domingo, novembro 23, 2008

A NOSSA FALA - CXVII - PÊSCO; PEXOGO; PEXÊGO

Aquilo que é, é apenas o que é. Sendo assim e numa leitura um tanto simplista, as coisas que não são, são em maior número do que as que são. Por exemplo a letra A só é A: não é nem B, nem C, nem nenhuma das outras. Logo, o que ela não é, é muito maior do que aquilo que é. Assim vale mais o não ser do que o ser. Nós somos apenas nós e não podemos deixar de ser nós. Eu só sou eu para mim e sou o outro para todos os outros que comigo convivem. Agora mesmo eu sou outro para vós. Podemos então falar de um GRANDE OUTRO e apenas de um pequeno Eu. Efectivamente EU é um pronome que todos podemos dizer mas que ninguém pode dizer por mim. Para concluir: o que não é, é mais do que o que é.
As convenções acabam por se estilizar e, não raro, estereotipam em clichés ou kitchs, ou, falando mais português, tornam-se em jargões. De algum modo tudo acaba por se reduzir a um lugar comum. O que é comum é generalizado, o que não significa que seja universalizado. O lugar do lugar comum é no anonimato. Como é de todos não é de ninguém. Já fora assim com Cristo, por exemplo, quando a multidão anónima pede a Pilatos para o crucificar e este para não ficar o único responsável "lavo daí as minhas mãos". Bem vai Kierkeggaard quando diz que " a multidão é a mentira". De facto só um corta a meta. Olhai para uma qualquer prova desportiva: aquele que é focado é o vencedor. Na verdade, o segundo já é o primeiro a perder. Por isso só torna a aparecer no pódio ao lado e abaixo do vencedor.
Ainda no campo do desporto: quase todo o relator de futebol fala das quatro linhas :«a bola saíu das quatro linhas»; ora, o campo de jogo é de forma rectangular e eu aprendi na escola que o rectângulo é uma figura geométrica de uma só linha com os lados iguais dois a dois e paralelos dois a dois formando ângulos rectos. Aliás não é difícil desenhar um rectângulo sem nunca levantar o lápis ou agarrar numa única linha e dar-lhe a forma rectangular. Não faz sentido, então, falar de quatro linhas. Nem de bola à flor da relva, nem de posse de bola, etc. etc. . As convenções são muito fortes e passam por cima das evidências, pois criam hábitos de pensamento que pura e simplesmente reage a estímulos e não pensa o que diz, agindo como um psítaco. Solta palavras mas não conceptualiza.
Regressemos à terra e aos xendros que já é tempo!
Em qualquer grande superfície aparecem as nectarinas que os xendros chamam e bem PÊSCOS CARECAS. Havia apenas um na aldeia. Ficava para os lados do caminho das águas e era pertença do velho Bites, latoeiro (=funileiro), sempre de bengala, grande fadista e cantor de improviso quando apanhava a trovoada. Ainda o ouvi algumas vezes. Quantas vezes o ouvi também amaldiçoar a canalha que lhe gamava os pexogos pelados como ele lhe chamava. Chegava a dormir no terreno para os guardar, mas a rapaziada quando o caçava na horta mais longe e sabendo-o coxo, rapidamente chegava à árvore e raspava-se enquanto o Bites gritava impropérios.
A prova indesmentível desta faladura é o facto de haver mesmo na aldeia, ali para os lados do ribeiro cimeiro o ti Jaime Pexogo casado com a Glória Violas, irmã de Conceição do Trém e de Lurdes e de Clara. Fazia o Chão da Ribeira onde chiava sempre a nora tocada pelo fadista, burro mansinho que se ajoelhava para a ti Glória se montar. Outros tempos, outras agriculturas, outros xendros.
Hoje quis também não vos deixar um lugar comum. Talvez para vosso pesar e meu deleite.
É a vida!

XXXXXXXXXXXIIIIIIIIIIIIIIII GGGGGGGRRRRRRRRRAAAAAAAADDDDDDDEEEEEEEE

3 comentários:

Anónimo disse...

A primeira parte era para ler quantas vezes?

Anónimo disse...

As que forem necessárias e sempre com prazer.

pratitamem disse...

Mai nada! Belos tempos em que havia fruta careca e Caldeireiros fadistas!