domingo, maio 27, 2007

A NOSSA FALA- LXXXV- PASPALHO ou PASPALHÃO

Vou começar com uma estória que não pertence aos xendros, mas podia pertencer porque lá também há paspalhões que se deixam embasbacar por dois dedos de conversa, quatro sacos de plástico, um embrulho de guardanapos e uma caneta que depressa deixa de escrever... Enfim, paspalhões, mesmo.
Volvamos à estória:
No seu descapotável, um novo rico, daqueles que dizem que têm um MêGuêbêguêtê, com volante de pau, conta voltinhas e rádio de FME(leia-se mesmo fme), com a sua donzela de cabelos desfraldados, qual Isadora, parou ao deparar com um letreiro junto da ponte de um rio, ali para os lados de Odiáxere, que apenas tinha escrito: XPTO. Armado em Chico esperto pergunta ao meio alentalgarvio:« Então XPTO quer dizer o quê?- o senhor sabe ler? num parece!, sei ler sim senhor - então se sabe leia!- mas isto não faz sentido! ai não?! quanto vale o X em numeração romana? - vale dez - poi, e que letra tem a seguir? um pê -, poi, e a outra qual éi? é um tê, - poi, e quanto vale o zero que está na ponta? - então um zero vale nada: poi! ... Então agora é só ajuntar tudo e já sabe o que isto quer dizer. Aqui todos sabemos! Não alcançando onde o alentalgarvio queria chegar pediu mais explicações:« então, é só ler mê home : Despe-te e nada!» , até parece um paspalhão!
Tempos outros, estes e aqueles em que a nossa Aldeia, por artes e ofícios do inefável padre Zé Pedro, esse javarino de tanta vida, que nunca sabemos qual aquela que agora assume ou se sequer ainda respira o poluído oxigénio que nos dá vida aos neurónios..., tempos outros os da nossa Aldeia, dizia, quando, por impossibilidade de funcionamento de um colégio, já que existia o Externato de Nossa Senhora do Incenso (E.N.S.I.) e era proibido que existissem dois privados no mesmo concelho, é criado o colégio de Nosso Senhor do Calvário, em Medelim, já no concelho de Idanha a Nova. A rivalidade entre os dois sempre foi manifesta, mas a amizade entre os estudantes de um e outro nunca esteve em causa. Felicito daqui o pequeno /grande Honorato que o ano passado juntou os antigos alunos do colégio de Medelim...
Famoso foi o Penha Garciense Mário, alto e espigado, meio desengonçado, mais parecendo uma empa de feijoeiro, a quem nós, por graça, perguntávamos se a temperatura lá por cima (teria para aí 1,90m) era a mesma que nas bases. Mário vinha ter aulas de Matemática junto com outros na casa de Xquim Pardalim, homem de um só testículo, que não o impediu de gerar três filhos (um, mais duas) no ventre de uma espanhola,ganhadora que fora de um concurso de beleza em Coria, a D. REMA, que ainda encontro amiúde, se bem que Pardalim já faça tijolo para lá de 25 ou 30 anos. Companheiros de Mário, foram Mesquita, professor aposentado, xquim Rolo, ortopedista, Fernando Elvas, professor aposentado, José Vaz, bancário aposentado, Tero Caturra, oficial da GNR, aposentado,e por aí fora.
Ora aconteceu que no exame de aptidão à faculdade Mário chumbou. Enviou então um telegrama ao irmão: "Eu preparado. prepara pai", ao que o irmão respondeu: « Pai preparado, prepara-te tu».
Naquele tempo a Aldeia era um ponto de confluência de importância significativa e o pai de Mário que trocava taleigos de semente por farinha e tinha uma Hanomag veio esperar o filho : « Anda cá mê paspalhão dum corno, anda cá... Mário nem teve tempo de aceitar a mala que o ti Martinho oferecia na escada da camioneta: já duas vergastadas com o guarda chuva de pano azul lhe assentavam no lombo, ali mesmo em frente ao Batoco: « Paspalhão de merda, que és um paspalhão! És a vergonha da minha cara! como é que eu agora chego à Aldeia e digo que ficaste no tinteiro, meu paspalhão?» Num fujas que lá inda comes mais!»
Mário, lá do alto do seu pescoço de cegonha, envergonhado até ao sete estrelo, ainda por cima ali mesmo à frente de tanta gente que nem o conhecia, em terra estranha..., Mário, só dizia: Ó senhor meu pai, num fui só eu, em Setembro torno lá e passo. Agora estar a malhar-me não resolve o problema... Mnel Beringuilho lá acalmou os ânimos, ferrou dois tintos no Chico Miguel, montou-se com Mário na Hanomag e lá foram os dois...
Nessa noite havia cinema na Aldeia: o ecran era a parede da Igreja, do lado esquerdo a dar para o caminho das águas em frente ao Faustino e à antiga casa do pároco, a imagem era difusa e repartida. Reproduzia-se, nos documentários, a chegada do homem à lua... Eu era garoto e ia ver o SHALAKO, com a Brigitte Bardot, estava ao pé do meu avô Comandante: «Inda há paspalhões que acreditam que o homem foi à lua! São mesmo uns paspalhões! Se fosse à lua, caía! aquilo é uma pantominice. São todos uns pantomineiros e quem neles acredita é um paspalhão!» - Tu num acredites; o homem esteve tanto na lua como eu agora estou na vinha dos pinheiros a tirar água do poço!» São todos uns paspalhões, é o que eles são.»

domingo, maio 13, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIV - ESCOUREIRO ou scorêro

Andei muito tempo para perceber donde raio vinha esta palavra... Isto porque o tal SCOREIRO tanto servia e serve para guardar as azeitonas de conserva, desde que não sejam muitas, pois aí usa-se a talha, como, e principalmente, para conservar o enchido (chouriços/as, morcelas, buchanhas - que saudades de uma boa buchanha! chamada pelos mais afoitos de ptchanha- (palavra esta que até custa a pronunciar mas que era mesmo assim!-) ) no azeite.
Acabei por concluir que esta pronúncia meio esquisita era uma adaptação sonora do significante AÇUCAREIRO, isto porque antigamente, nalgumas casas,- ainda vi- , o açúcar que era utilizado era a água da cozedura dos figos secos num caldeiro de lata e que depois serviam para aviandar o porco, de mistura com umas beldroegas, ou coisa assim, por môr de não lhes provocar alguma borreira, em tempo quente, e já meio cevado para a matança.
Coisa admirável sempre foram as técnicas de conservação: o sal, desde logo o mais barato, portanto o mais utilizado, - lá estava o belo presunto que se tirava agora em Maio, se punha de molho, se untava (barrava) de azeite com um molho de colorau, por mor da mosca, se encafuava numa saca branca de linho - não raro, aquelas mesmas onde vinha antigamente o enxofre em flor, a qual era lavada vezes sem conta, se virava do avesso, se colocava na boca uma fita de nastro e depois se pendurava, com o presunto, no forro da casa para secar) . Quando descia fazia-se a prova: um bom naco era cortado da peça, que voltava para a salgadeira - espécie de arcaz cheio de sal grosso onde o presunto coabitava com aquele excelente toucinho rosado, que até mesmo pessoas com fastio roíam, e também umas tiras de entremeada que eram o consolo do azeitoneiro em tempo da colheita da dita (azeitona)-. Ainda hoje me lembro desses raros paladares. E o mais é que a rapaziada não era gorda por aí além. ...Isto porque suavam assim comédado!. Reparemos que nos desertos o essencial continua a ser o sal. O sal é o oiro do deserto. A questão é que nós hoje queremos só ar condicionado. Não suamos. Bem me lembro eu de à noite tirar a camisa e se passado algum tempo a quisesse vestir outra vez tinha que partir o tecido, porque o salitre era tanto que ficava tesa. Assim mesmo: tesa: sustentava-se de pé sem qualquer apoio tal a quantidade de suor nela impregnado. Não é, portanto, por acaso, que os nossos mais idosos tenham o gosto salgado e que o grande defeito dos nossos enchidos seja o de ficarem salgados. Eles precisavam de sal. O seu equilíbrio homeostático requeria iodo e por isso salgavam a comida. Como não se poluíam com as bebidas que hoje nos invadem... ou bebiam água, ou vinho, ou aguardente, e trabalhavam de sol a sol, o sal era queimado pelo organismo. Hoje temos ar condicionado em todo o lado e vamos de carro para toda a parte, - não suamos e, portanto, não perdemos sal - em consequência, temos tensões elevadas, obesidade e outras coisas que tais. Remédio portanto é:SUAR! Só que para suar é preciso esforço...
Bom... mas o assunto era o SCORÊRO:
Dia de Sexta -Feira Santa à tardinha... Vinha eu todo suado, vou-me ao cântaro da água e emborco três copázios de esmalte do precioso líquido! Vou ao chafariz do batoco, trago dois caldeiros valentes de água, desço o balde adaptado a chuveiro feito pelo ti Zé Latas, encho-o, subo-o, abro a torneira e um banho/duche é, sem dúvida, um prazer inenarrável, mais a mais numa altura destas, em que eu vinha de tirar esterco dos currais a quarenta e três porcos- uma enormidade!
Quando desci, minha mãe:
«não tenho nada feito... não sabia a que horas vinhas!
" Não se rale! eu já me trato!
« olha que hoje é Sexta-Feira Santa... Não se pode comer carne... Abre ali uma lata de atum e coze uns ovos!»
" Isso tem muita mão de obra, eu estou com a galguéria e não me apetece atum nem esperar que os ovos cozam"!
« Vai ver ali à Rosa se lá há alguma coisa...»
"Vou mas é ao ESCOUREIRO e pesco um chouriço"..
« Olha, calha bem, boa ideia!»
Estava eu já refastelado a comer prazeiteiramente o meu chouriço, quando ela, assarapantada, entra por ali dentro:
«atão tu no vês que o chouriço é carne?»
" Este não, mãe! não vê que o PESQUEI com o anzol do garfo ali no escoureiro!"
«Rais ta partissem, damonho! Já está, já está!»
Lá me lambi com o chouricinho macio e se tinha sal não dei conta.Eram chouriços divinais aqueles: o unto escorria por entre os dedos e a gente lambia-se tal qual os gatos na sua higiene POST PRANDIUM! Já são raros chouriços com estes paladares. Ainda se encontram e se provam, mas só nas aldeias. VIVAM AS ALDEIAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Acabava eu de sair de casa, consoladinho, vinha o Tonho Arplano, já um pouco corcunda - os anos não perdoam - a resmungar. Não percebi o que dizia e meto-me:
- Ó ti Tonho, Karraio vai práí a ruminar?
- Então num queres lá saber que fui onte ao doutormédico e que ele me disse que eu tinha uma nascido aqui à entrada do meu cu?!
Eu sei do que foi... eu senti a picada...Fui a aviar a vida ali ao restolho do Cavalheiro, por baixo da figueira maranhoa e espetou-se-me aqui uma palha... Num liguei...Fiz uma torcida com a palha, alimpei as nalgas e ala! Passados uns tempos isto começou-me a doer e a minha lá me aqueceu um caldeirinho de água, lavei-me com sabão da borra do azeite, e fui-me a ver o que se passava porque eu bem apalpei alguma coisa que dantes lá num estava! Nem disse nada à minha... Quando cheguei à vila já ia desacorçoadinho de todo.
-E foi aí que ele lhe disse que tinha uma fístula à entrada do ânus!?
-Foi isso mesmo que ele me disse, mas eu num te vi lá! Como é que sabes?
-Olhe ! Eu cá se fosse a si tinha-lhe dito:" Vossa mercê, senhor doutor, há-de desculpar! Esse nascido num está à entrada do mê cu! está mas é à saída! Aqui num entra nada! só sai!
Rais ta partissem, garoto do diabo! Lá abalei, todo contente e o velho Arplano ficou-se a praguejar e a amaldiçoar a sua má sina!

sexta-feira, maio 11, 2007

OUTRAS FALAS

A abelha zune, ou zumbe; a águia grita; a andorinha chilreia, gorgeia, trinfa, ou trissa; o bezerro muge; o bode bodeja; o burro zurra, orneia, ou orneja; a cabra berra; o cachorro gane, ganiza, ou late; o camelo blatera; o canário canta, gorgeia, trina, ou trila; a cegonha grita, ou glotera; a cigarra canta, ou fretene; o cisne canta, ou arensa; o coelho chia, ou guincha; o corvo crocita, ou grasna; o crocodilo chora; o cuco cuca, ou cucula; o elefante brame, ou urra; o gaio grasna; o galo canta, cucurita, ou cucurica; a lebra chia, ou berra; o leitão cuincha, ou cuinca; o lobo uiva, ou ulula; a mosca zoa; o mosquito zumbe; a ovelha bale; o pardal chilreia, chilra, ou chia; o pato grasna, ou grassita; o pavão grita, ou pupila; a pega palra, tagarela, galreja, ou galra; o peru gruguleja, ou grulha; a raposa regouga; a rola geme; o rouxinol canta, gorjeia, trina, ou chilreia; a serpente assobia, ou silva; o urso brame, ronca, ou ruge; o veado brame.
E o homo sapiens sapiens? Esse fala. E quantas falas ele fala…

quinta-feira, maio 03, 2007

A NOSSA FALA - LXXXIII - MOINA ou MOINICE

Por natureza o homem é um animal mamífero. Só que alguns mais propriamente deviam ser chamados de mamões. Só estão bem à coca ou à mama. São esses que andam sempre na moinice. Faz-me isto lembrar uma cantiga que aqui não posso reproduzir em música mas deixo a letra:

O Senhor Hitler mais o Senhor Mussolini
Inventaram uma guerra de extermínio
Uma guerra de espantar!
Os alemães inventaram um submarino
Que é uma espécie de pepino
Que anda no fundo do mar...

Na minha terra deu-se um caso espantoso
Que espantou todo o povo
Que fez toda a gente espantar...
Na minha terra era o galo
Que punha o ovo
Para a galinha descansar

Minha vizinha
Tinha lá na capoeira
Uma galinha poedeira
Com uma frigideira ao lado
Minha vizinha
Queria que a galinha
Lhe pusesse um ovo estrelado

Na minha terra nasceu um crianço
Que estava sempre no mamanço
Só mamando estava bem
Mas um dia de tanto mamar
Podem acreditar
O crianço engole a mãe

Havia um refrão que se intercalava entre cada estribilho:

D. Chica,D. Zefa, D. Amélia
Fecha a porta catramela
para a bicha não entrar

Foi por cusa do último estribilho e dos versos assinalados que esta cantiga me veio à memória e "por se acaso"... deixo-a para a posteridade.
Pronto está bem...
Eu sei que também quereis um bocadinho de mama, às vezes. Quem não gosta de chupar numa boa mama?

"Salgueirinho da ribeira
cortado à mão canhota
não há coisa mais macia
do que as mamas de uma cachopa!"

Eu dou-vos maminha hoje: duas receitas de entrada para um engate assim comédado:

1-

Pera abacate com molho vinagrete

Escolhei peras abacates que não estejam muito rijas - sinal que estão muito verdes e o paladar não é o melhor - mas que não estejam muito apalpadas pois ficam com nódulos e estraga a aparência/aspecto da comezaina e pode-se perder o engate! E isso é que não pode ser.
Parti-as ao meio no sentido longitudinal, tirai o enorme caroço e com uma colher macia retirai de cada uma das metades a massa com o devido cuidado para não estragardes a casca, que deveis guardar, pois vai servir de covilhete, para o frente a frente degustativo...
Com um garfo esmagai essa massa até não ficar com grânulos. deixai repousar. Entretanto descacai umas gambas previamente cozidas, deixai de fora a cabeça e parti em bocadinhos o corpo do crustáceo tendo o cuidado de lhe retirar aquela horrorosa tripa preta que lhe percorre todo o dorso. A quantidade de gambas fica ao vosso critério, sabendo que não podem ser muitas pois, podia dar-se o caso de depois não se poderem meter na casca da pera juntamente com a massa esmagada e o molho que agora ides preparar: Um bom Ketchup (Heinz,Calvé,Hellmans)
Mostarda (Savora, Calvé) Mayonnaise (a caseira é a melhor, mas dá muito trabalho pelo que vos podeis ficar pela Heinz ou Hellmans). Numa malga deitai em partes quase iguais estes três condimentos e mexei até ficar com cor de tijolo. Podeis provar e constatar se o vinagre da mostarda contrasta bem com o doce do Ketchup. Fazei as correcções que entenderdes até que fique do vosso paladar. Deitai a massa esmagada para esta combinação de molhos e envolvei juntamente com os bocadinhos de gambas entretanto descacadas e partidas, enchei as cascas das peras, enfeitai a gosto deixando um arco de gambas espetado na pasta obtida. Apagai as luzes, acendei uma vela flutuante, convidai o objecto do engate e saboreai esta maravilha...
A resposta dela vai ser: «que bom!» e vós: "tu queres é mama!" Nada pior para estragar um engate.

2

gratinado de couve naba com delícias do mar

Cozei em água pouco salgada e já a ferver as folhas de couve naba que considerardes necessárias para os convidados. A fervura é rápida e a panela não pode ser tapada para que a cor natural da couve naba não escureça, retirai para uma coador deixai escorrer mas de modo a que não perca toda a humidade. Com a varinha mágica triturai ligeiramente de forma a que não fique uma papada, distribuí umas delícias do mar por toda a massa, deitai para um tabuleiro de ir ao forno, batei os ovos necessários para a cobertura, levai ao forno a gratinar e servi quentinho e muito aconchegadinhos ao parzinho.

Agora que já vos dei a mama não vos dediqueis à moinice. É pôr ao trabalho e mainada!
Bom proveito, ou como se diz em espanhol: Que vos aproveche!
Para fim de conversa ponde-vos a enumerar os mamões que andam à vossa volta e constatareis que é pelo menos um terço dos que conheceis! Palavra de Francesco Alberoni!

quinta-feira, abril 05, 2007

A NOSSA FALA - LXXXII - ÔIA

Em todo o tempo houve gabarolas. Aqueles a quem nós damos sempre de desconto, que não valem pelo que valem, mas pelo que outros dizem que valem, por bajulice ou apadrinhamento, ou porque eles próprios se arvoram em auto estimados sujeitos e não têm pejo de se alcandorar até alturas para as quais não têm escada.
Basta ir, no actual, de Portas a Sócrates, para vermos a insofismável verdade do que atrás se disse.
São tantas as bajulices que deixam ou , o que é pior, porque premeditado, são tantas as basófias que intencionalmente difundem "ao povo ignoto", que, quem anda minimamente atento ao que se passa em seu próprio redor, fica tão basbaque, que só lhe sai do fundo do seu ser: ÔIA!PARA SEMELHANTE MERDA É PRECISO TANTO BASQUEIRO!
Mas, ou sou eu que ando taranta ou há quem me queira pôr atarantado: será possível que, ao fim de tanta enrabadela ainda haja quem ponha a manteiga no olho cego para penetração mais fácil!?
Nanja eu, que me encosto à parede e daqui só sai, nada entra" Mainada!"
Dispenso-me de exemplificar - ainda agora o Tribunal de Contas o fez por mim! E a Independente...
Mas o povo(?!) - eu também sou - prende-se mais à telenovela e a hediondas coisas como a Bela e o Mestre, do que ao que é decisivo para si e para o país e depois queixa-se.
Mas...
Não era aqui que eu queria chegar...
Já William James dizia que a mente não é contígua mas contínua e irreversível :- mesmo que eu não me mexa, nem aos olhos, se os abrir e fechar, apesar de continuar a olhar para o mesmo sítio, - a sensação (se calhar seria melhor ter dito percepção) - já não é a mesma.
As ideias acotovelam-se e querem sair todas ao mesmo tempo e depois saíu isto!
É caso para gritar :ÔIA!
Vamos lá então a pôr água na fervura, que é como quem diz: trata mas é do discurso assim comédado, à maneira do baságueda e no atentes a cabeça ao leitor que vem aqui para recordar eventos curiosos da xendrice e nada disposto a leituras enviezadas em que se confunde o cu com as calças.
O BASÁGUEDA OU CONTINUA A SER BASÁGUEDA OU ENTÃO ...
Vamos lá à história:
Xquim do Trem, filho de Domingos Argentino e tio de Domingos Portas, cunhado de António Rela, que é irmão de Xquim Meirim, aquele que fazia fintas à Tonho Maranhão, quando, nos bons tempos da fonte, das amoreiras, das oliveiras , das mulheres com o cântaro de água à cabeça, se jogava à bola naquele baldio, onde as Santas, Mortes, Pachaus, Ermelindas, Reis e Modas, vizinhos que eram, por esta altura, estendiam, a corar, a roupa lavada na ribeira, bem batida na pedra inclinada e bem calçada, por mor de não haver perigo de um afundanço das ventas na corrente da ribeira encostada ao chão do Maroco, bem, então o Xquim do Trem ajustou a cava da vinha ao Zé S. Marcos.
Estávamos em Abril - O Zé escolhia sempre as férias neste tempo (ele era guardador de vacas ali para os lados de Peraboa) primeiro, porque fazia anos no dia de S. Marcos, que não é, nem mais nem menos, que o dia 25 de Abril e há (havia) festa de arromba na freguesia de Águas. S. Marcos (o nosso, irmão de João Lúcio, de Domingos Lúcio, de Lurdes Lúcio, mulher de Miguélito, para além de Fernando Lúcio casado com Perpétua Nascimento e pais- ambos dois -de Ildefonso, boleiro afamado, afilhado do Farmacêutico que trouxe a Farmácia para a Aldeia por sugestão do inefável Padre Zé Pedro, filho de Ti Jerolmo e D. Augusta) ,estávamos então nos começos de Abril, repito, e o Zé para ter uns pataquinhos para o Mata -Ratos e algum copinho na tasca do Fatela, ajustava cavas por dá cá aquela palha. Xquim do Trem ajustou-lhe a vinha da quinta do Ramalhão, paredes meias com a famosa de Cum Filha da Puta, e perto da horta dos Planetas, a dar vistas para a Tapada do Domingos Manata e do Chico Rolo. Era nessa quinta que a Troa - mulher em segundas núpcias com o Xquim do Trem - cultivava uns nabiços em pleno Verão que vendia quase a preços de agora.
PARÊNTESIS( Faço aqui este parêntesis só para vos assinalar que com esta profusão de pormenores até um ceguinho sabe quem são estas personagens. A partir de agora vou dispensar-me de fornecer tantos indicadores,porque a evidência não se demonstra).
Xquim do Trem ajustou então a cava da vinha ao S. Marcos. Passadas duas horas já o S. Marcos estava à porta do Trem a pedir meças pelo trabalho!
- "Dinheirino pra cá, vá!
- Ôia! O Quêi!? - Tu já cavaste a vinha?
- Já sassenhora! Pode lá ir a ver!
- Quando acabar de almoçar logo lá vou na burra.
- Mas já me podia dar algum dinheirinho de adianto!
- Ná! Se calhar passaste a manhã a dormir e agora querias mama!
- Nassenhora! Eu cavei a vinha toda!
- Vai ali ao Zé Rolo, bebe lá um copo dos grandes e diz-lhe que pago eu! quanto à vinha depois de almoço falamos...
Xquim do Trem almoçou uns grelos com uma boa peixota de bacalhau, vai-se ali à casota da entrada da lagariça, pertinho mesmo do chão do Lavra Miúdo, um pouco à frente da nespereira do Mné Raposo, paredes meias com o quintal do Isidorico, aparelha a burra que mais parecia uma mula,tal o porte do animal, sempre bem cevada, orelha afitada, lustrosa , mansinha como a terra (mostezinha),:cabresto com rédea na cisgola, albarda com estribos e tudo, cilha em pele de búfalo(tinha sido eu quem a fez), bordadinha a lã na rabicha e atafais com atacas ...Um espanto, aquele animal! Mete pelo caminho das Águas abaixo, passando ali à Igreja, à casa do Vale Quem Tem, passa a casa queimada, avança pela quelha, passa as poldras , a curva da casa do Mné Maneta, àquilo dos Manatas, entra na vinha: só queijos. Cambalhões mal construídos, erva sem ser voltada, um aqui outro ali, nada de jeito...
O Trem vem preado por ali acima, espora a burra que mete a galope e lá estava o S. Marcos à espera:
- Atão aquilo é trabalho que se faça, seu gandulo!
- Ôia! Vomecêi num teve tempo de chegar àquilo do Tôco e já me está a dizer que o trabalho num está bem?
- A minha burra não é lesma como tu! Nem um corno! não mamas nem um corno, enquanto num cavares a vinha assim comédado!
- Ai éi?! eu logo lhe digo a vomecêi como é que canta a rata!
S. Marcos mete pelo Oiteiro acima, a passar ali à oficina do Zé Guerrilhas e ao Tonho Pedro, ao cimo da barreira, não dá as boas tardes a ninguém, dá um pontapé na porta da loja, agarra na enxada e, a praguejar e a escarrar, aí vai ele... Xquim Camião que passava na altura lá do cimo do seu pescoço de cegonha e naquela linguagem que poucos cortam:
-Ôia! num me digas que vais a trabalhar?! Deve haver ingano!
- Vai-te à fonte limpa, ouviste?
Camião ficou ainda mais taranta do que já era, encolheu os ombros e ainda o ouve a mandar para a pata que o pôs ao Tonho Feduchas que, malino como era, se mete com ele: "Ó Zéi, vais a abrir uma bureca para o pirolis lá fazer o ninho?"
Nada deteve S. Marcos na sua determinação: foi-se aos cambalhões que tinha feito e esborralhou-os todos.
Aliviado, mete a enxada ao ombro, entra pela loja do Trem:
-Num me pagou!? já fui a desmanchar tudo quanto tinha feito! bem feita!
-Ôia! nunca vi trabalhador cma ti! mas bem hajas! assim fico logo com a vinha esborralhada! é dois em um.Bem hajas!

PÁSCOA e vão 2

D'hoje a 3 dias
é o domingo imediatamente a seguir
à lua cheia imediatamente a seguir
ao equinócio da Primavera.


Um tal Gregório, o nº 13 da sua dinastia, linha, ou lá como se rai se chama a ordem das santidades, decidiu que o mundo em que ele mandava havia de celebrar uma tal de Páscoa.
Vivamos todos, então, uma Páscoa assim comédado, em paz e em harmonia com o caos.

Ainda de acordo com as contas que o tal Gregório, o 13º, deitou ao tempo, completam-se hoje 730,4849998 dias solares que este vosso humilde blogue se revelou aos mundos que partilham deste tempo. Aos outros, também.

domingo, abril 01, 2007

A NOSSA FALA - LXXXI - EU SEJA CEGUINHO

Hoje fiquei com a sensação que os agricultores xendros estão à frente do seu tempo, no que toca a métodos de produção. Sempre atentos às novidades tecnológicas aplicadas à arte de amanhar a terra e de tirar dela o que ela tem para dar, são exemplares na adopção de técnicas e instrumentos revolucionários, alguns deles só eventualmente generalizados daqui a alguns anos. Eis o que ainda hoje, em pleno adro, imediatamente antes da "missa dos ramos" eu ouvi:
- É verdade! - garantia "nosso Zéi" - a minha (mulher) já nem precisa de cardo para fazer os queijos. O mê genro arranjou-me um produto que se espalha no pasto onde as cabras rapam, que quando as vou ordenhar, o leite já vem coalhado. O problema é que só resulta com as cabras virgens, por isso é que lá pus uma aramada para as separar das outras.
- Ah! ôlha, o mê genro, atão, - atalha Xquim Moca -, trouxe-me ontem de Castelo Branco uma seringa especial para tirar o azeite directamente do toro das oliveiras. A gente espeta a agulha ali rentinho à base da árvore, a uma fundura de 3 dedos, e tira logo azeite. Eu ainda lhe disse, atão mas pr'a qu'arrai trazes isso agora, qu'o tempo da azeitona inda lá vem tão longe. E ele: estavam em promoção, catano, tinha de aproveitar. E eu: bom, atão fizeste bem.
- No v'estandem pr'aí a gabar - entra "nosso Fernando" - que vós no tendeis lá uma máquina c'má minha, que me trouxe o mê filho, de Lisboa. É assim a modos qu'um laboratório de mão, vem numa malinha, a gente leva aquilo pr'á vinha, mete lá uma folha de videira, e aquilo diz logo ali se a parreira está boa de saúde, a qualidade do vinho que vai a dar, a cor dele, inté a graduação.
- Hum! - desconfia o Mantarrota que assistia ao lado - e isso é mesmo assim?
- Mau! - vira-se "nosso Fernando" com cara séria - Ê seja ceguinho!

terça-feira, março 27, 2007

A NOSSA FALA - LXXX- MOSTOZINHO OU MOSTEZINHO

Mais uma da lei do menor esforço: vejam só o que derivou de doméstico(zinho). Aplicava-se este termo quando uma besta: vaca, burro, cavalo ou mulo/mula, eram mansinhos. Dizia-se mesmo: é manso como a terra.
Era assim que nos queriam no tempo da outra senhora: mostozinhos. Que ninguém fizesse ondas que a ordem era: pela lei e pela grei. Alinhadinhos, na grande maioria, ali andávamos nós em fila indiana preparando a defesa da Pátria, acima da qual, em termos valorativos, apenas se encontrava Deus. Só por fim vinha a família, expressa no seu mais genuíno termo: Lar. Era esta a hierarquia dos valores: Deus, Pátria, Lar. A pessoa, enquanto indivíduo, era um elemento pertencente à Nação/Estado, una e indivisível, onde até o livro de aprendizagem, era o livro único, independentemente do local geográfico. Os meninos em idade escolar de S. Tomé e Príncipe, para além de terem também sofrido a construção do edifício padronizado que povoa Portugal, também aprendiam -pasme-se - que no próprio Equador onde se situam, os dias crescem ou minguam conforme no seu movimento aparente, o Sol esteja em Câncer ou em Capricórnio, que a sucessão das estações era invariável e que eram os solstícios e os equinócios que as determinavam. E, claro, os que habitavam o hemisfério sul, como Angolanos, Moçambicanos, Timorenses... aprendiam a mesma ordem embora eles constatassem que era ao contrário. O importante é que ficassem calados porque já era um privilégio a poucos concedido esse de aprenderem a ler, escrever e contar... Mostozinhos é como se queriam. Para isso havia os seus eficientes e eficazes encarregados de vigilância, que criaram em nós todos que vivemos tempo bastante nesse período, um estigma de medo, temendo por tudo e por nada que fôssemos chamados à pedra.
Num dia de Verão, dos anos sessenta, julgo que o de 68, cedinho, por essas 6h 30 min, aparece minha mãe alvoroçada no meu quarto que estavam lá em baixo na loja o senhor Domingos Campos, Presidente da Junta e o senhor Chico Manteigas, o Sarapião, Regedor que era ao tempo, que queriam falar comigo. O que é que eu tinha feito e tal e mais isto e mais aquilo e eu Nada, mãe, não fiz nada, então porque é que eles cá estão? e eu : sei lá! Já lá vou.
Acontecia que naquela noite, no muro do Marcelo, que entretanto tinha sido pintado de novo, apareceram, mesmo quando faz a curva a chegar à estrada, bem à vista de todos, portanto, uma foice e um martelo em tamanho razoável, num vermelho vivo e que isso era motivo de comentário logo àquela hora da manhã.
Levantei-me, passei água pelos olhos e aí venho eu: "Dá cá um abraço, rapaz, "disse o sr. Domingos Campos. Eu fiquei taranta, a minha mãe embasbacada e o Chico Sarapião abria o Século, O Diário Popular, o Jornal do Fundão e o Reconquista para mostrar o meu nome constante nas listas dos alunos das diferentes escolas do país que estavam no Quadro de Honra!
Eu nem sabia que isso existia e fiquei também como um basbaque.
Aos poucos acordei e pus-me a ler. Era o primeiro filho daquela terra que tinha o nome nos jornais de maior tiragem nacional e regional; era o orgulho da aldeia; era a honra da família; era o modelo de cachopo, mesmo mostozinho; era uma jóia de pessoa! Sei lá que mais... Deve dizer-se que os jornais naquele tempo só chegavam no dia seguinte ou passados dois: vinham na camioneta enrolados como um canudo e era preciso saber abrir para não serem rasgados. Alguns vinham dentro de uma cinta colados com massa de farinha que inevitavelmente o rasgaria se fosse aberto antes de chegar às mãos do legítimo destinatário. Eu, como era Mostozinho e os correios estavam lá em casa e a camioneta era ali que tinha a paragem tinha ordem para abrir os volumes. Um privilégio. Podia mesmo fazer as palavras cruzadas!
Depois daqueles elogios todos a minha mãe pediu os jornais e ao menos aquela folha e espetou-a na porta do correio. Mãe é mãe, não há nada a fazer, nem a dizer.
Sarapião chama-me então de parte: "olha lá, eu sei que não foste tu, mas diz-me lá quem é que pintou a foice e o martelo além no muro do Marcelo" e eu: "qual foice e qual martelo, onde é que isso está? " Vim à rua e vi. Lá estavam salientes os instrumentos da ceifa e do carpinteiro, esses mesmos, símbolos do Partido Comunista. «Não faço a mais pequena ideia,» disse para o Sarapião. De repente saio-me com esta: " se aquilo o preocupa tanto por que raio não lhe passou já tinta por cima ?" Nem esperou mais, foi-se ao ti Faustino comprou meio litro de tinta e um pincel e queria que eu borrasse as siglas: «Tire o cavalinho da chuva! não tenho nada a ver com isso e não sou seu criado.» Protestou, que me ia acusar ao meu pai quando o visse mas lá passou por cima a tinta branca. Só que o vermelho era muito forte e Chico Sarapião ficou ali a manhã toda a fim de ir dando demão após demão até definitivamente ninguém ficasse a saber que a população da freguesia que tinha sob a sua responsabilidade em termos de segurança era toda concordante com o Estado da Nação e não havia quem destoasse dessa Ordem.
Quando comecei a escrever esta crónica(?!) estava longe de pensar que Salazar iria ganhar o concurso(?!) do melhor português de sempre. Embora não tenha visto, vim a saber que foi por uma percentagem de 41% e com mais 20% que o segundo (outro estranho), Álvaro Cunhal.
Longe de querer fazer uma psicanálise deste fenómeno, sempre penso, todavia, que mais do que grupos organizados que, para além de se mobilizarem, mobilizaram ainda outros, o caso é que, se é verdade que o dito ditador jaz enterrado, ainda não está morto e os seus seguidores ressuscitam-no cada vez com força maior. A vingança serve-se fria e aqui está um bom exemplo... São mecanismos de compensação, assim uma espécie de sublimação não alheada de alguma fantasia, em que o prazer se associa a um certo masoquismo colectivo de gente, preparada e condicionada a uma ordem como que pré estabelecida, numa imitação de teleonomia. Tudo isto encaixado num cérebro de coordenadas cartesianas, habituado a ordem e segurança e a um imobilismo estático assente num conservadorismo atávico, inevitavelmente conduz a regressões em que se invocam algumas preferências e condições como os campos cultivados, a ausência de desemprego, a não proliferação de subornos, compadrios e corrupção, a segurança, enfim...
Sempre vos digo, e por aqui me fico, que é preciso estar alerta e não nos deixarmos embalar nesta modorra da indiferença, do faz de conta, neste país do mais ou menos.
Só vos aconselho: não sejais mostozinhos ou mostezinhos.

domingo, março 25, 2007

Bom som para BUER




Os barbudos são chapados pra buer. E para tocar? Filhos do diabo dos barbudos, a tocar e a buer ao mesmo tempo, rais os palirem...

sexta-feira, março 09, 2007

A NOSSA FALA - LXXIX - CARRICHO OU CARRITCHO

A lei do menor esforço volta a imperar: vejam só o que o povo aglutinou a partir de pequerrucho. Deve ler-se CARRITCHO. Não sei se alguma vez reparastes que o povo, quando pronuncia com TCH, as palavras se escrevem com CH, mas se pronuncia CH, então a grafia é com X. Sirva de exemplo: BUTCHO (estômago de rês) e BUXO ( planta de sebe), TCHAVE, mas ENXADA, e INTCHADA ou INTCHEDA (tenho a mão intcheda) e por aí fora... ´
É assim o povo e faz muito bem.
Vem isto a propósito de outro lugar comum: "os homens não se medem aos palmos"; (também incluo as mulheres).
Havia na Aldeia um Chquim Carritcho : ainda bebemos alguns copitos juntos e fizemos algumas matanças. Mesmo a mulher não era "mulher a mais" e a filha que geraram também se ficou pelo rés do chão. Nada disto, no entanto, impediu que todos tivessem singrado na vida e hoje se possa dizer que «estão bem». Foi o primeiro organizador de excursões a tudo quanto era sítio de nomeada ao tempo, desde a sra do Almortão e Sra da Póvoa até à Sra de Fátima e santa de Alenquer e outra, ali para os lados de Espinho a quem ainda hoje, diz-se, continuam, a crescer as unhas e o cabelo e a pele ainda lhe une a estrutura óssea. Santos e Santas !!!!!!!! Nem a terra os come: ou são tão bons que ela se recusa a profanar o sagrado ou tão maus que, mesmo que queira, não os consegue roer... As moedas também têm duas faces, digo eu, e portanto há sempre uma leitura diferente da nossa com tanta legitimidade como a que nós fazemos. (...)
"As palavras são como as cerejas" e os pensamentos também, com a agravante de serem mais rápidos e "não haver machado que corte a raíz ao pensamento". Vai daí solta-se-me uma que até o diabo, se andasse por este mundo teria dificuldades em arpoar : O Chquim da Senhora, maioral que pedia meças ao Estronca Brochas e mesmo ao Ti Domingos da Casa Megre, era Carritcho. O tempo já não era bem o da transumância mas ainda se fazia alguma trasfega de gado da Raia para prados mais verdejantes, ali para os lados da Mata da Rainha, Enxames, Aldeia de Sta Margarida, terras mais húmidas, mais férteis e com uma espécie de lameiros à moda da Terra Fria que possibilitavam que as ovelhas mantivessem a quantidade e qualidade do leite, mesmo depois da florescência das ervas quando a margaça, a azeda, o mijacão, a bolsa do pastor e outras primícias já aqui pelas raias botavam semente à terra e por aqueles lados começavam a abrir a pétala. Chquim da Senhora tinha uma cadela carritcha: "isto é má filha da puta para o gado", dizia vaidoso... " Em eu lhe dando uma volta a inchiner os cômaros do pasto, a filha da puta aprende logo e ai da puta da ovelha que passe o limite! Posso mesmo deitar-me a roncar que ela toma conta do gado assim comédado. Quero-lhe apurar a raça- continuava- mas num incontro um cachorro da raça dela que tamém saiba virar o gado ao meu bradar". Tinha receio e com razão - a natureza sempre foi mais forte que o homem - que um qualquer cão vadio, quando ela se saísse , a montasse e em vez de ter cães para o ajudarem tinha para ali uma cãozoada dum corno que só queria era galula e gozmia . NÁ! isso é que ele era bom!
Verdade é que a carritcha cadela acabou por ter sido coberta quando Chquim ressonava ao toro de um sobreiro e ele só se apercebe quando nota a barriga da cadela volumosa, a beber mais água do que era costume, a ser cada vez mais lenta e até a recusar-se ao mando do brado. " Ai a puta! já o mamou! mas num vai crier nenhum; ai num vai não. Alimpo o sarampo a todos...limpinho!" . A carritcha - por isso lhe chamava FELOSA - chegado o tempo - já o Chquim tinha voltado para a Aldeia para os pastos do Prado e do Frade, ali paredes meias com o Batcharel ,nos limiares da fonte de Melão - a carritcha, nómada como o rebanho, arranjou toca no tronco de uma oliveira e ali pariu sete cachorrinhos.... O Chquim bem a chamava... Nada! Andou todo o dia a ver dela e só com arte e manha - a fome obriga - é que descobriu a taloca com os cachorros. Bota comida à cachorra longe e , 'em menos que o diabo esfrega um olho,' aviou todos os cachorros, enquanto praguejava impropérios. A cadela, coitada, bem latia a chamá-los, mas nada. Chquim da Senhora, agarrou-a ao colo e trouxe-a para casa depois de ter feito o rodeio ao gado e o ter encerrado numas cancelas toscas.
Ainda mal tinha posto o pé na soleira da porta já a Nazaré o informava: «Ó Chquim, vai lá a ver a nossa porca pardeira que eu acho que ela está a parir.... Raios afundem o diabo! logo hoje que eu tanto queria dar uma arreboladela contigo é que o raio da porca se lembra de parir. Esta puta tamém pariu hoje mas eu já lhe dei cabo das crias... .Vai-se ao furdão e lá estava a malhada já com os leitões à procura da teta; De repente vem-lhe à ideia: "deito dois à cadela e pode ser que os acadeje. » Viu-se "nas horas del conho" para conseguir sonegar dois recos à malhada. A porca punha-se a cascar e só a poder de um bom par de rasouradas é que ele conseguiu meter os recos numa cesta velha.
Veio para o caldo da ceia e diz : «Ó Nazaréi, segura aí a cachorra um bocado que eu já venho» e desandou. Passou pelo palheiro, untou os bacorinhos com um bocado de soro, embrulhou-os numa saca de papel e ala! foi-se direitinho à toca da oliveira, deitou lá um pouco de panojo e deixou lá os recos. Volta para casa e solta a cadela. As tetas retesadas pelo leite activam o instinto e a Felosa arranca direitinha à BURECA. Cheirou, cheirou , latiu, latiu e só ouviu renhé, renhé, renhé, mas o leite apertava... decidiu-se: entrou e os bácoros agarraram-se às tetas e foi um regalo; batiam com as mãos a fazer inchar o amojo e encheram o papinho assim mesmo comédado!. A cadela ficou. Chquim ardulha o caldo de couves à pressa e vai-se à Nazaréi. Foi um fado, foi o que foi!
Nem queirais vós saber como os recos cresceram. A carritcha Felosa dedicou-se a eles e não é que para onde ela ia , iam eles: encorriam as ovelhas como ela e o Chquim andava maluco com aquilo.
Na Aldeia, alguns gozavam-no. Um Domingo, aparelha a burra, mete os dois bácoros um de cada lado nos cestos das angarelas, a Felosa salta para a testeira da albarda e toca a andar.
Chquim foi ao cavacal a deixar a burra e tira os porcos das angarelas e chama-os coma a cadela e aí vêm. As mulheres que se preparam para a missa e penteavam o cabelo frente a um espelho pregado na parede perto da ferradura de prender os burros enganaram-se a fazer a trança, espantadas como ficaram a ver aquilo. Chegado ao adro, então é que foi o bom e o bonito.
Só para demonstrar aos incrédulos que era verdade o que dizia, Chquim desafia os mais esquisitos a um rodada de tinto dos grandes:"aposto que ponho aqui um baraço à altura de um metro e os bácoros saltam por cima tal qual a mãe."
Ficaram todos a olhar e vou eu:" Ó Tchquim, eu aposto só a um metro e vinte. Fomos ao ti Faustino a pedir a fita métrica marcamos o metro e vinte, pusemos uma porta velha no meio do adro para não poderem passar por baixo e não é que cadela e bácoros saltam ali à frente de todos 1,20metros?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

ZECA

Faz hoje 20 anos, fui a Setúbal esconder-me no meio de uma multidão, no adeus ao trovador da liberdade.
Inté cantei...
Se soubesse tocar piano, se tivesse um piano, era bem capaz de lhe dedicar uma das suas baladas. O jovem do carrapito comprido fá-lo por mim. E por vós se quiserdes.

domingo, fevereiro 18, 2007

A NOSSA FALA - LXXVIII - MANDONGO(A);MANDONGUICE

Na nossa vida, circunstâncias há que, de forma inesperada, nos deixam cicatrizes que, noutras ocasiões, aparentemente sem nada a ver com o primitivo assunto, nos remetem para ele. Ficamos, então, a tentar deslindar porque raio é que aquilo nos veio à memória sem termos feito qualquer esforço, doutras vezes, ralamo-nos quanto baste tentando recordar um nome ou uma situação, e nada nos ocorre.
Foi cedo que aprendi: quando se encontra sem se procurar é porque já muito se procurou sem se encontrar. Às vezes andamos à procura do lápis e trazemo-lo pendurado na orelha... É a vida!
Vem isto a talho de foice do tema que hoje quero tratar convosco.
Comecemos por uma pequena história: Em tempos, um bispo de Lamego foi ministrar o Crisma a uma aldeia - ainda havia aldeias naquele tempo que merecessem visita pontifícia - .
Sabido como é que os bispos gostam mais de (se) mirar na reluzente superfície dos seus Paços, e são muito avessos a poluir os seus sacrossantos sapatos a condizer com a vestimenta - não seguissem eles o exemplo do máximo bispo, professor Ratzinger, que só veste e calça Giorgio Armani- raras eram e são as saídas dos episcopais aposentos.
Neste particular aspecto o papa anterior foi excepção...
Bom... mas o bispo entabelou uma conversa com os crismandos e queria saber o que significava o Crisma; um dos cachopos bate na cintura da mãe e questiona-a:« ó mãe, digo?» e ela:" e tu sabes?" e ele:« sei, mãe.» , "então diz"... O rapazote levantou o braço e apontou, qual torre de catedral gótica, o indicador ao céu, o bispo dá-se conta e interpela:«ora ali está um menino que nos vai elucidar..."O santo sacramento do crisma significa que nós passamos a pertencer ao exército da santa madre igreja apostólica, católica, romana»! Apressa-se a dizer o prelado: " Eu não diria melhor... e como chamamos nós aos soldados que viram as costas ao inimigo?" aí o garoto nem se deteve: « UM CAGÃO, SENHOR BISPO!» Assim mesmo.
Mário Zambujal em "A Crónica dos Bons Malandros" ao lado do Silvino Bitoque e do Doutor, tem o Caga d'Alto. Os marmanjos que o nosso bom povo apelida de mandongos são assim como que um cozido destas figuras: batem e fogem. Mamam até que haja leite, escondem-se e riem-se dos que, por dever de ofício, chegaram tarde porque não são gulosos e sabem respeitar a vez e as oportunidades.
Um desses apareceu-me um dia: queria mama!Eu só lhe disse:" os malandros para mim, têm que trazer um pêlo na palma da mão"..Ficou a olhar para mim e eu pensei: "vinhas por lã, mas vais tosquiado", não querias tu mainada do que"ensinar a missa ao cura" ou 0.
" ensinar a estrelar ovos à tua avó"; esqueceste-te"que o diabo sabe muito, porque é velho"; olha o mandongo! "Vá mas é mamar na quinta pata de um cavalo"
Em toda a parte - desgraçadamente na política e nos governantes, acentuadamente - há destes artistas que comem sempre " à pála " e que querem - muitas vezes conseguem - fazer dos outros "otários".
Há-os e houve na aldeia. O pior não são eles: é o povo ceguinho, endrominado, que não os enxerga e embarca pacoviamente no seu palavreado. Esses pantomineiros da palavra enrolam o povo néscio com sacos de plástico, um isqueiro, uma caneta e uma avental de plástico... em troca só querem uma cruz em quem os representa e eles representam.
A um desses pus eu um dia esta questão no meio de um grupo de malta ali no largo do Zé Rolo em frente do inefável café da Rosa: "sabes como se distinguem os caracóis machos dos caracóis fêmeas?" Ficaram todos a olhar... Tentou iludir a questão:« e tu, sabes distinguir um formigo duma formiga?» "Sei : agarro os animais pela patas e abano-os: os que baterem as bolas são machos, os outros são fêmeas". Ficou descalço, mas os circunstantes atalharam-no: "vá lá...responde lá ao Changoto... ANDAS AÍ SEMPRE FEITO PAVÃO, ANDA, DESENCULATRA LÁ ESTA!" Que não, que não sabia... confessou... «Então ficas a saber, meu mandongo de trazer por casa: agarras numa saca deles e espalha-los no chão. A seguir, sentas-te em cima deles: os que te forem ao cu são os machos». Abalou estrada acima e só apareceu no outro dia.
Sempre vos digo: «Para bom entendedor...»
É que os cagões não só os que fogem, são também os pavões! Se vos pondes debaixo apanhais com as bostas...
Como me dizia o velho Comandante:" Vê bem, antes de saltares".

terça-feira, fevereiro 13, 2007

A NOSSA FALA -LXXVII - CASCABULHO

O velho professor Leitão era assim uma espécie de professor Pardal que passava a vida a tentar materializar ideias: famosas são as suas tentativas de arranjar uma máquina de podar macieiras, pereiras e outras árvores frutíferas a partir do chão, sem recorrer a qualquer escada...Para o efeito serviu-se da vara de um guarda chuva na ponta do qual ajustou, num eixo adequado, uma faca de cozinha que era movida contra outro gume fixo fazendo como que um efeito de tesoura, puxando um cordel; arranjou uma engrenagem que punha uma motorizada a tirar água dum poço; arranjou um depósito de tinta para as canetas de aparo da escola, aquelas com cabo de pau (ainda há quem se lembre, com certeza), evitando assim que se estivesse sempre a molhar o aparo no tinteiro de tinta, em cerâmica branca, que havia em todas as carteiras; mais inventos ainda fez mas de menor monta. Coiote Pete, malino, bardina por excelência, e que não era aluno dele, propôs-lhe que inventasse uma espingarda que matasse os coelhos nas curvas. "Dá-me tempo!, dizia o professor... Coiote disponibilizava-se para tocar o fole da forja do ti mné Ferreiro - outro artista que um dia aqui há-de ser figura de proa - a fim de dar têmpera ao aço dos canos da espingarda...
Por esta altura, estamos a falar dum Verão dos velhos anos sessenta, três eram as preocupações dominantes do professor Leitão: a fundação do Clube Fernão Lopes, a cuja Direcção pertenceu largos anos, juntamente com Chico Grande, alferes Rei e Chico Sarapião; a invenção de uma engrenagem de tracção manual que auxiliaria o Réu-Réu, Tum-Tum - velha arrastadeira que pegava de manivela com gasolina e depois consumia petróleo, de marrícula AC-01-01 - por isso lhe chamávamos o Antes de Cristo- a qual (arrastadeira) nas subidas se ia um pouco abaixo, tanto mais que chegava a levar ranchos de 10 e 12 pessoas. Ora, se ele conseguisse adaptar um eixo supletivo de uma roda dentada, semelhante à pedaleira das bicicletas com desmultiplicador e carreto numa barra fixa no interior do Réu-Réu, aí, quem ia dentro, podia auxiliar o carro nas subidas; o obstáculo maior era que o eixo tinha que vir por fora e depois, tal como na engrenagem das rodas dentadas das noras, tinha que fazer um ângulo recto, o fazia perder muito da força gasta por causa do atrito: uma dor de cabeça que acabou por nunca ter resolvido, tal como o desafio de Coiote, porque entretanto lhe chega um AVC que se não o liquidou logo, o deixou claramente diminuído; a terceira espinha que lhe acicatava a cabeça, era realização das festas populares.
Como muitos sabem , por via de regra- e mais ainda naquele tempo- a festa do padroeiro das aldeias coincidia com as festas do povo. Ora o senhor prior dizia que se era o santo - no caso S. Bartolomeu, a 24 de Agosto - que dava o nome à festa e garantia a afluência dos xendros à Aldeia, então os festeiros tinham que pagar à fábrica da Igreja metade dos lucros que obtivessem. Aí é que o professor Leitão não estava de acordo: Quem tratava da papelada toda, quem contratava os artistas, quem encomendava os produtos bebíveis e comestíveis, quem arriscava no fogo aéreo e preso, quem preparava o recinto, quem garantia todos os serviços, quem tudo pagava e quem tudo assinava tornando-se assim o responsável pelas ocorrências, não era o senhor prior, mas o professor Leitão.
Disse-me um dia: "tu achas direito que o padre leve sem fazer nada metade dos lucros da festa?" E eu:« ó Senhor professor, isso é fácil de resolver: faz a festa antes da do Santo e muda-lhe o nome» ; e ele:"não me tinha ocorrido isso...e que nome lhe davas tu?" -FESTAS DA DESFOLHADA, atalhei. e ele "é que é para já" E foi. Durante anos as festas levaram este nome: Festas da Desfolhada.
Agora perguntais vós:Como é que este título te veio à mona? vá lá , perguntai! ( isto até parece o visualismo do patrono do Clube dos Xendros -Fernão Lopes -). Eis a resposta:
Aos meus pés estava um CASCABULHO que devia ter caído da saca para onde ao fim dos serões, nas cálidas noites de Verão, a vizinhança se juntava na laje de uma escadaria que havia no largo das camionetas, onde hoje é a casa do Carradas, e serviu de café até há pouco, e que, ao tempo, era da ti Antónia Costa, viúva do Agostinho Ratado, a qual ficava pertinho da lâmpada de iluminação que pendia da parede da casa. Via-se bem a maçaroca e quando, para separar o grão de milho do CASCABULHO, nós esfregávamos uma maçaroca contra outra, em fricção forte, ao fim ficávamos com o CASCABULHO que atiávamos para uma sava e depois era deitado na furda ou no palheiro do burro.
Expliquemo-nos: a maçaroca está revestida pela camisa no cimo da qual aparecem as barbas de milho - de que garoto que se prezasse fez uns cigarritos embrulhados na folha escrita do caderno da escola- ; era pela abertura do cimo da maçaroca que se metia a lâmina de uma navalha ou, mais frequentemente, um pau aguçado numa das pontas e se rasgava a camisa ao fim do que se esnocava a maçaroca que depois é posta a secar na eira. Os que tinham muito, malhavam, os mais pobres, juntavam-se e uns para os outros, ajudavam-se na descamisa (eles diziam desencamisa). Júlio Dinis, na Morgadinha dos Canaviais, chamava-lhe DESFOLHADA. Ora eu tinha lido o livro havia pouco tempo e vai: Festas da Desfolhada.
O que resultou dum CASCABULHO que não ficou guardado na saca!
A vida é mesmo feita de pequenos nadas e já uma vez pus esta questão a um dos maiores comunicadores de sempre da Televisão Portuguesa - o Maestro António Vitorino de Almeida- e ele concordou dizendo que se quando passeava entre as árvores do Campo Grande o banco debaixo de uma vetusta árvore estivesse ocupado e ele não se pudesse aí sentar, o seu passeio ficava estragado.
Foi aí também que aprendi a melhor máxima de vida: "se uma coisa merece ser feita, então muito mais merece ser bem feita"
Bem feita! fico-me por aqui.
P.S. - As minhas desculpas pela pixotice de não atinar logo à primeira com as exigências do Google!

domingo, fevereiro 11, 2007

FALA DO HOMEM NASCIDO



Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu

Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

António Gedeão

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A NOSSA FALA LXXVI - Mãos ENGADANHADAS

Naquela noite, tinha caído um códão daqueles comédado. Albertino Chinchas levantou-se cedo para cumprir o compromisso firmado com o seu compadre Mnel Alma de Sino de lhe matar o marrano, como era hábito. De Verão ou de Inverno, Albertino gostava de vir lavar a cara na água do tanque que mantinha quase sempre cheio com água do poço. Bastas vezes, no Inverno, tinha de partir o caramelo com um martelo para chegar à água, mas ele sentia um prazer masoquista quando sentia os tomates a encolherem-se dentro das calças quando mergulhava a cara na água gelada. Acreditava que o acto de coragem era significado de virilidade e que a reacção dos testículos era sintoma disso mesmo.

Ainda com as mãos engadanhadas, preparou a vianda dos seus porcos em dois caldeiros que despejou em duas pias de pedra granítica. Já a caminho da casa do compadre reparou melhor na russa reluzente que cobria os campos: "Tá cá um códão!", murmurou, o que o arreganhou ainda mais, aconchegando instintivamente o pescoço no pêlo da sobrepolis.

O compadre esperava-o com um borralho vivo onde já fumegava um caldeiro farrusco engatado nas correntes que desciam da chaminé, e com o púcaro de aguardente quente com açúcar, a fumegar. A salvação foi imediatamente seguida da oferta de uma caneca e do púcaro. Arreganhado como estava, Albertino encheu a pchorra de cogulo que sorveu em pequenos goles, concentrando-se na sensação que o líquido provocava quando passava pela gola. Havia de emborcar mais duas pchorras, em resposta à insistência da comadre e para acompanhar os manos Alma de Sino e o tio João Alma de Sino que entretanto chegaram.

O calor que as 3 canecas de aguardente quente doce lhe emprestavam às tripas contrastava com o barbeiro da rua quando se foram todos ao porco. As mãos rapidamente voltaram a ficar engadanhadas dificultando a destreza e a força que era necessária para tratar da saúde ao reco. A coisa não começou da melhor maneira porque o animal se recusava a permitir que lhe metessem o laço na boca. Albertino bem lhe coçava o coiro com um toro de giesta e lhe chamava carinhosamente "f(e)cá, f(e)cá", mas o bácoro só cedeu quando alguém se lembrou de enrolar uma couve ao cabo de aço e ele a abocanhou. Também não correu muito bem o trabalho de deitar o bicho na banca, porque alguém não fez força bastante e tombou tudo, animal e banca. Quando finalmente o mamífero omnívoro ficou (mais ou menos) imobilizado, Albertino Chinchas pregou uma valente palmada nas nalgas do suíno, como faz sempre a todos os que vai matar e aprontou-se para lhe espetar a sua navalha matadeira de tachas pretas. Aqui, a coisa não correu melhor porque, pela primeira vez na sua longa experiência, o fio da navalha não encontrava a artéria devida. Os grunhidos e as sacoladas desesperadas do animal eram dificilmente contidos pelas mãos engadanhadas do compadre e dos filhos enquanto Albertino, desacorçoado, não parava de praguejar e chamar nomes impróprios ao porco. Em desespero, forçou a mão com intenção de espetar a navalha no coração do animal, mas uma sacolada mais vigorosa fê-la largar para dentro do corpo do bicho. Nesta altura, o compadre entendeu tomar uma atitude drástica: agarrou na marreta e desferiu duas valentes carchantadas na testa do animal. Não foi por isso que a"meloreja e o arroz do osso da suã não lhes souberam bem.

O curioso desta história, diz quem assistiu, é que a navalha não foi encontrada quando se abriu o porco, vindo a aparecer dois meses depois numa saca de batatas de semente “rambana” que o Albertino comprou a um comerciante do Soito.

Esta deveria ter dado direito a choradela de Entrudo. Mas já ninguém chora o Entrudo.

domingo, fevereiro 04, 2007

A NOSSA FALA LXXV - PIXOTES

Parece que temos andado com as mãos um bocado engadanhadas aqui no Baságueda.
Isto só lá vai com uma pchorra de aguardente quente e açucar, aquecida em púcaro de barro no borralho da aldeia.
Em jejum.
Se calhar, somos homens para acompanhar com 3 figos secos cada um...


(A ausência também teve a ver com umas alterações técnicas determinadas pelo google que obriga a aceder ao blogger através de uma conta diferente e que atrapalhou a vida aos pixotes que aqui debitam letras e palavras. Cá o karraio (um pixote) já conseguiu resolver o problema, mas o changoto (outro pixote) ainda não.
A ver vamos se a receita da aguardente quente doce nos ajuda a desengadanhar as mãos. E a alma.)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

A NOSSA FALA LXXIV - estar DESERTO por

Vamos ao latim. Tem que ser. Afinal, essa língua, hoje em vias de extinção, sempre é a matriz maior do nosso léxico. A raíz do termo é o supino do verbo desidero, isto é DESIDERATUM. Passaram-se alguns fenómenos fonéticos dos quais se enumeram alguns: queda do M final (apócope); abrandamento do U para O por ser pós-tónico : ficou DESIDERATO; as coisas agora são mais complexas mas abreviam-se: o D intervocálico sofre uma síncope(cai) e fica-nos desierato; o e assimila o i de forma regressiva e fica deserato; a tendência natural para que as palavras em latim tenham o acento o mais recessivo possível, salvo quando as regras da acentuação o impedem, levou a uma alteração da tónica do a primitivo para o e, que agora, devido à assimilação do i, ficou uma vogal longa, o que conduz, inevitavelmente à síncope(queda) do a e cá temos DESERTO.
Até vós já estáveis desertos por que eu voltasse. Cá estou de novo. Há alturas da nossa vida em que outros valores ocupam a nossa faina. Foi o caso. Mas também eu estava desertinho por volver aqui ao nosso convívio.
Kant defendia que o homem tinha três dimensões: a animalidade, a racionalidade e a personalidade. Na primeira, que não diferenciava o homem dos outros animais, considerava que eram três os instintos que cometiam ao homem: a conservação, a reprodução e a agregação.
Os estudiosos das motivações humanas colocam as mais vitais na base da pirâmide e é curioso que, se colocam a conservação, não consideram nesse nível as reprodutivas. Vamos lá a saber porquê!
Os factos que constatamos no mundo à nossa volta e corroborados por documentários ao vivo e ainda por teorias actualíssimas reforçam a decisiva importância da função reprodutora. Ou não é verdade que os machos zelam ciosos pelo seu espaço territorial e que toda a sua vida é dirigida para uma única missão: transmitir os seus genes, ou o que dá na mesma, eternizarem-se, já que o seu sangue continuará a correr nas veias dos seus descendentes.? Lutam às vezes até à morte pelo controlo do maior número de fêmeas. É o gene egoísta. Os machos solteiros, logo, não dominantes, estão desertinhos por substituir o seu progenitor no posto...
Também Freud, na sua curiosíssima leitura da importância do sexo na construção da personalidade humana recua aos tempos das hordas primitivas dos nossos antepassados: os machos adultos, titulares das fêmeas em reprodução expulsavam, castravam ou mesmo matavam, os seus rivais pretendentes ainda que fossem sangue do seu sangue. O sexo é como a fé: é cego. Então, os irmãos, todos filhos do mesmo pai, ainda que de diferentes mães juntaram-se e, todos à uma, atacam o pai, matam-no e comem-no; assim, nenhum deles seria culpado porque a sua culpabilidade se diluía no conjunto e, ao mesmo tempo, ao comê-lo, herdariam dele a virilidade que lhes possibilitaria a transmissão dos genes. Só que ao matarem o pai ficaram com as irmãs e com a mãe e se se reproduzissem com a sua própria mãe (coisa que não é tão rara quanto isso, desde o mito de Édipo até a algumas espécies onde é comum a partenogése) então cometeriam o incesto e a sua consciência, apesar de incipiente, não deixaria de os martirizar acusadoramente. Levam então mães e irmãs a outro clã e trocam entre si as fêmeas evitando a consanguinidade. Ainda se constata isso hoje na maioria dos selvagens e até nalguns domésticos, como os coelhos que se tornam canibais, muitas das vezes para impedir que os seus lugares de reprodutores sejam preenchidos.
Não há dúvida: o importante é a reprodução.
Acontece que o acto reprodutor causa prazer...
Descobertas recentes têm vindo a confirmar que a zona do cérebro onde se origina o prazer é exactamente o mesmo que gere a vingança. Não admira, pois, que sintamos prazer quando nos vingamos de alguém que nos fez mal ou quando algo de mau acontece a um qualquer que de nós troçou em tempos idos. Estamos mesmo desertinhos que lhes aconteça pior que a nós. E que gozo sentimos nisso!
Foi assim que aconteceu comigo: fui com Tonho Raposinho, Mnel Barril, Tonho Teixeirinha, Neto do Arplano, Chico Botas e Zé Gramacho, ali para os lados da Quelha Funda, ao fim de missa, num Domingo, Agosto já entrado, à procura de ninhos de melro por essas vinhas, na altura muito melhor tratadas do que hoje. Tempos.... Ora acontece que quando íamos ainda no caminho , perto daquilo do Melgo, no carvalhal do Raposo, o Botas dá de caras com ninho de gaio num ramo dum carvalho. Tinha visto sair a gaia e apercebeu-se que os gaiozinhos já tinham corpo para levar umas areias de sal num bom lume de borralho. Os carvalhos andavam, naquele tempo, bem esgalhados, à uma, por mor da lenha para aquecer a panelinha de ferro e, à outra, para que não fosse fácil roubá-los. Eu era meio tropa-gatos e decidi-me por ir lá acima tirar o ninho ao gaio. Eles ajudaram-me a embarrar e depois foi só comigo. Trepo por aí acima deito as mãos ao cruito do carvalho, começo a vergar para fazer de mola e o peso sobre a pernada onde estava o ninho não ser muito, quando, de repente, venho eu, o cruito do carvalho a pernada e o ninho, tudo em monte, até ao chão. Conferi aí aquilo que o velho comandante dizia: "o chão é um gajo porreiro: apara tudo!"
Por sorte não rasguei nenhuma peça de roupa mas o corpo ficou todo dorido e a manga da camisa suja quanto bastasse para ter de dar explicações quando chegasse a casa. Além do mais, fiquei um pouco sem conseguir respirar mas ouvi o Gramacho:" bem feita, não tinha nada que ir tirar o ninho!"Se não estivesse tão falto de ar tinha-lhe ido aos fagotes ali mesmo... Mas.... a vingança serve-se fria.
Um dia de Inverno, caramelo suspenso em forma de estalactite dos beirados, a mãe do Gramacho precisou de uma bilha de gás. Lá arranco eu com o mais que famoso carrinho quadrado direitinho ao arrabalde do Guerra e à casa do Gramacho. Tinha a casa umas escadinhas de acesso em granito, e como não estavam muito bem polidas a água gelou nas poças. Eu sabia que o Gramacho estava em casa e que usava umas botas cardadas com brocha espanhola que aquilo parecia um sino quando batiam na calçada. Disse-lhe da porta:" o Zéi, traz aí a bilha vazia que é para levares esta cheia aí para o fogão." Aí vem o Gramacho com a bilha, desce para o patamar das escadas e - haja Deus! - logo no primeiro degrau escorrega de chapa e cai um bate cu que chegou ao fundo sem precisar de galgar qualquer outro degrau.
Caladinhamente disse cá para mim: "bem feita!é para te lembrares de quando eu caí do carvalho. Agora já sabes o que dói!"
Não há dúvida: o centro nervoso do prazer só pode ser o mesmo o da vingança.
O mesmo se passa com a humanidade no seu todo: quantos foram que vibraram de prazer quando viram Hussein pendurado da corda! mais que todos deve ter gozado aquele que malevolamente colocou as imagens na NET. Crime mais que hediondo.
Agora dizei lá que não somos radical mente velhacos!
Um XXXXXIIIIIIIIII.

sábado, dezembro 30, 2006

ANTIGA FALA - GAUDETE



Gaudete, gaudete!
Christus est natus
Ex Maria virgine:
Gaudete!

Tempus adest gratiae,
Hoc quod optabamus
Carmina laetitiae
Devote redamus.

Deus homo factus est
Natura mirante,
Mundus renovatus est
A Christo regnante.

Ezechielis porta
Clausa pertransitur
Unde Lux est orta
Salus invenitur.

Ergo nostra contio
Psallat iam in lustro,
Benedicat Domino
Salus Regi nostro.

Steeleye Span

(Pareceu-me oportuno revisitar estes velhos conhecidos. Admite-se que o sotaque não será dos melhores, mas o jogo de vozes é interessante para um grupo de folk.
Se quiserem a tradução, peçam aí ao changoto.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

A NOSSA FALA - LXXIII - ANDAR IR

Ide todos à porfia. Andar ir...


A intenção era colocar o som de "Entrai pastores entrai", versão do coro xendro.
Não estando ainda disponível na net, em alternativa, ficou:
Hark! the herald-angels sing
F. Mendelssohn
Gravado na Capela da Universidade de Coimbra em Dezembro de 2002