sexta-feira, dezembro 12, 2008

A NOSSA FALA - CXX - (T)CHINCAR

O ícone da Justiça é, de si, polémico: olhos vendados, balança inclinada espada de gume lasso, jovem, são símbolos que podem ser lidos do lado avesso. De facto, ter os olhos fechados, pode indicar que a lei é igual para todos e que a justiça não privilegia ninguém, seja rico ou pobre, crente ou infiel, branco ou preto, nobre ou plebeu, mas também pode ser lido de outra forma: fecha os olhos à realidade, não liga a circunstancialismos decisivos, dogmatiza as suas conclusões, apodera-se da verdade e não quer saber de mais nada, breve, confunde verdade com veracidade ou verosimelhança; a balança inclinada também oferece leituras contraditórias, porque pode significar que, seja qual for a força dos argumentos, ela, a Justiça, há-de descortinar a verdade oculta e, qual divindade, "escreverá direito por linhas tortas"; ou, diferentemente, pode induzir a que se pense que, por muito que ajuíze, há-de sempre pender para um dos lados, já que a equidistância do fiel é perturbada pela inclinação dos pratos da balança; a espada de gume nada afiado pode querer dizer tudo menos que corta bem a direito e a juventude da donzela que a empunha, tal como à balança, não é obrigatório que signifique que a Justiça mesmo que seja aplicada tarde é sempre a justiça e nunca envelhece. Ora, é sabido que a experiência não deixa de ser boa conselheira e que só se obtém depois de longos anos de vida.
A Justiça, como a Beleza, a Bondade, a Caridade e outras virtudes são irrepresentáveis tal como não podemos representar um fotão, ou um Volt ou um Ampère, um Joule, etc. Podem ser traduzidos em valores matemáticos, em relações de ratio, mas nunca sabemos como são: sabemos o que valem.
O importante para nós não são as coisas em si mas o que elas valem. O valor da Justiça é mais importante do que a sua própria substância, e assim das outras formas ideais. É pela sua influência na nossa vida que nós as avaliamos.
O mais interessante no meio de tudo isto é que nós somos sempre insatisfeitos e não ficamos consolados com o que temos, isto é, apreciamos a estabilidade, a ordem, o equilíbrio, exigimos que se cumpram as regras que permitem a convivência pacífica, mas, a cada passo, achamos que "isto assim não está bem" e vai de, não raro, fazermos as nossas privadas regras de conduta que colidem com as geralmente aceites. Criamos o desequilíbrio, a desordem a instabilidade. É por isso que há guerra e crime e o resto que, se não existisse, dispensaria a necessidade da Justiça para corrigir a ofensa. A justiça vem sempre ao fim quando devia estar ao princípio. Atiramos:" é da mais elementar justiça que..." Só que a justiça não conhece o nosso elementar.
Não há muito tempo, um parlamentar afirmou que os animais não têm direitos. Aqui d'el rei que o homem não sabe o que diz, clamaram muitos pseudo defensores dos animais. Mas, a verdade é que muito antes de ele o ter dito já eu o pensava.
Quem dá e tira os direitos aos animais, somos nós. Afinal, criamos coelhos, galinhas, vacas, porcos, patos,...,pescamos, caçamos, fazemos trinta por uma linha aos animais e, ao fim, até os comemos. Invadimos-lhes os espaços, delimitamos-lhes os contornos, seleccionamos as gerações, limitamos a sua propagação...
Entre os muitos animais que tive, um me deixou saudades maiores: um pardal.
Apanhei-o caído do ninho, levei-o para casa, aqueci-o, fui à minhoca, fiz papa com gafanhotos esmagados com farelo, arranjei-lhe um espaço com cobertor para não ter frio, metia-lhe comida no bico, dava-lhe água com uma palhinha...O pardal cresceu e afeiçoou-se a mim: ia comigo para todo o lado, quando queria voava, mas voltava sempre para mim e nunca teve a porta da gaiola fechada. Essa foi a causa da sua morte: um gato comeu-o.
Ainda o vi a roer as últimas partes do meu Golifão...
Evidentemente que isto não podia ficar assim.... Arranjei modos de fintar o gato e um dia lá calhou: com uma pressão de ar (T)CHINQUEI-LHE um olho. Mandou um escrito ao ar, um grito de dor lancinante e eu«e se te torno a agarrar a jeito (T)CHINCO-TE o outro. »
À distância no tempo e com o passar dos anos, fui entendendo que a ordem da natureza é mesmo assim e que, se calhar eu devia ter deixado o passarinho à triste sina de ter caído do ninho .
É sempre assim: a morte de um pode ser a vida de muitos. Mas, no momento da emoção, a gente cega e chincar um olho ou dois a quem perturba a nossa felicidade, ainda que mesquinha, não faz diferença: tem que as pagar !
O ser humano é naturalmente mau: é o mal radical que já Kant propalou.
Bem se fazem, votam e aprovam Declarações Universais (passaram agora 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos) ! Vede só como vai o seu cumprimento...
Com esta vos deixo.
XI GGGGGGGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAANNDDDDDDDDDEEEEE

4 comentários:

pratitamem disse...

Todos temos ou tivemos -traços- tantos.Jeito mas mesmo muito, Só quem deve! E o Vitor deve, muito és divinal, tens metade da idade, do nosso realizador, mas eu já disse á minha mulher (não gosta de esposa?)que o unico que me convence?! É o ANIQUIBOBO, algo assim, vi ainda puto, nunca mai me esqueceu! Quando digo que deves, quero dizer que o povo está á tua espera pra te comer! TiPo Perfume!

Anónimo disse...

Em relação ao Fernando Pessoa já pensei tantas vezes: Ele diz aquilo que qualquer um gostava de ter dito e que não soube transformar em palavras certas....Em relação a ti sinto que se passa algo de muito semelhante...talvez que pensas ideias que muitos gostavam de ter pensado...não sei.

oli disse...

Rapazes que aqui vêm buer ao basagueda, desde o "CADAMONTRE" de Maio 2005 , atingindo grau de mestria com o ARROZ DO OSSO DA SUÃ .A dupla Karraio/ Changoto,não mais parou de nos surpreender.
Pela ideia, pela mestria com que o fazem , pela longevidade e resistencia ao tempo - Obrigado e força .....

António Serrano disse...

Nostálgico? Descrente? Mas muito bonito, com a classe a que já me habituei. Oxalá o "bicho-homem" não destrua muito depresssa este nosso Planeta para eu poder vir aqui ler do que gosto e recordar nomes que não mais verei nem ouvirei. Obrigado!!!