tem uma folha carnuda, muito igual na forma à do nenúfar e que independentemente da chuva cair ou não se mantém permanentemente verde. A flor surge na ponta de um caule também muito semelhante ao da floração do cacto AloéVera. Só que em ponto muito mais pequeno, é claro.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

A NOSSA FALADURA - CCVIII - ATA(LA)MANCADO

Os portugueses são exímios a atamancar. Por regra deixam tudo para a véspera do limite final e, depois, lá se vão desenrascando. Mas de forma atalamancada. Respiram de alívio e logo esquecem os tremores por que passaram e voltam a adiar a cabal resolução do problema até que de novo se sintam premidos pela urgência.
Participei, já lá vão anos num Fórum sobre personalidade base, inconsciente colectivo e padrões de cultura, que são, no fundo a matriz comportamental de um qualquer povo. Um dos parceiros do painel estabeleceu uma comparação muito sui generis entre os portugueses e os alemães da qual não mais me esqueci. Do seu ponto de vista os portugueses eram espertos mas menos inteligentes enquanto os alemães eram inteligentes mas pouco espertos. Assentava esta tese num argumento que pode parecer e até ser uma falácia mas que não deixa de ser curioso: os portugueses começam a rir-se mito antes de um qualquer entretainer acabar um anedota enquanto se houvesse um ouvinte alemão teria que esperar pelo fim, desvendar onde estava o absurdo e só então se riria procurando também compreender por que raio o português se começou a rir tão antes do fim do chiste. Os portugueses andam pela rama, os alemães vão à raíz.
Não vem ao caso debatermos a asserção mas do que não há dúvida é que eles planeiam e nós passamos a vida a remendar. Muitas vezes de forma atamancada e é por isso que, a breve trecho, torna a ficar tudo atalamancado.
Veja-se o que se passa na (des?)governação deste rectângulo. O país todos os anos arde mas já alguém se preocupou em fazer um planeamento adequado para uma correcta reflorestação das áreas ardidas? Esporadicamente lá vão tomando medidas avulsas que pouco ou nada solucionam já que não são medidas isoladas e desenquadradas. Passam o tempo a remediar e quase nunca a solucionar. Atamancam tudo, é o que é. Podíamos estender a nossa análise à Educação (lançamento de programas totalmente ad hoc sem qualquer aferição prévia que pudesse validar e fiabilizar a sua implementação); podíamos estender à Saúde onde medidas mais impostas do que respostas vão liquidando o SNS); ao Trabalho e Solidariedade Social com intenções malévolas de tudo pretender privatizar... Tudo atamancamentos.
Bem... mas o âmbito do nosso Basa não é o do comentário político para não nos pormos também a atalamancar.
Voltando à base: inquestionável é que o português se tiver um alicate e um arame resolve quase tudo. Mainada!
João Manel - o Salazar - era assim uma espécie do Vai-a -todas sem perceber de nenhuma. Vi-lhe fazer pretensos sapatos, forrar tectos a ripa, pintar, rebocar, aparelhar pedra, fazer parede (construiu sozinho a sua própria casa ), lançar foguetes, elaborar bombas artesanais para pesca clandestina, pôr tachas em navalhas, soldar, aplicar gatos em pratos e travessas de porcelana, remendar panelas de ferro rotas, lixar e aparelhar carros, arranjar motorizadas, desenrascar muitos aflitos com problemas eléctricos variados, mas foi sobretudo como animador de arraiais de festas populares com a sua aparelhagem meio artesanal, meio profissional e como leiloeiro das oferendas que mais se distinguiu. Para além, é claro, de ser um campeão de gamar tudo o que lhe pudesse ser vantajoso: desde bilhas de gás até pregos, chumbos para pressões de ar, fios eléctricos, ferramentas várias, discos, e sei lá que mais...
Também é verdade que passou por ser autor de muitos roubos dos quais estava inocente. 
Com maior ou menor capacidade ele lá ia atamancando tudo e era relativamente chamado para os diferentes serviços. Com o que ele não queria nada era com a agricultura. Bem bradava com ele a mãe, a velha Natcha (Maria Inácia, de nome próprio) para a ir ajudar a semear batatas ou a regar a horta... Vai lá vai!...
O certo é que lá ia governando a vida umas vezes mais atamancadamente outras nem tanto. Perdi-lhe o rasto depois que se casou. Conheci-lhe uma casota no alto da Buraca feita com material que ia recolhendo no lixo e que transportava às costas. E está bem de ver: como ferramenta apenas um alicate e muito arame. Será que anda por lá?
XXXIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNDDEE.

sexta-feira, dezembro 27, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVII - ATALAMOCADO /ATALAMOUQUEDO

Não há povoação onde não haja um atalamocado. Normalmente vítima da mangação popular o atalamouquedo é normalmente brando de costumes e, se algumas vezes se enfurece, breve lhe passa, tanto mais que, se se mete com a canalha, acaba por perceber, apesar da sua relativa lentidão raciocinante, que fica sempre a perder. Era assim com Daniel, que não sendo um xendro, pois era cuco, passava a maior pare do tempo em terra xêndrica. Bastava que um garoto o visse para que, de repente, Daniel tivesse um cortejo de futebolista famoso a conceder autógrafos, a atazanar-lhe o tino. A princípio, corria contra o provocador, mas, a breve trecho, limitava-se a ameaças mais ou menos barulhentas e a acenos de cabeça, prometendo vingança próxima e ajuste de contas quando apanhasse algum sozinho.
Somos mesmo assim: quanto mais desgraçada for uma pessoa, mais a desgraçamos, achincalhando-a, numa espécie de valentia fálica, demonstrativa de algum poder. O cérebro humano mais primitivo é mesmo o reptiliano. Os mais velhos, às vezes, assistindo a cenas destas, lá iam admoestando a canalha, mas, ao mesmo tempo, riam-se a bandeiras despregadas com as patifarias a que assistiam e até faziam disso motivo de conversa, avaliando a esperteza da canalha. 
Figura típica da comunidade xêndrica, era Mné Gaguela: sempre agarrado à sua bengala, meio corcunda, muito gostava de se sentar no baturel do Chico ou do Fatela, puxar do livro de folhas Toro, procurar a onça de tabaco Duque e despejar o tabaquinho com  muito cuidado para que nada se desperdiçasse  na folha semicurva, arrecadava a onça e, com arte mais que muita, apertava o tabaco na mortalha, enrolava-o na ponta da unha, lambia-a no sentido do comprimento e segurava o cigarro no canto da boca, não sem antes ter humedecido toda a superfície labial com a língua a parecer um pincel. Puxava, então, da tocha, uma espécie de torcida feita com desperdícios, riscava um vidro na cabeça de um prego espetado numa tabuinha, baforava um pouco e aí estava a mecha a fumegar com que acendia a ponta do cigarro. Dava uma chupadela forte, soprava o fumo, traçava a perna, encostava-se à parede e regalava-se de prazer. De vez em quando lá vinha uma cuspidela mais forte, provocada por algum tabaco que se desprendia da mortalha, uma tosse de esgana, mas nada que impedisse o sublimado prazer duma valente fumarada. Gaguela também era meio atalamocado, mas tinha partes que demonstravam que no fim é que se via quem ria melhor. Nunca aventava as beonas: apagava-as cuidadosamente e com o bico de uma navalha, abria-a e despejava os restos não queimados para uma caixa de fósforos vazia. Assim fazia a reciclagem do tabaco.
Numa tarde de S.Bartolomeu assisti a uma cena com Gaguela: Um xendro que tinha vindo à festa do orago, para provocar o Gaguela, pôs-lhe à frente uma moeda de dez e outra de vinte cinco, perguntando ao Gaguela qual queria. Gaguela, lesto: quero a grande! Deu-lhe a moeda e foi a rir-se do Gaguela para um grupo próximo, todo pavão a contar a sua proeza. Outro, não acreditando fez o mesmo e o mesmo fez Gaguela. Acabou por ter ficado com cinco escudos enquanto todos se riam. Fui ter com Gaguela e disse-lhe:« O Mnel, então não vês que a moeda de vinte tostões, apesar de mais pequena, vale mais do dobro do que a de dez tostões que é muito maior?» E o Gaguela: "Tu num vês que assim já cá moram cinco mil réis. Se tivesse tirado a pequena só ficava com metade porque eles já não me tentavam outra vez". Bati-lhe com a mão no ombro e comentei: embrulha e manda para a tulha.
Gaguela não guardava só as suas beonas. Na ponta da bengala tinha um prego espetado na lateral com que apanhava outras pontas de cigarro que encontrasse no caminho. Principalmente as que fossem, como ele dizia" com cu de cortiça"=(filtro). Assim não tinha que se baixar para as apanhar. Às vezes, os atalamouquedos ensinam-nos muito.
Fazem-me lembrar um grande pensamento: Porque é que o mar é grande?- Porque é humilde! Não se importa de ficar a um nível abaixo dos rios.
O melhor 2014 para todos.
XXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIGGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAANNNNNDDDDDEEEEEEEEE

quarta-feira, dezembro 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CCVI - PAFONSO /PALONSO

Joãozinho Palufo era assim uma espécie de unto sem sal: não empurrava nem fazia força, não estava nem fazia míngua, não pinava nem saía de cima. Para os que não saibam o unto sem sal resumia-se a enxúdia de galinha velha, liberta de película, batida em tábua com martelo também ele de madeira, até fazer uma papa, que depois se embrulhava num papel de cartucho, daqueles onde antigamente se pesava o açúcar, o arroz, a massa e demais mercearia a retalho, e tinha utilidades várias. A mim, duma vez que espetei um carapeto de silva no calcanhar do pé esquerdo, que infectou, a minha avó aplicou-me o unto sem sal, fez um atilho com um trapo velho, mas limpo em volta do tornozelo e calcanhar e o facto é que o unto "puxou" o carapeto, sugou o pus da inflamação e deixou-me o pé com pele de bebé. Mainada!  Sem dor e absolutamente inócuo.
Palufo era um palonso: andar ligeirinho, passinho curto, meneava o corpo esguio, mãos sempre entrelaçadas, salvo se transportasse alguma coisa. Era o moço de recados da casa Bargão. Aviava tudo e dava bem conta do recado: mercearia, bacalhau, chita, carros de linha, media vinho e azeite a quem queria comprar na casa da Lameira, ia aos correios, registava cartas, escrevia cartas a muita gente que não sabia escrever e cantava como muito tenor com disco gravado nunca seria capaz. A sua voz era límpida e sonora, suave e bem timbrada, sempre afinado e obedecendo com rigor ao ritmo e aos momentos de entrada. Era mesmo um regalo ouvi-lo e agora que o Natal se aproxima, era por ele que a maioria seguia, já que Rosa Rei ia sempre adiantada e Albertina Molhana ia sempre atrasada. Não só cantava limpidamente, como falava de forma irrepreensível. 
As más línguas difamavam Palufo, mas nunca se vislumbrou a mínima situação  que pudesse dar azo a que pudessem ser confirmados comportamentos de que era suspeito...
Nada pior que cair na bocas do mundo.O povo tem sempre gente que espalha qualquer evento de uma forma mais rápida do que labareda em pasto de panojo no fim do Verão. Palufo sabia tudo o que se passava  na aldeia. Era sempre dos primeiros a noticiar qualquer acontecimento e quer Tecla quer Irene Paca ou Chicorrela, quais arautos régios, perdiam quase sempre para ele.
Ainda assim Palufo não difamava. Contava o que ouvia, mas não emitia opinião. Não era o que se poderia chamar de malino, como as linguareiras referenciadas.
Não sei se uma vez vos falei já do chamado mal radical. A doutrina é do "chinês de Konisgberg", como Nietzsche lhe chamou, o eminente Kant, e resume-se à tese de que, de sua natureza, o homem é velhaco. Por isso se impõe uma lei moral que o trave na sua natural tendência para o mal. Como se vê é doutrina no antípoda do velho Sócrates, que pregava que só ignorante do Bem fazia o Mal. Aqueles que soubessem o que era o Bem, nunca praticariam o mal. O problema do Mal é assunto mais que polémico e não é nestas pobres crónicas do Basa que ele pode ser escalpelado. Adianta-se ainda uma outra perspectiva. Foi uma querela dos Universais, bizantinices com que os medievais se entretinham  e também os modernos posteriormente, até que chegou à actualidade e foi reavivado, e de que maneira, por essa grande pensadora que foi Hannah Arendt, a aluna dilecta do filósofo da Floresta Negra, Martin Heidegger. Na verdade era um problema sério porque chocava com a crença dogmática de que Deus tudo tinha criado. Mas só por absurdo é que se poderia admitir que Deus tivesse criado o Mal. Seria absolutamente contra natura que tal possibilidade fosse admissível. Como apareceu então o Mal e se impôs que fossem necessários os Mandamentos e as leis morais? Só podia existir uma causa: o homem , ele mesmo. Defendia-se que Deus só podia criar a Perfeição, de acordo aliás, com a sua própria essência: de uma causa perfeita não podia sair o que quer que fosse imperfeito. Mas não se podia negar a existência do Mal e isto chocava com a defesa de que Deus tudo tinha criado. Argumentou-se então que Deus agiu na Perfeição: criou o homem livre, o que muito mais perfeito do que se o tivesse criado condicionado como aos outros seres da natureza que não têm possibilidade de optar por decidir responsavelmente entre várias opções. Estão condicionados ao que a natureza lhes confere e ponto final. O homem, esse, é incondicionadamente livre e absolutamente responsável pelas suas acções. Ele pode decidir  praticar o Mal em detrimento do Bem, apesar de o conhecer. Foi infinitamente mais perfeito que Deus tivesse criado o homem livre do que condicionado, possibilitando-lhe mesmo que o pudesse ofender, que pudesse defender apostasias e cometer sacrilégios. Assim, Deus deixava de ser o criador do mal e a responsabilidade da sua prática recaía totalmente sobre o homem. Só existe o Mal porque existe o homem.
Palufo nunca emitiu parecer sobre esta temática.
Bom Natal.!
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quarta-feira, novembro 27, 2013

A NOSSA FALADURA - CCV - CASCOREL

Já por várias vezes aqui falamos da lei do menor esforço. O povo não se incomoda muito com o perfeccionismo da pronúncia de algumas palavras. Com facilidade altera os fonemas e refaz uma palavra. É   o que se passa aqui: a palavra correcta é coscorão, mas, como facilmente se depreende esta palavra não beneficia de um som atraente. Não admira que, a breve trecho, o coscorão passasse a cascorel. Da mesma forma, por exemplo que apologista passa a ser apugilista e barbecue aparece como borrocu e por aí fora.
Einstein dizia que era mais fácil desintegrar um átomo do que desfazer um preconceito. Similarmente, George Washington não se coibiu de dizer que mais que uma segunda natureza, o hábito vale dez vezes a natureza. Se o hábito resulta da repetição da mesma acção conferindo a quem o adquire uma certa semiconsciência do que está a fazer, num automatismo negligente que, por vezes nos arrelia. Como estamos habituados a ir sempre pelo mesmo caminho para casa ou para o trabalho, esquecemos muitas vezes de cumprir uma outra tarefa que apenas implicaria um ligeiro desvio.
O preconceito, por sua vez, é um juízo valorativo de sentido negativo, neutro ou positivo a propósito de uma situação, objecto, espaço ou pessoa, normalmente muito mal fundamentado e aceite de ânimo leve, muito difícil de anular, ou simplesmente, alterar.Ficamos convencidos de que as coisas são assim e não podem ser de outra maneira diferente. Insistimos na opinião mal fundamentada e até nos batemos por ela. Se alguém nos contraria, limitamo-nos a dizer: fica com a tua que eu fico com a minha. Facto é que, transformamos uma mera opinião em certeza dogmática.
Tal como o povo adapta e se adapta a pronunciação defeituosa, também nós nos acomodamos às nossas convicções e persistimos nelas teimosamente. É outro mal dos tempos correntes: a opinionite.
Pirolas era assim. Agarrado às suas crenças, ficava impenetrável a quem quer que, mesmo que lhe demonstrasse o erro em que incorria à evidência, tentasse contrariá-lo. Por causa deste seu feitio já poucos lhe davam trela e se lha davam, era mais porque Pirolas tinha a pipa ali à mão e, como que a conquistar um aliado para a sua maneira de ver, levava-o a beber um copito, enquanto ia defendendo muitas vezes o indefensável. Teimava a bom teimar que os americanos nunca por nunca tinham pousado na lua. Aquilo que apareceu na televisão era uma pantomina como a dos bonecos animados e faziam de conta que era verdade. Aquilo era tudo uma aldrabice pegada, mas a ele, não passavam eles a perna. Vai lá vai. A base da sua tese era tão simples quanto isto: se eles lá poisassem caíam cá para baixo. Mais teimosos que ele só mesmo os aristotélicos a quem Galileu mostrou que a lua era acidentada, que Vénus tinha fases, que Júpiter tinha satélites. Eles viam, confrontavam-se com a evidência, mas como o mestre tinha dito que os céus eram incorruptíveis, nada havia que pudesse beliscar essa incorruptibilidade.
Mas, volvamos aos nossos coscorões, digo, cascoréis.
Como já há muito tempo que não vos deixo uma receita, aí vai: preparai todos os ingredientes: obra de meio quilo de farinha, quatro ovos, meia caneca de azeite, um cálice de aguardente, raspa e sumo de uma laranja,mais ou menos dez pacotinhos de açúcar e um  chirrichichi de sal. Bate-se tudo junto com uma vareta: os quatro ovos, o azeite, o meio kg da farinha, a aguardente, o sumo e a raspa da laranja e o acúcar, até ficar uma massa relativamente consistente. Se for preciso pode deitar-se um pouco de água. Depois de tudo bem amassado, deixa-se repousar durante umas duas horas após o que numa mesa polvilhada com farinha se amassa bem a massa de modo a se desprender completamente dos dedos. Em caso de necessidade polvilha-se com farinha. Estende-se com o rolo da massa, até à espessura de 2mm e com uma faca ou um carrinho rendilhado, fazem-se rectângulos de tamanho a gosto e cortam-se no espaço interior com duas feridas. Leva-se a fritar em óleo bem quente dos dois lados e polvilha-se, ainda quente, com uma mistura de açúcar com canela. Arrefinfa-se com café de borra.
O Natal está a chegar e nada como ensaiar.
Pode ser que ainda vos visite antes da missa do galo.
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domingo, novembro 17, 2013

CCIV - A NOSSA FALADURA - ABRE-NÓ

General Mola era o apelido de um cabo da G.N.R. reformado. Homem alto, espadaúdo, não dava passos mas chancas.Calçava para aí um 46, tanto que nunca encontrou sapatos à medida do seu pé. Zé Guerrilhas era o sapateiro que lhe fazia o calçado e por mais de uma vez lhe ouvi dizer que o general podia dormir empinado. Sua companheira dilecta era Leca, uma cadela já quase sem dentes, que o acompanhava nas suas deambulações de caçador. Quase nada caçava, mas fartava-se de espalhar chumbo. Chamavam-no de Abre-Nó  devido a esta azelhice. Coiote Pete, bardina e malino como era, apanhou uma lebre com malina, trouxe-a viva para casa e combinou com Chquim Parricho e João Petrol convidarem o General Mola para ir com eles à caça. O velho desconfiou da oferta  mas perante os argumentos de Coiote lá se decidiu ir com eles. Parricho tinha ido para a frente e prendeu a lebre ao toro de uma videira com um arame. A lebre, adoentada, não se tinha de pé e até parecia que estava na cama. Depois de umas voltas e de já terem morto um coelho que ofereceram ao General para, garboso, o trazer pendurado à cintura, lá o foram levando até à lebre e Coiote: «Oh Sr. Flor, olhe além uma lebre na cama!» Onde? perguntou o General. Com calma e de voz baixa sempre a fazer a parte, lá lhe foram dando as indicações até que Mola vê a lebre. "Atire-lhe um foguete à cabeça, força!". Mola deu uns passos em frente e nem deu conta que Coiote e os outros se piravam. Atirou e a lebre ainda mandou um escrito e caiu inerte. Mola chama Leca e lá vão até à lebre Quando se baixa para a apanhar e a começa a puxar é que se deu conta da marotice de Coiote. Solta uns indizíveis impropérios e, creio que se os visse lhes atirava. Eles, longe, riam a bom rir e claro, vieram para os xendros a contar a peripécia. Do mal o menos, General ainda matou um coelho naquele dia e atravessou a aldeia com os dois à cintura. Não perdeu tudo.
Todos nos rimos das misérias dos outros e muito poucas vezes cumprimos a chamada regra de oiro da moral: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti", ou, muito simplesmente: "põe-te no lugar do  outro".
Podemos dizer que a grande disputa entre as teses mais difundidas da moral - a deontológica e a utilitarista - diferem logo no ponto de partida. A primeira é  apriorista, o seja é anterior e independente da experiência ao mesmo tempo que lhe garante a universalidade, formalista na sua essência e o dever impõe-se pela representação de uma lei que deriva de uma máxima. O princípio subjectivo do querer  a máxima - transforma-se numa lei e portanto abandona a subjectividade para se tornar objectiva. Como qualquer lei. Não se preocupa com as consequências e o valor da acção está na simples formulação: age de tal modo que a máxima da tua vontade se possa transformar em qualquer circunstância em lei universal". É, portanto, uma moral pura e ninguém pode ser culpado se a intenção da sua acção puder ser por cada um vista como a única alternativa: aquilo que eu faço é aquilo que qualquer outro faria na minha situação. A outra, a utilitarista, é consequencialista, portanto "a posteriori" e o valor da acção depende do bem estar da maioria, da felicidade da maior parte. É, por isso uma moral eminentemente subjectiva, interesseira e facciosa .
No caso do nosso General Mola e da partida que lhe fez Coiote Pete está bem de ver que se situa nesta segunda. Somos mesmo tentados a dizer que nesta corrente da moralidade se invertem os pólos: o que deve ser feito é aquilo que se não deve fazer. Não se infira daqui que a moral deontológica está livre de críticas justas também elas, mas que não vem ao caso aqui aprofundar.
Mas, já que andamos neste âmbito da acção humana é preciso não esquecer que há muitas outras morais: hedonista, cínica, estóica, ambiental, da responsabilidade, até dos direitos dos animais...Queria no entanto deixar aqui a necessidade de todos convergirmos para uma ética mínima, seja em que circunstância for, até mesmo na forma como tratamos o nosso corpo: será dever moral, por exemplo, tatuarmos parte ou a sua totalidade? roer as unhas? agredi-lo sob diversas formas, por exemplo no boxe? e por aí fora.
E ficamos por aqui. Em breve voltaremos.
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quinta-feira, outubro 24, 2013

A NOSSA FALADURA - CCIII - TANGANHO

Menina Aguércia era a única filha de três irmãos. Chquim Pardalinho, magro, fumador inveterado de Provisórios, casou em Espanha com D. Rema, na altura beleza excelsa, vencedora de concurso de beleza em Cáceres, que lhe deu três filhos e que ainda hoje por cá gravita. Pardalinho, explicador de matemática, mais que famoso na década de 70 do seculo passado, voz grossa e tonitroante, de pedagogia à bordoada, mas, o que era facto, era que nunca lhe faltavam clientes. Os pais gostavam de gente rija que obrigasse a rapaziada a aprender, custasse o que custasse, e a bordoada era de borla.
Tinha sempre sala cheia e os resultados iam provando a eficácia da sua metodologia.
As más línguas diziam que só tinha um testículo, mas isso não o impedia de demonstrar a sua testosterona.
O terceiro membro da família era o dr João António Landeiro, conhecido em todo o concelho por ser o médico do cura ou mata. Tendo uma casa bem no centro da aldeia, ele e Aguércia, passavam a maior parte do tempo para os lados do Ferrador, numa quinta abastada, bem perto das oliveiras de Melão.
O Dr Landeiro era conhecido pelo seu Peugeot 404, verde: quando ele apitava ao cimo de aldeia mesmo junto à casa do professor José Tanganho, (vedeta que um dia destes aqui vos trarei ), e depois a dar vistas para a casa do Sarapião, toda a gente gritava: ARREDA;ARREDA, que vem aí o maluco do Landeiro. E era verdade.
Apenas duas pessoas afastavam o povo xêndrico da estrada: o dr. Landeiro com o seu Peugeot 404 e o entretanto falecido e homenageado Padre Zé Pedro, no seu fabuloso Ânglia cinzento. Os outros tinham que esperar que o povo se decidisse a ir para os largos. Vai lá vai!...
Foi com Aguércia que ouvi falar pela primeira vez de arroz de manjericão. Ela tinha ido a Portalegre e comeu arroz de manjericão com cação frito. Trouxe umas polas da dita erva e tratava-as divinamente. Por mais de uma vez me convidou a provar aquela delícia.
As mamas caíam-lhe até abaixo do umbigo - que ela não usava soutien - e, não raro, quando se baixava para medir azeite ou tirar azeitonas da talha para vender,as mamas saíam-lhe pelo decote, fenómeno que a arreliava a ponto de displicentemente as aventar para trás das costas a praguejar.
Pareciam dois melões flácidos...
Só vinha à aldeia aos Domingos para assistir à missa: tinha cadeira privativa à esquerda de quem entrava na Igreja, sempre reluzente, com almofada no genuflectório e no apoio dos braços e assento dobrável, também almofadado. Um privilégio que poucos tinham.
Quando ela levantava a voz, tudo ficava em sentido, que a estridência do esganiçado assustava quem quer que fosse.
O mesmo se passava com Pardalinho que não sabia falar, mas apenas ralhar.
Aguércia saía da quinta do Ferrador por volta das 10, não gostava de bengala ou bordão, mas apoiava-se sempre num tanganho que, dizia, sempre lhe dava para matar alguma cobra que se lhe atravessasse ao caminho ou até para dar alguma bordoada nalgum garoto mais atrevido que lhe reclamasse uma amostra das mamas avultadas que sobressaíam volumosas da blusa. Aí afinava, esganiçava a voz e os garotos desapareciam não fosse a mãe aparecer e terem o merecido castigo.
Era ecologista a menina Aguércia: tratava de tudo na quinta sem qualquer fertilizante e tinha um jardim de ervas digno de qualquer ervanária. Sabia o nome e os efeitos de cada uma:  fel da terra, néveda, manjericão, mantrastes, manjerico, pimpinela, segurelha, sarpão, louro, manjerona, alecrim, alfazema, orégãos, poejos, bolsa do pastor, que sei eu...
À entrada da casa tinha sempre dois vasos de vergamota com que se perfumava por debaixo dos sovacos, aspergindo-se com uns raminhos da dita. Ainda, por mais de uma vez me explicou as virtudes de cada uma. Já as perdi... E é pena que este saber, vai-se.
Isto tudo faz-me lembrar aqueles que defendem que o senso comum é para desprezar! Qual quê?! O saber de senso comum, se bem que seja superficial, empírico, mal fundamentado, tradicional, conservador, subjectivo e muito mais, é a base de todo o saber. Afinal, todos os outros assentam  neste saber de experiência feito, que permite a um bosquímane sobreviver no deserto, enquanto um biólogo morre de sede se não for provido de água. O senso comum é primário mas, por isso mesmo, é a raíz de todos os outros saberes. Podemos viver sem conhecer leis científicas, doutrinas filosóficas, estilos estéticos e por aí fora, mas nunca sem senso comum.
E mais: o seu primo bom senso também dá muito jeito.
Por causa deste bom senso é que entendo que já vos massacrei com tanta palavra balofa e por isso me despeço...
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terça-feira, outubro 08, 2013

A NOSSA FALADURA - CCII - REDOLHA /RODOLHA

Ritinha Penedo era mesmo o que se podia chamar de redolha: pequenina mas bem feita com tudo no sítio, proporcional ao tamanho. Podia dizer-se mesmo que era bastante jeitosa e que não era pela estatura que não despertava atenção. A única coisa que tinha desmesurada era a língua. Esfarrapava em tudo e em todos e ai de quem lhe caísse na análise. Virava tudo de pantanas e, por isso, poucos eram  os que privavam com ela. Não admira que tenha ficado para tia. Eu, como tinha que periodicamente ir abastecer a casa de gás, tinha que tirar parte da manhã para ouvir umas lavagens de roupa suja a propósito de situações e pessoas da aldeia xêndrica. Era a vida !
Tal como um presidente da República conhecido, nunca tinha dúvidas e sabia sempre tudo. Mais ainda: conhecia todas as causas. Não afirmava nada sem fundamentar numa causa. Nem que fosse a mais estapafúrdia, a convicção com asseverava era tal que fazia parecer verdade o inverosímil. Quando não havia causas na Terra, subia ao céu e invocava divindades em seu auxílio. Era em vão que alguém a desdissesse.A consequência era que caía nas suas más graças e não tardava que a espezinhasse com a sua língua viperina. Da mesma forma tecia os mais alto louvores para os que lhe diziam AMEN e anuíam a tudo o que dissesse. A forma que eu tinha de me libertar daqueles massacres era estar sempre de acordo. Não valia a pena discutir com espíritos herméticos.
Para rodolha não estava nada mal: agigantava-se .
Lembrei-me desta personagem para vos convidar a uma pequena ruminação mental sobre o conceito de causa.
Por exemplo: para os clássicos da antiguidade os céus eram incorruptíveis porque eram perfeitos e o que está perfeito não pode alterar-se. Para os medievos o decisivo era martirizar o corpo nesta vida terrena por causa de merecermos a salvação; para os modernos a causa obrigava a que o efeito se seguisse sempre da mesma maneira desde que se mantivessem as circunstâncias. O método experimental, base de todo o pensar positivista defendia mesmo que só tinha direito de alforria em ciência aquilo que pudesse ser demonstrado nos factos. Ora como se sabe as demonstrações não têm argumentação ou seja, não se discutem. As coisas são assim porque são e não podem ser de outra maneira, porque é assim  que se verifica na experimentação factual. O problema começa a complicar-se quando o alcance do mundo científico se estende para lá dos confins dos laboratórios experimentais. Aí, a experimentação e a verificação factual não são possíveis, mas a ciência, no seu afã de mais descobrir, não pode parar no que já domina e arrisca para campos ignotos. Aí os factos e as coisas já não são as nossas coisas. Podemos dizer mesmo que são coisas não-coisas. Isto é, há muitos objectos de ciência que já não cabem na concepção tradicional de objecto. Habituamo-nos a aceitar que tudo o que existe tem que existir num tempo e ocupar um espaço. Mas não é bem assim: no mundo do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande (no microcosmos ou no macrocosmos) o que alimenta a ciência já não são as causas, porque os objectos que são alvo de estudo já não se enquadram nas velhas concepões. O determinismo e a segurança cedem lugar ao indeterminismo e à incerteza. A realidade escapa-se-nos e a tridimensionalidade é insuficiente para configurar estes novos objectos. Por isso, há quem lhes chame sobre-objectos. Os fenómenos deixam de poder ser entendidos nos quadros de uma ciência normal e temos que buscar uma ciência extraordinária. Vemo-nos na contingência de ter que mudar de paradigma explicativo embora isso nos custe. Era isto que a nossa redolha nunca fazia: só havia uma bitola- a dela -.
Voltemos ainda às nossas deambulações: as tais coisas não coisas são objectos de uma técnica aperfeiçoadíssima. Justifica-se então que lhes deixemos de chamar fenómenos mas os apelidemos de fenomenotécnicos. Exemplifiquemos: ao olharmos para uma gota de sangue que vemos? que é líquida durante pouco tempo, já que depois solidifica, que é vermelha e que é quente.Se, porém, submetermos essa gota a uma máquina que a analise, então a nossa gota aparece com um sem número de componentes que nela estavam escondidos ao nosso olho mas que a análise desvendou e nos trouxe à luz. Da mesma forma, quando vamos a um médico e ele nos pede para fazermos uma série de exames, ele fá-lo, primeiro, porque à primeira vista e apenas baseado nos sintomas que nós lhe dizemos e  noutros que ele pode descortinar, quer ter mais fundamento, para depois poder actuar e, segundo, porque o importante para ele irão ser os resultados desses exames e não propriamente a pessoa que está à sua frente. Quando lhe levamos os exames, ele já não olha para nós mas para os resultados que os aparelhos técnicos lhe fornecem. A sua decisão acerca do que irá prescrever não está tanto em função da pessoa mas daquilo que a tecnologia lhe mostrou... Ora aqui está: o que é decisivo nos tempos que correm é que substituamos a palavra causa e o seu conceito pela palavra função com tudo o que isso implica. Entramos no mundo das probabilidades e como bem disse Popper" a maior das improbabilidades ainda é uma probabilidade". 
As coisas já não podem ser explicadas por uma causa única, mas justificadas em função de uma multiplicidade de variáveis que podem ser lidas de diferentes formas por diferentes especialistas. Reparai apenas como os números das contas correntes do Estado são lidas pelos do Governo e seus apoiantes em confronto com os da oposição.Os números são os mesmos mas as consequências são todas outras...Tudo por causa da função, acrescento eu.
Para não parecer um pavão como a nossa redolha, hoje fico-me por aqui. Mas hei-de cá voltar.
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terça-feira, outubro 01, 2013

QUINTA DO LÍRIO – VINDIMA MMXIII                                                          
 2013-09-27

ORDEM DE TRABALHOS


1.       SAUDAR OS CONFRADES

2.       ARMAR-SE DA FERRAMENTA

3.       CUMPRIR AS RECOMENDAÇÕES: VINDIMAR É SELECCIONAR  GA(T(CHOS E NÃO APENAS COLHER

4.       ESCOLHA E RESERVA DE UVAS PARA COMER PARA QUEM QUER

5.       COMPRIMIDO PARA O SOL

6.       INÍCIO DA FUNÇÃO

7.       DEGUSTAÇÃO
®     VEGETAL ROXO EM FORMA DE TESTICULAR DE  BOVINO, ALBARDADO EM POLMA LEVE
®     PRESUNTO OLIVÍCOLA SIMPLES OU TEMPERADO AO ALHINHO OREGONADO
®     GUITARRA PORCINA EM LASCA FINA
®     ENTRIPADOS FATIADOS
®     CALDO RICO EM LEGUMINOSAS CASEIRAS ESVERDEADO COM VERDURA DE GOVERNANTE NACIONAL
®     FIEL AMIGO GRATINADO À CONDE DA GUARDA COM ADAPTAÇÕES DO GRANDE MESTRE CULINÁRIO
®     AMARELO BICUDO PUXADO E ENRIQUECIDO COM MÃO DE CORNUDO ENGANADO
®     ACESSÓRIOS VÁRIOS
®     LÍQUIDO LÍMPIDO DA FERMENTAÇÃO UVEIRA DO ANO TRANSACTO BRANCO E TINTO
®     DESTILADOS MAIS QUE MUITOS
®     ARÁBICO AROMA
®     ET ALIA

8 - DESPEDIDA


PS:  POSSIBILIDADE DE FRESCA LOIRA


Grão-Mestre de todas as cerimónias: CHANGOTO



intigas:







domingo, setembro 15, 2013

A NOSSA FALADURA - CCI - MO(U)(T)CHO -

 O moutcho é a  ave da sabedoria. O saber só se adquire bem tarde. Desde logo porque é preciso distinguir entre saber e conhecer. Não me vou alongar hoje nesta distinção, mas creio que basta dizer-vos que eu sei que Nova Iorque existe mas não conheço patavina dessa cidade. Adiante, pois. 
Não foi sem razão que o grande Hegel (concorde-se ou não com ele na vastidão filosófica) disse que " a ave de Minerva só levanta voo ao entardecer". Metaforicamente deixa claro que só tarde, já na velhice, o saber verdadeiro acontece. O povo, no seu saber de veterania mais que muita faz a pergunta e dá a resposta: "porque é que o diabo sabe muito?" - Porque é velho!"
Não sendo ainda um maduro que possa considerar um motcho no saber, detive-me  - os velhotes já vão tendo tempo para tudo - detive-me, dizia, a pensar num pormenor que passará longínquo àqueles, que num afã sem sentido, têm pressa para tudo e nunca têm tempo para eles. Resolvi, pois, ter tempo para mim e, depois, contar-vos o resultado desta ruminação intelectual.
Fala-se muito em consciência, mas a grande maioria de nós solta a palavra da boca como se a tivesse aprendido como o papagaio. Reproduz, imitando, sons, mas não sabe o que diz. Muito simples: não tem consciência do que diz. Por isso, às vezes, diz o que não sabe e outras vezes, nem sabe o que diz.
Decomponhamos a palavra, para a lermos na sua essência: cum+ scientia, donde derivou para o português com + ciência e, posteriormente consciência. A preposição CUM indica companhia, parceria, mas também independência. Ou seja: a minha companhia não sou eu. É outro. Logo, aquilo que eu penso é outro de mim, portanto, diferente de mim, ou como queria Fichte, é um Não-Eu em mim. Entende-se assim que aquilo de que estou consciente não esgota a minha consciência, cabe nela, mora lá mas não a preenche. Significa então que o que está na minha consciência, não é a minha consciência. Tenho consciência de que estou consciente do que tenho na minha consciência, mas confundo o que lá tenho com aquilo que ela própria é. Vamos lá simplificar: a minha consciência é o continente e o que eu tenho nela é o conteúdo. É o mesmo que dizer que o que eu penso não é o mesmo que o meu pensamento. Não há conteúdo maior que o continente e, assim, quer a minha consciência quer o meu pensamento são sempre maiores do que aquilo de que sou consciente, ou do que aquilo que penso. É simples, não é?
Na verdade, CONHECER ( a scientia de que falamos acima) implica domínio, capacidade de explicação, previsão, controle,...Ora, o que se passa é que aquilo que habita a minha consciência nem sempre está nos meus domínios. Por exemplo, estou consciente da minha ignorância relativamente a muitos assuntos - basta que falemos do universo e de tudo o que dele é desconhecido - logo, eu não sei nada acerca do há para conhecer do universo, mas sei exactamente isso: que não conheço o universo. Ou seja, na trajectória do que nos trouxe até aqui, NÃO CONHEÇO, MAS SEI. Ou melhor: sei que não conheço. Talvez fosse então melhor que vivemos numa comsapiência e não com uma consciência. 
Vem-me à mente aquela famosa questão do que convencionou chamar-se METEMPSICOSE - a crença na transmigração das almas e, consequentemente a inevitabilidade da existência de outro mundo para além deste, que lhe seria anterior e se prolongará ad aeternum para além dele. Burnet diz muito bem, a meu ver, que não devemos falar de metempsicose mas de METENSOMATOSE, pela simples razão de que é a alma que migra de corpo para corpo e, em grego, corpo diz-se SÔMA e alma é que se traduz por PSYQUE.
Fica, assim, claro que nem sempre dizemos o que sabemos e muito menos aquilo que conhecemos. Volvamos à sabedoria popular: « o calado diz tudo». 
É um facto que os "velhos" sabem ouvir. Falam quando lhes pedem opinião. E que bom seria se os ouvíssemos num mundo como este que sofre de uma doença incurável : a opinionite. Todos falam sobre o que quer que seja, julgam-se autoridades em todos os assuntos, mas nem conhecem nada e muito menos sabem o que quer que seja. Vivem na ilusão do saber. Não têm consciência da sua ignorância, o mesmo é dizer que não conhecem quanto deviam estar calados. É por isso que o silêncio também é música e o saber ouvir é uma virtude.
Tal qual o moutcho que vira e revira a cabeça para todos os lados para não lhe ficarem dúvidas donde vem o som da presa que quer apanhar. E fá-lo sempre quando já não há barulhos perturbadores: ao anoitecer.
Não querendo ser um sábio sempre vos digo que tenho ciência dos meus limites. Por isso me fico por aqui.

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quarta-feira, agosto 21, 2013

A NOSSA FALADURA - CC - ÀS ABAS

Terá sido a partir de meados da década de 60, postulo eu, que as festas de Verão, nas aldeias e vilas deste país ganharam a dinâmica e o figurino que actualmente as caracteriza. Esse novo figurino cresceu  e instalou-se às abas da chamada “modernização” do mundo rural, por via da sedimentação de padrões de vida importados do modo de vida urbano que vêm operar mudanças significativas nas práticas colectivas e nas referências simbólico-culturais das comunidades localizadas no dito "mundo rural". Os (e)migrantes terão assumido protagonismo decisivo no processo.

Invariavelmente, todas as festas nas comunidades rurais têm na sua origem o fervor religioso e o pretexto da celebração do dia do santo padroeiro ou de outra qualquer figura do panteão de santos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Constata-se, todavia, que a festa tem vindo progressivamente a dessacralizar-se. Uma das principais características da nova festa de Verão é o seu carácter eminentemente profano, independentemente de ser realizada sob a auréola do santo padroeiro. Mesmo que não declarado, é notório o esvaízamento dos tradicionais motivos simbólicos que lhes deram origem, estejam eles ligados a celebrações religiosas ou aos ciclos agrícolas. Pese embora o motivo religioso (o padroeiro), a verdade é que, exceptuando a missa e a procissão, tudo o resto é profano.

A nova festa rege-se por novos valores que muito ficam a dever àqueles padrões de vida importados do espaço urbano, influência essa que se inscreve, aliás, no processo mais vasto de transformação das comunidades rurais, observável em praticamente todas as dimensões da vida social local. É a cultura dominante, a chamada de massas a engolir irreversivelmente as culturas locais.

Caricaturalmente, a festa tipo realiza-se num recinto quase exclusivamente reservado para o efeito. No topo do recinto, jaz um palco coberto, onde actuam os artistas músicos que animam a festa, preferencialmente da área da designada música pimba cujo espectáculo decorre à maneira do “concerto” musical citadino, cheio de cor e movimento, habitualmente a cargo de 2 ou 3 bailarinas que se apresentam provocadoramente vestidas (ou será despidas?). A maioria da plateia assiste quase impávida, uma minoria cede ao impulso de dançar nas cantigas mais populares, cuja estrutura musical é simples, pontuadas por refrões fáceis de letras brejeiras. Estrategicamente posicionado  funciona um bar corrido, permanente e maioritariamente ocupado por homens, às abas  do qual existe uma secção com um conjunto de mesas e bancos para fruição gastronómica. A principal bebida consumida é a cerveja, servida gelada em copos de plástico, com pouca espuma. Nas comidas, o frango assado é rei, complementado com bifanas, moelas e pipis. Tudo conjugado e preparado para alimentar uma atitude eminentemente passiva e consumista.

Na organização está uma “comissão”, nascida às abas da dinâmica e da vontade de um grupo de voluntários, motivados, uns pelo fervor religioso, outros por puro bairrismo, outros prosseguindo uma estratégia de afirmação identitária, na medida em que a festa permite a apropriação social de determinados momentos e acções a que atribuem elevado valor simbólico no quadro sócio-cultural da comunidade de origem.

Dia S. Bartolomeu, 24 de Agosto de 1973. É dia de semana, dia de trabalho em todo o mundo, excepto na aldeia dos xendros que saem à rua exibindo as suas mais vistosas indumentárias. A batalha trava-se entre as que insistem no corte tradicional – inspiradas ainda na matriz cultural que iria em breve ser mortalmente ferida na madrugada que Sophia esperava, o tal dia inicial inteiro e limpo – e outras mais arrojadas, viajadas directamente da fresca e desinibida Gália. A matriz regista a maior afluência do ano, logo aproveitada pelo pregador convidado para se alongar no sermão. O povo feminino abana-se freneticamente com coloridos leques timbrados com motivos tauromáquicos.

Manda a tradição que imediatamente a seguir à eucaristia se leve a estátua de Natanael com a faca na mão direita e o diabo preso na mão esquerda, a dar um passeio pela aldeia em procissão para ser depositado durante algum tempo na capela do Espírito Santo. O ambiente cénico, para além do numeroso povo que preenche completamente a rua, inclui o pálio que cobre o clero com a sua sombra, os andores, os estandartes e, inevitável, a banda de Aldeia de João Pires, complementado por um ambiente sonoro onde pontificam os rebentamentos secos dos foguetes lançados pelo igualmente seco Miguelito e, indispensável e marcante, o sincopado dlim dlim dlão, dlim dlim dlão, dos sinos da torre da Igreja.

Naquele tempo, havia forte disputa entre a garotada pelo direito de dar ao badalo – do sino - durante toda a procissão. Chegava a ser combinada uma escala para permitir que todos tivessem tamanha honra, dispostos a aguentar o zumbido que havia de ficar nos ouvidos durante um par de horas por efeito da prolongada exposição ao desaconselhado volume de decibéis que era atingido naquela exígua câmara. Naquele ano, o sacristão tinha autorizado João Feijão, Tonho Mamanaburra, Domingos Albardinhas e, excepcionalmente, o Jorge Braga - porque este vivia em Lisboa e só lá estava de férias - a revezarem-se na produção da banda sonora. Iniciada a corrida pela estreita escadaria que conduzia ao cimo da torre, na ânsia de ganhar o direito a ser o primeiro a agarrar os ditos badalos, o Braga levou inadvertidamente o pé esquerdo a embater numa espécie de pedregulho que jazia às abas do complexo sistema do certeiro relógio que marcava o ritmo de vida de toda a aldeia, cuja queda foi bem audível em toda a nave. Não tardou muito que Xquim Camião aparecesse esbaforido, na sua qualidade de guardião e afinador do relógio, e se desse conta da tragédia: por entre o ruido ininterrupto do dlim dlim dlão, dlim dlim dlão e os sons guturais que caracterizam a sua difícil fala, os garotos conseguiram perceber, ainda assim, que o dito “pedregulho” era uma peça importantíssima para os equilíbrios da complexa obra de arte da relojoaria concebida e montada por esse génio e mestre autodidacta que se chamara Manel Ferreiro. Inconscientes e ignorantes sobre a calamidade que tinham provocado no relógio, a preocupação dos gaiatos resultava apenas da ameaça deixada pelo Camião de que iria fazer queixa ao senhor prior e ao regedor, gesticulando muito e apontando em especial para o Braga. A antevisão da sova que o esperava notou-se bem no fraco vigor e no ritmo menos rigoroso com que ele abanou os badalos na sua vez. O receio era bem fundado, considerando o respeito temeroso que toda a gente naquele tempo votava à figura do regedor e o padrão de actuação dos pais em qualquer caso de comportamento desviante dos filhos.

A tarde foi de expectativa. Nem os pirolitos na festa estavam a saber como habitualmente. O Braga havia de ficar mais aliviado quando o amigo João Barbosa, filho do Presidente da Junta, chegou ao recinto e contou que o Camião tinha ido lá a casa a acusá-lo de ter feito o estrago no relógio. Ora, era impossível que o Barbosa tivesse praticado tal crime, porquanto ele ia na procissão vestido de anjinho. O Camião, que ia a contar ficar bem visto e com o copinho do famoso morangueiro produzido na casa, saiu com a garganta mais seca, levou um valente responso da senhora mãe do Barbosa e a ameaça de queixa por falsos testemunhos. A confusão do camião tinha uma explicação: eram evidentes algumas parecenças físicas entre os dois amigos Jorge e João.

Safou-se de boa o Jorge Braga. Às abas disso, foram ambos saborear calmamente um pirolito. Alguns dias mais tarde soube-se que o Camião tinha concertado competentemente o relógio da torre.


Ainda hoje ouvi bater o meio dia e me lembrou que eram horas de almoço.


Notas:
1. A história tem uma pontinha de verdade e devo-a ao meu bom e antigo amigo Jorge Manteigas que às abas disso tem direito a figurar como personagem principal. Um abraço para ele.
2. Com este texto, atingiu-se o post nº 200 da rubrica "A nossa faladura". Eu seja ceguinho se contava chegar tão longe...

quarta-feira, agosto 07, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCIX- BO(U)NICRA ou BENICRA

Assunto que nunca foi muito do meu agrado, em matéria de língua portuguesa foi o da classificação das palavras em homónimas, homógrafas e homófonas. A razão é que todas as homónimas são homógrafas e homófonas e todas as homógrafas são homónimas e homófonas mas já não é verdade que todas as homófonas sejam homógrafas. Só por aqui já se vê que não é à primeira que se pode classificar a palavra da faladura de hoje. Deixo, pois, ao vosso critério.
Já lá vão uns anos valentes... começava a debater-se o acordo ortográfico que acabou (vergonhosamente) por entrar em vigor quando e, numa reunião ocorrida numa Instituição de Ensino Superior, propus a um dos elementos da equipa que discutia o tal acordo numa intervenção que era mais ou menos assim:« Se vão mexer na língua, mexam de uma vez ou não lhe toquem... mas se mexerem então crie-se um grafema para cada fonema, ou seja, que cada letra tenha sempre o mesmo som e não haja nem dois ss ou cedilha, que o x tenha um único valor fonético e não como agora que se lê como x(xisto), z (exame) cs (sexo) s (expulsar)..., acabem-se os diacríticos como o til e a nasalação seja sempre biliteral,... Enfim, dei uma série de sugestões, não sem alguma ironia que fez sorrir muitos dos circunstantes...Talvez assim se evitasse a minha dificuldade...
Hoje estou com vontade de escrever...  Algumas das palavras que vos vou deixar não fui eu quem primeiro as escreveu, mas não me importava de ter sido. Vou, portanto fazer citações. A primeira é retirada  do Diáro de notícias  de Quinta -Feira, dia  25 de Julho, nº 52698, pp 55 e pertence a Manuel Maria Carrilho, sob o título "ESQUEÇA AS PALAVRAS - E APROVEITE PARA CONVERSAR. " As notícias tornaram-se tão tóxicas para a mente como o açúcar se revelou para o corpo... As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas...Se calhar o melhor remédio é seguir o conselho de Rolf Dobelli que propõe dez pontos em que vale a pena reflectir... Esses dez pontos são: 1- as notícias enganam, 2- são irrelevantes, 3- não explicam, 4- são tóxicas para o organismo, 5- aumentam os erros cognitivos, 6- impedem de pensar, 7- funcionam como uma droga, 8- fazem perder tempo, 9- tornam-nos passivos, 10- matam a criatividade ... Um bom desafio para o mês de Agosto é seguir o conselho de Theodore Zeldin que escreveu um fantástico Elogio da Conversa. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento e a criatividade, desintoxicar a mente e explicar as ressonâncias com o mundo". Conclui-se que mais vale conversarmos e sermos activos num diálogo do que ficarmos de olho escancarado nas notícias que nos entram porta adentro. Que saudades dos belos serões de antanho! Aí sim, debatiam-se os verdadeiros problemas da casa e passava-se alta cultura de geração para geração. Nada disso, agora. Vamos então conversar neste verão em vez de nos determos perante ecrãs, sejam eles quais forem.
 A outra citação vem num livro de Afonso Cruz (que aconselho vivamente), sob o título JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA  (Alfaguara), pp.223 :- " Eu por vezes sinto-me vazio, a minha ciência é desprezada. O conhecimento não interessa para nada. Os conhecimentos é que são importantes. Isto é um país de amigos onde, curiosamente, todos são meus inimigos. Ninguém se digna a perder tempo a ler o que ponho no mundo, com toda esta sabedoria que me caracteriza. A sociedade é feita de dinheiro. A carne dela são cotações, cheques, cartões de crédito. Vende-se o que dá dinheiro. O que importa não importa. É o fim dos tempos, o homem volta a ser um macaco. Volta a olhar o porco, cara a cara, e a sentir que se olha ao espelho. É isso o homem. Uma espécie de suíno que, momentaneamente, esqueceu a sua condição orwelliana. Somos todos uns porcos que chafurdam na banca e na economia. A vida não passa de um gráfico de barras, umas estatísticas, probabilidades, projecções. E neste mundo somos todos escravos de notas de todas as línguas.
- Deus deveria dar-lhe fama.
- Não me fales em Deus, Rosa. Deus tem um jardim, que é onde vive. Nós temos um inferno. Foi o que Ele nos deu. Ele é um dos patrões que mais andam por aí. Um pai, se o filho passa fome, é o primeiro a privar-se de comida, para que os seus filhos possam comer. Deus devia andar a passar fome e a sofrer todas as dores. Aquela cruz não dá para nada. Olha à tua volta: um dirigente quando quer sacrificar, fá-lo sacrificando o povo, mas que pai faria isso aos seus filhos? Qualquer pai estaria disposto a sacrificar-se a si antes de sacrificar os filhos e é isso que faz um líder e é isso que faria o verdadeiro Deus, se existisse. Se queres encontrá-Lo, procura-O no maior indigente, no maior sofrimento. Essa é a sua única hipótese de existência. Os líderes que vemos a governar os nossos países, são apenas criminosos iguais ao Deus católico. Quando se portarem como um pai a tomar conta dos seus filhos, serão verdadeiros estadistas. Deus não está no céu, está na barriga dos esfomeados. É um punho fechado, peludo, a gritar de agonia, dentro do estômago.
- Mesmo assim o professor devia ser famoso.
- A fama é o modo como as pessoas célebres se dão a conhecer. Já dei à fama um protagonismo maior. Para os Romanos, era um monstro cheio de olhos e bocas, com asas. Andava sempre acompanhada pelo Boato e pela Crudelidade. Diz a verdade com umas bocas, enquanto com outras mente. Um monstro."
Não tínheis em que pensar e motivo de conversa? Ora aqui tendes um bom.
Rosa Rei e Albertina Milhana eram o oposto uma da outra: se fossem palavras eram antónimas. Rosa morava no beco da ribeira e Milhana no arrabalde da Lagariça. Rosa tinha voz de homem, Albertina se puxasse pela voz escavacava vidros, tal a estridência, Rei andava sempre na onda da frente, começa quando os outros só estavam a acabar a ladainha anterior, Albertina acabava quando já toda a gente ia na oração seguinte, Rosa estava completamente desdentada, Albertina cortava um travisco à dentada, Rosa teve um filho, Albertina uma filha, Rosa tinha um burro, Albertina uma burra, Rosa Rei puxava-o sempre pela rédea, Milhana ia sempre atrás, às vezes com um baraço preso à rabiça da albarda para acompanhar a besta.
Como se vê eram mesmo paralelas: nunca se encontrariam por muito que as prolongássemos.
Em comum, pois tudo tem uma excepção, era a sua presença continuada em todos os actos eclesiais, mas enquanto Rosa ficava logo no banco colado à coxia e chegava com meia hora de antecedência, Milhana ficava quase sempre no último banco, próximo do espaço já reservado aos homens, já que vinha sempre esbaforida em cima da hora, ainda a ajeitar o lenço. Rosa morava perto da Igreja, Albertina num extremo longínquo.
Não se falavam e Rosa dizia que Albertina ia atrás da burra que "era por mor de apanhar com as bunicras nas ventas", enquanto Albertina se defendia a dizer que ela puxava o burro pela rédea" Para ver o seu próprio retrato, quando olhava para trás".
Facto era que a burra de Albertina já era entradota na idade e quando ia carregada com as angarelas cheias de esterco para a sorte da Ribeira, a subir o cabeço do Feijão tinha tendência para se abrir de forma altamente sonora, mandando fedorentas bonicras que cheiravam a 50 metros. Se calhar queimava misto e a subir ligava também o gás para ajudar à palha... Já o burro de Rei, inteiro como era, de vez em quando à passagem por uma burra excitava-se, arreganhava o beiço, mostrava os dentes e por isso Rosa ia sempre à frente com a rédea curta, para evitar que ele se pusesse atrás das burras e aventasse com os aparelhos ao ar.
Pronto. Já sei que vai longo... Se não quiserdes conversar, olhai que rir também é saudável.
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quinta-feira, julho 11, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVIII - LAMBUGUEIRICE

Os movimentos migratórios em Portugal são imemoriais. O surto que agora se vive apenas tem de diferente o facto de que aqueles que se vão embora são do melhor que temos: gente bem formada que não encontra espaço para se realizar em Portugal e é muito apreciada noutros países.
No dealbar do século passado, os dois destinos mais frequentes eram a Argentina e o Brasil. São ainda hoje visíveis no Norte as marcas desses brasileiros que fizeram fortuna por terras de Santa Cruz. Nos meados do mesmo século, sobretudo nos anos sessenta, a corrida foi predominantemente para França e Luxemburgo menos Alemanha , Suiça e outros países europeus. A diáspora actualmente é global.
Se nos tempos idos se procurava o apoio de conhecidos ou familiares, hoje em dia, muitos são os que partem sozinhos para destinos improváveis.
Talvez não fosse alheio ao facto de os destinos no princípio do século passado serem a América do Sul, a proximidade linguística, pormenor, hoje, irrelevante.
O mais famoso desses Argentinos foi, sem dúvida, Domingos Argentino, pois claro. A sua casa era onde hoje está a casa de Fernanda e Branquinho. Era uma casa térrea com uma entrada fresquíssima, onde se chegava por debaixo de um dossel de uvas ferrais que garantia uma sombra fechada e uma fresquidão rara nas quenturas estiais. O pequeno quintal tinha um pocito que dava água bastante para uma horta que a mulher tratava com esmero. As paredes eram todas de um azul celeste com algumas gravuras, as janelas eram amplas e tinham uns portados em ripa de madeira que em mais nenhuma casa se via.
Domingos  levantava-se tarde e invariavelmente vinha sentar-se, enquanto a sombra da manhã o permitisse, no baturel da ti Antónia Costa, paredes meias com a casa onde nasceu este escriba e era aí que esperava pelo companheiro de cigarradas, o velho Corlha, também ele Domingos, sobrevivente da batalha de La Lys, que comparecia coxeando da perna direita, consequência de uma fractura por terras gaulesas e mal sarada.
Puxavam da mortalha do papel Toro e da onça Duque, e, num cerimonial digno de filme, faziam o cigarro que saía das mãos para o adesivo salivar numa forma perfeita de cilindro, tabaco bem compactado, batiam as pontas contra a caixa de fósforos de madeira,"que os de cera não valiam um corno e não se podia escarafunchar os dentes com eles",  acendiam com mestria, mesmo em dias de vento, cada um o seu cigarro com o mesmo fósforo, e davam as primeiras baforadas.
Nem um nem outro mexiam uma palha que fosse. De manhã ficavam por ali a comentar o acaso, como as mulheres que iam e vinham ao chafariz da lameira com o cântaro à cabeça, excepto a ti Esperança do Área, que arranjou um carrinho de mão, ao qual forrou a roda com pneu e cujo bocal onde punha o cântaro estava bem almofadado para não correr o risco de se partir com algum solavanco maior.
Não havia xendro que mais usufruísse da lambugueirice do que estes dois comparsas do cigarrinho matinal.
Ao bater do meio-dia cada um dirigia-se a sua casa para o almoço, com o qual nunca se preocupavam, de Verão ferravam uma sesta e voltavam a reunir-se, cumprindo o mesmo ritual cigarreiro, debaixo do dossel da uva ferral na casa de Argentino. Jogavam ao pinoco (pequeno toro de lenha, bem redondo) que empinavam a distância variável, sendo que aquele que perdesse aos trinta pontos, podia, na forra, escolher ele a distância do local de arremesso da lasca até ao pinoco. O que perdesse pagava um copinho, mas não se pense que vinham à taberna. Corlha levava uma garrafa do dele para, no caso de perder, pagar o copo ao Argentino; já este levava o comparsa à adega e lá bebiam.
Assim passavam o tempo, dia após dia, e, se fossem crentes (que não eram) estou em crer que lá no assento etéreo onde subissem, haveriam também de arranjar alguma sombra onde pudessem continuar na sua tão apreciada lambugueirice.
Passai bem e até uma próxima que, prometo, será menos demorada.
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quinta-feira, junho 06, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVII - GANAPO

Os latinos práticos como eram, detinham-se pouco com palavras e, tanto assim, que uma das suas máximas era a famosa "Res non verba", que à moda portuguesa pode ser ser traduzido como a oposta do "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz".
Se repararmos, todavia, as palavras também pode ser consideradas como acções e reacções. Se eu disser, por exemplo, Gosto muito de ti a alguém, fica claro que fiz uma frase gramatical a que posso chamar locução, e ao fazê-lo, já fiz uma acção - a da fala - e espero de quem me ouve um tipo de reacção favorável ao sentimento que eu lhe expressei, nem que seja um simples sorriso, mas, seja como seja, a minha declaração activou  o sentir do outro e se houver testemunhas, como por exemplo no simples SIM de um casamento, também esses ficam reactivos.
A publicidade parte muito deste credo.
Não sendo eu, nem de longe nem de perto, minimamente especializado em marketing, sei, podemos dizer, por intuição, que ' farejo ' um bom jargão ou um spot publicitário, antevendo-lhe bons augúrios ou tempo perdido.
Uma das circunstâncias que me deixaram marcas memoriais, tem a ver com o Mundial de Futebol em Espanha, em 1982, na sua 12ª edição.
Muito atempadamente e com uma qualidade digna de monta, ainda por cima, tendo mais a ver com os valores ocidentais do que outras aventuras em desenhos animados ( por exemplo Heidi, Marco, dos Apeninos aos Andes,etc.), os espanhóis lançaram umas quantas figuras lendárias do seu futebol que tinham sido raptadas e que um grupo de corajosos jovens procuravam encontrar. A trama estava muito bem concebida e a popularidade dos ícones correu mundo, aproveitando Espanha para fazer vingar os seus produtos. Assim uma das figuras era Citrónio, em figura do limão, Naranjita como representante da laranja, Tomatito para o tomate e outros. Ressalto desses outros, fazendo lembrar a diáspora espanhola, ao mesmo tempo que fazia apelo à multiculturalidade e combatia preconceitos rácicos e xenófobos, ressalto, dizia, o Chico Escuro, figura de negro, altamente resistente e corredor de fundo.
Sabido como é que nas aldeias as pessoas são mais conhecidas pelos apelidos do que pelos nomes próprios, à medida que os anos passam as alcunhas vão desaparecendo com os seus titulares e vão sendo substituídas por outras novas, mais adequadas ao tempo e às características do novo portador dessa alcunha. Foi assim que o Zé, da família Aspirante, passou a ser o Chico Escuro. Moreno como era, sempre solícito a aviar recados, disponível para grande variedade de serviços, não sabia andar senão a correr e imitava motos ou carros de diferentes marcas, adaptando o veículo imagético ao percurso que tinha que fazer para aviar o recado. Ia e vinha no esfregar de um olho e esta sua rapidez e competência valia-lhe ser contemplado com uma moedita ou até com uma guloseima, coisas que em casa nunca contariam da sua ementa. Os olhos redondos muito vivos de córnea branca sobressaíam naquela carita de tez mais que morena, as pernas eram fibra pura e, para a idade, demonstrava um força invulgar. Curioso, queria saber como se fazia tudo e arriscava experimentando. Duma vez ia cortando o indicador da mão esquerda porque se lhe meteu em cabeça cortar um tanoco de pão centeio em cima dum tronco de figueira que, dizia, "era como os cozinheiros faziam na televisão". Agarrou-se ao dedo, não chorou, mas vendo que o sangue não estancava, viu-se obrigado a mostrar o corte à madrinha Circuncisão. A mulher ia caindo para o lado e mandou um grito lancinante:« rais ta partissem ganapo dum raio...Carraio andaste tu a fazer?...»Eu, que vinha chegando com o inefável carrinho quadrado, apercebi-me da gravidade da situação, corri a casa, trouxe água oxigenada e um trapo lavadinho, apertei bem o dedo do Chico escuro e enrolei-lhe o sanapismo com força de garrote. Qual Lilliputiano a amarrar Gulliver, também eu dei voltas com linha branca de coser e ajustei o trapo. Facto é que o sangue estancou e Chico Escuro sentou-se no batorel ouvindo ralhos de todos os lados mas sem nunca aqueles olhos ladinos verterem uma lágrima que fosse.
O acidente foi motivo de conversa pela tarde dentro.
Já noite dentro, chegaram Nazaré e Júlio, pais de Chico Escuro e a mãe quis logo ver o talho, mas lá a conseguimos sossegar e no outro dia , então, é que verificamos o estado da ferida. Voltamos a desinfectar, regamos com mercúrio =mercurocromo e dois dias depois a carne já tinha sarado.
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terça-feira, abril 30, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCVI - MATRAFUSCA

Disse ou tenho dito, diz-se quando já se disse o que se tinha para dizer... Ora, como eu ainda não vos disse o que pretendo dizer-vos não posso dizer que já disse ou tenho dito... A verdade porém é que já o disse mas não deveria tê-lo dito... Antes devia dizer-vos o que tenho para vos dizer, mas como também ainda não disse o que direi, digo que aquilo que vou dizer é o que deve ser dito para dizer o que trago para vos dizer. Vou então dizer o que direi, mas muito do que vos vou dizer já foi dito por outros que me disseram o que agora vos vou poder dizer. Dir-vos-ei, então, o que ouvi dizer e, no final, já poderei dizer, como se diz quando já se disse o que se tinha para dizer, ou seja, já poderei dizer, disse ou tenho dito, tal como deve ser dito.
Zé Aranhiço foi, sem dúvida, o maior contrabandista dos xendros. Homem seco, de estatura meã, sempre de cara arroxeada, ficando por saber se tal cor era devida ao frio que apanhou, em jovem, na trasfega dos carregos, se causada pela quantidade de vinho que ingeria. Nunca o vi beber outra bebida. À pergunta se não bebia água, invariavelmente respondia que era suficiente a que a mulher punha na sopa, que, aliás, poucas vezes comia. Era mais adepto de comida de seco e de petiscos que de qualquer tipo de caldo. Voz de cana rachada, mesmo não fumando, dentes cerrados, rijos como poucos, já que o vi várias vezes tirar as caricas das garrafas com uma facilidade espantosa. Rijo como poucos, tirando na estatura, fazia lembrar o grande Aníbal Barca, general Cartaginês, que, no retrato de Tito Lívio, nos surge como um homem austero, resistente de igual modo ao frio e ao calor, capaz de passar noites e dias seguidos sem comer, beber ou mesmo dormir. E isso aconteceu-lhe várias vezes, chegando ao extremo de passar uma noite invernosa agarrado a um salgueiro, quase imerso na corrente da ribeira da Baságueda, o carrego posto a seco num galho, depois de uma fuga às balas da Guarda Fiscal que o queria prender. Utilizava com os seus homens um dialecto ininteligível a quem escutava, mesmo aos intrusos pagos pelo Chico Sarapião, regedor, e pasme-se, irmão do próprio Zé Aranhiço. Combinava na tasca do Chico, do Fatela, do Zé Júlio, do Zé Rolo, ou do Zé Cavalheiro. Só eles entendiam o que deviam fazer e era tarefa vã tentar descobrir aquela enigmática linguagem. Depois dos recados dados pagava uma rodada e desandava, deixando quem não pertencia aos seus de cara à banda. Quando o conheci usava gorra espanhola de marca Canizares, mas, depois, habituou-se ao uso de chapéu. Famosa ficou aquela vez em que ele, fugindo a carabineros e guarda fiscal deixou cair o chapéu que posteriormente a Guarda Fiscal encontrou e apanhou. No domingo seguinte, depois de missa, Chico Grande, cabo da Guarda Fiscal, dirige-se a Zé Aranhiço: «oh tZéi, quando quiser, passe lá pela esquadra que está lá o seu chapéu. » Aranhiço percebeu logo a matrafusca e responde:« O meu chapéu está aqui na cabeça... Eu não perdi nenhum chapéu. Posteriormente dizia: «o que eles queriam era que eu lá fosse e assim ficavam a saber que era eu e engavetavam-me...»
Das artimanhas que Aranhiço utilizava nem vos conto, mas o facto é que tinha freguesia bastante para ocupar quase permanentemente sete homens no vai-vem entre as duas fronteiras. Vendia de tudo: alpergatas, meias, pana, rebuçados, gorras, chocolates, ceregumil, bolachas, até mesmo guilhos, rastos, bicos de charrua, serrotes e foições. Nunca o apanharam e isso era a sua coroa de glória.
Conhecia todos os caminhos e veredas da raia, todos os lavradores e pastores e até os cães para que não o denunciassem à passagem e assim a guarda fiscal o pudesse localizar. Tinha um sem número de esconderijos e era interessante quando despachava alguma mercadoria pelos meios de transporte públicos. Metia tudo em cestos mas tapava-os com hortaliça e assim disfarçava o produto. Lembro-me de uma vez um cão alçar a perna para se aliviar num desses cestos e Aranhiço:« marcha daí, cabrão, num vês que me estragas a hortaliça»
Agora sim: já posso dizer que disse ou tenho dito porque ja disse o que tinha para vos dizer. Disse.

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quarta-feira, abril 03, 2013

A NOSSA FALADURA - CXCV - PLAGATO/FLAGATO

Já por mais de uma vez aqui falamos da proximidade fonética de algumas consoantes. É o caso do F e do P, sendo difícil, sem dúvida saber ao certo qual a dominante. Tanto se ouve uma como a outra.
Chquim Ventaneira, Domingos Poças e Tonho Bondito eram um trio de peso.Ventaneira e Poças já entradotes e Bondito, muito mais novo, associava-se para dar o compasso com a sua tarola, ao pífaro de Chquim e ao harmónio (armonho) de Domingos.
Poças era sapateiro, Ventaneira vivia da jorna e tratava de uma pequena horta onde criava umas ovelhas e uma cabras que permitiam à mulher fazer os queijos para consumo doméstico. Bondito sofreu um acidente que lhe cegou uma vista e vive da pensão paga pelo seguro.
Nunca ensaiavam e as saídas eram, a bem dizer, espontâneas: um deles pegava no instrumento, ia rua acima ou abaixo, os outros ouviam e pronto: estava o fado armado.
Os pífaros de Ventaneira era ele próprio quem os fazia e trocava-os conforme as músicas. Para mim, leigo em matéria de instrumentos musicais e com ouvido rombo quanto baste pouco se me dava qual fosse o pífaro que ele tocava, mas se atentasse em lá reparava que havia sonoridades diferentes; o armonho de Domingos tinha sempre o mesmo som e os acordes eram sempre os mesmos variando de acordo com o ritmo que Bondito imprimia à baguete. Nenhum cantava, mas quando desciam ao povo logo aparecia quem afinasse a gola numa desgarrada ao desafio a ver quem pagava o copo. É claro que para os três tocadores havia sempre uma rodada que alguém pagava. Quem pagasse tinha direito a escolher a moda.
A gente das aldeias é praticante do aforismo: deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer, mas nas noites de farra, o relógio não é visto nem achado e enquanto houver povo que acompanhe e vá pagando rodadas os tocadores não paravam o concerto. À medida que os copos se iam somando as desafinações eram mais frequentes, mas Bondito voltava a meter  tudo ao rêgo e a música chegava sempre ao fim.
O regresso a casa era sempre estrada acima e viravam para o cavacal  em frente da estrada nova. No cruzamento para o ribeiro cimeiro tocavam a última  e despediam-se. Bondito morava logo ali e bastava-lhe subir umas escadas de pedra, dar a volta à chave, pegar na candeia que a mãe lhe deixava à porta com o registo baixo e, mais direito ou mais torto lá chegava à cama, apagava a candeia e logo pegava ao sono. Ventaneira agarrava nos pífaros e ia para casa a caminho do ribeiro cimeiro e não precisava de subir escadas já que a casa era térrea. Tinha sempre a mulher à espera, sentada ao lume a dormir um sono assado e invariavelmente perguntava: "que horas são ?", ao que Ventaneira, naquele dia mais alegre que o costume respondeu: «são dez». Ela resmungou: "só ouvi uma pancada no sino..." e Chquim: «atão querias que também batesse o zero?» Ela levantou-se a rosnar e deixou-o a arrumar os pífaros. Poças, ao contrário, descia em direcção à cruz do Cavacal e tinha que subir uns quantos degraus sem qualquer corrimão. A subida começava num rochedo e os copos associados ao desnível contribuíram para que Poças apanhasse um valente plagato e o armonho rolou pedra abaixo e quando o vem apanhar tropeça e lá vai mais um flagato. Acabou por se decidir a subir as escadas de gatas, premiu o trinco da porta, bebeu um copo de água do asado e lá se foi. Que se saiba não voltou a cair senão na cama para um sono retemperador.
Com tanta água que tem caído, cuidai-vos não apanheis nenhum plagato.
XXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRAAAAAANNNNNNNNNDDDDEEE