sábado, janeiro 24, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXV - ACARUJA(E)R

O saber humano nunca é estanque. Verdade sem sofismas é também aquela que facilmente demonstra que nem sempre é o mesmo ramo do saber que se adianta aos outros e os arrasta. Ora é a Física, ora a pintura, ora a literatura, ora a música, ora a geometria, ora..., que faz a ruptura com o estabelecido e, de algum modo, dá razão a Thomas Kuhn, quando fala na crise de paradigmas e na necessidade que a ciência normal tem de se negar como dona da verdade e ceder o lugar, ainda que provisoriamente, à ciência extraordinária, porque os esquemas explicativos não esgotam os puzzlles ou enigmas que se vão deparando, muito devido aos avanços da técnica.
No caso vertente foi a Física que deu o passo. Louis de Broglie, prémio Nobel da Física, afirmava que se soubéssemos o que era um raio de luz, já sabíamos muito. As explicações para a propagação da luz são tantas - e todas têm fundamento de verdade - que não sabemos por qual optar. A corpuscular defende que a luz é difundida por pequenos corpúsculoss que a retêm e propagam e a prova é que, mesmo depois de o Sol se pôr, ainda temos luz durante algum tempo devido a esses corpúsculos; já o electromagnetismo tem outra explicação e assim por diante. Foi a Física, dizíamos, que deu o primeiro passo. Com a ruptura copernicana e as observações galilaicas, os cálculos de Kepler e de Newton, entre outros, ficou demonstrado que tudo se relaciona num complexo sistema de leis que a matemática aos poucos foi descobrindo. A própria Psicologia com Kurt Lewin vem aqui beber as relações interpessoais que mais não são que uma transmutação das Teorias de Campo da Física. O mesmo fez a Sociologia com Bourdieu ou mesmo Morin. Bem, adiante que se faz tarde...
Nunca estamos sós e precisamos sempre dos outros. Do grande outro. Do que está à minha volta e do que está mais afastado que, com mais ou menos impacto, também exerce influência sobre nós.
Não é por acaso que os nossos avós olhavam para o astro e decidiam do que fazer em função, por exemplo, da fase da lua ou do arco que a circunscreve mais longe ou mais perto, ou olhavam para o pôr do Sol e sabiam se vinha calor, vento ou chuva. Os Astrólogos, esse pantomineiros da futurologia, replicam, sem autoridade, esse saber empírico, iludindo os tarantas com bolas de cristal e coisas que tais....
O decisivo é que estamos sempre a influenciar e a ser influenciados por forças que nos envolvem: o campo, o campus, o habitus, o que quiserdes...
Tó Lindo, reformado da Guarda Fiscal e Beatriz Violas criaram o neto Quim, filho único do seu único filho que se tinha descuidado com uma mulher que desposou mas com quem quase não conviveu.
Quim não era o que se pudesse chamar uma inteligência. Tinha limitações de diferente ordem e Mné Chquim Carreiras dava-lhe explicações tentando, a poder de muito ""ah martelão que és um martelão, martelão martelão, tu num vês que isso não é um pronome mas um adjectivo adverbial"? Quim lá balbuciava os nomes complicados da morfologia gramatical e ora acertava ora levava com mais uma resma de martelão.
As explicações eram dadas no balcão ao cimo das escadas dos Bargões, de manhã, antes de o Sol lá bater e Mné Chquim parecia um arauto a pregar disposições de Sua Majestade. Ouvia-se em redor aí uns bons cinquenta metros e Quim era mesmo martelado. Pedagogias ... .
Nas manhãs de Março, já meio quentes, por vezes ACARUJAVA, o que era um transtorno para Mné Chquim que tinha que levar Quim para sua casa e , como não podia abrir a janela por causa do acarujo, que molhava, mais que o sobrado, o caderno de cópia de Quim, o martelão, martelão, martelão ficava confinado às paredes da casa e a exibição de Mné Chquim era assim uma reles amostra de influência e o seu campo de força como que ficava reprimido.
Por isso Mné Chquim passava a vida a amaldiçoar o acarujo .
Eu não morava longe e meu pai trabalhava na arte, ali mesmo entre a casa de Mné Chquim e o balcão dos Bargões, numa casota da Leitoa.
Mal me via Mné Chquim arrancava logo com uma pergunta mais rebuscada :" Que função passa a exercer na voz passiva o sujeito da voz activa? Quim, evidentemente, voz, só conhecia a dele, do avô , da avó , de Mné Chquim e mais uma quantas, mas a passiva e a activa ele nunca as tinha ouvido falar e portanto não as conhecia. Aventava o que lhe vinha à cabeça, desde predicado a advérbio de lugar, mas lá Agente da Passiva é que nunca. Ele de agentes também só conhecia os da Guarda Fiscal porque seu avô lhe falava dos agentes da alfândega.
A culpa era da gramática que tinha outros agentes que não eram do conhecimento do avô e, portanto, não exerciam qualquer força de impacto na cabeça de Quim. Estavam fora do seu campo de acção e ele não lhes sentia a influência porque não sabia da sua existência, como bem disse Bachelard, que também nunca foi da familiaridade de Quim.
Para que não fiqueis cheios da minha teoria de campo deixo-vos com um XIIIIIIIIIIIIII.

sábado, janeiro 17, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIV - ESCARAMOUÇO

Dou por mim muitas vezes a pensar no porquê de o nosso cérebro, sobretudo o do ser humano latino, estar formatado à maneira francesa, e, mais ainda, à moda cartesiana. Renatus Cartesius foi muito bem vendido pelos franceses e os outros povos romanizados mamaram nesse leite e ainda hoje sofrem dos efeitos.
Gabarola quanto baste, plagiou Sto Agostinho e, mais despudoradamente, o nosso Francisco Sanches, quase transcrevendo páginas do QUOD NIHIL SCITUR ( porque nada se sabe), pertencente a esse bracarense, injustiçadamente despromovido no mundo do saber. Portugal nunca soube aproveitar nem vender os seus vultos. Foi assim com Camões, com Pedro Nunes, com Garcia da Horta, com Amato Lusitano, com Ribeiro Sanches, com....; salva-se Pessoa e agora Saramago e Eduardo Lourenço. Mas andam lá por fora...
Quando George Washington se enfrentou com o lugar comum "o hábito é uma segunda natureza" tem esta tirada que ficou histórica: "MAS ELE VALE DEZ VEZES A NATUREZA!" Não há dúvida de que somos animais de hábitos. Digo hábitos e não vícios ou sequer instintos. Criamos rotinas, estigmatizamos, fixamo-nos e depois dizemos que o destino estava traçado e que tinha que ser assim, etc. e outras desculpas esfarrapadas sem sentido e que têm valor porque fazem parte do lugar comum e se é comum é geral e,logo, é universal. Transformamos o subjectivo em objectivo, o geral em universal, o comum em igual para todos. Claramente cartesianos. Partimos de evidências e como são evidências entendemos que não precisamos de as demonstrar. Na verdade, o evidente impõe-se por si mesmo, mas o perigo é que assumimos, à partida, como evidente, aquilo que é discutível e, sendo assim, damos razão a S. Tomás: "UM PEQUENO ERRO AO PRINCÍPIO, TORNA-SE GRANDE NO FIM".
Auto convencemo-nos de que a verdade é nossa e transformamos uma opinião, muitas vezes a carecer de fundamento seguro, numa verdade dogmática, indubitável, e sacralizamo-la defendendo-a até ao limite. Depois digam que não somos irracionais!
Vigura era assim. Quando bebia uns copos era do piorio. Se se lhe metia uma na cabeça não havia quem o demovesse.
Agostinho Cagarela, também conhecido por Cabo Vermelho, num Domingo à tarde, nas traseiras do café da Rosa, discutia com Vigura sobre quem tinha a melhor junta de Aldeia.
Não eram muitos os ganhões, sobretudo aqueles que trabalhavam com junta de vacas: Mné Guerra, o Geba, Domingos Guerra (irmão do anterior), o Caga de Alto, Alberto Vaz, o Borrachica, e o nosso Vigura, Zé Malagueta. Outros havia que ganhavam à jeira, mas com junta mista (burro e vaca).
Retomando o fio, Cagarela defendia que o Geba tinha uma parelha valente e que as vacas de Vigura tinham muito canelo para gastar até chegarem às de Mné Guerra.
Vigura estava já meio tonho e agarra Cagarela pelos ombros,espeta-lhe uma cabeçada, ao mesmo tempo que que lhe ferroa uma dentada que lhe arrancou parte do lábio inferior. Cabo Vermelho começa a sangrar, os dentes viam-se-lhe, o lábio jorrava sangue, os gritos atordoavam, o Vigura ficou taranta, Melro aventa-lhe um soco que o sentou e Fatela arranca a toda a brida com Cagarela para a vila com um recado que eu lhe dei: "Ó Tonho olha que o Agostinho leva o lábio dentro do bolso;eu apanhei-o do chão e meti-lho lá".
Fosse ou não amigo de dinheiro, facto é que o Dr Moutinho, quando se apurava, era competente: coseu o lábio ao Cagarela a sangue frio, fez-lhe um penso e recambiou-o para a Aldeia.
Cagarela arranca directo para a quinta do Ramalhão e só voltou ao povo quando a ferida já estava sarada e, quem não soubesse da história não notava a costura.
Mas não foi esta pior de Vigura.
Sério, era homem pacífico e bem tratante, salvo para a mulher e filhos que andavam sempre a toque de caixa e até tremiam quando ele entrava em casa. Ainda assim, entregava sempre o dinheiro da jorna e a ti Rosa nunca ficava a dever.
Era o que se podia chamar de artista a carregar o carro e fazia o que queria da junta. Muitas vezes o ajudei a carregar e admirava a sua arte a meter os molhos nos fueiros sempre certinhos, nunca de ESCARAMOUÇO. Era um gosto ver uma carrada do Vigura. Os sessenta molhos do moio vinham na perfeição e tinha o cuidado de tapar os molhos da frente para nque as vacas não se picassem na palha. Nunca caíu uma carrada ao Vigura. Já Júlio Aspirante, e Beto borrachica carregavam de ESCARAMOUÇO e eram alvo de gozo nas conversas do Adro.
Um dia bebeu demais e - lá está a ideia fixa cartesiana - cismou que havia de ajustar as contas com o Zé Carradas.
Chovia a cântaros.
Vigura agarra na gadanha da erva, entra na propriedade de Carradas a aldeagar e a pedir meças por causa de uma passagem que Carradas lhe tinha trancado dizendo que aquilo era dele. Por via disso, Vigura tinha que dar uma grande volta para entrar aquilo que era seu. Cismou que havia de fazer a folha ao Carradas e, pronto, partiu da evidência - que o não foi - de que eram favas contadas: limpava o sarampo ao velho.
Carradas acordou com os brados e viu logo que era o Vigura. Passa do tugúrio ao palheiro, agarra na machada do cepo, esperou que o vigura se aproximasse e, quando este o viu, deixou de ver mais nada: a machada enterrou-se-lhe cabeça adentro, os miolos espalharam-se, o sangue era lavado pela água da chuva.
Carradas vem à Aldeia, acorda o Fatela e vai-se entregar à guarda. O Vigura já estava teso quando a patrulha lá chegou.
Lá está: morreu por estar convencido de uma verdade. Não a pôs em questão.
Pela mesma razão palestinianos e israelitas combatem e se matam: cada um agarra-se à sua verdade, esquecendo que estão ambos errados.
Mais airosamente me saí eu, fez agora anos. Mandei embrulhar um bolo rei julgando que tinha levado dinheiro. Quando ia para pagar constato que nem um avo trazia:" oh diabo! então agora esqueci-me do dinheiro... olhe, embrulhe-me só o buraco!"
Foi o que trouxe para casa.
XXXXIIIIIIIIIIII GGGGGGGGGGGGGRAAAAAAAAAAAAANNNNNNDDDDDDEEEEEEE

quarta-feira, janeiro 07, 2009

A NOSSA FALADURA - CXXIII - CRUITO

Há quem diga que o melhor remédio para vencer momentos de crise, doença, fraqueza, ... é querer ultrapassá-las. Assim, um doente pode recuperar mais depressa se ajudar os remédios a fazer efeito, isto é, se colaborar internamente, com as ajudas externas. E assim de seguida.
Carl Rogers falava na pessoa como centro e assim o ajudante externo apenas seria facilitador da recuperação dos momentos de afundamento de qualquer pessoa. Ninguém substitui ninguém e se o acompanhante conseguir estabelecer com o outro uma relação de companheirismo, de entendimento, enfim de empatia, consegue compartilhar as mesmas emoções e, como agora são dois a querer subir a montanha é mais garantido que acedam ao cruito. Nenhum de nós é melhor do que nós todos juntos. Facto é que todos precisamos uns dos outros. Até o narcisista socrático que nos governa precisa de quem vote nele. Nanja eu...
Afinal a questão do ser e do ter continua premente. Em termos efémeros, de usufruto, o ter é relevante, mas, em termos de perenidade, é o ser que comanda. Decididamente mais vale ser do que ter. Veja-se o que se está a passar com quem tanto tinha e agora é por todos considerado um trafulha, um mamão,.... Menos, outra vez, pelos governantes que se apressam a adiantar o que faz falta aos que têm muito e se descuida com os que não têm, às vezes, com que dar entulho ao bico. E a justiça vai com a governação. Emperra situações, os artistas da legislação inventam em tempo útil novas formas de empecilhar tudo e aqui andamos nós todos a ver andar os combóios e a construir aeroportos em vez de se construirem, por exemplo, hospitais de rectaguarda , e eles a viver à fartazana. Não vale a pena citar nomes mas não há dúvida, só para exemplificar, que o Vale e Azevedo é um paradigma. Tem, mas não é. Nunca será como nós que lemos o Baságueda que não temos mas somos. O ter é adjectivo, acessório, se bem que útil, mas o ser é permanência, contância, hombridade, dignidade. O ser está no cruito, o ter vegeta pelo pântano. Viva quem é, e mainada!
Tonho Brigadeiro era mesmo assim: sempre de fato à militar, espécie de ganga cinzenta, botões cravados como o fato dos músicos das bandas, bota de cabedal sempre bem ensebada, não raro com assomo de ceroula, por causa da encolha de tanto Angélica lavar as calças do mesmo material, na pedra da ribeira, ali junto à ponte . No tempo da azeitona, dizia o Brigadeiro, que era capaz de subir ao cruito das oliveiras, foito, assim mesmo comédado, porque "nenhum galho ou parnada de oliva se engarranchava naquela roupa e assim non havia empecilho que estorvasse a subida até ao último degrau da escada". Pena leve como era, Brigadeiro não se importava de começar as mudas à sombra porque ele, pequeno, leve mas verguio, agarrava-se logo à escada de dezoito degraus e ia logo lá para cima , mesmo até ao cruito.
Brigadeiro era feitor de Zé Geadas, roupa afinada, velhaco como as cobras, inquisidor mor, chegava a dizer que vinha ao povo quando andava lá pelas portelas, mas até dava conta se algum seu trabalhador ia a monte arrear o calhau. Punha-se a espreitar atrás de um barroco. Era má raposa, este Geadas.
Seu filho , também Tonho e Brigadeiro, fotocópia do pai foi o chefe de agrupamento de escoteiros na terra xendra. Foi efémera esta iniciativa e, em vão, Tonho se enfronhava a querer ensinar-me a dar os nós que os escutas sabem Tá quieto, oh mau! nunca aprendi aqueles nós esquisitos. Ainda assim, aprendi a sobreviver em condições, as mais agrestes. Aí sim, aí, era eu um campeão: a nadar, a resistir ao frio, a trepar a árvores, a arranjar armadilhas, a pescar à mão, a montar ciladas,... Eram bons os quinze dias de Verão!
Tonho era fiel às determinações dos escoteiros e cumpria religiosamente com os princípios do Baden Powell. Tinha mesmo uma folha onde cada Domingo marcava as faltas a quem faltasse à missa e era sempre do grupo de escutas que saía o ajudante para a missa pelas intenções do povo.
O velho Brigadeiro era fonte de arrelia para o filho Tonho porque, para além de chegar sempre tarde à missa, ainda por cima pigarreava e puxava pelos escarros de forma única em plena igreja o que era motivo de chacota e arrelia.
Tonho atentava-o:«num tem vergonha nenhuma, nunca mai aprende que o padre num espera por si... E depois vem sempre a alimpar as ventas prá missa, rais o afundem!»
O velho respondia invariavelmente: « Tu bim sabes que se eu tivesse vindo a horas à missa daquela vez, se calhar já num tinhas mãe quando ela escorregou ao cimo das escadas e vinha a arrebolar po li abaixo»
Nós já sabíamos a história, mas duma vez: «Ó ti Tonho, atão porque é que vomecê no agarrou a ti Angélica quando ela ia a rebolar pelas escadas?»
O velho tem esta tirada monumental: " Ó cachopo, eu num sabia se era promessa e assim ela tinha que se deitar abaixo das escadas outra vez. Assim só caíu uma vez, embora ficasse toda desmazelada." O que lhe valeu foi eu ter chamado a ambulância.
Tonho ficava baratinado e desandava dali.
XXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGGRRANNDDDDDDEEEEEEEEEEE

sábado, dezembro 27, 2008

A NOSSA FALA - CXXII - ALDRA

Freud tratou deste fenómeno de forma superior: o contínuo desejo de retorno ao ventre materno, ou, dito de outro modo, o retorno às origens: a Regressão. Tal como Homero no canto X da Ilíada, narra de forma única o mito do eterno retorno: essa eternidade constante mas sempre renovada. Todos os anos há Inverno, mas ele é cada ano outro e é nesse fluir que a vida ao morrer se renova. Afinal tudo começa onde acaba. O que nasce traz já consigo a morte. Morrer é reviver e aí está o cerne da eternidade.
A ideia de procurar a origem das palavras só faz sentido se for no intuito de descortinarmos o significado original. É na fonte que se encontra a pureza dos significados. Aí não é preciso depurar nada. Está tudo virgem, intocado, puro, límpido e cristalino.
Foi assim no comentário do Karraio ao escarrafoucedo e assim vai ser aqui. Vou regressar às origens como sempre faço: Freud com a regressão e o ciclicismo homérico acompanham-me.
Em tempos, quando tinha mais vagar, entretinha-me a brincar com muitos aspectos da aprendizagem por que ia passando. Foi assim que profanei o singelo e inimitável poema de Augusto Gil - A Balada da Neve - a que chamei Balada da Pinga e que era mais ou menos assim: Bebem leve, levemente/Como quem bebe por mim/Será vinho ou aguardente/Ginja não é certamente/ E a cerveja não se bebe assim./Fui ver: a pinga caía/Tinta e leve, tinta e fria/... e por aí adiante.
Foi também assim que me deu para brincar com a convergência e a divergência, a propósito da entrada das palavras na língua portuguesa. Em regra, diz-se, as palavras ou entram por via erudita ou por via popular. Assim: solitarium deu em português solitário, por via erudita e solteiro, por via popular. Tudo bem, mas não tem piada. A questão agora prendia-se com a palavra NAU, cujo étimo latino é NAVEM (acusativo do singular de navis-is). Então, saio-me assim : NAVE entrou por via espacial e NAU entrou por via marítima.
Vem isto a propósito da origem da palavra que hoje vos trago aqui. Esta veio de Cometa.
Zé Cometa era ajudante de carga no antigo serviço de correspondência das centrais de camionagem com a C.P., que por acaso era lá em casa. Cometa era um fraca chichas, homem aí de 1,60 de altura, esquelético, mas verguio e teso como vi poucos. Brincava com as sacas cheias de batatas e, às vezes, eu e ele punhamo-nos a ver a que distância conseguíamos lançar uma saca de 50 Kg da loja para a camioneta encostada à porta. A loja era curta. Não havia pai. Muitos lá foram mas só eu e Cometa ou Pereira (o motorista),outro bom amigo desses tempos fazíamos tal proeza. Por tudo e por nada, Cometa gritava ALDRA! a moda pegou e a xendrice agarrou a palavra e fê-la sua. Ainda hoje se ouve por lá. Veio mesmo de Cometa
A vedeta que hoje vos quero trazer, porém, é o Miguelito: figura mais que famosa, fogueteiro das festas com camião, sempre pronto para ajudar em funerais, procissões e outros eventos, mordomo quase perene do sr. S. Bartolomeu, leiloeiro, pedreiro, mineiro, tosquiador, lavrador, limpador, cortador de lenha, valdevinos e amigo de fazer rir o pessoal. Lembro-me bem de, quando ele trabalhava para o Alferes Rei, ser o grande animador dos Carnavais da Aldeia. Só por uma vez foi substituído e um dia logo vos conto como foi. Estou a vê-lo, qual Napoleão, montado numa mula, de espada brandida, dando notícia dos namoros escondidos que por lá se passavam. Corria a Aldeia toda como um arauto, anunciando o que se queria ocultar. Era tchapado o Miguelito.
Casado com Lurdes Lúcia, de vez em quando abalava-lhe sem dar cavaco e ia a ver delas. Chegou a ir para França sem lhe dizer nada.
Certo dia, depois de regressar de uma dessas suas viagens mirabolantes, prometeu à Lurdes que só vinha ao povo a beber um café e voltava logo para casa. A promessa fez ele, mas o cumprimento foi como os do governo. Esqueceu-se.
Lurdes, cansada de esperar, deitou-se. Miguelito foi para casa já madrugada dentro, meteu-se à sucapa na cama, Lurdes fingiu que não deu conta.
Na manhã seguinte: «oh, meu aldrabão, a que horas te deitaste onte, à noite? E o Miguel:" às dez; demorei-me um pouco porque incontrei o Changoto e estivemos a escrever uma carta prá França, por mor da Segurança Social. Se num acreditas, pergunta-lhe".
Miguelito tinha ideia de me preparar para a inculca mas Lurdes veio ao sabão, à loja:« Já viste: o mê Miiguel disse que entrou às dez em casa e que esteve contigo a escrever uma carta prá França, o aldrabão...Eu bem ouvi o relógio a bater só uma hora» " Ó ti Lurdes, atão tamém queria que o relógio batesse o zero" « És igual a ele, ALDRA!
Para todos vós os desejos de um Ano Novo com tudo o que mais desejardes; convém não esquecer que o último minuto de dois mil e oito tem mais um segundo, para acertar o movimento da terra com a hora atómica. Ela vai-se atrasando. é preciso dar-lhe mais tempo.
Não esquecer que o relógio não bate as zero horas...
XIIIIIIIIIIIIIIII EEEEEEEEEEEEEENNNNNNNOOOOOOORRRRRRRRRRRRRRMMMMMMMMEEEEEEEEE

segunda-feira, dezembro 22, 2008

VOTOS

A vida, como sabeis, está a modos que encrencada e há alturas em que uma pessoa se sente desacorçoada de todo. Tendes que ser azados cassenão ficais chapados. Tenteai as dificuldades comédado, não sejais taloubenas nem nhonhas, não cuideis que a galula é certa e andar só à gosmia também não é a atitude mais acertada. Se for preciso mostrar que tendes cafones, mostrai-os. E quando vos sentirdes assim mais tchoutchinhos, buêi umas p'chorras valentes e lêde o Baságueda para não encorranchardes . Mas ide dando inculcas.

O Changoto e o Karraio votaram. Por unanimidade e aclamação é-vos desejado um Feliz Natal e um Bom Ano de 2009.





Se acaso alguém estava com ideias de me oferecer uma prendinha de Natal e não sabe bem como me agradar, eu facilito: pode ser o dvd deste concerto de Natal.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

A NOSSA FALA - CXXI - ESCARRAFO(U)CEDO

A vaidosice sempre foi característica dos seres vivos sexuados, quer machos quer fêmeas. Se bem que a Apostólica Romana a tenha colocado no rol da Preguiça, da Ira, da Inveja, da Gula, da Luxúria, da Avareza, a Vaidade ou Orgulho, mesmo na Idade Média e apesar das santas atrocidades cometidas pela Santa Inquisição, nem mesmo assim ela alguma vez se reduziu. Ao contrário, cada vez mais fermentou e no mundo de hoje a pedantice grassa por tudo quanto é sítio.
Lembro-me, lembro-me bem, de, por alturas da catequese para o Crisma, altura em que o bispo diocesano saía do seu opulento Paço, onde até se podia a gente pentear ao espelho dos azulejos, Clara Violas, Tonha Freira, Menina Irene, Menina Palufa, Joãozinho Bargão, ensinavam e repetidamente insistiam no significado deste Sacramento: Que seríamos soldados de N.S.J.C..
Chegado o dia, no lado Norte, a todo o cumprimento da Igreja, estenderam-se as mesas e as iguarias foram espalhadas por cima de toalhas alvas: bolinhos de toda a qualidade - borrachões, esquecidos, bolos de leite, de noz, de amêndoa, tartes e tortas, de buraco e fechados, pão de ló, e mais cascuréis (=coscorões), biscoitos, troncos, pratinhos com chouriço, presunto, queijo, azeitonas, galos no forno, coelhos, e até um perú... e sumos de capilé, groselha e limão, grades de pirolitos, gasosa castraleuca e prazeres, laranjada e muito leite de cabra e de vaca em cântaros de lata, tapados por guardanapo bordado à mão - Não havia A:S:A:E:.
Bebi leite com cacau naquele dia pela primeira vez. Ainda hoje bebo. Gosto muito de cacau com leite.
Era um regalo de ver: tudo muito bem arreado, assim mesmo como mandavam os trinques: avôs de surrobeco de jaqueta ao lado, relógio de bolso, preso por corrente de prata segura com nó cego na casa do botão do colete, avós com chita bem passadinha coma atilho na cintura, sandalinha de cabedal a reluzir, saiote a meia perna e algumas de avental "por mor de alguma nódoa", as mães, mais novas, já com saia de merca em feira e, algumas mesmo, com vestido feito pela ti Glória em fazenda garrida comprada na Troa, Tó ou João Robalo, e blusa ou casaquinho a "conduzir" =(condizer) com a farpela, todas (avós e mães) de lenço na cabeça, algumas já de preto, os pais, esses de botim cardado, fato feito por medida no Tó Pedro, chapéu de aba curta.
Chquim Camião e Miguelito estavam ao alto da estrada, à espera que o séquito episcopal lhes estivesse ao alcance da vista e , de repente, PUM,PUM;PUM,pum,pum, tau,pum: o bispo estava a chegar.
Só nessa altura é que os dois manos Chamiços, João Feijão, Domingos Abade e outros foram molhar as fúcias no caldeiro da água, lavar a cabeça com sabão de borra de azeite e mistura de petróleo, vestir-se à pressa e chegar ao adro esbaforidos, mas a horas de entrarem na fila comandada pelos respectivos professores e ao lado dos padrinhos competentes.
O cabelo dos Chamiços alumiava. Naquele dia de S. Bartolomeu, brilhante de Sol, a mistura do petróleo da lavadela com o suor da corrida deixou a cabeça dos dois irmãos a reluzir que nem pirilampos nas guardas da ponte em noite húmida.
Já de si aquele cabelo era desalinhado e depois cortado com a tesoura da costura com a ajuda de uma malga para ficar arredondado, dava aos Chamiços, de face encarnada, um aspecto escarrafoucedo. Menina Irene vê aqueles preparos e foi-se a eles, só o que o cheiro do petróleo era ainda intenso e mexer naquele cabelo era impensável para uma mão de alvura mais que neve. Como resolver o problema: sobrou para mim, está claro. Pediu-me para acender o fogão que havia de servir para amornar o leite ao fim da cerimónia, aqueci água, ela lavou a cabeça aos Chamiços com sabonete e saio-me: «O Mné furdas trouxe-me um perfume de Espanha, quer que o vá buscar?»Era Tabu, cheirava a uma légua, mas Menina Irene antes queria Tabu do que Petróleo. Untou a cabeça dos Chamiços que continuaram escarrafoucedos, mas cheirosos. Empestaram a igreja toda. Os velhos cá atrás comentavam:«quem será o do garoto que tomou banho em Tabu? Raios o afundem...»
D. Policarpo quis saber da nossa competência: " Quem me diz o que significa o Crisma? "Ao fim de algum tempo lá levantei a mão e a Clara Violas, catequista, ficou assim a modos com medo e "Vê lá se sabes?" "Diz lá meu menino! "e vou eu: «O Santo Sacramento do Crisma significa que agora nós pertencemos ao Exército da Santa Madre Igreja Católica Romana e somos soldados de Nosso Senhor Jesus Cristo! » " Muito bem! E como se chama aquele soldado que em vez de obedecer às ordens do comandante para avançar e atacar, vira as costas e foge?" Prontamente digo :« é um cagão , senhor bispo». Risada geral em toda a igreja e discussão pegada; Zé Borges acalma as hostes no coro:" o miúdo tem razão porque um cagão é um cagarela mas também pode ser um vaidoseco".
D. Policarpo lá me crismou, levei a bofetada do meu padrinho e fui-me ao cacau e ao presunto, ao queijo e aos cascuréis. Mas não fiquei ao lado do Chamiço de cabelo escarrafoucedo e cheio de TABU
XI GRANDE

sexta-feira, dezembro 12, 2008

A NOSSA FALA - CXX - (T)CHINCAR

O ícone da Justiça é, de si, polémico: olhos vendados, balança inclinada espada de gume lasso, jovem, são símbolos que podem ser lidos do lado avesso. De facto, ter os olhos fechados, pode indicar que a lei é igual para todos e que a justiça não privilegia ninguém, seja rico ou pobre, crente ou infiel, branco ou preto, nobre ou plebeu, mas também pode ser lido de outra forma: fecha os olhos à realidade, não liga a circunstancialismos decisivos, dogmatiza as suas conclusões, apodera-se da verdade e não quer saber de mais nada, breve, confunde verdade com veracidade ou verosimelhança; a balança inclinada também oferece leituras contraditórias, porque pode significar que, seja qual for a força dos argumentos, ela, a Justiça, há-de descortinar a verdade oculta e, qual divindade, "escreverá direito por linhas tortas"; ou, diferentemente, pode induzir a que se pense que, por muito que ajuíze, há-de sempre pender para um dos lados, já que a equidistância do fiel é perturbada pela inclinação dos pratos da balança; a espada de gume nada afiado pode querer dizer tudo menos que corta bem a direito e a juventude da donzela que a empunha, tal como à balança, não é obrigatório que signifique que a Justiça mesmo que seja aplicada tarde é sempre a justiça e nunca envelhece. Ora, é sabido que a experiência não deixa de ser boa conselheira e que só se obtém depois de longos anos de vida.
A Justiça, como a Beleza, a Bondade, a Caridade e outras virtudes são irrepresentáveis tal como não podemos representar um fotão, ou um Volt ou um Ampère, um Joule, etc. Podem ser traduzidos em valores matemáticos, em relações de ratio, mas nunca sabemos como são: sabemos o que valem.
O importante para nós não são as coisas em si mas o que elas valem. O valor da Justiça é mais importante do que a sua própria substância, e assim das outras formas ideais. É pela sua influência na nossa vida que nós as avaliamos.
O mais interessante no meio de tudo isto é que nós somos sempre insatisfeitos e não ficamos consolados com o que temos, isto é, apreciamos a estabilidade, a ordem, o equilíbrio, exigimos que se cumpram as regras que permitem a convivência pacífica, mas, a cada passo, achamos que "isto assim não está bem" e vai de, não raro, fazermos as nossas privadas regras de conduta que colidem com as geralmente aceites. Criamos o desequilíbrio, a desordem a instabilidade. É por isso que há guerra e crime e o resto que, se não existisse, dispensaria a necessidade da Justiça para corrigir a ofensa. A justiça vem sempre ao fim quando devia estar ao princípio. Atiramos:" é da mais elementar justiça que..." Só que a justiça não conhece o nosso elementar.
Não há muito tempo, um parlamentar afirmou que os animais não têm direitos. Aqui d'el rei que o homem não sabe o que diz, clamaram muitos pseudo defensores dos animais. Mas, a verdade é que muito antes de ele o ter dito já eu o pensava.
Quem dá e tira os direitos aos animais, somos nós. Afinal, criamos coelhos, galinhas, vacas, porcos, patos,...,pescamos, caçamos, fazemos trinta por uma linha aos animais e, ao fim, até os comemos. Invadimos-lhes os espaços, delimitamos-lhes os contornos, seleccionamos as gerações, limitamos a sua propagação...
Entre os muitos animais que tive, um me deixou saudades maiores: um pardal.
Apanhei-o caído do ninho, levei-o para casa, aqueci-o, fui à minhoca, fiz papa com gafanhotos esmagados com farelo, arranjei-lhe um espaço com cobertor para não ter frio, metia-lhe comida no bico, dava-lhe água com uma palhinha...O pardal cresceu e afeiçoou-se a mim: ia comigo para todo o lado, quando queria voava, mas voltava sempre para mim e nunca teve a porta da gaiola fechada. Essa foi a causa da sua morte: um gato comeu-o.
Ainda o vi a roer as últimas partes do meu Golifão...
Evidentemente que isto não podia ficar assim.... Arranjei modos de fintar o gato e um dia lá calhou: com uma pressão de ar (T)CHINQUEI-LHE um olho. Mandou um escrito ao ar, um grito de dor lancinante e eu«e se te torno a agarrar a jeito (T)CHINCO-TE o outro. »
À distância no tempo e com o passar dos anos, fui entendendo que a ordem da natureza é mesmo assim e que, se calhar eu devia ter deixado o passarinho à triste sina de ter caído do ninho .
É sempre assim: a morte de um pode ser a vida de muitos. Mas, no momento da emoção, a gente cega e chincar um olho ou dois a quem perturba a nossa felicidade, ainda que mesquinha, não faz diferença: tem que as pagar !
O ser humano é naturalmente mau: é o mal radical que já Kant propalou.
Bem se fazem, votam e aprovam Declarações Universais (passaram agora 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ! Vede só como vai o seu cumprimento...
Com esta vos deixo.
XI GGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNDDDDDDDDDEEEEE

sexta-feira, dezembro 05, 2008

A NOSSA FALA - CXIX - (t)CHANCA

Não sei bem se já partilhei convosco, mas não faz mal se me repetir. O ocidente, onde vivemos, tem uma mão cheia de matrizes que determinam a nossa forma de ser ,estar e pensar e até agir, crer, procriar, tudo... Os livros incidem, na sua maioria em duas grandes matrizes, que afinal são três:a grega ou helénica e a judaico-cristã: a Bíblia, sempre a Bíblia, sem ou com Novo Testamento. Ineludível, indiscutível, irrebatível. Cá para mim, porém, não são só estas as grandes marcas teleonómicas que nos vinculam a uma forma específica de viver a vida. Como Camões quando viu o fogo de Santelmo -vi,claqramente visto -, também eu claramente vejo que não podemos deixar para trás, ou alijar para o lado, as influências marcantes dos celtas, (basta ver os enormes robles - que ainda os há - e que eles plantavam por cada filho varão; isso mesmo, o QUERCUS, o carvalho robusto, frondoso e duradouro; depois, dos romanos, esses dominadores imperiais que por aqui andaram, na Bética e na Lusitânia, com centro na vetusta Egitânia e, que mais não fora, nos deixaram, como legado, a língua com o seu SERMO VULGARIS ou PLEBEUS, e até com o ERUDITUS, para aqueles que sabem que Cícero teve essa alcunha, por causa de uma barruma que tinha mesmo na ponta do nariz e que se parecia com um chícharo. Daí que não ficasse apenas com o nome de Marcus Tulius e se distinguisse pelo Cícero. A sua eloquência era tal- basta ler as Verrinas, ou as Catilinárias, para ficarmos espantados com a capacidade investigatória e oratória, não sem Retórica da mais apurada, que ainda hoje, aqueles que nos explicam o significado das obras nos museus ou nas igrejas, ou..., se chamam cicerones. Mas não ficam por aqui as nossas matrizes: os árabes, esses soldados do profeta, de espada em forma de crescente e que o brazão de Penamacor ostenta, deixaram estigmas culturais que o tempo não mais apagará. Não vingou a língua, se bem que alguidares, almotolias, almofarizes, alcatruzes, alfinetes e outros al, para além das práticas no fabrico de azeite, vinho, sistemas de rega, tudo e ainda mais, nos chegou por via dos moiros. Os moiros, esses mesmos a quem os reis conquistaram os castelos até ao Algarve.
Sendo assim, a nossa cultura não é unívoca mas plurívoca. Invoca e evoca muitas matrizes.
Vem tudo isto a propósito de que andei a procurar, cá bem no fundo, donde derivaria etimologicamente este fonema TCHANCA, que hoje aqui vos trago. A verdade é que não encontro raíz que me pareça fidedigna e, olha, se errar também não vem daqui grande mal ao mundo. Tenho para mim que isto há-de ser celta.
O velho Corlha, soldado veterano, combateu em la Liz na primeira guerra mundial e foi dos poucos portugueses que escapou à chacina. Tinha mesmo uma pensão, dessa sua jornada por terras de França. Era crónico vê-lo sentado com outra figura castiça que ainda não constou neste memorando: o velho Domingos Argentino, emigrante lá pelas sulaméricas e agora vivendo dos rendimentos, especialista a amortalhar tabaco de onça, em mortalha da marca Cegonha (não há outro que se lhe oponha). Tinha uma bela casa com um dossel de vinha ferral por um corredor exterior até à porta onde é hoje a casa do Branquinho. Era das casas mais originais, com frescos pintados nas paredes de tom predominantemente azul.
O Corlha, coxeava devido a uma TCHANCA mal tenteada: contrabandista, como muitos, trazia um carrêgo para o Zé Aranhiço, já tinha passado a Baságueda e vinha já todo lampeiro a pensar que o dia estava ganho. Ouviu o tropel de cavalos e teve que acelerar. Ia a atravessar uma barroca, e, fosse pelo peso do carrêgo, ou por ter escorregado na altura do impulso, para, de uma TCHANCA o passar, bateu na outra margem e partiu o tornozelo. O grito de dor denunciou-o, perdeu o carrêgo, mas salvou a vida, que o mais certo era ficar ali sem se conseguir mexer, se a guarda fiscal não desse com ele. Depois ainda foi preso por ter envenenado o irmão; enfim, uma vida complicada a do nosso Corlha. Já não a de Domingos Argentino, esse, por essas dez aparecia ali pelo batoco, sentava-se no batorel do Agostinho Ratado, amortalhava cigarro atrás de cigarro, ia ao Chico ou ao Fatela escorropichar um copinho e voltava e era vê-lo a comentar quem ia ao chafariz.
Quem lhe fez a casa foram dois irmãos que vieram dos Escalos e casaram na Aldeia: Moisés e Tonho Pitincouro - os Pitincouros. Deles se dizia que sabiam tralha como um corno. Se alguém quisesse saber quantos litros levava uma pipa ou um poço ou o que quer que fosse e tivesse forma cilindrica, tinha que se socorrer deles. Eram artistas: faziam render o segredo. Eles sabiam o valor do PI. Nunca o revelaram. Os 3,14 eram exclusivos dos Pitincouros.
O Zé Chornico tinha aberto um poço, ali perto donde eram as poldras, num chão colado ao Zé Toco ( o Zé Mangueira, de quem se dizia que o tinha tão grande que dava duas voltas à perna e sobravam 15cm para mijar) e deu com um nascente dos lados do sol nascente -os melhores- e quis saber quantos litros levaria o poço para calcular se havia de afundar mais ou não.
Não tinha fita métrica, calculou a altura pelos degraus da escada e o diâmetro:«ponho aqui um barrote de travesso e espeto-lhe uma tábua por cima e meço isto à Tchanca» Depressa fez o que pensou, mas a Tchanca não dava certo com as bordas do poço e então chega-se aos Pitincouros e: « o mê poço tem de altura dezoito degraus de escada e de largura três tchancas dois palmos, uma mão de travessa e o mê tchapéu. Quantos litros poderá levar quando estiver rasinho?» Os Pitincouros calculam a altura com base nos 35 cm por degrau e cada Chanca a 1 metro,o palmo a 20 cm, a mão travessa a 10 e o chapéu a 15, e concluem: "Ó ti Zéi isso é bicho pra conter aí por volta de 22.500 litros". Vamos a beber um copinho que a água já me dá. Quando é que me podeis ir a forrar o poço"?
E assim, valendo-se do seu saber o valor de PI os Pitincouros lá ia arranjando trabalho. Sim, que eles eram pedreiros de profissão.
Novas xendrices para a semana.
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BANDA DE ALDEIA DE JOÃO PIRES




Naquele ano de 1908, a capital da Nação vivia dias agitados. A pontos de se ter morto um Rei, Carlos, Dom, o Primeiro. Em Aldeia de João Pires viviam-se igualmente dias agitados, mas por motivos bem mais prosaicos, mas não menos consequentes: fazia-se nascer uma Banda Filarmónica.

Há dias, festejou-se com pompa e circunstância, o centenário da sua fundação e o Baságueda aqui presta a sua homenagem a tão insigne Instituição: A União de Aldeia de João Pires, Sociedade Recreativa e Musical, de seu nome completo e oficial. A pompa e a circunstância incluíu a publicação do Livro “Banda Filarmónica de Aldeia de João Pires – Centenário”, da autoria de Lopes Marcelo, que reúne muitas das muitas histórias que cabem num século de história.


Contam-se duas, a primeira, protagonizada pelo primitivo impulsionador da Banda, o Pe José Maria, e recordada no dito Livro, remete para o episódio da efémera restauração da Monarquia em Aldeia de João Pires, em 1912; a segunda, referencia um outro grande homem da Banda: o Sargento “Jaimeca”.


1. Com a devida vénia, transcreve-se um pequeno extracto do texto de Lopes Marcelo:

“Na sequência da implantação da República em 1910, seguiu-se um período de agitação em que a perseguição às Ordens Religiosas e à Igreja Católica foi muito forte, com a alteração das funções dos Párocos resultante da Lei do Registo de Afonso Costa em 1911. Acresce que o Padre José Maria era um fervoroso adepto da monarquia e, em 1912, perante a notícia de que o movimento chefiado por Paiva Couceiro tinha restaurado a Monarquia no Norte, não se conteve e proclamou restaurada a Monarquia em Aldeia de João Pires em clima de festa e com foguetes. Quando a notícia chegou à guarnição militar aquartelada em Penamacor, logo a tropa saiu para repôr a ordem republicana…”

A história continua com a fuga do Pe José Maria, primeiro para Monsanto, com contornos rocambulescos, depois para a Espanha e daí para o Brasil. Anos mais tarde, em 1926, haveria de retomar as suas funções de Pároco de Aldeia de João Pires (e Aldeia do Bispo).


Fugas à parte, realça-se o episódio interessante da restauração da Monarquia pelo Pe José Maria, donde, comparativamente à grande maioria do resto do vastíssimo território português - nesta época incluíam-se as províncias ultramarinas -, Aldeia de João Pires tem mais tempo de Monarquia, ou, se se preferir, tem menos tempo de República.

2. Jaime Antunes Rei, mundialmente conhecido por Jaimeca, atingiu o posto de 1º Sargento do Exército Português, tendo dedicado parte da sua vida à Banda de Aldeia de João Pires, sobretudo a partir da aposentação em 1963, quando se fixou na sua aldeia natal. Localmente, também se referiam a ele como "sargento porqueiro" por via da criação de suínos que mantinha ali nas imediações da aldeia. O Changoto já nos fez antever, no post anterior, quão especialista ele era na arte de criar recos, a pontos de até ter pretendido registar a patente de uma nova raça: a ALJARPI. Os animais andavam soltos na sua propriedade, alimentando-se de tudo o que podiam encontrar, fossem bolotas ou criadilhas, preocupando-se Jaimeca, todavia, em lhes fornecer o complemento nas medidas que só ele sabia determinar, com as farinhas que ia comprar a Aldeia do Bispo, ao estabelecimento comercial dos progenitores destes dois que vos entretêm no Baságueda. Igualmente não prescindia da clássica vianda, composta de restos de comida e legumes vários, muita botelha, batata miúda, couves, tomate, enfim, todo o excedente da horta.


Antes de ter investido numa mobilette, seguramente por influência de algum emigrante em França, daquelas que possuíam pedais só para a pôr a trabalhar e depois andava sem mudanças, o seu meio de transporte por excelência era a bicicleta, quer para se deslocar a Aldeia do Bispo à farinha, quer para abastecer a pia dos seus tós. Cena característica era a do Jaimeca a transportar vários caldeiros de vianda enfiados pela asa numa vara assente no guiador da bicicleta, mais uma saca de ração no suporte traseiro. Um equilibrista, o Jaimeca. E sempre, mas sempre, com uma mola de roupa a apertar a parte exterior das calças, junto ao tornozelo, por via de não as sujar com a massa da corrente da bicicleta.


Numa das centenas de vezes que lhe vendi uma saca de 50 Kg de ração para porcos em crescimento, que ele acondicionou cuidadosamente no suporte traseiro, já ele tinha percorrido 100 metros estrada acima a caminho da sua Aldeia de João Pires, quando, ali junto à casa do Ti Julho Aspirante, lhe aconteceu um raro percalço que até o fez tombar. A cena resume-se em dois parágrafos:


Vinha a descer o T'Zé Branco, de aguilhão empinado assente no ombro, à frente da sua Junta mista composta pela vaca andorinha e da burranca freira maria, assim chamada por causa da lista branca na testa a contrastar com o escuro do resto do pêlo. A sair do quintal, vinha o jerico pardal do Aspirante que de imediato cheirou o cio da freira maria. O instinto animal do pardal não quis saber dos berros do Aspirante nem do aguilhão do Branco e vai de atirar as patas dianteiras para cima da asinina fêmea, firmemente determinado a doar-lhe a sua contribuição para a reprodução da espécie.


O rebuliço apanhou o nosso Jaimeca em cima da bicicleta, em equilibrio periclitante, não tendo conseguido evitar o estatelanço no alcatrão. Não ficou muito magoado o maestro músico, mas a saca da ração rachou ao meio espalhando a farinha para porcos em crescimento a toda a largura da via, mesmo à frente da vaca andorinha. Esta não se fez rogada a aproveitar a oferta, manjar raro para as sua beiças. Foram precisos algumas aguilhadas no costolado dos quadrúpedes, evidentemente acompanhados por vocabulário impróprio, mesmo para eles, por parte do T'Zé Branco, para repôr a ordem e a lei. Ajudei o Jaimeca a apanhar a farinha para uma nova saca e ele lá seguiu em direcção à aldeia dos cucos.



Aqui ficam expressos e registados os votos de longa vida à Banda Filarmónica de Aldeia de João Pires.







sábado, novembro 29, 2008

A NOSSA FALA - CXVIII - (T)CHASCAR

Em tudo o que move, algo há em repouso e, em tudo o que está quieto, algo se altera. Assim somos nós: sempre os mesmos e sempre diferentes. Por isso a vida aumenta e encolhe ao mesmo tempo. Cada dia temos mais um e cada dia nos falta um. Do nascimento à morte é este o nosso sortilégio.
Além disso a nossa cara muda em função da situação, do local, do tempo, da idade, da emoção, do conhecimento ou desconhecimento, da cultura em que nascemos, do género sexual, do interesse, da necessidade, que sei eu... Sendo sempre nós estamos sempre a ser outro de nós. Nem nos esgotamos quando somos nós, nem há qualquer outro de nós que nos substitua cabalmente.Não sendo profissionais, somos actores. Na verdade, o actor é aquele tipo de pessoa de quem nunca sabemos se é ele ou alguma personagem que esteja a representar. A identidade entre o ser e o parecer consumam-se e confundem-se na arte de representar. Vede bem! o que está presente não é o presente, ele mesmo, mas um presente repetido, reforçado, outro presente: RE-PRESENTE(AR). Confuso, não é? Se calhar não vos soube apresentar o que queria que agora fosse a vossa re-presentação de mim. É ou não verdade que, quando me ledes, me imaginais? Construís uma imagem de mim, isto é, uma re-presentação de mim. Com a incerteza de que nunca sabeis se corresponde à verdade. É isto a Hermenêutica: a personificação de Hermes, o deus dos ladrões. Quando interpretamos roubamos, porque tornamos nosso, sem autorização do autor, o que ele nos apresentou. Nunca sabemos se o que pensamos que é, é o mesmo que o autor queria que tivesse sido. Foi por isso que Sócrates (o grego) nunca escreveu. Defendia que o texto morria na palavra. Eternizava-se. Já a palavra falada discute, vive, contrapõe, adapta-se, está presente ali, sempre à hora.
Vamos às xendrices:
Nunca foram muitos, na nossa aldeia, os criadores de porcos - aqueles que tinham porcas PARDEIRAS (por parideiras), mas sempre acontecia que, voluntariamente ou não, por vezes, aparecesse alguém a anunciar que a porca se tinha coberto e estava cheia: "nem dei conta. O sacana do bácoro tão pequeno saltou à porca da matança. Agora só a posso matar lá mais prá frente, tenho que a deixar crier os recos."
Calhou-me a mim que, lá em casa, ali para os lados dos cabeços havia três porcas pardeiras e, mais grave ainda, todas três pariram com pouco intervalo. Uma vinha cheia quando foi comprada e não se sabia, a outra tinha sido chegada ao barraco (varrasco) do Jaimecas à Aldeia de João Pires e a terceira tinha sido vítima do já atrás referido: um irmão, que estava na mesma furda, encheu-a.
Jaimecas, esse sim, fazia criação com alguma intensidade, extensão e continuidade. Mestre da Banda da Aldeia, para quem envio os parabéns pelo centenário, músico emérito, apesar dos dedos sarotos na mão esquerda, tanto tocava sopros como cordas. Um campeão.
Gabava-se de ter ele próprio criado uma espécie exclusiva da raça suína: a espécie ALJARPI.
A denominação advinha de ALdeia de João PIres e do nome dele ao centro - Jaime Antunes Rei - Estais já ver: AL JAR PI.
Voltemos então à minha desgraça: as porcas pariram mesmo no calor- na segunda semana de Agosto. Calor que bastasse, condições pouco menos que reles e muito, muito figo para colher. Dizia o meu pai que a farinha custava dinheiro e que as figueiras precisavam de ser colhidas e era muito mais barato. Assim, por essas cinco e meia da manhã, lá ia o desgraçado e mais o famoso carrinho quadrado, a colher os figos que, se fossem colhidos com o sol alto, as figueirs secavam e os figos emoucavam. Colhia para o chão e depois apanhava para dois cestos que tinham que vir bem cheios para as benditas porcas. Para agravar, meu pai comprou figueiras carregadas, em pé, e mais tive que colher. Cheguei a gretar os dedos do leite do figo. Por fim - o homem é inventor - roubava uma empa de um feijoal que houvesse por perto, varejava a figueira e tombava maduros e verdes. Apanhava os maduros e enterrava verdes e folhas. Vai lá vai!
Uma das porcas estava parida , paredes meias com um varrasco e a divisória era larga o bastante para que os leitões pudessem passar. Ora, o porco apanhou um e mordeu-o por cima das mãos na cerviz. O bácoro conseguiu fugir para junto da mãe, mas trazia uma enorme ferida.
Resultado: sobrou para mim: tive que ir dentro da furda para agarrar o leitão, mas deparei-me com dois obstáculos de monta. O primeiro é que os recos fugiam à deriva e o segundo era que a porca CHASCAVA (Batia os dentes, assim à maneira das cegonhas quando vêem o parceiro a chegar com alimento para todo o ninho). Consegui que o porquito entrasse para uma cesta que aventei para fora e meu pai agarrou. A ferida estava cheia de larvas de vareja. Limpámos bem, untamos com azeite e colorau, como se faz aos presuntos e tornamos a meter o tó na furda. A mãe, quando lhe cheirou ao azeite, vai de lamber. Moral: toca a ir outra vez apanhar o porco. Fui, agarrei, trouxe, mas agora em vez de pormos azeite barrámos com creolina pura. A porca bem cheirou e o porco bem ganiu, mas lá se safou. A ferida cicatrizou e veio a ser o porco da matança. Coisas da vida.
E eu já não vos maço mais hoje. Logo volto com mais xendrices.

domingo, novembro 23, 2008

A NOSSA FALA - CXVII - PÊSCO; PEXOGO; PEXÊGO

Aquilo que é, é apenas o que é. Sendo assim e numa leitura um tanto simplista, as coisas que não são, são em maior número do que as que são. Por exemplo a letra A só é A: não é nem B, nem C, nem nenhuma das outras. Logo, o que ela não é, é muito maior do que aquilo que é. Assim vale mais o não ser do que o ser. Nós somos apenas nós e não podemos deixar de ser nós. Eu só sou eu para mim e sou o outro para todos os outros que comigo convivem. Agora mesmo eu sou outro para vós. Podemos então falar de um GRANDE OUTRO e apenas de um pequeno Eu. Efectivamente EU é um pronome que todos podemos dizer mas que ninguém pode dizer por mim. Para concluir: o que não é, é mais do que o que é.
As convenções acabam por se estilizar e, não raro, estereotipam em clichés ou kitchs, ou, falando mais português, tornam-se em jargões. De algum modo tudo acaba por se reduzir a um lugar comum. O que é comum é generalizado, o que não significa que seja universalizado. O lugar do lugar comum é no anonimato. Como é de todos não é de ninguém. Já fora assim com Cristo, por exemplo, quando a multidão anónima pede a Pilatos para o crucificar e este para não ficar o único responsável "lavo daí as minhas mãos". Bem vai Kierkeggaard quando diz que " a multidão é a mentira". De facto só um corta a meta. Olhai para uma qualquer prova desportiva: aquele que é focado é o vencedor. Na verdade, o segundo já é o primeiro a perder. Por isso só torna a aparecer no pódio ao lado e abaixo do vencedor.
Ainda no campo do desporto: quase todo o relator de futebol fala das quatro linhas :«a bola saíu das quatro linhas»; ora, o campo de jogo é de forma rectangular e eu aprendi na escola que o rectângulo é uma figura geométrica de uma só linha com os lados iguais dois a dois e paralelos dois a dois formando ângulos rectos. Aliás não é difícil desenhar um rectângulo sem nunca levantar o lápis ou agarrar numa única linha e dar-lhe a forma rectangular. Não faz sentido, então, falar de quatro linhas. Nem de bola à flor da relva, nem de posse de bola, etc. etc. . As convenções são muito fortes e passam por cima das evidências, pois criam hábitos de pensamento que pura e simplesmente reage a estímulos e não pensa o que diz, agindo como um psítaco. Solta palavras mas não conceptualiza.
Regressemos à terra e aos xendros que já é tempo!
Em qualquer grande superfície aparecem as nectarinas que os xendros chamam e bem PÊSCOS CARECAS. Havia apenas um na aldeia. Ficava para os lados do caminho das águas e era pertença do velho Bites, latoeiro (=funileiro), sempre de bengala, grande fadista e cantor de improviso quando apanhava a trovoada. Ainda o ouvi algumas vezes. Quantas vezes o ouvi também amaldiçoar a canalha que lhe gamava os pexogos pelados como ele lhe chamava. Chegava a dormir no terreno para os guardar, mas a rapaziada quando o caçava na horta mais longe e sabendo-o coxo, rapidamente chegava à árvore e raspava-se enquanto o Bites gritava impropérios.
A prova indesmentível desta faladura é o facto de haver mesmo na aldeia, ali para os lados do ribeiro cimeiro o ti Jaime Pexogo casado com a Glória Violas, irmã de Conceição do Trém e de Lurdes e de Clara. Fazia o Chão da Ribeira onde chiava sempre a nora tocada pelo fadista, burro mansinho que se ajoelhava para a ti Glória se montar. Outros tempos, outras agriculturas, outros xendros.
Hoje quis também não vos deixar um lugar comum. Talvez para vosso pesar e meu deleite.
É a vida!

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sábado, novembro 08, 2008

A NOSSA FALA - CXVI - GADAPUNHO/a

Leroi-Gourhan em Le Geste et la Parole, com mestria, defende que o trajecto da evolução humana se inicia no pé, passa à mão e termina no cérebro: é a famosa dialéctica do pé - mão - cérebro. O bipedismo humano encarregando os pés do suporte do corpo e deixando as mãos livres para as outras funções mecânicas, desde coçar-se, fabricar instrumentos (do erectus chegou ao faber e ao habilis), até abraçar, fazer gestos para intercomunicar - sim que a um caçador não convinha meter barulho que assustasse a presa - por isso, inventou a sinalética, o gesto, o mimo, sinalizando o que pretendia ao outro seu igual e companheiro na angariação de alimento, até, por fim, chegar ao sapiens e ao sapiens sapiens com as consequências advenientes: oponência do polegar, redução do prognatismo, aumento do perímetro cefálico (...)
Não resisto a adulterar a tese de Gourhan: hoje temos ainda o demens...
Vem tudo isto a propósito de que na sociedade nética em que convivemos e competimos, a ordem natural destes factores se inverteu ou pelo menos se subverteu, profanou, sei lá!
Aqueles que, como eu, ainda jogaram descalços à bola, para todos estarem em igualdade de circunstâncias e que corriam a ribeira e os campos em busca de aventura, tinham que tirar da cabeça muitos engenhos que construíam e que depois lhes serviam para uma finalidade, mesmo que essa fosse o jogo (afinal também há o homo ludicus).
Lembro-me bem de irmos, eu e muitos, para a Eira Cimeira onde abundavam mimosas e construir arcos e flechas com que jogávamos aos índios e cow-boys, outros faziam pistolas de cana rasgando orifícios com navalhas afiadas e construindo uma mola que faria disparar o projéctil, ainda relas e caravelas (agora chamam-lhes vira vento) de embude seco, colando as paletas de papel com carapetos de silva (e se aquilo girava!), bilhardas, pinocos, carrinhos de empurrar, trotinetes de esfera, fisgas ( fungas, como lhe chamávamos) , piões, que sei eu, tudo era por nós construído, as mãos tinham importância e "dialogavam" com o cérebro proporcionando um benefício mútuo.
Quando algum aparecia com algum brinquedo, ou mais perfeito ou inédito : «mostra lá!» e o autor: "olhó aqui! tu vês com os olhos; sapa daqui as gadapunhas ou tens a vista na ponta dos dedos? O diálogo continuava e a arte de falar, com alguma oratória e bajulice a acompanhar, mais cedo ou mais tarde, lá permitia que a novidade fosse mirada e remirada e, às vezes, imitada.
Já não é assim agora: a rapaziada já não joga a bola na estrada, já quase não vai a pé para a escola, mexer numa faca nem pensar, fazer um brinquedo não é preciso porque os poluímos com tantos que lhes damos e dão, a ponto de nem lhes ligar nem os respeitar e cuidar.
As mãos já não fabricam. Estão condicionadas a um conjunto de tarefas pré- determinadas e fiscalizadas por guardiões do templo que apoiam, estimulam, convencem. Fazem todos o mesmo, não há originalidade nem criatividade. Só mecanicismo. Começam à hora, acabam à hora. Já não têm o "nosso" tempo, mas apenas o tempo que lhes concedem.
Sendo assim, o pé corre pouco porque fica quieto na sala, a mão tem pouca maleabilidade e elasticidade porque condicionada apenas aos exercícios pro(im)postos, e, em consequência, o cérebro prepara-se para funções repetitivas sem desafios que o obriguem a sinapses mais complexas e a respostas, que, certas ou erradas, não interessa, eram resultado de um exercício individual e solitário do pensamento individual e não uma resposta condicionada a ordens e a horas que os outros estabelecem.
O largo do Batoco, hoje baldio, em tempos foi alvo de disputas pela posse e há ainda quem, velada ou confessadamente, afirme que lho roubaram e que, se quisesse, ainda podia fazer valer o direito de propriedade sobre o espaço.
Aí, ao canto esquerdo, havia uma poça (espécie de charco), onde muito gado bebia e, espalhado pelo largo, havia tufos de bravos e até mesmo, junto à parede que o limitava e que tapava o ribeiro do Batoco, hoje coberto, paralelo ao quintal dos Póvoas, havia mesmo embacelamento das vides. O resto do espaço era absolutamente desorganizado e a malta jogava ali à bilharda, ao ferro, ao pinoco, a esconder e a achar, ao burro,... e, às vezes, traçava-se um itinerário para uma gincana com cronometrista e tudo, que o Velho Jonja já tinha um relógio de pulso marca Cauny e emprestava quando era ele a dar a volta.
A gincana tinha várias fases, desde o pé cochinho, à corrida livre, a saltar aos pés juntos e, claro, a dar a volta inteira com o mais que famoso carro quadrado das bilhas do gás, onde ninguém, mas mesmo ninguém , algum dia meteu os gadapunhos com a habilidade e mestria deste que isto tudo vos conta. Dava-lhes um bailinho que eles : "Filho dum raio que o parta, num há ninguém que lhe consiga ganhar com o cabrão do carroço! É chapado para manobrar aquilo".
Perdoe-se-me a vanglória, mas quem não tem um Ego de estimação, também nunca viveu uma aventura assim mesmo daquelas comédado.
Confesso que isto hoje foi um bocadinho para o pesado, mas o cérebro é agora quem comanda e a mão (não já o gadapunho) limita-se a obedecer e a carregar na tecla que permite construir a palavra que dá sentido a isto tudo.
Descansai o vosso cérebro: para a semana já volto, com ou sem carrinho do gás.
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sábado, outubro 25, 2008

A NOSSA FALA - CXV - TENTEAR

Vale Quem Tem, latoeiro de profissão, afastado por iniciativa própria para terras da Benquerença, onde ainda exerce a arte, tinha um borrego merino que mais parecia um lama da sul américa.
Era um regalo de ver : burra com angarelas carregadas de esterco, borrego merino sempre ao lado de Prazeres de balde à cabeça, assente em molídia feita por mão própria, a caminho da Quelha Funda. O borrego cresceu e cresceu. Era manso como a terra e mesmo quando se desafiava com um ZUPA! ele vinha à mão e o que queria era festas.
Prazeres e Vale Quem Tem ganharam amor ao borrego, mas já estava tão grande que era imperioso despachá-lo...
Eram dois os talhos de aldeia, onde se fazia directamente o abate. Não havia ASAE, a higiene era um facto e não há memória de qualquer doença provocada por esses abates e vendas directas. Passava o veterinário duas vezes por semana, analisava a qualidade da carne, carimbava e, não raro, confiscava as miudezas. Nunca soube se era por não estarem em condições, se era por ele gostar de fígado de ruminante. Facto é que a fressura poucas vezes ficava no talho...
Um era do ti Chico Miguel e outro do ti Zé Rolo. Objecto de discussão era muitas vezes o tempo que cada um demorava a matar uma rês e a esfolá-la.
Sempre vos digo, a talho de foice, que o nosso governo demora muito menos tempo a esfolar-nos... Mas adiante.
Foram várias as vezes em que um ia ver o Zé Rolo a matar e outro ia ver o Chico : marcavam o tempo. Passatempos um tanto brejeiros, mas na aldeia o que saísse da rotina era novidade. Nunca houve um vencedor definitivo.
Quem comprou o merino ao Vale Quem Tem foi Zé Rolo.
É Prazeres quem o vai levar à casa da Lameira e o prende à ferradura. A mulher arrancou ligeira e não era difícil ver que ia a chorar. O borrego chamava-a nuns més contínuos.
Zé Rolo era valente: basta que foi ele que, sozinho, debaixo do braço, levou o sino até lá acima à torre, porque a escada era e é muito estreita e só cabia um. Ficou nos anais aquela proeza. Costumava entalar os borregos e os cabritos entre as pernas, dar-lhes uma facada na nuca e depois sangrar. Nada disso podia ser com o merino. A força do animal, mais a mais sem Prazeres ao lado, para o acalmar, inviava tal desempenho.
O remédio foi atá-lo bem e TENTEAR bem a facada para que logo à primeira caísse redondo e se pudesse fazer dele o que se quisesse. De faca na mão, Zé Rolo espetou a faca na cerviz do merino . Este, ao sentir a picada, aventou tal escrito, que rebentou a corda, abala a correr e só pára na casa de Vale Quem Tem com a faca espetada.
Prazeres, ao ver o animal sangrado, com a faca espetada, começou aos gritos.
Ia eu a passar na ponte, com o já mais que famoso carrinho quadrado do gás, com uma bilha e uma saca de farinha 815 para o Chicharro atrás do cemitério, quando Zé Rolo vem esbaforido e: "apoisa aí a saca e a bilha e traz cá o carroço. Vem comigo." Eu não entendia a história.... " "Vá lá catano, preciso do teu carrinho e de ti." Pelo caminho lá se ia justificando: " Rais todos trinta ma partam... errei a puta da faca no borrego do Vale quem Tem e o cabrão abalou-me com ela espetado no cachaço".
Chegámos atrás da igreja e lá estava o merino a sangrar, ainda de pé, com espuma na boca.
Vem a Prazeres: "Já num levas o borrego Zéi", e Zé Rolo «Tens que me dar o dobro do dinheiro se te negas ao negócio» Aí, Prazeres refreou a zanga:"Desaparece-me daqui com o animal que não o posso ver assim, coitadinho. E era. O animal olhava para Prazeres: Traíste-me, vendeste-me,...
Zé Rolo arranca a faca do pescoço do animal, já um tanto enfraquecido pelo sangue perdido, e desta vez tenteou melhor e o animal caíu ali. "Pega aí desse lado. Agarra-lhe com ganas que ele é maciço. Tenteia bem a ver se o encaixamos no carroço logo à primeira". E assim foi. Tenteamos assim mesmo comédado e o animal ficou todo no carrinho. Lá o trago para o talho e apresso-me a levar a farinha e a bilha ao Chicharro. Sempre queria ver quanto pesava o bicho.
Tinha tal prática com o carrinho, que tenteava o peso e ele vinha na minha frente equilibrado nas duas rodas uns bons 20 a 30 metros, sempre na gáspia, que não queria perder o peso e o meu tio Zé Rolo precisava de ajuda para o pendurar. Cheguei à hora. Papei uma jeropiguinha da verdadeira e lá penduramos o merino na romana. Corre o pilão pelo varal e marca: 75kg. "Belo animal e tem aqui carne como seda. Mal empregado!»
Se não houvesse contrabando não eram precisas brigadas fiscais e se todos fôssemos cidadãos comédado nem polícia era precisa. Cada um de nós sabia o seu dever, cumpria-o e tudo havia de chegar para todos. Mas não. O nosso cérebro reptiliano e a natural agressividade que nos torna lobo do outro está sempre presente e a arte de fintar o outro dá-nos gozo e apuramos esta capacidade até aos limites da imaginação criadora. "O que esquece ao diabo alembra aos homens" já me dizia o velho Comandante.
Vem isto a propósito de que aquele borrego não era para ser visto pelo veterinário, era para ser vendido à sucapa, na candonga e já tinha pretendentes. Zé Rolo, no entanto, dadas as circunstâncias de meio povo saber do acontecido, receava que alguém pudesse bater com a língua para o veterinário... Ainda assim arriscou: meteu a pele num saco aparelhou a mula e foi pô-la na quinta do caminho das Águas, lavou tudo bem lavadinho esquartejou logo o borrego e não tardou já o tinha despachado.
Como não havia vistoria, sobrava a fressura. O lume estava aceso :« puxa aí o borralho para a ponta do lar e queima aí a grelha» Percebi logo a jogada. Foi limpinho: umas areias de sal para cima do fígado, uns alhos descascados, um cheiro de vinagre e um salpico de malagueta e oíoai, foi mesmo um ai. Mamamos os dois o fígado do merino, arreamos-lhe uns copos e uns nacos de pão e o pequeno almoço já cá morava. E bom.
Não restam dúvidas de somos os predadores dos predadores. Umas bestas. Com as devidas desculpas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII. Logo volto com mais xendrices.

quinta-feira, outubro 23, 2008

VENDIMA DO CHANGOTO


Foi maiómenos assim:


2 vindimadores armados de tesoura de podar


3 armados de navalha Palaçoulo (1 das quais motcha)


4 armados de navalhas outras (2 motchas)


1 vindimador armado só de mãos


3 só para esmagar (apresentavam os palmípedes lavados mas unhas demasiado compridas pelo que se optou por máquina separadora de engaços)


28 à hora de comPROVAR o cardápio (e a hora foi a partir das 10)


Produtividade [consumo final/produção final) inferior a 0 [zero] (para os pixotes em economia, isto significa que se consumiu mais do que se produziu)








VINDIMA 2008


QUINTA DO CHANGOTO





ORDEM DE TRABALHOS :



  1. APRESENTAÇÃO AO GRANDE CHEFE PATA PESADA

  2. BEIJA-MÃO COM CONTRAPARTIDA DE MOLHADELA DE BICO

  3. APRESENTAÇÃO DE FERRAMENTARIA E APROVAÇÃO DA DITA

  4. ALINHAMENTO PARA SECÇÃO E INÍCIO DE FUNÇÃO

  5. ESCOLHER A UVA – DEITAR FORA SEM DÓ O QUE NÃO PRESTAR

  6. NUNCA ACELERAR QUE O TEMPO SOBRA E O GRANDE CHEFE NÃO É SUSTENTADOR DE GULOSOS

  7. OBEDECER À ORDEM DE CHEGADA

  8. TODO O PRODUTO CHEGADO À ALFÂNDEGA ESTÁ SUJEITO A VISTORIA SUPERIOR

  9. LEVANTAR O NARIZ E CHEIRAR A EMENTA

  10. LER O CARDÁPIO







CARDÁPIO




  • VINHO CASTRADO NA FERMENTAÇÃO

(ALTERNATIVA: BRANQUINHO MADURO DO ANO PASSADO)

  • ENTREMEADA AO LIMÃO EM ALHADA DE PIMENTO CURTIDO


  • NÁDEGA CURTIDA DE CERDO CEVADO A BOTELHA E CURTIDA POR QUEM SABE.

(A VER SE QUEM O COME O SABE CORTAR)

  • ENTRIPADO DE RECO FUMADO A AZINHO E EM CONSERVA AZEITEIRA


  • BIFINHOS DE CAROÇO BICAIS E GALEGOS


  • FERMENTADO DE LEITE DE OVELHA E CAPRINO


  • CASQUEIRO DE FARINHA 65 EM FORNO A LENHA E COM SUOR DE 27


  • CALDO DE MIGALHA DE FEIJÃO BRANCO DO BARBAÍDO COM TUBÉRCULO ROXO E ROSADO MAIS BOLBO CHORANTE, SAMPAIO E O MAIS QUE DER AO BOM SABOR, COMPOSTO COM HORTELÃ


  • PRIMO CAROLINO TOSTADO EM LAJEDO DE TIJOLO BURRO COM INGREDIAENTES DE COLUMBINO BRAVO AGORA AMANSADO E DESOSSADO


  • TIRAS DE FARINHA SECA À LAIA DE ESPARGUETE COM MIÚDOS DE PEQUENO RUMINANTE CORREDOR


  • CORREDORA CHUMBADA EM TERRENO LIMPO COM LEGUMINOSA PRODUTORA DE GASES


  • ESFARRAPADO GROSSEIRO DE VERDURA AMARUJANTE AO ALHINHO


  • TOSTADO DE RUMINANTE QUADRÚPEDE REGIONAL EM TEMPÊRO EXCLUSIVO


  • MURRADAS DE AMIDO EM MOLHO UNIVERSAL


  • SUMO GARANTIDO DE UVA ANIVERSARIANTE


  • DESTILADA EM AMBIENTE CARVALHAL


  • FILTRADO DE NEGRO TORRADO EM CAMPO MAIOR


  • ANEDOTAS PICANTES DO MANEL HIPÓLITO







MAINADA







segunda-feira, setembro 29, 2008

A NOSSA FALA - CXIV - PAVIOLA

Não são raros os casos em que a permuta, elisão, ou mesmo acrescento de letras ou sílabas, ocorram na linguagem do nosso povo. O exemplo que ora vos aporto é disso demonstrativo: em vez de padiola aparece a paviola. Em desuso, como as angarelas, por ex. , era de utilidade suprema em terrenos de socalco, mais a mais super povoados, com vinha por baixo, oliveiras por cima e, sazonalmente, batatas de sequeiro, e até alfobres ou erva para o gado. Servia para transportar muitas coisas, desde pedras para muros e paredes, lenha para o lume, até esterco para sítios onde nada mais tinha acesso.
Os seus dois braços dianteiros e traseiros com aquele patamar no meio possibilitavam uma distribuição equilibrada da carga e arrumação fácil.
Outros exemplos podem ser vistos em PEDIVES por pevides, CARAPINTEIRO por carpinteiro, CRAVÃO e CRAVOEIRO por carvão e carvoeiro, pomates por tomates,... . Ao fim e ao cabo as alterações fonéticas de pouco interessavam ao povo que por não saber francês não deixou de emigrar.
Não vai asssim tão longe o tempo em que galinhas, burros e porcos conviviam com pessoas, senão dentro de casa, logo ao lado, em furdas ou furdões, currais, apriscos, redis, pocilgas ou palheiros ou pardieiros. O Chico Miguel, a Tonha Costa, o velho Valente, o Rela, o Júlio Casqueiro, O Pirolas do Zé Nicas, o Fatela, a Manta Rota, e tantos outros, todos tinham os porcos, paredes meias com a casa e as galinhas tinham o poleiro por baixo das escadas que davam acesso pelo exterior ao primeiro andar das casas. Alguns desses poleiros serviam para outras funções quando a porta e o escadéu que lhes dava acesso o permitiam. Há quem diga que a Rancheira se serviu de muitos. Outros tempos, outras modas, outras vidas e outras histórias.
Tal como a PAVIOLA, foram desaparecendo. Agora só há andores, mas esses são para santos e santas.
Os irmãos Manetas eram três - Chquim, Manel e Zéi -, tão depressa andavam bem, como, num Domingo qualquer, se zangavam e, por isso, ficaram conhecidos como os Guerrilhas. Eram todos sapateiros. Faziam mangação, cada um do trabalho dos outros e sapato, bota ou sandália feita por Zéi e que passasse pelas mãos de Chquim: "mal empregado material nas mãos deste cerdo" e o mesmo se passava com os outros.
Chquim tinha a oficina por detrás da fábrica dos Leitões, quase em frente do cruzeiro do Cavacal e a pipa do vinho estava ali mesmo à mão, que, na casa onde morava, não havia espaço e Fatinha não queria lá ver pipos nem borracheiras sem vergonha a toda a hora, para além da burrinha que comia refastelada na manjedoura e, de Inverno, servia de ar condicionado, que o estrume que ia fazendo sempre libertava algum calor.
A mulher ficava por cima e lá ia ocupando o tempo com tarefas mais domésticas.
Um dia vinha eu a passar com o inefável carrinho quadrado das bilhas do gás quando :" Ó catano, eras mesmo tu que me fazias falta! Ajuda-me ali a levar esta paviola até ao chão do Branco por mor de à tarde lá semear o alfobre da couve que já é tempo". Arrumei o carrinho e lá vou com Chquim e a paviola do esterco por uma vereda mesmo à tangente. "Bem hajas tu, cachopo... A minha já num podia com este peso e eu ao caldeiro nunca mais fazia o serviço, bem hajas! Mas agora vamos ali a boer um copinho do meu." Fomos. Ajoelhou-se em frente da pipa rodou a torneira, aparou o tinto, deu-me o copo e continuou de joelhos com o dedo a tapar o orifício da torneira. «Alevante-se...Para que está aí de joelhos» - "Cala-te, dianho, tu num vês que a bicharada rala?" Fiquei meio taranta, bebi o copo, ele o dele, depois outro, Queres Mai? que não, disse eu, rodou a torneira sempre para a frente por mor do calo e lá se levantou. Ia eu a perguntar e a resposta já saía:" tu num vês que a torneira chia e aquele fardo - era a ti Celeste - dá conta; quando vou pró caldo ao meio dia logo me assobia à orelhas que já lá fui tantas vezes... Assim só ouve uma e o bicho já num rala»
Mais uma, digo eu. Há que aproveitar e meter na paviola ou padiola. Ficai-vos com a que quiserdes, na certeza que qualquer delas já pouco funciona...
Eu servi-me dela, a maior parte das vezes para transportar calhau ou estrume. Não me importava de a voltar a usar para arredar para bem longe muito do que por aí anda- e alguns a comandar-nos. Havia de ser bonito se os agarrasse na minha PAVIOLA ...
XXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Logo volto.

segunda-feira, setembro 15, 2008

A NOSSA FALA - CXIII - PUCHEIRO

As voltas que o povo dá às palavras para, depois, as fixar num fonema com um som - o significante de Saussurre - são imprevisíveis. Assim é com esta forma. Repare-se: o espicho é o jacto de vinho que jorra de uma pipa onde não se quer meter a provadeira - cana com uma racha ou abertura que possibilitava a certificação se o vinho já estava claro e que, no orifício natural da cana até ao nó fundeiro, permitia transportar vinho bastante para um copo - . O espicho era feito quase ao cimo da vasilha onde o orifício respirador era tapado com uma rolha estreita de cortiça e vedado com cebo. Uma sovela, normalmente feita de vareta de guarda chuva, penetrava cebo e cortiça e o néctar saía com a pressão, aí para quase um metro afastado e era um regalo aparar o tinto no copo: fazia espuma e exalava um cheirinho que só quem teve a oportunidade de provar pode agora recordar. O orifício era fácil de tapar e até de selar: bastava pôr o dedo e /ou mais um pouco de cebo que estava sempre à mão e ele lá continuava a sua fermentação.
Havia também o vinho da balsa que resultava da inclinação da dorna e cuja claridade era aferida através de um rasto ou um bico velho de charrua, que se atirava para o líquido, às vezes ainda fervente: se o rasto fosse ao fundo, já estava claro, e não criava engulhos na garganta pelo que já se podia beber. O sabor a mosto era dominante mas, como não havia melhor, aquele era excelente. Fiz o meu tirocínio com o velho Comandante que, aí ao quinto dia já lhe arreava assim comédado.
Vem isto tudo a propósito das vindimas que agora estão no apogeu.
De caminho queria aproveitar para vos apresentar uma figura de xendro inigualável: de tudo sabia, de tudo dava conta e novidade que lhe caísse na orelha, passado pouco tempo estava mais torcida que uma cepa: a Chicorrela. Sempre ali pelo chafariz do batoco, tudo mirava, com todos se metia e até ia ao tribunal - banco só de homens onde a maledicência imperava e a linguagem era do mais verrinoso e viperino que imaginar se possa -. Chicorrela ou Relochica como eu lhe chamava, nada temia e desafiava qualquer um para dizer mal de quem quer que fosse. Seguia aquele velho aforisma: temos que dizer mal dos outros porque eles também dizem mal de nós .
A casa de Relochica ficava pertinho da velha casa do Barata, velho tugúrio onde se criaram nove filhos e cujo espaço seria aí duns 18 metros quadrados: subia a cama descia a mesa, subia esta
descia a primeira, a canalha dormia a monte, raparigas dum lado e garotos do outro.
Apesar do curto espaço ainda cabia, logo à entrada, um tonel de 400 l ,onde Barata guardava o vinho. Por cima estava, sempre de borco, um pucheirinho, copo único, de asa partida, que tinha que ser bebido de uma só vez, sob pena de não mais o provar.
Na perpendicular entre a casa do Barata e a de Relochica, em frente da velha Libra, morou a mãe de uma das ilustres personagens, José Antunes Ribeiro, de alcunha o Pucheiro, nunca soube porquê, e que foi alto magistrado. Chicorrela não tinha pucheiros. Ao lume estava a panelinha de ferro e havia umas gafeteiras, sempre de luto, por dentro e por fora, onde, de quando em vez, se fazia uma chicória, de borra assente com tição ardente, que servia de café. O açúcar era água de figos secos, guardada religiosamente em escoureiro bem tapado e vidrado.Nunca ninguém soube bem o que Relochica comia porque passava o dia no trequelareque do batoco a dar troco ao Chico Pedro, Manel Freitas, Augusto Estanqueiro, Zé Luís, e companhia...
Notícia que lhe caísse na língua, depressa fermentava e o que seria uma inocente lagartixa logo se tornava tiranossauro rex. Se os ilustres lorpas que gerem os nossos bancos e as empresas do PSI fossem comparados a esta nossa Relochica, pouco passariam de pigmeus face a Gulliver. E a preços muito mais módicos.
Vamos lá ver agora como derivou a palavra PUCHEIRO, nesta forma de entrada na língua que leva o nome de LEI DO MENOR ESFORÇO. Diga-se a talho de foice que, ao menos as palavras entravam e eram assimiladas; agora é uma algaraviada de siglas e de palavras emprestadas que arrepia: já ningúem diz AMA, mas baby-siter, ninguém merenda, todos lancham, ele é teen-ager, o open, o coffee break,... que sei eu!? quando se devia dizer tão só adolescente/jovem, abertura ou intervalo para café... Olhai os espanhóis: não basket, mas baloncesto, nem andebol, mas balonmano, não corner, mas saque de esquina, ...
Agora é que é: a palavra deriva do ESPICHO, já acima explicado; ora esta mesma palavra já é derivada por sufixação de PICHO (o ES vem do latim EX que significa movimento de dentro para fora, como em Ex-pulsar, por exemplo); como sabemos uma das funções do picho é essa mesmo de expulsar por jacto o líquido que está no ventre; daí a PICHORRO/A é um passo como vaso para aparar o líquido do espicho; a linguagem que diga respeito aos genitais é sempre castrada e isso parece pertencer a um inconsciente colectivo, que, um dia destes, logo vos trarei aqui, pelo que não admira que se alivie a conotação da forma mais simples - lei do menor esforço - de Pichorro derivou foneticamente por ditongação o nosso PUCHEIRO. Simples não é? Como o povo, e todos os que são competentes.
Como estamos também no início do ano lectivo, aqui vos deixo a questão: já vistes algum BOM PROFESSOR complicar o simples? Aposto que não, mas aqueles tarefeiros do ensino, que não preparam aulas nem se esforçam pelo seu brio e dos seus alunos, esses complicam... E então já nada é simples.
Para concluir e verdes que não há só cultura popular aqui vos deixo registadas as medidas internacionais e respectivos nomes para garrafas de vinho em vidro:

Nabucodonosor - 15 litros
Baltasar - 12 litros
Salmanazar - 9 litros
Galão - 7,5 litros
Matusalém - 6 litros
Garrafão - 5 litros
Jeroboão - 3 litros
Magnum- 1,5 litros
Garrafa - 0,75 litro
Púcaro - 0,5 litro
Meia garrafa -0,375 litro
Quarto de garrafa - 0,180 litro

Deste lado, vos deixo algumas medidas antigas:
Almude- 28 litros
Cântaro - 20 litros
Deca - 10 litros
Quartão- 7 litros
Cântara - 5 litros
Canada - 2 litros
Gafeteira - 1 litro
Quartilho - 0,50 litro
Meio Quartilho - 0,125 litro
Copo de três - 0,020 litro

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII.